Projeto Mateiros do Brasil
Entrevista de Claudilene Fagundes da Silva
Entrevistado por Glaydes Coutinho e Lucas Silva
Serra Pelada, 26/08/2025
Entrevista n.º:MAT_HV010
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Bruna Oliveira
[00:00:20]
P/1 - Posso te chamar de Claudia? Claudia, muito obrigada por você ter disponibilizado esse tempo para nós e iniciaremos nossas perguntas. Me diga, por favor, onde você nasceu?
R - Eu nasci em Curionópolis (PA) e fui criada em Eldorado dos Carajás (PA).
[00:01:00]
P/1 - Como é que era lá em Eldorado? Sua infância, como foi?
R - Era muito bom. Minha infância foi muito boa. Nós não passávamos fome. Mas passamos muita dificuldade lá. Estudava, estudei até o segundo ano do ensino médio. Tenho 9 irmãos comigo, né? Tenho meu pai, minha mãe, que é Maria Lúcia, meu pai, João Batista, até hoje eles vivem juntos. Eu tenho a irmã caçula e o irmão caçula, só que mora com eles lá. E aí os outros são tudo casados, e eu vivo aqui, saí de lá acho que tem quase 20 anos já que saí da minha casa.
[00:01:47]
P/1 - E por que você parou de estudar no segundo ano?
R - É porque quando a gente é adolescente, a gente não pensa, eu conheci um rapaz, minha mãe, no tempo, não aceitou, e aí nós fomos morar juntos. Eu passei com ele acho que uns 3 meses por aí só, aí depois nós separamos e eu voltei para dentro da casa da minha mãe, mas só que eu não voltei a estudar. Aí depois fui trabalhar, depois conheci outro rapaz, morei com ele uns... quase 6 anos por aí. Aí depois separei dele em 2019. Só que eu aprendi muito assim, a trabalhar em fazenda, em casa dos outros, e aí, quando nós separamos, ele foi embora. Eu também voltei para casa dos meus pais, aí como eu já conhecia um ex-patrão dele, o Seu Raimundinho, Aí, como eu já sabia mexer com gado, mexer com animal, tirar leite, aí ele me deu, né?
[00:03:02]
P/1 - E onde você aprendeu essas coisas? Mexer...
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Entrevista de Claudilene Fagundes da Silva
Entrevistado por Glaydes Coutinho e Lucas Silva
Serra Pelada, 26/08/2025
Entrevista n.º:MAT_HV010
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Bruna Oliveira
[00:00:20]
P/1 - Posso te chamar de Claudia? Claudia, muito obrigada por você ter disponibilizado esse tempo para nós e iniciaremos nossas perguntas. Me diga, por favor, onde você nasceu?
R - Eu nasci em Curionópolis (PA) e fui criada em Eldorado dos Carajás (PA).
[00:01:00]
P/1 - Como é que era lá em Eldorado? Sua infância, como foi?
R - Era muito bom. Minha infância foi muito boa. Nós não passávamos fome. Mas passamos muita dificuldade lá. Estudava, estudei até o segundo ano do ensino médio. Tenho 9 irmãos comigo, né? Tenho meu pai, minha mãe, que é Maria Lúcia, meu pai, João Batista, até hoje eles vivem juntos. Eu tenho a irmã caçula e o irmão caçula, só que mora com eles lá. E aí os outros são tudo casados, e eu vivo aqui, saí de lá acho que tem quase 20 anos já que saí da minha casa.
[00:01:47]
P/1 - E por que você parou de estudar no segundo ano?
R - É porque quando a gente é adolescente, a gente não pensa, eu conheci um rapaz, minha mãe, no tempo, não aceitou, e aí nós fomos morar juntos. Eu passei com ele acho que uns 3 meses por aí só, aí depois nós separamos e eu voltei para dentro da casa da minha mãe, mas só que eu não voltei a estudar. Aí depois fui trabalhar, depois conheci outro rapaz, morei com ele uns... quase 6 anos por aí. Aí depois separei dele em 2019. Só que eu aprendi muito assim, a trabalhar em fazenda, em casa dos outros, e aí, quando nós separamos, ele foi embora. Eu também voltei para casa dos meus pais, aí como eu já conhecia um ex-patrão dele, o Seu Raimundinho, Aí, como eu já sabia mexer com gado, mexer com animal, tirar leite, aí ele me deu, né?
[00:03:02]
P/1 - E onde você aprendeu essas coisas? Mexer com gado, tirar leite?
R - Lá na fazenda mesmo. Quando eu morava com meu ex-marido. Aí aprendi, ele me ensinou e foi muito útil, né? E aí eu pedi uma oportunidade para ele, pegou e me deu. Aí eu tirava leite lá, eu trabalhei um bom tempo com vários peões, mas só que apesar de eu ser mulher, eles não queriam trabalhar junto comigo. Aí foi saindo um, foi saindo outro, aí eles não queriam fazer as coisas certas e eu falava com o patrão, até que eu resolvi ficar só lá, passei uns dias, acho que quase 3 anos, sozinha.
[00:03:49]
P/1 - Como é que era na escola? Voltando um pouco.
R - Como era na escola? Era normal, eu só não tinha muitas amizades, eu tinha vergonha até de ir na frente levar o caderno para professora corrigir. Não gostava de fazer trabalhos, eu fazia porque era obrigatório, se não reprovava.
[00:04:12]
P/1 - Do que vocês brincavam a infância, na escola?
R - Na escola, não brincava muito não brincava muito em casa, né? Com os irmãos, nós brincávamos na terra, eu fazia aquelas, aquelas panelinhas de barro, boneco de barro. Era... porque nós era... Não tinha dinheiro assim para estar luxando, aí nós fazíamos nossos próprios brinquedos, fazia de barro, as vezes minha tia mandava muito brinquedo assim da minha prima e do meu primo, que eles não queriam mais, mandava lá para casa. Aí nós fazíamos assim, brincava com brinquedo de barro e com os brinquedos que minha tia mandava também.
[00:04:49]
P/1 - E sei como é que era a casa de vocês?
R - Era humilde de madeira e barro, era de madeira, telha de Brasilit, de barro. Era assim, quintal fechado, de madeira também, mas nós éramos muito feliz. Graças a Deus todos nós éramos.
[00:05:10]
P/1 - Tinha algum parente próximo de vocês? Ou avó, tio ou tia?
R - Não. Os parentes dos meus pais moram tudo no Maranhão, apesar que eu não conheço nenhum primo, tia, da parte do meu pai, eu não conheço, mas já vi por foto, né? E parte da minha mãe, mora uma tia minha ali no Paraopeba (MG), com 2 primos meu, ela só tem dois filhos, um casal. E aí só eles mesmo que eu conheço, meu vô, já conheci ele e alguns tios meus que veio com ele de Roraima para visitar minha mãe, aí eu vi ele, mas o resto não conheço.
[00:05:48]
P/1 - Seus pais, de onde eram?
R - Meus pais são misturados, é maranhense com paraense, eles nasceram lá, mas vieram para o Pará, né? Vieram... nasceram no Maranhão, viveram um bom tempo. Aí vieram para cá.
[00:06:04]
P/1 - Você tem alguma lembrança com eles, com seu pai ou com sua mãe? Uma lembrança que te marcou?
