No ano de 64, época da pesada ditadura militar, eu cursava o primeiro ano do antigo primário, com a saudosa dona Iraídes, no Colégio Alberto Conte, que fica onde nasci, Santo Amaro, e que, nos bons tempos, era um bucólico bairro de São Paulo, com direito a praça pública, coreto, banda oficial, casa paroquial, dispensário público e “footing”. Antigamente, o bairro era um município habitado por colônias de alemães, norte-americanos, ingleses, italianos e japoneses, que foram para lá pela extensa área rural, pelo clima semelhante às suas cidades de origem e pela Represa de Guarapiranga, antes Represa de Santo Amaro, construída na década de 30. A antiga "cidade" de Santo Amaro foi fundada pelos jesuítas e é mais antiga que São Paulo. Eles saíam de Itanhaém e Peruíbe, subiam as trilhas de pedras feitas pelos índios na Serra do Mar, a caminho da então São Paulo de Piratininga. A última pousada dos religiosos era o povoado de Santo Amaro. Um outro fato muito interessante é que, com o passar dos anos, foi construída a pequena e antiga Igreja Matriz e, ao contrário da cultura vinda da Europa e que existe na maioria dos municípios paulistas, a mesma não é voltada para a praça principal, a Floriano Peixoto e, sim, virada para a Serra do Mar, em uma espécie de “boas-vindas” para os jesuítas, índios e suas tropas. Nessa época, o bairro se comunicava com a “cidade” através dos saudosos e divertidos bondes. Existem até hoje alguns resquícios dele. Na avenida Ibirapuera, junto ao Viaduto da avenida dos Bandeirantes, há uma construção de tijolinhos na qual funcionava uma usina de energia para alimentar a rede elétrica. Atrás da Igreja da Sé, em frente à Padaria Santa Tereza, onde funcionam algumas floriculturas, nos velhos tempos era um dos abrigos de bondes. Numa bela manhã, eu então com sete anos, e minha irmã com quatro, mamãe nos convidou para passearmos na “cidade”, expressão usada até hoje pelos mais...
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No ano de 64, época da pesada ditadura militar, eu cursava o primeiro ano do antigo primário, com a saudosa dona Iraídes, no Colégio Alberto Conte, que fica onde nasci, Santo Amaro, e que, nos bons tempos, era um bucólico bairro de São Paulo, com direito a praça pública, coreto, banda oficial, casa paroquial, dispensário público e “footing”. Antigamente, o bairro era um município habitado por colônias de alemães, norte-americanos, ingleses, italianos e japoneses, que foram para lá pela extensa área rural, pelo clima semelhante às suas cidades de origem e pela Represa de Guarapiranga, antes Represa de Santo Amaro, construída na década de 30. A antiga "cidade" de Santo Amaro foi fundada pelos jesuítas e é mais antiga que São Paulo. Eles saíam de Itanhaém e Peruíbe, subiam as trilhas de pedras feitas pelos índios na Serra do Mar, a caminho da então São Paulo de Piratininga. A última pousada dos religiosos era o povoado de Santo Amaro. Um outro fato muito interessante é que, com o passar dos anos, foi construída a pequena e antiga Igreja Matriz e, ao contrário da cultura vinda da Europa e que existe na maioria dos municípios paulistas, a mesma não é voltada para a praça principal, a Floriano Peixoto e, sim, virada para a Serra do Mar, em uma espécie de “boas-vindas” para os jesuítas, índios e suas tropas. Nessa época, o bairro se comunicava com a “cidade” através dos saudosos e divertidos bondes. Existem até hoje alguns resquícios dele. Na avenida Ibirapuera, junto ao Viaduto da avenida dos Bandeirantes, há uma construção de tijolinhos na qual funcionava uma usina de energia para alimentar a rede elétrica. Atrás da Igreja da Sé, em frente à Padaria Santa Tereza, onde funcionam algumas floriculturas, nos velhos tempos era um dos abrigos de bondes. Numa bela manhã, eu então com sete anos, e minha irmã com quatro, mamãe nos convidou para passearmos na “cidade”, expressão usada até hoje pelos mais antigos do bairro. Ela nos perguntou se gostaríamos de ir de ônibus ou de bonde. Perguntou por perguntar. Já sabia que a opção seria o bonde. Ele era maravilhoso Silencioso, divertido, confortável, lento, e fazia a linha Santo Amaro-Praça João Mendes. Lá fomos de casa a pé, até o ponto do bonde, pela manhã ensolarada. Passamos pela avenida Adolfo Pinheiro, depois o bonde entrava em um “V”, ou “desvio”, como as pessoas o apelidavam, e seguia onde hoje é a avenida Ibirapuera. Lembro das paradas Frei Gaspar, Piraquara, Moema. Nos sentamos num banco longitudinal de madeira, o tal banco dos bobos, onde uns ficavam de frente para os outros, as mulheres preocupadas com as suas saias e os passageiros com caras de tinta secando. Nos sentamos ao lado de uma gorda senhora negra, com um meninão enorme e forte no colo, com uns 11 anos de idade, chupetona e uma fralda na cabeça. Parecia que o garotão tinha alguma deformidade física. Minha mãe, muito “conversadeira”, logo puxou uma prosinha com a senhora. Me lembro claramente desse dia. Falaram sobre o tempo, filhos, família, temperatura. As pessoas em volta ficaram curiosas com o papo e com a cena pitoresca do meninão com aquele calombo na cabeça. Uma hora, não teve escapatória. Ela começou a falar que a minha mãe era uma sortuda, pois seus filhos eram quietinhos, obedientes e comportados, e que estava muito nervosa com o filho. Ela relatou que estava levando o meninão da fralda na cabeça para o Hospital do Servidor Público. Minha mãe, também curiosíssima, perguntou se ele estava doente. A senhora disse que seu filho era muito levado, só aprontava, fazia traquinagens, e que tinha saído de casa com o bumbum vermelho, pois ganhou uma "salva de palmas". Minha mãe, com a natural curiosidade a todo vapor, comentou a respeito da fralda. De repente, a mulher desenrola o tecido, deixando o crânio descoberto, e, para nossa surpresa e a de todos do bonde, o garotão tinha entalado na própria cabeça, um penico branco de ágata Aqueles com alça e tudo Lembro perfeitamente do episódio. Eram mais de 50 pessoas rindo descontroladamente. Eu mesmo, tive um dos dias em que mais ri na minha vida. Passei o dia lembrando da cena. Ali estava o precursor do personagem do grande Ziraldo. O menino maluquinho.
Renato Primi Artista Plástico Itapecerica da Serra - SP (História enviada em fevereiro de 2011)
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