D. Naninha- benzedeira e parteira
"Quando a criança está molinha, chorando sem motivo, pode saber: mau olhado. Tem que benzer", garante D. Naninha, uma exímia conhecedora do poder de cura das ervas e remédios caseiros. D. Ana Bonfim Matos nasceu em Porto Seguro, quando a extensa rua Marechal Deodoro tinha um dono só e "esse negócio de turismo nem existia". Na lucidez de seus 80 anos, cheirando rapé ou batendo pilão, ela relembra a época em que apanhava lenha no Campinho, lavava roupa no Rio da Vila, fazia renda, torrava café e esperava o marido chegar do mar, trazendo o peixe para matar sua fome e a dos filhos.
Onde a Srª nasceu?
Meu pai, minha mãe, avô, bisavô, todo mundo nasceu aqui em Porto Seguro. Eu nasci na rua Marechal Deodoro, no tempo em que o finado coronel Jessé era dono da rua toda. Ele morava na Casa Azul e meu pai comprou a nossa casa na mão dele. Quando conheci o coronel eu era criança e ele já de idade. Sei que ali ele criava de tudo - carneiro, ganso, cavalo, galinha.
De onde vinha a água utilizada nas casas?
Cada um tinha sua cacimba, mas quando a maré era alta, o mar salgava a água. Aí, para encher as vasilhas a gente era obrigado a pegar água com uma cuia nos olheiros. A roupa, lavava na fonte do rio da Vila. Lá eu esfregava, fervia, botava no quarador, enxaguava e quando já estava seca, fazia a trouxa e voltava para casa. Aí passava no ferro a brasa. Lenha eu já cansei de tirar no Campinho e na Terra Vermelha, onde é hoje o aeroporto. Eu tinha uma cachorrinha e levava ela e meus dois meninos para a mata. Tirava a lenha, fazia três feixes e levava, um de cada vez.
A vida era mais difícil naquela época ou hoje?
De primeiro a situação era outra. Turista mesmo era uma coisa que não usava. Às vezes tinha dinheiro, outras a gente era obrigada a comer frutapão, cortadinho de mamão ou siri, para matar a fome. Eu catava buzinho e fazia moqueca pros meninos. O outro irmão do meu filho Flodu morreu e ele...
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D. Naninha- benzedeira e parteira
"Quando a criança está molinha, chorando sem motivo, pode saber: mau olhado. Tem que benzer", garante D. Naninha, uma exímia conhecedora do poder de cura das ervas e remédios caseiros. D. Ana Bonfim Matos nasceu em Porto Seguro, quando a extensa rua Marechal Deodoro tinha um dono só e "esse negócio de turismo nem existia". Na lucidez de seus 80 anos, cheirando rapé ou batendo pilão, ela relembra a época em que apanhava lenha no Campinho, lavava roupa no Rio da Vila, fazia renda, torrava café e esperava o marido chegar do mar, trazendo o peixe para matar sua fome e a dos filhos.
Onde a Srª nasceu?
Meu pai, minha mãe, avô, bisavô, todo mundo nasceu aqui em Porto Seguro. Eu nasci na rua Marechal Deodoro, no tempo em que o finado coronel Jessé era dono da rua toda. Ele morava na Casa Azul e meu pai comprou a nossa casa na mão dele. Quando conheci o coronel eu era criança e ele já de idade. Sei que ali ele criava de tudo - carneiro, ganso, cavalo, galinha.
De onde vinha a água utilizada nas casas?
Cada um tinha sua cacimba, mas quando a maré era alta, o mar salgava a água. Aí, para encher as vasilhas a gente era obrigado a pegar água com uma cuia nos olheiros. A roupa, lavava na fonte do rio da Vila. Lá eu esfregava, fervia, botava no quarador, enxaguava e quando já estava seca, fazia a trouxa e voltava para casa. Aí passava no ferro a brasa. Lenha eu já cansei de tirar no Campinho e na Terra Vermelha, onde é hoje o aeroporto. Eu tinha uma cachorrinha e levava ela e meus dois meninos para a mata. Tirava a lenha, fazia três feixes e levava, um de cada vez.
A vida era mais difícil naquela época ou hoje?