R - Não, não tenho. Assim eu... eles bebiam muito, né? Bebia, fumava, aí eu não gostava quando eles fumavam e bebiam. [a entrevistada caí no choro]
[00:06:38]
P/2 - Fica à vontade, realmente são essas coisas de família, né? ____ Grandes acabam com a nossa sociedade. Vou pegar um pouquinho de. [inaudível]
[00:06:52]
P/1 - Claudia, você quer continuar falando sobre sua família? Você teve... como é que era isso pra você e seus irmãos? Isso afetava muito na casa de vocês?
R - Afetava porque os meus irmãos eram pequenos, né? E aí...
[00:07:20]
P/1 - Você cuidava deles?
R - Cuidei, cuidei deles, e o exemplo também. Hoje alguns meus irmãos bebe. Bebe, fuma. E aí, o que eu faço é só orar por eles mesmo.
[00:07:44]
P/1 - Você é cristã?
R - Sou, graças a Deus, meu pai. Ele parou de beber, minha mãe já, ele parou de fumar, eu agradeço, mas só que o exemplo vem de casa, né? Primeiro, a educação vem de casa. E aí? Alguns dos meus irmãos bebem, fumam, a gente dá sempre conselho, mas... só aceita quem quer, né?
E aí eu. Eu não vou mentir, porque beber eu já bebi, a experiência não foi boa, não. Mas, graças a Deus, Deus tirou dessa vida, a gente se envolve com pessoas que hoje em dia eu sei que não tem futuro, só leva a gente pro buraco. E é assim, a gente não escuta os conselhos do pai e da mãe por irresponsabilidade e ignorância, né, do adolescente. Aí quando a gente vira adulto, que vê lá... Olha lá para trás, hoje em dia, se eu tivesse escutado meu pai e minha mãe, apesar que eles são simples e eles, o meu pai, ele nunca estudou, apesar de estudou até a quarta série, minha mãe estudou acho que até a quinta série, mas eles nunca deixaram de dar conselho para nós. Mesmo a gente adulto e fora de casa e aí eu sempre... tem os meus irmãos caçulas, que não bebe, não fuma, mas vive dentro de casa, e vi alguns dos irmãos, né, bebendo, fumando... e aí tenho meus sobrinhos, meus sobrinhos também convive com os pais e... constantemente às vezes brigam, e aí os meus sobrinhos vê? É complicado, mas é assim mesmo, vai vivendo.
[00:10:02]
P/1 - Você tinha falado que na fazenda você... Os homens começaram a sair os peões e você começou a trabalhar lá sozinha?
R - Foi porque, eu falei pro Seu Raimundinho que eu só iria ficar se fosse só. Porque trabalhar com pessoas dá trabalho, é muita dor de cabeça, mexer com gente é difícil. Eu para mim, eu prefiro mexer assim com animal, um cachorro, que eles escutam a gente mesmo que eles não falam, mas eles têm sentimento, né? Eles sabem.
E aí que o ser humano... hoje em dia eu tô só, por conta disso, porque com as pessoas que eu vivi... aprendi muita coisa, mas hoje em dia não vale a pena casar mais não. Eu muita gente ainda aconselha a casar, mas eu não quero, não quero casar, porque hoje em dia não vale a pena e também não tem... A gente não acha pessoas, apesar que não tem pessoas perfeitas, ninguém é perfeito, mas não vale a pena mais.
Tantos casos que eu vejo por aí, o homem mal conhece a pessoa, a mulher vai e mora mais ele e o homem também. Muitos matam, judia, bate, então não adianta. Apesar que com os que eu já morei, nunca me bateram, mas sempre assim, o que eu fazia dentro de casa tudo bem, mas o sentimento que eu sentia por ele não era, eu não recebi o mesmo, então não adiantava eu fazer uma coisa, que eu não estava sendo amada dentro de casa. Eu fazia tudo, deixava tudo organizado, mas mesmo assim eles não, parece que tinha amor por mim. Sei lá.
Ele saía de casa, me deixava só, né? Ia se envolver com outras pessoas lá fora, então foi muita decepção na minha vida. Então, para mim, para mim mesmo. Eu acho lindo casamento, mas para mim eu não quero mais casar, essa vida não. Eu prefiro ficar só mesmo. Tá bom. Já tive muita dor de cabeça.
[00:12:22]
P/1 - Durante esse casamento, você chegou a ter algum filho?
R - Não, nunca tive filho, sempre evitei ter, porque no período do decorrer da vida, no conviver com eles eu fui percebendo que não valia a pena ter. Então, eu ter um filho assim nas costas, botar um filho nesse mundo sem ter recursos, sem ter uma casa, sem ter... Porque hoje em dia uma mulher com filho é difícil arrumar um trabalho fixo. Então o que eu pensava era isso. Porque não adianta botar uma criança no mundo para sofrer, sem ter uma escola boa, uma casa para botar debaixo, então é isso, nunca pensei em ter.
[00:13:03]
P/1 - E Cláudia, como foi que você chegou até aqui na chácara, para morar aqui?
R - Aqui, foi um amigo meu, o Alisson, só que eu já conhecia o pastor, o pastor me conhece desde criança. Só que quando o Alisson me indicou para cá, eu não sabia quem era. Aí ele me mostrou a foto, né? Aí veio na minha lembrança, eu sabia quem era, mas não sabia de onde era, e de quando, né? E aí eu. Quando eu mostrei para a mãe, a mãe falou assim: - Ah, esse aqui é o pastor Zé Antônio, que era pastor da nossa igreja Betel antigamente.
Aí eu peguei e falei: - Ah, tá, não lembrava da irmã Araci também, nós, naquela época nós tínhamos, eu acho que eu tinha uns 7 anos, para 8 anos por aí, e os meus irmãos pequenos só era eu, minha irmã mais velha, meu irmão mais velho e meu irmão mais novo que eu, nesse tempo, ele tinha uns 5 meses para 6 meses, e aí foi assim, depois de quando nós saiu de lá da igreja, da Igreja Betel, que eles vieram embora para cá. Minha mãe estava grávida da minha irmã caçula, né?
E aí, depois de 16 anos, foi que eu vim rever o pastor, eu não sabia, não tava... Eu sabia que conhecia, mas não tava entrando na minha cabeça de onde? Aí foi depois que minha mãe viu ele que me falou. Falei: - Ah, agora tô lembrando, mas foi através do Alisson, porque lá onde eu tava, estava ficando muito pesado para mim lá, eu tava fazendo cerca, nós fizemos o quê? 500 metros de cerca.
Nós cavávamos o buraco, botava estaca, botava os arames, porque como o trator esteira passou entre a mata e a cerca, a cerca estava muito velha e quebrou, tivemos que refazer. E aí eu arrastava manco, um cavalo, né, na zorra... E carregava muita estaca também, para o lugar, porque era longe, era sol muito quente, tinha hora que a gente pensava que ia bater as botas, como o brasileiro fala, e aí foi um perrengue também que eu passei... lá só passei 8 meses.
E aí o Alisson me indicou para cá, disse que tinha uma chácara que tava precisando de alguém, quem tava aqui, era o sogro dele, e não tava dando conta. E aí falou com o Pastor, muitos duvidaram que eu ia ficar aqui porque eu era mulher, mas já tem 1 ano aqui, já tem 1 ano.
E aí, antes de eu ir para a (fazenda) dessa outra pessoa que eu passei 8 meses, antes eu tinha passado 1 ano, quase 2 anos, lá na fazenda, sozinha, lá eu tirava leite, fazia ração para galinha, pra gado, olhava o gado, salgava os coxos. E a gente curava bezerro, fazia um monte de coisa!
