Projeto Mateiros do Brasil
Entrevista de Delmo Fonseca da Silva
Entrevistado por Lucas Torigoe e Aparecida Silva
Parauapebas, 03/08/2025
Entrevista n.º: MAT_HV008
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
[00:00:41]
P/1 - Obrigadão! Não. Pra começar, só me fala o seu. Pergunta difícil. Seu nome completo? Cidade e data de nascimento? Por favor.
R - Meu nome é Delmo Fonseca da Silva, eu nasci em Óbidos, que fica aqui no Pará, na margem do rio Amazonas, que vai para Manaus, que viaja de barco e minha data de nascimento, dia 14 do agosto de 1957.
[00:01:19]
P/1 - E como que a família da sua mãe? Eles vieram? De onde? o senhor conheceu eles?
R - Não, Da família da minha mãe eles ficaram naquela época, assim era do meu pai. Eu sei que era do... Era uma... Era uma vila assim que só tinha, só tinha preto mesmo. Só negão da Segunda Guerra Mundial, então espalhou muito. Então a cor do meu pai era preto mesmo, bem negão, e o cabelinho dele bem... entendeu?
Já da família da minha mãe e da família do meu pai, não sei como que veio aquela quantidade de pessoas daquela cor, né? Não vou dizer preto porque... [risos] é um horror, mas era, era desse jeito, né? Eu ainda me lembro que eu fui quando eu era menino ainda fui lá, né? Antes de morrer, meus pais morreram cedo e era assim. Era uma vida que só tinha só gente negão mesmo, preto, preto, preto.
E já da minha mãe já era, já era da cor mais clara, era mais claro, que o cabelo dela é bom e eu tinha uma irmã dela também. Era tudo bem clara assim, bem da cor bem brancona, cabelão assim, sabe? E foram se casando, na época eu tinha uma tia também, que casou com italiano, então os meninos deles, saíram tudo bonito, brancão, cabelo loiro. Então a gente é tudo misturado. Do meu pai, às vezes, as pessoas dizem assim: - mas tua mãe, pulou a cerca? Digo: - Não sei, eu sei que pai é quem cria. Mas é por aí, né?
Tá,...
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Entrevista de Delmo Fonseca da Silva
Entrevistado por Lucas Torigoe e Aparecida Silva
Parauapebas, 03/08/2025
Entrevista n.º: MAT_HV008
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista e editada por Bruna Oliveira
[00:00:41]
P/1 - Obrigadão! Não. Pra começar, só me fala o seu. Pergunta difícil. Seu nome completo? Cidade e data de nascimento? Por favor.
R - Meu nome é Delmo Fonseca da Silva, eu nasci em Óbidos, que fica aqui no Pará, na margem do rio Amazonas, que vai para Manaus, que viaja de barco e minha data de nascimento, dia 14 do agosto de 1957.
[00:01:19]
P/1 - E como que a família da sua mãe? Eles vieram? De onde? o senhor conheceu eles?
R - Não, Da família da minha mãe eles ficaram naquela época, assim era do meu pai. Eu sei que era do... Era uma... Era uma vila assim que só tinha, só tinha preto mesmo. Só negão da Segunda Guerra Mundial, então espalhou muito. Então a cor do meu pai era preto mesmo, bem negão, e o cabelinho dele bem... entendeu?
Já da família da minha mãe e da família do meu pai, não sei como que veio aquela quantidade de pessoas daquela cor, né? Não vou dizer preto porque... [risos] é um horror, mas era, era desse jeito, né? Eu ainda me lembro que eu fui quando eu era menino ainda fui lá, né? Antes de morrer, meus pais morreram cedo e era assim. Era uma vida que só tinha só gente negão mesmo, preto, preto, preto.
E já da minha mãe já era, já era da cor mais clara, era mais claro, que o cabelo dela é bom e eu tinha uma irmã dela também. Era tudo bem clara assim, bem da cor bem brancona, cabelão assim, sabe? E foram se casando, na época eu tinha uma tia também, que casou com italiano, então os meninos deles, saíram tudo bonito, brancão, cabelo loiro. Então a gente é tudo misturado. Do meu pai, às vezes, as pessoas dizem assim: - mas tua mãe, pulou a cerca? Digo: - Não sei, eu sei que pai é quem cria. Mas é por aí, né?
Tá, agora assim. Eu não sei da família direito da minha mãe, mas a gente morava num lugar também, que foi uma área de várzea, de que quando vinha a enchente, porque só percebe quem mora próximo de rio, Rio Amazonas, rio cheio ou rio vazio, igual na frente de Manaus. Essa época tava tudo cheio. Aí não demora, tá seco, então... aí você planta as coisas, demora, vem enchente, leva, mata, essas coisas... Era mais ou menos por aí assim. Mas era farto... Assim, tudo que se plantava colhia, peixe? Nossa Senhora, era tanto que... não é como hoje, que se hoje eu vivo aqui, mas tem que comprar tudo e fui por aí, viu?
[00:04:01]
P/1 - Qual é o nome do seu pai? Da sua mãe?
R - O nome do meu pai era Gelson Amaral da Silva e da minha mãe era Maysa Fonseca da Silva.
[00:04:10]
P/1 - E você tem irmãos?
R - Eu tenho.
P/1 - Quantos?
R - Eu tenho? Só 2 vivos. Uma morreu um tempo desses aí, teve uma parada cardíaca... não teve problema de aquela outra, sem ser do coração que ela teve um problema lá e e depois ficou debilitada, assim, já tinha que a filha cuidar, senão morrer. E eu tenho 2 irmãos que moram em Manaus, o nome de um é Adelson Fonseca da Silva e Erenildo Fonseca da Silva. Os 2 tem família lá.
P/1 - Então vocês se criaram em 4?
R - Em 4, minha mãe teve 8 e morreu 4 e ficou 4. Agora, desses 4, morreu uma. A gente só tem só 3 vivos.
[00:05:08]
P/1 - É que o senhor tá em que ordem? Desses desses 4 que sobreviveram? Que ordem que senhor está nesses que o senhor conviveu? Era mais novo? Era mais velho?
R - Não, essa que morreu era mais velha. Ah, depois veio o outro Adelson, que era depois da Irene. Aí, depois do Adelson, veio eu. Aí depois veio o caçula, que já tá tudo velho igual eu [Risos].
[00:05:46]
P/1 - Deixa só dizer uma coisa, acho que o celular tá com notificação. É só deixar no silencioso.
R - Tá, deixa eu colocar no modo avião.
P/1 - Coloca só no silencioso pra não ficar apitando.
R - Só um minuto.
P/1 - A gente consegue. Nós, eu e a Cida. Mais pra frente não vai entrar.
R - Não, vou desligar ele.
P/1 - Pegou.
R - Pronto, Agora tá desligado. Desliguei.
[00:06:18]
P/1 - E me conta um pouquinho como é que foi a sua infância? O que te marcou mais? Lá em Óbidos.
R - Minha infância foi assim. Não tinha a tecnologia que tem hoje. A gente tinha um campinho de futebol que todo a gente jogava bola lá. E a gente foi crescendo assim, né? Não tinha... a escola também não era igual a hoje, né? Mas a gente tinha professor para dar aula para gente até um... naquela época se chamava de... Não era nem segundo grau, era o ginásio, o ginásio, quem tinha o ginásio antigamente, era... sabia muita coisa, entendeu?
E era assim, pescar, jogar bola, brincar. Assim não tinha a tecnologia que tem hoje, não tinha televisão. Era um rádio que a gente assistia às novelas, quem gostasse de assistir novela era pelo rádio, né? E o jornal também era pelo rádio, então toda notícia naquela época, era pelo rádio, né? Não era como hoje, em todo lugar que você vai, tem uma televisão, tem uma parabólica, tem uma internet. Hoje, qualquer lugar que você vai, (diz): - Vou parar aqui para comprar um negócio, a internet está lá, entendeu?
[00:07:33]
P/1 - Vocês pescavam que peixes? Que bichos, vocês pescavam?
R - A gente pescava era Tambaqui, Tucunaré, Aruanã, Pirarucu, que meu pai... tinha uma área lá, era tipo Pantanal, né? Eu ia pescar, pegava uns cascudinhos assim pra isca, aí ia lá, ele ia lá, nós não tinha corda como tem hoje, ele fazia umas cordas, ____ do Munguba [Pseudobombax munguba], bem... O cara tinha um... era craque em fazer as cordas, e depois amarrava um anzol, botava a linha numa seringueira lá , a gente ia lá de manhã e tinha um pirarucu lá, ainda era moleque, já vinha meio torto carregando o pirarucu. E era muito farto naquela época de infância, essas partes, que você não via ninguém passar fome como hoje, né?