De primeiro a situação era outra. Turista mesmo era uma coisa que não usava. Às vezes tinha dinheiro, outras a gente era obrigada a comer frutapão, cortadinho de mamão ou siri, para matar a fome. Eu catava buzinho e fazia moqueca pros meninos. O outro irmão do meu filho Flodu morreu e ele ficou muito sentido. Aí eu fazia todas as vontades dele. O irmão morreu de doença de ar. Bateu a doença num dia e no outro não teve jeito. Nunca ninguém chegou na minha porta reclamando deles. Era eu fazendo renda no bilro, torrando café ou então fritando carne numa frigideira grandona. A gente fazia aquela farofa e cada um comia um pouquinho, até o pai chegar do mar. Ele pescava de canoa, né, e às vezes demorava, chegava só à noite. Aí eu preparava o peixe pra todo mundo comer. Depois com o resto enfiava a roda de peixe, um por um. Era cada guaricema bonita ...
E vocês vendiam também?
Às vezes os meninos saíam para vender. Tinha vez o lucro dava para a farinha (custava 200 réis o quilo), para o feijão (500 réis) e às vezes não vendiam nada. Aí a gente era obrigada a salgar. Fazia as postinhas e dava para os vizinhos. Nem todo mundo era pescador.
A Srª teve quantos filhos?
12, graças a Deus. O que Deus me desse eu aceitava. Morei na roça e nunca fui no médico. Eu mesma nasci de 7 meses. Quando completei 2 anos de idade caí 8 anos, com o corpo cheio de chagas e sem poder andar. Eu chorava quando via todo mundo indo para a escola, e eu em casa engatinhando. Eu tinha mãe, mas eu era de minha avó. Sou a primeira filha e meu pai fez um trato que se eu fosse homem ficava com ele e se fosse mulher ele me dava para ela. Minha mãe me dava peito, mas minha avó cuidava de mim. E foi ela que me curou.
A Srª frequentou a escola?
D. Odete, mãe de Parracho, foi minha professora. Naquele tempo eu aprendi alguma coisa, mas hoje não sei nem as 4 operações. Com 13 anos saí da escola para ficar com minha avó, que ficou paralítica. Aí eu tinha que cuidar dela e da casa.
Como a Srª aprendeu a fazer partos?
Comecei ajudando, fazendo o chá, o café, e ficava observando. A primeira vez foi na casa de meu tio, que morava do lado da minha. Ele já tinha ido buscar D. Senhora, lá na Pontinha. Mas a criança deu ponto de nascer e quando ele chegou eu já estava dando banho. Acho que nessa hora Jesus esclarece a gente. Tinha vez de fazer até 5 por dia, às vezes nessas roças e fazendas. Era de madrugada com uma, e quando o dia clareva, na casa de outra. Depois do parto eu continuava dando banho e cuidando da criança e só entregava depois que caía o umbigo.
O que uma parteira carrega na bolsa?
Tesoura, fio de amarrar o umbigo, os paninhos, as orações ... Eu botava a devoção no pescoço para aumentar as dores. Dava banho de algodão, mentraço e artemísia. Depois do parto botava alfazema dentro do caco de telha com brasas vivas, para defumar as roupas da criança. E não podia faltar a temperada. Eram 5 litros de pinga com mel de abelha, arruda, cebola branca, hortelã miúda e outras ervas. Acabava de nascer a criança e a mulher também bebia, para limpar tudo por dentro. Os visitantes todos tinham que beber, senão era desfeita.
E hoje, a Srª ainda bebe?
Eu bebo até cachaça pura. Bebo antes do almoço, pra depois dormir meu soninho. De noite já deixo meu feijão de molho. Acordo 2 horas da madrugada e quando clareia já estou comendo o meu pirão. Depois fico lavando meus pratos, minha roupa, varrendo a casa. É o costume, né?
Quando a Srª entrou num carro pela primeira vez?
Foi pra fazer um parto. Quando me botaram lá dentro eu achei que ia virar. Aí mandei eles irem na frente, que eu ia de pé mesmo. Mas não dava tempo e eu tive que entrar, tremendo. De lá pra cá fui perdendo o medo. Naquele tempo era tudo bom, não tinha essa doençada, essa desarmonia ...
(Publicada na edição 27 do Jornal do Sol de Porto Seguro - Bahia, agosto/93. Entrevistada pela jornalista Hilda Rodrigues)
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