E lá eu também achava muito bom, agradeço muito, as pessoas de lá, que me ajudaram muito e eu agradeço muito eles. Aí eu saí de lá, mas só que ficou a amizade. E esses dias eu fui para lá, esse final de semana, foi muito bom, fomos para a igreja, graças a Deus. É muito bom.
[00:16:37]
P/1 - Cláudia, você mora aqui na chácara sozinha?
R - Só. Só eu e Deus, graças a Deus.
[00:16:42]
P/1 - E o que os seus pais acham disso, sua família?
R - Eles, apesar que eles nunca, nunca aceitou de eu morar só, ficar, só, que eles têm muito medo né, de acontecer alguma coisa. Apesar que eu não tenho medo de nada, já aconteceu altos e baixos e já andei dentro do mato, aqui mesmo já andei muito dentro do mato, sozinha. Pra lá também eu andava, pra buscar Castanha do Pará, essas coisas, e aí eles não aceitam! minha mãe já me chamou muitas vezes para ir para lá, mas só que de muito tempo eu ficar só, e viver assim, trabalhando, andando, eu não me acostumo mais lá. Quando eu vou para lá, eu passo no máximo 2, 3 dias, mas já é doida para voltar, para vir embora, minha casa é aqui mesmo, quando vem muita gente, eu não gosto muito de me envolver assim. Assim, se não tiver pessoas que eu tenho intimidade, né? Agora, pessoas que eu não tenho intimidade, eu prefiro me recuar, ficar no meu cantinho ali, aí eles ficam, aí eles me chamam e tal..., mas eu prefiro ficar no meu canto.
[00:17:58]
P/1 - E quando você saiu da casa dos seus pais. Você tinha quantos anos, Cláudia?
R - Na época eu tinha uns 18 anos por aí. 18 anos, eu tava de maior, mesmo assim minha mãe nunca aceitou. Eu tive 3 relacionamentos, nunca casei, mas sempre nós moramos junto, né? Mas nunca deu certo. Aí do terceiro eu já decidi que não ia mais me relacionar com ninguém.
Eu tive um namorado por uns tempos aí, mas só que eu não quis mais por mim mesmo, eu não quis, resolvi não querer e tô só. Resolvi ficar só mesmo, não quero casar, não quero mais relacionamento com ninguém, assim, eu, para mim, eu botei uma pedra no meu coração para mim não ter mais sentimentos por outra pessoa, a não ser que seja através de Deus, mas isso... eu como não tenho, não acredito mais no casamento, né? Tipo assim, no relacionamento a dois saudável, eu não acredito mais.
[00:19:14]
P/1 - Cláudia, quantos anos você tem hoje?
R - Eu tenho 31.
[00:19:18]
P/1 - Quando foi que você conseguiu seu primeiro emprego? Qual foi o seu primeiro emprego?
R - O meu primeiro emprego, foi quando eu me separei. Quando me separei do segundo marido. Eu estava trabalhando em casa mesmo, de gente dona de casa em fazenda, mas cuidar da casa, não cuidava da terra. Aí, depois que eu saí, eu trabalhei para muita gente ruim e muita gente boa também. Não é fácil, mas fazer o quê? É a vida, né?
[00:19:59]
P/1 - Pode nos contar alguma experiência que você teve, uma experiência ruim ou boa com algum dos seus antigos patrões?
R - Eu trabalhei para uma pessoa numa fazenda, ali pro rumo da curva do S, assim, no começo, quando a pessoa quer uma pessoa para trabalhar na sua casa, ela exige respeito e também tem que respeitar, né? Só que, era umas pessoas assim, que no começo era gente boa e tal, era conversador com a gente, respeitava, normal. Mas quando saiu o primeiro salário, aí eu comecei a conhecer as pessoas, os donos da fazenda, que eram meus patrões e eles começaram a gritar, como se fosse com filho dele... assim.
E aí tinha entrado um vaqueiro, tinha um vaqueiro lá e ele sempre me falou: - olha, eles são gente boa no começo, mas depois você vai ver, eles vão começar a gritar, falar com você diferente.
Apesar que a mulher dele tinha muito ciúme, né? Não era nem ciúme, porque eu acho que ela já tava bem desiludida da vida também... Aí o seu Francisco falou assim, que o marido dela sempre gostava de dar em cima das empregadas, e quando eu entrei lá já falei logo que eu não era igual às outras. Aí ele falou né? o patrão falou pro vaqueiro lá e ele sempre me falava que eu era diferente.
Nunca dei bola, às vezes, ela, a mulher dele, falava algumas coisas, achando que eu ia entrar no meio das conversas lá, conversava com os peões falava coisas que... tipo assim, imoral, né? Os peões achando que eu ia entrar para ficar, porque sempre ela falava que as empregadas, quando ela começava assim, as empregadas, entrava no meio e ficava também entrando na conversa. Aí também eu nem ligava, eu só terminava meu serviço, fazia a comida, ia pro meu quarto, só.
Mas também eu só fiquei lá 6 meses, porque eu tava precisando muito, mas depois eu saí e pronto. Aí depois disso eu só trabalhava assim, no mato mesmo, nas fazendas, nos lugar, aí na rua, na cidade nunca mais trabalhei, não. Só assim, eu preferi assim, mesmo que seja pesado, mas eu gostava de trabalhar com os bichos. Nunca gostei de judiar dos bichinhos. Eu gostava muito de andar de cavalo, gostava, não, até hoje eu gosto, apesar que eu não trabalho mais na fazenda, mas até hoje eu gosto.
[00:23:08]
P/2 - Cláudia, como surgiu a sua paixão de trabalhar em fazendas e chácaras?
R - Eu, quando eu era junta com o meu ex-marido, eu falava para ele: - ó, tu me ensina, porque eu gostava muito assim de apartar vaca, mesmo não tendo prática, mas gostava. Aí ele me levava, me ensinava arriar cavalo, colocar as coisas tudinho, aí me ensinou a tirar o leite também. Aí depois, quando eu passei para outra, para outra terra, do irmão desse patrão que eu tava trabalhando, eu não sabia colocar, como é que fala? aquelas correntes que é para esticar o arame? Eu não sabia, aí eu vi, eu só vi uma vez ele fazendo, aí pronto... daí eu aprendi, não precisava nem ninguém me ensinar, porque a gente olhando, prestando atenção bem direitinho, a gente aprende. Aí eu aprendi, aí foi daí que eu comecei a ter amor pelos animais, assim, andar a cavalo, tirar leite, apesar que era pesado.
Eu quando eu comecei a trabalhar sozinha que os peão foi tudo embora, que o seu Raimundinho me deixou só, quis me deixar só, para fazer um teste, eu, como eram quase 30 vacas para tirar leite, eu levantava 02h00 da manhã, arreava o cavalo e ia para o pasto trazia as vacas e os bezerros, ficava preso, quando eu ia apartar, de assim de 03h00 para 04h00, eu trazia só os bezerro e as vacas ficavam lá, era assim, e aí comecei cada dia mais eu aprendia uma coisa diferente. Aí pronto. Aí, depois que eu aprendi a trabalhar e a viver sozinha, aí também o medo passou, de primeiro assim, que eu era casada, eu tinha medo, receio dos bichos, mas é porque eu não sabia, mas depois que eu aprendi, pronto, perdi o medo de vaca.
Eu já fui esfregada de vaca valente em cerca de curral. Já caí de animal, muitas vezes... Já fiquei rodada de par de madrugada, porque o cavalo me derrubou e eu saí atrás, é! é luta. E aí, eu me levantava e ia atrás do cavalo até pegar. Ia com as vacas, terminava as 5h, 6h e pouco da manhã o leite, ia deixar, pegava aqueles tambores de 50 litros, botava no carrinho e levava, ainda bem que o resfriador é do lado da casa dele, era pertinho, assim, só a ladeira, um pouquinho alta, mas eu levava.
