00:22
P1 - Então, Flávio, queremos saber qual o seu nome completo, a data e o local de nascimento seu?
R - Meu nome é Flávio Alves Costa. Meu sinal é esse.
P1 - E nasceu aonde?
R - Nasci dia 11 de junho de 1973.
P1 - Paracatu?
R - Aqui em Paracatu. Sim, aqui em Paracatu.
01:07
P1 - E a família dele também é aqui de Paracatu? Pais, avós, todo mundo é daqui de Paracatu?
R - É! Minha mãe e meu pai, os dois são aqui de Paracatu, eles tem a casa… Eles são separados e cada um tem a sua moradia. Porém eu decidi trabalhar como artista e vender os quadros.
01:40
P2 - E tem muitos irmãos?
R - Tenho dois irmãos. Já casou e foi embora já.
P2 - São mais velhos, mais novos?
R - Eu sou o segundo filho. Minha primeira irmã é uma mulher e o do meio e o terceiro é homem também.
P2 - E todos foram criados aqui em Paracatu?
R - Sim, todos aqui de Paracatu. 52 anos já que a família dele mora aqui em Paracatu.
02:32
P2 - E como foi a sua infância aqui?
R - Eu nasci ouvinte, depois deu uma doença em mim, na idade de dois anos, que foi uma infecção, logo após… Minha mãe ficou muito preocupada, muito preocupada e me levou para Brasília e também me levou em BH para fazer exames. Então, o médico analisando me deu bastante remédio forte, daí comecei a melhorar. Porém a audição acabei perdendo.
03:17
P2 - E desde então é surdo profundo?
R - Sim, surdo profundo.
P2 - Entendi! E como foi a parte da educação nesse período? Onde estudou?
R - Estudei aqui em Paracatu mesmo. Eu via as imagens e comecei a desenhar. Daí eu tinha muito desejo de ver as imagens e nisso via vídeo também. Ai, eu fui copiando igual, fazendo igual e foi desenvolvendo.
04:03
P1 - E como aprendeu o alfabeto, como aprender a escrever e ler?
R - Então, minha mãe foi me ensinando o A, o B, o C. E também escola.
P1 - Você foi numa escola aqui em Paracatu?
R - Sim, aqui em Paracatu mesmo.
P2 - E já tinha esse apoio para inclusão naquele período.
R -...
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P1 - Então, Flávio, queremos saber qual o seu nome completo, a data e o local de nascimento seu?
R - Meu nome é Flávio Alves Costa. Meu sinal é esse.
P1 - E nasceu aonde?
R - Nasci dia 11 de junho de 1973.
P1 - Paracatu?
R - Aqui em Paracatu. Sim, aqui em Paracatu.
01:07
P1 - E a família dele também é aqui de Paracatu? Pais, avós, todo mundo é daqui de Paracatu?
R - É! Minha mãe e meu pai, os dois são aqui de Paracatu, eles tem a casa… Eles são separados e cada um tem a sua moradia. Porém eu decidi trabalhar como artista e vender os quadros.
01:40
P2 - E tem muitos irmãos?
R - Tenho dois irmãos. Já casou e foi embora já.
P2 - São mais velhos, mais novos?
R - Eu sou o segundo filho. Minha primeira irmã é uma mulher e o do meio e o terceiro é homem também.
P2 - E todos foram criados aqui em Paracatu?
R - Sim, todos aqui de Paracatu. 52 anos já que a família dele mora aqui em Paracatu.
02:32
P2 - E como foi a sua infância aqui?
R - Eu nasci ouvinte, depois deu uma doença em mim, na idade de dois anos, que foi uma infecção, logo após… Minha mãe ficou muito preocupada, muito preocupada e me levou para Brasília e também me levou em BH para fazer exames. Então, o médico analisando me deu bastante remédio forte, daí comecei a melhorar. Porém a audição acabei perdendo.
03:17
P2 - E desde então é surdo profundo?
R - Sim, surdo profundo.
P2 - Entendi! E como foi a parte da educação nesse período? Onde estudou?
R - Estudei aqui em Paracatu mesmo. Eu via as imagens e comecei a desenhar. Daí eu tinha muito desejo de ver as imagens e nisso via vídeo também. Ai, eu fui copiando igual, fazendo igual e foi desenvolvendo.
04:03
P1 - E como aprendeu o alfabeto, como aprender a escrever e ler?
R - Então, minha mãe foi me ensinando o A, o B, o C. E também escola.
P1 - Você foi numa escola aqui em Paracatu?
R - Sim, aqui em Paracatu mesmo.
P2 - E já tinha esse apoio para inclusão naquele período.
R - Não, na época não. Nunca teve intérprete. Só ouvia e fazia a leitura labial. Daí tinha que ter muita paciência.