Aqui em Paraupebas tem lugar que tem gente que... tem umas crianças. Quando começa a escola, ficava meio tortinho contando com aquela merenda e o almoço da escola, que às vezes os pais não tem condição. Tá desempregado, entendeu? Hoje mesmo quem tem um estudo legal, uma profissão boa, já tá meio difícil, hoje mesmo eu não to empregado porque as empresas não querem valorizar eu, querem dar um salário como se eu fosse estagiário e eu não aceito, porque não sou nenhum menino, eu já me preparei, já estudei bastante. Muita gente dizia que eu era, que eu estava ficando louco trazendo material do mato, mas isso era para estudar, e o louco está aqui! Hoje eu não tenho inveja de (quem diz) - sou engenheiro florestal, eu sou biólogo... porque já ajudei muito esse pessoal a trabalhar, fazer pesquisa, se ajudar, pode continuar que ainda vai ter muita coisa para falar.
[00:09:30]
P/1 - Me fala um pouquinho, então como é que começou esse conhecimento seu da mata, da floresta?
R - Da floresta? foi assim, eu fui trabalhar em Porto Trombetas.
[00:09:42]
P/1 - Antes de Trombetas, o seu pai e a sua mãe te ensinaram coisas?
R - Não, não, não. Eu sabia o que era, mato, porque era todo verde, alguns nomes populares, né, que a gente tinha, mas assim, que de nome científico família, gênero, espécie foi depois que comecei a trabalhar lá em Trombetas.
[00:10:03]
P/1 - Mas me fala um pouquinho só antes de Trombetas, tipo o que era esse, esse conhecimento, antes dos nomes científicos? O que você aprendeu? Como é que foi esse aprendizado, esse primeiro aprendizado?
R - Não era só nome popular mesmo, não tinha, não tinha assim conhecimento de nome científico, porque eu não tinha assim, não tinha livro, não tinha uma planilha, não tinha nada assim. Isso aí foi depois que eu...já foi para lá. E quando eu comecei lá em Trombetas, foi em 1979, trabalhei na empresa F. Gomes de Topografia e na década de 1980 eu passei para a Mineração do Norte e fui trabalhar numa base de pesquisa chamada Saracazinho, fazendo coleta de semente justamente para fazer o plantio das áreas que estavam sendo degradadas pela mineração, que ela tirava o minério e depois ela removia de novo a terra para lá. Aí depois espalhava aquele subsolo lá que era Topsoil que o pessoal fala que a primeira camada, né? E depois, era um tratamento legal, né? Que antes começou assim: não tinha aquelas camadas, aí foi percebendo que onde não tinha aquela matéria orgânica, as plantas, não desenvolvia, não, ficava... até morria. Aí então o pessoal falou - não vamos espalhar aqui o Topsoil aquela camada ali, separar quando for antes de cavar o buraco, aquela, para tirar o minério, aí já separava, né? Depois vinham, espalhava tudinho com aquela terra estéril. Aí vinha as caçambas, que era aquele caminhão fora de estrada, espalhava todo material e depois o trator vinha, espalhava...
Era um trabalho muito, muito, muito bonito que eu ajudei lá a fazer, assim plantar, né? Aí depois o trator ficava e já esperava a época de chuva, que plantio era feito na época de chuva de janeiro até mais ou menos junho. Aí a empresa contratava um pessoal para fazer o plantio, depois disso, colocava mais adubo químico na escovinha e hoje tá uma floresta muito bonita. Se eu for hoje lá tem umas coisas que eu nem conheço mais, que estão muito bonitas.
E começou por aí, eu coletando sementes, lá do Saracazinho eu fui para morar num núcleo urbano,que eu me lembro daqui, mas lá também é um núcleo (urbano), que não tinha outra cidade perto, como aqui tem, né? Aqui tem um núcleo, aí você desce e tem cidade lá, não... era só a gente ficar meio ilhado, mas muito bonito, cercado de rio, floresta. Aí tinha um viveiro pequeno. Eu ficava lá com meu chefe chamado Nules, era um inglês, inclusive, ele não queria nem me fichar nessa época, quando ia contratar, porque eu era muito novo e eu só gostava de trabalhar com pessoas bem já antigas. Aí eu fui lá falar com o encarregado, pedi para ele dar uma força para mim, para ele poder me contratar, porque era isso que eu gostava. Eu era novo na época, né? Mas depois ele gostou tanto de mim que eu preparava as mudas e, para botar separado em uma caixa assim, (classificadas como) nobre e diversa, as “Nobres” eram aquelas que têm o cerne, que tem um mercado bem elevado e as “Diversas” tem mercado, mas o preço é menor que é que se chama de alburno branco que não tem? Hoje a gente considera assim, corta o Xilema dela, o Ritidoma dela, pra chegar no alburno e depois chegar no cerne, né? Tem gente que não sabe explicar isso aí, né? A maioria desses meninos de hoje não sabe onde fica, E aí depois veio, começou a chegar pesquisador e eu comecei a acompanhar, aí nessa... teve uma viagem para Cachoeira Porteira, onde tinha um projeto de uma barragem lá, aí eu fui com o pessoal, não me lembro se era do museu Goeldi (Museu Emílio Goeldi) ou da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], fui com o engenheiro e mais outros dois que também era...
Eu não tinha conhecimento que tenho hoje, né? Mas eu fui acompanhar, né? Aí também falava só no popular, mas usava, tinha uma lista com o nome científico. Aí, depois de uns dois dias, fui digitar, e quando eu vi aquela lista lá com nome científico, eu comecei a copiar pra mim, aí ele disse: - não é muita coisa, a gente vai tirar xerox para você.
Aí começou por aí. Eu aprendi o nome científico, né? Aí eu falava assim: - agora vou aprender seu nome de espécie nobre. Mas depois tive necessidade de aprender, não foi só as nobres, foi outras, fui gramínea, foi lianas, foi orquídea, foi aquelas tais ervazinhas que tem na floresta, na canga. Aí fui, fui expandindo assim, o conhecimento, né? E fui ganhando livro, depois, para ter conhecimento, né? Aí depois chegou os pesquisadores e eu acompanhava. Todo final de semana eu ia com uma equipe de pesquisadores para o mato ou para a margem do rio, fazer coleta. Quando eu tinha um projeto lá do pessoal da mineração que o pessoal da Embrapa era para coletar só espécies leguminosas, né? E aí, de 3 em 3 meses eu ia, eles vinham e eu ia junto, na margem do rio ou terra firme. Eu sabia dirigir lancha, aí quando chegava num lugar que eu conhecia, que tinha uma espécie que ainda não tinha coletado eu parava, a gente coletava e ia seguindo. Aí tinha um barco que dava apoio para gente, que lá ia a nossa alimentação e a rede para dormir quando terminasse o dia, né? Então era, a gente passava 2 dias, 3 dias fazendo essas coletas na margem do rio.
[00:16:34]
P/1 - Isso, me desculpe. Em que região isso?
R - Pará
P/1 - Que cidade?
R - A cidade fica no oeste do Pará, mas ele fica em Porto Trombetas, onde tem um projeto de mineração do norte [Projeto de Mineração Rio do Norte] Porto Trombetas lá, aí eu ia, aí tinha outros pesquisadores também, sem ser eles também, que era do lado INPA [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia] que eu acompanhava também, tinha outro, lá de Viçosa, que trabalhava com solo. Aí eu acompanhava a pessoa que estudava a química do solo, física, do solo, fazer a gente cortar os perfil, a gente ia medindo, às vezes o cara ficava lá embaixo, tinha uma régua que ia tirando assim de 5 em 5 (cm) para avaliar, as condições do solo, eu tinha até um livrinho ainda com a coloração, mas com esse negócio de mudanças que para aqui, e depois vá para outro lado, perdeu o meu livrinho, de que aquele livro era um livro (que mostrava) pela coloração do solo já (se) sabia que solo era, né? Entendeu? E era.
E com isso aprendi muita coisa, né? Um pesquisador, aí a gente ia a tinta, o pesquisador também, que tinha trabalho lá, era o pessoal da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], do Rio de Janeiro, que eu acompanhei muito eles também para lá, nos Igarapés, pegando aqueles peixezinhos. Porque assim, quando vem o impacto do minério, que muitas tem muitas espécies que ela multiplica e tem outras que desaparecem. Entendeu?
Então, antes do impacto, a gente fazia essas coletas dos peixinhos, né? Aí era com os biólogos. Aí depois tinha também um rio lá chamado, que até hoje ele é famoso. Lago do Batata (Lago Batata), então foi poluído pelo rejeito, pelo rejeito do minério, e a gente fazia coleta também.
Quando o pessoal não estava aí, o pessoal de pesquisa, eu fazia, eu ia com pessoal, fazia coleta das espécies do Igapó, da margem do rio, tudo para fazer o plantio do Batata, Entendeu? E lá no Lago do Batata, quando o pessoal ia para o Rio de Janeiro e já deixava uma mistura da química e eu coletava zooplâncton, fitoplâncton, tirava a variação do ar, da profundidade da água que tinham ____, coletava sedimento e já deixava tudo para eles, quando eles chegavam, já levavam tudo para o Rio de Janeiro e aí eu perguntava muita coisa e eles? [risos] Até hoje o Lourival Tyski fala: - não promete nada porque ele cobra, ele cobra mesmo.
