Entrevista de Francisco Tomé dos Santos ( Mestre Bigo)
Entrevistado por Jonas Samaúma;
Gravado por Alisson da Paz;
São Paulo, 1º de junho de 2024;
Projeto Conte Sua História, Mestres de Capoeira;
Entrevista Nº PCSH_ HV1401;
Revisado por Estfani da Costa
P/1- Então, mestre, para a gente começar essa entrevista, eu ia pedir, se possível, para você cantar uma ladainha sua para a gente abrir.
R- Se tivesse um pandeiro aí para você tocar, um berimbau, não… vou assim mesmo.
P/1- Vai assim mesmo, está bom.
R- Pode cantar a ladainha?
P/1- Pode.
R- Yei! Lá no céu tem três estrelas, colega velho, todas três em carreirinha.
Um é bimbo, outra é passinha, outra não pode ser minha.
Outra é o mestre a mania, colega velho que no céu tinha chegado.
Encontrou com João Pequeno
Colega velho e também Gelso quadrado, quiser saber meu nome, quiser saber eu falo;
Eu sou discípulo de Pastinha, sou baiano de verdade, quiser saber meu nome,
Colega velho, se quiser saber quem sou;
Sou discípulo de Pastinha, sou angoleiro, sim senhor, viva meu Deus.
Ê, viva meu Deus, calma, viva o meu mestre.
Ê, viva, ê, viva todos os mestres
Ê, viva todos os mestres, camarada, viva a nós todos
Ê, viva a nós todos, camarada Berimbau de Biriba, agora é aqui Rodar neste nego é de biribiri Berimbau de Viribá, Angola é aqui, mas Angola é aqui, mas Angola é... Vou mu dar agora, Berimbau da Bahia, eu também sou de lá. Vou dar neste nego, é de jacarandá. Berimbau da Bahia, eu também sou de lá. Vou dar neste nego é de jacarandá.
R- Berimbau da Bahia, eu também sou de lá.
R- As minhas músicas são minhas mesmo, eu já fiz 3 CDS.
R- Fiz uma com Mestre Môa, fiz uma comigo, fiz uma com os índios lá, tem um trabalho de uns cinco anos.
P/1- Com os índios?
R- Com os índios, tem trabalho com os índios lá.
P/1- Como é o seu trabalho com os indígenas, mestre?
R- Dou aula lá na aldeia dos índios, segura lá é o Gerinho.
P/1-É mesmo?
R-...
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Entrevistado por Jonas Samaúma;
Gravado por Alisson da Paz;
São Paulo, 1º de junho de 2024;
Projeto Conte Sua História, Mestres de Capoeira;
Entrevista Nº PCSH_ HV1401;
Revisado por Estfani da Costa
P/1- Então, mestre, para a gente começar essa entrevista, eu ia pedir, se possível, para você cantar uma ladainha sua para a gente abrir.
R- Se tivesse um pandeiro aí para você tocar, um berimbau, não… vou assim mesmo.
P/1- Vai assim mesmo, está bom.
R- Pode cantar a ladainha?
P/1- Pode.
R- Yei! Lá no céu tem três estrelas, colega velho, todas três em carreirinha.
Um é bimbo, outra é passinha, outra não pode ser minha.
Outra é o mestre a mania, colega velho que no céu tinha chegado.
Encontrou com João Pequeno
Colega velho e também Gelso quadrado, quiser saber meu nome, quiser saber eu falo;
Eu sou discípulo de Pastinha, sou baiano de verdade, quiser saber meu nome,
Colega velho, se quiser saber quem sou;
Sou discípulo de Pastinha, sou angoleiro, sim senhor, viva meu Deus.
Ê, viva meu Deus, calma, viva o meu mestre.
Ê, viva, ê, viva todos os mestres
Ê, viva todos os mestres, camarada, viva a nós todos
Ê, viva a nós todos, camarada Berimbau de Biriba, agora é aqui Rodar neste nego é de biribiri Berimbau de Viribá, Angola é aqui, mas Angola é aqui, mas Angola é... Vou mu dar agora, Berimbau da Bahia, eu também sou de lá. Vou dar neste nego, é de jacarandá. Berimbau da Bahia, eu também sou de lá. Vou dar neste nego é de jacarandá.
R- Berimbau da Bahia, eu também sou de lá.
R- As minhas músicas são minhas mesmo, eu já fiz 3 CDS.
R- Fiz uma com Mestre Môa, fiz uma comigo, fiz uma com os índios lá, tem um trabalho de uns cinco anos.
P/1- Com os índios?
R- Com os índios, tem trabalho com os índios lá.
P/1- Como é o seu trabalho com os indígenas, mestre?
R- Dou aula lá na aldeia dos índios, segura lá é o Gerinho.
P/1-É mesmo?
R- É.
P/1- Aonde é essa aldeia?
R- Ali, no Miracatu.
P/1- E com quais índios?
R- ali perto de Registro… ali.
P/1- Guarani?
R- Com os Guaranis, Tupi Guarani.
P/1- Caramba!
R- Quem trabalha com eles é Gerinho.
P/1- Que massa!
R- Aquele que é hippie. Agora pode perguntar, filho.
P/1- Mestre, eu ia falar pra você contar qual, é a primeira coisa que você lembra na sua vida, do lugar que você nasceu, né.
P/1- Você contar um pouquinho do lugar que você nasceu.
R- É para bem assim, eu nasci em Mar Grande, ali na Gamboa, né. Porque ali são... Pessoal chama de Ilha de Vera Cruz e Itaparica. Eu moro ali, eu nasci pertencendo a Vera Cruz, era um nome só, parece que era um nome só Vera Cruz ou Itaparica. Mas tinha um índio ali que era muito brabo, e tinha uma mulher que era brava também… aí brigaram e dividiram… aí ficou Vera Cruz e Itaparica. Onde pega a lancha ali já é Itaparica. Agora, na Gamboa, pra lá, então eu nasci ali. Na Gamboa. Entendeu? Pertinho de Vera Cruz. Mas depois meu pai foi para... Trabalhava na base naval, aí nós mudamos para lá.
P/1- Seu pai trabalhava na base naval?
R- Entrou na base naval para trabalhar, entendeu. Então, eu tinha oito anos de idade, entendeu!? Então, o que aconteceu, quando mataram Getúlio Vargas, em 1954, o que o Distrito Federal era no Rio de Janeiro, né? Então, o que aconteceu, veio um navio da marinha dos Estados Unidos, que passou em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia. Passou na base naval de Salvador, depois passou na base naval de Aratu. Aí, o que acontece, o comandante do navio pediu ao Mirante Abel que ele ia conhecer a Capoeira. O Mirante Abel falou com o Toninho de Meira, o Toninho de Meira falou com o meu pai. O meu pai conhecia meu tio Edmello , que meu tio Edmello foi um dos caras mais fortes que teve na Itaparica. Era meu tio Edmello no chão esquadrado. Foi meu tio Edmello, porque ele era altão, entendeu? Ele foi à ordenança de Juraci Magalhães, o pai de Antônio Magalhães;
R- eu já passei que eu não estou me malvendo.
P/1- Nossa! Conhecia o mestre pastinha. Aí contratou o mestre pastinha e o mestre Facinha foi. Foi até quando o mestre Facinha teve um problema dele, mas o mestre cobrinha a vida. Mas eu não posso falar que eu
R-Aí eu vi aquele jogando lá, eu gostei. Mas foi como ele tinha dinheiro. Ele que me levou. Me levava pra lá. Meia espacinha, entendeu?
P/1- Você tinha quantos anos quando você conheceu o Mestre Pastinha?
R- Eu tinha oito anos de idade.
P/1- Oito anos?
R- Com certeza, pode ser, foi em 1954.
P/1- Seis anos.