Tinha vez que eu tirava de 114 litros de leite por dia e carregava nos tambores e levava e trazia de volta os tambores secos, lavava, e era assim. Mas ela foi luta, passei maus bocados sozinha, mas graças a Deus, Deus me deu força e coragem, porque é difícil! mas quando a gente aprende, tem prática, a gente não vê dificuldade, vê dificuldade, quando não sabe, né? Mas quando a gente bota para aprender e pronto, a dificuldade some, a não ser dificuldade, a gente vê assim quando a gente não quer trabalhar, a preguiça bate e não quer trabalhar.
Mas quando a gente tem coragem, tem o prazer de trabalhar, porque não existe serviço bom, nunca existiu serviço, trabalho nenhum bom, sempre é ruim, mas só que vai da boa vontade da pessoa. E é isso, eu até hoje vivo só, eu tenho quase 20 anos que eu saí da casa dos meus pais, só tive 3 relacionamentos, e de lá para cá, vivo só aí, no mundo.
[00:27:11]
P/2 - Dentro do teu trabalho, qual foi o seu maior desafio no início para você? Que você disse: - eu tenho que superar isso. [som muito baixo]
R - Meu maior desafio foi querer, tipo assim, viver só, para poder conseguir o sustento foi um desafio muito grande, mas a gente aprende, e quando a gente aprende o desafio acaba. Mas o desafio foi quando eu decidi ficar só e trabalhar numa fazenda para cuidar de tudo, de dar conta de tudo. Achando assim... muita gente achava que eu não dava, não daria conta por eu ser mulher, né? Não por eu não ser um homem, mas lá onde eu trabalhava todo mundo me conhecia, me chamaram de vaqueira, porque eu só vivia nos pastos, andava nas estradas de animal. Todo mundo me via mexendo com o gado e todo mundo me conhecia por Vaqueira.
E aí meu desafio foi esse, de largar, né? De sair de um relacionamento que eu via que não ia dar certo e viver só no mundo, que muita gente fala: - você não tem medo de viver só? Falei Não... já tive, mas hoje em dia não tenho mais não, a gente acostuma e o medo some. Eu mesmo não tenho medo, eu durmo tranquila, nem sonhar. Tem gente que tem pesadelo, eu não tenho pesadelo, minha mente é tranquila. Não devo nada a ninguém, nunca fiz mal a ninguém. Apesar que já fizeram mal a mim, mas nunca fiz mal a ninguém não. Também não tenho nem rancor nem mágoa de ninguém, eu vivendo minha vida, tranquilo. Tá bom. E é isso.
[00:29:20]
P/2 - Os trabalhos que você faz e conta pra gente um pouco assim das suas atividades, o que você sabe fazer dentro de uma chácara, de uma fazenda?
R - Olha o que eu sei fazer, o que eu já aprendi é roçar de roçadeira, eu já usei. Eu mexo nessa bomba de veneno, eu limpo aqui o quintal é com essa bomba de veneno. Eu só boto gasolina e assopro as folha, eu mexo com motosserra, eu corto com motosserra. Eu já pilotei trator, mas não virei prática, né? Não sei... mas de tudo um pouco... eu sei quebrar milho naquelas máquinas trituradora, assim em máquinas de roça, eu sei quase tudo, entendeu? E eu sei fazer horta, mexer com horta, como é que fala? Cerca também eu sei, mas só que aqui eu não mexo, porque mais lá onde eu tava eu mexia com cerca, fazendo cerca.
Já carreguei até água para bater veneno em pasto, mas eu não, mas carregando para outra pessoa, né? e assim, por onde eu passei, eu aprendi um pouco de cada, eu botei para aprender, porque a gente como anda só a gente não fica só ali num lugar, né? Quando o lugar não é bom, a gente decide ir para outro lugar, aí lá tem outra coisa diferente, a gente vai tentar aprender, aí, como já aprendeu no outro lugar, a gente não precisa estar pedindo para os outros ensinar.
Não, eu... eu não sabia passar roupa, eu aprendi nas casas dos outros a passar roupa. Apesar que eu não gosto de passar roupa, mas, trabalhando para o outro eu passo. [riso] eu sei cuidar de uma casa, aqui dentro, em um dia eu limpo uma casa, vasculho, limpo tudo e limpo o quintal, cuido dos animais, que faço comida para eles, faço tudo... o que for de casa e de quintal eu faço tudo, do pesadão também, de mexer com bicho brabo, mexer com coisa, com motosserra, tudo eu mexo. Para mim não tem... Eu ficava com receio de motosserra, mas depois que eu peguei... eu pensava que era muito perigoso, mas quando eu peguei para mim cortar, aí eu vi que a gente que tem que ter o controle, né? do motosserra. Então aí eu não tive medo não, só peguei e fui, então, para mim, hoje não tenho dificuldade nenhuma para trabalhar, mas... o resto.
[00:32:16]
P/1 - Nos conte um pouco sobre sua rotina aqui na chácara, como é que é? O que você faz hoje em dia?
R - Aqui eu cuido da horta, nós iniciamos uma horta lá embaixo, aí eu limpo o quintal, limpo aqui o barracão, limpo os quartos, têm os dias, né? de limpar cada coisa.
Tem a casa e tem a cozinha para ali, tem as galinhas, têm um galinheiro ali, também tem um dia de eu limpar. Aí tem ali para trás também eu limpo assim, essa área aqui toda limpa, que tem grama, eu limpo. Quando não é no rastelo, é na bomba quando tem gasolina eu pego a bomba... Porque nessas bombas a gente tem que botar gasolina temperada e tempero igual no motosserra para poder assoprar, porque na bomba é mais rápido, no rastelo demora um pouquinho. Apesar das dores nas costas, né? Mas na bomba eu acho melhor, limpo tudo aí. O barracão é limpo, a gente vasculha. Quando vem gente para cá, eu limpo mais o quintal quando é final de semana, de quinta para sexta. Aí depois, no domingo para lá, começa tudo de novo, é assim, minha rotina aqui é cuidar da horta, cuidar do quintal, dos bichos, né? Principalmente, da casa, de tudo, assim, aqui é minha rotina.
[00:33:43]
P/1 - A chácara é longe da civilização?
R - É não, é longe, mas apesar que eu não tenho transporte, mas sempre quando eu preciso, o pastor vem me buscar, me leva, me traz, é assim, quando é preciso eu resolver alguma coisa na rua, ele que vem me buscar ou pede para alguém vir me buscar e me leva para a rua e me traz, sempre assim.
[00:34:10]
P/1 - Como é que você se comunica aqui?
R - Pela internet, tem wi-fi aqui... Aí quando eu cheguei aqui, não tinha, mas aí o pastor decidiu botar internet, porque como eu fico aqui só... Aí ele resolveu botar internet para mim poder ter comunicação. Eu ia daqui pra pontinho ali na estrada, que sobe para ali. Só que bem ali tem uma casa que tem uns indivíduos lá que não são... Acho que não são peça boa, né? E aí, para a gente evitar, eu não preferia ir lá, né? Um dia eu fui lá na internet, tinha uns peões lá, tinha um mexendo na Rocinha assim. E tinha outros na casa, de longe, eu ficava num poste e eles ficava lá... mas de longe a gente escuta. tirando mau gosto, né?: - Tá longe, vem mais para cá. Falei: - Não vai dar certo não. Mas eu sempre com uma espingarda, alguma coisa do lado, aí eu saí e vinha vindo dois, atrás. Eu saí, vinha vindo dois e tinha dois cachorros comigo, eu falei: - É, aqui da cancela para trás, eles podem até fazer alguma coisa, se eles me alcançarem, mas da cancela para dentro não me responsabilizo, então eles que sabem.
