Projeto Memórias da Vila Esperança
Entrevista de José Arnaldo Monteiro de Sousa (Professor Bonito)
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 30 de outubro de 2025
Entrevista MV_HV0015
Transcrita por: Miriam Allodi
Revisado por: Nataniel Torres
P/1 - Professor, eu vou pedir pro senhor começar me falando o seu nome inteiro, a data de nascimento e a cidade onde o senhor nasceu.
R - Sim, claro. Eu nasci dia 28 de setembro de 1969, e minha cidade, Juazeiro, Bahia.
P/1 - Seu nome inteiro.
R - Meu nome é José Arnaldo Monteiro de Souza, meu nome verdadeiro, e conhecido como professor Bonito, que dou aula na Vila Esperança, no Bolsão 8, e minha vida começou há muitos anos atrás, aravés de uma briguinha que eu tive com um colega, e o irmão dele era capoeirista, capoeirista e ele viu aquela confusão, separou nós dois, disse “então tu é brabo, moleque, vamos lá pra capoeira para ver se tu é brabão”, aí no outro dia eu fui, né? Eu fui para lá e quem estava lá era o Mestre Geraldo e o mestre André, e aí ele falou, ele me viu na porta e falou “entra para cá, menino, não fica na porta que eu não gosto, aí, senta na roda.” Aí eu sentei e ele começou a fazer perguntas “Tua mãe sabe o que tu está aqui? Aí eu falei que não, e ele respondeu “Você vai ter que trazer sua mãe para autorizar você treinar.”
Aí eu no outro dia, no mesmo dia, eu cheguei em casa e falei “Mãe, eu preciso que a senhora vai lá no MEC. Ela “vai fazer o quê?” digo “Não, quero que a senhora vá conversar com um senhor que tem lá, que dá aula de capoeira.” Aí ela foi, foi e conversou com eles e ela autorizou. E de lá para cá foi formando minha vida dentro da capoeira, n, treinando capoeira e todas as visitas, o mestre já me catava pela orelha, falava, falava para mim “ó a tal hora que eu tem que estar aqui” e eu tinha que estar correndo, e foi aí que eu me engrenei na capoeira e depois veio outros...
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Entrevista de José Arnaldo Monteiro de Sousa (Professor Bonito)
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 30 de outubro de 2025
Entrevista MV_HV0015
Transcrita por: Miriam Allodi
Revisado por: Nataniel Torres
P/1 - Professor, eu vou pedir pro senhor começar me falando o seu nome inteiro, a data de nascimento e a cidade onde o senhor nasceu.
R - Sim, claro. Eu nasci dia 28 de setembro de 1969, e minha cidade, Juazeiro, Bahia.
P/1 - Seu nome inteiro.
R - Meu nome é José Arnaldo Monteiro de Souza, meu nome verdadeiro, e conhecido como professor Bonito, que dou aula na Vila Esperança, no Bolsão 8, e minha vida começou há muitos anos atrás, aravés de uma briguinha que eu tive com um colega, e o irmão dele era capoeirista, capoeirista e ele viu aquela confusão, separou nós dois, disse “então tu é brabo, moleque, vamos lá pra capoeira para ver se tu é brabão”, aí no outro dia eu fui, né? Eu fui para lá e quem estava lá era o Mestre Geraldo e o mestre André, e aí ele falou, ele me viu na porta e falou “entra para cá, menino, não fica na porta que eu não gosto, aí, senta na roda.” Aí eu sentei e ele começou a fazer perguntas “Tua mãe sabe o que tu está aqui? Aí eu falei que não, e ele respondeu “Você vai ter que trazer sua mãe para autorizar você treinar.”
Aí eu no outro dia, no mesmo dia, eu cheguei em casa e falei “Mãe, eu preciso que a senhora vai lá no MEC. Ela “vai fazer o quê?” digo “Não, quero que a senhora vá conversar com um senhor que tem lá, que dá aula de capoeira.” Aí ela foi, foi e conversou com eles e ela autorizou. E de lá para cá foi formando minha vida dentro da capoeira, n, treinando capoeira e todas as visitas, o mestre já me catava pela orelha, falava, falava para mim “ó a tal hora que eu tem que estar aqui” e eu tinha que estar correndo, e foi aí que eu me engrenei na capoeira e depois veio outros esportes, foi karatê, também treinei um ano e oito meses, Kung fu, eu treinei também.
P/1 - Eu quero saber lá do comecinho antes, como que era essa infância?
R - A minha infância era na aldeia, na aldeia, que eu sou índio, e meu pai era índio. Minha mãe, minha avó, minha bisavó, meus irmãos são criados dentro da mata tudo, tinha que se virar, caçar, pescar para se manter.
P/1 - Como que era a casa?
R - A casa era, não tinha, existia palha e umas varas cruzadas. Uns lá chama vara, que é bem tipo um bambu, né? Que era? Como é que se fala? Caniço, tá? E era tudo cruzada aberta, a céu aberto, quando chovia, não molhava, a palha não deixava.
P/1 - Tinha irmãos?
R - Sim. Se vocês pensarem que eu sou, eu só tenho 1 irmão, vocês estão enganados. Eu tenho 51 irmão.
P/1 - 51?
R - É tudo por parte de pai, não é? Só conheço 3, que é um que mora em Cubatão, e os que faleceram, e tem mais 1 que está na cadeira de rodas e uma que trabalha aqui em São Paulo, na Receita Federal. É filha da Edite que ela teve caso com meu pai, né? Ela é da Receita Federal, ela me falou na minha cara “eu sou sua irmã, teu pai não é fulano de tal?” Eu digo sim, “Almir Monteiro de Souza”, e ela disse “Então, meu pai.”
P/1 - Qual é o nome do seu pai?
R - Almir Monteiro de Souza.
P/1 - E sua mãe?
R - Maria José da Silva.
P/1 - Como é que o senhor soube dos 51 irmãos?
R - Porque meu pai me falou. Meu pai me falou e minha mãe também.
P/1 - A sua mãe é a última esposa do seu pai?
R - Não, que meu pai estando com minha mãe, índio é assim, o índio, ele não tem forma, ele gosta da Índia, e ela quer, ele quer para ele, e assim vai, tá, eles tomam posse.
P/1 - E eles trabalhavam com o quê?
R - Meu pai trabalhava no cultivo. Trabalhava na fazenda para ganhar farinha e carne seca. Mas a nossa alimentação era farinha, quando tinha peixe, caça, nós comia, e o feijão que o fazendeiro dava.
P/1 - E eles são indígenas? De qual aldeia?
R - De qual? Tupi Guarani, eu não falava essa língua, para falar a verdade, quando eu cheguei aqui, eu era molequinho novo, tinha 7 anos, quase 8 anos de idade e não falava, eu era arisco.
P/1 - E falava qual língua?
R - Eu falava tupi guarani, tá. E quando vinha uma visita falar com minha mãe, eu me escondia embaixo da cama, atrás da porta, embaixo da mesa. Eu era arisco.
P/1 - A sua mãe era índia?
R - Era índia, só que ela já lidava com ela. Ia em Juazeiro ia pegar... meu pai também só que meu pai para mim, quando ele veio, antes de falecer, ele veio falar comigo, eu já não entendia mais, porque faz muitos anos que eu vim de lá. Eu vim para cá com quase 8 anos. Aí completei 8 anos aqui.
P/1 - E por que que veio?
R - A minha mãe me trouxe, meu pai ficou, trouxe eu, minha irmã, né? E eu e meu outro irmão, e nunca mais voltei. Mas eu sinto saudades de onde eu vivia. Eu andava pelado, tinha cocar aqui, o atacador de pena aqui também, aqui na perna, e andava com as flechas cruzadas.
P/1 - Mesmo pequenininho?
R - Mesmo pequenininho, entrava dentro de cambota, que lá é cambota, aqui é canoa, é barco, lá é cambota, cambota feita de madeira mesmo, a bruta, e eu entrava dentro do rio São Francisco sozinho, entre jacaré, sucuri, pegando piranha, tem marca até hoje na minha, mão não some.
P/1 - E por que que a sua mãe decidiu vir, diretamente para a Vila Esperança ou não?
