Projeto Memórias do Desenvolvimento Solidário
Entrevista de Kelly Cristiane de Souza
Entrevistado por Bruna Oliveira
São Paulo, 30/06/2026
Entrevista n.º: TCP_HV005
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
[00:00:02]
P/1 - Então Kelly, pra começar eu queria que você contasse o seu nome completo, a data e o local onde você nasceu.
R - O meu nome é Kelly Cristiane de Souza, nasci em 24 de setembro de 1979, e nasci em Campinas.
[00:00:34]
P/1 - E me conta o nome de seus pais.
R - Minha mãe se chama, minha mãe biológica, se chama Rosa Helena de Souza e meu pai Victor Antônio de Souza.
[00:00:46]
P/1 - E você tem pais adotivos?
R - Sim, sim. Eu fui adotada aos oito anos de idade, a minha mãe adotiva foi fazer uma viagem para lá para Muzambinho, que é onde minha mãe morava, onde eu morava, no sul de Minas, Muzambinho. E aí, ela ia todo ano, porque ela tem parentes lá em Muzambinho. E aí, aconteceu a minha adoção.
Eu venho de uma família onde minha mãe sofria muito abuso, não só psicológico, mas físico também, com meu pai. Meu pai era alcoólatra, meu pai biológico, e ele batia muito na minha mãe, nas minhas irmãs, em mim. Posso continuar contando?
[00:01:48]
P/1 - Fica à vontade, o que você quiser.
R - E que é uma parte muito… Mexe muito comigo. Mas vamos lá. Era um relacionamento abusivo dos dois, do meu pai, e num dado momento, em uma das vezes que ele a pegou ela e bateu nela, ele nos amarrou, nesse dia. É um dia que não é muito fácil, assim, lembrar. Parece que a gente revive quando a gente lembra. Mas eu acho que esse momento é um momento que, quando eu lembro, me fortalece como mulher. E nesse dia, ele bateu tanto na minha mãe que ele quase matou a minha mãe. E aí, meu tio, ele estava passando na rua ali da minha casa, e ele escutou os gritos, nossos e da minha mãe. E aí ele, meu tio, salvou minha mãe naquele dia, porque ele pegou a gente e tirou meu pai dali.
Meu pai foi preso nesse dia e a gente foi morar na casa da minha avó materna só que nesse período, minha mãe, ela... Hoje eu entendo, na época, eu não entendia muito bem o que acontecia, mas acho que ela estava, ela entrou em depressão, né? Que ela assim, ela não vivia, ela vegetava. Então, assim, ela não ligava. Naquela época eu pensava: - Minha mãe não liga para gente, para mim e para minhas irmãs.
Eu tenho, só tenho... Gente, desculpe, eu vou gaguejar muito porque é difícil essa parte. Eu tenho seis irmãs, né? E aí a gente, a gente passou a conviver com a minha avó, né? E a minha mãe… ela vegetava. Ela tinha o cabelo aqui, ó, no período, [faz sinal mostrando a altura do cabelo] na cintura. E ela adorava os cabelos dela, e ela cortou o cabelo dela bem curtinho. Eu me lembro muito bem dessa cena, que foi muito forte, muito marcante, né? Ela entrou no banheiro e cortou o cabelo dela bem curtinho. Tanto é que ela nunca mais deixou o cabelo crescer depois disso.
E só que aí, a gente saiu de um abusador para quatro abusadores, porque a gente tinha meus tios, né? E meus tios, eles batiam na gente, em mim e nas minhas irmãs. Eles queimavam a gente com pontas de cigarro. Eu tenho marcas no meu corpo até hoje. Sem motivo, sem razão.
E nesse período a gente pedia na rua, porque éramos muitas crianças, a gente não tinha como, a gente não tinha o que comer dentro de casa, né? E a gente pedia. E aí as pessoas da cidade, uma cidade pequena, Muzambinho, as pessoas da cidade davam trabalhos pra gente fazer em troca de comida, para a gente levar para as nossas irmãs. Eu e minha irmã mais velha, Marli.
E aí, a gente viveu um período assim. A gente apanhava toda hora, quando a gente voltava para casa; a gente passava o dia inteiro na rua pedindo e trocando comida por serviços, né? E inclusive abusadores queriam se aproveitar da gente.
E aí, eu tinha uma inspetora de escola que eu chamava de tia, porque no período em que eu morava com meu pai, que a gente estava ali com meu pai, ele não deixava a gente estudar. A gente tinha que pular a janela para ir para a escola, e voltar antes que ele chegasse da rua.
Então, a gente tinha que pular para ir, e pular para voltar, né? Eu não, eu não vou me recordar se a gente tinha matrícula na escola. Mas essa tia da escola, ela deixava a gente entrar, independente da hora que a gente chegava lá, né? Então a gente tinha o contato com o aprendizado, mas não era uma coisa igual às crianças vão para a escola, eu não tive isso nesse período, né?
E a gente voltava antes do meu pai chegar; e a minha mãe acobertava a gente, porque ela queria tirar a gente dali. Meu pai mantinha a gente preso, né?
A gente morava na roça, não tinha nada próximo, naquela época com meu pai. Eu vou ir e vou voltar, porque a gente vai lembrando das coisas que aconteciam.
E aí, voltando, quando eu estava lá, eu e minhas irmãs morando com a minha avó; nesse período, tudo o que a gente falava com a minha mãe, [a resposta] era: - Não sei, você que sabe, faz o que vocês quiserem.
A gente só era criança, a gente não sabia o que ia fazer da vida, né? Então assim, por isso que eu acredito que ela tenha entrado nessa depressão, em uma depressão muito profunda nesse período.
E, aí, numa dessas, de ir e procurar um trabalho na cidade, eu já tinha trabalhado para uma mulher, que inclusive é prima da minha mãe adotiva. Eu cuidava de três crianças na casa dela. Eu era criança, mas eu cuidava de três crianças e limpava a casa dela em troca de comida, não era direto, era quando ela precisava.
E aí, essa minha mãe adotiva, em uma dessas vezes em que eu fui lá conversar com ela, porque eu precisava trabalhar; porque precisava levar comida para minhas irmãs, para as mais novas. Aí a minha mãe adotiva estava lá, no momento, na casa dela, visitando ela, porque a minha mãe adotiva ia uma vez por ano, todo final de ano ela ia lá para a cidade visitar a família dela, né?
E a minha mãe escutou a conversa, e meu pai adotivo era louco para ter uma filha mulher porque eles tinham dois meninos, né? E aí ela virou do nada, assim, eu não conhecia ela e ela falou assim: - Você não tem vergonha, Neuza? Ela é uma criança, né? Você vai pagar o que para ela? Comida para ela levar para as irmãs dela? Você deveria dar e não pagar, não querer uma troca de serviço por comida. E aí deu ali uma lição de moral na tia Neuza, né?
E aí ela virou para mim e falou assim: - Você quer ir embora para São Paulo comigo? Do completo nada, ela se compadeceu com a minha história, porque ela estava vendo ali, né?
Aí eu falei: - Ah, se a minha mãe deixar, eu vou, né?
E aí eu cheguei em casa e eu perguntei para minha mãe se eu poderia vir para São Paulo, eu achei que era para trabalhar, né?
Minha mãe falou assim: - Ah, se você quiser, você pode ir, tanto faz. E eu nunca vou esquecer dessas palavras, mas isso, eu me emociono, não porque eu me revoltei com a minha mãe, porque eu como mulher, entendo hoje ela. Aí eu peguei, peguei uma sacolinha de mercado, peguei as roupas que eu tinha, coloquei na sacolinha de mercado e fui até a casa da de uma outra prima dela, onde ela estava hospedada, né? E aí eu peguei e falei assim: - Eu vou, minha mãe deixou. Eu vou embora com a senhora.
Aí ela pegou e falou assim: - Não, não é assim não, a gente tem que ir no juiz, a gente tem que ir. Eu quero você para ser minha filha e não empregada.
[00:11:22]
R - E aí é onde minha vida muda, aí é onde minha vida muda [conta emocionada]. Aí ela falou: - Você vai lá, chama a sua mãe que eu quero conversar com a sua mãe, fala pra sua mãe vir aqui pra gente conversar. Eu não vou te levar assim, né?
Aí era final de ano, o fórum estava fechado, o fórum da cidade, só que a minha mãe adotiva tinha amizade com o juiz lá da cidade, né? E ela conversou com minha mãe e marcaram um dia para ir lá conversar com o juiz da cidade. Estava em recesso, né? Mas ele recebeu a gente lá na casa dele, e aí ele pegou e falou para minha mãe escrever uma carta, de próprio punho, abrindo mão de mim, para eu poder viajar para São Paulo. E aí ele deixou muito claro que se não desse certo a adoção, eu ia ter que ir para o abrigo, né? E aí, assim aconteceu a minha adoção.
Eu era uma criança grande, eu não sabia quando era segunda feira, eu não sabia o dia da semana, eu não sabia ler, eu não sabia escrever, não sabia nada. Eu só sabia trabalhar. E aí eu vim para São Paulo e vi um mundo totalmente diferente, com uma família que me deu amor, me deu carinho. O meu pai biológico, hoje ele é... o meu pai adotivo, hoje ele é falecido, mas foi a melhor pessoa que eu conheci na minha vida, que me cuidou como pai mesmo, né? Me deu educação, dentro das possibilidades deles, mas eles me deram, educação, valores. Eu sempre quis trabalhar na minha vida porque eu lembrava lá, da minha mãe biológica apanhando do meu pai, presa dentro de casa, sem poder colocar a cara na janela, né?
E eu falava: - Comigo isso não vai acontecer, né? Eu quero ter uma família, mas eu não quero um homem igual ao meu pai na minha vida, né? Meu pai biológico e aí eu, com oito anos de idade, eu falei pra minha mãe: - Eu quero trabalhar.
E ela: - Não filha, você tem que fazer curso, você tem que estudar.
E eu falava: - Não, eu quero trabalhar, porque eu acreditava que o trabalho, eu não via o estudo como... Eu acreditava que o trabalho não ia me colocar numa situação igual a da minha mãe lá, né? E aí a minha mãe na época achou, pensou: - É fogo de palha. Ela não vai trabalhar com essa idade, né?
E aí eu comecei a trabalhar numa fábrica, já aqui em São Paulo, comecei a trabalhar numa fabriquinha que tinha do lado da minha casa, de bolsas e mochilas, chamada JAC Sports. Eu comecei como ajudante, arrematadadeira, eu nem alcançava na joelheira da máquina, né? E ali eu comecei a aprender tudo que eu sei hoje, né? Pedia muito para a dona da oficina, que eu queria aprender a costurar, né? Eu tinha loucura pra aprender a costurar, e aí ela [falava]: - Não, você é muito nova, você é criança, você não pode.
Eu: - Não, mas eu quero, eu quero porque eu vou ser uma grande costureira, né?
E aí ela falou assim: - Tá bom, já que você quer muito, vamos fazer assim, na hora do seu almoço eu te ensino. E aí a hora do meu almoço, eu comia rapidinho ali, para eu poder aprender a costurar.
E eu ia para a escola no período da manhã, e no período da tarde, eu ia para a fábrica, né? E aí nessa fábrica eu fiquei 20 anos da minha vida. Tudo que eu sei de costura eu aprendi lá: Modelagem, criação, a própria costura em várias máquinas, né? E aí, só que nessa fábrica, eu trabalhei 20 anos sem registro, né? Porque a minha mãe era uma pessoa muito simples, então ela achava que filho de pobre não tinha que fazer uma faculdade, não tinha como fazer uma faculdade.
Entendo, por que era uma outra cultura, assim, a realidade dela era muito simples mesmo, né? Mas tinha muito amor no meu lar, na minha casa. Mas eu nunca trabalhei registrada na minha vida, né? Ela falava: - Não, você tá comendo, tá pagando as contas, tá ótimo. E a gente cresceu com esse pensamento, né? Você ia perguntar?
[00:17:12]
P/1 - Eu queria te perguntar uma coisa. Vamos voltar um pouquinho, depois a gente vai pra frente sem problema nenhum. Eu tenho o que você me contou na minha cabeça.
R - Uhum.
P/1 - Eu queria saber, quando você estava com a sua família biológica, que você contou, quantas irmãs você tinha e onde você estava nessa escadinha?
R - Então, eu era a segunda mais velha, eu era a segunda mais velha de seis. Éramos seis e tinha a mais velha, que é um ano. Era tudo escadinha mesmo. Então tinha Marly, aí eu, a Gislaine e a Keila, a Érika e a Sandra.
[00:17:59]
P/1 - E daí quando você vai para essa família adotiva, você continua tendo contato com a sua família biológica?
R - Então, naquela época o celular não era o que é hoje. Não tinha WhatsApp e nada dessas coisas, né? E aí a minha mãe adotiva sempre falou: - Eu não quero te afastar das suas irmãs.
Então, eu escrevia as cartas, né? A gente se correspondia por cartas, e uma vez por ano, quando eram as férias de dezembro da escola, a gente passava 30 dias lá. E aí eu matava a saudade das minhas irmãs, conversava com elas, né?
Agora, eu e minha mãe, a gente conversava, mas eu percebo, que tinha uma barreira, a gente não... Quando eu ficava sozinha com ela, a gente não tinha assunto, sabe aquela situação meio que constrangedora? Eu estava feliz porque eu estava vendo ela. Eu sentia também que ela ficava feliz por eu estar ali, mas a gente não tinha o que conversar, né?
E aí, numa dessas vezes, eu encontrei com ela, eu não fui na casa dela, eu cheguei na cidade e não fui no mesmo dia, na casa dela, e eu fui no mercado, e eu encontrei com ela no mercado e a gente foi conversar na praça lá da cidade, que é a única praça que tem lá em Muzambinho, onde o pessoal se reúne. E aí a gente foi conversar na praça.
E aí ela falou assim: - Ô filha, eu preciso te fazer uma pergunta.
Aí eu falei: - Pode fazer.
Aí ela falou: - Você está feliz onde você está? Como é que você está sendo tratada?
E aí eu falei: - Não, mãe, eu estou muito feliz e eu sou tratada como filha mesmo, né? Meus irmãos sempre têm o maior cuidado comigo, o meu pai também, a gente é tratado como família, eu conheci o que é família, né?
E aí ela falou assim: - Então não vai embora, não, fica lá.
Então, tipo, daí dessa conversa é que eu falo: - Eu entendo por que...
Muitas pessoas falam: - Ah, mas a tua mãe te deu?
Ela não tinha condições psicológicas, não era nem condições financeiras, era condições psicológicas para criar seis filhas, né? Então, eu acho que foi a melhor coisa que ela fez para mim, porque as minhas irmãs, elas ficaram lá e elas sofreram muito mais que eu, né?
Uma delas, a Gislaine. Ela fugiu para Ribeirão Preto, a gente nunca mais viu ela, né? E hoje a minha irmã caçula, ela mora aqui em São Paulo. A gente tem um contato, vai uma na casa da outra, a gente faz churrasco, sabe? A gente procura viver assim, o que a gente não viveu. Hoje, já adultas, ela tem as minhas sobrinhas, eu tenho minhas filhas e a gente hoje, a gente sabe que é família.
Mas é isso, a melhor coisa que a minha mãe fez na vida dela, foi ter me dado para uma família cuidar de mim, né? Porque ela não me deu para uma adoção assim onde ela nunca mais ia me ver. Tudo bem que ela não sabia disso que ela ia continuar me vendo, né? Mas eu entendo. Não faria, né? Mas entendo.
[00:21:57]
P/1 - E como é que você descreveria seus pais adotivos? Me conta um pouco sobre eles.
R - Meus pais adotivos, a minha mãe é maravilhosa, é uma pessoa maravilhosa, assim, que gosta de ajudar as pessoas que... Ai...[suspira] ela é muito boa, ela é muito boa pessoa. Ela é mãe de santo, ela é do candomblé. Ela acolhe as pessoas na casa dela. Ela é uma pessoa maravilhosa, não tem outra palavra para definir ela.
E meu pai então? Nossa, ele foi um homem assim, acho que como poucos. Não tem [igual]. Sabe? Apesar do vício dele, porque ele também era alcoólatra, né? A gente sofreu muito de ver ele se afundando no alcoolismo. Mas ele sempre foi uma pessoa maravilhosa. Ele sempre tratou todo mundo muito bem. Tratava minha mãe como uma rainha. Ele ia na feira, a melhor fruta era dela, a fruta que ela mais gostava ele trazia, sabe o carinho? Porque eu acabava, com certeza, comparando o meu pai biológico, e todo aquele... com o meu pai adotivo, Seu Laurindo, o nome dele.