Eu só entrei, e eles acho que sumiram lá da ponte para lá e eu entrei para cá. Mas também eu nunca tive medo assim. Tem gente que fala assim: - na Serra Pelada tem muita assombração. E eu não acredito em assombração, eu não acredito nessas coisas. Porque a gente tem que ter medo de quem tá vivo, não de quem tá morto. Quem tá morto não faz nada com ninguém, né? Só quem tá vivo, porque o ser humano tem a mente muito, como é que fala? Maldosa. Muita gente tem uma mente muito maldosa, então eu não tenho medo de assombração, apesar que eu nunca vi e nem quero ver, porque isso é uma coisa, é uma ilusão da cabeça do ser humano, porque isso não existe, Não. Eu mesma não acredito, nunca vi, e se um dia aparecer, eu mesmo não acredito, nunca vi nem quero ver, porque muita gente acredita, porque... eu acho que é por conta do medo, quer dizer, né? É por conta do medo, não... Porque quem não tem medo não vê não... eu mesmo nunca vi. Eu não tenho medo de nada, né?
[00:36:40]
P/1 - Claudia, você falou que anda pelas redondezas aqui.
R - Ando. Já andei muito por aí.
[00:36:47]
P/1 - O que você faz quando vai pra mato?
R - Eu, porque sempre tem as divisas, né? Daqui para ali, daqui para acolá, eu já andei muito, mas só que eu ando sempre armada, não ando de mãos vazia. Aqui os bichos da mata mexem muito com as galinhas. Aí, sempre, quando não dão um vacilo, eu pego para fazer comida para os cachorros, né? Porque se a gente tá aqui é pra cuidar, né? Aí os bichos do mato vem pra cá, aí já comeram muita galinha aí.
Só que deu uma sumida, já veio aqueles gatos do mato pega galinha no ninho, teve um de madrugada, 01h00 pouco da manhã, o pastor tava aqui e aí eu só ouvi o grito da galinha. Só que eu não saí para fora, porque eu não queria incomodar o pastor, aí, quando eu falei para ele, disse que era pra mim ter chamado ele, falei: - ah, pastor 01h00 lhe acordar, mas porque a gente sair para fora com arma e dá um tiro, a pessoa se espanta, né? Então eu preferi ficar quieta.
E aí, quando amanheceu o dia, não deu tempo de ele carregar por conta dos cachorros ele deixou a galinha lá embaixo, mordida no pescoço, ela tava morta. E aí não deu tempo, mas nós já... abati um bocado aqui pra dar pra esses cachorros, eles acuam e. gente vai lá e ele tá lá. Ele só sai de lá quando a gente vai lá para pegar, se não for, eles não saem.
[00:38:17]
P/1 - Quais são esses bichos predadores mais comuns aqui na região?
R - É Coati, Papa mel, gato do mato, esses bichos assim, têm aqueles tamanduás, mas não mexe com galinha. Mexe só Coati mesmo, Papa mel, Gato do mato, Gavião também, tem uns gaviões aí, atentados... de hora e outro pega um pinto, um dia eu acertei um bem ali, numa árvore ali, mas passou uns dias sem aparecer, aí depois começou de novo, tem um aí, rondando uns pintinhos que nós soltamos, e tinha uns piando por ali, eu fui lá, era o gavião que tava no chão, só deu tempo dele voar. E minha rotina é essa aqui, eu ando no mato porque a gente tem que conhecer, né?
E os bichos também, quando vai, eu vou lá ver o que é, um dia eles me botaram num buraco acolá e eu achava que era um bicho, mas era um camaleão, aí eu voltei para trás. Mas tem buraco feio dentro desses matos, tem um buraco feio, só anda quem tem coragem mesmo, sozinho só anda que tem coragem. Mas tem uns buracos feios aí nesse mato.
[00:39:30]
P/1 - Tem onça aqui também na região?
R - Rapaz, se tem aqui, só se vier dessas matas mais longe. Mas acho que por aqui tem mais é aqueles gatinhos do mato, só. Mas onça mesmo? Acho que tem não...
[00:39:42]
P/1 - Por que vocês plantam na horta?
R - Nós plantamos coentro, cebola, se tiver, rúcula e alface, couve, todo tipo de verdura, a gente planta lá. Por enquanto, está tendo só cebola e coentro.
[00:39:59]
P/1 - Lá tem alguma planta que você usa para fazer remédio ou alguma coisa?
R - Tem. Tem cidreira, tem capim santo, que chama capim limão, tem a aquela... Esqueci o nome da plantinha, tem outra plantinha aí também, tem alfavaca, tinha Vick, tinha babosa, tem vários outros aí. Só que eu esqueci, mas tenho várias plantas aí para fazer remédio.
[00:40:32]
P/1 - Você lembra a primeira vez que saiu para andar no mato? Como é que foi.
R - A primeira vez que eu saí para andar no mato, foi quando eu era junta, foi no Tocantins, quando nós morávamos no Tocantins, nós saímos para pescar, e aí ele tinha levado a espingarda, eu falei: - mas nós vamos pescar___ com a espingarda? Aí quando nós paramos de pescar o tio dele, a tia dele, foi embora os peixes, e ele me chamou, e eu falei para onde? Ele - ______ lá; e ele saiu ligeiro e eu atrás sem saber para onde ir e sai. Aí quando chegou no, nessas trelinhas da cerca, nós saímos e nós andou, andou e quando nós chegamos, entramos na mata assim meio limpo, tinha um poço de água de lama, meio suja. Aí ele fez só um fechadinho assim de palha e ele, com a espingarda, aí ele atirou e matou uma cotia e nesse dia nós matou uma cotia, 5 Jaó, não sei se vocês conhecem... 5 Jaó, ele é quase do tamanho de uma galinha, é um passarinho muito bom, tem, tem a jaó, tem azulona tem a perdiz, tem a Nhambu, a juriti. Só que essa era Jaó, ela é quase do tamanho de uma galinha, a azulona, praticamente acho que é quase do tamanho de uma galinha, a azulona, ela é azul, é tipo acinzentada com essas pintinhas, parecendo de guiné, ela. E aí essa foi a primeira entrada no mato, caçada praticamente, esse dia foi bom que nós pegamos peixe, matou esses bichos. Aí passamos a noite quase toda tratando. Mas foi bom, a experiência foi boa, apesar que já não tinha medo, assim... Tinha um pouco, mas nem tanto, aí nós voltamos a noite, nó não tinha levado nem uma lanterna, ainda bem que a lua tava clara e deu para nós andar até em casa, mas era longe... Mas essa foi a primeira.
[00:42:37]
P/2 - E a sua experiência quando você foi sozinha? É boa?
R - Ter assim conexão com a com as árvores, com as plantas, é bom. Para mim é bom, não é ruim não. Melhor do que na cidade.
[00:42:54]
P/1 - Aqui na chácara vocês recebem visitantes?