R - Não. Vila Parisi diretamente, porque lá estava seca, sabe o que é seca? Vocês nunca passaram... A lavoura, nada... Meu pai, desempregado, falou “você vai ter que arrumar”, falou para minha mãe “você vai ter que arrumar um meio de vida.” Eu até minha mãe pedir para buscar a gente, eu estava mantendo, sustentando meus 2 irmãos que estavam lá, com caça e pesca.
Eu, porque menina mulher, o pai não gosta, o índio não gosta, vou falar a verdade, mas homem, menino, o homem quer curumim, ele adora. O curumim, ele é importante na vida de um apache e ele escolhe menino, homem, porque guerras, guerras eles usa muito.
P/1 - A sua mãe veio, te trouxe?
R - Mandou me buscar, não foi, ela me trouxe, ela mandou buscar e nisso nós viemos no pau de arara, antigamente caminhão, dentro da carroceria, até um certo momento em Juazeiro e de lá nós pegamos o Bonfim, antigamente existia esse ônibus. Eu lembro de muita coisa, o passado meu todinho, eu lembro, se brincar. E nós viemos nesse ônibus, eu, minha irmã e meu irmão, viemos para cá.
P/1 - Por que sua mãe escolheu aqui? Ela tinha alguém.
R - Não tinha opção.
P/1 - Mas tinha alguém conhecido.
R - Não veio com a cara e o mundo.
P/1 - Vou pra São Paulo.
R - Para São Paulo, né? E veio e mandou nós buscar nós.
P/1 - Como é que foi a sua chegada? O Senhor chegou aqui...
R - Oxe, olhando para tudo, assustado. Olhava as pessoas, me escondia dentro, dentro do carro, do ônibus. Às vezes eu pedia para minha irmã ficar do meu lado, não me largar, grudado nela, né? Minha irmã já não era tanto, mas, e nem meu irmão, eu era. Porque eles iam para cidade e eu não, eu nunca saí da aldeia, nunca, e fui acostumando, perdendo a linguagem minha, que eu, se eu voltar lá, já não vou entender ninguém, né? É um lugar que eu lembro que eu ia para mata, voltava sozinho umas 8 horas da noite, na escuridão, caçando e pescando.
P/1 - E quando o senhor chegou aqui, como foram os primeiros anos? Foi para a escola?
R - Nada. Fiquei o quê? Um ano sem conhecer nada. Aí minha mãe disse “você precisa ir para o colégio”. Aí me matriculou, né? E eu ia? Não... escondido, “mamãe, pro colégio eu não vou.” É aquele negócio arisco, aí, minha mãe, “você precisa aprender os modos aqui em São Paulo.” E eu fui devagarinho, né? Chegava uma pessoa com uma criança, eu encostava na criança já conversando com ela devagarinho, mas ela, “o que é que tu tá falando? Que que tu tá falando?” “É nada” Só minha mãe, meus irmãos, meu pai, né? Que é a aldeia, a aldeia, se você for falar com índios, Ele tem até te expulsam. Você acha que você pode entrar dentro de uma aldeia sem autorização do pajé? Não pode, e eles não gostam porque há muitos anos teve uma guerrilha de tomada de terra lá em Juazeiro, nos Algodões. Foram muitos mortos. E de lá para cá, não sei como é que tá aí.
P/1 - A sua mãe chegou aqui e foi trabalhar com o quê?
R - Cozinheira, ajudante de cozinheira lá na Usiminas, Cosipa, antigamente era Cosipa, né? E pegou aquela doença, Leucopenia, chegou a se recuperar um pouco, morreu com 81 anos na minha casa, né? Só que antes dela falecer, ela foi para lá para a aldeia e… (interrupção)
P/1 - Antes de chegar nesse futuro, vamos cair um pouquinho lá no passado, professor. Ela veio para uma comunidade também?
R - Veio para o lugar que matava muita gente, Vila Parisi, a Vila Parisi, era mal falado até na rádio, ela veio, começou a trabalhar pra juntar dinheiro, pra mandar pra gente vir. E ela nisso, trabalhando na Usiminas, de ajudante de cozinheira, pegou aquela doença, Leucopenia, e afastaram ela, veio o afastamento, ela aposentou. Só que não voltou a trabalhar mais porque não subiu o sangue, o sangue se tornando água, é, Leucopenia, é através do benzeno. Eu trabalhei na Usiminas 25 anos, ainda que depois que eu terminei o colegial eu fiz prova e tudo mais, e fui para lá.
P/1 - E aí, vocês ficaram nessa Vila Parisi Por quanto tempo?
R - Nós ficamos mais ou menos uns 15 anos? 15 anos.
P/1 - E a casa lá era como?
R - Era alugada.
P/1 - Mas ela era de madeira.
R - Aqui na Vila Parisi? Era de alvenaria, alvenaria. Era uma casa grande, de alvenaria, que tinha eu e minha irmã, ela, e meu outro irmão, que é o mais velho que mora no Costa e Silva, e era grande, tinha um quintal grande. Mas nisso, para me acostumar com esse pessoal, né? Foi muito tempo, mais ou menos uns 4 anos, por aí, e comecei a praticar futebol. Foi através da briga, né?
P/1 - Então a briga, o senhor, tinha quantos anos eu tinha?
R - Ia fazer 8 anos.
P/1 - Então foi aqui?
R - Foi na Vila Parisi, foi aqui em São Paulo e comecei a praticar futebol.
P/1 - Junto com a capoeira?
R - Não. Antes da capoeira, mas já tava falando a linguagem deles, né? E nisso aí. Foi aonde gerou essa confusão.
P/1 - No futebol?
R - No futebol, e esse menino, finado Cido ele, eu dei uma cutucadinha do pé dele e ele não gostou. E nós começou, veio para cima, vai indo para cima, briga de moleque. Nós nos atracamos, caímos nós dois no chão e no final, o Paraná chegou e nos separou, disse “você é valentão? Vamos lá para a capoeira para ver, já que você é valentão!” E nós fomos.
P/1 - Você gostou da capoeira de cara?
R - Foi de cara, que era meu esporte brigar, a briga era, mas eu gostava, mas hoje em dia eu estou proibido, estou proibido. Nisso comecei praticar e frequentar a casa do mestre Geraldo, e a minha vida inteira eu estudava, saía do colégio, ia para a casa do mestre Geraldo, meu pai, é o que me criou, né? Sem ter o pai atual, mas quem me criou foi, na realidade, foi o mestre Geraldo. Depois que eu comecei a treinar com ele, eu não saía, porque tinha tudo moleque novo, da minha idade? Quase: Tatinha, Pavão, Beto, André, né? E nós pegou uma amizade imensa. Sem contar esse finado Cido, que eu tenho lembrança que ele era, foi para o Corinthians junto comigo, né? Eu treinando capoeira, nós fomos escolhidos pelo finado Fisíco que nos apresentou na Vila Parisi, na quadra da Vila Parisi e a pessoa do Corinthians foi quem escolheu.
P/1 - Você jogou profissionalmente?
R - Joguei, joguei, joguei, esse finado Cido, está com a ficha aberta, a mãe dele, antes dele falecer, eu fui lá e ela olhou, abriu a lista, disse “ainda estou com a lista do Cido”, aí eu falei “A senhora não deu baixa. Como é que vai ficar isso aí?” e ela “Não tem como. que é só ele para assinar. “
Mas eu joguei, joguei mais ou menos uns 5 meses aí, por causa da que nós 2 era parceiro do futebol, uma amizade que se tornou, nós jogávamos muito bem, e nós fomos escolhidos um dia, no dia em que eu fiz cada jogada, junto com ele, nós foi escolhido, o Fisico que nos apresentou, pra pessoa que foi lá e levou para o esporte. Até hoje tem um filme, um jogo que eu fiz na ABC 2, eu fui e fiz 2 gols de classe, mas tá no celular de um colega meu, e aquilo ali foi a lembrança do passado, que nunca mais tinha jogado bola, e fizeram esse joguinho aí. Aí eu digo “vamos, bora lá.” E nisso, eu mostrei para eles o que é jogar... 2 gols de clássico, um de calcanhar, um de primeira, todos 2 de primeira, lançou para mim, eu fiz de calcanhar, de primeira, segundo também, eu chutei que o goleiro nem viu.
P/1 - Então o esporte sempre fez parte?