Ele tratava minha mãe com carinho, todo especial, e a gente também, né? Os meninos até falam que eu era preferidinha dele, né? Tinha esses ciúmes, mas era porque ele tinha o sonho de ter uma menina, e eu apareci na vida dele. Então eu sou muito grata aos Orixás. Eu sou muito grata a Deus por ter tido pessoas maravilhosas como eles, que transformaram a minha vida.
[00:24:10]
P/1 - E me conta um pouco dos seus irmãos, como eles se chamam? Como que foi essa vinda sua para casa, e a aceitação deles? Como foi esse momento?
R - Meus irmãos? Era assim, tem o caçula, que é Ubiratan, que era ciumento, muito ciumento, e o Arnaldo, que era mais carinhoso, mais amigo, mais companheiro, né?
O Bira, que é Ubiratan, ele tinha muito, muitos ciúmes. Então, assim, na frente da minha mãe não, ele me tratava muito bem, mas quando eu estava lá na escola, ele era o pior inimigo que eu tinha na escola [risos]. Porque ele roubava meu lanche, ele corria atrás de mim no intervalo, ele perturbava a minha vida, né? E aí eu não falava nada para minha mãe, porque eu tinha medo de ir embora.
Eu falava: - Não, minha mãe vai me mandar embora e eu não posso. E ele usava isso. Ele era, a gente, era tudo criança, mas ele já tinha essa... Ele falava: - Você fala, você fala para a mãe, você vai embora, né? E eu não falava. E aí ele fazia coisas de moleque assim, de rabiscar meu caderno, pegar meu caderno e jogar fora, sabe? E aí, teve um período que eu estudava de manhã, né? E aí, a gente vinha para casa...não, eu trabalhava, vinha para casa almoçar, e ia para a escola. E aí, minha mãe preparava o almoço… Quando a gente chegava para almoçar, ele também trabalhava na fabriquinha em que eu trabalhava. E aí, quando a gente chegava para almoçar, minha mãe ia limpar os quartos, enquanto a gente almoçava. E aí ele roubava meu suco, minha mistura. Eu comia só arroz e feijão.
E eu não falava, aí, eu acho que a minha mãe ficou observando e ela descobriu, né? E aí um dia ela pegou e falou assim: - O que é isso, Bira? Ele me chutava embaixo da mesa e falava: - Não conta pra mãe.
E aí ela pegou e falou assim: - O que você tá fazendo? Ela é sua irmã, você tem que respeitar ela!
Me disse: - Pode falar o que que ele apronta com você. Pode falar que ele vai... né?
Aí eu contei. Eu contei que ele corria atrás de mim na escola, que ele roubava meu lanche. Que ele pegava meus cadernos, rabiscava, jogava no lixo meus trabalhos da escola.
E aí, minha mãe pegou e falou assim: - Tudo bem, você tá fazendo tudo isso com a sua irmã? Então, eu vou mandar ela embora, você nunca mais vai ver ela, você não gosta dela? Ela vai embora, pronto.
[E falou para mim]: - Vai arrumar suas coisas que você vai embora.
Eu chorei horrores porque eu acreditei; mas foi uma atitude meio para mexer com o psicológico dele, para que ele entendesse que o que ele tava sentindo era ciúmes, né? E ela pegou e me falou: - Vai arrumar suas coisas que você vai embora.
E aí eu chorando, arrumando minhas coisas, e ela firme ali, né, falando que eu ia embora.
E aí, ele pegou, e era um pitoco assim de gente, ele se ajoelhou e falou: - Pelo amor de Deus mãe, não manda minha irmã embora, eu gosto dela. Você não vai mandar ela embora, pelo amor de Deus.
E começou a chorar, né? E aí? Daí nós viramos grandes amigos [risos]. Precisou de tudo isso, e aí a gente virou amigos, confidenciais. Teve a fase da adolescência dele, as paixões... A gente era totalmente, éramos melhores amigos. Então, acho que funcionou muito bem o que ela fez. Quando ele pediu, pelo amor de Deus, ela pegou e falou assim: - Então que seja a última vez, não maltrata mais ela, porque se você maltratar ela, ela vai embora. E aí ele nunca mais me maltratou, porque ele não queria. Ele já me amava, assim, como irmã. Já tinha aquela... Era mais ciúmes mesmo.
[00:28:50]
P/1 - E seus pais trabalhavam com o quê?
R - Então, minha mãe, ela... Hoje eu sei, ela era empreendedora, porque ela vendia lingeries, ela vendia revistas, tinha uma revista que eu nem sei se existe mais, que é Hermes (Catálogo de venda direta ou porta a porta), chamava Hermes. Ela era consultora de beleza de uma empresa também, que eu acho que não existe mais, que era Nemawashi. Chamava Nemawashi na época. E ela fazia unhas também, ela era manicure também. E o meu pai? Ele era... Como é [que se chama] quem mexe com alumínio?
P/1 - Metalúrgico?
R - é... Não, não é metalúrgico.
[00:29:35]
P/1 - É serralheiro.
R - Serralheiro, meu pai era serralheiro. Tanto que a cozinha da minha mãe, ele que fez todinha. Então ele era um ótimo profissional assim. Sempre teve empregos bons na área dele. E acho que a força de ser empreendedora vem muito da minha mãe, Né? E também das minhas irmãs, porque cresceram, todas elas, com muita dificuldade, mas hoje a maioria delas empreende.
[00:30:14]
P/1 - E me conta um pouco como é que foi essa chegada em São Paulo, onde você foi morar? O bairro, aonde você chegou aqui? Qual foi o sentimento de sair de uma cidade do interior para vir para cá?
R - Então, na época, o sentimento dentro de mim, eu sabia; eu era uma criança mas eu sabia que ia ter uma mudança, uma transformação de vida ali, porque eu senti o acolhimento dos meus pais lá em Muzambinho, ainda antes de chegar aqui em São Paulo, né?
Quando eu cheguei, eu me lembro do metrô, da agitação do metrô, da escada rolante, parece que volta tudo na minha cabeça, porque Muzambinho é um ovo, né?
E aí você chega, parece que é tudo muito grande, e parece que você é desse “tamanhinho”.
Então, eu lembro de ter esse sentimento, né? De onde eu tô? Nossa, que cidade gigantesca! Tudo era muito.... Era uma coisa que eu nunca tinha visto assim, então era tudo muito grande. Os prédios! Que eu levantava a cabeça sempre falava: - Meu Deus, é outro mundo mesmo. E eu tinha muito medo de que a minha mãe me mandasse embora, e eu tivesse que passar por tudo o que eu passava, principalmente com os meus tios, e a minha avó também compactuava. Infelizmente, ela não repreendia eles não, eles estavam certos e a gente estava errada, né? E então eu tinha muito medo de tudo isso e eu falava: - O dia que eu melhorar, eu tiver uma vida melhor financeiramente, eu vou ajudar minhas irmãs, pra elas também saírem daquela vida que elas tinham, né? E... Continua?
P/2 - Desculpa
R -Tem o quê?
[Inaudível]
[00:32:33]
P/1 - Ai.
[00:32:38]
R - É grande assim?
[00:32:42]
P/3 - Média.
[00:32:44]
R - [inaudível]
[00:32:50]
P/3 - Tá na caixa.
[00:32:56]
R - Bom, e aí, meu sentimento, né? Você tinha perguntado e aí, eu tinha muito medo. Então eu fazia de tudo para agradar minha mãe, né? Eu falava: - se eu agradar ela, ela não vai me mandar embora. Então eu fazia de tudo para agradar ela, né? E ela tava na cozinha, eu ia, ela tava no quarto, eu ia.
Eu tava sempre pronta, ali para fazer tudo que ela precisava, e eu acho. Ela fala hoje, que aquilo incomodava ela, porque ela não estava acostumada. Então ela também aprendeu a ser mãe de menina. Ela não estava acostumada com uma pessoa ali atrás dela, então tinha hora que ela se irritava de me ver atrás dela a todo momento, né?
E ela falava: - Sai daqui menina, sai daqui, vai sentar lá no cantinho. Onde tinha aquelas caixas de luz, sabe?
- Vai sentar lá, me deixa aqui. Vai ler um livro, vai fazer alguma coisa? Me deixa aqui.
Então ela fala que ela tinha o sentimento de tipo... dentro dela, um questionamento: - Eu amo até o cachorro, eu não vou amar uma criança?
Então, ela teve uma mistura de sentimentos, que é a forma como ela fala, que ao mesmo tempo em que ela me amava como filha, às vezes ela se questionava se ela me amava realmente. Mas era porque ela não estava acostumada.
Então, a minha presença, ali o tempo todo atrás dela, parecendo uma sombra, como ela fala, incomodava ela, né? E aí ela foi também aprendendo a lidar com esse sentimento, a me abraçar como filha.
[00:34:41]
R - Quando a gente chegou aqui em São Paulo, a gente foi no Fórum ali da Penha, levamos a carta que a minha mãe escreveu. Até hoje eu não sei o que ela escreveu naquela carta, né? A única certeza que eu tinha, era de que se não desse certo, eu ia pro abrigo, porque isso o juiz falou, né?
E aí, a gente passava por psicólogos lá, então a gente ia tipo duas, três vezes no mês no fórum, e aí a gente passava pela psicóloga, só que separadamente, tipo [primeiro] eu, depois da minha mãe, depois do meu pai, meus irmãos, depois todo mundo junto. Porque eles queriam saber como estava sendo a convivência e tudo o mais, e saber se a minha mãe e o meu pai não estavam me maltratando, se realmente estavam me tratando como filha, e como que eu estava como criança, né?
E aí, eu lembro que a gente ia umas três vezes no mês, depois foi espaçando esse tempo, aí a gente ia de três em três meses, né? Depois a gente começou a ir a cada seis meses, e foi espaçando esse tempo.
E aí, aos 19 anos eu resolvi me casar e fui para o cartório. Minha mãe foi lá no cartório para a gente dar andamento nas papeladas do casamento. E aí a informação que a gente teve, foi um erro de informação, [disseram] que a minha mãe podia assinar meu casamento, porque até os 19 anos, a minha mãe ainda não tinha a minha guarda definitiva. E aí, tinha que trazer a minha mãe para assinar. Não, aí informaram que tudo bem, a minha mãe podia assinar meu casamento e tudo mais. E aí a gente começou os preparativos para o casamento. E aí acho que eram 40 dias que a gente tinha para ir no cartório levar documentação, 40 dias antes. E aí a gente fez tudo, o convite na rua, tudo certinho. Quando a gente foi colocar as papeladas para correr, eu tinha que trazer a minha mãe para ela assinar, porque 19 anos, para se casar, ainda era menor, nesse período.
E aí eu tinha que buscar minha mãe. Aí eu peguei e falei assim: - Ah!...
E a minha mãe adotiva tinha ciúmes da minha mãe, viu? E aí eu falei assim: - Bom, então faz assim: Eu não caso.
Eu falei: - Não, caso, e eu me “amigo”.
Ainda falei para minha mãe: - Eu me “amigo”, e depois, quando eu completar a maioridade, eu vou lá e caso.
E aí, a minha mãe [falou]: - Mas como? Eu não sei o que...
Eu falei: - Mãe, vamos lá conversar com o padre.
Fiz assim, né? Aí a gente foi, a gente tinha muita amizade com padre, e o padre sabia que a gente era, na época, da Umbanda. Então assim, a gente ia, frequentava a igreja aos domingos, e aos sábados a gente ia para os toques espirituais, que era a minha mãe, a mãe de santo.
Então o padre sabia. A gente tinha uma relação muito boa, não tinha preconceito religioso, né? Não me lembro de ter vivido um preconceito religioso na igreja, porque a gente era da Umbanda na época, né? E aí a gente conversou com o padre.
Aí, eu nem sei se depois pode colocar essa parte, porque o padre fez meu casamento e ele falou assim: - Se alguém perguntar você fala que você se casou no civil e na igreja. Mas eu quero que você me prometa que você vai se casar no civil, né?
E aí eu prometi para o padre, não cumpri. [risos] Acabei não cumprindo o porquê, porque eu me casei, porque o meu marido, que na época em que era meu namorado, era totalmente diferente. Ele era um homem abusivo, e eu ia seguir os mesmos passos que minha mãe, né? Porque eu trabalhava, e ele queria me afastar de todas as pessoas da minha família, de todos os meus amigos, né? E aí quando eu percebi isso, eu falei: - Não. Eu falei: - Isso tá errado, não é possível.
Até da mãe dele, ele queria me afastar. Ele não gostava que eu saísse de casa. Ele não gostava que eu usasse roupa curta. E eu sempre usei roupa curta naquele período, né? Era jovem, né? E aí ele não gostava que eu usasse roupa curta. E aí ele queria mandar em mim. Ele queria, achava que eu era propriedade dele. E a gente brigava.
Muitas vezes eu falava: - Eu não sou sua propriedade, né? Você é só meu marido. E aí eu fui vendo aquilo, eu falei: - Eu não vou me casar, padre Marcos que me perdoe, mas eu não vou cumprir a minha promessa, né?
Porque por mais apaixonada que eu estava, eu via que não ia dar certo. Ele me conheceu na Umbanda, mas ele virou evangélico, e virou pastor da igreja.
Aí o que que acontecia, ele levava os irmãos da igreja na minha casa sem eu querer. Ele fazia os cultos lá em casa sem eu querer. E muitas vezes eu estava escutando uma música, assistindo uma novela, e os irmãos da igreja desligavam a minha TV; desligavam o meu som para fazer a pregação. Ele deu essa liberdade, os irmãos só faziam isso porque ele deu essa liberdade.
Só que aí, um belo dia eu me revoltei. Eu estava bela lá em casa escutando a minha música e eles chegaram e desligaram a minha música. E aí eu peguei e expulsei todo mundo da minha casa. Eu falei: - Não, vocês não mandam aqui. A casa é minha e todo mundo para rua. E aí meu marido veio com a Bíblia, falando que eu estava endemoniada. Eu falei: - Não tô, eu não estou demoníaca, eu estou dentro da minha casa, eu tenho direito de ouvir a minha música, eu trabalho a semana inteira. Eles não são nada meus. Eles não têm o direito de chegar e desligar o meu som, né?
E aí meu marido pegou e ficou lendo a palavra da Bíblia. Mas aí eu me senti endemoniada mesmo, porque eu fiquei revoltada, né?
Eu peguei, até peço perdão para Deus, né? Sempre, sempre pedir perdão, porque eu peguei a Bíblia, eu pisei na Bíblia e aí, eu saí de mim, eu falei: - Vocês querem ver uma mulher endemoniada? Então vocês vão ver. E aí eu taquei a Bíblia lá na rua e aí todo mundo foi embora da minha casa.
Horrível isso. Mas aconteceu. Foi horrível, mas aconteceu.
E aí, eu peguei e mandei meu marido embora também. E aí ele foi embora, mas depois ele voltou. Ele foi embora? Não. Ele saiu pra rua, mas depois ele voltou.
Me pediu perdão, como todas as vezes ele fazia, falava que ele ia mudar, que ele ia me respeitar, porque quando ele virou evangélico eu falei para ele que tudo bem, é o seu caminho? Mas respeite o meu, porque eu não vou desistir da minha religião a não ser que eu queira. Ninguém vai opinar sobre a minha religião não, é a minha religião, é só minha.
É um direito meu. Então eu te respeito, mas você tem que respeitar a minha também. E aí ele veio e pediu perdão. Ele falou que o único desejo dele era que eu fosse uma vez, pelo menos uma vez na igreja, né? E aí eu podia seguir a minha religião, que ele ia me respeitar.
Aí, eu peguei e falei assim: - Tudo bem, por que não ir, né? Mas eu vou como convidada, né? Ai beleza, eu me arrumei, eu fui lá na igreja dele, mas eu cheguei lá, e todo mundo já parecia que sabiam que eu era macumbeira, né? [risos]
Porque assim que eles tratam a gente, né? E aí todo mundo me olhava assim, né? Eu me senti muito mal lá dentro porque eu não precisei nem abrir a boca pra ser julgada, né? E aí, lá, ficavam as mulheres de um lado, os homens do outro eu fiquei lá,do lado das mulheres, porque eu fui, eu estava visitando, eu tinha que respeitar, né?