R - Recebe muito, muito visitante mesmo. Principalmente das igrejas, retiro... o retiro esse ano vai ser mais perto, que o ano passado foi em março, e esse ano vai ser em fevereiro. Vem muita gente para cá de Parauapebas, Eldorado, Curionópolis, vem muita gente para cá e fica muita barraca, muita rede aí, tem gente que fica aqui no barracão, lá dentro de casa também fica muita gente. Apesar que eu não gosto, mas não é meu aqui, né? mas vem muita gente pra cá.
[00:43:39]
P/2 - Falar sobre a natureza. Como você viu a natureza hoje? A questão da degradação. A preservação. E principalmente, assim, qual que é o seu temor sobre o que hoje a gente infelizmente, está vendo nos jornais do Brasil? Sobre principalmente a degradação do meio ambiente.
R - O que eu acho é, primeiramente, uma falta de respeito. Porque as árvores, hoje em dia a gente tem um oxigênio bom por conta das árvores. Se algum dia derrubar tudo, a gente vai ter oxigênio de onde, né? Os bichos vão viver onde? Aqui o ano passado, quando eu cheguei aqui, que foi no verão, isso aqui tudo pegou fogo, para acolá, para ali, tudo para cá, pegou fogo e os animais que ficava para ali, ficava tudo aqui, essas árvores aqui perto, aqueles macacos, aqueles sauins, né? Ficava tudo aqui perto, então, eles estavam correndo da queimação, porque onde eles ficavam queimou tudo... E a gente, o que? O que se passa na cabeça da gente é porque... são vidas, né? Então tem vida, e é triste demais ver as árvores queimando, os bichos, muito bicho morre queimado porque não consegue fugir do fogo, porque o fogo cerca de um lado do outro não consegue fugir, então é triste demais ver bicho morrendo, muita gente maltrata os bichos, derruba sem necessidade nenhuma... eu sei porque, eu morava em Anapu (PA), nós, o pai do meu ex-marido, ele morava ali, pro rumo da Rita de Cássia, pro rumo da Piçarra, e lá eles foram morar, derrubaram muita coisa pra poder fazer pasto pra gado, e aí eles queriam ir embora de lá porque não tava tendo pasto e nem árvore pra derrubar... E aí quando nós chegamos lá, em Anapu feu falei assim: - por que que vocês estão indo embora pra Anapu? Eles: - Porque lá tem muita mata. Então tá bom...
Quando chegou lá, eles derrubaram muita árvore...
(Perguntei): - Vocês não vieram para cá porque tinha muita mata?
(Responderam): - foi.
(Digo): - E por que vocês tão derrubando?
(E eles): - E porque para fazer pasto para o gado...
(eu falei): - lá vocês não tinham mata? não derrubou? não fez pasto pra gado? Acabou tudo, secou... Agora vocês estão aqui, tem mata, tudo aí... estão derrubando para fazer pasto pra gado... Aí acaba com tudo também, aí, quando você sair daqui vocês vão para onde?
(eles): Vamos procurar onde tem mata, né?
Pois é! Então, se as árvores estão sendo derrubadas é culpa do ser humano, porque ele que derruba, destrói. Então ele não quer vida, ele não quer viver, não quer ter um oxigênio bom. Então, o ser humano é muito ignorante, para mim é. É o bicho mais ignorante que eu já vi... Tem animal que ele é bruto, mas só que é a natureza dele. Normal, Deus nos deu a sabedoria para poder entender o que é o errado, o que é o certo, então, os animais ele é bruto, mas só que a gente indo com jeito, conversando e tal, sem judiar, ele vai entender, ele vai deixar de passar a mão, ele vai deixar a gente montar nele, andando com cuidado, mas judiando, qual é o animal que vai aceitar você chegar perto dele? Não vai... Então é isso, o ser humano derruba tudo, acaba com tudo. Apesar que eu sou ser humano também, mas eu penso diferente, né? Muita gente, tem muita gente ruim nesse mundo. Derruba tudo, acaba com tudo. É complicado, muito complicado.
[00:47:58]
P/1 - E você acha que seria interessante um lugar onde ele tem biodiversidade, flora e fauna e mesmo assim servir como um ponto turístico? Como seria o caso aqui da chácara?
R - Sim, é porque a floresta, as árvores são ambientes que a gente deveria, deveria era cuidar, e não destruir. Então, aqui todo mundo quando vem para cá, acha bom vir para cá, né? Por quê? Porque tem árvore, tem um lugar de lazer. Você pode andar em qualquer lugar, onde quiser, tem água boa, friinha, né? Tem frutas, muita gente vem comer uma fruta. Tem outros que são teimosos e arrancam a fruta verde, para que? eu não sei, né? Porque fruta só presta se for madura, né não? Verde... Então é assim, o povo vem para cá, gosta porque é um lugar bom.
Tem árvore, tem onde você amarrar uma rede, né? E que aqui é limpo porque precisou fazer algum lugar para ficar debaixo, mas eu acho bom ficar no mato. Eu falo assim: - pastor, eu quero ir na rua resolver assim, assim.
Quando eu saio, quando eu falo isso que eu vou, minha cabeça vai doendo daqui até lá e quando eu volto, só vai parar de doer no outro dia. Por quê? Porque eu não gosto de zoada, quando eu chego na rua que aqueles carros de som passam perto de mim, oh Senhor! Só Jesus pra ter misericórdia, viu? Porque eu não gosto, não. Não gosto de zoada. A única zoada que eu gosto é só a zoada da igreja, quando eu vou, mas se não, não gosto de jeito nenhum, eu fico ruinzinha do juízo. Minha cabeça dói. Dói tanto que a gente não pode nem ouvir nada, e nem olhar pro chão que parece que tem uma pedra amarrada na cabeça… Eu não gosto da cidade, não gosto. Minha mãe fala que... como é que fala? Ela fala que quando eu vou na rua é igual foguete: Vai e volta por cima do mesmo rastro. Então eu falei: - Mãe, mas eu não gosto, não gosto da cidade, não. Eu não me adapto mais na cidade.
Minha irmã queria me tirar daqui, para mim, trabalhar no hotel, eu falei: - Não vou minha irmã, eu não vou trabalhar na cidade, o que que eu vou fazer na cidade? O que que eu vou fazer lá? Para quê?
Eu prefiro enquanto tiver serviço no mato, eu vou trabalhar no mato, entendeu? Enquanto tiver serviço no mato, eu vou trabalhar no mato, não vou para a rua.
Minha mãe fala: - Tu tem que caçar um meio de se arranjar, de casar, falei: - a Sra. tá me dando um conselho tão ruim... Porque, isso não é vida para mim mais não, mulher.
E ela fica zangada que eu vou para lá, fico poucos dias, e eu falo: - A senhora sabe muito bem por que que eu passo poucos dias aqui.
Aí, no dia que eu tiro o dia para ir para lá, aí vai neto, vai nora, vai um monte de gente e eu, eu já fico naquela.... Um dia eu estava e minha cunhada, minha sobrinha e tinha uma sobrinhazinha que chorava, que só Jesus, e aquilo foi martelando na minha cabeça.
E o pastor, ainda bem que o pastor estava no pastor, ainda tava no 30, eu falei: - Pastor, o Sr. ainda está no 30? E ele falou: - estou.
Eu falei: - Pois o Sr. passa aqui porque não dá mais... e eu vim embora, mesmo dia eu vim embora. Porque assim, a gente é acostumada no mato, na paz, sem zoada de nada, sem zoada de som, mundana, assim sem... sabe aquela paz que a gente tem? Que a gente acostuma que se sente leve? Pois é...