R - Sempre fez parte da minha vida. Então eu procuro o melhor para o aluno, para eles não ter sentimento nenhum de rua. Quer dizer, eu acolho a molecada. Pode ser menina, homem, mulher e criança. Qualquer um. Eu dou aula até para adulto, se preciso, né? Porque eu tenho um aluno adulto.
P/1 - O senhor falou que o mestre Geraldo foi seu pai de criação?
R - Foi de criação.
P/1 - Mas o pai da Capoeira, é isso?
R - É o pai da capoeira, ele foi o fundador da minha vida todinha, tirando de sete anos para trás, foi ele que me fundou, que deu o fundamento para mim da capoeira. Hoje tá suave, a capoeira antigamente era corretiva por fazer coisas erradas na rua, no colégio, e por bater em aluno na roda, ele dava um corretivo. Ele obrigava a gente a andar calçado na rua, se pegasse, era um corretivo. Se tirasse nota baixa, ia ver por que ele, para incentivar, e se tivesse jogando bola e brigando, era pior, então o método dele era estudar e esquecer a capoeira, mas vim com nota boa e nós usamos toda a minha vida, eu gostei porque eu levo o conhecimento que eu tive ao mestre Geraldo.
P/1 - O seu pai biológico veio para cá também?
R - Veio, depois ele veio, mas ele não gostava de cidade. Ele até chegou a brigar dentro de minha casa para ir embora para a Bahia na época, e eu não estava entendendo a linguagem “- Mas o que que vai estar falando? O que é que o pai tá falando?” E minha mãe: “Ele quer ir embora porque não pode ficar aqui. Ele quer estar olhando o verde.” Aí eu “não, pai, não esquenta a cabeça não.” (e eles falando) aquela embolada, “blá blá blá”, e eu “calma, pai, relaxa.” Até que chegou a óbito, ele morreu, faleceu aqui no meu braço, infartou. Não sei com que, ele não... Ele não era acostumado com a cidade, ele tinha suas casas de pesca, caça.
P/1 - Quantos anos você tinha quando ele faleceu?
R - Já tem 5 anos que ele faleceu, agora, foi recente, recente eu tive perca de 3 pessoas, 2 anos, 1 ano, eu perdi minha filha de 19 anos e meu pai. Minha filha foi ganhar neném, gêmeos, o médico errou, deixou uma placenta, o que aconteceu? Estragou tudo, infeccionou tudo... Aí depois da minha filha, meu pai, aí no ano passado passou um ano, minha mãe, depressão, dia e noite, e eu “Calma mamãe, ele está em bom lugar.” Ela chamava dia e noite o nome dele, andava, caminhava, e depois não conseguia mais. E colocava aquilo ali... “Almir está em casa, ele está precisando de mim” e chegou a óbito, minha mãe infartou também, porque quem guarda na mente, infarta, mas tem um porém: quando ele faleceu, ele estava preocupado, que eu estava na casa de um colega meu. Fui buscar uma ferramenta de serviço e ele perguntando para minha mãe “onde está o José?” Como que queria dizer alguma coisa antes de falecer? É isso.
P/1 - Professor. Você trabalhou com quem? Ao longo da vida?
R - A minha vida, com 12 anos. 12 não, 11 anos de ajudante de pedreiro, foi lá que eu trouxe a fundação da minha profissão, né? Ajudante de pedreiro, fazendo massa e olhando para aprender. E quando eu vim a conhecer e aprender, eu comecei a praticar ela também, pegando serviço por conta também, antes de ficar pela idade.
As casas, a maioria das casas do Bolsão, os donos, os patrões me procuravam porque eu era muito rápido na massa, no levantamento, ferragem também, eu era muito rápido. E os patrões brigavam “Eu quero ele para trabalhar para mim”, porque a minha metragem rendia, a dos outros não rendia. E ali foi onde? Vila Parisi foi tudo o meu ensinamento, Tudo.
O finado Dedé foi meu primeiro patrão, depois veio o Teto, que era parente do Dedé, brigando por causa de mim, que eu dava a produção e o resto não dava. Então, depois de lá da Vila Parisi, nós mudamos para o Bolsão. O Bolsão, eu mudei para lá com 14 anos e Vivi 25 anos lá.
E aquelas casas? Só tinha uma carreira de casa, né? E a do meio, da quadra do meio até chegar quase no Bolsão 9, lá eu trabalhei em todas como pedreiro, ganhei dinheiro demais. Mas para mim, não interessa o dinheiro, o que interessa é o que eu faço, mostrar que tem muita importância. Eu faço, dou aula de capoeira, e com o meu trabalho, sustentei meus filhos, você acha que eu tenho pouco filho? Eu tinha 6 e ficou 5, tem 2 que mora comigo, o resto é casado, os 3.
P/1 - Quando é que chegou aqui? Na Vila Nova? Na Vila Esperança?
R - Quando eu era casado, eu sou separado hoje. Eu morava no Bolsão, vendemos a casa de lá, ela teimou, porque queria sair de lá, que era muito alto, não sei o que, o valor, nós estávamos quitando aí da casa, aí eu comprei a casinha ali no Sítio Novo e nós já estava com 3 anos lá, foi aí que se tornou a separação. A separação minha foi ali, naquela casa, era toda de madeira, caindo aos pedaços, eu fui lá, neguinho me chamou de louco por construir de bloco em cima da lama. Hoje é uma bela de uma casa. Tá aí, eu mesmo levantei ela, fiz tudo. Tá.
P/1 - Conhecia alguém aqui na Vila Esperança?
R - Ninguém, ninguém. Juro.
P/1 - Como é que soube daqui?
R - Porque minha mulher, sei lá, endoidou, disse que lá era bom, que aqui, aqui era bom. E hoje eu vi que tem muito método diferente. Aqui é um local que todo dia tem ronda. Sabe o que que é ronda, né? Polícia?
P/1 - Conta pra gente.
R - É. Aqui é o local que você tem que andar prevenido, que às vezes, a hora vai uma bala perdida. Às vezes você sem de ver, você é preso se não tiver com documento. Às vezes você pode ser morto por um cara daqui da favela, sem fazer nada, então, tudo a gente tem que andar prevenido. Graças a Deus meus vizinhos me adoram, não sei porquê, falta um chuveiro ali, dá um problema, eu vou lá e arrumo, “ah, tem uma caixa ali, tá dando problema, dando vazamento”, eu vou lá e faço a caixa de graça. Então eu estou mais para ajudar a comunidade do que me ajudar. Meus alunos, fez batizado? Eu pago batizado, depois eles me pagam. Ah, entrou um aluno que não tem condições? Eu pego um uniforme, dou de presente, né? E assim eu vou levando a vida, esse ano eu fiz o batizado deles, custou R$2.800, esse ali me ajudou, ele se assustou com o preço do refrigerante, né? Mas um professor, quando ele gosta da coisa, de incentivar a criança, ele faz de tudo para incentivar aquela criança a treinar, e cobra da criança, o estudo, é fundamental, né? O estudo é fundamental em tudo, eles podem faltar nos dias de aula da capoeira, mas não podem faltar ao colégio.
Todo fim de ano eu cobro o boletim, só pega a graduação se o boletim for bom, se tiver uma nota vermelha, ‘vareia’ da mãe, se a mãe disser “pode entregar que eu assumo o resto” aí tá na mão, mas 1 nota vermelha, agora, se tiver todas..., nem pensar, nem pensar, eu não dou. Pode a mãe vir chorar, pode falar, entendeu? E eu não entrego. Outra coisa, o aluno acha que capoeira é balé, e capoeira não é balé. Eu já tenho uma estrutura ‘ossal’, toda quebrada, dedo da mão, dedo do pé, esse queixo, esse lado aqui, esse aqui, nariz que não tem mais osso, tá? Isso tudo foi dentro da capoeira, cabeça rachada, foi rachada aqui na capoeira também, tá? O queixo foi na capoeira, caí com o queixo no chão, pulando para trás, no alto, correndo, caí, quebrei, graças a Deus estou inteirão aí, tá? E tudo isso eu passei dentro da capoeira, porque incentivo. Nunca gostei de graduação, nunca, os meus irmãos me cobra “aí, seu bosta! Era para você estar com a graduação de mestre” e eu não aceitei. Estou sendo apertado esse ano para no ano que vem estagiar para receber em 2026, 2027. Mas minha vida foi tudo dentro da capoeira, tudo. Eu criei meus filhos trabalhando, ganhava bem, graças a Deus. E hoje que estou ganhando um pouquinho, mas dá para viver, mas se eu sair dela, vou para outra, vou ganhar bem, manter minha casa.
