P/1 – Bom dia, senhor Nelson!
R – Bom dia!
P/1 – Qual é o seu nome completo, data e local de nascimento?
R – Nelson Zeglio, nascido em São Paulo, no bairro Santa Cecília em 21 de novembro de 1926.
P/1 – Qual era o nome e atividade dos seus pais?
R – O meu pai era Hilário Zeglio. Ele tinha uma açougue na rua Fortunato, na Santa Cecília. A minha mãe era Rosaria Saih Zeglio.
P/1 – O senhor é filho único ou teve mais irmãos?
R – Tenho mais duas irmãs, Ivone e Shirlei.
P/1 – Senhor Nelson, qual é a primeira lembrança que você tem da sua infância?
R – A única lembrança que eu tenho é se passa na Rua Fortunato, na Santa Cecília, onde eu morava. Nós tínhamos um porão onde eu encostei e cai! Tinha um ralo que estava solto, eu encostei lá e cai. Bati as costas no chão cheio de areia. É a única lembrança de pequeno que eu tenho.
P/1 – E você passou a infância na Santa Cecília?
R – Sim. Passei minha infância na Santa Cecília e na Vila Azevedo, no Tatuapé. Onde hoje é o metrô Tatuapé tinha um campo de futebol, a gente atravessava e aonde tinha uma valeta grande, hoje tem um supermercado e está tudo construído. Eu morava na Rua Platina.
P/1 – E como era a Vila Azevedo na década 30?
R – Não tinha ninguém! Quando eu morava na Rua Platina, a gente atravessava a linha do trem e ia até a avenida andando, era tudo com matinho raso. Hoje não tem vestígio nenhum do passado, são muitas casas, sobrados, está tudo diferente. Eu jogava bola no campo de futebol do time União Tatuapé, que tinha por ali.
P/1 – Do que as crianças brincavam naquela época?
R – De todas aquelas brincadeiras que não se faz mais hoje. Os meninos jogavam futebol e as meninas jogavam amarelinha. Hoje é tudo com internet.
P/1 – E a bola que o senhor jogava, como era?
R – Lá na Rua Platina nós tínhamos um senhor que fazia bola de capotão colorida. O time Platina Azevedo tinha a camisa vermelha e verde, listada. Mas as bolas não eram como as de hoje, eram pesadas.
P/1 – E o que é uma bola de capotão?
R – Era uma bola feita com uma bexiga. Enchia-se ela e depois, por fora, passava-se um cordão. Não tinha válvula como as de hoje. Era pesada! Uma vez, num jogo na chuva, um cara meteu aquele chutão e a bola veio na minha cabeça e eu abaixei. O goleiro ficou louco, mas se a bola batesse na minha cabeça, afundava para o pescoço! . Eu quero contar pra você uma coisa que eu nunca declarei pra ninguém. Eu sempre fui centro avante. Nunca fui técnico, o meu negócio era marcar gol. Acontece que um dia eu fui bater um corner. Ninguém acredita, mas o pessoal do Tatuapé sabe. Eu dei o corner, mas com o vento a bola subiu, eu corri e fiz o gol. Ou seja, eu mesmo bati e fiz o gol! . A turma me chamava de Maria Louca, porque o beque para me marcar precisava ser forte.
P/1 – E quando o senhor começou a jogar no time, tinha essa sequencia de dente de leite e juvenil?
R – Não, não. No Tatuapé a gente começava jogando como amador.
P/1 – Quantos anos o senhor tinha?
R – Uns 16, 17. Como eu era bom jogador, veio um senhor de São Joaquim da Barra, chamado Barqueta. Ele foi procurar um centro avante e pediu informação para o barqueiro da região, afinal, o barbeiro e jornaleiro sempre sabem de tudo. Quando perguntou, o barbeiro disse que tinha um meio topetudo, e esse Barqueta veio me buscar. Quando veio falar comigo ele tinha um caminhão Chevrolet 49, e me levou para São Joaquim da Barra. Quando eu cheguei lá, perguntei pra mim mesmo aonde eu tinha ido amarrar o meu burro! Até o pano da mesa de bilhar era vermelha! . E então eu fiquei na cidade.
P/1 – Com quantos anos?
R – Um pouco depois dos 18 anos. Eu já tinha feito o exército.
P/1 – Nessa época qual era o seu peso e altura?
