Em Fortaleza, capital do estado do Ceará, no dia 8 de dezembro de 1955, nasceu Hermes Rodrigues Carreira Filho, filho de Hermes Rodrigues Carreira (1903-1998) e Maria Alda Carreira (1935). Ou seja: eu.
Desde que tenho lembranças de minha infância, passei por alguns episódios que me vêm à memória “como se fosse ontem”. Quero aqui deixar alguns deles registrados para a história. Não são fatos importantes, porém é a história de mais um cidadão brasileiro que, como muitos outros, luta pela grandeza da história do seu país.
Meu pai, o Sr. Hermes Rodrigues Carreira, nasceu no interior do estado do Ceará. Segundo ele, veio para a capital quando ainda tinha dezesseis anos de idade, fugindo da severidade de meu avô, o Sr. José Carreira, um homem um tanto quanto bruto, sem qualquer grau de carinho pelos seus filhos – pelo menos quando estes alcançavam a capacidade de trabalho na roça ou em quaisquer que fossem as atividades que lhes fossem designadas, o que acontecia muito cedo: por volta dos oito anos de idade para os meninos e dos dez anos para as meninas, que eram responsáveis pelos afazeres da casa juntamente com a mãe.
Meu pai era o mais velho dos seus seis irmãos. Casou-se pelo menos três vezes. Do seu primeiro casamento, nasceram quatro filhos: Aurineide, Alda, Aurea e Açuério. Por algum motivo em sua vida, ele veio a separar-se de sua primeira mulher e conheceu Maria Alda, até então solteira, que morava em uma cidade do interior, Crato. Uma mocinha de bons modos, criada à moda camponesa: pouco estudo, muito trabalho e a responsabilidade de cuidar de seus irmãos, tarefa que já lhe era designada desde seus 6 anos de idade. Desse namoro resultou o casamento, e do casamento, mais cinco filhos, dos quais apenas três sobreviveram: eu, Sara e Elias.
Desde muito cedo – com 8 anos de idade – acompanhei meu pai em viagens que ele fazia pelos estados do Nordeste, quando, naquela época (anos 60), ele era representante de uma...
Continuar leitura
Em Fortaleza, capital do estado do Ceará, no dia 8 de dezembro de 1955, nasceu Hermes Rodrigues Carreira Filho, filho de Hermes Rodrigues Carreira (1903-1998) e Maria Alda Carreira (1935). Ou seja: eu.
Desde que tenho lembranças de minha infância, passei por alguns episódios que me vêm à memória “como se fosse ontem”. Quero aqui deixar alguns deles registrados para a história. Não são fatos importantes, porém é a história de mais um cidadão brasileiro que, como muitos outros, luta pela grandeza da história do seu país.
Meu pai, o Sr. Hermes Rodrigues Carreira, nasceu no interior do estado do Ceará. Segundo ele, veio para a capital quando ainda tinha dezesseis anos de idade, fugindo da severidade de meu avô, o Sr. José Carreira, um homem um tanto quanto bruto, sem qualquer grau de carinho pelos seus filhos – pelo menos quando estes alcançavam a capacidade de trabalho na roça ou em quaisquer que fossem as atividades que lhes fossem designadas, o que acontecia muito cedo: por volta dos oito anos de idade para os meninos e dos dez anos para as meninas, que eram responsáveis pelos afazeres da casa juntamente com a mãe.
Meu pai era o mais velho dos seus seis irmãos. Casou-se pelo menos três vezes. Do seu primeiro casamento, nasceram quatro filhos: Aurineide, Alda, Aurea e Açuério. Por algum motivo em sua vida, ele veio a separar-se de sua primeira mulher e conheceu Maria Alda, até então solteira, que morava em uma cidade do interior, Crato. Uma mocinha de bons modos, criada à moda camponesa: pouco estudo, muito trabalho e a responsabilidade de cuidar de seus irmãos, tarefa que já lhe era designada desde seus 6 anos de idade. Desse namoro resultou o casamento, e do casamento, mais cinco filhos, dos quais apenas três sobreviveram: eu, Sara e Elias.
Desde muito cedo – com 8 anos de idade – acompanhei meu pai em viagens que ele fazia pelos estados do Nordeste, quando, naquela época (anos 60), ele era representante de uma empresa de ferramentas para a indústria de móveis. Isso por um lado foi ruim para o meu desenvolvimento intelectual, pois como não nos demorávamos em um mesmo lugar, eu não freqüentava a escola de maneira adequada ao aprendizado. Por muitas vezes tive que recomeçar o mesmo ano letivo por não ter concluído o ano anterior. Mesmo assim cheguei a completar o quinto ano escolar, e daí veio a necessidade trabalhar, o que me fez, mais uma vez, abandonar os estudos. Por outro lado, tive muito conhecimento prático da vida, conhecendo pessoas e lugares diferentes, outros costumes, uma maneira de encarar a vida de frente, tendo também desde cedo a responsabilidade ser como um secretário do meu pai pois, sendo ele analfabeto, cabia a mim a leitura e a escrita de cartas e outros documentos pertinentes a seu trabalho, além de também ler a Bíblia, que para ele era de muitíssima importância.
Diante de tais circunstâncias, eu pude absorver uma boa dose de conhecimentos que, embora pouco compreensíveis para mim naquele momento, hoje sinto que são de grande importância em minha vida.