Aí a moça pediu pra eu pôr o véu. Eu falei: - Véu eu não vou colocar porque eu sou só uma visita, eu vim visitar.
E aí meu marido chegou e falou: - Não, você tem que ser obediente. Aí falei: - Obediente, eu devo obediência à minha mãe e ao meu pai. Eu falei: - Eu não devo obediência a mais ninguém e me deixa aqui sem véu, senão eu vou embora, né? Aí ele falou: - Tá bom. Aí eu fiquei lá, assisti quase o culto todo.
[00:44:42]
R - Mas teve uma hora que eu me estressei, que eu fui embora, que eu vi que não era para mim. Não pelo culto, porque eu também respeito o culto, mas pela forma que estavam me tratando lá. Eu só era uma visita. Eu não estava fazendo parte, né? Aí eu virei as costas, fui embora e larguei ele lá.
E aí as diferenças foram acontecendo dentro de casa. E aí todas as vezes que tinha alguma coisa espiritual, era uma briga. E numa festa de Oxum que eu fui participar, ele falou, eu estava pronta para sair e ele falou assim: - Você não vai sair de casa hoje. Eu falei: - Oi?
Aí ele falou: - Você não vai sair de casa.
Eu falei: - Eu vou. E eu quero ver o homem que vai me peitar para sair de casa, que vai me segurar dentro de casa.
Porque aí me recordava a minha mãe, quando o meu pai não deixava ela pôr a cara na janela, né?
E eu falei: - Eu quero ver o homem que vai me peitar e não vai deixar sair de casa, aí ele falou: - Então, se você sair de casa, se considera uma mulher solteira.
Eu falei: - Então é isso. De hoje em diante eu sou uma mulher solteira.
Falei para ele, eu já não me casei mesmo, né? Eu já não cumpri mesmo a promessa pro padre. E aí, como a gente sempre brigava, acho que ele não acreditou.
[00:46:03]
R - Mas eu já estava há muito tempo, eu já tinha tomado essa decisão. Eu namorei três anos e meio com ele, e eu fiquei dois anos e três meses casada. Mais ou menos, né?
E aí eu peguei e falei: - Não, eu vou, eu não quero mais, eu não quero, porque eu já vi que você não me respeita, então eu não quero mais não.
Eu pensei, porque ele saiu de casa e eu fui para a festa de Oxum que eu tanto queria e aí curtí a festa. Foi lindo, maravilhoso. Voltei para casa e ele não estava.
Aí eu falei: - Bom, acho que ele foi embora, né?
Aí eu gostava muito dele, eu amava, estava apaixonada ainda, sabe? Não era amor, era paixão, estava apaixonada por ele.
E aí eu falei: - Não, eu vou sofrer, mas eu não quero mais. Eu não quero mais esse homem na minha vida, porque ele não vai me levar para lugar nenhum, vai destruir a minha vida, né? E aí eu chorei. Eu chorei a madrugada inteira. Eu chorei, eu chorei, chorei, chorei.
Quando deu de manhã, eu morava nesse período lá no quintal da minha mãe, porque quando a gente se casou, a gente alugou uma casa. Mas aí. Como ele ficou com a responsabilidade de pagar o aluguel, eu descobri que ele não estava pagando, e minha mãe tinha sido como que é [que chama] quando a pessoa dá a casa dela em garantia, que a pessoa é…?
[00:47:42]
P/1 - Hipotecada.
R - Não, é ... Ai, como que fala? Que tipo, se ele não pagasse minha mãe poderia perder a casa dela, se ele não pagasse o aluguel. Esqueci o nome!
[00:47:54]
P/1 - Fiadora.
R - Fiadora! isso, fiadora. Minha mãe era fiadora dele. E aí, quando a gente descobriu, já tinha acho que seis aluguéis atrasados. E aí, quando a gente descobriu, aí eu peguei e fiz um acordo com a imobiliária para pagar o aluguel, né? Eu e ele trabalhava não tinha por que a gente deixar de pagar aluguel, né?
E aí a minha mãe colocou a gente no puxadinho no quintal dela, então era lá onde a gente morava. Era um cômodo grande com banheiro, né? E aí a gente morava lá. E aí quando eu voltei dessa festa, ele não estava.
Aí eu falei: - Foi embora. Aí eu chorei a madrugada inteira, quando foi de manhã, eu subi lá na casa da minha mãe e falei assim: - Sou uma mulher solteira, mãe.
Eu falei: - Não falei nada para a Sra. ontem, mas aconteceu isso, isso...
Contei a história para ela, eu falei: - Eu não quero mais.
Aí ela falou: - Filha, para e pensa por que você é apaixonada por ele, você vai sofrer.
Aí eu falei: - Eu vou sofrer, mas o mundo não vai acabar por isso falei para ela.
E eu ainda estava chorando, mas né, eu já tinha, eu já tinha a decisão comigo, né? Porque eu não queria passar pelo que a minha mãe biológica passou.
Ah, isso foi uma sexta feira que ele foi, e que foi a festa, e que ele foi embora, que ele saiu de casa. Aí passou sábado, domingo e segunda-feira, eu trabalhava do lado dele. Só que ele não foi trabalhar na segunda-feira.
[00:49:41]
P/1 - Ainda era naquela confecção?
R - Não. Nesse período, eu me afastei um pouco da costura e eu trabalhava numa loja de artigos esportivos. E ele trabalhava numa doceria, uma loja era do lado, de frente para a outra, né? E aí eu vi que ele não foi trabalhar. Eu trabalhei normal, a minha mãe, nesse dia, colocou um lenço em mim e falou assim: - Vai, você vai trabalhar, você está destruída por dentro, mas por fora você tem que mostrar que você está bem. Ele não vai te ver destruída.
Fez assim porque ele trabalhava, né? E aí minha mãe colocou um lenço na minha cabeça, me arrumou, me deixou toda bonita. Eu me empoderei, parecia outra pessoa, né? Lá no fundinho eu estava muito, muito triste, chateada, mas foi muito bom minha mãe ter feito isso. Me maquiou, enfim.
Aí eu cheguei e todo mundo [comentou]: -. Nossa, você tá muito bonita. O que aconteceu? - Que não sei o quê...
Eu falava: - Separei, separei, foi isso que aconteceu.
Só que eu não tinha visto ele ainda, né? Aí ele não foi trabalhar, passou o dia todo e a minha patroa era muito minha amiga. E aí eu contei para ela o que tinha acontecido, né? Aí ela falou: - Não, hoje eu vou te levar para casa, você não vai para casa sozinha. Aí ela pegou o carro e me levou para casa.
[00:51:09]
R - Quando eu cheguei; a minha mãe tem uma janela na sala. Era um quintal, rra tipo assim, um quintal enorme e lá no fundo era a casa da minha mãe.
Minha mãe tinha um janelão na sala, e aí eu vi ele de pé na janela; lá da rua, porque o portão era só meio portão. Em cima era aberto, e aí eu vi ele.
Eu vi meu Ex lá pela janela. Aí eu liguei pra minha mãe e falei: - O que que ele tá fazendo aí? Aí minha mãe falou assim: - Ele queria entrar. Mas eu troquei a fechadura no final de semana pra ele não entrar, né?
Falei: - Se ele aparecer e eu não estiver, pelo menos ele não vai entrar.
Aí eu falei para minha mãe: - Pode mandar ele descer que eu to entrando.
Aí a minha mãe falou: - Tem certeza? Quer que eu desça junto?
Eu falei: - Não, pode mandar ele descer, que eu estou preparada para conversar com ele.
E aí eu tinha pegado um monte de saco de lixo, eu tinha colocado as coisas dele tudo no saco de lixo no corredorzinho, quando ele passou no corredor ele não viu as roupas dele, né? Então a minha patroa foi embora, me deixou ali, e foi embora.
[00:52:30]
R - Eu entrei, e ele entrou logo atrás de mim. Quando ele entrou, ele foi direto no guarda-roupa, ele abriu o guarda-roupa e aí ele viu que não tinha nada dele lá. Aí ele falou: - Cadê das minhas coisas?
Eu falei: - Tá tudo lá fora. Aí ele falou: - Não, eu não vou me separar de você. Eu vou te respeitar. Eu vou mudar.
Eu falei: - Eu já acreditei demais nisso. Hoje eu não acredito mais. Você vai embora.
Aí ele falou: - Não, eu não vou, eu quero ver você me tirar daqui.
Eu falei: - Você vai sair, se não for por bem, eu vou lá buscar meu pai. Meu pai tá doidinho para pôr você para fora.
Eu falei para ele, aí ele [disse]: - Não, não, não.
Aí se ajoelhou, chorou, pediu desculpa e eu falei: - Não. Pede desculpa pra Deus.
Fiz assim [apontou para cima], mas você tá fora da minha vida de hoje em diante.
Aí ele falou assim: - Depois eu venho pegar minhas coisas.
Eu falei: - Você pode levar suas coisas agora, porque se você não levar, eu vou jogar tudo na rua. Fiz assim para ele, né?
E aí ele levou as coisas dele, ele foi embora, ele falou:
- Aí, depois que você se acalmar a gente conversa.
Aí eu falei que não, que já era uma decisão minha, fui firme ali.
E aí, como a gente trabalhava do lado, era muito difícil, porque ele ficava atrás de mim, ele queria voltar e eu falava: - Eu não vou voltar, eu não vou voltar.
[00:54:01]
R - E a minha mãe [falou]: - Agora você não pode voltar mesmo. Você tem que ter dignidade. Você tem que ser mulher, você tem que sustentar.
E eu disse: - Não vou voltar.
E aí eu não voltei com ele, só que ele me perturbava muito e aí eu arrumei um namorado fictício, [risos] um amigo meu, que eu falei: - Vamos fingir que você é meu namorado porque ele não te conhece. E aí ele larga do meu pé, porque eu não aguento mais. Aí meu namorado fictício ia me buscar no trabalho [risos]. Foi um super amigo, assim, porque foi o que afastou ele, depois de quase um ano, ele ainda estava... E aí foi quando eu tive essa ideia, né?
Aí ele foi se afastando, mesmo assim ele vai na casa da minha mãe até hoje. Eu não sei o que ele vai fazer lá. Mas até hoje ele vai lá na minha mãe, fala que tava com saudade dela, que não sei o quê, que não sei o que lá e...
[00:55:07]
P/1 - Você estava contando da sua, da religião e também que sua mãe é mãe de santo. Eu queria saber como foi a introdução da religiosidade na sua vida?
R - A minha família é uma família de pastoras. Minha família biológica, né? E aí a minha mãe. Ela era da Umbanda. Mas ela frequentava a igreja, né? E assim ela... Não que ela fizesse giras, ela não cuidava da espiritualidade dela na Umbanda, porque ela falava que era uma vida muito difícil.
E realmente é, você tem que cuidar das pessoas, né? Então assim, a Preta velha dela, os caboclos, pegavam ela; ela não chamava. Eles pegavam quando uma criança precisava de um benzimento, quando tinha alguém doente, então eles incorporavam nela e cuidavam da pessoa, né? E ela meio que não aceitava isso, mas a gente adorava, né? A gente adorava. Eu e meus irmãos, né? Tanto que quando a gente era criança, a gente formou um centrinho clandestino sem minha mãe saber, né? Já estava treinando, já... [risos].
[00:56:33]
P/1 - Conta isso, como é que foi essa história?
R - Então. E aí a minha mãe, ela demorou muito pra aceitar. Só que aí, meu irmão, ele começou a desenvolver a espiritualidade dele sem cuidados, né? E aí, quando meu irmão começou a desenvolver a espiritualidade dele, foi quando a minha mãe resolveu abrir uma casa, porque veio a Preta velha dela e falou para minha mãe: - Você precisa abrir a sua casa de Santo porque você já cuida das pessoas, e você abrindo uma casa de Santo... Lá, nas palavras da Preta velha, ela falando, ela falou assim: - Você vai estar segura nas leis de vocês aqui, do mundo, do mundo, de vocês, né?
E aí, minha mãe ainda estava irredutível, mas começou a fazer pequenas giras e começou a cuidar e não formalizou a casa de Santo dela, mas começou a cuidar da espiritualidade, né?
E aí, a gente gostava muito dos toques, então a gente se juntou, a turminha, e ia para a casa de uma amiga minha fazer um toque clandestino na casa dela [risos], todo final de semana, né? E aí, coisa de criança mesmo, e a gente falava que a gente estava treinando para aquilo, né? E aí, a gente cuidava das pessoas, as pessoas incorporavam, eu não incorporava, na época, meu irmão incorporava, né? Mas às vezes também ele não incorporava e fazia que estava incorporado, fingia que estava incorporado e eu acreditava.
E aí até minha mãe descobrir. Quando a minha mãe descobriu, ela falou: - Não. Tá errado. Eu vou chamar o caboclo, o caboclo vai bater em vocês, porque vocês estão fazendo errado, estão mexendo com a vida das pessoas. Isso é muito sério, né?
E aí foi quando a minha mãe foi pensando em abrir, formalizar a casa [de santo] dela, né? Aí a gente continuava fazendo os toques na casa da minha mãe, mas a gente fechou o outro centrinho clandestino, a gente não ia mais, né? E aí foi muito engraçado, a gente lembra disso, a gente dá altas risadas.
E aí, a gente continuou fazendo, minha mãe continuou fazendo as giras e tal, e a gente ia. E eu não queria virar de santo, não queria ser rodante. E a gente na religião não escolhe isso, né? Mas eu não queria, porque eu era muito curiosa, então eu queria ver tudo, né? E quem roda de Santo, roda de entidade, não vê nada, algumas pessoas. E aí o meu irmão, Ele é gay, né? O meu irmão, ele é gay e ele sofria muito preconceito. Tanto que ele demorou para se assumir. Quem sabia que ele era gay era só eu e a minha prima, mais ninguém. Quer dizer, todo mundo sabia, mas só nós tínhamos a confirmação, que ele chegou a contar.
E aí ele teve um período que ele tentou até namorar com uma mulher para tirar a atenção das pessoas, que tinham muitas pessoas falando que ele era gay. Naquela época, se assumir, era um... né? Era muito pior do que é hoje. E aí a gente segurou com ele a barra até ele se sentir tranquilo para contar para minha mãe, né?
E aí um dia essa conversa aconteceu, né? Ele se assumiu para minha mãe, e minha mãe falou: - Ninguém mexe com meu filho, né? E aí a gente estava fazendo uma gira de Exu, né? Eu estou contando essa história porque ela meio que se relaciona com a decisão da minha mãe de abrir a casa, né? E aí a gente estava fazendo uma gira de Exu e Pomba Gira.
[01:00:41]
R - E aí, uma das vizinhas da minha mãe, que era evangélica, que vivia pegando no nosso pé, chamando a gente de macumbeira, enfim...Foi e chamou o marido dela, porque o marido dela tinha que ir lá “peitar” a minha mãe, lá na casa dela, e meu irmão. E aí, o marido dela chegou e deu um tapa no meu irmão, porque chamando ele de viado, de macumbeiro, de não sei o quê... Aí minha mãe foi lá e brigou com ele, né? Peitou ele ali mesmo na... né? E falou que ninguém colocava a mão nos filhos dela, que agora ele tinha comprado uma briga, e que se fosse ele não tolerava macumbeiro, que agora a gente ia ser todos nós, macumbeiros de carteirinha. Foi assim que a minha mãe falou. E aí a gente foi na FELCANT que é a Federação Espírita de São Paulo, né? E aí, a minha mãe abriu a casa, e a gente começou a ter o direito de fazer os toques, de cuidar da nossa vida espiritual e das pessoas que frequentam o barracão.
R - O preconceito ainda existia, ainda existe, né? A gente ainda sofreu alguns preconceitos, com pessoas da rua e tudo mais, né? Mas mais pela sexualidade do meu irmão, e que puxava esse lado que era macumbeiro, né? E aí, a gente sofreu assim, mas de pessoas que não estavam dentro da Igreja Católica, e sim estavam na Igreja Evangélica. Não falo, todas as vezes que eu falo isso, [eu digo]: - Não falo mal de pessoas evangélicas, porque todas as pessoas têm o direito de escolher o que querem para si. Elas só não têm o direito de escolher o que querem para o outro, né?
E aí, na Igreja Católica a gente não tinha preconceito nenhum, todo mundo respeitava gente, e ia nos toques espirituais e ia na igreja. Mas a igreja evangélica é um pouco... Infelizmente a gente conheceu esse lado, né? Porque tem, independente de religião, são pessoas. Então a pessoa decide se ela vai ser preconceituosa ou não, se ela vai cuidar da vida dela, ou da vida do outro, né?