R – 1,70 metros, por ai. Fiquei nessa cidade e foi aonde eu comecei a jogar como profissional. Uma coisa interessante é que uma vez o Palmeiras foi jogar lá em São Joaquim da Barra com aquele time: Lima, Pipi, era um time fabuloso e nós éramos amadores! O goleiro desse time do Palmeiras era o Oberdan. Eu fiz um gol de virada de corpo nele e ganhamos o jogo por dois a um. O tempo passou e eu vim morar aqui na Pompéia. O Oberdan era chofer de taxi e um vez, ao entrar no táxi, perguntei se aquele motorista que estava dirigindo era ele. Então o motorista me respondeu com um voz estranha: “não, sou irmão dele”. E então eu falei: “ahhh! Porque se você for o Oberdan, foi eu quem te meteu aquele gol de virada de corpo em São Joaquim da Barra”. Ai ele olhou pra mim e eu percebi que era ele mesmo! Imagina quanto tempo tinha se passado! .
P/1 – Como era o futebol nessa época?
R – Como profissional eu te pergunto, como os críticos de futebol podem criticar um jogador que nem fica com a bola no pé? Você vê, o time do Barcelona faz um ping-ping e passa. O futebol naquela época era bonito! Era um ponta esquerda, um ponta direita, dois meia, centro avante, um jogo bonito, aberto! Cada time tinha no mínimo oito craques. Como diz o Veríssimo, escritor do Estadão, o futebol é um bamboar. E de fato, deram muita velocidade aos jogadores, coisa que antes não tinha, mas de resto, os times acabaram ficando todos iguais. Por exemplo, o Pelé e o Maradona, que pra mim jogam igual, tinham uma velocidade diferenciada, hoje não, todos correm igual. Nas rodadas dessa semana o São Paulo perdeu para o Criciúma, imagina. Quem é o Criciúma?
P/1 – Sendo centro avante, como era o estilo de jogo do senhor?
R – O meu estilo era tipo rompedor. Pra mim não tinha nada de técnica. No São Paulo, que eu jogava contra o Mauro, eu colocava a caneleira na barriga da perna, porque ele dava, viu?! Presta atenção, eu andei pela Europa toda e nunca vi um back como o Mauro. Nunca! Ele tinha um estilo bonito, vinha em direção da bola mas pegava a gente, e o juiz nunca apitava.
P/1 – E o senhor ficou em São Joaquim da Barra por quanto tempo?
R – Mais ou menos dois anos. O Uberaba Esporte uma vez me pediu emprestado para jogar uma partida. Eu pedi 10 mil reais para fazer um jogo só e eles me deram. O Uberaba jogou com o Uberlândia uma semana antes em Uberaba, e perderam de dois a um. Me pediram para jogar em Uberaba e eu fiz cinco gols, o jogo foi cinco a zero. Depois disso o Uberaba quis me contratar e eu disse tudo bem. Fizemos um acordo e eu fui pra lá. De Uberaba eu fui para a Europa.
P/1 – E o senhor batia pênalti também?
R – Sabe como se batia pênalti? Você olhava assim e batia a bola do outro lado. Quando você olha o goleiro já se atira. Parece fácil, mas com milhares de pessoas no campo, não é. Você se lembra da Hortência, como ela fazia para jogar a bola? Ela suspirava e arremessava. Ela soltava os nervos. Eu joguei futebol aqui na ACM (Associação Cristã de Moços) até uns 75 anos, duas horas de partida por jogo. Então eu colocava o Basílio, que já tinha uns 80 anos, pra jogar no gol. Eu batia e sem olhar, jogava a bola no outro canto. Quem é muito inteligente para bater pênalti é o Neymar. Pode reparar, ele dá aquela corridinha e bate. Pode reparar, se o goleiro der aquela adiantadinha, ele não pega. Por isso que eu acho que esses treinadores ai deveriam todos colocar os jogadores para bater pênalti. Se eu fosse treinador faria isso. Aliás, eu já fui treinador do São Joaquim.
P/2 – Senhor Nelson, você se lembra de algum pênalti decisivo que tenha feito antes de ir para a Europa?
R – Não. O mais importante que eu fiz foi durante o curso de cabo, no exército. Esse era mais do que profissional, porque disputamos um campeonato e os dois times que ticaram na final tinham comandantes que não podiam se ver. Teve então um pênalti pra bater e quem é que quis bater? Os dois comandantes! . Ai eu bati o no lugar deles. Existe um sistema de marcação que nenhum dos técnicos de hoje faz. Rapidamente: daonde sai todas as possibilidades de jogadas?
P/1 – Da cabeça.
R – Se você colocar uma pessoa perto de você, olhando no seu olho e sem olhar nos seus pés, que aonde você vai, ela vai atrás, o que acontece?
P/1 – Confunde?
R – Não, não confunde. Você não faz nada com o pé, tem que olhar pra pessoa. Sem dar pontapé nenhum, você marca a pessoa. No Uberaba tinha um tal de Medeia, pequenininho como o Neymar. Um dia fizemos uma aposta e eu fui marcá-lo. Aonde ele ia, eu ia atrás. No final do jogo ele queria brigar comigo porque nem conseguiu pegar na bola. Se você marcar a cabeça a pessoa não faz nada com o pé. Agora, se você olhar para o pé do Neymar, você está frito!