R- Entendeu? E fiquei com o Mestre Pastinha até quando ele faleceu, oito anos. Agora, meu filho, diga você.
P/1- Qual é a primeira coisa que você lembra do Mestre Pastinha, Mestre? O primeiro momento de você encontrar com ele, como foi?
R- Rapaz sabe o que aconteceu, eu vi ele jogando lá. Quando eu vi ele jogando, vi ele pequeno jogando, parecia um bailarino, ele gingava na ponta dos pés, na ponta dos pés. É que eu não sei fazer… Gingava na ponta dos pés assim, ó… assim, na ponta dos pés, gingando assim, ó…na ponta dos pés, assim, só você vendo. Aí eu, pô, me apaixonei. Quando eu vi aquele jogão.
P/1- É mesmo, mestre.
R- São essas coisas, meu filho. Aí já encontrei lá, João Grande. Esse, como é que chama? Valdemiro. A galera toda lá, Valdemiro, como que chama… o Jardim Preto, a galera toda que encontrei lá já.
P/1- Quem eram os alunos dele?
R- Agora, é para ver assim, todos nós, do Mestre Pastinha, que não passou para o João Pequeno, só foi o Aberrê, só o Aberrê que não passou. Mas todos nós passamos,mas sem pessoas que falam que terminou com o João Grande, mas por quê o quê? O João Grande pegou o título dos doutores antes de João Pequeno. O que aconteceu? A Bahia não reconheceu João Grande como doutor da capoeira, os Estados Unidos reconheceu. O que acontece? A Bahia não reconheceu João Pequeno, mas através de Joãozinho Angoleiro, entendeu? Minas Gerais o reconheceu como doutor. A Bahia não me reconheceu, os paulistas me reconheceram, me deram o título de doutor agora aí
R- Pode perguntar mas, entendeu? E eu fiquei com o Mestre Pastinha… até quando ele faleceu
P/1- Como é que era o treino do Mestre Pastinha?
R- O treino era um treino, legal, filho. Agora, ele sempre exigia da gente, agora, quem dava mais aula lá era o João Pequeno e o João Grande. Depois tinha Getúlio também, que dava aula lá também … não sei se Getúlio está vivo ou morto. Então, o que acontece? Eu fiquei um tempão... Agora, repara bem assim, a minha ficha não está com essa data. Quer dizer, porque meu pai entrou na marinha, mas não era fichado nem nada. Antigamente, se tinha um filho para tirar o registro, era quando ele morreu, ele ia para o exército. Era bem assim, as condições não davam. Meu pai trabalha na marinha, mas não era fichado nem nada. Isso lá, o que você vê. Condição pouca. Entendeu? Então, o que acontece? A minha ficha, me deram a minha ficha. Foi quando eu vim para São Paulo, minha ficha e meu diploma. Aqui, olha… Esse aqui, olha… É que eu não sei onde está o outro aqui. Esse aqui é o velho. Quando eu vim para São Paulo, em 69, entendeu? Fazer uma exibição em Ibirapuera. Eles falaram assim, que não acharam quatro capoeiristas negros aqui em São Paulo. Então, era a feira do couro, a feira da pele, de todos os animais. Então, foi na Bahia contratar nós, não acharam quatro capoeiristas negros aqui. Chamaram o pessoal da Portela e da Mangueira, entendeu. Então, nós viemos de avião pela VASP, para viajar de avião naquele tempo, era quem tinha dinheiro. Entendeu? Nós ganhamos mil contos de ré naquele tempo, um dinheirão, a Bahia.. toda, entendeu? Aí veio o Jorge Ben também, da Portela e Mangueira. Sabe aquela música... Trio Maravilha, nós gostamos de você, Trio Maravilha, que dá mais um prazer … bem assim… em 69.
R- Aí quando eu voltei pra lá, que fizeram a minha ficha, tá na academia lá, de 69, e o meu é de diploma, ficou velho meu diploma, mas tem aí o que chama o...
P/1- Mostra aí pra câmera seu diploma, mestre.
P/1- Ó, capoeira de Angola dá...
P/1- Rapaz, nossa… esse aqui tem que ter…. o diploma dele do Mestre Pastinha. Depois você bate uma foto para a gente.
R- Mas ele não é de mestre não, viu?
P/1- É de aluno aqui?
R- É capoeirista.
P/1- Capoeirista.
P/1- Diploma de capoeirista.
R- Não é de mestre não, viu? Sempre é que faz o mestre.
P/1- Ah, esse é o curso teórico de Capoeira Angola.
R- Pois é isso aí… (risada) aqui não tem mestre, não sei se o Mestre Pastinha deu para os meus colegas de mestre, não. Tu se confundiu com o meu aqui.
P/1- Você já viu o Mestre Pastinha formar algum mestre?
R- Rapaz, que eu saiba não. Até agora, não.
P/1- Se você puder contar mais as histórias que você viveu com o Mestre Pastinha , se você viveu algumas histórias junto com ele.
R- Meu filho, era bem assim … o Mestre Pastinha, eu e mais Bola Sete , nós chegamos lá cedo, e começava a perguntar as coisas ao Mestre Pastinha; está lembrado quando o Mestre Pastinha fala no CD dele, que uma pessoa contratou ele para tomar conta da casa de jogo?
P/1- Sim.
R- Aí o Mestre Pastinha, foi ele que contou isso pra mim. Quando chegou lá, o chefe de polícia, aquele que não gostava de capoeiristas, de candomblé, era pedrista, era pedrito, o chefe de polícia, agora é delegado, chefe de polícia. Aí chegou lá… o rapaz levou o Pastinha para tomar conta da casa de jogo, e disse, olha, é esse rapaz aqui que vai tomar conta da casa de jogo. Aí o cara disse, esse menino não tem condição de tomar conta da casa de jogo. Disse, é um fedelho, que o Pastinha é pequeno demais… aí perguntou ao Pastinha, como é seu nome? Ele falou, Vicente Ferreira Pastinha, ele puxou a cadeira, a coisa aqui assim, e disse, é você o garantãozinho que tem aqui no edifício, né? Com Pastinha, né? O Pastinha falou, tô morto, tô preso… sabe o que aconteceu? O Pastinha foi tomar conta da casa do jogo. Ele mandou um policial ir lá. O policial ia lá de coutre, com a camisa regata, né….Não ia pagar nada não, entendeu…. E jogava lá e não pagava.
R- Isso o Mestre Pastinha contou para mim.
R- Aí, os caras disseram, Pastinha, eu joguei com esse policial aí, ele perdeu e não quer pagar. Pastinha disse, então eu vou jogar com ele. O Mestre Pastinha foi jogar com ele, entendeu.
R- O Mestre Pastinha ganhou, ele está com um sábio aqui dentro, sábio é aquele … que bota na arma, o fuzil assim, eu não vi, entendeu. Aí o mestre Pastinha dizia … aí, mas você vai me pagar, paga ou não paga. Ele puxou o sábio , que é tipo quase um punhal, né. Pastinha contou… Pastinha pulava pra lá, pulava pra cá, debaixo da mesa e … paita e toma o sábio, que é igual um punhal, Pastinha olhava pra janela, assim, o pé começando. Então, o mestre Passinho aqui, olhava pra janela e pra porta, assim, né, e o pessoal só olhando, e o Pastinha querendo correr, mas não podia correr.
R- Mas o mestre Passinho puxou o paletó aqui, assim, jogou em cima dele e tomou o punhal, mas foi o chefe de polícia que mandou o cara fazer isso com o Mestre Pastinha.
R- Já ouviu falar em Chico Correta?
P/1- Chico Porreta? Não, conta pra mim de Chico Porreta.