P1 - Nem libras?
R - Libras não tinha.
04:48
P1 - Onde e como ele aprendeu libras?
R - Então, quando eu fui crescendo, aí eu fui em Vazante, um amigo meu lá de Vazante, surdo também, foi me ensinando e eu fui aprendendo libras. A comunicação foi desenvolvendo.
P2 - E nesse período, ele conseguiu trabalhar com alguma coisa ou era muito jovem ainda?
R - Não, eu comecei a trabalhar aqui mesmo, aqui na Casa de Cultura.
5:32
P1 - E como que a família lidou com isso?
R - Com a surdez?
P1 - É! É, com ele dentro de casa?
R - Então, eu sempre fiquei em outra casa. Eu não vivia junto com eles não. Não, isso, eram casas separadas, porém eu ia visitar minha mãe. Daí a arte minha mesmo foi na minha casa.
P1 - Mas a família aprendeu libras também.
R - Não, somente eu na minha casa.
06:20
P2 - E como é esse convívio da família com uma pessoa surda?
R - Então, eu faço leitura labial, observo bastante, daí eu faço a leitura labial. Algumas coisas eu entendo bastante, faço a leitura labial, aí acaba que fica fácil para mim.
06:48
P1 - E na escola, como era com os colegas, com os professores? Ele gostava da escola?
R - Meus amigos me ensinavam as palavras, daí eu fui desenvolvendo assim. Sempre consegui.
P1 - Estudou até que ano?
R - Que eu me lembre, eu comecei com quatro, cinco anos, o alfabeto. A idade mais ou menos de quatro a cinco anos. Daí eu estudei no ensino médio no Dom Eliseu. Do ensino fundamental, até o quarto. Até o quarto ano no ensino fundamental. Depois no futuro eu voltei e conclui o ensino médio completo.
07:59
P2 - Então, não fez curso superior?
R - Não tenho curso de faculdade. Não tenho!
P2 - E quando começou a coisa da arte na vida?
R - Eu comecei vendo as imagens, daí no futuro eu comecei a fazer alguns cursos, na idade de 14, 15 anos, mais ou menos. Daí os professores me ensinavam, eu fui entendendo, fui desenvolvendo, fui melhorando nas pinturas, fui aperfeiçoando. Porque precisa de muito treino, precisa, assim, ser algo bem perfeito, coisa bem perfeita somente.
09:03
P1 - Ele que começou?
R - Isso eu comecei o curso mesmo na idade de 16 anos.
P1 - Esse curso de artes aonde?
R - Aqui mesmo na Casa de Cultura. Aqui mesmo.
P2 - Então, ele começa aqui como estudante, treina muito. E depois, quando volta já como profissional, como professor?
R - Primeiro foram as exposições de arte. Depois, quando eu fui me aperfeiçoando mais, eu voltei como professor aqui na Casa de Cultura. Eu comecei em 2005. Comecei aqui em 2005, na Casa de Cultura, trabalhar como professor.
P2 - Nossa, são 20 anos. Meu Deus do Céu.
R - 20 anos, sim, isso.
10:28
P2 - E já tinha sido professor antes? Trabalhou como professor?
R - Somente aqui mesmo, antes não.
P2 - Poxa, mas como você se descobriu professor?
R - Então, eu conversando com a diretora, conversando, “você aceita?” Daí ele aceitou o convite para professor.
P2 - Muito bom. E isso.
11:27
P1 - E como ele foi assim, se desenvolvendo como artista? Ele pinta, ele desenha, ele…
R - Não, foi mais esse sentimento mesmo do meu coração. Porque nós surdos somos mais visuais, daí é muito por sentimento. E ele gosta da arte. Então, isso desenvolveu em mim bastante.
P2 - Muito bom. Gente, eu estou impressionado. Muito bom.
P1 - E hoje ele está mais como pintor, como desenho, como… O curso dele e do que? Tem a pintura ou são os dois?
R - Então, primeiro ele foi como professor. Mas até hoje ele trabalha e faz visitas como professor mesmo de pintura.
P1 - Mas ele produz também para vender, quadro?
R - Isso. Sim, vendo bastante. Quadros de fotos. Daí o pessoal me manda bastante mensagens no WhatsApp pedindo desenhos, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, diversos lugares. Daí eu saio vendendo para todas as cidades, como solicita.
13:11
P2 - E hoje ele expõe também?
R - No caso dos quadros? Isso, dia cinco mesmo vai ter a apresentação de muros invisíveis, com as minhas artes lá expostas.
P2 - E como é a arte na sua vida?
R - Contínuo, sempre desenhando, sempre me pedindo, o pessoal me pedindo. Assim, profundo no coração mesmo. Mas sempre a arte está comigo.