P/1 - Eu estou aqui curiosa, pensando quando o senhor chegou aqui? Que ano foi? Na Vila Esperança.
R - Ixe, se for olhar, foi em 80? Não 79. 79 por aí, não sei
P/1 - Como era o bairro?
R - Olha o bairro, se você vê, você se assustava, todo dia era uma morte, eu passava e já estava acostumado, o corpo aqui esticado, era a mulher, era homem, tudo morto, jogado, dentro da Vila Parisi, molecote de novo, depois que me acostumei com o pessoal
P/1 - Na Vila Esperança?
R - Na Vila Parisi.
P/1 - Não, mais aqui da Vila Esperança, eu quero saber como era o bairro aqui.
R - Aqui na real, aqui não existia casa, aqui não existia casa, quando eu passava no ela lá veio ela antigamente não, não era buso, não era ônibus, era o ELA (não encontrei nenhuma alusão a essa sigla ou apelido), o Casqueiro, já existia a Vila dos Pescadores, nem existia isso aqui, não existia, só o Caminho 2, e quem morava lá? O mestre Capoeira, ali no final da Vila Natal, ali é o Caminho 2, não existia isso aqui tudo.
P/1 - Então não tinha Vila Esperança?
R - Não, não existia, quando eu cheguei aqui, não.
P/1 - Tinha gente morando?
R - Negativo.
P/1 - Ninguém?
R - Não, aqui não. Aqui era mata pura, era mata, nem essa ponte aqui não existia, tá? E era uma carreira de casa no Caminho 2. Tá? isso aqui foi invadido tudo, morreu gente aqui para invadir isso aqui. Teve morte aqui, guarda morreu, guarda matou, polícia matou por causa da invasão.
P/1 - O senhor invadiu aqui?
R - Não, eu não. Graças a Deus. Eu nunca, nunca, nunca, nunca na minha vida, graças a Deus, eu paguei, na época, eu paguei na minha, no meu, era um barraco de madeira, eu paguei R$16.000.
P/1 - E para quem?
R - Para o dono do barraco, mas eu paguei a vista.
P/1 - Quem eram os donos do espaço do barraco?
R - Do barraco da Vila Esperança? Meu barraco, que eu moro hoje, era da Guida, ela mora na Vila São José. Ela tem uma irmã que foi quem me mostrou o barraco, a irmã dela que me mostrou, aí eu comprei.
P/1 - E aí o senhor construiu, você falou em cima da maré?
R - Eu na maré, no mangue mesmo, eu fiz a casa de alvenaria.
P/1 - Aterrou?
R - Aterrei. Nada. Sem aterro. Aí, depois de pronta a casa, telhada todinha, eu fui arrancando o assoalho e aterrando, eu e meu filho, meus dois filhos. Mas todo mundo me chamava de louco, deitado na lama, deitado na lama pra encher os baldrame, com a barraca em pé, eu não desmanchei nada, morando dentro.
P/1 - E não tinha vizinha?
R - Tinha, mas tudo trabalhando, eu tenho vizinho na frente, no lado, do outro.
P/2 - Mas eles foram chegando depois? Quando você chegou era tudo vazio?
R - Depois, foi chegando depois, não tinha, não tinha, não tinha. Só tinha o barraco da irmã dessa Pita e da outra.
P/1 - Como é que o senhor fez com água, luz?
R - Não, tinha, tinha, que e o barraco era todo já clandestino, tudo clandestino. Era puxado do poste mesmo, não existia relógio, mas, depois foi que surgiu a CPFL, que era a Eletropaulo, e colocaram o relógio, a água, também..
P/1 - Quando o senhor chegou aqui o Sr. falou “quero morar aqui”?
R - Eu não me agradei não, que eu já estava acostumado no Bolsão, minha infância todinha, que apesar de tudo, quando eu comecei a trabalhar em empresa, foi quando eu saí do quartel. Eu me alistei com 18 anos, fiquei 5 meses. Aí pedi dispensa porque antigamente não tinha salário no Exército, hoje tem. Aí eu pedi para minha mãe ir lá. E pedir para dar baixa.
P/1 - A sua mãe veio para Vila Esperança também?
R - Não. Minha mãe, depois que eu que eu casei, ela pegou, vendeu a casa, comprou duas em Campinas, depois vendeu as de Campinas e foi embora para casa, para os Algodões.
P/1 - E a capoeira, o senhor começou a colocar também aqui na Vila Esperança?
R - Eu Fundação foi, minhas aulas todinhas no Bolsão, eu comecei a dar aula no Bolsão há 25 anos atrás, 25 anos atrás. E hoje eu já dou aula, não, não foi há 25 anos atrás no Bolsão porque, quando eu comecei dar aula, meu cordão não tinha fundamento, era principiante, principiante é quase chegando nesse verde aí, o Geraldo me liberou, tá? Me liberou pra dar aula com esse cordão de principiante.
Aí fui pegando graduação e pegando, pegando, aí mais apanhando que antigamente a capoeira era muito perigosa. Era muito, não tinha esse negócio de alisar pé, batia mesmo. Não tinha dó, não parava o pé, hoje em dia eu tenho dó, porque eu acho que tudo tem que mudar, tudo, e se você bater dentro da capoeira, a criança, ela vai aprender coisas ruins. Se você dá uma rasteira, vai querer fazer na rua. Se você maltratar, ela vai maltratar dentro de casa. E a capoeira não quer maltratar nem brigas. Ela quer respeito.
Disciplina é isso, a capoeira é tudo para o lado da disciplina, tá? Antigamente meu mestre me disciplinava na base da pancada, eu fazia uma negativa, que nem vocês viram eu jogando ali com meu aluno? Desci com a perna esticada, a outra mão no chão, aquilo era uma negativa. Aquilo alí, quando eu girava para ficar em pé, ele aproveitava com a batida, chega, estralava.
P/1 - Batia com a mão?
R - Com o pé, os dois pés. Então hoje é só um batido assim (fraco). Por quê? Porque você perde muito aluno batendo nele, você perde. A não ser que seja um corretivo, um corretivo ótimo para ela ter medo, ter medo é não fazer aquilo mais, não fazer. Porque se ela fizer, fizer, a mãe vai dizer “dá um corretivo”, aí ela vai ter medo.
Então o mestre Geraldo, se pegasse na Vila Parisi, principalmente descalço ou pulando muro, ou maltratando colegas, ou no colégio, tiver de castigo, ele ia, andava tudo, era um bairro pequeno, né? Todo mundo conhecia todo mundo na Vila Parisi, então ali era onde você não podia fazer nada, que ele dava o corretivo.
Eu há muito tempo treinando com ele, desde criança, eu batia nos alunos dele e apanhava sem saber, e foi um dia, que eu fui pegando idade, com 12 anos eu vim a descobrir por que eu apanhava, aí eu cheguei “Ó pai, porque que o senhor tanto me bate? Não bate nos outros?” e ele, ”porque você anda batendo nos seus irmãos de roda”, então ele já me dava o corretivo por causa disso, eu descobri, e hoje eu sento do lado dele, falo com ele, aí eu falo “Pai, é o seguinte: eu não queria me formar não, mas o Tabu e o André tá querendo me formar. Como é que eu faço?" Ele respondeu “Não, você já está formado por mim 2 vezes (como), professor, (como) aluno está formado 2 vezes, então você vai se formar de novo a contramestre e mestre, acabou. E disse “se era para mim estar no teu batizado, porque eu que sou seu mestre, hoje em dia, quem é seu mestre original, que lhe dá aula, junto com você? Começou junto com você, é o tabu, então o Tabu pode te formar.”