R- A mulher de Mestre Pastinha tinha uma quitanda, que a gente chamava de quitanda, que vendia só verdura e banana. Chico Porreta, ele era capoeira também, Chico Porreta, então não tirava a banca, não, entendeu. Aí chegou lá no Mestre Pastinha, na quitanda, da outra mulher do Mestre Pastinha, não foi dona Anice, não. Aí só tinha duas bananas lá… ele disse, eu vou querer essas duas bananas. Aí a mulher de Mestre Pastinha, Mestre Pastinha contou pra mim, disse, não, é da Sabiá de Mestre Pastinha
R- Disse que ele pulou o balcão, pegou as duas bananas e disse, olha, diga a Pastinha que foi o Chico Porreta, o Gavião Chico Porreta que levou as bananas dele, o Gavião Carcará.
R- Mestre Pastinha chegou, a mulher pegou, Pastinha perguntou, cadê as bananas? Chico Porreta levou e contou o caso.
R- Mestre Pastinho mandou um recado para Chico Porreta… ´´ Chico Porreta, eu quero falar com você.``
R- Chico Porreta foi na Mesba, comprou um punhal, meteu no sapo; ele sabia que o Mestre Pastinho era mandingueiro, né, meteu no sapo e deu na barrinha.. passou um tempo. O Mestre Pastinho encontrou Chico Porreta.
R- ´´ Chico Porreta, eu quero falar com você´´ . Ele disse,´´ Pastinha, se for meu, se for seu, venha cá. Não, se for meu e se for seu, se for meu e seu, venha cá. Se for meu, deixe para lá´´.
R- Bem assim, falou bem assim… Pastinha foi lá… mas Pastinha sabia que ele estava com o punhal.
R- Mestre Pastinha com a navalha no bolso… o mestre Pastinha jogou, como é que chama, o paletó na cara dele aqui assim, e inverteu aqui assim, com a navalha aqui assim… começou a dizer ´´ eu pago, eu pago, eu pago´´ .
R- Dei uma jogada lá … deu uma pegada lá em Bababá, quebrou as espinhas todas a cara de Bababá.
R- Bababá não disse nada, deixou passar um, dois anos. Quando queimou o Mercado Modelo, tá lembrado? que fizeram ali na alfândega ali, aí inaugurou, aí foi o Juraci Magalhães, que foi o governo nesse tempo.
R- Aí deu cachaça pra gente tomar lá de graça, na inauguração do Mercado Modelo. Nós fomos lá e pá, teve roda lá e tudo bom.
R- Aí foi Bababá, e foi esse menino, pra lá também lá também. Depois vieram pra academia pra jogar, aí foram jogar, mas sabe que o... Coisa de burro, ele tinha dado a pegada. Ele tinha passado dois anos, tinha passado dois anos que ele tinha feito aquilo na cara dele.
R- Rapaz, ele deu uma pegada no Coisa de Burro, foi bater ele, e ele caiu lá. Disse, coisa de burro ´´ Matei meu irmão, matei meu irmão´´.
R- Foi inspiração boca a boca, como dizia o baiano. Quando ele levantou, estava melhor, pergunta pra Bola Sete, ele pegou o lenço, e disse ´´se eu dei, foi para matar`` .
R- Sabia que era uma pegada lá feia
R- O Galinho preto deu uma pegada no Jonas. Se na Angola não tem martelo? Meu filho, martelo na Angola, nenhum goleiro sai que não espera.
R- O Galinho preto deu um martelo pra bater e o Jonas caiu lá.
R- Só um bangué, na bagiola, no bangué, sabe como é que é? Um pega aqui, outro pega lá. Vem cá para você ver, Vem cá para você ver. Faz aqui assim. Não, troca, não. Aqui, olha. Essa aqui é a pai de ola. Pega ela aqui e leva para lá. Tem uma pai de ola, tem um mangueiro e tem um guincho. Tem guinchado também. Branquinho também, me deu um martelo também. Foi bater aqui assim, eu fiquei quase nocauteado aqui. Os gringos batendo palma, batendo palma também.
P/1-Tomou martelo aqui, Mestre, aí você ficou batendo palma?
R- Batendo palma, os gringos batendo palma que eu tava girando assim, ó. Eu batendo palma também. Meu filho, agora tá tão manso que eu tô com medo dela. Tá de uma pegada lá, nossa.
P/1- Ô, Mestre, me conta uma coisa, você começou a treinar com oito anos?
R- Com oito anos, meu filho.
P/1- Com oito anos? Como é que era? Na época que você treinou mais, você treinava quantas horas por dia?
R- Diga-me assim, nós chegamos lá, era uma hora e meia, duas horas mais ou menos, mas era bom demais.
P/- E você já tinha que ir com camisa amarela, calça?
R- Não, Mestre Pastinha só vestia a camisa amarela quando ia dar a exibição, o aniversário do Mestre Pastinha, nós treinávamos e jogávamos com essa roupa normalmente.
R- Tá bom, meu filho? Agora, quando eu ia fazer uma exibição, no aniversário do Mestre Pastinha, nós vestimos a roupa branca, entendeu. Para começar, tinha a... como é que se chama a língua? A Academia de Capoeira Angola, né. E tinha outra... como é que era?
P/1- Regional.
R- Não! Como é que chama? Esse outro nome também, eu estou esquecendo. Quem se lembra desse nome é João Pequeno… Centro Esportivo do Capoeira Angola, entendeu? Ele vem assim, Centro Esportivo do Capoeira Angola. Mas meu diploma não está no Centro Esportivo de Capoeira Angola, mas vocês podem ver que está lá, entendeu, meu filho?
P/1- Ô, mestre, você sabe quem que ensinou a capoeira para o Mestre Pastinha?
R- Eu treinei, mas treinei pouco com ele. Treinei mais com o João Pequeno e João Grande.
P/1- Não, mas o mestre Pastinha aprendeu capoeira com quem?
R- Ele falou lá, não sei se foi com o Mestre Benedito, foi um mestre assim, que era para bem assim. Tinha um menino lá que batia no Mestre Pastinha direto, o Mestre Pastinha apareceu também, aí, esse mestre, esse capoeirista, disse para o Mestre Pastinha treinar com ele…. O Mestre Pastinha atendeu.
R- Quando o mestre Pastinha passou, aí mandou vai, seu colega, seu companheiro. ..aí ele foi bater em no Mestre Pastinha, ele apanhou. Pastinha fala isso no livro dele, e fala no CD também, entendeu, meu filho? Tudo isso aí.
R- Mestre Pastinha, vou te contar você, filho.
P/1-Para começar, a casa do Mestre Pastinha, que fez em Barreiro, lá em Piripiri, quem fez foi eu e João Pequeno.
P/1- Que fez a casa?
R- A casa dele lá.
P/1- Ah, pode contar como é que foi isso?
R- Entendeu, repara só… nós vimos aqui em São Paulo, que é para bem assim, nós recebemos, cada um, mil contos de réis. Márcio tirou duzentos contos para Mestre Pastinha, dos quatro. Mestre Pastinha ficou com 800 mil, e nós ficamos com 800 mil também.
R- Porque os caras contrataram, fomos nós, não foi o Mestre Pastinha.
R- Entendeu, meu filho?
R- Então, essas coisas.
P/1- Sim.
P/1- O Mestre Pastinha contratou vocês para fazer a casa dele. Eu ia falar, Mestre, só voltando...
R- Eu era meio oficial de pedreiro.
R- João Pequeno era pedreiro, entendeu? Nós construímos a casa do Mestre Pastinha lá no Barreiro, onde saiu o trio Elétrico, Dodô e Osmar.
R- Entendeu?
P/1- Sim.
R- E eu morava em São Tomé de Paripe, entendeu?
P/1- Seus pais e seus avós eram de lá também, mestre?
R- Como é que é?
P/1- Seus pais e seus avós eram de São Tomé de Paripe também?
R- Não, não.
R- Da Ilha de Itaparica.
P/1- Ah, é?
R- É.
P/1- Na sua família tinha índio na família também, mestre?