E aí isso foi se acabando, foi acabando esse preconceito contra o meu irmão, né? A gente, né? A gente sempre acolheu ele, independente da sexualidade dele. Porque quem tem que opinar é só ele. Ele foi casado inclusive, durante 15 anos, né? Agora ele terminou o relacionamento dele, mas tá aí, vivendo a vida dele, enfim, ele é uma pessoa, ele tem o direito, né? E aí, tá.
[01:04:08]
P/1 - Eu ia te perguntar uma coisa que você acabou não contando quando você veio para São Paulo, para que bairro vocês vieram?
R - Ah, é verdade, então a gente veio aqui para Artur Alvim, Zona leste de São Paulo. E a minha mãe mora lá até hoje, né? E aí eu conheço o meu esposo, que é daqui de São Miguel e aí eu venho para cá. Meu segundo casamento.
[01:04:38]
P/1 - E antes da gente ir para o seu segundo casamento, eu queria voltar um pouco no trabalho que você teve de confecção. Quando você falou que você começou a trabalhar, quantos anos você tinha?
R - Oito. Oito anos.
[01:04:53]
P/1 - Oito, e ficou até quase aos 30?
R - Fiquei até quase um pouco mais que 30, porque nesse período eu saí, fui trabalhar na loja de artigos esportivos, trabalhei em uma outra fábrica de costura e depois eu voltei para essa fabriquinha.
[01:05:16]
P/1 - E quando você conta que o seu dia a dia, foi aprender a costurar, né? Desde pequena.
R - Isso eu aprendi a costurar muito rápido e depois a gente, eu e meu irmão, a gente tomava conta da oficina. Ele era o cortador da oficina e eu era encarregada. Então eu costurava e cuidava da produção das meninas, né? E do pessoal que trabalhava lá.
[01:05:45]
P/1 - O que faziam nessa confecção?
R - Eram bolsas e mochilas, essa empresa existe até hoje, ela foi embora para Heliodora (MG). Chama Jac Sport (Esse é o nome de uma marca de mochilas da empresa chamada Jacques Porchat).
[01:05:59]
P/1 - E me conta uma coisa que eu queria saber dessa época, você começou a trabalhar com oito anos. Aí seguiu sua adolescência, seguiu sua vida adulta. Mas existia a vontade de fazer outra coisa? Ou você já sentia que seu caminho ia ser na costura?
R - Eu, ali na costura, eu acho que inicialmente eu me apeguei porque foi o universo que eu vi que estava ali para mim, imediato. Porque o que eu queria era trabalhar, independente do que fosse. Então eu me apeguei e acabei me apaixonando durante o tempo, né? Fui me apaixonando pela costura, queria costurar outras coisas. Tanto que eu fui trabalhar em outra fábrica, fui trabalhar numa fábrica de jeans, fui trabalhar numa fábrica de carteiras, e voltei para a mesma fabriquinha. Então, assim, [era] a gente que criava os modelos da JAC Sport, eu e meu irmão, que criavamos.
[01:07:10]
P/1 - E é de onde que vem a decisão de deixar a JAC Sports?
R - Não veio a decisão de deixar. Eles foram embora. Eles foram embora para Heliodora. E aí foi uma coisa meio chata, mas né? Foi o que aconteceu, a gente trabalhou sem registro, ninguém era registrado na fábrica, então o cara subiu, né? Hoje ele é casado com a minha prima; mas ele subiu em cima das pessoas, né? Não tem o que... Foi isso que aconteceu, ele subiu em cima [do esforço] de muitas pessoas, durante esses anos, e aí ele [nos] iludiu também, eu e meu irmão, porque ele falou que ele ia montar lá em Heliodora, mas ele ia abrir uma sede aqui em São Paulo, e ele ia continuar com a sede aqui em São Paulo para a gente tomar conta, porque a gente já tomava conta, né? E aí ele foi preparar lá, se instalar lá em Heliodora, e nós ficamos cuidando da fábrica para ele. Depois de três meses, ele voltou e falou que ia fechar a fábrica e nós nos sentimos traídos, porque já tinha muito tempo, já tinha uma relação de amizade, né? Quando a gente começou a trabalhar, ele não era casado com a minha prima. Ao longo desse tempo, ele se casou com a minha prima, então a gente se considerava como família mesmo. E houve essa traição, que eu considero como traição, apesar de considerar, eu nunca coloquei ele na justiça.
Meu irmão sim, colocou ele na justiça e ganhou, né? Eu não, porque eu acho que o que é meu vem para mim. E aí? Aí eu tentei montar oficinas, eu fiz um cômodo de compensado na casa da minha mãe, no quintal da minha mãe. Porque ela tinha o barracão, mas era em outro espaço. Hoje o barracão está no quintal, é onde era o quintal. E aí eu fiz um cômodo de compensado. Eu comprei uma máquina, daqui a pouco eu comprei mais duas máquinas, e aí a gente trabalhava ali. Eu, meu irmão, minha cunhada e meu primo. A gente trabalhava ali. Só que era muito difícil a gente buscar trabalho de oficinas. Porque a gente buscava os trabalhos, a gente trabalhava e as oficinas não pagavam a gente. Então a gente levou muito calote, né?
[01:10:11]
P/1 - E eles trabalhavam como uma facção ou não.
R - A gente tentou, mas a gente não conseguiu trabalhar como uma facção. Aliás, a gente não conseguiu manter o negócio de pé, né? A gente levou muito calote. A gente não tinha experiência nenhuma de nada, assim, de negócio. Então a gente ia de oficina em oficina, bater nas portas e falar que a gente estava ali, que a gente precisava de trabalho, né? E aí, por mais que a gente sabia fazer, a gente não tinha nenhum conhecimento de negócio, de precificação. Então, assim, as pessoas falavam: - Ah, eu te pago 10 centavos pra fazer isso. E a gente aceitava qualquer coisa que eles pagassem, e ainda [assim] eles não pagavam [risos]. A gente não deu sorte, porque a gente também começou um negócio totalmente errado, né? E aí foi quando a minha mãe resolveu construir o barracão no quintal. Só um minutinho.
[01:11:20] [Interrupção]
[01:12:04]
P/1 - Tava me contando desse problema que vocês tiveram em começar a trabalhar sozinhos. E daí foi quando sua mãe montou o barracão.
R - Sim. Aí minha mãe falou: - Olha, infelizmente não vai dar para vocês trabalharem aqui, porque esse negócio não vai dar certo, não tá indo para frente, e aí eu vou montar o barracão nesse espaço. A gente ficou super feliz porque ia montar um barracão. Desmontamos o negócio, vendemos as máquinas e vida que segue. Aí eu fiquei só com uma máquina, que eu ainda assim tentei, na área [de serviço] da minha mãe, que era isso aqui [gesticula mostrando um espaço pequeno], um ovo, né? Eu disputava o espaço entre a planta e a porta [risos]. E ali eu tentei, né? Mas infelizmente não rolou. E aí eu fazia a faxina, eu vendia. Eu segui os passos da minha mãe, né? Porque eu não tinha o que fazer, eu não tinha.... A profissão que eu tinha era costureira, eu era costureira, eu só sabia costurar, né? Eu nunca tinha trabalhado registrada, como que eu ia arrumar um emprego registrado? Eu não tinha experiência na carteira, né?
E aí eu comecei a vender tudo que eu via pela frente, eu vendia joias, vendia lingerie, vendia catálogo, vendia...
Aí eu decidi que eu ia virar Consultora da Mary Kay, né? Aí fui trabalhar como Consultora Mary Kay. Só que tem um dinheiro que você investe, a consultora para trabalhar na Mary Kay tem que investir alto, né? E eu era muito coração, então eu levava muito calote, porque eu não sabia cobrar, né? E vendia muito fiado, né?
E aquela coisa da costura me chamando, e eu [pensei]: - Cara, eu preciso fazer alguma coisa, né? E aí em 2019 eu resolvo, já estava casada e tudo. Resolvo comprar uma máquina para costurar em casa. Falei: - Não. Eu vou costurar na minha casa, eu sei, hoje eu já tenho mais experiência, eu vou atrás de empresas...
Mais experiência... Ilusão, né?
Eu vou atrás de empresas que vão me ajudar e eu vou conseguir. Aí comprei aquela máquina que está ali na frente, uma reta, de transporte duplo. Aí eu falei: - Vou comprar uma máquina potente que aí costura tanto a costura mais fina, quanto a mais pesada, pensando em bolsas, né? Aí entrei em contato com várias empresas.
[01:14:51] [interrupção]
R - Eu entrei em contato com várias empresas, consegui trabalhos, veio a pandemia. Aí eu falei: - Meu Deus!
Aí as empresas não traziam o trabalho porque fecharam, né? Fecharam todas, né? Eu comprei a máquina no nome da minha cunhada, e eu precisava pagar a máquina para minha cunhada! Porque, né? Era o nome dela.
E aí eu falei: - Meu Deus, e agora, o que que eu faço?
Eu não sabia o que fazer ainda. Aí o Galpão ZL, que é que é da Fundação Tide (Fundação Tide Setúbal) tinha trazido um projeto para gente, me convidou para esse projeto, para a gente costurar 7.200 máscaras, para eles darem para as pessoas do Lapena (Jardim Lapena - Zona Leste - SP).
E aí eu falei: - Eu tenho minha máquina, é uma forma de pagar a minha máquina, né? Aceitei. Só que costurava cada uma na sua casa, eram cinco mulheres para costurar essas máscaras. E aí esse foi meu primeiro trabalho na minha máquina nova, e que foi a primeira parcela. As primeiras parcelas da minha máquina; acho que eu paguei duas parcelas, porque falei: - Vou pagar logo duas, porque eu não sei quando que eu vou ter dinheiro de novo, né? E aí eu ganho um fôlego para poder pagar em dia a máquina.
E aí, a gente sofreu uma grande enchente aqui, né? E eu tinha um peso de porta lá em casa. A casa, a minha casa encheu, né? Mas a minha casa tem dois andares, então tipo assim, eu consegui subir, né? Subi as coisas, geladeira, fogão, que é embaixo, a gente conseguiu subir, né? E dessa enchente, a única coisa que eu perdi foi um peso de porta que eu gostava. E aí eu falei: - Eu vou fazer um peso de porta para mim. Não tinha o que fazer, estava com a máquina lá, né? Aí fui e fiz um peso de porta [feito com] de caixinha de leite. É de boneca, né? Aí pus o peso lá, né? Nossa, ficou lindo na época. Hoje eu sei que não ficou tão bonito assim, mas na época, para mim, que nunca tinha feito nada artesanal, ficou uma peça maravilhosa. Eu olhava e falava: - Cara, não... Fui eu que fiz mesmo? sabe?
E aí eu conheço a Malu do Galpão (Galpão ZN). Foi ela que me levou para lá, né? E aí ela foi na minha casa e ela viu o peso.
Aí ela falou assim: - Nossa! Quem fez esse peso de porta?
Aí eu falei: - Fui eu.
Aí ela falou: - Ai, eu quero um.
Aí eu peguei e falei: - Não, mas eu fiz só para mim mesmo.
Aí ela falou: - Não, você tem que vender, vai vender esses pesos, faz essas coisas para você vender. Vamos fazer o seguinte: eu te levo lá no galpão, você vai levar o peso e vai mostrar para o pessoal lá. Todo mundo vai querer, você vai ver.
Aí eu fui, né? Aí conheci a Andrelissa, que é essa moça que veio aqui agora.
Aí eu conheci a Andrelissa, e a Andrelissa falou: - Menina, você tem que você tem que participar dos nossos cursos de empreendedorismo.
E aí a Malu falou: - Não, você é uma grande artista, você tem que mostrar para as pessoas a sua arte.
Eu falava: - Caramba, não sou artista, não é isso.
Isso que aconteceu, foi antes das máscaras... Eu me embolei.
[01:19:01]
P/1 - Não tem problema.
R - Mas foi antes, foi a primeira vez que eu fui num galpão, né?
[01:19:06]
P/1 - Foi daí que elas conheceram o seu trabalho para falar para você fazer as máscaras.
R - Isso. Aí elas me deram o trabalho das máscaras. Aí a gente desenvolveu as máscaras e já saí dali com encomenda do peso de porta. Aí eu falei: - Acho que isso vai dar negócio, né?
Aí eu falei: - Ah, quer saber? Vou montar um Instagram, fui na minha amiga e falei: - Olha, monta um Instagram, porque eu não sei montar, monta pra mim porque eu vou vender peso de porta.
E aí minha amiga foi, montou para mim e eu comecei a vender outros pesos de porta. E aí saíram vários modelos de peso de porta, e eu tive a ideia de fazer o pufe de garrafa pet. Aí fazia. Só que eu estava só perdendo dinheiro, porque eu não sabia precificar. Não sabia... né?
Aí comecei a participar, a Andrelissa falou assim: - Vai ter uma “Inova ZL”, você vai se dar muito bem. Você não quer vir fazer?
Eu achei que era, na minha inocência, eu achei que era trabalho. Eu não achei que era um curso, quando eu fiquei sabendo, falei: - Vou fazer um curso e ainda vou ganhar grana.
Falei: - Cara, você deve ser boa mesmo no artesanato. Pensei, né?
Aí quando eu fui entendendo o que era uma “Aceleração”, porque eu nunca tinha participado de uma “Aceleração”, aí eu falei: - Nossa!
Aí me dediquei, falei: - Não, vou fazer tudo direitinho, porque eu quero pegar essa grana, né? Aí fiquei selecionada, fui e fiquei entre os dez selecionados, foi nacional essa Aceleração.
Tinha muita gente. Eu não vou me recordar quantas pessoas agora, mas tinha muita gente. Tipo, mais de 500, né? Muitas pessoas, muitos empreendedores. E eu não tinha experiência nenhuma com empreendedorismo, e fui selecionada para obter o “Capital Semente”, né? E aí eu já pensava em pagar a minha máquina à vista.
Eu falei: - Cara, eu vou pegar essa grana, eu vou pagar a minha máquina, que aí a minha cabeça fica mais sossegada para eu poder continuar trabalhando com a máquina paga, e não vou correr o risco de não ter uma parcela. Eu nunca atrasei nenhuma parcela da máquina. Só que eu tinha tanto medo de atrasar e de sujar o nome da minha cunhada que comprou na confiança, né?
Aí ganhei o Capital Semente, fui lá, paguei a máquina à vista pra minha cunhada as parcelas que faltavam, né? E aí abri o meu MEI, foi a INOVA ZL, o nome da aceleração; e quem nossos mentores era a EMPERIFA, né? E aí eu abri meu MEI, paguei a minha máquina, comprei uma impressora, tudo com a grana.
Falei: - Agora estou pronta para trabalhar, já tenho onde imprimir os moldes das bonecas. - porque eu pagava para imprimir os moldes, naquela época - E vai dar Bom, falei: - Vai dar certo. E aí eu comecei a empreender com artesanato, fazia vários tipos de artesanato, não tinha um nicho próprio, assim, não tinha… Falava cara, tudo que me pediam fazia, né? E aí eu descobri também que eu estava precificando errado, que eu estava pagando para trabalhar, [com] ACELERAÇÃO do INOVA.
E aí eu comecei a precificar de maneira certa, né? Mas é um aprendizado que até hoje tem coisa que a gente tem um pouquinho de dificuldade, né? Mas vamos embora, vamos tocar o negócio, só que aí, eu vi que eu estava trabalhando muito, muito, muito e estava me sentindo sozinha dentro da minha casa, porque eu trabalhava num quarto onde não tinha janela. E eu estava ali, ó: Escrava do Trabalho e nem estava ganhando o suficiente, né?
Eu falo que foi maravilhoso, foi uma alegria ter virado MEI, mas pelo outro lado, conforme foi passando o tempo, eu falava: - Cara, eu preciso trazer pessoas para trabalhar comigo né? Eu não estava satisfeita, eu não estava feliz ali me matando de trabalhar e sozinha, né? E não ganhando tanto assim. Mas estava fazendo minha renda, estava tendo minha dignidade, porque o meu trabalho é minha dignidade, sempre foi isso, né? E aí fui fazendo outros cursos, fazendo novas Acelerações, me aprimorando como empreendedora. Me reconheci lá no Galpão ZL, eu não sabia que eu empreendia, né? E fui me aprimorando cada vez mais, e aí, em 2021 eu recebo o convite da Fundação Tide para compor o GT (Grupo de Trabalho) de Economia Solidária, né? Eu não sabia o que era economia solidária, apesar de já praticar dentro do território.