14:10
P1 - Mas que sentimento, que emoção, que dá dele ser produtor de arte?
R - Por exemplo, eu começo a pintar. Pronto. Depois que a arte está completa, então, eu fico muito feliz, porque foi uma vitória devido ao meu trabalho.
P2 - Ele começou a ilustrar, desenhar, muito jovem, muito pequeno. E você sonhava em ser um grande pintor, como é hoje?
R - Sim.
P2 - Você acha que conseguiu atingir esse objetivo?
R - Sim.
15:26
P2 - E como ele acha que ele influencia outras pessoas, surdas ou não surdas nesse mundo das artes?
R - Então, eu vejo as imagens por Instagram, por conversa também, mostra as artes…
P2 - Mas você acha que as pessoas se inspiram nele, já que ele é um professor?
R - Não tenho ideia. Pessoa viu, “Nossa, eu quero também, igual.”
16:18
P1 - E ele trabalha sozinho? Ele tem alguém que vende ou que promove, ou que também….?
R - Então, pelo WhatsApp, o pessoal me manda mensagem, daí eu sempre passo os valores todos pra eles e acabo vendendo.
P2 - E ele gosta de ser professor de arte.
R - Gosta bastante.
16:55
P2 - E esses alunos são o que, crianças, jovens, idosos?
R - A idade é a partir de 10 anos. Tem idoso também, idade de 60 anos, que eu trabalho. Tem aluno nosso que se desenvolve muito bem, aprende, é muito bom.
P2 - Isso dos idosos? Do idoso ou da criança?
R - Criança não, a idade mais ou menos de dez anos. Assim, acima. Tem idoso também, eu ensino pra eles, aprende bem.
P2 - E já temos aí algum artista que foi seu aluno.
R - Tem! Tem aluno que fez comigo, formou, e mudou, faz algumas viagens. Tem três alunos que hoje é pintor muito bom, que consegue fazer, vender os quadros deles. Muito bom.
18:59
P1 - Como ele falou que ele foi no MASP, ele tem essa vontade de conhecer, de ver coisas, de sair de Paracatu? Ele já viajou em busca da arte?
R - Então, já fui na idade mais ou menos de 16 anos, em São Paulo, no MASP, fui visitar, fui ver tudo das artes dos famosos. Nossa, senti um amor muito grande ao ver, igual, mais ou menos. Aí, eu vi, eu falei: eu quero copiar, fazer igual, quero fazer um desenho igual. Daí eu fiz igual, vendi. Consegui vender.
P2 - Você tem…
R - Então, tem em Belo Horizonte também, em Brasília, já viajei, já fui em museus também.
P1 - Tem algum artista que é referência para ele?
R - Não tem!
P2 - Que ele goste.
R - Tem sim, Picasso. Tenho Van Gogh também. Portinari. Os três.
20:48
P2 - E as cores são muito vivas, são pinturas muito coloridas. Isso tem uma influência hoje no trabalho dele. Então, o trabalho dele também traz esse brilho, essa vida.
R - Sim, eu me emociono bastante. Me sinto muito emocionado, fico muito feliz com o que eu faço.
P1 - Quando ele faz uma obra para alguém e alguém que pede pra ele o que quer com a imagem?
P2 - Ou ele continua trabalhando, produzindo, mesmo sem ter uma encomenda?
R - Então, por exemplo, a pessoa me pede, me manda foto de casa antiga, ou também de frutas. Me pedem bastante também de rosto, me pede bastante de rio, também me pede bastante. Então, a pessoa o pede e ele desenvolve, né?
P1 - Ele já teve algum pedido bizarro ou engraçado, assim, que ele tenha estranhado?
R - Não. A pessoa ver e fica muito emocionado, devido a imagem que eu faço.
P2 - Mas ele nunca teve um pedido assim, que ele achou estranho, não, né?
R - Não, nunca tive, não. Não mesmo. Então, tipo assim, dependendo da imagem que ele vê, ele pede para mudar e dá os toques pra pessoa, se pode fazer a modificação ou não.
22:55
P2 - E hoje, o que deixa ele mais feliz sendo um pintor, ou sendo professor?
R - Eu fico mais feliz com a pintura. O segundo meu trabalho, que também eu gosto bastante, que é muito bom.
P1 - Ele teve alguma emoção forte assim, quando ele também pintou pra alguém, fez um trabalho mais do que a pessoa esperava, se emocionou?
R - Então, diversas coisas. Igual mesmo, algumas imagens certinhas, igual as fotos. Se tiver algum modelo meio desfocado, que eu consigo fazer. Daí ele fica mais feliz.
24:00
P2 - Quanto mais detalhado, melhor?
R - Isso. Com muita emoção nesse.