R- Rapaz, a minha avó diz que era filha de índio, entendeu?
R- Minha família tinha… são os negros, agora é misturado com índios negros, né? E também diz que, sei lá, que meu nome é Francisco Thomé.
R- Tem falando de Thomé de Souza também, não sei também, né? A minha família é bem assim, são os negros, mas tudo tem os olhos claro, entendeu? Tudo tem os olhos claros. A gente misturou, né? Com preto, branco, né? É bem assim.
P/1-Você chegou a conhecer seu avô, mestre?
R- Meu avô fininho? Perguntei à minha tia, quem era meu avô. Meu avô matou um monte de gente na ilha. Mandava pro Coronel Baldo. Preso na gaveta, o Coronel Baldo. Era o Coronel Baldo com o José Paulo. A minha família é gente valente.
P/1- Você poderia contar um pouco a história do seu avô pra gente?
R- Sabe o que aconteceu? Diba era o delegado dele em Itaparica. Era cunhado do Coronel Baldo. Negócio de política, sabe? Ele meteu o facão para arrancar a cabeça do coronel Baldo, cortou os dedos do coronel Baldo.
R- O coronel José Paulo correu. Lá onde tem água, em Itaparica, lá. De uma pequena, contratou, o meu avô, Fininho, para matar ele.
R- O Coronel Baldo comprou um rifle de papo amarelo, assim via o pessoal cantar. Mas bala nesse cara não entrava. Entendeu?
P/1- No coronel ou no seu avô?
R- No delegado.
P/1- No delegado.
R- Montou o rifle. Meu avô mandou passar, minha avó passar o rifle embaixo da perna dela três vezes. Tinha que estar naquele dia, né? Esperou ele lá.
R- Quando ele saltou do navio, que ia lá pra Ponta de Areia, meu avô estava lá.
R- Com o rifle … amarelo.
R- Naquele tempo não tinha luz, né? Neste lugar.
R- Meu avô pegou um algodão e botou na mira.
R- Eu ouvia meu avô contar.
R- Não tem a mira do coisa… Não tem uma mirazinha do coisa aqui no rifle. Ele botou o algodão bem aqui assim…. a noite, você enxerga o cara com o algodão bem na mira do coisa assim, você enxerga o caralho. Picou no fogo, ele caiu lá. Ele meteu a mão do revólver ainda, mas não aguentou.
R- Caiu o cavalo embaixo, o cavalo pulou a cancela. A mulher dele, a mulher de Tiba, falou assim, mataram o Tiba. Chegou, ele estava deitado no chão. Passaram o telegrama para Salvador naquele tempo, o navio veio à toda, à toda. E levou ele para lá.
R- Levou ele para lá, mas chegou no meio …morreu. Sabe o que aconteceu? Muita gente... Aí, rapaz, a polícia baixou lá de Salvador. Mas não achou testemunha. Foi muita gente presa, entendeu? Meu pai contava que a polícia ficava até escutando na beira das casas, assim… se ouvia alguma conversa, quem matou, quem não matou.
P/1- E não descobriram?
R- Descobriram não.
R- Gadinho Esbigo, não foi um só que seu avô matou, não.
R- Esse chefe de polícia aí de Salvador, botou o nome de meu avô, de Fininho bom na faca, entendeu?
P/1- Bom na Faca?
R- Fininho bom na faca .
P/1- Ele era bom na faca , então, mestre?
R Ele era bom na faca. Um irmão meu, mataram.
P/1- Um irmão seu?
R- Rapaz da minha família é muito agressivo… sabe… O meu pai melhorou mais depois que entrou na marinha para trabalhar.
R- Graças a Deus!
P/1- Aí seu pai foi para o exército. Mas você conviveu com seu avô?
R- Como é que é?
P/1- Você conviveu com ele?
R- Convivi com meu avô.
P/1- O que você lembra dele, de ter vivido junto com ele?
R- Eu nunca vi briga dele , nenhuma, entendeu? Mas eu ouvia o pessoal contar.
R- Gaguinho, finado, o Gaguinho, sabe da minha família, da minha família é do Candomblé, dos babás, também.
R- Isso aí encobriu também.
R- Quando as testemunhas iam lá para falar, a cobra matava o cara no meio do caminho.
R- Se não o cara chegava lá, ficava gaguejando lá, dava um soluço, não falava nada.
R- Dos babás, o negócio de Candomblé.
R- Gadinho era de lá de dentro, acho que ele era filho de alegado, né? Comandava os bàbá. Aí encobriu isso aí.
P/1- Sua família era do Candomblé, mestre? Sua família era do Candomblé?
R- Do Candomblé, do bàbá
P/1- Caramba!
P/1- Você podia contar isso? Sua avó era também? A sua avó você conhecia?
R- A minha avó, eu não conheci, não.
Não, mas o que você sabe da história dela?
Não, ela era do Candomblé também, dos bàbá também. E meu avô era também.
P/1- Quando você era criança, você viu candomblé?
R- Não vi. Lá não vi, não. Nunca fui lá, não.
R- Já vi candomblé, mas não tive que ir lá, não.
R- Pode crer.
P/1- Não na sua família, né?
R- Não. Sei lá, deixa lá.
P/1- Então, você quer contar mais alguma coisa da história da sua família, dos seus pais, da sua mãe?
R- Rapaz, meu pai, ele se largou da minha mãe e fui morar com uma moça, que era de Santa Amado, que era de Sambadeira.
R- Aí meu pai começou a gostar de um irmão de José Osso Quadrado, que chama mão de onça, mas não é o mão de onça de Salvador, que foi o mestre de Cavaco, não.
R- Se chamava mão de onça. Ele era irmão de Aurinha, de Rosara, né? E de Jel Quadrado, esse rapaz. Entendeu? Minha mãe passou, deixe-me ver. Ele teve trestido, morreu já. Agora tem o Sr. Amida e tem Lanzudo. Mora lá também, na Iola. É isso, meu filho.
R- E minha vida é essa mesmo, entendeu, meu filho?
P/1- Eu ia falar, mestre, qual foi a primeira vez que o senhor pegou num berimbau? Como foi que o senhor aprendeu a tocar berimbau?
R- Meu filho, repara bem assim, lá em Mestre pastinha, quem tocava berimbau lá, entendeu? Era o Valdemiro, entendeu? Os mais velhos, nós ficávamos sentados atrás aqui, entendeu? Para responder o canto.
R- Tocar berimbau, eu toco pouco berimbau, eu toco pouco, entendeu? Eu toco pouco berimbau, deixa eu ver se dá certo tocar, né? Porque lá tinha o pessoal … da bateria, sabe?
R- Deixa eu ver se consigo bater. Olha o dobrão. Eu não sei tocar e cantar, não.
R- O cantar vem a assobiar .
P/1- Imagina se soubesse, né?
R- A pessoa que toca e canta.
R- Eu não toco e canto, não. Eu me atrapalho, entendeu?
R- Meu filho, repara bem assim.
R- Pastinha falava… que não há é um capoeirista 100%. Quando ele é um bom jogador, não é um bom ensinador.
R- Quando ele é bom no Gunga, ele é meio ruim no reco-reco, entendeu? Então não há completo, não é, meu filho?
P/1- Sim.
R- Não está completo, não.
R- Fazia assim por cento, agora o pessoal fala que no horário é assim por cento, não é? Entendeu? Espera aí, meu filho, deixa eu ver se eu consigo armar esse berimbau aqui.
P/1- Posso ir perguntando aqui
R- Como é que é?
P/1- Até hoje eu só aprendi jogo, mestre.
R- Como é que é, filho?
P/1- Os meus mestres só me ensinaram a jogar.
R- Você arma para mim aqui, filho?
P/1- É que eu não sei armar , mestre.