Mas era assim mesmo para você ser alguém, você tem que perguntar. Imagina só, você é meu professor e tem coisa que eu não sei. Eu vou ficar calado? Não vou não, vou perguntar mesmo. Até eu aprender. Eu tinha um professor que era colombiano, ele falava assim e falava para mim e quando eu demorava para responder ele falava: - tu entendeu? Aí eu (respondia): - entendi, e ele: - tu não entendeu não, demorou, pra responder, vem fazer no quadro, e eu falava: - mas eu vou errar, e ele falava: - É errando que se aprende. [risos]
É assim do pessoal da biologia, da UFRJ, então eu também aprendi muita coisa, que hoje, se eu for fazer, eu sei, né? Igual eu te falei também, o pessoal lá de Viçosa que trabalha com solo, né? Então, hoje também eu sei fazer. Aí, então essas coisas que você aprende, tudo vai ficar com você, entendeu? e tudo que você aprende vai servir um dia.
Depois, quando comecei a falar o nome científico lá do viveiro, desse viveiro pequeno depois virou maior lá em Porto Trombetas, né? Aí os meninos lá, eles acharam que eu tava sacaneando com eles, quando eu falava o nome científico: - é porque tu fica sacaneando... Eu dizia: - não é... eu quero que vocês falem a mesma língua, a mesma língua que eu falo, eu quero que vocês falem, entendeu?
Aí tinha o João, que era meu gerente. João Carlos, foi muito tempo, o gerente de lá. Depois ele veio para cá também me chamou, foi um cidadão que foi muito bom para mim. E ele disse: - Delmo, tu vai ter que escolher uma pessoa para te ensinar a escolher o Márcio, mas o Márcio não queria porra nenhuma, ele queria mesmo que eu namorasse a irmã dele, esse cara aí queria ser político e acabou depois que eu disse: - não, mas a pessoa que eu escolhi agora não quer mais.
Aí eu quis ensinar uma pessoa lá da comunidade, que se chamava do Boa Vista, aí o João disse: - as pessoas também são enroladas, não querem porra nenhuma. E depois eu saí de lá. Não ficou ninguém assim para ter o conhecimento científico, falar só no científico sem ser nome popular, né? Inclusive, até depois eu endireitei uma planilha de filologia e quando saí de lá ainda não está terminada. Aí, quando o Evandro saiu, que terminou, eu via que tinha muita coisa errada e eu já sabia, que fiquei 23 anos lá, eu endireitei a planilha de filologia
P/1 - Ficou 23 anos aonde?
R - Lá em Porto Trombetas.
[00:22:23]
P/1 - Que é Pará?
R - É Pará, no oeste do Pará. Fiquei 23 anos fazendo trabalho e depois eu acompanhava também, depois do viveiro eu levava a Toyota com muda lá, para fazer o plantio e ajudar no plantio da recuperação de área degradada, de onde era tirado o minério removido lá. Depois ajudava tudinho isso aí. Aí depois, essas sementes coletadas na área de do rio, Igapó, essas porras dos igarapés, era tudo para fazer plantio nas barragens, nas botas assim, quando secava já estava liberado. Assim, já tava cheia de rejeito, aí já era liberado para fazer plantio, O plantio lá tinha que fazer antes de ficar muito, muito duro aquele sedimento, ele tinha que ficar meio suculento, aí, pessoal, entrava com umas tábuas lá e iam furando assim para poder fazer o plantio, porque se ficasse mesmo duro, aí não tinha mais, ficava igual tijolo, batia assim, e parecia pedra, aí ele rachava tudinho, tinha que aproveitar antes de ficar o sedimento muito duro e fazer o plantio.
[00:23:49]
P/2 - E o seu Delmo conta pra gente? Como que foi que começou? Como que o senhor começou a aprender sobre a natureza, sobre as espécies das plantas?
R - Com meus pais, não foi, meus pais também não sabia, sabiam alguns nomes popular, mas não tinha conhecimento assim de família, gênero, espécie. Não tinha nada não. Então eu comecei a aprender quando eu fui trabalhar mesmo na Mineração do Norte, quando fui trabalhar, quando eu voltar lá atrás, na coleta de semente. Aí tinha esse Pedro do Brasil e o Pedro Ferreira, mas eles não conheciam gênero, espécie, família é só nome popular, né?
[00:24:44]
P/1 - Aí é só desculpa interromper, mas fazendo (um paralelo), quem mora na cidade não conhece nada, de natureza né? O senhor cresceu perto de um rio, então isso é um grande conhecimento, né? Esse conhecimento foi como que se deu? Não sou científico ainda, mas vamos lá.
R - Mesmo não popular, como eu falei, era algumas coisas que eu sabia esse nome popular, né? Mas assim, porque não tinha... Porque naquela época, como não sei quem foi que falou, se foi o Carlinhos ou outra pessoa que quando eu me ___ bem, que chegou um pessoal de Santarém, tinha dinheiro e eles destruíram uma área grande, lá em Óbidos, tudo de castanheira sem fazer estudo nenhum e nem aproveitavam madeira para serraria, depois pegava e tacava fogo. Naquela época morria muita gente cortava de motosserra, não tinha ninguém para olhar isso como hoje, né? Hoje o Ministério do Trabalho está bem aí, vendo quem está trabalhando como escravo. Naquela época, não. Quando era menino, eu lembro bem disso aí, né?
Então, muitos, muitos lugares de fazenda foram destruídos sem estudo nenhum, sem estudo nenhum. Aqui o aqui mesmo se parar, muita gente que mora aqui no sul do Pará não tem nenhum paraense. Tudo pessoas de fora, tudo. Chegaram aí. Isso aqui eu lembro que era o governo da ditadura, não sei dar outro nome, né? Eles falam que não era... mas era.
Aí eles liberaram, porque lá pro Sul não tinha muita floresta, muita terra igual aqui na Amazônia, né? Que era para fazer agricultura, e hoje você anda aqui, quase não vê agricultura é pequenas pessoas que plantam coisas, mas igual lá no sul, sudeste, centro oeste, não... Agora que tá chegando aqui, que lá no Dom Eliseu (Municipio do Pará), soja, alguns lugares que está chegando, que não tinha antes.
Mas assim. Então tudo isso foi destruído sem estudo nenhum, rios, os igarapés, não foi estudado. Hoje você tem uma lei, mas o pessoal não respeita, você tem uma lei, você tem que deixar 50 metros da margem do igarapé, do rio sem destruir. O pessoal não respeita, isso aí eu sei, porque já andei muito por aí, né? Eu sei.
É por isso que está secando os rios, lagos, igarapé. É por causa da ignorância do homem. Porque a pessoa, quanto mais tem, mais quer e não se contenta... Se o cara tem, sei lá, 100 alqueires, - eu quero 1000, quero assim...
Eu lembro que quando eu era menino, tinha um lugar, chamava Santa Clara, o cara disse assim - isso aqui é meu. Aí botava topografia e contratava um bocado de gente, e naquela época derrubava tudinho, e não tinha documento, não tinha nada.
Não sei hoje, como é que está esse documento aí, que tanta gente que tem terra e não tem título, chegavam assim (e diziam) - é meu e pronto, era assim, um terreno sem dono, na verdade é da União que as pessoas falam, é do governo, né? Aí o pessoal entra lá e diz que é dele. Aí, o mais fraco, eles iam matando e ficando com um monte de terra. Mas pode continuar aí, era um exemplo que eu estava dando.
[00:28:35]
P/2 - Seu Delmo, o senhor lembra como foi seu primeiro dia na mata?
R - Foi, o primeiro dia, quando eu fui contratado pela Mineração do Norte, eu fui morar lá na base chamada Saracazinho. Aí eu acompanhava um casal, tinha um casal lá de que chamava Margarida, dona Margarida, que chamava, ainda era novinha na época e o Póvinho, Seu Póvinho, não sei nem como era um nome desse, mas era esse nome que chamava, Então eu acompanhava para coletar as sementes das árvores, que era cercado de floresta e rio para fazer o plantio. Tinha um pequeno viveiro debaixo de uma árvore grande, todos os dias, quase, quando não está chovendo, a gente ia lá, molhava, Tinha uma vasilha lá que levava na Toyota, com um tambor grande, 200 litros, cheia de água do rio. E a gente ia molhar essas plantas lá. Mas assim, tem história... você não vai nem acreditar, lá subia uma ladeira para chegar lá no viveirozinho, e tinha aqueles macacos aranha.
Não sei se tu conhece o macaco aranha, macacão pretão, negão assim. Aí eu cheguei um dia lá estavam lá cantando aqui, Aí eu olhei assim, a gente quando é novo não tem mesmo juízo. Eu chamei: - aí, filhas dasputa, vem pra porrada, pra mim, vem seus macaco. Rapaz, quando eu estava descendo de cima de uma bacabeira já embaixo, rapaz, meu cabelo parece que ficou deste tamanho assim (armado) eu desci aquela ladeira na carreira que nem senti nada. [risos] com medo de macaco... [risos] correr, minha irmã, ai chega lá embaixo, parece que não tá nem aí, e se eu não olho, eu acho que tinham me pegado lá. [risos]
Foi 2 vezes que eu desafiei, [risos] e eles vieram assim, outra vez também, lá no Saracá, mas já tinha um monte de gente, o pessoal (na hora) do almoço na marmita, e eles estavam lá cantando numa Dinizia Excelsa, que é a maior, vocês já viram a maior espécie que tem na Amazônia, né? Que é o 88,5 cm, saiu no Jornal Nacional, né? Que é próximo do Amapá com Belém, eu já fui lá. Não fui no mesmo lugar, mas lá no Amapá eu já fui lá fazer um trabalho com autorização lá. Aí também foi lá no Saracá, viu? Eles estava lá cantando lá. Aí pois eu chamei, bati com facão, os macacos lá, quando eu vi, já tavam descendo das embaúbas, e eu ó... (gesticula dizendo que fugiu). Se fosse hoje, onde que ia fazer um negócio desses? [risos] cara, nem correr mais...