P1 - O que ele gosta de fazer mais? De criar ou de fazer uma imagem que vem de uma foto, que vem já de uma imagem bem definida? Ele gosta de criar?
R - Também eu gosto de criar, imagens no meu pensamento mesmo, assim que eu vejo, eu quero fazer igual. Somente
24:56
P2 - E hoje, qual que é o seu maior sonho?
R - Então, eu sonho em viajar para outros países, igual mesmo, como a França. E mostrar, levar minha exposição. Também Estados Unidos.
P1 - Porque França, Estados Unidos?
R - Porque eu consegui lá vender um valor maior. Por causa que lá também eu acho muito importante.
P2 - E os Estados Unidos?
R - Porque eu gosto mesmo nos Estados Unidos. Lá tem muito famoso. Daí eu queria ter contato.
26:00
P1 - Ele está usando tecnologia, alguma tecnologia?
R - Uso. Uso algumas tecnologias.
P1 - Mas para fazer uma imagem digital?
R - Por exemplo, foto. Eu vejo as imagens e meio que… Isso daí ele imprime mediante a foto mesmo, a fotografia. Daí ele imprime e copia e faz igual.
P2 - Então, você não faz pintura digital, não? Não tem computador, não?
R - Não. Não tem computador, não, somente mão mesmo. Somente mão.
P2 - Tem vontade de usar computador?
R - Sim, tenho vontade.
P2 - Mas o que deixa isso difícil? Por que ainda não trabalhou com a parte digital? É só uma curiosidade.
R - Eu não acho difícil não. Às vezes pode ser fácil.
27:39
P1 - Como Paracatu recebe o seu trabalho? Como ele se sente inserido ou não? Porque são poucos artistas que tem aqui, né? Artistas visuais.
R - Eu acho normal. Eu me sinto normal.
P2 - Mas como Paracatu vê o trabalho dele?
R - Então, um pouco difícil, mas que o pessoal me manda mensagem.
P2 - Ele se acha…
R - Mas no caso das exposições, é um pouco difícil de vender. Mas daí, conforme o tempo consigo vender.
28:52
P2 - E a cidade reconhece o trabalho dele como pintor, como professor, ele consegue perceber isso?
R - Aqui em Paracatu ou fora?
P2 - Principalmente aqui em Paracatu.
R - Aqui em Paracatu é mais fácil, porque todo mundo me conhece e sabe que eu sou tanto pintor, tanto… Mas fora já não me conhecem muito.
29:28
P1 - Então, mas quando nos falaram o nome dele, nos falaram que ele era um grande artista, reconhecem o trabalho dele. Muito valorizado. Ele sente isso, que as pessoas falam e o veem assim, como uma referência?
R - Sim.
P2 - Então, você é um famoso aqui?
R - Sim, aqui.
P2 - Muito bom!
30:14
P2 - E você espera continuar formando novos artistas? Tem planos de, por exemplo, ter a sua própria escola ou prefere seguir como artista?
R - Então, eu sou artista sempre. Eu tenho sim sonhos, em futuramente eu ter minha própria empresa de artista e ter vários alunos também.
P2 - O que falta para isso? Além do dinheiro?
R - Aluno pagar particular. Também conversar com o prefeito para patrocinar.
P2 - Existe essa dificuldade para o aluno pagar? Ter aulas particulares?
R - Sim. Daí eu vou tentar, vou começar a divulgar. Para o pessoal perceber e vim cada vez mais.
P2 - Poxa, até eu quero ser aluno do Flávio Costa. Porra, eu venho!
R - Legal! Muito bom! Vocês virem estudar, ser artista com a gente.
P2 - Eu vou tentar. Desenho pouco.
32:07
P1 - Ele participa de festivais, editais, de projetos aqui da cidade, da prefeitura, da Secretaria de Cultura?
R - Então, há muito tempo que eu já tentei.
P2 - Mas hoje em dia?
R - Hoje não. Só no caso de agora, das produções referente ao dia cinco.
32:49
P2 - E você é casado, você tem filhos?
R - Eu sou solteiro, porém tenho namorada. Tenho um filho, mora em Patos. Da idade de 16 anos.
P2 - 16?
R - 16. Isso, um menino.
P2 - É artista também?
R - Não, somente estudante.
P2 - E pergunta pra ele como é que foi contar a história, se agora ele está menos nervoso?
R - Agora eu estou melhor.
P2 - Ótimo. Mas alguma coisa, Sônia?
P1 - Muito obrigada! Muito obrigada!
R - Eu que agradeço vocês todos.
P2 - Parabéns! Muito obrigado mesmo.
P1 - Será um prazer ter a sua história lá no Museu da Pessoa.
P2 - Muito obrigado mesmo. Muito bom.
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