R- Sabe, não? Ih, caralho! Rapaz! Tô lascado! Ih, caralho! Esse brinco aqui ataca! Esse brinco aqui já tem uns 25 anos, sabe?
R- Tem o toque da cavalaria, você conhece?
P/1-Você pode mostrar a cavalaria?
R- Eu não sei tocar aquele toque de cavalaria. Eu só sei tocar a cavalaria antiga.
P/1-Nossa, então pode ser. Tem a moderna e a antiga.
P/1- É a antiga que a gente quer ver mesmo.
R- É a moderna.
R- Essa é a antiga, é a antiga.
R- Parece uma pata de cavalo, que era bem assim.
[ Som Berimbau]
R- Cavalaria antiga.
R- Eu fiz uma pergunta aqui em São Paulo, até para o pessoal do Mestre Pastinha, da segunda geração e da terceira e da quarta. Só o Pino me respondeu.
R- Mestre, eu conheço esse aqui. Quem ensinou, João Grande? Foi ele quem ensinou. Está bom, meu filho? É a vida, não é, meu filho?
R-E agora? Espera aí.
P/1- Deixa ele aí, daqui a pouco você pega de novo, não é?
R- Não, espera aí. Tem coisa aqui ainda?
P/1- É, deixa ele aí, porque daqui a pouco você vai falar dele.
R- Espera aí, ainda tem coisa aqui. Vou perguntar para você, o berimbau é dividido em quantas partes?
P/1- Conta pra gente, mas... Para aí, você... Conta aí!
R- O Berimbau é dividido em quantas partes?
P/1- Quatro.
R- O berimbau é dividido em 11 partes.
R- Vai contando, viu? Olha. Para aqui.
R- Quer ver? Uma, duas, né?
R- Três, né? Aí, a baqueta, como é que se chama.. O caxixi, o dobrão, aqui não pode contar, entendeu?
R- Só isso que fala, entendeu? Para só, né? Uma, duas, né? Três, né? Quatro, que é o arame. Cinco, a argola. Aqui é uma argola, né? Seis, a cabaça, a verga, o cabresto, o arame, o couro, as broxinhas, né… e aqui o birro.
R- São 11 partes do berimbau.
R- Tá bom, meu filho? São 11 partes do berimbau.
R- Agora, a capoeira é dividida em quantas partes?
R- Você sabe?
R- Eu divido ela em 11 partes, mas sem mais.
R- Então é o quê? A ginga, malícia, manha, maldade, falsidade, ataque, defesa, alegria e tristeza. Depois vem a mandinga, né? Depois vem a malandragem, não é? Não? Malandragem, porque os capoeiristas eram malandros.
R- Pastinha falou que os capoeiristas eram malandros da vaidade, não da vagabundagem. São onze partes, agora ainda falta o quê? Falta a saída do Pé-do-Berimbau, a chamada do Pé-do-Berimbau, a volta ao mundo e a chamada.
R- A chamada tem três sentidos.
R- Dois errados e um perdido.
R- Para quem vai e para quem chama, essa é a atenção, tá bom, meu filho?
R- A Capoeira Angola é malícia. Mãe é maldade, falsidade, ataque perfeito.
R- Tá bom, meu filho?
R- Isso aí.
P/1- Ô, mestre, você podia contar o que você já viu de malícia e mandinga dentro da capoeira?
R- Malícia... Se você dividir essas 11 partes, é complicado. Só por isso ele finge que não vê, finge que não está escutando tudo isso.
R- Você vai ao lugar com o cara, não apertar da mão, aperta a sua mão, na saída ali você vê a malícia, a maldade e a falsidade.
R- Pastinha falava… que tem o capoeirista, e tem o capoeira, né?
R- É um capoeirista, é capoeira.
R- Meu filho, o angoleiro que não for falso, ele não é angoleiro.
R- Sabe por quê? Porque eu sou falso para quem é falso comigo, pastinha falava bem assim.
R- O angoleiro tem que ser falso.
R- E por quê, mestre?
R- Porque eu sou falso para quem é falso comigo, o mestre pastinha falava.
R- Meu filho, eu fui chegar lá cedo, eu mais bola- sete lá.
R- O que aconteceu? Como eu falei pra vocês, uma coisa lixo, né? Eu vi uma conversa lá, do golpe da aranha. Eu comecei a varrer lá e pá, e tal.
R- Conversa de mestre lá, né? Deixei passar… ô mestre Pastinha … tem um velho lá em Santo Meditarito, lá, onde eu conheci o senhor de Navarra, lá. E perguntou se o senhor ia me ensinar o golpe da aranha. Ele falou, isso não é golpe de andar à toa, não.
R- Bem assim.
R- Mas acontece, meu filho, que o mestre Pastinha sabia que era mentira minha. A mãe sabe quando o filho está andando errado.
R- Sabe ou não sabe?
R- A mãe sabe. Ela pode cobrir. Igual o mestre. Você vai ser mestre um dia. Se um aluno tiver qualquer problema no emprego, em casa e tal.
R- Você percebe na chegada dele… na convivência ali.
R- Você conhece, entendeu?
R- Se eu não estiver mentindo, você sabe também.
R- Pastinha sabia que eu estava mentindo.
R- Mas, mestre, o velhinho está bem velhinho lá, andando de cacete assim, perguntou se o senhor já me ensinou o golpe da aranha.
R- Ele olhou para mim assim, certo. Se eu digo a ele que esse golpe da aranha é tão fácil, está na cara, fez assim na minha cara.
R- É isso aí.
R- O mestre sabe a convivência ali.
R- Meus alunos, mesmo … tem uns alunos meus… aí que a capoeira dele caiu.
R- Um pessoal lá … do coisa lá.
R- Sempre tomou aula comigo.
R- Meu filho, o mestre pode estar sentadinho ali, com o mestre sozinho, se ficar sentadinho lá, cego, né?
R- A energia do mestre, está ali. Mantenha ela.
P/1- A energia, né?
R- A energia.
P/1-O que você sentia de energia na capoeira? Como é que era isso?
R- Meu filho, quando o mestre está ali, você se sente melhor.
R- O mestre conversando com mestre, o mestre senta ali. Agora, tinha um aluno do mestre Pastinha que ia lá, entendeu, meu filho? Ia lá e nem falava com o mestre Pastinha, se achava bom. E outra coisa, o mestre era só mestre, Pastinha só.
R- Canjiquinha, mestre, Gato, mestre, Bom cabrito, mestre.
R- Pastinha falava meus meninos, entendeu?
R- Mas meus meninos, entendeu?
R- Na década de 70, não saiu a Achuap 70, em 70, jogou o Rivelino, jogou o Pelé, jogou o Garrincha, não foi? Entendeu? Então, nós fomos fazer uma apresentação lá no Farol da Bahia.
R- Lá no Farol da Barra, entendeu? Foi uma galera danada. Foi Caiçara, foi Canjiquinha, foi uma galera danada.
R- Pergunte a João Grande, pergunte a Waldimiro, pergunte a João Grande.
R- Aí esse menino já morreu também, como é que chama… O outro rapaz lá, que eu esqueci.
R- Contratou esse, como é que chama o... Canjiquinha e Caissara para dar uma cabeçada em João Grande. João Grande, com as mãos no chão, estava mais firme do que com os pés. Entendeu? O Caiçara foi... Ele deu uma reviravolta no corpo, deu em Caiçara. Depois Canjiquinha tomou também. A sua foi pior, a sua foi pior, pode crer.
P/1- Nossa!
R- Tudo mestre.
R- Mas... Outra coisa. João Pequeno era amoroso. João Pequeno passou de tomar uma cabeçalha de Caiçara, deixou passar 12 anos. Aí eu falei pra Caissara, com 10 minutos, ele deu a cabeçada de Caissara. Caissara, mas João, ainda bem não começou, você me deu essa cabeçada. Foi aqui mesmo que você me deu a cabeçada, tem 10 anos atrás, com 2 minutos.