Pois lá tinha muita, muita estrada assim, topografia antiga, as estradas, eram tudo desenhado assim, você tinha a estrada principal, onde andava e depois tinha as outras que era cruzamento, de furo de pesquisa, naquela época o pessoal fazia os buracos assim, era tudo manual. Não é como hoje que têm as máquinas que vai lá, fura tudo mecanizado. Naquela época era tudo manual, entendeu? A gente seguia nas trilhas, nas estradas, né? Aí seguia mais naquelas estradas, que é onde tinha acesso de carro. A gente ia coletando as sementes, ia colocado no saco aquelas sementes pesadas… Aí de 3 em 3 dias a caminhonete vinha e carregava e levava lá para o viveiro, que fica no núcleo, isso aí que eu tô falando era lá na base do Saracazinho, e as sementes levavam lá para o viveiro para ser beneficiada, né? Aí beneficiava lá, botava germinar, tinha estufa, tinha mais área. Ainda não era assim moderna, igual como depois fizeram lá, né? Tudo suspenso, com bancada, tudo. Mas era assim. Começava botando os saquinhos debaixo dos cacaueiros lá dentro. Uma vez eu mexi na estufa do chefe, ele me expulsou de lá, eu era curioso, [risos] mas ele gostava de mim, depois ele gostava de mim, depois eu preparava as mudas para aquele dia.
P/1 - Quantos anos você tinha nessa época?
R - Eu tinha 20 e poucos anos, tinha 26, 25. Era desse jeito, né? E falando nisso, então a experiência foi isso, a gente andava nas trilhas aí mesmo mais para ter o conhecimento que tenho hoje, foi quando fui lá que a gente foi para Cachoeira Porteira, que eu te falei, né? O pessoal tinha uma lista com nome científico e na hora que eu vi eu comecei a copiar e eles disseram - Não, a gente vai tirar xerox para você.
É o conhecimento que começou por aí, de lá para cá, até hoje não parei.
Minha esposa fala: - Mas rapaz... Tinha hora que eu fico ali naquele quarto, o quarto é grande também, eu coloquei uma mesa, tem notebook lá, também e fico lá. Mas eu gosto mesmo de estar na floresta, aí pode.
[00:34:14]
P/2 - O senhor falou que começou acompanhando um casal, certo? O senhor lembra qual foi o seu principal desafio, quando o senhor estava acompanhando esse casal?
R - Era aprender as espécies da floresta, aprender, aprender. E uma das coisas que eu acho que eu sempre, eu queria é... todas as espécies eu chamava de leguminosa, tem uma Deguelia que ela é um cipó, a Deguelia na Amazônia tem ela cresce grandona e depois ela espalha lá na copa da árvore. Só que a floração dela é espiral, né? Aí a vagem dela parece de uma Diplotropis Purpúrea, que é a Sucupira Preta, né? Aí eu ficava dizendo: - é leguminosa, não sei o quê, pá, pá, pá, até que o Nélson Rosa que já morreu, que eu te falei que era o top lá do _____, falou: - rapaz! mas eu percebi que tu é tarado por leguminosa, e depois foi acompanhando o pessoal ____ leguminosa é uma das famílias que eu destrincho de boa, dividido em 4 famílias... Pode continuar.
[00:35:36]
P/2 - Como é que o senhor se prepara para ir para uma expedição na mata?
R - Hoje, quando eu vejo hoje a memória da gente, que o cérebro da gente, quando eu tô na área da canga eu destravo, parece que tem que destravar para ir para a canga que lá são outras espécies. Tem hora que é assim: você está olhando para o indivíduo e aquela mensagem está travada aí, então coloca a família: família tal, isso aqui... Aí, de repente, lá vem aquela mensagem que estava travada e vem um nome que eu queria, o fulano de tal, entendeu?
É na floresta a mesma coisa. E aí, para mim, assim, quanto mais eu estiver na floresta para mim é uma terapia, eu gosto. Tanto faz assim, a área de terra firme, área de várzea, área de Igapó, para mim é muito legal, até porque depois, quando tiver um tempo de mostrar dos livros que nem daqui, mas é do Igapó, da Amazônia, lá do Rio Negro, eu não estou nem lá, mas eu sei as espécies lá, que a maioria dessas espécies que estou falando de igapó, essas coisas, ela quase não varia, o que ocorre aqui, ela vai embora nessas margens de Rio, de Solimões, de Rio Negro e outras de outros rios que tem aí? E então? É fulano de tal, é fulano de tal. E aí aquelas coisas que é mais difícil, que tem umas espécies que é mais difícil encontrar… eu anoto, eu levo um caderno, já deixa anotado, que aquelas que tem muito, aquelas que você olha para um lado, para outro, aquela é mais fácil, mas umas que são mais raras, eu anoto, que na hora só vem a família, igual essa Potassa aí é porque as potera já mudou demais, virou sinônimo, tem umas coisas que não tem nada a ver, mas você tem que acompanhar, porque os botânicos lá, os caras que mudaram, não fui eu; falava assim, igual um chefe que eu tenho, que eu tinha assim, chamado Samir, ele me disse, olha Samir, se tiver errado, não fui eu que escrevi não, eu só anotei o que estava escrito, entendeu? Agora, se tiver errado, reclama com os atores que descreveram a planta. Não fui eu, não. Aí depois, - eu falo igual a você, não fui eu que escrevi... só porque assim, hoje, como é seu nome?
P/2 - Cida.
R - Hoje Cida, muda demais, muda, eu lembro quando eu estava lá em Trombetas, as Psolobio viraram a Abarema, hoje das Abaremas já virou Jupunba! Então é, você tem que acompanhar o conhecimento pra caramba. Porque, por exemplo, se a gente for para a mata fazer as parcelas, vamos fazer umas parcelas aí... Aí tu vai anotando, o menino cortando, eu já tenho que te dar todos os nomes que já mudou ou não mudou… isso aqui, eu acho que já mudou, mas escreve o nome antigo que depois, na hora que chegar em casa... E ainda tem mais, quando eu cismo de alguma coisa que tá errado, eu chego em casa e logo verifico. Eu não fico com a consciência pesada, pô! Entendeu? É questão de segurança, você tem que, pô! Eu acho que tá errado. Aí eu chego aqui, já vou direto no notebook do meu celular, aí já pesquiso, se estiver errado, já mando: - Olha Cida. aquele nome que eu falei lá atrás daquela planta, número tal, o certo é esse daqui... Já vai tudo assim, como é, e já vai com gênero, espécie, tudo... família, tudinho para você.
E as ocorrências também, a ocorrência também não, porque isso aí também é só quando eu faço um trabalho científico, que fica em laboratório, você saber as ocorrências, mas a maior parte sabe onde é a ocorrência. Porque se tu falar no popular, tem uma planta que tu vai pesquisar, principalmente o pessoal, só no Google. Isso aí é errado. Isso te dá uma opção e uma vez, está certo, outra vez está errado, entendeu? Tem planta que não é daqui, não é daqui. Tem planta que é também introduzida, tem planta que é asiática, aí o cara coloca lá, o que é um erro, né? Que sabe que não tem aqui, né?
[00:40:25]
P/2 - Sua atuação na mata, ela já gerou alguma parceria com alguém assim?
R - Como é que você chama a parceria de...?
P/2 - Parceria com outras pessoas ou até mesmo empresas?
R - Já... Vixe Maria, olha, eu, por exemplo, tem um pesquisador que quer: - Ah, eu quero Delmo para ir comigo, entendeu? Eu quero fulano para ir comigo. Quando eu trabalhava na Vale, o Lourival, meu amigo, reclamava que eu não parava no herbário porque eu era muito requisitado para ir dar suporte para as outras áreas, às vezes eu fico sacaneando com outras pessoas:
- É eguão, tu tá velho...
Eu tenho um amigo que sabe mais, mas tem hora que ele fez tipo: - Rapaz, tu tá fumando droga é! Roubou toda essa memória, esqueceu? E ele é meio gago, o Ricardo. Quando ele chegou aqui, eu conhecia ele, não sabia nada, mas agora ele já sabe. Mas como a gente separou, mas ainda tem muita coisa para aprender, eu falo para ele: - quanto mais você andar, é outra coisa.