O André, ele é presidente, tomou a presidência porque o meu pai deu a presidência da associação para o André, mas o Tabu é coordenador, eu se eu tivesse me formado a mestre, eu era alguma coisa no meio disso aí. Mas eu não quis, que nós treinávamos juntos, era o Tabu, ele tem menos idade que eu, uns quatro meses, minha meia idade ele é, o André, é mais velho do que eu, pouca coisa. O Beto é mais novo do que eu, quase, mas ele tem estrutura, é um mestre que grava todos os CDS da capoeira. Ele é a pessoa que faz a música da capoeira aqui na Baixada, o Beto, e eu comecei agora a fazer música também. Então, uma coisa que eu falo, meu fundamento não foi por acaso. Por isso que eu estou passando para meus alunos, minha vida, eu já falei como é que era, e para eles é através do filme também, eu fiz, eles fizeram documentário comigo, né? Tem vídeo meu batizando aluno, que é esse aqui ó. Estava lá, tudo presente, tudo presenciando tudo minha vida.
P/1 - Tá. Professor, o senhor ficou morando aqui na Vila Esperança e aí fazia aula com Mestre Geraldo lá na Vila?
R - Não, Mestre Geraldo, ele entregou a associação em 2008, pro André.
P/1 - Mas aí o senhor fazia aula onde?
R - Através do meu irmão, eu dava aula e recebia dele.
P/1 - Aqui na Vila Esperança??
R - No Bolsão 8, eu tenho aluno no bolsão 8.
P/1 - O senhor trouxe a capoeira aqui para Vila Esperança?
R - Eu trouxe.
P/1 - Quando?
R - Eu trouxe a Associação, que não tinha, trouxe há 4 anos atrás, foi em 2021, isso aí.
P/1 - É recente que o senhor trouxe essa capoeira pra cá.
R - É que a meninos guerreiros só tem 1 filial, que é o Fábio, o Mestre Cabrito, ele é filial da Meninos Guerreiros, tá? E tinha o Liminha, Liminha que era da Meninos Guerreiro.
P/1 - Meninos Guerreiro é o quê?
R - Essa associação aqui.
P/1 - Que o senhor faz parte?
R - De capoeira, tá? Ela tá no Humaitá, São Vicente, Praia Grande, Santos está aqui, está no Vale Verde.
P/1 - E o Sr. trouxe pra cá, o senhor que fundou aqui na Vila Esperança.
R - E foi a Meninos Guerreiros, foi. Aí depois vieram tentar na Vila Natal e não deu certo, e eu continuo aqui.
P/1 - Porque é importante ter capoeira, ter associação aqui na Vila Esperança?
R - Porque é onde precisa disciplinar muito o aluno, muita criança, para não ficar jogado no meio da rua aprendendo o que não presta, né? Que onde você anda as crianças, (usam) cada palavreado, xingando um ao outro que não sei o quê, fulano de tal, e são sapecas, hein? (ficam) jogando pedra nas casas, nos barracos dos outros, quebrando, pegando o que é dos outros.
Então tudo, até é disciplina e se treinar comigo, a disciplina já muda, a criança já vai mudar, já vai estar no senso dela de respeitar o idoso, criança mesmo, que eu cobro muito, pode ser pequenininho, tem que respeitar, entendeu? É isso que eu (ensino) e conselho também eu dou, a essa (menina) aqui, eu dou conselho, esse ali, todos os alunos meus.
P/1 - Que tipo?
R - Falo “ó você tem que respeitar sua mãe dentro de casa, não tem que estar malcriada, você tem que ajudar ela, você tem que ser valorizada dentro de casa e na rua, porque senão você vai ficar mal falada, que bate no teu pai, briga com teu pai e responde ele. Aí o vizinho fica escutando, aí vai, pega, ganha uma fama daquilo ali. Então eu disciplino do começo, que começou a treinar comigo até o final, até quando ela quiser continuar.
P/1 - O senhor trabalhou em muitas coisas, né?
R - Trabalhei.
P/1 - Mas nunca largou a capoeira?
R - Nunca, nunca, nunca mesmo. Às vezes eu trabalho e meu horário não chega naquele horário, que eu tenho um horário de dar aula. É 18h20, meu treino, minha aula, é quando eu chego atrasado, eu já passo no celular pra avisar o fulano, “Eu tô chegando aí, calma lá, relaxa, tô tomando banho, já tô chegando.”
Às vezes tem policiamento, eu aviso “pessoal, não vai ter treino não” por quê? Porque minha preocupação é as crianças, as crianças, que é minha preocupação. Então, quando tem revisão aqui, eu já falo, “hoje não vai haver aula por motivo disso aqui”, para não pôr a vida das crianças em risco, porque se você tem responsabilidade, é sua, não pode transferir para ninguém, é sua.
Se uma criança se machucar, eu tenho que fechar a porta da academia, acabar o treino e ir para o pronto socorro e ligar para a mãe com os documentos, os dados todinhos. É para isso que eu tenho as fichas, as fichas de inscrições deles, por isso que eu exijo os documentos deles, porque se um se acidentar, é eu que vou estar responsável, certo? No ano passado teve um acidente lá na minha academia, com uma aluna do Bolsão, um aluno meu, o Fumaça, foi fazer uma tesoura e quebrou dois dentes da aluna, quebrou, não teve jeito de voltar os dentes, meu irmão pagou, sabe quanto? R$3.000 para repor, mas está com ela, ainda tem um curativo? Vai repor, vai fazer o implante, então, tudo isso é minha preocupação, não só minha, como dos mestres da Meninos Guerreiro dando aula, e eu sou o mais responsável por tudo aqui na minha (academia)
P/1 - Por que o senhor me disse que o senhor era o professor bravo?
R - Porque antigamente eu, dando aula, meus alunos sofriam, eu batia neles na roda, jogando com eles. Às vezes eu lembro de mim quebrando um braço de um aluno. Não vou mentir não, eu estava formando ele, era a um cordão verde, só que ele não compareceu, ele viajou, avisou e disse “ô, professor, eu estou viajando, vou viajar e tem como o senhor me entregar o cordão quando eu voltar?” Eu digo. “Vou pensar”. Não foi por maldade, né? Eu fui, fiz um movimento, uma chaleira, ele caiu por cima do braço e quebrou na hora.
O que acontece? Há acidente também, tá, só que nós corremos com ele para o hospital. O mestre, hoje ele é mestre, foi, socorreu e eu fiquei na academia.
Então tudo isso acontece, tá? E aconteceu com esse aqui, ó, jogando com o meu aluno cordão azul, ele dormiu na roda, uma joelhada, sem maldade nenhuma, ele mesmo bateu no joelho e ele dormiu, desmaiou, esse aqui, ó.
Então tudo isso ocorre, se você receber uma Meia lua de Compasso (nome de golpe de Capoeira), e não morrer, se atingir isso aqui (a lateral da mandíbula) quebra. Eu quebrei dando aula para um aluno que estava aprendendo esse aqui, esse aqui, eu quebrei dando aula para um já formado, ele me deu uma Meia Lua de Compasso, eu não vi o pé dele vindo, e quebrou também. De vez em quando sobe um negócio frio, que é o sangue subindo e eu sinto.
O nariz, isso aqui foi uma formatura, na formatura, eu levei um Martelo (nome de Golpe) aqui, meu nariz sangrou todinho, o sangue escorrendo e eu jogando, nem percebi, o sangue quente, o corpo quente, depois fui lá no banheiro, estava lavada a camisa de sangue. Aí fiquei assim uma meia hora voltou, parou, eu voltei para a roda, o nariz dessa altura.
A testa, foi uma história quando eu era criança, pulava muito, eu era formado em acrobacia, tá, eu era formado. Meus alunos tudo aprenderam, eu passava para eles quando era mais novo, no Bolsão é que é mais, os daqui eles tem medo. Quando o aluno ele, ele é bom, vai se tornar um capoeirista, ele já vai aprendendo do começo, e com raça, sem medo, né? E eu pulava, fui fazer o Shaolin (movimento do Kung Fu), antigamente tinha Shaolin, é um pulo que você corre e pula para trás com um pé só. E nisso, isso foi no Bolsão, onde hoje em dia, é um pronto socorro, não era pronto socorro, era Academia da Meninos Guerreiros, e eu fui fazer acrobacia, com todo mundo jogando os mestres, os contra mestre, e o suor escorria, escorreu, e eu não percebi nada, na hora que eu corri, um pé já estava no alto e o outro deslizou no que deslizou, eu caí de pé e com isso aqui (testa) rachou, tem umas marcas aqui, quando eu cheguei em casa para falar para minha mãe, já entrei para o banheiro escondido, né? De menor, tomei o banho, ela nem percebeu.