R- Vermelho 27. Ele deu a cabeçada em João Pequeno, porque deixou passar 12 anos , deu a cabeçada, partiu o nariz e partiu a boca.
R- Quem me falou isso, eu soube disso na Bahia também, me falaram. Quando foi um dia, eu fui fazer um trabalho, lá no... o mestre chama... Ribeiro... acho que foi... não, ali... São José do Espinado. Foi eu... foi o mestre, o mestre Messias. Que era mais velho de São Paulo
R- Anania.
R- E foi esse que apareceu agora, Miguel Machado.
R- Miguel Machado disse, olha, mestre, João Pequeno falou que a capoeira angola não é luta, não, que é dança e é cultura.
R- Como ele deu uma cabeçada em Vermelho 27, quebrou o nariz e a boca. Eu digo, isso acontece, sabe o que ele falou? Eu sei quem é o senhor também, Mestre Bigo, Miguel Machado.
R- Eu era perigoso.
P/1- Você era perigoso, Mestre?
R- Pergunte aos caras lá.
R- Pergunte a Bola Serta.
R- Olha aí, João Grande me entregou, o Bola Sete me entregou.
R- O Curió me entregou aqui em São Paulo. Depois, o miserável Mestre Igor do Balbó me entregou também.
R- Eu era perigoso, disse o Mestre Pastinha do mais novo, ele era o mais perigoso.
R- Ele tinha uma chapa giratória. Sabe por que ele chama 45? Porque ele tinha uma chapa giratória. Não tinha aquela foto 45? Era o Boas no Inferno.
R- Você treinava dentro d'água. Eu era perigoso.
P/1- Treinava dentro d'água mesmo.
R- Dentro d'água, pra poder pegar a resistência. E assim, na areia solta.
R- É isso aí.
R- Pergunte a Curió, pergunte a João Grande.
R- Eu era perigoso.
R- Jogava pra caramba.
R- Meu filho, é para bem assim.
R- Tem um negócio assim, dentro da academia é uma coisa, na rua é outra, mas eu vi coisa pior dentro da academia lá. Nós mesmos um com o outro lá.
R- Meu filho, hoje em dia o pessoal canta uma música aí, o pessoal tá dando, como é que chama? Matangoleiro aí.
R- Fora de hora.
R- Sabe o que é o matangoleiro?
P/1- Não.
R- O Auxibata.
R- Ali o matangoleiro é assim, tá aquele jogo só embaixo, da Angola. Só embaixo, embaixo, embaixo, o cara de cantar: ´´ Ô, levanta esse jogo, pô, Nossa Senhora, que São Bento o Grande chegou agora. Levanta esse jogo, pô, Nossa Senhora, que São Bento o Grande... São Bento o Grande já vai embora. Levanta esse jogo, pô, Nossa Senhora, que São Bento o Grande chegou agora. Ô, levanta esse jogo, pô, Nossa Senhora, que São Bento o Grande já vai embora.
R- Se o cara não levantar o jogo, você dá um matangoleiro nele.
R- Mas ele pode dar uma cama de gato em você, entrar debaixo de você aqui e jogar você lá.
R- Uma casa sem resposta.
R- Mas o pessoal tá dando aí …. ai chibato à toa aí.
R- É quando canta a música, entendeu?
R- E na capoeira também tem muito sotaque também, entendeu, meu filho?
R- Eu não gosto de sotaque. Porque ela chega num lugar e o cara fica... cantando direto.
R- Vamos procurar, se unir.
R- Uma família unida, nunca será vencida
R- Para começar, filho,
R- Mas pode perguntar a camisa. A camisa roxa andava lá.
R- Tem uma foto lá? Depois você vai lá. Tá eu e a turma de Bimba.
R- Eu de Pastinha.
R- Tá esse que o mestre chama Bola Sete, como se chama o outro menino.
R- Eriseu.
R- Pegaram todos nós lá. Tem essa foto lá, o pessoal de Bimba.
R- O pessoal de Mestre Bimba ia lá, outra coisa…
R- Quando chegava a temporada, lá, o Ilê Aiyê, entendeu? O Olodum contratava o pessoal de Pastinha e Bimba.
R- O pessoal que trabalhava no Viva Bahia era de Bimba e Pastinha.
R- Pergunte a camisa, a camisa, o mais novo. O que eles fazem? Eles me convidam. Peixico vem sempre aqui. Me convida para ir. Minha esposa estava esperando o Fábio.
R- Com oito meses. Eu trabalhava no teatro Vila Velha, em Salvador.
R- Com o pessoal de Bimba e o pessoal de Pastinha.
R- Ganhei 150 mil daquele tempo, era um dinheirão, um mês.
R- Foi quando a camisa veio para o Rio de Janeiro.
R- Pergunte a ele.
R- Foi quando que uma casinha me lavaram de Bonfim, nesse meio tempo aí. Me lavaram de Bonfim.
R- Aí foi para lavar de Bonfim. Eu não fui, estava trabalhando aqui de oficial de pedreiro. A lavagem de Bonfim foi no meio de semana.
R- Como que chama… camisa, deu um cachete em alecrim. Alecrim de Caiçara, entendeu? Perguntei à camisa. Eu lembro. Pode crer, meu filho.
R- Chamava nós.
R- O que o Abadá faz, me chama. Não sei agora depois se a camisa saiu, não é? A camisa vem sempre aqui. Camisa não era... Oh, meu Deus! Não é camisa não, filho. É o peixe cru. O Abadá é de camisa, não é? O peixe cru saiu do Abadá. Vem sempre aqui. E o que eles fazem aí? Tem festival lá no Rio de Janeiro, me chama. Aqui em São Paulo me chama também.
P/1- Ô, mestre, o senhor chegou a conhecer o mestre Bimba?
R- Como é que é?
P/1- O mestre Bimba...
R- Eu conheci, mas nunca tive contato.
R- Eu passei ali dentro do Macial, na entrada do Baixo Meretriz, e ele estava lá.
R- Mas eu nunca tive contato.
R- Mas o pessoal dele tinha contato. Então, se você for lá, você diga, mestre, cadê aquele pessoal de mestre Bimba e o pessoal de mestre Pastinha?
R- Tá bom, meu filho? Vocês vão lá que tem muita coisa lá. Bagaça toda na academia lá. Tá bom, meu filho?
P/1- E como era a relação, mestre, entre os angoleiros e os capoeiras regionais nessa época?
R- Não, nós entendemos.
P/1- Se dava bem?
R- Se dava bem.
R- Nós de Pastinha com o pessoal de Bimba, se dava bem.
R- Agora os… não se davam bem.
R- Meu filho, é complicado, entendeu?
R- Repara assim.
R- O pai e a mãe preparam o filho, não é somente para eles, não. Para a rua também. Você tem um filho para preparar para você e para a rua também. Eu ia na festa do Bonfim, Boa Viagem, Ribeiro, o diabo a quatro.
R- O que dá para rir, dá para chorar, entendeu?
R- Está dentro do chão e sangue na roda. Pega e abriga nessa cobra. Eu peço agora, você mudou pra caramba.
R- É a vida, com o berimbau tocar, meu irmão. Não há problema nenhum, entendeu, rapaz? Agora, sair com um angoleiro é fácil. Um angoleiro. O regional, ele entra na roda, já vai alisando, quer bater, né? Ele fecha a mão e fecha a cara. Quando ele começa a gingar, aquela risada, e brincar, ele fecha a mão e fecha a cara.
R- Nós não. Nós começamos a gingar. Ela ginga aqui assim.
R- Aqui assim.
R- Aqui assim.
R- Aqui assim, para depois dar, não é mesmo? É isso aí. Eles fecham a mão e fecham a cara. A gente começa a dar aquele sorriso colgate, e palmolive, né?