Lá na mineração do Norte, quando eu acompanhava o pessoal das leguminosas, às vezes levava 1 ano, 2 anos, até 3 anos para completar o círculo daquela planta, entendeu? Para dizer ó: flor, às vezes pegava, já ultrapassado, fruto também ultrapassado, tinha que pegar fruto jovem, flor, também a floração, assim, no início da abertura das pétalas, que tem umas que têm pétalas, sépalas, então quando está com o botão floral, tudo aberto é uma coisa e quando está meio fechado, também dá diferença.
Então você tem que escolher quando a flor já está tudo aberto, entendeu? Aí fica para você fazer a coleta legal, ficar bacana, entende? E tem mais, na estufa também tem. Não pode esquecer muito tempo lá, porque senão ela fica muito escura. Fica até assim meio difícil do especialista olhar e ver, para confirmar aquela espécie, entendeu? Então tem que ser umas que ficam com coloração bem bacana, entendeu? Tudo isso também, é esse negócio de planta, viveiro, semente, eu vejo hoje os meninos de hoje não querem estudar, não querem aprender. Acham que sabendo meia dúzia já é identificador, e é por aí. Você pode perguntar, o que eu souber, eu te falo que eu não souber, também não te falo.
[00:43:04]
P/2 - Durante esse tempo todinho, o senhor teve alguma experiência assim que deixou o senhor bem bolado com tudo?
R - Não. Teve uma, teve um tempo que eu, quando estava na linha agora, foi recente, né? Fui lá, deixa eu ver, dessa experiência vou te falar antes de sair, lá em Trombetas tinha o Manoel, ele autorizava, ele e ele era moto-serrista, né? Eu era o ajudante, que de tudo, um pouco eu sei, né?
Aí nesse dia eu fui levar um pessoal em Oriximiná de lancha, eu também. Aí eu fui e o chefe me autorizou: - então tu vai cortar agora as árvores que estavam secas, que eu chamava de paliteiro, que é onde o rejeito ficou, subiu submersa a raiz das plantas e morreram aí.
Toda vez que vinha pesquisadores, vinha mesmo empresários, que eram sócios da mineração do Norte, vinha diretor. Aí passava do lado do Rio, de Cima, do Rio do Batata e via aquelas coisas mortas, aí ficava feio em reunião assim. Aí o pessoal reclamava, aí tinha que cortar pra dizer que não tinha, depois! E aí também foi recuperado esses lagos aí, com as próprias espécies, das ilhas, que eu te falei que eu coletava lá e plantava lá também.
Aí fui cortar nesse dia, por isso que às vezes a gente não pode falar muita besteira. Aí eu tava aí, eu acho que o seu Povinho também, aí quando eu amolei a corrente. Quando fui cortar, era uma varinha bem fininha assim, tava seca. Na hora que encostei assim, o motor trepidou, e tinha chovido, tava muito liso, o rejeito tava igual a sabão. Aí escorreguei assim, só vi aquela pancada assim, Pum aqui (mostra a perna) a corrente, rapaz! Aí olhei, tava descalço, aí depois eu olhei assim: - Não, não cortou nada, é porque o sangue tava quente… Aí depois eu vi na minha calça assim... - Vixe, deu problema, ia render porque assim... ainda bem que eu era autorizado pelo gerente, que era o Kiko, se não fosse isso, é problema, minha irmã. Aí fui direto para o hospital costuraram isso aqui, para dormir. Aí o chefe falou: - Você não vai, você vai ficar aqui no quarto, aqui vem café pra você, vem almoço pra você e vem jantar para você, você não vai sair para lugar nenhum.
Aí com 15 dias para entrar no INSS, aí fui lá para o escritório, vai só vai ficar aqui até você tiver condição para trabalhar, mas assim foi... eu ainda falei assim: - hoje eu vou acabar com esse motor, ou esse motor vai acabar comigo... Rapaz!
P/2 - E acontece isso..
R - Por isso que eu falo, às vezes a gente fala besteira... foi desse jeito, menina. Mas assim, depois foi só, depois, eu graças a Deus, fiquei bom e continuei fazendo os trabalhos que fazia. Eu acompanhava, era muito pesquisador, uma vez o próprio João Carlos brigou comigo, que quando ele viajava, quem ficava no lugar dele como gerente, era o Alexandre.
Então Alexandre me liberava e ele me liberou para o pessoal que era estudante lá dos Estados Unidos para levar para gravar um negócio de uns bichos, cedo, negócio de passarinhos, essas coisas.
Aí, depois o João não gostou e me chamou a atenção, eu disse: - Oxe, mas eu não me governo não. Você tem que chamar atenção de Alexandre, foi ele que mandou.
Ele disse: - Eu não te libero para pesquisador, eu vou te liberar para estudante?
Eu disse: - mas eu tenho culpa? [risos]
[00:47:22]
P/2 - Você hoje se considera um especialista em plantas, sementes?
R - Eu me considero porque hoje é assim, se você mandar eu coletar semente, você pode me dar uma lista, - eu quero essas aqui, e eu vou te dizer por onde tem, por onde não tem? Pelo conhecimento, por onde já andei, que às vezes aqui, às vezes não tem nessa floresta, aqui ó, aqui nessa reserva, mas que se descer mais ali para baixo assim pra banda de Dom Eliseu, para Paragominas você já vai ter pelo menos a semente, não quer dizer que não tem aqui não, as vezes aqui não ocorre.
Então, esse aí que o conhecimento que muitas pessoas não tem, que é de dizer por onde que elas ocorrem, muitas vezes dizer olha, essa aqui não tem aqui, só se tal lugar ali mesmo. Quando eu trabalhava em Trombetas, tinha um rio, o rio Trombetas, lá tinha coisa que tinha de um lado e não tinha do outro. A separação era o rio, entendeu? De lá para cá também muita coisa que não tinha lá e tem aqui. Mas aquelas coisas, quando você conhece a família, você vai na família: X, se é uma Lecitidaceae, uma leguminosa se uma é uma Sapotácea e por aí você vai. A família é essencial para você aprender, entendeu? Aí, dependendo do que você quer, - eu quero tal espécies... eu digo: - você vai encontrar isso aqui, em tal, tal, tal lugar, - essa aqui ocorre na margem de rios, aqui igarapé. Essa aqui é em cima. Essa aqui é de baixo, entendeu? É desse jeito, que tem espécie de igapó de várzea que ela se adapta muito bem na terra firme, é diferente da de terra firme, que na área de Igapó, de várzea ela não vai. São coisas da natureza mesmo. Pode...
[00:49:23]
P/2 - Seu Delmo, como é que o senhor acha se que o senhor contribui hoje para sua cidade com seus saberes?
R - Olha, eu gostaria de contribuir mais, se eu tivesse assim, coletando sementes para plantar em áreas que já foram degradadas, quando eu vejo aquelas áreas assim degradadas pelo garimpeiro. Eu fico muito triste, eu queria estar próximo para coletar semente, porque hoje, nem todas as pessoas querem ajudar a natureza, né?
Mas para ajudar a natureza, você tem que coletar semente, entendeu? Levar em algum lugarzinho? Ah, mas eu não vou plantar um abacateiro porque eu não vou comer o fruto, não vou plantar uma mangueira porque eu não vou comer. Mas alguém... quando eu estava trabalhando na Bipar, num projeto de uma ferrovia, a gente passou vários lugares que já foi moradia e tinha jaca, tinha mangueira, tinha goiabeira. Psidium guajava é goiaba, mangifera índica é a manga, Artocarpus heterophyllus é a jaca. [risos] eu ensinava os meninos assim: - você chega na padaria, eu quero um suco de Passiflora edulis, eu quero um suco de Annona muricata, eu quero um suco de malpighiácea glabra. Aí ela vai dizer pra tu: - não tem.
e você vai dizer: - Tem sim, é bem ali.
Aí um dia, lá em Barcarena, deixaram quase doida a menina lá, era assim.[risos]
Mas hoje, por que que eu te falo isso? Porque hoje, menino de novo, não querem ter trabalho, estudar, não querem, entendeu? É você aprender nome científico, não é do dia para noite, não, meu filho, é com o tempo, é com o tempo, a minha esposa disse: - Eu vou ser biólogo, quando a gente começou a namorar há 12, 13 anos atrás. [risos]
[00:51:37]
R2 - A biologia ficou na gaveta.
[00:51:40]
R - A minha pequetita aí que já tá, fez 11 anos e um dia encheu de nomes aqui, depois... aí, pessoal diz: - tu vai morrer, tu vai deixar teu conhecimento com quem? tu vai levar contigo? Respondo: - Vou. Quem é que eu vou ensinar se não tem ninguém? igual a engenheira, mas foi pouco tempo, eu acho que hoje ela até esqueceu de novo... É uma pessoa para estar todo dia ali, falando, sabendo, tô escrevendo ali, soletrando para você, não tem. Não tem escola. Melhor que ir na floresta ou em uma área assim que já é arborizada e dizer: - fulano de tal, entendeu? - É fulano de tal, escreve aí, escreve do jeito que tu fala, assim ó: - “Suassia”, tu vai escrever como tu entende em português: “Suassia”, mas se tu for escrever, assim, certo mesmo, tu vai acertar?