No outro dia, quando ela viu inchado, nem de médico eu fui. Aí perguntou “O que Que foi isso, menino?” E sem contar os dentes tortos e aqui também (queixo) o machucado ainda estáva em carne viva... “O que foi isso?” Eu falei “Não, isso aqui foi eu brincando.” - Fiquei brincando o quê? E quem disse que eu aguentava triscar aqui? Nem comer, e aqui? Aqui estava fazendo assim (pulsando). E aqui também, enganei ela e sarou sem precisar... entendeu? Eu peguei aquele mato que a gente usa mesmo, o Mastruz, bati ele, fui bebendo. Essa aqui é a perna que ficou 6 meses, usei mastruz, eu não uso medicamento nunca, nunca. É difícil eu ir no médico, só para extrair um dente, e os meus dentes, quem está arrancando sou eu. Mas graças a Deus, tudo através de que? Conhecimento da capoeira, do que a gente tinha quando era criança? Meu pai faz aí a garrafada, para vender, para se manter, o pajé também tinha muita coisa, de moleque, quando ele, o indígena, ele aprende de tudo, rápido.
P/1 - Você continuou com alguma cultura indígena?
R - Sim. Fazer tarrafa, fazer rede, fazer corda, balaio, que é cesto, né? Eu faço flecha, eu faço, eu faço tudo, artesanato, faço até aquela coisa com, como é que é o nome que tem? Tipo marisco? Como é que é marisco? Aquelas conchinhas eu faço pulseira também.
P/1 - Eu fico pensando, o senhor jogou capoeira o tempo todo enquanto trabalhava?
R - Sim.
P/1 - Que hora que a capoeira virou seu ganha pão?
R - Quem ganha pão de quê? Não, não existe salário não, gente! Vocês acham que eu vou? O meu mestre cantou uma música formando meu irmão. E ela falava assim, falou para ele na música e para o outro para se tocar, que ele gosta de dinheiro, o André. “Você precisa ensinar, mas não precisa ter dinheiro, faça tudo por amor, e é pelo amor que eu estou fazendo hoje”, porque ele me ensinou, tá? Eu não ganho nada não, o meu investimento dentro da capoeira é do meu salário. Falar a verdade, um aluno precisa de um uniforme, não tem condições, eu vou lá e banco, um batizado, quando não tem condições eu digo “não, você vai se formar sim, eu pago seu batizado” e daí por diante. No Bolsão, aqui, eu faço tudo isso pelos alunos, porque a mãe chega, não tem condições. Às vezes é filho sem pai e mãe sem condições de trabalhar, quantas e quantas vezes a mãe chegou? “Não tenho nada. Tem como me arrumar uma cesta básica”, essa menina aqui já presenciou eu falando sobre cesta básica, não é isso, William?
P/1 - Então, seu salário vem de onde?
R - Meu salário? Através do meu trabalho, hoje eu roço mato, eu também tenho carteira, gente, minha profissão. Sabe quanto é meu salário? Vocês vão cair de costas, a única empresa que eu entrei que o salário é baixo, R$1.500, e já pedi para mandar embora, não manda, e com muitos empregos querendo que eu vá trabalhar, aqui no Caic, meu genro me encheu o saco, ele é encarregado, me encheu o saco “Sai de lá e vem pra cá, velho. Vem ganhar um dinheiro aqui.” Outra de Santos me chamou, uma de lá de São Paulo também me chamou pra ganhar R$2.800, com a mesma função daqui que eu tô hoje, não, não tem como. Eu tenho 4 anos na empresa, nunca dei trabalho pra eles. Eles vão me mandar embora? Pedi e eles falaram pra mim “pede conta.” O que que acontece? Às vezes a academia precisa de berimbau, já estou precisando, eu falei com quem trabalha, já os alunos, “vamos fazer uma vaquinha e comprar um berimbau ali?” Dois “Ah, preciso de um pandeiro, vamos lá e comprar”.
Fazer todo mundo, até eu vou ajudar, o couro do atabaque precisa também, Takami (tatame). Os alunos vão fazer uma acrobacia, e eu tenho medo deles se machucarem. Essa aqui é uma, esse ali é outro que me cobra acrobacia, eu passar, e eu com medo deles se machucarem, uma acrobacia se torna uma morte, se cair de mau jeito, ou uma quebra de braço, tá que pode quebrar o braço, pode rachar a testa.
P/1 - O Senhor, tem todo esse cuidado, né?
R - Tenho todo esse cuidado.
P/1 - Agora quero saber qual é o teu apelido?
R - Bonito, formado pelo mestre Geraldo, por quê? o meu jogo, antigamente eu jogava lindo demais, tanto Angola como São Bento, que é regional, né? Eu jogava muito bonito, eu fazia acrobacia no alto. Eu ia entrar para jogar com Mestre Geraldo, eu já ia com a coreografia, um gato, um macaco mortal, eu fazia mortal muito bem, tá?
P/1 - E aí apelidaram de Professor Bonito.
R - Não foi apelidado por qualquer um, foi pelo meu pai, Mestre Geraldo, que hoje eu agradeço muito. É por isso que ele tem a música que ele deu falando “Ai, ai, ai Deus, oi, joga bonito porque eu quero aprender,” entendeu? Foi através disso aí que ele fez a música.
Ele fez a música em homenagem a mim, e hoje eu faço em homenagem a todos os meus alunos: ’Tem dendê, tem dendê, a Índia tem dendê, tem dendê, tem dendê, o arroz doce tem dendê”, é música minha que eu ponho os alunos tudo no meio dela. Cada vez mais, aluno entra e sai, porque vai mudar para outra cidade ou para outro bairro, e deixa a capoeira, e eu recomendo, “lá tem Meninos Guerreiros, então vocês podem treinar na Meninos Guerreiros, não tem problema, em outra, você tem que pedir autorização para mim”, aí eles fazem, vai mudar para outro bairro, lá vamos supor, para a Praia Grande, eles já perguntam “Professor, posso?“, eu digo “ Pode”, assim, porque lá tem Meninos Guerreiros, agora se for para outra academia, “você quem sabe mas não usa a calça dos Meninos Guerreiros, senão os caras vão te bater”. Aqui foi recomendação de um aluno que falou endoidou por esse espaço, esse espaço aqui é do Zumbi, no dia de sábado, e dia de quarta-feira. Ele endoidou,” pô! Tem um salão, um espaço ali. Professor, o senhor pode ir lá pra nós dar aula lá.” Hoje em dia quem dá aula é ele, mas eu tenho que estar colado, tá?
P/1 - Desde que o senhor chegou aqui na Vila Esperança, o senhor ficou?
R - Fiquei. Colei, né? Porque eu vejo que é carente, aqui é carente, e aqui é onde precisa mais de apoio para as crianças. Se todos fizessem o que eu faço, um pouquinho, ia ajudar eles. Eles têm disciplina, eles se preocupam mais com a vida deles, se todos fizessem isso aí... O único que faz aqui, que fazia, hoje em dia ele não dá aula aqui, é o Fábio, então, um pouquinho que o mestre ou o professor contramestre de capoeira se preocupa com o aluno daqui, ele vai plantar muita coisa boa.
P/1 - Por que é importante pro senhor ficar na Vila Esperança e ajudar esses alunos?
R - Porque eu vejo que é muita, como é que se fala? Muito perigoso aqui. Eu vejo que é muito perigoso aqui, e você tem que incentivar as crianças pequenas, de 14 pra baixo, e a criminalidade tá muito grande. E a capoeira, ela pode salvar, de 20, ela pode tirar mais ou menos 5, 10 alunos.
P/1 - O que o Sr. mais gosta da Vila Esperança?
R - Eu gosto de ver as criançadas que estão treinando comigo, que são umas crianças que hoje, eles não tinham disciplina, e está tendo. Esse aí, por exemplo, sempre foi disciplinado, mas estava malcriado com a mãe e hoje eles não fazem malcriação.
P/1 - E do bairro? O que que o senhor gosta, do bairro?