R- É bem assim, meu filho.
P/1- Nossa, eu estou muito emocionado, mestre, de estar aqui.
R- É, mas a vida é essa mesmo, entendeu?
P/1- Ô, mestre, me fala uma coisa, eu queria saber, em alguma conversa sua com o Pastinha , ele já chegou a te contar como foi que ele estruturou a capoeira angola?
R- Quero o quê?
P/1- Porque como é que era a capoeira angola antes de aparecer o mestre Pastinha? Ele já te contou isso?
R- Não sei, filho.
R- Aí eu não sei.
R- Meu filho, eu tiro o chapéu do mestre Bimba.
R- Eu tiro, sim, entendeu? Eu tiro chapéu para ele.
R- Mas meu mestre Bimba também.
R- Porque começaram a chegar outras lutas no Brasil. E capoeira angola tá meio a coisa, entendeu? Aí Bimba criou o regional, entendeu? Só que na Angola os angoleiros não querem torneio de capoeira angola.
R- Na regional tem.
R- Quando tem torneio lá no Rio de Janeiro, o pessoal me chama e eu vou. Mas na Angola os angoleiros não querem isso aí, entendeu?
R- Não querem isso aí. Porque o angoleiro é malvado. O angoleiro é malvado. É complicado, o angoleiro é malvado.
P/1- E você já ouviu história dos negros escravizados?
R- Essa parte eu não sei contar não, meu filho, porque a minha leitura é muito pouca, entendeu? Sim. Isso é mais para quem leu.
P/1- Ah, mas eles não falavam disso?
R- Não, não sei não. Pode crer, né? É complicado.
R- Muitas vezes aí o cara começa a fazer as perguntas demais.
R- Mas pode perguntar
P/1- Não, não. Eu ia perguntar...
R- Não, espera, espera. Eu perguntei aqui. Quem é mais? É Deus ou a cachaça? Hein? É Deus, né? Mas Deus não dá vida, a cachaça tira. Quem é mais forte materialmente, fisicamente e etimologicamente, homem ou mulher? Quem é mais forte, homem ou mulher? Mulher. Hein?
P/1-Mulher.
R-A mulher é mulher mesmo. A mulher leva 100 cantadas no dia, saí fora de toda 100, não aguenta nem meia.
R- Passa uma loira… bibi e levai, não é não?
R- A mulher pensa no ambiente, pensa no namorado, pensa no homem. O homem vai, sou bonzão, vai, vai, vai.
R- Pode crer.
R- A mulher é mais forte mesmo. A mulher pensa no marido, pensa nos filhos, pensa no ambiente, não.
R- Nóis vai. É só buzinar. Sendo uma loira, mas não é gelada não, é natural.
P/1- Ô Mestre, como é que era a Bahia nos anos 50, nessa época em que você nasceu? Acho que devia ser diferente de hoje.
R- Meu filho era bem assim, não tinha tanta violência. Tinha uns bate carteira também.
R- Eu não sei se eu posso falar sobre o negócio.
P/1- Pode falar, pode falar.
P/1- Pode falar sobre o que você quiser.
R- Repara bem assim. Eu vim a falar na droga. Eu vim ver o que era a droga aqui em São Paulo.
R- Dizem que a gente ia para Salvador. Se o cara passava com um cigarro estranho e assoprava assim, o cara ficava todo besta. Os caras roubavam a carteira da gente.
R- Eu nunca fui roubado, não, graças a Deus.
R- Chegava aqui na fechadura aqui, na fechadura, os caras assopravam, mas ficava todo mundo bêbado dentro de casa, porque ele roubava. A droga era assim.
R- Um chegou em Santos. Ele era casado, pai de dois filhos. O menino disse assim, olha, Bahia, o bagulho é esse aqui, que ele gostou.
R- Lá em Cubatão. Você já pensou, rapaz? Que coisa, né, meu filho? Eu ouvia falar, mas não sabia o que era não. Dizia que era um cigarro estranho.
R- Pode começar, filho.
P/ 1- Ia falar, mestre, pra... Se você pudesse contar um pouco como eram as rodas de capoeira daquela época. Como eram as rodas de capoeira?
R- As rodas?
P/1- As rodas. A roda nos anos 50, 60, como é que era?
R- Meu filho, a roda era boa.
R- Tinha no Bonfim, Boa Viagem, Ribeira, entendeu? E tinha a Roda de Valdemar também, entendeu?
P/1- Como era a de Valdemar?
R- Era uma roda boa.
R- Roda boa mesmo. Agora, tinha uma roda ali no Retiro, que era a roda dos magarefes.
R- Sabe o que é magarefe?
R- Magarefe é o que mata o boi, esfola o boi, esquateja o boi.
R- Então, era ali no Retiro, entendeu? E os caras iam para ali jogar, todo melado de sangue, com short, com calção, de saco, entendeu? Com umas botas, entendeu? Todo melado de sangue. A roda dele era pesada. E eu ia ali também.
R- Ia na roda do Aldemar também, entendeu? Porque o cara tem que saber chegar e saber sair, entendeu? O cara chega no lugar que é batido todo mundo, não é bem assim. Agora, se cutucar, tem. Não é isso mesmo? É o mesmo negócio. Sempre respeitei todo mundo, entendeu? O mais velho, o mais novo. Agora, se cutucar, se fosse da minha idade também, o pau quebrava. Era nenhuma. Não havia negócio de agarramento.
R- Pastinha falava não me pegue.
R- E outra coisa, antigamente, para se encontrar um capoeirista, os mais velhos, ser um navalha no bolso era difícil.
R- Tem a tradição da navalha. Tem a tradição da navalha.
P/1- Você lembra alguma história de capoeirista com navalha?
R- Rapaz, digamos assim, que eu lembre não, né? Mas eu li o Ren Ren Ren, entendeu? Mas nunca vi ninguém puxar navalha, não.
P/1- Mas só ouviu, nunca viu?
R- Nunca vi não, só vi o pessoal falar, entendeu? Era complicado.
P/1- O senhor chegou a conhecer o mestre Traíra mesmo?
R- O mestre Traíra, eu conheci Traíra, mas virei poucas vezes, entendeu? Sabe o que você chama de Traíra? Não é aquele que era Traíra, não. Você dava uma olhada e saía assim, pelo chão, assim, né? Pelo chão, assim, fazer uma cabeçada lá.
R- Era bem assim.
R- Era bom mesmo.
P/1- Era pelo peixe.
R- Parecia um cabode. Não tem aquele que chama cabode? Que anda assim, aí ele ia assim. Isso não pode dar uma cabeçada lá.
P/1- O senhor já jogou com ele?
R- Não joguei com ele, não. Dos mestres mais velhos, que não era de pastinha, eu só joguei com Caiçara.
R- Rapaz, eu tinha que contar uma história, mas não pude contar essa história aí.
P/1- Conta aí, Mestre.
P/1- Pode contar.
R- Repara bem assim.
R- Teve um capoeirista. Eu estava dando aula lá, como é que chama? Rio Preto.
R- Cobrinha numa sala ou eu na outra.
R- E esse mestre estava lá. Eu dando aula lá e ele falando mal de mim.
R- E ele não conhecia a minha esposa.
R- Mas mulher de capoeira não é malandra também, não é? Para começar, meu filho, quem sabe quem é seu amigo, você não sabe quem é seu amigo e você não sabe quem é seu amigo. Se sua esposa sabe quem é seu amigo, quem não é.
R- Até você chegar em um ambiente assim, um cara que não vai ver você, ela percebe. Aí eu olhava uma hora lá e um cara falando mal de mim. Minha esposa percebeu. Aí foi na banca dele lá, começou a olhar as coisas lá e disse assim, olhando assim na banca, e pá, e tá, e tudo bom.
R- Aí ele disse, olha aí, só vi o mestre Pastinha lá uma vez.