[01:24:45]
R - Um pouco antes eu tentei montar um coletivo chamado Coletivo Mãos Periféricas, que era o quê? Um coletivo onde a gente se juntava, todas as empreendedoras, todas as artesãs e íamos expor lá na Paulista, né?
E aí, eu vou falar dessa parte que acho que depois eu entro, que foi lá na frente. E aí montei esse coletivo, só que escolhi as pessoas erradas, né? Eram artesãs que estavam ali na luta, mas ao mesmo tempo não estavam acostumadas com o trabalho de coletivo, né? E aí eu fiquei bastante tempo na Paulista, fazendo exposição, e eu fazia todo tipo de artesanato, do impossível ao Imaginário [risos], fazia porta papel higiênico, porta pano de prato, peso de porta, chaveiro, fazia muitas coisas.
E aí, numa dessas exposições, eu conheci a Djamila Ribeiro, né? Ela chegou na nossa banca. Foi um dia, um dos poucos dias que a gente não tinha vendido nada, porque na Paulista vende bastante. E naquele dia a gente não tinha vendido nada, e a gente levava nossas filhas, né? Então, a gente saiu dura, sem grana, de casa e a gente não tinha dinheiro para dar o que comer para as meninas que estavam ali com a gente. A gente estava impaciente porque [ainda] não eram 16h e a gente não tinha vendido 1 Real; e a gente era louca.
A gente ia só com o dinheiro da passagem, com criança! E aí a Djamila Ribeiro encostou assim na banca. Aí minha amiga me cutucou, fez:
- A Djamila Ribeiro.
Aí eu falei: - Quem?
Ela falou a Djamila Ribeiro.
Eu falei: - Não é não.
Aí ela falou: - É, a Djamila Ribeiro.
Aí ela falou: - Vai lá falar com ela.
Eu era muito tímida, eu falei: - Eu não vou falar com ela, eu tenho vergonha. Fiz assim. Aí ela: - Não Kelly, vai!
Aí eu falei que não.
Ela falou: - Fala para ela que a gente está sem comer, quem sabe ela compra alguma coisa nossa, para a gente dar [comida] para as meninas.
Aí eu falei: - Não, não vou não, Claudia. Vai você aí.
Ela cansou de me mandar ir e foi. Aí foi lá, falou com a Djamila.
[perguntou]: - Você é a Djamila Ribeiro?
Ela falou: - Sou.
Ela é um amor, assim, de pessoa, né? Tratou a gente super bem, super atenciosa, né? Só que eu estava com muita vergonha de chegar perto dela, eu fiquei de canto assim, sabe?
E aí, ela me chamou para tirar uma foto, eu fui, tirei a foto, né? Por que a minha amiga falou: - Aí não, você tem que tirar a foto.
Ela falou vem você também, aí eu, com muita vergonha, fui lá, né?
E aí a minha amiga falou para ela que a gente não tinha vendido nada, se ela não queria comprar um produto nosso para a gente dar o que comer para as nossas filhas, né?
E aí a Djamila falou: - Eu não vou comprar nada de vocês não, tá aqui o dinheiro pra vocês. Leva as meninas para almoçar, para jantar, né? Porque já era tarde, - e comam vocês também.
Não pegou, deu dinheiro para gente, não comprou nada! Não levou nada. E aí ela nos convidou para conhecer o instituto dela, que é o “Feminismos Plurais”, né? Aí a gente não via a hora de ir para lá, porque ela falou que ia colocar a gente num Programa de Aceleração também, né?
E que a gente era muito potente, que a gente merecia crescer, né? E aí, eu fiquei pensando, eu falei cara: - Eu preciso levar alguma coisa para essa mulher, né? Só que o que? O que dar para Djamila Ribeiro? Falei: - A mulher tem tudo, o que eu vou levar para ela? Que mimo que eu vou levar para ela para ser uma coisa que vai impactar e vai fazer ela lembrar da gente, né?
Aí fiquei pensando, pensando e falei: - Ah, já sei, vou fazer uma escultura, eu sei que ela é do candomblé, né? Vou fazer uma escultura de Oyá para ela, que ela é de Oxóssi, mas ela trás Oyá no enredo de santo dela né? E aí eu comecei a pesquisar. Fui né? Fale: Não,vou pesquisar, vou.
R - E aí fiz a minha primeira escultura de recipientes de xampu, né? Uma escultura de Oyá. E aí, eu não tinha o tecido para finalizar a escultura e eu peguei um pano meu, Da Costa que foi da minha saída, de quando eu fiz Santo. Cortei um pedaço, fiz a escultura, né? Falei: - Ó minha mãe, Oyá! Depois eu faço outro pra senhora, mas eu preciso desse pano, eu preciso desse tecido.
Aí, levei pra ela, né? No dia que a gente tinha agendado com a Vanessa, que é a pessoa que trabalha lá no agendamento, e falei: - Ai, Vanessa, eu precisava terminar a escultura e acabei cortando um tecido meu para terminar, porque eu não tinha tecido. Mas era para ficar ali [entre nós]. E a Vanessa falou isso para Djamila e ela adorou.
E coincidentemente, eu a presenteei próximo do aniversário dela. Tipo, acho que era um dia depois que ele ia fazer aniversário, né? E ela agradeceu.
Ela não estava lá, eu fui doida, porque eu falei: - Ela vai estar lá, eu vou poder abraçar... tudo. Mas ela não estava lá. E aí o Maurício, que é o sócio dela, falou... Engraçado, né? Parece que era um dia depois, [o aniversário dela] ele falou: - Amanhã é aniversário da Djamila, e você acertou em cheio porque ela é de Oyá, ela traz Óyá no enredo dela. E ela ama os orixás, o candomblé é a vida dela, então você acertou em cheio.
[01:31:36]
R - E aí eu fiquei muito feliz. Aí ele pediu para eu gravar um videozinho falando para ela, né? A Vanessa contou que tecido era, e aí, eu gravei esse vídeo e mandei para ela. Mas eu achei que ia acabar ali, que a gente ia fazer um Programa de Aceleração. E, né? Tudo certo. Eu não vi nenhum tipo de reconhecimento, né? E aí ela colocou a escultura na porta de entrada do instituto dela, e só aquilo para mim... Nossa! Foi maravilhoso! Tanto que está lá até hoje no Instituto dela.
E aí, uma vez por ano, ela sempre compra alguma escultura minha. Ela já tem a Oyá, aquela que eu presenteei. Ela depois comprou uma Oxum, ela comprou uma Ewá, ela comprou um Oxóssi. Ela já comprou até para presentear, então, eu gosto muito de falar, porque assim, é uma pessoa que vive em um mundo completamente diferente do nosso. Ela tem opção de comprar a melhor escultura que ela quiser, né?
Hoje ela está nos Estados Unidos, ela dá aula em Harvard, né? E ela ainda continua comprando, pelo uma vez por ano, uma escultura minha, né? Se não é para deixar, lá no Instituto tem mais que uma, mas ela já comprou até para presentear o namorado dela, o Breno. Então, eu tenho orgulho de falar isso, porque é um reconhecimento, né? Para mim.
[01:33:24]
P/1 - E foi a partir desse momento que você decidiu fazer as bonecas, as esculturas né?
R - Isso, aí eu falei: - Vou fazer as esculturas. E aí comecei a vender. Só que [fazer] as esculturas é um trabalho muito demorado, não é um trabalho para tipo... Eu falo aqui para as meninas que não é um trabalho para ganhar dinheiro, né? É um trabalho para ah...Tipo, eu tenho uma encomenda, eu vou fazer, não é um trabalho para divulgar, para ganhar dinheiro. Eu fui aprendendo isso ao longo, né? Porque nem todo mundo consegue fazer, não é que consegue; todo mundo consegue fazer qualquer coisa; mas não tem habilidade para fazer, porque é muito intuitivo assim, geralmente as artesãs já têm a religiosidade, já são de matriz afro-brasileira, de Axé, de matrizes africanas. Geralmente elas têm o conhecimento da cor, da ferramenta que vai colocar na escultura, porque não é artesanato comum, tem toda uma essência por detrás, né? Não é qualquer tecido que eu vou colocar numa escultura de Oxóssi, numa escultura de Xangô ou em qualquer outro Orixá. Eu tenho que caracterizar ele da forma que ele é. E aí, só quem vive o mundo do Candomblé, o mundo da Umbanda que vai entender isso. Eu não posso, tipo chegar uma costureira aqui e falar assim: - Ó, vamos fazer esta escultura? Ou eu tenho que estar perto dela o tempo todo, e também, eu acho que isso não é arte, porque se essa pessoa vai fazer arte, ela tem que sentir antes de fazer, né? Não é um trabalho de produção rápido, de giro rápido de vendas.
R - É um trabalho que é mais cuidadoso, né? Então eu escolhi lá quando eu era MEI, que seria o meu principal produto, mas hoje com a cooperativa eu já mudei. Eu ainda continuo fazendo as esculturas, mas só sob encomenda, e também com um prazo longo, porque hoje eu faço outras coisas, né? E aí eu não consigo, uma escultura que eu fazia antes em três dias, hoje eu levo 15 pra fazer, né? Porque eu tenho que estar ali dedicada para fazer um trabalho de produção, que eu vou fazer com rapidez, né? Então, eu falo que as esculturas eu sempre vou fazer, independente de qualquer coisa, independente de se eu hoje estou aqui dentro, e amanhã eu posso não estar mais. Mas eu vou continuar fazendo as esculturas, mas não para ser uma coisa que dê retorno financeiro, e sim por uma coisa que eu gosto de fazer, que faz parte da minha essência, né?
[01:36:40]
P/1 - Você se dá conta de que a partir dessa primeira experiência, você foi chamada para o GT de Economia Solidária? Eu queria que você contasse também como é que foi esse momento.
R - Isso aí, a gente organizava feiras, né? Juntei todas as artesãs, fiz o “Mães Paulistanas”, e aí levei todas as meninas. Fiz uma reunião na minha casa, fiz um agendamento para as meninas com quem a gente fazia feira.
[01:37:15]
P/1 - São aqui do território, as meninas?
R - São, algumas são do Itaim. Para elas tirarem a carteirinha de artesã delas, então marquei lá na minha casa que o galpão estava fechado. E aí foram todas para lá. A gente fez a carteirinha, o rapaz foi lá, do “Mão Paulistana” (Mãos e Mentes Paulistanas - programa oficial da Prefeitura de São Paulo voltado ao fomento do artesanato, manualidades e economia criativa nas periferias), foi lá, fez a carteirinha de todas nós para a gente ter o mínimo de cobertura, assim... Porque a gente ficava pensando: - Se a gente vai expor no centro, tem “rapa”.
Ma nosso produto não é um produto pirateado, a gente não entendia essa diferença, então a gente achava que o “rapa” também ia tirar da gente, também ia pegar nossos produtos, e não. Trabalhando lá, a gente descobriu que como nós somos artesãos, a gente não tem... Não é um produto pirateado, a polícia não pode tirar, né? A não ser que a gente esteja num lugar totalmente impróprio. Mas do contrário, se é um lugar de exposição, a gente tem nosso direito de estar ali, expondo nosso trabalho.
E aí a gente foi ocupando os espaços, já eram oito mulheres que iam comigo para Paulista todo domingo, sagrado.
E aí eu fui convidada para compor o GT de Economia Solidária, e eu não sabia o que era economia solidária, mas já praticava, né? E aí fomos eu, o seu Damião e a Gisele, né? A Gisele acabou saindo porque ela não se identificou com o trabalho, né? Primeiro, a Fundação nos oportunizou que a gente fosse aprender o que era economia solidária, né? Então a gente viajou para Fortaleza, fomos conhecer o Banco Palmas, a plataforma “E-dinheiro”, né? E aí a gente fez o primeiro curso, que foi “Introdução ao Desenvolvimento Solidário”, do Paul Singer (Instituto Paul Singer). Foi onde a gente conheceu a Bia e o Marcelo. E aí a gente começou a entender o que era economia solidária. Essa formação, ela acontecia de 15 em 15 dias, então, era uma vez [por mês] aqui no Galpão ZL e uma vez [por mês], lá na UNE, na Universidade da Quebrada. E aí a gente foi entendendo o que era a economia solidária. Eu já tinha o sonho lá, de montar uma fábrica. E aí eu tinha um sonho de montar uma grande fábrica aqui no Lapena. Tanto que foi esse o propósito que eu trouxe no meu Pitch lá no Inova, que eu consegui ficar entre os dez, né? E aquele sonho foi se fortalecendo, e aí, quando eu vi o que era economia solidária, quando eu descobri, eu falei: - Gente, a gente precisa montar uma cooperativa.
Só que aí, a fundação, ela dava R$20.000 para a gente fazer uma ação dentro do território, né? E aí, eu fiquei pensando que a gente não podia desperdiçar aqueles R$20.000, né? Porque era um dinheiro que a gente nunca ia ter para fazer nada na vida, assim, pela nossa realidade, a gente nunca ia ter um dinheiro desse para abrir um negócio, né? E eu ficava falando: - Gente, a gente não pode desperdiçar essa grana. É uma oportunidade, a gente precisa aproveitar essa oportunidade, porque a gente não vai ter outra se a gente não aproveitar essa. E aí no primeiro ano, a gente foi, viajou e com os 20.000, fizemos uma mentoria coletiva, onde a gente leu “O Capital Semente” para os empreendedores, né?
E no segundo ano eu falei: - A gente precisa aproveitar essa oportunidade. Eu já falava antes, só que ninguém concordava, porque abrir uma cooperativa não é tão simples assim. Abrir um espaço de costura como este, têm muitos gastos, né? E a gente tinha R$20.000, e 20.000 não dava, porque a gente não tinha nem o espaço, né?
Ainda hoje a gente paga aluguel, né? E aí eu levava, e a Kênia, falava mais: - Tá, vocês têm R$20.000, vocês vão fazer o quê com esses R$20.000? - Vocês não têm o espaço, e os maquinários? Dentro da minha cabeça já estava tudo resolvido.
Eu falei para ela: - A gente aluga o espaço com esses R$20.000 para garantir o tempo, a gente aluga por um ano e a gente vai atrás de parceiros e a gente vai conseguir as máquinas, né?
E aí, todo mundo olhava para mim, tipo com cara de “a iludida”, né? Avisa para ela que, né?... Quem vai dar essas máquinas? E aí, em todos os lugares que eu ia, eu falava: - Olha, a gente vai abrir uma cooperativa.
[01:42:26]
R - Não estava certo ainda, mas eu falava: - A gente vai abrir uma cooperativa, você pode apoiar a gente? Conhece alguém que pode vender as máquinas para a gente pagar parcelado? E aí, num desses eventos eu conheci o Hermes (Hermes de Souza, criador do instituto NUA), e o Hermes pegou e falou assim: - Olha Kelly, tem uma pessoa que falou que vai me dar....
Porque lá tem um curso para mulheres, curso de corte e costura. Ele falou assim: - Vão me doar sete máquinas novas, na caixa, né? E aí, eu tô vendo que você quer muito abrir sua cooperativa. Eu vou doar essas máquinas pra você.
Ai, que felicidade! Eu saí falando para todo mundo, fui lá na Fundação, falei: - Olha, trouxe a solução. A gente se reunia a cada 15 dias. Falei: - trouxe a solução, os R$20.000 é para pagar o aluguel, como eu tinha falado, e as máquinas, eu consegui sete máquinas novas na caixa. Falei para todo mundo.
Conclusão: O parceiro não deu, não nos doou as máquinas. E aí eu falei: - Meu Deus, e agora, o que eu vou fazer? Como que eu vou falar para essas pessoas? Eu já falei que a gente ganhou, como que eu vou falar para essas pessoas que a gente não tem mais as máquinas? Eles já tinham alugado o espaço e a gente estava adequando o espaço com a fiação. Porque era tudo 110W. O eletricista estava adequando o espaço. Aí eu falei: - Puta, e agora? Eu cheguei no armazém, falei: - Hermes, e agora, o que a gente faz? Aí ele falou: - Kelly, faz o seguinte, eu vou dar um jeito, não fala para ninguém. Deixa como tá. Deixa as pessoas acharem que vai vir as máquinas, e a gente vai dar um jeito.
Aí eu falei: - Mas que jeito?
Ele falou: - Eu tenho umas máquinas paradas.
E aí, eu falei: - Então você já deu um jeito, eu falei pra ele.