P/1 – Quanto tempo você jogou no Uberaba?
R – Acho que um ano.
P/1 – Disputou o campeonato mineiro?
R – Sim, mas fui embora antes de acabar o campeonato.
P/1 – O senhor não passou pelo São Paulo?
R – Deixa eu ver um pouquinho. (pausa). Do Uberaba, o Conrado Ross me trouxe para o São Paulo. Ele foi jogador e foi também técnico da Portuguesa. Foi ele quem me levou para a Europa, junto com o Bogossian.
P/1 – O São Paulo era um grande time da época, não era?
R – E de hoje também. Pra mim, a melhor diretoria de futebol é a do São Paulo. Eles são muito bons. Há pouco tempo eles fizeram um evento de ex atletas com mais de duas mil pessoas. Uma maravilha! Na penúltima reunião o Bauer estava lá, ainda não tinha falecido.
P/1 – Quem jogava naquela época? Bauer, Rui, Noronha, quem mais?
R – O Mauro, o Leonidas, um ponta direita que eu não me lembro o nome.
P/1 – O argentino Sastre jogava nessa época?
R – Não. Ele foi antes. O Ieso também foi antes. O Ieso é meu compadre, eu batizei o filho dele. Vocês podem fazer uma entrevista com ele, viu?! Mas tem que ser lá, porque ele não sai mais.
P/1 – Mas ele está com a cabeça boa?
R – Está. Deve estar quase com 90 anos. Ele nunca foi um cara de correr, sempre foi calmo.
P/1 – O senhor ficou seis meses no São Paulo?
R – Acho que um ano.
P/1 – O senhor poderia contar a história de alguma partida?
R – Um dia fomos jogar lá pra cima do Brasil eu tinha um relógio Roscoff antigo, de por no bolso. O Feola, que era técnico nessa epoca. Quando voltamos eu percebi que esqueci o relógio na cama do hotel. Ai o Feola disse que não era pra me preocupar, porque mandariam um avião para ir buscar. Depois disse que o avião havia trazido, mas o relógio tinha caído pela janela! . Eles tinham é pego o relógio. O Feola era bom técnico. Ele não ficava no campo, ficava de longe. Quem entende de futebol sabe que de longe você percebe as falhas mais fácil. Eu fui muito contente no São Paulo, sempre achei a diretoria muito boa, viu. Uma coisa que se faz na Europa e que aqui não se faz é, depois que os dois times jogam, o time que recebe prepara um aperitivo e convida o time visitante para conversar, bater papo. Eu falei isso para o presidente do São Paulo, não esse, o antigo. Bola é bola. Acabou, a gente precisa ser civilizado, convidar os caras e tal. Ele não quis saber. . Mas eu acho que é isso que se deve fazer, é bonito!
P/2 – O senhor estava falando dos craques do São Paulo, o senhor conheceu o chegou a jogar com o Leônidas da Silva?
R – Quando ele jogava eu não jogava, eu era reserva dele. Tanto é que teve uma Copa Cidade de São Paulo, que eu fiz um gol e depois ele veio me falar que aquele gol, até a mãe dele fazia. Pois é, isso era porque eu fiz, se fosse ele, era uma beleza de gol! De fato, ele era um grande jogador. Antigamente os jogadores eram bons. Hoje em dia eu não aguento mais ver jogo, é muita velocidade e pouco futebol. Corinthians, Palmeiras, São Paulo, é tudo igual.
P/1 – E como surgiu a oportunidade de ir para a Europa?
R – O Conrado Ross, que era treinador e me levou. Se não me falha a memória eu havia sido emprestado para o Uberaba. O Conrado treinava Francana, que foi jogar em Uberaba e eu meti uns três gols. Mas eu era jogador do São Paulo, eles que precisaram me liberar pra eu ir pra Europa.
P/1 – Não era comum jogador ir para a Europa, era?
R – Não. Primeiramente foi o Ieso, um dos primeiros. Depois foi o Montanholi da Argentina, depois o Canhotinho, que jogou no Racing.
P/1 – Então você foi um dos pioneiros?
R – Nós fomos.
P/1 – E como o senhor imaginava que era a Europa?
R – Eu nem pensava. Eu fui no navio Contibiantamano. Quando ele saiu do porto de Santos já era entardecer, era um rusco fusco. As pessoas abanavam e a gente com dor no coração pensando: “aonde eu vou?”. Você imagina, sem falar a língua, sem nunca ter ido.
P/1 – O senhor foi sozinho?
R – Não. Nessa navio o Montanholi e o Gonzalez foram comigo.
P/1 – Eles são argentinos?