Eu não me acostumo na cidade, todo mundo me chama de antissocial, mas eu sou mesmo! Eu sou, eu sou antissocial porque esse mundo que a gente vive aqui não tem nada de bom para trazer para a gente. Nada. Se a gente não se apegar a Deus, a gente se perde e é ligeiro, né? Então, já...já dancei muito, já bebi, não nego, já andei muito em muitas festas. Já tive amizades que minha mãe sempre vinha me falar: - essas amizades tua vai te levar pra tal lugar, falou assim, adolescente.
Quando a gente é adolescente, a gente não quer ouvir os pais de jeito nenhum. Não sei por quê.,, Hoje, hoje que não escuta mesmo, os adolescentes de hoje. Então, quando eu olho lá, lá para trás, o que meu pai e minha mãe me diziam? E eu me arrependo demais de não ter ouvido os conselhos dele, de não ter terminado os estudos. Se hoje eu tivesse terminado os meus estudos, hoje eu estava bem estruturada com um serviço melhor, ganhando mais, melhor… Mas só que hoje em dia pra eu voltar a estudar. Minha mãe sempre me chama: - Volta a estudar! Eu não tenho mais paciência de tá estudando. A não ser que eu pegue alguma coisa para estudar em casa, mas eu não me adapto assim no meio do público mais.
O que a gente vê no mundo? Eu vi uma reportagem na televisão que eu fiquei encabulada, só porque uma pessoa tava olhando para outra! é motivo de matar o outro. Hoje em dia tá assim, a pessoa não pode mais olhar para uma pessoa que está do seu lado ou que tá lá na frente, não pode, por que já é motivo de quê? De matar outra pessoa? Então, eu tive desilusão demais nessa vida, viver só para mim foi a única solução que eu tive.
Viver só, porque foi a única coisa que eu achei a paz para mim foi viver só, trabalhar e trabalhar e daqui para frente conseguir o que eu quero na minha vida aqui nessa terra, né? Primeiramente, ter minha casa, e ter meu lar porque viver no que é dos outros, nunca é seu. Você tá cuidando do que é dos outros, mas não é seu. Você tá convivendo ali num lugar que não é seu. Então você tem que lutar e ter o seu próprio lar, seu próprio lar, é uma coisa que ninguém se explica, é seu. Você não tem preocupação com nada...
Você não deve nada a ninguém. Você não vai ouvir ignorância de ninguém, né? Então, o que eu quero, quando eu tiver mais, mais para frente eu vou querer, eu quero minha casa, fazer minha casa, ter meu lote, minha casa. Aí sim, aí eu vou parar, ver se eu paro de trabalhar assim para os outros, né? Montar uma coisa para mim.
Então, enquanto isso, vou cuidando aí do que é dos outros, né? Mas eu cuido muito bem, porque quando a gente tá no lugar, cuidando, a gente tem que cuidar como se fosse a casa da gente, né? Como fala. Então eu cuido como se fosse meu.
Tem muita gente que vem malino, eu brigo, brigo mesmo. Porque se a gente tá aqui cuidando, eu não gosto. Tem muita gente que vem para cá, briga com os cachorros. Mas por quê? Porque dá trela para eles, briga aí, quer bater, é só briga e ele sai... pronto, não dá mais confiança para eles que eles não vão subir em cima de você.
Eu não gosto de ver ninguém bater nos bichos, principalmente judiando do bichinho, igual essa aqui, ó, isso aqui tava ali numa sacola, essa outra aqui ia jogar na rua, né? Eu não gosto de ver ninguém judiando dos bichos, principalmente igual o caso lá do homem que cortar as patas do cavalo. Para quê aquilo? Para quê? Ignorância tomou conta do ser humano. Tanto assim que chega ao ponto de acho que para mim, uma pessoa dessa não merece viver. Mas quem? Quem sou eu para julgar? Quem julga é só Deus, então a gente não pode fazer nada.
Você tem o seu pensamento e o outro tem o seu. Então a gente não pode pegar uma coisa que você não vai dar jeito, então é isso... Os bichinhos têm vida, como nós, eles comem, eles bebem, quando eles querem, vão lá na grota tomar banho.
É assim igual, é igual a gente, a gente come, a gente dorme, a gente banha, é assim são bicho, mas têm vida também, né? E é isso. Eu. Eu para mim, eu, a melhor coisa que eu fiz foi ir para dentro do mato morar no mato, longe os perigos noturnos da rua da cidade. [risos] eu acho, mais gente tem medo de um bicho do que de um ser humano assim, o bicho, ele tem a sua natureza. Se ele vê você com alguma coisa, e apontar para ele. Claro que ele vai querer avançar em você, porque ele sabe que você vai, né, fazer alguma coisa com ele. Agora, se você vê ele, deixa ele ir embora, ele não vai fazer nada com você, não. Bicho, é uma coisa muito... que Deus mandou e fez, e bem-feito, melhor do que um ser humano, bicho não tem maldade nenhuma, é só a natureza dele. Então é assim mesmo.
[00:57:53]
P/1 - Claudia Nós vamos dar uma pausa agora. A gente dá uma pausa, depois a gente volta para fazer o encerramento da entrevista. Tá bom?
[Pausa]
[00:58:06]
P/2 - Cláudia, quais os desafios de estabelecer o ecoturismo para a comunidade local?
R - Aqui é porque, muita gente quando vem, tem uns que não respeita, né? Eles têm que deixar lixo. Deixa algum lixo, deixa muita coisa jogada debaixo dos pés de coisa. A gente sempre quando chega, a gente já fala: - Ó, vocês quando terminar de fazer as refeições, coisas descartáveis, vocês não deixam jogado por aí, sempre bota no saco de lixo, bem ali tem um buraco e joga dentro para poder tocar fogo, para queimar, para não deixar jogado aí, porque a gente limpa com tanto cuidado, com tanto amor, né?
Aí vem um lá de fora, pega, usa, usufrui, faz o que ele planejou em fazer, mas a limpeza ele deixou em casa. Então a gente sempre fala que é para quando vier usar, pegar o lixo direitinho e botar no saco de lixo e jogar ali dentro do buraco para poder queimar.
Por que é tão bom chegar num lugar assim? Então, que é limpo, bem cuidado, né? Aí você chegar e sujar? não você tem que respeitar, porque se a gente libera, deixa a pessoa usar, usufruir e porque a gente bota total confiança? Porque, a gente não quer deixar que ninguém entre. Pode usar, pode tomar banho lá na grota, não deixar nada sujo, deixa no lixo nenhum dentro d'água você pega, usa, bote lá no lixinho. É tão fácil, né? Mas tem que ter um para deixar, não tem jeito. O ser humano você pode falar quantas vezes for, mas é difícil achar um para poder pegar é jogar lá no lugar certo. Mas tem que ter um para deixar sujo.
[01:00:07]
P/1 - Ainda nesse nicho de ecoturismo. Saberes locais: o que você ensinaria para as crianças da nossa localidade? Saberes da Mata, como manter hoje?
R - O que eu ensinaria, que assim que eles não teriam medo, para não ter medo dos bichos, porque os bichos é da mata dele, a gente tá no ambiente deles, a gente tá invadindo o ambiente deles, então que eles não tenham medo e respeite tanto o lugar deles como respeita o nosso, né? Para não judiar, para não fazer coisas sem necessidade, como maltratar. Aqui aparece muito camaleão, mas só que os cachorros não deixam, eles correm atrás, fica lá debaixo do pau até eles... mas eles não são besta de descer de lá de cima. E aí muitas vezes tem um menino travesso, acha algum bichinho desse, vai e mata, mas cobra, até que você pode querer, se ela lhe atacar, você pode fazer alguma coisa, mas criança, você tem que ter total cuidado, porque assim se tem uma criança travessa que quer andar dentro do mato, você tem que ter um acompanhamento de um adulto, né?