R - Do bairro? Do bairro está faltando muita coisa para melhorar, sabe? Eu gosto um pouco daqui, porque minha filha mora no Morro do Índio, eu só estou aqui por causa de minha filha, pra falar a verdade, senão tinha ido embora para Bahia, meus filhos, é o que me segura mais aqui. Eu gosto de curtir minha vida, estar em casa no dia de sábado, quando eu termino o treino, assistindo só coisas boas, desenho... Olha, eu sou fanático, você acha que eu não sou? Quando eu era criança eu pulava parecendo um Superman, o Superman com 13, 14 anos, eu sou, eu era fanático, Homem aranha (se emociona) também nem se fala, eu pulava do banheiro lá na Vila Parisi, entendeu? Minha curtição, eu não existo dentro de baile, dentro de bar, só entro no comércio para comprar um arroz e feijão, meus filhos, não anda, e assim mesmo, não gosto.
P/1 - Quando o senhor chegou aqui, o senhor me contou que tudo era mato, tudo era mangue, era mato.
R - Eu não morava aqui, eu não morava, não existia esse bairro aqui, passava por um acaso, quando nós íamos vir para a academia do Mestre de capoeira, que era no Caminho 2.
P/1 - Mas quando o senhor veio para cá e aí?
R - Não, não, aqui era mato.
P/1 - Antes era mato, e hoje é o que? me faz essa comparação.
R - Hoje é um bairro que cresceu muito, tirou a natureza, você acredita que tirou a natureza? Tirou, e ela precisa voltar, ela vai tomar conta. Isso aqui era mar, e o mar volta de novo, pode escrever o que eu estou falando, a natureza é tirada dela, mas ela retorna, insistindo. Tá, gente, ela retorna. Por quê? Como que a natureza não volta? Eu estava roçando na Imigrantes, uma onça passou de um lado para o outro. Ninguém viu, só eu, aí eu falei “Olha a onça” teve um que viu, quando eu apontei a onça lá, ela estava vindo para o lado da Vila Esperança. Então, criança que fica aqui nesses mangues, eu já avisei para os meus alunos, “eu vi uma onça” não fica vacilando tarde da noite, entendeu? Ali no frango assado, pertinho do Frango Assado restaurante, eu vi a onça para cá um pouquinho, vindo pegando para subida da São Paulo. A natureza, ela toma conta, que está tendo jacaré, eles estão querendo seu habitat. Então o morador daqui acha que vai estar para sempre aqui, o mar, (quando) a geleira do Pólo Norte derreter vão tomar conta aqui, eu sonho com isso dia e noite. Eu tenho que comprar um barco, porque qualquer coisa...
P/1 - Que o Senhor quer para o futuro?
R - Futuro, é meu futuro, olha, eu quero meus alunos, eu velhinho e meus alunos lembrando de mim, plantando as coisas boas para amanhã, os que receberam a plantação, lembre que esse aqui, foi esse fulano de tal.
P/1 - Quem é o fulano de tal?
R - Todos os fulanos de tal, meus alunos e meus filhos. Meus filhos, eu dei uma moto pra cada um. Vou lutar para dar uma casa para cada um, se Deus quiser. Eu sonho em ter uma academia para que eu possa não precisar de mais ninguém para ter 24 horas.
P/1 - Aqui dentro da Vila Esperança?
R - Aqui ou em qualquer lugar, eu onde eu achar um espaço eu vou dar aula de segunda a domingo. Por quê? É onde pode mudar alguma coisa, a disciplina. A capoeira antigamente não era lembrada, mas hoje está começando a ser lembrada. Então nós mesmos, temos que fazer por onde ela seja lembrada para sempre, através de quê? Disciplina das molecadinhas? Para eles terem um futuro melhor.
Imagina eu, se eu não to na capoeira hoje? O que que eu ia me tornar? Podia me tornar um bandido, podia me tornar um cara que matava gente, podia me tornar uma pessoa ruim no mundo, que não ia ter vida social boa, mas hoje, tudo a capoeira mudou para mim, ela mudou minha vida porque eu fui disciplinado, disciplinado pelo mestre melhor que tem, da Baixada, foi quem formou todos os mestres, Geraldo eu não esqueço nunca. Ele pode estar trabalhando na borracharia onde ele estiver, todo sujo de óleo, ele diz “eu estou com a mão suja”, - Não, mestre aqui, nós estamos aqui, por que não? Ele que me disciplinou, ele que me criou dentro da capoeira. O André ajudava, mas quem sofreu mais? Quem segurou nós? Quem disciplinou? Geraldo.
P/1 - E hoje o senhor é um professor assim com o mestre Geraldo, foi para o senhor. O senhor é professor de muitos alunos.
R - Muitos alunos, então eu preciso que eles cresçam e vai plantando mais semente pela frente, boas sementes. Não quero sementes ruim, por quê? senão vai prejudicar onde eu habitar.
P/1 - Professor, quantos filhos o senhor tem?
R - 5
P/1 - E netos?
R - 3.
P/1 - O que o senhor quer?
R - 3 não, só de uma filha, eu tenho 3, da outra que faleceu, tinha 3 também, 6 filhos.
P/1 - Seis filhos e 6 netos?
R - Era 6...
P/1 - O que o Sr. quer que eles lembrem do Senhor na história.
R - Ai, ai, mas tem uma que não sai do meu pé, eu quero que ela lembre que eu fui um avô bom, até para eles, que eu sou brincalhão. Meus filhos me abraçam, me beijam, brinco com eles, com respeito, não posso sair do respeito. Brinco com eles, eles às vezes falam “velhinho, para com essa capoeira”, e sendo meus alunos, tá.
P/1 - Todos fazem capoeira?
R - Só 2. Os 2 meninos eles faziam, tem um que fazer que pegou o cordão amarelo e parou, o outro, ele pegou de principiante, o mais velhinho, mas eu quero que eles lembrem de mim, um dia, que eu fui pai para não abandonar eles, porque se você abandona seus filhos, eles vão se tornar o quê? Pessoas ruins que não vão ter o apoio do pai nem da mãe. Jamais você pode bater num filho, eu nunca bati, eu diálogo, é a coisa melhor que tem entre o pai e o filho, é um diálogo, porque se você bater, ele se revolta pro mundo, existe baile que às vezes a mãe mal cria e o filho pulou a janela e vai para o baile. Aí se torna o quê? Malcriado, não obedece à mãe, não faz o que a mãe quer, e ainda xinga ela. Eu vejo muito aqui no bairro, aqui eu vejo muito.
P/1 - O senhor acaba fazendo um papel de pai de muitos alunos, né?
R - Muitos. Às vezes tem um ali chateado, com a cabeça baixa, né? E pensativa, eu chego, “preciso falar com você, o que está acontecendo? Por que você está assim?” diz “Ah, não, professor,” eu digo “não, se abre comigo que eu me abro com você. Vamos conversar. Se eu puder ajudar, eu não vou te atrapalhar.“ Aí ela começa a soltar, conversar comigo. Aí eu digo “Não se preocupa não, é assim, assim, assim, assim, ajuda o teu pai, teu pai merece.” Eu tive problema com a Maju, com alegria, a Maju é uma menina que ela teve problema com o pai, e eu fui lá e conversei e vê se não mudou o quadro? Ela hoje ela obedece ao pai, telefona, ela não fazia nem isso, entendeu? Então tudo é conversa, diálogo, se você for do tempo dos antigos, acabou! Não tem esse negócio de tempo antigo, você tem que ter diálogo com os filhos, diálogo e acabou. O filho vai te obedecer tranquilo, por o que a capoeira, ela faz? Tem professores que dá atenção aos alunos, eu sou um, adoeceu um deles esses dias, aí ficou 5 dias fora, e aí, “o que tá acontecendo aí, que tu não apareceu?” - Não dá nenhuma resposta, “não professor, estou doente” e eu falo “Estou preocupado contigo. Dá um alô. Beleza?” Aí hoje tá bom, entendeu a gente? Eu me preocupo, me preocupo com todos eles.
P/1 - Professor, tô chegando no finalzinho até pelo teu próprio horário, eu queria saber como é a sua relação, o que o senhor vê de melhoria quando trouxe a capoeira aqui para Vila Esperança?