Vou fazer um teste, bora, cadê o papelzinho? Dá aí um papelzinho pra ela escrever, escreve 2 nomes aí, escreve para mim, “Suassia” e outro nome, escreve Istristinodendo, escreve dentro, pois é... Sabe como é que escreve “Suassia”? Escreve aí S-w-a-r-t-z-a: Swartza.
Agora tem que saber pronunciar, porque o latim, tem vezes que tem “Macchero”, e não é (não se pronuncia) “Maxero” (o correto) é” MaQUERO”.
Tu vai escrever: s - try- ph - no - den - dron: Stryphnodendron.
As menina que é da UFPA (Universidade Federal do Pará), que às vezes tinha umas que ficava gelada quando tinha que escrever, não, eu dizia: - mas é errado, tu tem que aprender, você está saindo da faculdade minha filha, é você que tem que aprender a escrever, eu estou te dizendo, fala comigo, abre a boca comigo... É sério, aprender assim é difícil? não é não... é difícil quando não tem uma pessoa pra ensinar, né? Não é só dizer: - ah, isso é fulano de tal, fulano de tal, mas na hora de escrever, escreve errado...
Vai mandando.
[00:54:43]
P/2 - Aí o senhor já viu alguma visagem assim na mata ou alguma ____ que aconteceu?
R - Não, não. Graças a Deus, não. Mas uma vez, lá em Trombetas, eu tava com uma turma lá a gente estava fazendo inventário lá e estava formando um tempo, tempo bem forte assim, e a gente viu bater um tipo assim que diz que é Matinta Pereira, que bate assim “DUUM” e a mina estava à nossa frente, onde estavam as máquinas? E esse barulho foi para trás. Mas, aí todo mundo ficou ué? Você viu, cê viu esse negócio aí? Mas foi só também, não foi, não foi assim... Depois parou, não sei o que que era mesmo, né?
[00:55:30]
P/1 - Era um som de que?
R - O som era tipo quem bate numa Sapopema grande que chama hoje, Corotarius Guineense, tem uma base grande, uma sapopema, aí o cara bate, faz TUUUM bate assim, parece que dá um som que se ouve assim, longe, sabe?
[00:55:57]
P/2 - Sr. Delmo, o senhor já contribuiu também para a área da saúde com os seus conhecimentos, de acordo com o que o senhor faz na mata?
R - Saúde, foi algumas plantas que é bom para remédio. Voltando lá, agora que eu me lembrei, né? Cê falou para contribuir com a natureza, lá no Rio do Norte, né? Então deixei muita contribuição das coletas da semente, ajudando a fazer o plantio. Tanto faz nas áreas, que eram plana, na área de tratamento de rejeitos, e na área do Lago do Batata, então, isso aí foi uma contribuição. E aqui também, aqui também já contribui bastante, que assim juntar a semente, lá no S11D (Projeto Ferro Carajás S11D), onde acompanhamos o plantio lá, nossa... cansei de ver coisa bonita, dá vontade de chorar, de alegria, não é chorar de tristeza não, é chorar de alegria, de ver aquelas plantas que você contribuiu para plantar estão bonitas, bonitas mesmo.
[00:57:04]
P/2 - Fruto do seu trabalho.
R - Nossa Senhora, assim, teve um trabalho que foi lá agora, recente, da praça de sondagem que passa numa área de APP (Áreas de Preservação Permanente), a coisa mais linda, as plantas que estão lá, grandes e alguma deu para fazer praça de sondagem, mas aquelas coisas da Vale, ela planta, depois tira, depois planta, mas ela também, assim ela contribuiu muito também lá, ela faz também a parte dela, ela manda... Ela tem empresa que é contratada só para fazer esses plantios também, né? E aí estão muito bonitas também. Então, isso aí são coisas que dá assim dá, Nossa Senhora... mas assim, eu se eu pudesse mesmo, eu contribuiria mais, coletando, fazendo plantio, acompanhando o crescimento, porque lá a gente tinha área lá de pesquisa que a gente acompanhava o crescimento. Eu trabalhava com a Martina, que era uma alemã, que ela estudava a sucessão natural, a gente acompanhava o crescimento tudinho, media tudinho as plantinhas. Via elas crescer. Tinha umas que a gente nem mexia mais, onde quer que a máquina não podia mais espalhar, porque o banco de dados, né? Elas germinavam, crescia muito rápido, ficava muito bonita. Dava dó de meter a máquina para espalhar ali, aí a gente já comparava aquilo, testemunha também. Lá a gente fazia muita testemunha, né? (comparando) Floresta natural, né? E fora da floresta.
[00:58:46]
P/2 - Qual foi a experiência mais marcante que o senhor achou que podia contribuir para isso aqui? Essas espécies de plantas que o senhor já encontrou?
R - Ah, mas tem diversas.
[00:58:57]
P/2 - Fala uma assim que mais marcou assim tipo essa daqui.
R - Olha que é assim, porque lá eu fiquei 23 anos no Rio do Norte, lá não tinha Swietenia macrophylla, aí quando eu vi aqui no Salobo (Mina do Salobo, da mineradora Vale S/A), nossa rapaz! Isso aqui é bonito demais. É o mogno.
[00:59:18]
P/2 - Já deu nome? Alguma espécie de planta?
R - Não.
[00:59:23]
P/2 - Nunca aconteceu.
R - Assim. Já ajudei muita gente a fazer coleta, mas... dessas coletas, porque essas plantas elas andam muito longe, as Ingá, elas iam para o Brasil, para Inglaterra. Elas são distribuídas, não ficam só num lugar não, porque assim, se vamos dizer, no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) pegar fogo, e aí só tinha um exemplar lá, aí acaba com tudo. Aí essas plantas às vezes é assim ó, Diplotropis purpúrea, a Sucupira preta, então, tem no Inpa, tem no Museu Goeldi, tem na Embrapa, tem no Jardim Botânico, tem nos Estados Unidos, têm na Inglaterra e daí por diante... Elas não ficam assim só em um lugar, porque tem que ter um acervo espalhado, entendeu? Para não ficar só num lugar e de repente, igual aquele museu que dá lá no Rio de Janeiro, como é que é o nome daquele que pegou fogo da outra vez, que a menor parte salvaram e a maior parte não salvaram?
[01:00:37]
P/2 - Eu vi essa matéria
R - Pois é lá. Então tem que ter outro acervo espalhado, assim não pode ficar só no lugar, porque senão pode acontecer isso. As Ptosolobio que viraram Abarema e que hoje já virou Jupumba, ia para os Estados Unidos, o especialista dela tava lá, entendeu? E assim por diante.
Tem, tem especialista, olha leguminosa, ela é dividida, agora está dividido em 4. Então, tem gente que estuda assim, um grupo, Mimosa, né, Mimesoides; tem outro que estuda outro grupo, Cisalpineacea né? Vocês sabem, né? Entendeu? Tem outro que estuda que é a PAP - Papilionoideae, que eu tenho um amigo lá que é fera nisso, que o Haroldo Lima que é doutorado, né? Mas mesmo assim ele, porque assim, essas pessoas doutoradas têm muito trabalho também, né? Eles têm aluno para corrigir prova, palestra, muita coisa. Então tem que ter uma pessoa, um técnico que ele confia para poder fazer aquele trabalho, já entregar tudo mastigado. O Haroldo Lima é uma pessoa muito simples, uma vez nós estava ali no S11D, tem uma, uma Chamaecrista Bahiae, ela parece muito com Inga e tinha um rapaz novinho assim igual esse 2 aí.. Aí perguntaram para ele que planta essa daqui, Haroldo Ele respondeu: Isso é uma Inga, por causa da ráquis, ráquis, parece.
Mas ele pegou o galho da Chamaecrista e chegou bem perto de mim e disse: - Delmo, esse aqui é Ingá? E eu falei: - não, esta aqui é uma Chamaecrista Bahiae. Aí ele falou: - Fulano! Aquela planta que eu te falei que era Ingá, não é não, é uma Chamaecrista.
Então é assim, você diz - Ah porque eu sou Doutor, não... fica por isso mesmo, né? Mas não é isso não...Tinha um rapaz chamado Robson, que tinha muito medalhão lá no no Jardim Botânico, que tinha raiva dele, por quê? ele vivia no campo descobrindo as coisas e aqueles caras só queriam saber dos medalhões, levava a planta para os caras… e o medalhão não sabia... e que caía na mão do Robson, e ele: - Fulano de tal. Aí o pessoal tinha raiva dele. Tinha uma vez uma menina discutiu comigo lá no S11D, lá no campo, que não tinha uma Chamaecrista arbórea, só tinha Herbacea, e eu disse - então amiga, tu não conhece porra nenhuma, ela disse - porque, não sei o quê... só porque assim, ela era formada e eu não tenho formação, mas também não tenho inveja não. Eu brigo, eu vou fundo, então vai lá, vamos coletar a amostra, vamos levar para especialista, vamos levar para o laboratório. Aí, depois que ela viu que estava errada, bora, bora postar mesmo aqui. Aí depois que ela ficou, pergunte: - Você conhece Haroldo Lima? Vou te dar o número dele e tu perguntou se tem, se não tem arbórea ou só tem herbácea. É porque o pessoal não conhece a Amazônia, o Lourival Tyski fala até hoje ralhando comigo dizendo assim: - essa Amazônia tem que ser muito estudada -, mas tem mesmo. Essa Amazônia tem que ser muito estudada.