R – São. O Montanholi cantava muito bem, com o Gardel. Pena que não exploramos ele pro canto. Você viu o time da argentina? Casa homem forte, bem alinhado, coisa e tal. Parece mentira, mas eu nem gosto mais de assistir futebol.
P/1 – No navio vocês já sabiam em que time vocês iriam jogar?
R – Não. Paramos em Nissi, mas eles não podiam ficar com a gente porque naquele tempo só se podia jogar três estrangeiros em cada time, e eles já tinham dois. O González ficou lá porque eles precisavam de um back. Então fomos para Sochaux.
P/1 – E de Nissi até Sochaux, como é?
R – É longe! Nissi fica a beira mar, Sochaux fica no leste da França, perto de Straburg, na fronteira com a Alemanha.
P/1 – E o Sochaux era um time da primeira divisão?
R – Primeira! Num tempo atrás eles desceram e agora quase desceram novamente.
P/1 – Então senhor chegou bem!
R – Sim, já cheguei para a primeira divisão.
P/1 – Lá em Sochaux, com era?
R – Era uma cidadezinha com 60 mil funcionários da fábrica Peugeot, no fundo do estádio tinham as fábricas. Agora eles fizeram um campo como o Morumbi, mas antes era um estádio nas gerais, com aquelas madeirinhas vagabundas.
P/1 – Isso era em 1950?
R – É, por ai.
P/1 – E para aprender o francês, como foi?
R –Pegamos um professor mais não dava. A gente ia muito ao cinema e aprendia muito. A gente misturava um pouquinho de cada língua e se virava, o negócio era saber jogar bola! Hoje já ficou mais fácil porque onde você vai tem gente que fala português. O mais difícil foi na comida, porque era diferente.
P/1 – O que o senhor estranhou?
R – Lá eles tem mais verduras e peixes e tudo. A minha mulher é francesa, mas é filhas de italiano e espanhol e no fundo, mais original do que eu, porque eu sou neto de italiano com espanhol.
P/1 – Você já chegou como titular?
R – Sim, eles já colocavam a gente pra jogar. Foi uma época distinta, porque eles nunca tiveram estrangeiros para jogar. Então tiveram eu e mais dois argentinos.
P/1 – E você se lembra do seu primeiro gol na França?
R – Foi contra uma equipe de Toulon, viu. Aliás eu fiz o gol de bicicleta.
P/1 – É mesmo?
R – É, eu fazia muito. Você sabe que uma vez, jogando aqui no São Paulo, eu dei uma bicicleta e ao invés de pegar a bola, acertei a cabeça de um back meio doido que tinha lá. Não foi brincadeira não, naquele momento exato ele tirou a bola e pôs a cabeça, quase que eu mandei a cabeça dele para o gol! . Eu fazia gol regularmente porque costumava jogar me cima do back e fazer gol. Hoje, o cara que faz gol é o que aparece mais, se você não fizer gol, as pessoas te esquecem.
P/1 – E vocês jogavam o campeonato Francês?
R – Nos íamos jogar na Suíça, na Áustria, era amistoso. Num jogo contra a seleção da Áustria estávamos ganhando de três a zero. Uma hora eu coloquei a bola na cabeça no meio do campo e sai driblando todo mundo. Quando cheguei no gol o cara me deu um empurrão rapaz! Só assim pra tirar a bola de mim. Eu dominava bem a bola com a cabeça. Então foi pênalti e o Montanholi foi bater. Sabe o que ele fez? Deu uma corrida e bateu de chaleirazinha. O goleiro correu pra lá e a bola pra cá. O técnico até puxava os cabelos. Acabamos empatando em três a três e não era o primeiro time do Sochaux, viu?! Era um time reserva, que se chamava “leãozinho”, porque o distintivo do Sochauz era um leão.Depois eu vou mostrar uma fotografia do general cumprimentando a gente.
P/1 – E o senhor ficou no Sochaux quanto tempo?
R – Acho que um ano. A gente não aguentava muito tempo.
P/1 – E como foi o seu primeiro inverno quando ainda jogava no Sochaux?
R – Ahhh, lá é fogo, viu! O time fica numa região já perto da fronteira com a Alemanha. É frio, frio! O jogo mais interessante que eu fiz lá foi em Grenoble, nas montanhas. Aliás tenho fotografia de lá: o campo era branquinho, só tinha neve! Parecia que você estava pisando em ovos. Foi o jogo mais esquisito que eu já joguei na vida. O pé afundava, mas tivemos que jogar.
P/1 – E quais mais histórias você tem do Sochaux?
R – Acho que não tenho mais nada.
P/1 – E então vocês queriam ir para Paris?
R – Quando eu estava pra sair do Sochaux, já tinha o passe acertado com o Real Madrid. Como aquele era o meu último jogo e eu estava com um pouco de dor, pedi pra sair, mas o diretor me pediu pra terminar o jogo. Faltando três minutos para o termino da partida, fui acertado no joelho e quebrei a rótula.
