Conheci Redonda em janeiro de 1980, numa época em que as belezas do Nordeste
estavam sendo descobertas pelos “mochileiros”. A passagem por Mossoró fazia-se necessária
para a compra de material de trabalho: arames, miçangas, alicates, tão difíceis de encontrar
“na estrada”, e a proximidade de Canoa Quebrada fez dela o paraíso “hippie” reencontrado.
Naquelas férias de 1980 formamos um grupo e viemos de São Paulo. A ponte para
Redonda foi a lagosta (e não podia deixar de ser). Eu também fui atraída para cá pela lagosta.
Um pescador de Canoa disse que ia pescar lagosta naquela praia e convidou-me para ir com
ele, para experimentar essa delícia.
Aí teve início minha história em Redonda. Chegar até aqui naquela época já era uma
aventura e tanto! Ao final dos sessenta quilômetros que a separam da cidade de Aracati era
preciso atravessar seis quilômetros de areal - o que hoje é uma estrada asfaltada, e que
somente carros de tração podiam fazê-lo, ainda com grande dificuldade. Lembro-me de que
alguns trechos eram cobertos com “busca”2 de coco para facilitar a passagem.
A deslumbrante Redonda apareceu, pela primeira vez para mim, como um sonho que
já tivera de paraíso. Céu e mar confundindo-se, com casinhas expostas ao sol escaldante, por
entre dunas e falésias semeadas de coqueiros. A imagem não foge ao clichê, mas era algo
novo e muito real. Essa primeira impressão marcou-me profundamente, e desse dia em diante
tornei-me “redondeira” de coração. Não saí mais daqui. Casei com um morador e tive duas
filhas.
Compreender a alma desse povo tornou-se uma necessidade e um desafio para mim,
pois resolvi fixar-me em Redonda. Foram tempos de puro deleite. Entre banhos de mar e pirão
de peixe – única alimentação à época, eu parecia ter encontrado a verdadeira “comunidade”.
Aquela que buscava em minhas fantasias e que não fora construída como alternativa à
sociedade de consumo, mas uma...
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Conheci Redonda em janeiro de 1980, numa época em que as belezas do Nordeste
estavam sendo descobertas pelos “mochileiros”. A passagem por Mossoró fazia-se necessária
para a compra de material de trabalho: arames, miçangas, alicates, tão difíceis de encontrar
“na estrada”, e a proximidade de Canoa Quebrada fez dela o paraíso “hippie” reencontrado.
Naquelas férias de 1980 formamos um grupo e viemos de São Paulo. A ponte para
Redonda foi a lagosta (e não podia deixar de ser). Eu também fui atraída para cá pela lagosta.
Um pescador de Canoa disse que ia pescar lagosta naquela praia e convidou-me para ir com
ele, para experimentar essa delícia.
Aí teve início minha história em Redonda. Chegar até aqui naquela época já era uma
aventura e tanto! Ao final dos sessenta quilômetros que a separam da cidade de Aracati era
preciso atravessar seis quilômetros de areal - o que hoje é uma estrada asfaltada, e que
somente carros de tração podiam fazê-lo, ainda com grande dificuldade. Lembro-me de que
alguns trechos eram cobertos com “busca”2 de coco para facilitar a passagem.
A deslumbrante Redonda apareceu, pela primeira vez para mim, como um sonho que
já tivera de paraíso. Céu e mar confundindo-se, com casinhas expostas ao sol escaldante, por
entre dunas e falésias semeadas de coqueiros. A imagem não foge ao clichê, mas era algo
novo e muito real. Essa primeira impressão marcou-me profundamente, e desse dia em diante
tornei-me “redondeira” de coração. Não saí mais daqui. Casei com um morador e tive duas
filhas.
Compreender a alma desse povo tornou-se uma necessidade e um desafio para mim,
pois resolvi fixar-me em Redonda. Foram tempos de puro deleite. Entre banhos de mar e pirão
de peixe – única alimentação à época, eu parecia ter encontrado a verdadeira “comunidade”.
Aquela que buscava em minhas fantasias e que não fora construída como alternativa à
sociedade de consumo, mas uma comunidade nascida da vida simples de um grupo de
pessoas.
Essa visão romântica foi aos poucos sendo temperada com as agruras do dia-a-dia.
Negar a sociedade de consumo em São Paulo, aonde nasci e fui criada, é bem diferente de
conviver com as limitações de um lugar bastante isolado3. Abrir mão de algumas
comodidades foi doloroso, mas a compensação era muito grande. A sensação de ter
encontrado a “comunidade pura” foi determinante na maneira como me relacionei com a vida
no lugar.
A praia era o ambiente masculino, lugar do trabalho e impróprio para mulheres. Os
banhos de mar como lazer não faziam parte da vida dos adultos, mas apenas das crianças.
Não foi sem problemas que mantive um casamento por sete anos. Apesar de muita vontade,
não se anulam valores impunemente. Muitas vezes não podia me calar de revolta com o
machismo entranhado nas relações que envolviam essa comunidade
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