Quando eu lembro que a gente ia só procurar leguminosa pras bandas de trombeta, que passava um lugar tão lindo, a cachoeira de baixo, assim correndo, a floresta do lado. Então, quantas espécies ali não tinha? A gente só estava procurando leguminosa. Quantas áreas de fazenda aí, de cerrado que foi desmatado sem estudo? Tem muita coisa que tem que ser estudado mesmo. Imagina só se essa Amazônia tivesse, fosse uma estrada bem no meio. Já tinha, já não existia mais, porque o homem nunca se contenta com o que tem. Quanto mais tem, mais quer, tem 1 Bi, quer ter 2…
E chega em 2 Bi, quer ser 3, e às vezes nem liga mais para a mulher dele [risos] já tem outro cara que fica vigiando, dá as costas e só quer saber de dinheiro, nem dorme direito, só dinheiro, só dinheiro.
Mas assim, pode perguntar mais coisas, se souber te falo. Aí na Serra Leste foi mais, foi mais recente, né? Eu tava na CAT (certidão de acervo técnico?) fazendo também para ser sondagem, né? Eu era eu, engenheiro florestal e mais dois auxiliares, que cortavam para fazer as parcelas lá. E eu ia identificando e o engenheiro ia anotando no aplicativo lá do GPS. Numa parcela lá, chegando já lá, perto de onde tem uma moradia, o cara estava lá, quando a gente chegou o cara estava lá, até o seu João. João de Deus, que chamam ele, pegou um susto: armado! Vixe, Maria, ele estava armado, né? (dissemos) não, cara! A gente tá fazendo o trabalho da empresa aqui, gente não é não.
Ele: - Porque eu pensei que fosse o fulano de tal aí, que invadia a minha terra, quer tirar madeira, aí eu não ia deixar. A terra é da Vale, não é dele não, cara. A gente foi na hora do almoço, procurou o pessoal da segurança e falou desse caso lá. Disse que o cara tava armado aí. Aí o cara sabia que era, que não é dele a Terra, foi lá um cara da Vale, mais o pessoal de segurança conversar com o cara, né? Aí a gente pegou um susto. De repente, está lá fazendo um trabalho para a empresa, né? E o cara chega armado? Aí, tudo nós temos família, né? E ninguém ia levar um tiro de graça. Mas foi só isso mesmo, mas assim, um negócio de negócio de bicho assim...
[01:07:24]
P/2 - O Sr. trabalhou na Serra Pelada não foi? também.
[01:07:26]
P3 - No reflorestamento?
[01:07:27]
R - Trabalhei.
[01:07:28]
P3 - É importante.
[01:07:29]
P/2 - Como foi trabalhar em Serra?
R - Não, Serra Pelada mesmo, não, trabalhei no projeto da Vale ali.
[01:07:35]
P/2 - Pois era projeto Serra Leste, também em Serra Pelada.
R - Ah, não, lá foi bacana, foi muito, assim porque foi lá no início do projeto e fomos identificar as áreas lá para poder fazer a retirada de minério, né? Acho que foi 2006, 2007, Serra Pelada não tinha quase nada. Tinha nada, nada. Não tinha nada, estava acabado nessa época. Até um cara que quase bate a gente, que tava meio bêbado lá...[risos] E aí a gente ia numa estrada que não era como está hoje, tudo bonitinho, né? Para subir para lá? Assim. [Tosse] Desculpa aí, mas nessa época era só mesmo fazenda, não tinha nada. Tinha um galpão lá que era, acho que da pesquisa, lá em cima. E o resto era todo, aquela canga que tem lá hoje que aquela... Assim, o processo de retirada de minério não é igual aqui, é mais lento, tem vez que para, tem vez que né...
Aí, mas foi legal para fazer as parcelas lá para poder mandar para o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Acho que naquela época era até o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), era o Ibama que liberava, né? A gente fazia o levantamento das espécies e depois ia para a pessoa que ia rodar o relatório e depois ia para ICMBio, fazer o pedido, para poder fazer a lavra lá para poder tirar o minério. Mas foi bacana. Depois eu voltei lá para fazer, ajudar a fazer o plantio. Daí que eu te falei das APP, nossa, uma vez pegou fogo numa área que já estava bonitinha. Lá plantava todo tipo de espécie de arbórea, espécie que era de várzea, espécie que era de igapó, espécie de terra firme... Tudinho, entendeu? A gente plantava lá, tinha as APP e plantava as laterais tudinho. E deixava... porque depois era, ferro aquelas pedras, mas nas áreas de APP era legal. É tão bonito agora, mas poxa, ali, depois da portaria, entrando assim para um lado, para outro. Mas era lá a coisa mais linda, Castanheira, que é Bertholletia excelsa, Swietenia macrophylla que é o Mogno, aquela outra que é Piptadenia gonoacantha (Pau-jacaré) e elas tão bonitas! e fizemos parcela ao lado, para fazer parte ____ da ____ dissemos: - rapaz! Não acredito que a gente plantou aqui, acompanhamos tudinho e...
[01:10:29]
P/2 - O trabalho de reflorestamento durou tanto tempo? [inaudível]
R - Mas fui eu acho que uns 3 ou 4 anos era lá no Serra Pelada, no S11D, bom demais... Lembrando desses aí que a gente acompanhava assim, porque a gente contribuía.
A COEX (Cooperativa dos Extrativistas) coletava as sementes para vender para a Vale, eu identificava e em troca, ficava com um pouco de semente para a coleção do herbário lá da Sementeca, a maioria de sementes que tem no herbário ______, fui eu! através daquele que eu identificava e eu pedia em troca: - Me dá um pouco dessa semente para a coleção daqui. Então, era bastante coisa, a gente foi que plantou ali, aí. Aí uma empresa estava fazendo plantio e a gente acompanhava, fazia as pesquisas lá, mediamos assim, 50 por 20 e ia medindo de dia, elas no verão e elas no inverno, para ver o crescimento delas, porque crescia muito, a gente fazia assim, tipo assim... como se diz, pegava a metade dela e como se fosse assim, fazia isso aqui, medir o quanto ela cresceu para lá, quanto cresceu para cá? Quanto que cresceu pra cá e para cá? [Gesticula mostrando que mediam o crescimento em todas as direções] era na trena _____ entendeu? e era assim, para hoje, assim... você anda lá... Nossa! É tão bonito isso aí. E a contribuição que você faz é identificar, pegar a semente, ajudar, ajudar assim, a preparar... a natureza, né? Hoje já está muito bonito, a parcela lá que a Vale mandou fazer plantio. Então a gente acompanhava com pesquisa, nessa época era eu, Lourival Tyski e o Renan, que fazia esse trabalho lá, e tem também o trabalho do ITV (Instituto tecnológico Vale), que é também, todos esses trabalhos da ITV, que tem a Serra Leste, tem no S11D, tem aqui Serra Norte... Eu acompanhava, era eu que identificava para o pessoal do... Tem até dois trabalhos que ainda vai sair agora, né? Que eu tenho até botar no meu currículo.
[01:13:08]
P/3 - Agora.
[01:13:11]
P/2 - A gente vai encerrar, né? E a gente queria saber como foi para o senhor contar a sua história.
R - É legal demais, eu queria mesmo, se eu tivesse condição, eu queria comprar uma máquina top que a minha ainda não é top e sair fotografando e por ajudar para fazer um livro, eu tenho tanta foto... O pessoal fala: - faz um livro...
Não, mas se fosse fácil eu já tinha feito um livro. Tem que ter alguém para poder escrever tudo de resumo, né? Alguém para também para financiar, né? Porque muito livro que sai daqui quem financia é a Vale, que paga para editora? Entendeu? Então, mas eu gosto, eu gosto desse trabalho que eu faço, gosto mesmo. Eu gosto de fotografar, eu gosto de desafio. A minha memória ainda tá boa, então tenho que aproveitar. E se eu tivesse alguém também para estar ensinando para mim também seria ótimo. É igual o que eu te falei olha, chegar lá no mato, tu vai escrever, aí igual a menina fala como é que escreve? é assim... eu vou soletrar, eu não tenho vergonha de soletrar não. Aí tu vai escrever certinho, depois que tá certinho, se a primeira vez tá certinho, e depois... às vezes, com pressa, as coisas.... Mas já tá... as primeiras já tá tudo certo, é só jogar depois no banco de dados, jogar no aplicativo lá do GPS e pronto.
Fiz o teste contigo aí, mas é desse jeito, lá no mato é desse jeito. O dia que tu quiser um desafio, vamos lá, vai ser isso aí, eu não vou falar nada, eu não vou falar o popular, não vou falar o nome científico para vocês tudinho. Então é desse jeito. Não tenha medo de ser feliz não. Se for de igapó, de várzea, de terra firme, subindo ladeiras, descendo ladeira.