P/1 – Foi contra quem?
R – Um time de segunda divisão. Na copa da França, os times de todas as divisões jogam. Naquela época podia se utilizar chuteira com bico de metal, e eu fui acertado no joelho! Mas olha, felizmente eu fui operado na França. O médico furou a cartilagem e passou um fio, fiquei perfeito!
P/1 – Desculpa ser chato em seguir a cronologia, mas o senhor sair do Sochaux e foi para qual time?
R – Montpelier, foi pra lá sozinho.
P/1 – E como é Montpelier?
R – Uma cidade bonitinha, a beira mar. É a cidade do vinho rosado. É a cidade dos melhores vinhos. A alimentação na França é espetacular. Você come muito bem, principalmente peixes. Mês passado eu estive na França, em Paris, e fomos almoçar na frente de um rio pequeno. Uma beleza! O francês tomo muito cuidado com a higiene e com as plantas. O jardim de Luxemburgo, por exemplo, tem mais de 20 qualidades de rosas. Paris tem cinco ou seis jardins, é lindo! Eu não sei como eles aparam aquelas arvores tudo bonitinho, viu?! Enquanto eu jogei lá, o Montpelier subiu para a primeira divisão, mas ai tive que voltar para Sochaux.
P/1 – E o senhor jogava com a camisa nove?
R – Sempre!
P/1 – E teve alguma partida que o senhor se lembra?
R – Agora não me lembro. Escuta, já estou com 87 anos, estou esquecendo até que estou há 60 anos casado! . Eu me sinto como se tivesse 30 anos. Estou tentando recuperar o fôlego para voltar a jogar! . Três vezes por semana eu faço exercício físico.
P/1 – E depois desta etapa, para qual time você foi?
R – Cercle Athlétique de Paris. Foi lá que eu fiquei com o joelho operado.
P/1 – Que é da primeira ou segunda divisão?
R – Segunda.
P/1 – E depois do Cercle Athlétique de Paris, qual time o senhor jogou?
R – Roubaix, no norte da França. É uma cidadezinha especialista em tecelagem de casimira. Eu pensei em ficar lá jogando para estudar técnicas de tecelagem, o tecido deles é muito bom. Mas acontece que o pênalti que o meu amigo deveria fazer, ele não fez.
P/1 – Como foi esta história?
R – Chovendo, bola pesada, o cara não foi capaz de fazer o gol. E eu vou te dizer uma coisa, se ele chutasse forte e o goleiro pegasse, ele ia para dentro do gol com bola e tudo. Naquele tempo a bola era de capotão, era pesada mesmo! Eu fiquei lá emprestado e continuaria lá se o time subisse para a primeira divisão. Como eu já era casado e não conseguimos continuar na cidade, arrumamos as coisas e voltamos para o Brasil.
P/1 – E sobre Paris, o senhor ainda não falou nada. Como era?
R – Era muito bom, mas sem dinheiro você não faz nada em Paris.
P/1 – Lá você morou onde?
R – Perto do zoológico. Há pouco tempo eu passei lá e tirei fotografia do lugar para guardar de lembrança.
P/1 – E o time era bom?
R – Tinha o Montanholi e tinha eu. Esse PSC que está jogando agora, nós metemos cinco a zero neles. Jogamos antes do Racing, que era da primeira divisão, fizemos a preliminar. O goleiro desprezou muito a gente, dizendo “esses sul americanos!”. Sabe como eu fiz um gol nele? Peguei a bola em frente ao gol e fiz ele vir de gatinho no chão. . Depois foi lá e cumprimentei ele. Tá vendo, no que deu desprezar a gente? Eu e o Montanholi tínhamos um jeito de jogar tipo o Pelé com o Cotinho, viu?! Mas eu jogava muito com o calcanhar.
P/1 – O Montanholi jogava em qual posição?
R – Meia direita. Tinha um outro argentino que jogava pela meia esquerda. Ele tinha um bigodinho, chegou uma vez bêbado em casa!
P/1 – E naquela época o jogador ganhava bem como ganha hoje?
R – Não porque naquela época não se tinha o que tem hoje: patrocínio. Mas para você ver, em Sochaux só tinha o Sochaux, Em São Paulo, Palmeiras, São Paulo e Corinthians. Hoje você nem lê o nome do time na camisa, só as propagandas. É uma bagunça desgraçada, viu. O futebol não tem mais graça, viu?!
P/1 – E o Real Madrid? Já era um grande time naquela época?
R – Claro! Sempre foi.
P/1 – No anos 50 é que a Françavtinha um time bom, não era?
R – A seleção francesa tinha uns jogadores bons pra chuchu, viu?!