Aí ele falou assim: - Então, mas tem um detalhe, as máquinas estão todas enferrujadas. Está numa situação que a gente vai ter que destinar essas máquinas para algum lugar, porque não dá do jeito que elas estão.
E aí, eu peguei e falei: - Não, mas eu quero ver as máquinas, quando que eu vou ver? Aí ele falou: - Mas você quer mesmo, né menina, essa cooperativa?
Eu falei: - Quero, eu quero e a gente vai conseguir. Falei para ele.
Aí ele me levou lá, onde estavam as máquinas. E aí eu cheguei, tinha 25 máquinas, 25 máquinas, todas comidas por cupim. Depois eu te mostro as fotos, para você ver. Comidas por cupim, enferrujadas, numa situação assim, que acho que ia parar no aterro sanitário, porque estava muito feia a situação, né? Mas eu enxerguei muita coisa...
[01:45:51]
R - ... Peças... Eu abri as máquinas, olhei e falei: - Cara, dá para montar outras máquinas a partir dessas máquinas, né?
Aí eu falei: - Vou chamar, vou chamar o mecânico.
Aí o Hermes falou assim: - Faz o seguinte, o que você conseguir salvar, daqui, é seu.
Aí eu falei: - Você está falando sério mesmo?
Ele falou: - Tô falando sério; o que você conseguir é seu.
Aí eu falei: - Então, eu vou conseguir.
Aí eu chamei o mecânico, olhou o serviço, aí falou: - Não é melhor você pegar todas essas máquinas aqui, e vender para o ferro velho e comprar pelo menos duas, que é o dinheiro que você vai conseguir.
E eu: - Não, duas máquinas é pouco, não dá. A gente vai conseguir por essas máquinas para trabalhar.
E aí eu levei uns cinco mecânicos lá. Nenhum queria pegar o trabalho, nenhum. Falava que ia pegar, quando via as máquinas, falava: - Não dá, tem máquina aqui que já saiu de linha, que nem existe peça mais.
E eu olhava e falava: - Não, é mentira, vai dar certo.
E aí o Hermes, ele precisava do espaço. Aí eu falei: - Seu Damião, na época a Gisele já tinha saído.
Aí eu falei: - Seu Damião, vamos levar essas máquinas lá pra oficina, né?
Aí ele falou assim: - Mas quem vai mexer nas máquinas?
Eu falei: Eu.
[01:47:25]
R - Aí ele falou assim: - Mas eu não sei mexer na máquina.
Eu falei: - O senhor tem boa vontade? Se o senhor tiver, eu te ensino. Fiz assim, eu tenho uma experiência em máquina, porque lá, quando eu trabalhava nessa oficina na JAC Sport, era a gente que arrumava as máquinas, só chamava o mecânico quando a gente não conseguia, né? Então, eu não sou formada mecânica, mas eu entendia um pouco de máquina, né?
Aí pegamos, trouxemos as máquinas pra cá, jogamos todas as máquinas aqui; era uma loucura. Aí vamos procurar mecânico, traz um, traz outro e traz outro, nada.
Eu falei: - Eu vou por a mão na massa, aí comecei desmontar as máquinas.
Aí: - Seu Damião, vem cá, vamos desmontar.
Aí foi um trabalho de seis meses, né? Quando eu vi, já estava montando as máquinas, deixando elas bonitinhas, né? A gente conseguiu salvar 15 máquinas,15 máquinas. Aí eu falo, eu costumo falar que onde todo mundo viu o lixo, eu vi ouro. Porque eu falei: - cara, eu vou conseguir montar essas máquinas. Eu não sabia como, mas eu sabia que eu ia conseguir, né? E aí a gente montou essas máquinas, eu vinha pra cá todos os dias, como se eu estivesse trabalhando e ganhando para trabalhar todos os dias, de segunda a sábado [risos]. E enquanto eu não vi essas máquinas montadas, eu não sosseguei, né? E aí meu esposo também ajudou bastante a gente.
[01:49:13]
R - A Sandra, esposa dele, também ajudou na limpeza das máquinas e tudo mais. E aí nós deixamos as máquinas todas montadas, só para olhar a parte elétrica, que fugia do meu conhecimento, e para fazer uma regulagem ou outra, né?
E aí a gente não tinha mais dinheiro para fazer isso, pra chamar um mecânico. Aí o mecânico queria vir, porque passava e via as máquinas todas, e [perguntava]: - Tá precisando de mecânico? E a gente não tinha grana para ele mexer na parte elétrica. E a gente não sabia, eu não sabia. Se eu soubesse, tinha até feito.
Aí nos inscrevemos em um programa da Fundação, do Galpão chamado Teoria da Mudança, onde o valor era R$5.000.
Eu falei com R$5.000 a gente compra as peças que ainda faltam e paga o mecânico, né? E aí, a gente passou nesse edital, peguei os 5000, coloquei na mão do mecânico, falei: - R$5.000, dá para comprar as peças?
Ele falou: - Dá.
Eu falei: - Então eu quero que você compre tudo o que precisar de peças e já fica com o seu, que é o seu trabalho, né?
Aí, pus essa grana na mão do mecânico, o mecânico veio, fez tudo certinho, e aí nós inauguramos a COOPELLAP (Cooperativa Têxtil do Jardim Lapenna) no dia 7 de dezembro de 2024. Aí continuamos nosso trabalho do GT de Economia Solidária.
[01:50:58]
R - Nesse período, entraram outras pessoas no GT, saíram outras pessoas, e eu permaneço, né? Eu e Seu Damião no GT, que é o grupo de trabalho, e na cooperativa também. Seu Damião saiu da cooperativa. A Simone, que é a moça que também entrou no GT, entrou antes na cooperativa, mas ela também já saiu da cooperativa. E eu continuo, porque eu quero ver isso aqui, gerando de fato renda para as mulheres do território, gerando oportunidades, porque o que falta aqui no Lapena, é oportunidade, porque potência a gente tem, mas não tem oportunidade muitas vezes.
E eu quero ver isso aqui crescer, né? E quero levar também para outros territórios, para outras quebradas a ideia, né? E Seu Damião, ele saiu porque ele não se encaixou no trabalho, né?
A Simone saiu porque ela já tinha o negócio dela, né? E eu acredito que também, o propósito é meu, né? Eu quero todas as mulheres aqui tendo renda, mas o propósito é meu, o sonho é meu, o objetivo é meu.
Então, é o que eu falo: - Eu vou trazer pessoas aqui para trabalhar, pessoas que tenham os mesmos propósitos, a pessoa que não quer só para si, ela quer para o outro também. Ela quer que a quebrada cresça. Ela quer que o dinheiro se movimente e circule aqui dentro. Esse é o nosso objetivo.
[01:52:47]
P/1 - Qual foi o sentimento quando você inaugurou a cooperativa? O que você sentiu?
R - Então eu tive dois sentimentos, uma alegria muito gigante, gigantesca assim, eu falo que até hoje a COOPELLAP para mim é um sonho realizado. Ainda não somos formalizadas, mas é um sonho realizado porque já gera renda aqui no território. Mas foi muita felicidade, eu abri com uma feira de Empreendedorismo aqui na rua, né? Convidamos artistas para inauguração! Foi muito legal, muito bacana, assim, não tem palavras, acho que é Realização mesmo a palavra certa.
E aí a gente abriu dia 7 de dezembro de 2024 e nós paramos para as festas, né? Inauguramos e fechamos as portas. Na segunda semana de 2025, nós voltamos para cá, para trabalhar, né? E aí a gente se viu aqui e... - Tá, e nós vamos trabalhar no quê? né? Quem vai dar trabalho pra gente?
E aí eu falei: - Ah, a gente precisa criar produtos, né? Aí vamos criar o quê? O que? A gente não tinha material. Aí eu falei para a filha de seu Damião: - Você tem uma calça jeans velha? Aí ela falou: - Tem.
Eu falei: - Então traz para mim, que eu vou fazer uma mochila. E aí a mochila tá ali. Depois eu vou te mostrar, que a gente não vende aquela mochila, né? A nossa primeira peça.
[01:54:37]
P/1 - O piloto.
R - É o piloto, o MVP (Produto Mínimo Viável), né? E aí fiz aquela mochila com a calça dela. Ela é bem magrinha, então, tipo, a calça era pequena, né? Mas eu fiz a mochila de jeans e ficou ali. E aí a gente foi fazendo um trabalho de reaproveitamento. Então, todo mundo que tinha material, tinha tecido, a gente trazia, e montava as peças.
Só que a gente achou que a gente ia sobreviver com isso. E aí não, né? Porque é internet, é despesa é mecânico, peça de máquina, agulha que quebra, né? Tudo, né? E a gente não consegue vender, fazer e vender, fazer e vender.
Porque eu falava: - Ah, eu vendo as esculturas, só eu, então a gente vai conseguir, somos mais pessoas. Só que não é assim que funciona o mercado, né? Até você inserir o seu produto no mercado, e ele começar a crescer e ter visibilidade, né?
A gente ainda tá no caminho, ainda não tem isso.
E aí, a gente montou o Instagram e ia pedindo apoio, ia pedindo ajuda para indicação de trabalho, ia falando: - Estamos aqui, contrata nosso trabalho, nossos serviços, nossos trabalhos.
E aí, só que aquilo foi ficando cada vez mais difícil. Eu falei: - Cara!
Eu cheguei a chorar aqui dentro, eu falei: - Meu Deus, e agora meu sonho está realizado, mas eu preciso de trabalho. E aí vieram pessoas, muitas pessoas querendo que a gente trabalhasse por um valor escravo, assim como os bolivianos fazem, assim como muitas costureiras, que trabalham nas suas casas pegam trabalhos escravos, onde você só trabalha, trabalha e trabalha e não ganha nada, né? Não ganha nem para pagar a luz.
E aí eu falei: - Não pego, não pego, o valor tem que ser justo, porque se for um valor que não dá para a gente se pagar, eu prefiro ficar aqui dentro sem fazer nada, só criando, porque, uma hora, eu sei que vai vender e vai vender no valor justo. Do que pegar trabalho de pessoas que não querem pagar o justo, né?
E aí fiz algumas sapatilhas para o carnaval ano passado, quando eu percebi que não ia dar, eu também entreguei e falei: - Não, não dá, né?
E aí a gente foi buscando parceiros, e aí a gente conseguiu uma parceria com a Cria Casa, onde a gente costurou umas carteiras de papel lavável, né? E aí fizemos. Foi a nossa primeira grande, nosso primeiro grande trabalho. Foram... Quantas carteirinhas foi mesmo, Eliete? Que eu não lembro, da Cria Casa, você lembra quantas carteirinhas? 5.000?
[01:57:54]
R/2 - 3.000? Foi, não foi?
[01:57:56]
R - Não, foi mais... Acho que foi mais. Foi menos, foi 3.000, mais ou menos, quase 4.000 carteiras. Eu não vou lembrar a quantidade certa, mas foram quase 4.000 carteiras de papel lavável. Nunca tinha visto esse material, nem sabia que existia, né? E aí me apaixonei também pelo material, só que até hoje a gente não conseguiu, porque é um material caro, né? E que a gente não tem que ter grana para... Enfim. E aí a gente fez essa parceria, e a gente conseguiu colocar nove mulheres para trabalhar aqui dentro nesse período. Até mais, acho que foi contando com Freelancer, foram 13 pessoas que trabalharam aqui dentro, nesse período, né? E ganhando o justo pelo trabalho que estava realizando, né?
E aí eu falei: - Cara, agora é só a gente crescer, só crescer. Isso foi em maio do ano passado. E aí nós começamos a fazer as parcerias com outras empresas. E aí a gente percebeu que o que ia trazer a grana para gente não era o nosso produto. Sim, a gente quer ter nosso produto ainda, de marca própria, mas tem um caminho até a gente chegar lá, né?
E a gente começou a pegar trabalhos de outras empresas. E aí, a Neca Setúbal, que é a dona da Fundação, veio nos visitar aqui, né? E ela trouxe uma pessoa do Hospital Sabará. E aí essa pessoa, falou para mim: - Vocês aceitam tecidos para vocês, criar e fazer trabalhos? Enfim.
Só que eu já estava tão cansada de grandes empresas virem aqui. Eu não sabia nem quem era ela, quem era essa moça? Mas eu estava muito cansada de grandes empresas virem aqui desovar o que não queriam mais. E a gente estava virando depósito. A gente não tinha espaço para se mover aqui dentro, né? E aí eu falei: - Opa, peraí que não tá certo isso, né? E aí eu peguei e falei: - Não, a gente não aceita por causa disso, o nosso espaço é pequeno, você tá vendo esse monte? Tinha na época um monte de coisas aqui. A gente tá aceitando e as empresas tá usando a gente como depósito, na ilusão que está nos ajudando, nos oferecendo, nos doando matéria prima, né?
E aí ela falou: - Não, mas não é pra isso não, vamos fazer assim, vamos pensar em algum projeto para fazer com esses uniformes que eu tenho, para vocês ganharem também. Não é para fazer vocês de depósito!
Porque eu respondi dessa forma, porque era o que estava acontecendo, né? Eu falei: - nós não somos depósito, né? Então, tipo: Não, não dá, né?
Ela falou: - Não, vamos pensar num projeto junto e tal, vamos conversando.
Eu falei: - Vamos conversando.
E aí depois, ela me chamou no WhatsApp e falou:
- Kelly, eu tenho um material. Aí ela passou as fotos do que ela tinha, né?
E ela falou: - O que você acha que dá para fazer com isso?
Aí eu olhei e falei: - Ah, Ecobags! Dá para fazer ecobags.
São sacolas, né? Aí ela falou: - Você faria? Para a gente doar nos fóruns, para novos clientes.
Aí eu falei: - Com certeza.
Aí foi a primeira, a primeira parceria de transformação em Upcycling, que a gente fala, que a gente ressignifica o que já existe para não ir parar nos aterros sanitários, Né? E aí, a gente fez uma parceria muito boa com o Hospital Sabará, logo depois da Cria casa. Então, a gente conseguiu manter ali a equipe, né? Uma equipe, então, de nove pessoas trabalhando um certo período. E aí? Só que no começo de ano, para o mercado têxtil, ele pára, né? Infelizmente.
Só que a gente tinha o sonho também de fazer capacitação aqui dentro, né? E tudo sonho. E aí a gente conseguiu fazer nossa primeira turma de curso, agora, em janeiro, que terminou o mês passado, o curso.
Porque o que a gente pensou: Começo de ano é fraco, e aí a gente entra com a capacitação, né? E vamos ensinar mulheres a costurar, porque essas mulheres precisam ocupar essas máquinas, né? E também gerar renda, gerar rendas. Tem muitas delas que trabalham em casa, que já aprenderam aqui e tem negócio em casa, né? Costuram nas casas delas, ou estão prontas para o mercado de trabalho, né? E aí a gente conseguiu esse ano, através da teoria da mudança também, que a gente pegou tipo uma ajuda de custo, porque são três meses de curso, para a gente fazer um café, comprar a agulha, trazer mecânico, porque quebra bastante as máquinas, né? Então. A gente está muito feliz, porque a gente está já na segunda turma e agora com mulheres trans. E tem mulheres que querem ainda [fazer o curso], só que a gente não consegue fazer só curso também, porque a gente precisa sobreviver, né? A gente precisa fazer o nosso trabalho para a gente ganhar também o nosso dinheiro.
R - E aí, a gente decidiu que a gente vai fazer pelo menos duas turmas por ano. Que aí então começa em janeiro e termina em agosto. Depois de agosto é a produção, né? E aí a gente faz as segundas feiras. O outro curso a gente fazia de quarta e de quinta, duas horas por aula. Aí, esse, como é uma turma mais reduzida pelo que eu falei para você, por serem mulheres trans, elas quase não transitam no território durante o dia, né? E por elas terem essa questão também da dependência química, né? Enfim, várias outras questões a gente resolveu reduzir a turma e reduzir também o período. Então, o que era para ser três meses, a gente deixou oito aulas, e oito aulas que dá, não lembro quantas horas de aula, mas a gente sempre fala para elas até 70% de presença para vocês terem o diploma.
E esse curso é uma parceria com o GT Diversidade e Inclusão, que é o GT que é dos moradores do território em parceria com o Galpão, né? E aí a verba do GT, elas vão dar como capital semente para essas mulheres trans, para que assim, elas não terminem o curso e fala: -Tá, terminou. E agora? Então, para elas terem o mínimo para elas poderem investir e fazer alguma coisa que faça sentido para elas também, né?