Apesar que ele criança, ele não sabe de nada, né? Aí ele vê um bicho, acha interessante, vai querer pegar, sim ele tem curiosidade, mas não ter medo mesmo do mato, porque hoje em dia, para mim, o mato é mais seguro do que a cidade, né? É mais seguro, é mais arejado, é mais tranquilo. Então, hoje em dia, o que tá acabando com as crianças da cidade hoje em dia, as crianças não brincam mais. Hoje em dia é só no celular, só na cara, na cara, no celular direto, 24 horas… Então eu para mim, se eu tivesse um filho, eu criava dentro do mato, entendeu? Assim, dentro do mato, para ele saber que ali é um ambiente tranquilo, mas também para conhecer as pessoas. Porque tem uma cunhada minha que ela tem uma menininha dela agora, já fez um ano, tem um ano e pouco, quando ela vai lá em casa, essa menina chora só de ver gente, só de ver assim. Ela é acostumada com os irmãos, mas com gente de fora assim ela não, né? Não conhece, mas de vez em quando vai lá, leva onde o avô, onde a avó... fica só dentro do mato, mas por quê? Por que ela fica dentro do mato? Acha bom, tranquilo. Aí, quando chega na rua, acha estranho. Ela é estranha, mas é sempre bom. Ela vive também, assim, igual a mim, mas só que mora mais meu irmão, né? Só que a menina é estranha e ela gosta muito, ela brinca no chão e vai assim perto do mato, mais o sobrinho. Mas eu sempre falo para a Andressa. Andressa não deixa, deixa brincar, mas não deixa sumir da tua vista, porque é perigoso, né? Mas eu acho bom, assim, os pais da sempre tá sempre assim, levando as crianças no mato para conhecer, porque é muito bom, muito bom, melhor do que na cidade né? O ambiente da mata para mim é a melhor coisa aqui na terra, assim, né?
[01:03:42]
P/1 - Claudia. Agora, após a entrevista, você queria deixar alguma mensagem, alguma coisa que você não falou?
R - A mensagem que eu deixo é que respeite o espaço do outro, e não um judiar dos bichos, assim, sem necessidade. Não judiar dos bichos sem necessidade, a não ser que ele ataque. Agora, se ele tiver quietinho lá, não brigue, não machuque.
Por que uma pessoa falar uma palavra assim tão... como é que se diz? Assim, uma palavra assim que magoa tanto o bicho como a gente, né? - Sai daqui cachorro nojento, pulguento, velho... não: é só falar assim: - sai daqui cachorro e bota pra fora, tudo bem.
Agora, chamar o cachorro disso, daquilo, bicho mágoa tanto bicho como a gente. Então é assim, respeite o espaço do bicho, o espaço do ser humano que quer ficar dentro do mato, que é que gosta, né? De dentro do mato. Porque muita gente fala que isso é loucura da cabeça da pessoa, querer ficar dentro do mato. Nada É porque não tem aquele prazer de conhecer os bichos e ter aquele contato com as árvores, com a floresta, entendeu? É isso.
É respeitar o espaço do outro, porque a coisa pior que tem é você ser desrespeitado no lugar que machuca, né? É muito bom ficar no mato, apesar que eu saio de vez em quando na cidade. Mas eu acho melhor, apesar de que o pensamento de outras pessoas que não tem contato com bichos e com mato, que tem muita pessoa, muita gente para criticar, então é isso, que essas pessoas que não gostam, que respeite os que gostam e é isso.
[01:05:58]
P/2 - Cláudia, o que a natureza lhe devolveu durante os períodos de trabalho que você nunca imaginou que poderia ter achado nesse local.
R - O que a natureza me devolveu foi a segurança, que eu não tinha, né? Eu não tinha paz nenhuma, meu pensamento era muito... Como é que se diz? Era muito assim, eu desconfiava demais. Eu era muito desconfiada, desconfiava tipo, quando eu era junto também, eu desconfiava de tudo, de tudo. Então, no decorrer da vida eu fui vindo no mato e fui aprendendo que mesmo que você desconfiada, apesar que você não dê confiança assim para ninguém mais. Tem que ter ao menos um pouquinho de liberdade assim, para poder ter pelo menos alguma ajuda, né? Mas o que a floresta me devolveu foi a minha paz. Porque eu não tinha. Eu não tinha paz de jeito nenhum.
[01:07:15]
P/1 - Claudia? Como mulher, como mateira, uma época em que a gente vive, em que gente tem tanto feminicídio, tantos problemas com a mulher. O que você deixaria? Qual mensagem você deixaria para as mulheres?
R - O que deixaria de mensagem para as mulheres é que elas não se deixem abater por ameaça e qualquer tipo de, como é que é? desprezo, né? Porque tem muitas mulheres que são casadas são desprezadas. Eu falo isso porque já tive experiência, rejeitada dentro de casa, como se não fosse nada. A única coisa que favorece a outra pessoa é o que ela faz dentro de casa e o que ela faz por ele. Entendeu? Então, para mim, o que eu passo para mulher é que ela se valorize mais, porque ninguém, ninguém é dono de ninguém não, gente.
Eu vejo muitos casos aí que tem mulher que apanha, apanha, apanha, apanha, mas continua do lado da pessoa. E tem outras que já tem coragem, já leva um tapa, já ameaça, entendeu? Eu morei, com esse último que eu morei, ele tinha bebido, misturado algumas bebidas e ele me deu um tapa na cara! Lá só não aconteceu mais alguma coisa grave porque tinha gente, entendeu? E aí o patrão chegou bem na hora. Aí começou a perguntar, por quê? o que que tava acontecendo? Aí ele começou com as ignorâncias dele chamar ele de mentiroso, de moleque. Aí foi nesse dia que eu falei que eu não queria nada, mas a partir daquele momento não queria mais nada. E o meu patrão pegou e mandou ele embora e eu fiquei, ele me deixou (ficar), ele falou: - Se a Sra. quer ficar, a senhora fica, agora ele não vai ficar aqui mais não
Eu falei: - Não, ele pode ajeitar as coisas dele e mandar ele embora.
Aí pronto, aí nunca mais. Mas também foi só esse, os outros nunca me bateu, mas esse fez o favor de dar um tapa na minha cara. Mas é assim mesmo, né? vivendo e aprendendo, né?
Mas só que não se deixar abater e nem deixar que ninguém venha querer fazer de você o que quer, porque ninguém é dono de ninguém aqui nessa terra, então é isso, mulher tem que se valorizar, tem que... ela tem que te ver, que ela é uma mulher guerreira e pode tudo, mesmo sozinha. Pode tudo, pode conseguir tudo, tudo o que ela quiser. E é isso.
[01:10:07]
P/1 - Claudia, muito obrigada por você ter disponibilizado esse tempo aqui pra gente entrevistar você. Para mim, para nós, na verdade, foi um grande prazer, de verdade. Foi um grande prazer.
R - É o pastor me falou, mas eu estava assim mesmo, não querendo, querendo, querendo fazer. Falei: - Não, vou fazer não, aí o pastor: - não, então o pessoal lá da igreja e de outras pessoas são gente boa, que também trabalha na prefeitura... mas acabei cedendo.
[Fim da Entrevista]
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