P/1 – Quais outros jogadores da França o senhor enfrentou?
R –Com era um time de segunda divisão, normalmente a gente jogava com pessoas que não são muito conhecidas, viu?! Contra a turma do Rans, por exemplo, a gente não jogava. Mas futebol lá não é brincadeira não, viu. A turma bate!
P/1 – E foi lá em Paris que o senhor conheceu a sua esposa?
R – Quando eu quebrei a rótula e estava no hospital tinha um espanholzinho que falava francês muito enrolado. Como eu sou latino, começamos a conversar e descobri que ele era tio de uma das maiores bailarinas de clássico da Espanha. E então, no meio das conversas, me convidou para comer uma paella lá na casa dele, onde iam muitos músicos. Passou um tempo eu conheci a minha mulher lá, mas naquela época, a gente nem se dava bola. Passado esse tempo eu fiquei dois anos sem ir na casa deles, então, veja como é a vida: quando tem que acontecer, as coisas acontecem! A minha mulher morava como da Penha a Lapa, um longe do outro.
P/1 – Como é o nome dela?
R – Lola. Então eu fui visitar um amigo polonês e ele não estava. O cara morava próximo da minha esposa, mas eu não sabia que ela morava por lá. Como ele não estava, fui a esquina esperá-lo e escuto: “ei brasileiro, o que está fazendo ai?”. Quando eu olho, era a minha mulher! Conversamos, marcamos de almoçar no outro dia e ai eu me ferrei! . Estou casado há 60 anos.
P/1 – Vocês se casaram aonde?
R – Em Paris, mas eu não avisei pra ninguém, pra evitar fotógrafo e todas essas coisas. Veja como são as coisas, se esse meu amigo estivesse em casa e se eu não tivesse quebrado a rótula, não teria conhecido ela. Por isso que quando eu compro a Loto, a peço por qualquer número! Se tiver que dar, deu! Eu estive na França em agosto. O meu sobrinho tem uma propriedade enorme nas montanhas, tem até um trator para limpar o terreno e tal.
P/1 – O senhor tinha quantos anos quando se casou?
R – Uns 28, 30 anos.
P/1 – O último time que o senhor jogou na França, qual foi?
R – O Roubaix. Minha mulher ficou em Paris e eu fui pra Roubaix, que fica a mais ou menos 200, 300 quilômetros de Paris. Mas lá não deu certo, joguei uma partida só. Então pegamos o navio e viemos para o Brasil.
P/1 – E aqui você jogou futebol?
R – Não. Eu tinha um tio viu no jornal que a Air France estava precisando de promotores de vendas que falassem francês. Então eu entrei. Depois de um tempo um amigo meu saiu da empresa e com isso se abriu uma vaga para o departamento de Relações Públicas, que não era tão comum nas empresas. Então, como eu já conhecia o pessoal da imprensa, fiquei neste cargo como diretor e acabei fundando o departamento. Paris começou a fazer um concurso de escultura em areia e pediu para que todos os países contribuíssem. E eu participei! Ia para as praias e era muito bom! O pessoal fazia esculturas desse tamanho, era dureza! Aliás, vou dar o nome do João Monteiro da Cunha Salgado Neto, que é um artista maravilhoso. Agora ele quer fazer uma estátua do Pelé, feita em bronze. Ele está procurando o investidor pois a obra vai custar um milhão. Com 14 anos ele ganhou uma passagem e foi receber o prêmio desse concurso lá em Paris.
P/1 – Esse era o prêmio?
R – Isso, hotel e tudo pago, por 15 dias. Esse menino foi campeão lá na França e quando voltou, foi entrevistado pela Hebe Camargo. Nessa ocasião ele disse que tinha sido campeão na França, mas não tinha nenhum brasileiro perto dele, já os outros meninos, tinham os seus copatriotas. Ih, rapaz! O presidente do concurso viu, mandou chamar o menino e deu uma espinafrada nele! . É pecado um cara como este não ter um investidor!
P/1 – Então este trabalho na Air France foi o seu primeiro emprego ao retornar para o Brasil?
R – Na verdade, antes disso eu trabalhei com vidros. Eu tinha uma bicicleta e fazia todos os contatos desta forma. Um dia o diretor viu e comprou uma moto pra eu fazer esse serviço. Fiquei lá por mais ou menos dois anos. Então apareceu esta vaga na Air France. Fui lá, bati papo com o diretor Marcelo, que era um Francês muito legal. Estou procurando ele mas não estou encontrando. Acho que ele morreu. Engraçado, mas as vezes parece que só eu fiquei vivo, todo mundo já morreu!
P/1 – O senhor trabalhou na Air France por quantos anos?