Lembro-me que no ano de 1968 estávamos morando em Recife, e foi quando aconteceram vários fatos importantes à história do Brasil – começava a ditadura militar naqueles dias [na verdade, a ditadura militar no Brasil começou em março de 1964]. Havia muitas confusões nas ruas, estudantes faziam passeatas, muita gritaria, palavras de ordem, etc. E eu bem ali, no meio de tudo, via a história se fazendo sem entender muito o que se passava. A única coisa que eu realmente sabia era o que o meu pai me falava: "É a revolução, meu filho. Dessa vez, ou vai ou racha".
Para mim aquela situação não mudava nada, mas para meu pai eu não tinha tanta certeza. Lembro-me que ele tinha uma certa simpatia por um revolucionário cubano que muito me soava o nome: era o então revolucionário Fidel Castro. Talvez isso lhe trouxera algum prejuízo. O fato é que, naquela época, os principais perseguidos eram justamente os simpatizantes do comunismo.
Lembro-me também que estávamos em Recife quando aconteceu uma grande enchente que arrasou muitos bairros próximos ao local onde morávamos. Foi naquela ocasião que vi a morte rondando por perto: pela primeira vez vi uma pessoa sendo retirada morta de dentro de um rio. Foi uma cena horripilante, me deixou impressionado por muitos dias. Depois de tudo passado, eu voltei a brincar nas barrancas feitas pela erosão que as águas deixavam.
Das imagens que trago na memória, muitas são um pouco trágicas, mas, felizmente, é a minoria. Tenho boas lembranças de minha infância e adolescência, apesar das dificuldades transitórias vividas por mim, as quais serão relatadas no decorrer desta história.
De vez em quando, em conversas com amigos, me vagueiam à memória imagens de meu tempo de "moleque", e elas me trazem lágrimas aos olhos algumas vezes. Uma dessas imagens é a em que me vejo trepado em um cajueiro ou uma mangueira, dividindo suas frutas com os passarinhos; cenas de banho de rio; as brincadeiras de rua, como jogar pião, bola de meia, o jogo de bila (bola de gude) ou até mesmo empinar uma arraia (pipa). Todas essas lembranças até hoje emocionam, me fazendo pensar nas crianças de hoje, que em sua maioria não têm sequer o espaço para brincadeiras, e se têm, existe o perigo da violência que ronda em toda parte.
Uma das travessuras que fiz quando criança causou grande apreensão aos meus pais: foi quando, com medo de apanhar por causa de outra travessura que já fizera, me escondi dentro do gabinete da máquina de costura da minha mãe, e por lá fiquei dormindo até a noite. Quando todos já estavam cansados de me procurar, perceberam que saía de debaixo da máquina um rastro de água, que na verdade era urina, pois ao dormir por tanto tempo acabei urinando, e então fui descoberto de meu esconderijo. O fato por fim foi tão engraçado que me safei da tal surra que iria levar naquele dia.
Tenho lembranças ainda de minha vó que, sempre que ia a algum lugar (como na budega (empório), feira, chafariz ou na casa das minhas tias), me levava junto. Em uma dessas saídas, passei por baixo de um jumento e por pouco não fui pisoteado por ele. Eu gostava muito de sair com minha vó para algum lugar, sempre tinha uns bombons (balinhas) ou umas broas de milho, muito populares na região.
Apesar morar na capital, conheci muitas coisas do interior, pois algumas das minhas tias ainda moravam em sítios que ficavam um pouco distantes da cidade. Lembro-me que uma vez, nas férias de escola, fui passar uns dias num lugarejo que se chamava Deserto, na região de Sobral, no interior do Ceará. Lá eu tive novas experiências, fui pescar nos açudes, caçar preá (roedor do mato), aprendi a cuidar de passarinhos, andei em lombo de jumento, até ajudei nos trabalhos da roça. Era muito divertido.
Quando chegava a noite, sempre tinha brincadeiras, as cantigas de roda, o passa o anel, os mais velhos contavam histórias, a luz era de lamparina dentro de casa – porque no terreiro era a lua que iluminava tudo, refletindo a luz em sua areia branca. Era tão legal que eu não queria mais nem voltar pra casa, mas enfim as férias acabaram e tive que voltar.
Naquele tempo eu não tinha muito entendimento das coisas, mas de uma coisa eu tinha certeza: a vida era muito boa e divertida. Eu não tinha nenhum compromisso, a não ser com a escola e com a brincadeira. Nas brincadeiras daquele tempo ainda não existia toda a maldade de hoje. A televisão ainda não havia chegado em todas as casas – pelo menos na minha não, mas tinha televisão na casa do meu colega, e à noite íamos todos pra lá. Rin-tin-tin, O besouro verde, Popeye, Gasparzinho, Bonanza, Tarzan, Jim das Selvas e tantos outros eram os filmes e desenhos daquela época. Quando era dia de desenho animado, eu sempre urinava na roupa por causa das risadas que dava dos desenhos, depois, tinha que ficar até tarde, com vergonha de levantar todo mijado e deixar o rastro de urina na sala do colega.
Quando cheguei aos meus oito anos de idade, foi a época que eu e meu pai começamos a viajar juntos. A partir daí começaram surgir novas experiências, novos conhecimentos, conforme já mencionei anteriormente. Nesse estágio de minha vida a brincadeira já não era tão presente quanto antes, mas mesmo assim ainda encontrava um tempinho pra brincar. Entre uma tarefa e outra, ainda podia jogar bola, apesar de meu pai não consentir – para ele, futebol era coisa de desocupado. Porém, hoje, muitos pais gostariam que seus filhos viessem a ser jogadores de futebol. Quando eu era flagrado jogando bola, com certeza viria um castigo em seguida. No mais, tudo era muito divertido.
Recolher