[01:15:10]
P/2 - O Sr. contou parte da sua história, né? Tem alguma coisa que o senhor quer acrescentar?
R - Acrescentar?
P/2 - Que o Sr. não contou aí. Mas o senhor tem vontade de que te contar para gente?
R - Assim. Quando cheguei aqui, eu acompanhei muitos pesquisadores, ____. Foi como eu te falei, né? S11D, eu fui muitas vezes para lá, Serra Leste, Serra Norte, aqui quando começou a expansão da ferrovia, eu fui emprestado, eu era do Instituto Vale do Rio Doce que era da Vale também, era um galho assim... Mas depois virou tudo... nós viramos Vale, entendeu? E lá no Maranhão, isso aí foi um desafio que a gente via algumas peças que a gente não tinha no herbário, e o Tyski... ele gosta muito de planta... então é diferente, de você gostar de fazer o trabalho que você faz e não gostar, é igual a professor, todo professor quando gosta do que faz, a gente faz de graça, e gosta de ensinar uma criança, gosta de ensinar quem não sabe, entendeu? Mas tem gente que só trabalha por dinheiro, se não for dinheiro, não vai...
Uma vez eu discuti, discutir não... Meu gerente era o Samir, tem uma espécie de leguminosa Erytrina que parece uma Ormosia, parece Ormosia mas é Erytrina, eu levei a só semente para eles, aqui ó Erythrina, ele falou Ormosia, falei Erythrina, ele falou Ormosia.
Ele ficou tufado igual um sapo cururu comigo: - Está me enganando Fela da Puta, lá no Maranhão. Aí, quando foi no outro dia, Tyski chega, chega aqui, olha aqui, vamos coletar a flor, vamos coletar a flor, vamos coletar semente, a folha e levar para o Samir... Cheguei lá: - Olha o que você chama de Ormosia... Ele falou: - Égua, tu mata a cobra e mostra o pau...
Porque se eu não levasse, ele ia dizer que estava enganando ele, que é parecido, mas não é. Nem tudo que parece é, ela é parecida com a Ormosia a, mas não, é Erytrina. Entendeu? Essas histórias têm demais de trabalho, e era assim.
Tinha umas coisas que a gente não tinha no herbário e a gente coletava, colocava debaixo do colchão lá no Maranhão e trazia pra cá depois.
Mas se não gostasse mesmo, de quê? - Essa porra... Tem muita coisa que que às vezes é assim, não tem coisa melhor, hoje, quando eu bater o olho nessas espécies arbóreas, a maioria, se tiver com flor, eu sei, eu sei que a flor de uma Chamaecrista, a flor de uma Schizolobium que era Amazônia virou Schizolobium Parahyba, variedade Amazônia, eu sei, né? Só não dá pra diferenciar bem, o Handroanthus quando tá longe, Handroanthus Serratifolium do Handroanthus Ochraceus, porque das duas, a Ochraceus parece que é mais escura, mas ela tem a folha pilosa, maior e densa do pelo e a outra não, é menorzinha serrilhada também... Mas é só chegar perto (que eu digo): - fulano e fulano, entendeu?
Aí tem muita que o Cassia Fastuosa, Cacia Ponciana. A Cacia Ponciana era um amarelo meio escuro, e o fruto dela é cilindro, a outra é bem cilindro, mas é comprido a folha de uma é menorzinha com o áxilo mais agudo e a outra maior, mais pilosa. Entendeu?
São essas coisas que a pessoa tem que saber diferenciar, por exemplo, tinha a Schwartza, era Schwartza, variedade, e era assim... Agora virou... Acabou a variedade, né? Mas a Psilonema e a Schwartza, ela tem uma diferença do fruto a Psilonema, ela, o fruto dela, é meio chato a folha é menorzinha com a ráquis menor. A Psilo, Pilocarpus, Psilo sei lá ...até agora fugiu aqui. Ela tem a folha maior, pilosa, e o fruto, o cilindro grandão. Entendeu? Aí se não tiver com fruto? Mas eu sei, pelas características da Folha e do Ráquis, a diferença de uma para outra, mas se não prestar atenção nesses detalhes, tu pensa que é só uma espécie. Entendeu?
[Observação da transcritora - Não consegui confirmar os nomes científicos que estão em vermelho]
[01:20:32]
P/2 - Você já consegue, então, diagnosticar uma?
[01:20:34]
R - Já, semente também, se tiver uma semente aí... é porque assim, quem já trabalhou com semente, quem já trabalhou com com viveiro, quem já coletou bastante planta, então tem muito conhecimento. Assim sabe de bater o olho: - é Fulano de tal.
[01:21:05]
P3 - É pra gente finalizar. A gente quer fazer uma pergunta específica: qual que é o seu maior sonho hoje dentro da área de ensino?
[01:21:17]
R - Ah, eu queria assim dar, continuar assim, trabalhando mais e passar meu conhecimento pra outra pessoa. Conhecimento, sabe? Tudo que a gente conversou aqui. Mas não é fácil. Você quer assim, crescer e é aprender mesmo, não vai por nome popular, não... popular, isso é uma opção sua, vai no nome científico, vai aprendendo.
Hoje tu aprende 2, Amanhã aprende mais 3. Amanhã tu aprende mais 4 e assim por diante. Por que pensa? Eu falei 100 nomes aqui, vou aprender tudo? E tu não notou? Na hora que a gente começa a conversar tu não lembra mais. Então você tem que anotar tudo: Flor, a coloração, odor, se ela tem resina, se ela tem látex, se ela tem seiva... Entendeu? Se ela tem cheiro, cheiro de proteo, o mais cheiroso que eu acho é o Pálido e o Prussiano. Nossa, cheiroso demais. Entendeu? Mas para você saber se você não pode chegar com um indivíduo cortado de qualquer jeito, isso eu aprendi muitos anos atrás, você vai cortando aos pouquinhos: o xilema, retidoma dela, até... entendeu? Para ver se ela tem látex, se ela tem resina, você tem... Então flor, floração, frutificação, fruto seco, fruto verde... Isso aí é muito, isso aí faz uma diferença doida, entendeu? para você... Quando você não sabe qual é? Traz contigo, fotografa e mostra para alguém que tem mais conhecimento para dizer. Muitas vezes eu quero ajudar alguém, mas as fotos que chegam são muito ruins, aí o cara, ó... uma foto da Axial da folha abaxial, entendeu? Às vezes não tem flor, não tem fruto... Aí como é que o especialista vai te dizer: - é esse... Não tem, você quer ajudar alguém, Mas cadê? Não tem um material que preste? Um material ruim, olha, quando cheguei aqui eu penei pra comprar material para mim, não foi fácil não, essa vida que eu tenho aqui, não foi fácil não... Para comprar uma máquina boa que te mostra ali... um celular que preste para mim tirar meu trabalho. Meu celular não é para mim, não é pra tá tirando foto de mim mesmo, estar no Instagram, isso aqui é para trabalho mesmo. Se ele cair bem ali, eu sei que ele vai aguentar porrada, né? Comprei assim meu notebook também, bom, graças a Deus agora tenho um que eu fiquei... O meu ainda tava bom, mas de repente podia me deixar na mão, eu disse: - antes de me deixar na mão, eu quero ter uma ferramenta boa. Essas coisas que eu tô te falando é você ter um computador, notebook, e eu vou para Marabá fazer um trabalho e ele vai comigo. A minha máquina vai comigo, o celular vai comigo, entendeu? Ele vai comigo na hora que parar, nós vamos parar. Vamos discutir aqui a metodologia do trabalho, qual a metodologia? qual é a dinâmica do trabalho? Você tem que saber se você é responsável, se é o coordenador do trabalho, então você recebe a dinâmica, que vai passar pra gente e o que a gente vai fazer. Entendeu?
[01:24:56]
P/2 - Então é isso, isso. Parabéns por ter compartilhado com as pessoas.
R - Mas se tiver assim. Olha, eu queria bastante contribuir com a natureza. Estou te falando... hoje eu não estou trabalhando na empresa, minha esposa não me deixa mentir. É porque as empresas não querem me dar valor. E eu não sou um menino, um estagiário, não, eu me preparei para esse dia que eu estou hoje aqui. Eu não tenho vergonha de chegar: - Vamos embora, o que você precisa? Precisa de um técnico bom para escrever bem ou uma engenheira ou um biólogo, para escrever para mim.
Aí vai escrever lá, claro que não vai saber todas as plantas e eu que vou entregar para a menina aí, se não fosse eu, eu falei: - vocês deram sorte que eu não estava empregado, porque senão se tivesse pegado um menino desses de hoje... Agora diz que identificador, o trabalho daqui que é para um trabalho de carbono, o estudo de carbono é uma merda. Como é que tu ia soletrar, o soletrar para você? Ia te dar todo nome popular. Entendeu? E não é isso não, para tí fazer um bom trabalho, a gente tem que demorar assim, do jeito que aqui, e ter interesse também, no dia que eu bati o olho no nome científico, disse: - eu quero aprender. E até hoje não parei. [risos]
[Fim da Entrevista]
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