R – 25 anos. Me aposentei lá. Eu não preciso nem de milhagem. Uma viagem de ida e volta para Paris eu pago 170 euros e ainda vou na classe executiva. A primeira coisa que se deve fazer ao chegar no avião é conversar com o chefe de cabine. Ele manda no avião mais do que o piloto. Ele te põe na primeira classe, ele é quem manda! Quando entrou no avião já o procuro e peço um lugar na executiva. Quando eu mostro os 25 anos de Air France eles até batem continência. Quando eu viajo posso levar três pessoas pelo mesmo preço que eu pago.
P/1 – O Prêmio Moliere era produzido pelo senhor?
R – O Moliere e o do cinema, eu é que fazia tudo. Eu viajei entre Paris e Madri advinha com quem? Brigitte Bardot e a atriz que é dublê dela. Num outro avião que eu fiz Paris – Mônaco, do lado direito e aquele importador de petróleo famoso, argentino, me esqueci o nome dele agora. Quando eu fui para a Europa com a seleção brasileira eu levei duzentas pessoas. A Romy Schneider estava lá e eu pedi pra tirar uma foto com ela, e ela disse não! . Tudo bem. Ai ela estava dormindo de boca aberta, eu tirei o flash e bati a foto! . Agora o Honazes também estava lá e a turma estava toda alvoroçada. Falei com ele em espanhol perguntando se a turma poderia entrevistá-lo e quase pularam em cima dele! . Eu era peitudo pra esses negócios, viu?! Tinha uma grande artista francesa que passava por pelo aeroporto de Viracopos e eu fui entrevistá-la, mas ela se meteu dentro do toalete. Eu cheguei e bati na porta, ela perguntou quem era e eu disse que não adiantava dizer, porque ela não me conhecia. Ela abriu a porta, eu me apresentei e disse que a imprensa estava querendo entrevistá-la. O diretor geral da Air France estava lá e me deu os parabéns. Tive que aproveitar! Ninguém tinha esse departamento de relação públicas, só a Air France. Hoje em dia tem uns três caras lá, mas não ouço falar nada da empresa. Eu fazia acontecer, mas so as notícias favoráveis. Quando caia um avião eu ligava pra turminha da imprensa e avisava da queda, mas falava que era um avião Francês, e não um da Air France. Avião da Air France não cai! . Além dos prêmios que a gente conversou, eu fiz a festa de queijos e vinhos. Mandava vir quinze barris de vinho bojole da França, daquele bom! Queijo, 450 quilogramas. Todo tipo de queijo! Um dia um avião falhou lá e eu fui aqui no Argêncio, aqui em São Paulo. Pedi 200 quilogramas de queijo brasileiro, coloquei no meu Landau e ganhei todo mundo. O pessoal achava que era queijo francês. Eu tinha uns amigos que encheram o bolso de queijo e quando eu disse que o queijo era brasileiro, o povo ficou puto! .
P/2 – Deixa eu voltar um pouquinho no tempo, o senhor falou que jogava na Europa, como era o contato com a sua família aqui?
R – Eu só tinha contato com a minha mãe. Escrevia permanentemente. Ela ficou sem me ver, mas morreu quando eu já estava aqui. Eu também mandava dinheiro pra ela pelo Conrrado Ross e o pelo Boghossian.
P/1 – E o senhor recebia cartas da sua mãe também?
R – Ela escrevia pouco. Mas eu escrevia e também mandava dinheiro. Perdi o meu pai muito cedo, então sempre ajudei a família. Trabalhava desde os 14 anos.
P/1 – As cartas demoravam muito mais do que hoje, não é?
R – Mas hoje as cartas demoram também. Um dia a minha filha mandou uma carta da França e sabe quanto tempo demorou pra chegar? 15 dias!
P/1 – Quantos filhos o senhor tem?
R – Apenas uma filha e uma neta, que moram na França. No mês de agosto elas vem pra cá. Moram em um bairro nobre, perto do Parque da França. O meu genro não fala português, mas eu acho que no fim ela vai acabar voltando para o Brasil. Meu genro é de família francesa inglesa, é boa gente. Gosta de correr. Até o São Paulo me deu uma camisa e uns gorrinhos numa festa e eu mandei pra ele. O São Paulo dá umas camisas bonitas pra gente, viu?!
P/1 – Uma coisa que mudou muito nesses anos todos foi o equipamento esportivo, como era?
R – Naquele tempo a gente já jogava de chuteira mole, só lá na França que eles ainda usavam aquela chuteira dura. Por isso que ele me quebrou a rótula. Nós chegamos a jogar com essa chuteira dura aqui no Brasil também, mas logo mudou. Quando você usava era igual, mas machucava. No dia que ele me chutou, ninguém que estava no campo viu, foi muito rápido. Todo mundo começou a dizer que era cinema. Quando você faz cena, os franceses falam que é cinema.