[02:05:54]
P/1 - Você tava contando um pouco como começou, aqui; eu queria saber que potencialidades você enxerga nessas mulheres que estão atuando aqui e nas mulheres que podem vir a se interessar por esses cursos que vocês fazem aqui e também pela cooperativa?
R - Acho que é a maior potência é a força, a força de vontade de mudar de vida, né, de transformar a vida delas. Então, hoje elas aprendem a fazer um artesanato, elas vão se dedicar a aquele artesanato, elas vão se dedicar até elas terem, elas conseguirem tirar a renda delas. Muitas delas sabem costurar, mas não tem forças para tipo: - Ah, eu vou ficar indo lá, eu vou atrás de... Porque aqui é uma cooperativa, então todo mundo faz tudo, né? Eu vou ter que ir atrás de parceiro; eu vou ter que fazer isso; vou ter que fazer tudo?
Então, muitas mulheres, elas têm a ilusão do CLT: - Eu vou fazer uma função só.
E aí algumas delas, quando chegam aqui, estranham, falam: - Nossa, mas a gente tem que fazer tudo aqui, né? E eu falo, quando chega: - Gente, nós somos uma cooperativa, então a gente vai fazer o que for preciso para o bem do coletivo, né? Então, tipo, não tem uma função. Todo mundo costura, se precisar ir pra mesa, todo mundo vai pra mesa. Ah, vai embalar porque tem um evento, eu que faço evento, né? Então, ah, vai fazer um evento. Então vamos embalar os produtos; chegaram os produtos, vamos guardar. Entendeu? Então, a gente se une, não só porque a gente tem saberes de costura, de artes, enfim... mas também pela força de vontade de transformar a vida. E aí, quando eu falo de transformar a vida, não é só a vida nossa, é a vida das pessoas que estão no nosso entorno, a vida da família, da comunidade, né? Então, tipo que nem, por exemplo, a Eliete, eu sempre gosto de trazer ela como exemplo, porque ela veio do curso da Unidiversidade (Universidade Popular dos Movimentos Sociais e da Diversidade), né? Então ela veio fazer estágio aqui, porque a gente não conseguia trabalho [não tinha como pagar]. Então quem vai trabalhar de graça? Ninguém.
Então as mulheres que fizeram o curso lá na Unidiversidade, também é uma parceria com o Hermes, a gente trouxe para fazer estágio aqui, porque pelo menos elas estavam movimentando a máquina, estavam treinando, né?
Não foi um estágio pago, a gente não pagou nada para elas, mas elas estavam aqui e tendo ideias, e treinando os saberes delas também, né? E a Eliete, ela é uma das nossas estagiárias que ficaram, que permaneceram. Porque no final, a gente pergunta quem quer ficar trabalhando, né? E aí ela foi uma das que ficaram, e está com a gente até hoje. Então, tipo, ela passou por várias transformações, ela aprendeu a costurar, ela treinou, hoje ela já costura muito bem né? Eu já saio daqui e já deixo ela aqui costurando, porque eu sei que quando eu chegar vai estar bonito, com qualidade, né? E é uma experiência para gente, de como a gente pode pegar uma mulher que não sabe e aí transformar. Hoje ela também já passou por dificuldades com a gente, várias, de não ter trabalho e ter que ficar em casa, porque não tem trabalho, né? A gente ainda vive isso na Coopellap; a gente ainda não tem trabalho para todos os meses, todos os dias, né? Tem épocas do ano que a gente não tem, que nem agora, a gente fez uma parceria com o Sesc (Serviço Social do Comércio), a gente realizou, parecido com a do Sabará. Só que ao invés da gente transformar os uniformes deles em ecobags, a gente transformou em aventais e bandanas, para eles doarem para o projeto social, um projeto, o Sesc Mesa Brasil, um projeto que tem lá que chama “À mesa em Família” né? Então, é uma parceria que eu já estava procurando há quase um ano e agora que a gente conseguiu fechar. Então é todo um trabalho de construção, né?
E mesmo as mulheres do território, para elas entrarem e decidirem encarar o negócio, elas têm que se inspirar. Elas têm que ver que está dando certo o negócio, porque senão elas não vêm! né? Elas vêm, aprendem e ficam esperando: - Peraí, deixa eu ver… Entendeu? Então, é por isso que quando eu falo: - O sonho é meu? O sonho é meu. Vieram muitas pessoas sonhar o meu sonho e eu sou muito feliz com isso, né? Eu sou muito grata por isso. Mas ainda assim, nos piores momentos, o sonho continua sendo meu.
Mas a gente vai conseguir levantar isso, e trabalhar todos os meses com as pessoas aqui dentro, sem ter que ninguém parar, porque a gente tem um grupo, que é a nossa. equipe de nove mulheres, mas que não trabalham direto, quando têm trabalho, elas estão aqui dentro, quando não têm elas, né? Infelizmente ficam em casa, porque eu também não posso prender a mulherada aqui sem... né? Eu fico, mas é o tal negócio, eu tenho também, o meu esposo trabalha, tem uma outra renda além da minha, né? Então, assim é difícil nos meses que não têm trabalho, mas a gente consegue segurar, tem aí, a Aye Mimo também, que eu vendo meus produtos, né, pela Aye Mimo. Então a gente consegue segurar um pouco. Agora, a mulher que não tem uma renda, porque ela vai depender só daquilo, então ela tem que ir à luta mesmo. E a gente entende muito isso.
[02:12:49]
P/1 - Eu ia te perguntar quem são essas mulheres? Elas são mães? Qualquer faixa etária?
R - Elas são mães, senhoras, têm jovens também, a mais nova é a minha filha, que está com 17 anos, mas tem duas jovens de 22, as outras são todas mães, a faixa etária de 45 a 50 e poucos anos.
[02:13:24]
P/1 - E a outra pergunta que eu queria fazer, é que quando você montou a cooperativa, abriu as portas, e qual foi a recepção do Jardim Lapena para você? Pra cooperativa? O que você sentiu de recepção?
R - Muito bom, por um lado, porque assim, as pessoas vinham aqui e falavam: - Nossa, que bacana, vai ter emprego aqui para gente. Só que isso gera, assim... o impacto de ver muitas máquinas, gerou uma... Como que fala? Gerou...
Assim, fez com que eles acreditassem que aquilo ia ser uma fábrica, que ia estar em constante [funcionamento]. E a gente teve que parar por muitas vezes, né?
Essas portas sempre estão abertas, mas nem sempre tem trabalho, entendeu? Então foi um pouco de decepção também, acho, das pessoas vivenciarem isso, porque nas vezes que estava sem trabalho, só estava eu aqui dentro e tal, [e perguntavam]:
- Ah! Mas cadê o pessoal, né?
- Não tem trabalho.
Então, agora todo mundo já sabe aqui no território, quando tem trabalho, aqui dentro tá cheio. Quando não tem trabalho, só estou eu aqui dentro, e minha filha, e muitas vezes a Eliete, que tá sempre aqui com a gente.
Então é isso, foi muito bom, foi um impacto muito positivo, ao mesmo tempo, acho que trouxe um pouco de frustração, mas hoje elas entendem esse processo. Elas entendem que quando tá vazio aqui, não é porque a gente quer que esteja vazio. No começo falavam: - Ah, mas vocês não contratam ninguém? Não, a gente não contrata, a gente não tem grana pra contratar, né? As pessoas vêm e trabalham quando tem trabalho e ganham seu dinheiro. É. E é isso, por enquanto, a gente tem, eu tenho sonho, nós todas que trabalhamos aqui temos o sonho de ser grande, né? Mas ainda não somos, ainda temos muito para aprender. Ter parceiros durante o ano todo, porque são épocas, né?
[02:15:53]
P/1 - Eu queria te perguntar uma coisa, em alguns momentos você falou do seu trabalho com materiais recicláveis e até mesmo o upcycling das peças, dos materiais. Aí eu queria saber de onde que vem essa ideia de trabalhar, eu sei que vem dos cursos, mas esse interesse de trabalhar com materiais recicláveis? Se foi alguma capacitação ou um interesse seu mesmo sobre isso?
R - Então, quando a minha mãe montou o barracão, fui eu que montei as bonecas do barracão, que ela tem até hoje lá no barracão de Santo dela. E aí não só eu, como outras filhas de Santo, né? E aí a gente passou por esse universo de transformar, não montar a boneca do zero, porque aquelas bonecas de plástico, a gente comprou e montamos as roupas das bonecas, as ferramentas das bonecas.
E aí, acho que ficou guardadinho lá, eu nem tinha a intenção de... A gente pegou retalhos e montamos as roupas com retalhos, né? Os Adês que são os adereços de cabeça, de papelão, de qualquer material que a gente visse que ia dar certo. Porque são 16 orixás, então cada um foi feito de uma forma diferente. E eu nunca tive esse interesse, essa visão, né? E aí, quando eu fiz o peso de porta, era porque eu sempre, eu sempre reciclei.
Ah, eu sou daquelas donas de casa que tem pote de sorvete, que tem... né? Então: - Ó, tenho um potinho bonitinho ali, comprei uma geleia, alguma coisa, vou guardar para colocar um temperinho.
- Ah, vou fazer um negocinho aqui, para ficar bonitinho o pote de tempero, então, eu sempre tive isso, né? E aí acho que isso é de raiz mesmo. E aí, eu fiz o peso de porta também de caixinha de leite, porque era o material que tinha ali, disponível, né? Nunca tinha feito artesanato assim do zero, nunca tinha, não tinha experiência nenhuma com artesanato e aí fiz o peso de porta.
R - Aí depois eu fiz umas bonequinhas para as guardiãs, nessa época eu nunca tinha feito boneca realistas. E aí eu falei: - Eu vou fazer umas bonecas realistas para as guardiãs, né? E aí, eu usei muitas coisas de reaproveitamento, principalmente retalhos, sabe esses jumbos de trança? Usei para fazer os cabelos das bonecas. Então, tipo, tem uma trancista aqui, eu ia lá e [pedia]: - Kátia me arruma um pouquinho desse cabelo para pôr numa boneca? Então, tipo, sempre.
E no começo, quando eu não entendia, foi assim, sem eu perceber, foi meio que uma coisa de [aprender] fazendo mesmo, [coisa] minha mesmo, né? E aí, quando eu comecei a fazer os cursos e as Acelerações, eu falei: - Cara, é a minha cara! Porque eu sempre tive esse cuidado, né? - Ah, não joga no lixo não, dá para fazer tal coisa. E aí veio como veio de encontro aos meus propósitos.
E lá fora, eu entendo que isso é de impacto, é um impacto muito grande, né? Mas é uma coisa que todo mundo deveria ter, né? Esse cuidado ambiental todo mundo deveria ter. Porque não é só a nossa casa que é nossa. Nossa rua é nossa, né? A pracinha é nossa. Então gente, por que não cuidar, né?
[02:20:21]
P/1 - Eu queria que você contasse como você conheceu o seu segundo marido, né? O seu atual marido e também a experiência de ser mãe.
R - Ah, então eu sempre tive vontade de ser mãe, né? Desde muito nova eu falava: - Cara, um dia eu vou ter uma filha. E eu queria uma filha, né? O meu marido, eu te falei, [eu] fazia um monte de coisas, vendia qualquer coisa, vendia cartão de crédito também da Credicard, né? Lá no calçadão de São Miguel, né? E aí, foi lá que eu encontrei o meu marido. Eu tinha amigos em comum com ele, mas eu não conhecia ele; e eu tinha acabado... Eu falo que olha, é muito louco, porque quando a gente vive a nossa infância, parece que a todo momento a vida te leva para reproduzir as mesmas coisas, né? E eu tive um namorado antes do meu marido, que ele também era abusivo. E aí quando eu terminei com ele, eu não namorei nem um mês com ele, porque ele achava que... Eu vou falar, tá? Desculpa, homens, mas eu vou falar.
Ele achava que eu tinha que transar com ele, e eu não queria, mas [ele dizia que] eu já era uma mulher, eu tinha que transar, mas eu falava: - É no meu tempo, não no seu.
E eu terminei com ele por causa disso, e aí ele falou que se eu não fosse dele, eu não ia ser de mais ninguém. E aí, a gente vê muita coisa... E eu fiquei com muito medo de que ele fizesse alguma coisa contra mim, né? E aí eu não andava sozinha, eu andava com os meus amigos, aonde eu ia. Eles já sabiam disso, porque era do nosso grupo, esse cara. E aí, aonde eu ia, eles tinham o maior cuidado comigo.
[Falavam]: - Não, vai alguém com você. Eles não me deixavam sozinha, e eu trabalhava aqui no calçadão de São Miguel.
R - Aí meu marido foi encontrar com um amigo meu, lá no calçadão de São Miguel, e era dia de tirar o pagamento, que a gente tirava no caixa eletrônico, não tinha Banco virtual e tudo mais. A gente tirava no caixa eletrônico, e o meu era ali no Itaú, lá perto do calçadão.
Aí o Robson, que era nosso amigo em comum, ele ia comigo, só que houve alguma coisa que eu não me lembro. Ele teve alguma coisa para fazer que ele não pôde ir no caixa eletrônico comigo e eu estava com muito medo desse cara, né? E aí ele pegou e mandou, pediu para um amigo dele ir comigo, me acompanhar. E aí eu fui sem nenhuma intenção e acabou rolando um beijo no caixa eletrônico [risos]. E a gente dali... Ele perguntou por que eu tava com tanto medo, eu falei para ele que eu tava com medo do cara. E ele falou: - O cara não vai mexer com você, não vai!
E aí eu não sei o que que aconteceu, porque eu não sei se deram uma dura no cara, porque eu nunca mais vi o cara. Nunca mais. Graças a Deus. Porque eu estava com muito medo dele. Porque falaram inclusive, que ele andava armado. Só que quando eu namorava com ele, eu não sabia disso, né? E aí eu fiquei, e aí ele foi, não vi mais. E aí o meu relacionamento foi acontecendo, né?
[02:24:25]
P/1 - Como é o nome dele?
R - Roberval. Aí foi acontecendo, ele é oito anos mais novo que eu não sabia por que não parecia, né? E aí a família dele não me aceitava, uma porque eu sou do candomblé, né? E outra porque eu sou oito anos mais velha que ele, né? E aí quando a gente começou a namorar, foi aquela coisarada toda.
O pai dele falou que eu não era mulher para ele e tal, toda aquela coisa de família quando não aceita, né? E a minha família também não aceitava ele, mas por conta da idade, falava: - Aonde você vai com moleque, né? E eu falo que se a gente está junto até hoje, porque a gente realmente se ama, porque gente, né? Tinha que ser, né? Porque se dependesse da torcida das famílias, não daria certo. E aí todo mundo falava: - Ah, mas você, ela e o pessoal da família dele falava: - Aí ela é macumbeira, que não sei o quê...
Inclusive já briguei várias vezes com minha cunhada. Briguei não, né? Ela brigou comigo, né? [risos] por conta disso. E ela falava que na família dela não tinha. E hoje eu sei que tem, né? Enfim, eu falo pra ela: - Toda família tem uma pessoa gay, homossexual e macumbeira. A gente fala assim “zoando” né? Mas é uma forma da gente falar que somos todos iguais, né? E aí tinha muito sonho de construir a minha família, e falava que eu ia ter uma filha, ia ser menina. E aí, fiquei mais de um ano tentando engravidar. Tive muita dificuldade pra engravidar, mas consegui.
Já estava para fazer 30 anos quando isso aconteceu, e eu falo que foi a maior benção, dos Orixás, a maior bênção de Deus, ter me presenteado com a Beatriz, e logo depois de cinco anos com a Giovana, né? Então eu tive a Giovana aos 35 anos, eu só queria uma filha, mas aconteceu, né? Eu tomava remédio e tudo, mas aconteceu mesmo assim.
R - Aconteceu mesmo assim. No começo assim, eu falava: - Cara, eu não queria outro filho, só queria uma. Mas depois eu vi que filho é benção, e hoje eu agradeço muito a Deus, aos Orixás, ao nosso sagrado, por ter elas né? São a razão da minha vida.
[02:27:29]
P/1 - Elas também frequentam o candomblé?