R - Aí eu vejo muita coisa boa. Eu vejo por que, tinha aluno que não tinha para onde ir. Tinha aluno que não tinha para onde ir, ficava jogado até meia noite aí e hoje eles vão dormir cedo. Eles se cansam, começa a treinar, daqui a pouco vem aquele cansaço. Aí ele chega em casa, toma um banho e vai dormir. É a melhor coisa que tem. Vocês acham que eu não tenho energia para tudo isso? Eu tenho por que eu estou, eu estou fazendo uma coisa boa, Deus me dá a força. Eu me apego muito neles. Aquele lá de cima para me dar força, para ajudar e ser lembrado amanhã, é uma coisa muito boa, se você ficar parado em casa, você tem muito problema, vai ter doença, vai ter travamento de ossos e memória vai embora. Hoje tem mestre que não joga mais na minha idade, eu vi muitos e hoje eu jogo mais, igual a uma criança nova. Você me viu jogando? É difícil? É, mas tem que ter fundamento até lá em cima, para fazer isso.
P/1 - O senhor se sente forte?
R - Eu me sinto, porque deixa aquele corpo firme? Tá, deixa firme. Você não tem cansaço nenhum. Aí eu falei para o meu mestre “Aí, André, eu vou dar aula no dia de domingo também.” ele “Você está ficando doido?” Eu digo “doido não, é porque eu gosto da arte. Você não quer nada, só quer dinheiro.” Ele diz “Aí é Bonito. Tá bom, tá bom.” Aí o outro, meu irmão, “Tu é muito doido.” Digo “não é doido não. É o amor que eu tenho pela capoeira” - Eu adoro ver os alunos ali comigo, é uma energia que você sente, que os anjos da guarda ficam do teu lado, tem criança desse tamanho que está jogando que é uma barbaridade. A Rapunzel é um doce de menina, quem não se dá bem com uma criança? Eu sou, eu estou só para o lado das crianças, não tem jeito.
P/1 - Quer jogar até quando, professor?
R - Até morrer, você sabe que o capoeirista nunca, nunca morre jogando capoeira, e ele apodrece dentro da capoeira, a bem dizer, apodrece assim não, ele ganha mais vida, ele ganha mais vida jogando capoeira, fazendo aluno. E tem mestre que se forma Mestre e já era, ele encosta, ele vai lá só olhar os formados dar aula, não entra na roda... Eu não, já sou diferente, eu já vou entrar direto, com 56 anos que fiz agora e todo mundo fala “Nossa Senhora, o que que é isso? O cara não fica velho?”. Não fico porque eu treino, quem fica parado já era, nunca vai ter saúde. Você acredita? Se eu parar, eu vou dar um reumatismo nos pés, trava tudo, e é verdade mesmo, é verdade. Trava tudo, eu, graças a Deus, Deus me dá força para dar aula. Eu dou aula ali 4 dias uma aqui, que amanhã vai ser aula aqui, depois de amanhã vai ser aula aqui e vou lá para o Bolsão, semana passada eu fui para o Bolsão, dei aula também.
P/1 - É isso que te deixa feliz?
R - Deixa feliz meus alunos do meu lado, conhecendo mais alunos para fazer eles mudar a vida deles e ter alguma coisa. Eu tenho aluno que está fazendo faculdade hoje, eu salvei. Tem um cabeleireiro. Tem outra que é administrativa, a Docinho, ela é uma menina desse tamanho. Hoje está com 25 anos, tá? E olha, se eu não me engano, eu errei a data que eu comecei a dar aula. Se ela tá com 25 anos, entendeu? Foi muito mais rápido, lá muito no Poço, a minha capoeira tem 46 anos, de capoeira, então eu vim, me formei, peguei cordão verde e azul, só depois fui formado pelo mestre Geraldo, muitos mais vezes.
P/1 - Professor, então, tem alguma coisa que o senhor não contou que o senhor gostaria de contar pra gente terminar?
R - Sobre minha vida? A minha vida, eu não conto segredo meu, eu não conto o passado. Eu quero saber é do presente, é muito bom, eu não gosto de aniversário. Neguinho vai e faz aniversário 2 vezes e agora vai ser direto. Os alunos eu não gosto de falar minha idade para os meus alunos, a data que eu nasci, eles gravaram e me pegaram de surpresa com um bolo. Eu chorei, eu não vou mentir, eu choro, o homem chora por dentro, ele chora e a lágrima escorre. Quando eu falei com a Cris sobre esses dois, minha lágrima desceu. Porque eu sou feliz com eles, eu não vou mentir, o capoeirista, quando ele gosta dos alunos. De novo, pode olhar meus olhos cheios de água, então é emoção, a emoção de estar com os alunos, né? Do lado, me ajudando e eu ajudando eles.
Eu sou uma pessoa que gosto de harmonia, às vezes eu estou em casa, bem tranquilo, deitado lá na cama, vendo uma mensagem, para ver se meus alunos me ligam pelo menos, e de repente aparece uma fila de mensagens dos alunos: “Professor, o senhor está aonde? Posso visitar a academia?” Eu digo “cuidado, hein? Pode ir, vai com cuidado.” E eu fico feliz de escutar a voz deles, entendeu? Ele pode ter 30 ou 40 anos, eu vou estar feliz porque ele lembra de mim através do telefone, entendeu? Importante é muito importante, é muito importante você ser lembrado de como você começou a dar aula para eles, e eles saberem sua vida, como é que começou. É muito bom. Você vai estar plantando coisas boas para eles.
P/1 - Esse é o legado do professor?
R - É o legado de tudo isso, a capoeira, o fundamento dela é isso aí, para mim tá.
P/1 - Qual é o maior aprendizado?
R - Oi?
P/1 - Qual é o maior aprendizado?
R - De cinco acima.
P/1 - Do senhor? Qual que é o maior aprendizado de vida?
R - De vida? Foi aprender o que é a vida aqui fora, aqui, de lá, de onde eu vim, aqui aprendi a falar, aprender, ler, escrever, dar aula de capoeira, aprender a dar e receber aula de capoeira. É aprender a andar no mundo, que eu não sabia, eu não saía da minha aldeia, hoje eu ando aqui em São Paulo até Campinas, Santos também, é o único lugar que eu conheço, tem uma filha aqui em São Paulo de Itaquaquecetuba, né? E isso me deixa feliz, às vezes eu fico triste porque eu lembro de onde eu vim, porque a minha mata, é onde eu me sinto mais forte também. É que o índio, para mim entrar na mata, você tem que ter, ele tem que pedir licença pra mata, porque se não pedir, ele se perde no meio dela legal; você já viu que, a natureza, ela tem que lhe aceitar, e eu acho que não vai mais nem me aceitar a natureza, começa a correr, bicho que é onça, cobra, jacaré, é um monte de coisa. E para mim, eu acho que eu vou morrer aqui com meus alunos, um dia eles vão me enterrar. E aquele que gostar de mim, eu estou feliz, eu não sei nem o que é a morte. E eu já sou feliz com a morte, é sério, você tem que estar feliz, tem que estar feliz, tem que estar feliz até com sua morte. Eu já sonhei já, já perguntei para Deus como é que vai ser minha morte? Será que eu vou dormir, dormir e não acordar mais, Senhor? É porque para mim, se eu morrer feliz com meus alunos, eu estou ótimo, né? É isso.
P/1 - Obrigada, professor.
R - Obrigado. Entendeu? É isso aí.
P/1 - É isso aí. História bonita. Obrigada.
R - A minha história é essa, daí para frente é só aprender mais, conhecer mais alunos. O jeito dela, o significado dela. Você vai conhecendo até a vida do aluno. Como é que ela é, o comportamento, tudo, você acha que eu não aprendi tudo isso? Meus alunos, eu conheço o comportamento deles, tudinho, tudo de cima embaixo - “Ah, mas você não sabe minha vida”, - “eu sei, essa aqui, ó, vamos lá conversar. Você vai entender o que é a vida agora.” E eu vou explicar, por que eu vivi muito, só tive uma desamizade. Às vezes, eu jogando capoeira, um me dá um golpe e me quebra o nariz, eu vou ficar de mal com uma pessoa? porque você aprendeu a viver, antigamente, se me desse um chute, eu chutava ele 30 vezes, se eu pudesse, até a cabeça dele, hoje em dia... -suave, tá? Às vezes eu jogando com meus alunos, quando eu vou dar um corretivo, eu dou um tombinho para ele cair sentado. Eu digo “tá vendo? Vai tirar onda da minha cara?” É isso aí. Tá ok?
P/1 - O senhor se sente respeitado, né?
R - Tem que ter respeito.
P/1 - Obrigada.
R - De nada.
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