P/1 – Seu Nelson, o Lucas estava comentado que o senhor tem uma carta rara, é isso?
R – Ah sim! O Santos Dummont pediu pra fazer um relógio de pulso porque quando andava de balão, sempre estava com as mãos ocupadas e tinha que olhar as horas. Eu tenho esta carta. Fui das relações públicas de um museu do Ibirapuera e me pediram pra tirar uma cópia. Esse museu foi saiu do Ibirapuera e foi para uma cidade, não me lembro agora aonde é.
P/1 – E então o senhor tem uma cópia dessa carta, é isso?
R – É. Do Santos Dummont pedindo o relógio para uma firma de Paris.
P/1 – Tanto é que ele é tido como inventor do relógio de pulso.
R – Pois é. Esta carta faz parte do acervo deste museu. É como esta fotografia que eu trouxe, do Leônidas. Isso é uma raridade, ninguém tem!
P/1 – Eu também vi uma sua com o Leônidas.
R – Essa eu tirei lá em São Joaquim da Barra! Naquele livro do Tomaz Mazzoni tem toda a história do futebol.
P/1 – Nesse tempo que o senhor voltou para o Brasil, deixou de jogar futebol?
R – Nunca! Eu fui da ACM (associação Cristã de Moços) por muitos anos. Jogava futebol de Salão, que é duro, viu?! Tem que correr bastante. Se não fosse essa operação do tornozelo, que me fez até perder o jeito de andar...
P/1 – Tem que reaprender.!
R – É duro! O tornozelo não me dói mais. Quando dói, eu tomo um Tandrilax a noite e no dia seguinte não tenho mais nada.
P/2 – Seu Nelson, o senhor comentou comigo sobre umas cartas convite que o Sochaux ainda manda pro senhor, fala um pouquinho disso pra gente.
R – Todos os anos eles mandam isso, no mês de outubro, quando os novos começam a jogar. Eles pagam uma porcentagem dos custos que temos para ir até lá e depois tem um baile, reunião. Estou vendo para ir no mês de outubro agora. É que eu queria começar a treinar na Água Branca, no parque Fernando não sei o que, porque parece que tem uma pessoa que puxa um grupo toda manhã, queria começar a correr. Queria ver se formava um grupo para começar a jogar. Se eu conseguir recuperar o fôlego, vou lá jogar com os veteranos do Sochaux. Eles fizeram um estádio exatamente como o Morumbi, enorme! O estádio que eu joguei era uma casinha pequena, vagabunda!
P/1 – E o senhor sempre recebeu estas cartas?
R – Sempre! Todo ano. Eles são atenciosos. Tenho um monte de cartas que eu guardei. Mandam um cartão bonito. Uma carta explicando tudo, depois um convite bem bonito, você tem que ver, viu. Frances é muito atencioso. Quando viajam sempre mandam cartinhas, para se comunicar com as pessoas, são muito bacanas.
P/1 – Seu Nelson, conta ai sobre alguma boa lembrança que o senhor guarda do futebol.
R – Eu não tenho nada do que reclamar, viu. Tudo foi bom. Do tempo que eu joguei, tudo foi bom. Tiveram grande jogos, como esse da Áustria que eu te falei, os contatos que a gente fez foram maravilhosos. Parece que jogador de bola é bem recebido em qualquer lugar. Aqui mesmo no Brasil, quando fala pra um médico que foi profissional, pronto, o atendimento é outro. Quando eu vou no Hospital São Camilo, onde eu tenho convênio, bato na porta e o médico me atende.
P/1 – E o que o senhor achou de contar a sua história para o Museu da Pessoa?
R – Muito interessante! È a única entrevista que eu fiz assim, vocês podem escrever tudo o que eu estou falando. Não sei se vocês viram um jogo do Maradona que ele saiu driblando todo mundo. Hoje em dias os jogadores fazem isso, porém muito mais rápido. Veja, esse (Alexandre) Pato, ai. Ele enterrou o Corinthians. Driblou todo mundo, não tinha ninguém pra passar a bola e teve que chutar pra cima. O profissional deveria se envergonhar disso. É a mesma coisa de eu fazer uma entrevista com vocês e vocês não saberem entrevistar. Qual é a função do jogador de bola? Jogar bola! Agora, esse Pato eu vi esses dias, perdeu dois ou três gols, ontem também perdeu dois e o Corinthians acabou perdendo. Então, o futebol é aquilo que eu falei pra vocês. E pra mim, o campeão da copa 2014 vai ser a Alemanha, eles estão correndo demais. Não estão jogando futebol, mas estão correndo, como diz o Veríssimo, é um bamboar.
P/1 – Seu Nelson, muito obrigado!
R – Eu e que agradeço, fica o registro ai porque a gente jajá pifa também.
P/1 – Imagina!
Recolher