R - Frequentam. Quando elas eram pequenininhas eu não queria que elas frequentassem. Tipo assim, eu não ligava que elas iam, mas eu levei elas na Igreja Católica, levei na igreja evangélica; porque eu sempre falei que era uma decisão delas. Porque a religiosidade é de cada um, então eu não tenho o direito de escolher por elas. E eu tenho que levar elas em outros lugares para elas terem a visão daquilo que elas querem. Porque se eu só levasse elas para o candomblé, o candomblé, pro candomblé, elas não iam ser do candomblé porque elas querem. Elas iam ser porque eu queria, né?
Então, eu sempre fiz questão de levar elas em todos os lugares, e aí elas optaram, né? A pequena tem 12 anos, mas ela fala: - Mãe, eu amo a nossa religião. Mas elas fizeram catequese, foram para igreja, foram para a igreja evangélica; e é uma decisão delas. E hoje eu já não... Falo: - Ah, é o que quer? Então... Porque acho que já tem, né?
[02:28:44]
P/1 - O discernimento.
[02:28:47]
P/1 - E eu queria saber, nessa trajetória da cooperativa, o que você pensa que é a vantagem e o desafio de trabalhar coletivamente?
R - A vantagem é porque a gente consegue crescer mais rápido, e quando a gente tem qualquer conquista, não é só minha, é de todas as pessoas. E o desafio é esse mesmo, você encontrar parceiros e empresas que estão ali, com você o tempo todo, né? Que [sejam]parceiros mesmo, né? Acho que é isso.
[02:29:30]
P/1 - Me conta um pouco como é seu dia a dia hoje?
R - Bom, meu dia a dia é aqui, a minha vida é aqui. Eu só saio daqui quando eu tenho que fazer alguma palestra, em algum lugar, sobre a Coopellap, ou que eu tenho um evento para ir para sobre Coopellap.
Então, meu dia a dia... Sou mãe, né? Organizo a minha vida familiar, hoje a minha filha mais velha trabalha aqui, então a nossa vida é aqui. Mesmo quando a gente está em casa, a gente está conversando e vendo o que a gente vai fazer para melhorar a Coopellap.
Meu marido às vezes fala: - Nossa! Tudo é Coopellap, tudo é Coopellap!
- Ah, eu tenho que comprar não sei o quê.
- Não é para casa?
- Não é para casa não, é para a Coopellap.
- Eu tenho que fazer não sei o quê.
- É para casa? - Não, é para a Coopellap.
Então tudo Coopellap.
Então, hoje isso aqui é a minha vida e eu quero deixar como legado, né? Se o Sagrado me permitir, eu quero deixar como legado não só para o meu território, mas também para as minhas filhas.
[02:30:47]
P/1 - No Museu da Pessoa, a gente tem uma programação anual, e esse ano o tema da programação é sobre a velhice, sobre envelhecer. E daí, eu sempre pergunto para as pessoas, como elas enxergam a experiência dos mais velhos, você teve experiências? E como você enxerga o seu futuro, a sua velhice?
R - Como eu enxergo a experiência das pessoas mais velhas?
[02:31:21]
P/1 - O que você aprendeu com essas pessoas que te ensinaram alguma coisa? Se te ensinaram alguma coisa? O que você traz de aprendizado, né? E o que você espera dessa velhice também? Cultura.
R - As pessoas mais velhas que passaram pela minha vida me trouxeram experiências maravilhosas. Eu tenho um projeto chamado Afro Brasilidades, que eu faço com uma pessoa que tem 60 anos, que é a Maria Lúcia. Ela não é de religiões, de matrizes africanas, mas ela abraçou esse projeto comigo que é Afro Brasilidades, é um evento cultural que acontece anualmente no Galpão onde eu trago a luta do racismo religioso. Porque quando eu venho pra cá, pro Lapenna, eu sofro isso muito na pele, porque aqui no território a gente tem muitas igrejas evangélicas, né? E aí, a gente não via pessoas de fio de conta no pescoço, pessoas de roupa de ração, roupa de ração é uma roupa branca que a gente fala, do candomblé ou da Umbanda, na rua, andando.
E isso era nossa, uau! E hoje a gente já vê, as pessoas respeitam, né?
Antigamente não, antes da Afro Brasilidades, as pessoas não respeitavam. E quando eu vi isso, eu falei: - Cara, eu quero trabalhar esse tema aqui no território. E aí falei muitas vezes na Fundação e aí vieram vários projetos e eu tentava encaixar e não conseguia. E agora já vai para quatro anos a quatro. A quarta edição vai acontecer agora em setembro, inclusive você está convidada, estão convidados. Vai acontecer agora em setembro, dia 12 de setembro, a quarta edição da Afro Brasilidades, Afro Brasilidades é a luta contra o racismo religioso. A gente traz a cultura em forma de música, danças, rodas de conversa.
A gente traz lideranças da Igreja Católica, da Igreja evangélica, do Candomblé e da Umbanda, né? Então, Comidas típicas, é um evento maravilhoso e que está trazendo aos poucos, porque tudo é construído, está trazendo transformação aqui pro Jardim Lapena. Então, assim, essas pessoas mais antigas, a gente fala mais antigas, as mais velhas, elas têm muita experiência para passar para a gente.
Inclusive a dona Glória, que é uma das pessoas mais velhas aqui do território, mais antiga, uma das pioneiras aqui do Jardim Lapena. A gente conversa bastante, é bom você se sentar, escutar, escutar o que eles têm a falar.
É bom quando você, por exemplo, está num dilema e você leva para eles, e você escuta eles, porque eles já viveram o suficiente para te dar um conselho.
Por mais que às vezes eles não passaram por aquela situação, mas sempre vai ter uma palavra amiga.
E assim eu quero ser quando eu envelhecer. Eu quero ser uma conselheira, eu quero. Não é porque a pessoa... que nem é dona... Aí, fugiu o nome agora, a senhora que estava aqui de manhã, ela estava ali tomando o solzinho dela, a dona Helena né? Mas é gostoso você parar e conversar com ela. Ela tem experiência, ela tem Alzheimer, mas você [quando] conversa com ela [você percebe que] ela é uma pessoa muito experiente, que pode ensinar para a gente, né? E assim eu quero ser para as pessoas mais jovens.
[02:35:24]
P/1 - Me conta essa história de você ter, quando você chegou aqui, que você falou que você sofria de uma certa forma, sofreu preconceito religioso e racismo religioso aqui? Como foi isso? Como foi chegar a vir para cá, morar para cá, e como se desenvolveu essa história?
R - Então, eu sempre usei o meu fio de conta, eu não saio sem ele de casa. E aí, eu cheguei aqui, e eu já fui julgada porque eu estava com fio de conta no pescoço, né? E aí meu esposo, que na época era meu namorado, ele já tinha falado para mim: - Olha, a gente vai enfrentar uma barreira, mas eu estou do seu lado, porque tem gente da minha família que é da Umbanda, só que não assume, por causa do preconceito. E os primeiros a te julgar vão ser da minha família.
E aí eu falei: - Então a gente vai sofrer dois, porque na minha família, é por causa da sua idade, né? E vamos enfrentar juntos, né?
E aí, o preconceito começou da família dele, né? Realmente, a gente já previa isso, e começou da família dele. Hoje todo mundo me respeita, mas na época, não foi assim que aconteceu, né? E aí, os amigos das famílias, e o território... E aí as pessoas me viam com meu fio.
E aí, quando eu comecei a namorar com ele, eu tinha o cabelo grande, eu tinha cabelo comprido, e quando eu me iniciei no candomblé, eu já namorava com ele, eu fiquei careca, porque é um dos rituais do candomblé, né? E aí eu apareci aqui careca, e aí foi um peso assim, foi um impacto muito grande, porque as pessoas falavam: - Olha o que a macumba está te trazendo, está vendo? Macumbeiro, você vai levar, meu primo, meu amigo, vai levar pra macumba? E aí a gente enfrentou isso juntos.
E aí, quando eu começo a frequentar o galpão e começo a me envolver nos projetos, surgiu uma oportunidade que foi de criar na Vila. A gente formou o Comitê dos Artistas aqui do território, eu já fazia artesanato, eu já fazia as feiras, e aí eu fui convidada lá no início, para participar. E aí veio também uma verba de R$5.000, de R$3.000, para a gente fazer um evento. Então cada artista ficava responsável pela curadoria daquele evento, só que você tinha que idealizar o evento do zero. Eu sempre fiz, a gente sempre fez festa para as crianças. E eu associava muitas festas para as crianças; como a gente é da religião, a gente está agradando as nossas Erês, as nossas crianças e até mesmo a criança que a gente tem dentro da gente, né?
E aí eu falei: - Cara, eu vou fazer a festa das crianças. Eu não sabia que era evento cultural.
Eu achei que era festa, né? E aí quando veio essa oportunidade, aí eu falei: - Vou fazer uma festa para as crianças, nunca tiveram aqui no Lapena, eu vou fazer.
E aí, só que essa não era a proposta do projeto, né?
Mas eu falei com tanta empolgação que me deixaram fazer a festa das crianças.
E além dos R$3.000, eu fui buscar ajuda de outras empresas, escrevi ofício, conseguimos apoio da Fast Log, da transportadora Fast Log, que é uma puta transportadora, da Gaviões da Fiel, da Mancha Verde.
Eu falo que só a gente para ter unido Mancha Verde e Gaviões da Fiel, [risos] mas nós conseguimos, nos apoiaram a fazer uma festa dos sonhos. Assim, a gente trouxe até aquele Robotron, a gente trouxe para a favela. Aqui, as crianças nunca tinham visto um daqueles. Então foi uma festa linda, onde teve almoço, jantar, teve marmita, as crianças levaram marmitas para casa.
Então, foi uma festa muito rica, para o território, né? A Fast Log trouxe várias oficinas de arte, com direito a prêmio, mochila, kit escolar, então, foi.... brinquedos. Foi linda! Foi uma festa mágica, maravilhosa.
Quando passou a festa, todo mundo ficou muito feliz, falou muito bem da festa, mas aí me trouxeram para a realidade, de que não era esse o propósito do projeto.
Aí eu falei: - Cara, e agora? Como que eu vou continuar no próximo ano fazendo a festa para as crianças, né?
Aí eu falei: - Ah, mas eu vou dar um jeito.
E aí, eu falei: - Bom, eu tenho um projeto, então eu vou ficar nos artistas, eu vou fazer o evento. Só que eu quero trazer alguma coisa da minha religião para a gente começar a combater o racismo religioso que tem dentro do território.
E aí, meio que impactou a minha proposta, né? Meio que impactou, porque as pessoas falavam: - Não, mas você espera aí, todo mundo sabia que eu não entendia de evento cultural.
As pessoas achavam que eu ia fazer Gira lá dentro do galpão [risos]. E aí veio aquela curiosidade: - Mas como vai ser? - Como que você vai fazer?
E eu falava: - Não, vou fazer assim, assim, assim, assado.
E aí me deixaram fazer [risos]. Eu acho que eu sou uma pessoa muito insistente, daquilo que eu quero, né?
E aí deixaram eu fazer.
Aí: - Não, vamos fazer!
Eu falava: - Cara, tem evento sobre tudo aí no galpão, tem que ter... São as nossas raízes. Tem que ter, isso vai fazer muita diferença no território. As pessoas vão olhar a religião de outra com outros olhos.
E aí, dentro da Afro Brasilidades, eu faço uma feira de empreendedorismo, né? Por que o empreendedorismo é ancestral, os primeiros empreendimentos era o quê? As escravas fazendo bolos para os senhorzinhos, para ofertar no almoço, né? Então é nosso, isso está enraizado na gente, né?
E aí eu trouxe a Afro Brasilidades. A primeira Afro Brasilidades, eu tive que buscar pessoas de fora, porque ninguém queria participar aqui no território, nenhum empreendedor daqui do território quis participar.
Fora Maria Lúcia. A Maria Lúcia foi essa senhora que eu te falei. Inclusive, ela perdeu amizades por estar andando comigo, porque aí as pessoas falavam: - Ah, você nem é macumbeira e anda com a Kelly?
E ela falava: - Mas eu preciso ser da religião dela para andar com ela?
E aí se fortaleceu muito a nossa amizade, né?
E ela é uma senhora, uma senhorinha maravilhosa, que eu falo para ela que ela é minha segunda mãe, terceira... Eu já tenho duas. Ela é minha terceira mãe e as minhas filhas tratam ela como avó mesmo, chama ela de avó. E aí foi isso. Acho que eu me perdi na....
[02:43:49]
P/1 - Não, respondeu super. Eu queria saber. A gente já tá caminhando para o final. Eu queria saber o que é importante pra você hoje, na sua vida.
R - O importante para mim é levar para onde eu for, a minha essência do Candomblé, mas não o Candomblé como religião, e sim como comunidade, como pessoas que se preocupam com pessoas. Porque eu acho que muito do que eu sou hoje, do que eu tenho hoje, de profissão, eu trago do Candomblé, eu trago da minha essência, da minha religião.
Então é isso, é levar mesmo. Me perdi totalmente. [risos]
[02:44:43]
P/1 - O que era importante pra você?
R - Isso, o que é importante pra mim? É isso, é levar o meu propósito para o mundo, é levar o meu propósito para o mundo. O importante para mim é ter que trabalhar e ter dignidade para trabalhar. Trabalho por prazer, mas eu quero ser reconhecida pelo meu trabalho e quero que todas as pessoas que trabalham comigo, sejam reconhecidas pelos trabalhos. Então, acho que o trabalho é dignidade, né? E o que a gente traz como essência, são os propósitos que a gente quer espalhar para o mundo.
[02:45:26]
P/1 - E você tem sonhos?
R - Tenho muitos. Tenho muitos sonhos. E um deles, né? De toda mãe, é ver minhas filhas bem, né? Quando eu estiver mais velha lá, sentadinha na cadeira, tomando o meu solzinho, minha vitamina D, ver elas felizes. Que tenham trabalhos com propósito, futuros com propósitos. E também deixar, como eu falei, o meu legado para o meu território, para minha quebrada, e ver e se expandindo cada vez mais, mesmo dia que eu não estiver mais aqui.
[02:46:18]
P/1 - E me conta se você quer deixar uma mensagem, a gente já tá caminhando pro final. E a penúltima pergunta. Se você gostaria de deixar uma mensagem para as pessoas que vão te assistir e também para as pessoas que te conhecem.
R - Aí, é difícil, né? Eu acho que hoje, o mundo dos negócios, ele é tão... Muitas vezes, tão egoísta, né? E o jeito que eu sei falar. Mas é querer tanto para si, para si e para si. Eu acho que quando a gente divide com o outro a coisa se multiplica, né? E a felicidade, a riqueza, a riqueza daquilo que o dinheiro não paga, vem para todos. Então, eu queria deixar essa mensagem: - Pense em você, mas pense também no próximo. Para a vida fazer sentido.
[02:47:18]
P/1 - E como foi contar um pouquinho dessa história hoje para o museu? Ou revisitar essa infância? Revisitar o seu início da cooperativa? Todos esses momentos.
[02:47:30]
R - E quando eu falo em infância, na minha infância, vem uma mistura de sentimentos, assim como a minha mãe lá teve quando não sabia como lidar comigo veio uma mistura de sentimentos onde eu trago muitas dores, né?
Mas trago também, fica muito claro para mim de onde vem a minha garra assim, porque todo mundo fala, né? E eu me sinto também essa mulher guerreira, essa mulher que vai atrás daquilo que quer, daquilo que acredita. Então, voltando para trás, eu vejo por que eu sou assim, né? E o que mais?
[02:48:16]
P/1 - E como foi contar um pouco da história para o museu hoje? O que você achou?
R - Ah, foi maravilhoso assim, porque eu quero que a minha história sirva de inspiração para outras mulheres também, que às vezes não sabem a potência que têm dentro de si.
[02:48:36]
P/1 - Que bonito! Eu agradeço muito em meu nome e em nome do Museu da Pessoa, do Vitor e do Gustavo. Muito obrigada por ter compartilhado a sua história com a gente hoje. E também em nome do Instituto Paul Singer, o Marcelo não pôde estar aqui, mas ele mandou um abraço e muito felizes que essa história também vai compor esse projeto tão especial das memórias da economia solidária e do desenvolvimento solidário. Muito obrigada!
R - Imagina, eu que agradeço e me sinto muito honrada. Muita gratidão mesmo, de verdade, tanto por você estar aqui pelos meninos, tanto para o Marcelo que é uma pessoa maravilhosa, a Bia. E fazem parte também do meu desenvolvimento, eles são pessoas maravilhosas. Muito obrigada!
[02:49:25]
P/1 - Muito obrigada, Kelly. [risos]
[Fim da Entrevista]
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