R- Veio para São Paulo… nunca mais voltou para Bahia, né.
R- E só vi ele lá uma vez. Formou até o filho dele para contra-mestre. Depois, o meu contramestre foi o jogo de dentro. Meu filho nunca terminou comigo. O que acontece, né? Ele falando, falando, falando, o pessoal que conhecia a minha esposa, sabia que ela era minha esposa, caíram fora. P
R- Porque o Jorginho tinha até um trabalho lá em Ribeirão Preto, e outras pessoas que eu conhecia também. Caíram fora. Aí minha esposa falou assim, olha, eu conheci o mestre Pastinha. Ele disse, quem é a senhora? Ela disse, eu sou a esposa de 45. Não passou mal. Ele chamou o IML, entendeu? Complicativo
R- Rapaz, minha esposa não falou nada comigo. Depois de uma semana, minha esposa veio falar. Quando eu cheguei, segunda-feira, terça-feira, Bola Sete, eles ligaram e disseram que fulano de tal estava falando mal de você.
R- O que eu saiba é não.
R- Minha esposa disse que estava falando mesmo, mas não quis falar nada com você.
R- Essa pessoa, repara bem assim. Eu saí daqui, tem na Bahia de uns 15 anos atrás, para dar aula no Foz de São Antônio. Ele deu aula só de toque e canto. Eu dei de movimento.
R- No primeiro dia, eu peguei 62 liga, cada mulher que dava duas de mim assim.
R- O que eu falava, o pessoal anotava lá.
R- Quando eu terminei, 15 dias que eu fiquei lá, fiquei hospedado até na pousada do japonês.
R- Aí, quando terminou, no último dia, ele fez 45, o Curió está falando aí que é de mestre Pastinha.
R- Quando eu cheguei aqui, já encontrei você e ele.
R- Certo.
R- Uma ocasião.
R- Quando chegou um cara com o negócio de Kung Fu na Bahia, o cara disse que era lindo e bebe de caranguinhos.
R- Entendeu?
R- Abriu uma academia de Karate lá no Jardim Cruzeiro, mas ele foi lá em Mestre Bimba, foi lá em Canjiquinha, foi em Caiçara, foi em Mestre Pastinha, pedi permissão e para quando, na abertura do negócio do Karate lá, mostrar lá também.
R- O que acontece? Aí fui eu, João Pequeno, Elizeu, Bala Sete, uma galera, entendeu?
R- E esse rapaz estava lá também, esse mestre
R- Quando chegou lá, Caiçara fez, ó, ou eu ou ele aqui, ele foi com nós, né?
R- Caiçara tá fez, ou eu ou ele aqui.
R- Aí, esse João Pequeno, tão furão, vou ali tomar um Guaraná, ele saiu fora.
R- Aí, Já a Búsqueda queria dar um pau nesse cara, Surrão, Sergipe, que está aqui no sul. Fernandinho e de Mola.
R- Não, se metam não, que é briga de mestre.
R- Está bom.
R- Bem assim, chegou.
R- João Grande não era mestre, nem … era mestre. Ele botou aqui, é mestre fulano de tal...
R- Pergunte a Curió.
R- Antônio Diabo deu um cacete nele no carnaval, na Roda de rua.
R- Eu pensei que tinha subido pelé da bomba.
R- Não, foi Antônio Diabo, que deu um pau nele. Você é mestre? Você é mestre? Quebrou ele todo no pau.
R- Eu não posso falar quem é por causa disso aí.
R- Depois eu falo quem foi. O cidadão.
R- Aí não dá falta, não.
R- Pode perguntar mais alguma coisa, meu filho.
P/1- Eu ia perguntar, Mestre, como é que surgiu o berimbau, você sabe? O Mestre Pastinha falava?
R- Não sei, meu filho.
P/1- Não sabe?
R- Não sei.
P/1- E como foi que o senhor fez seu primeiro berimbau? Como é que o senhor ganhou seu primeiro berimbau?
R- Meu filho, repara bem assim.
R- Meu primeiro berimbau eu fiz lá em São Tomé de Paripe
R- Quem me ensinou a fazer berimbau? Foi Waldemiro.
R- O Caxixi foi... Como é que se chama… João Pequeno, que me ensinou a fazer.
R- E tocar eu aprendi com o Waldemiro também, porque eu sei poucos toques também.
R- Não sou esse que toca muito. Eu gostava mais de jogar e cantar, para falar a verdade.
R- Entendeu?
R- Eu tinha um trabalho em São Tomé de Paripe
R- Entendeu, meu filho? Porque repara bem assim assim. Meu pai era funcionário da marinha. A marinha pegava aqueles meninos, que eram capitães de areia. Sabe essa história, né?
P/1- Conta aí, eu não sei nada.
R- Prendia.
R- Então, levava para Paripe lá, naquela escola de menor.
R- Ficava estudando lá os meninos.
R- Uns queriam ser marinheiros.
R- Embarcava.
R- Não sei se era para o exterior ou para São Paulo, Rio de Janeiro.
R- Quando voltava para lá, era entre capitão de fragata, mariguerro e covete.
R- Ou se não queria aprender o ofício.
R- O ofício era a profissão.
R- Era pra ser, como se chama, era mecânico, né? Ser mecânico.
R- Cresceu outras coisas lá, e pá e tal, entendeu? E vai pra dentro da base naval.
R- E eu dava aula ali em Paripe, para as crianças, entendeu? Mestre Pastinha, liberou.
R- E quando eu ficava olhando os meninos, era um primo meu chamado... Aguinaldo.
R- Ele era Sargento da Marinha, base naval. E é assim, meu filho, foi a minha vida. E é isso.
R- Pode perguntar mais.
P/1- Mestre, qual era uma ladainha que você gostava muito de ouvir? Um canto que você gostava muito de ouvir quando você estava estudando?
R- Meu filho, vou te contar uma.
R- Toda a vida eu morava com um cara meio invocado.
R- Aí tinha um cara lá chamado Antônio Laranjada.
R- Ele era menor do que você.
R- Ele treinava capoeira e karatê.
R- Quando Moraes chegava lá, ele cantava aquela música de Caiçara e mandava uma indireta para a Moraes, mas a Moraes não tinha prestado atenção.
R- Eu entreguei ele para a Moraes.
R- Aí cantava bem assim, que era de Caiçara.
O Brasil disse que tem, o Japão disse que não
Uma espada poderosa para lutar com os alemães
O meu nome agora eu dei, colega velho, no sorteio militar
Se o Brasil entrar em guerra, colega velho, meu dever é ir lutar
Eu já fui à Centa Praça, no primeiro regimento, que de soldado eu fui a cabo, colega velho, de cabo fui a sargento, que a marinha é de guerra, que o exército é de campanha
O bombeiro apaga o fogo, o fuzileiro é quem apanha.
R- Quer dizer, vem dizer que era um estrangeiro, o fuzileiro, que morava lá era fuzileiro
R- Moraes não prestou atenção, entreguei ele para Moraes, Moraes deu um cacete nele
R- Pergunta a Moraes
R- Ele cantava, o fuzileiro é quem apanha
R- Ele sabia que Moraes era fuzileiro
R- Tudo isso
R- Sempre tem fofoca também.
P/1- É mesmo
P/1- O mestre ia te perguntar, a capoeira te ajudava no seu trabalho de pedreiro?
R- Ajuda.
R- Meu filho, a capoeira abre muito a mente da gente. As coisinhas que eu faço aí, esse caxixi, abre a mente da gente muito.
R- Abre a mente da gente muito, entendeu? Agora tem um negócio, correr atrás.
R- Correr atrás, filho, entendeu?
R- Você vai trabalhando, sua mente vai abrindo.
R- As minhas coisinhas que eu faço aí, faço birimbau pequenininho, faço aqueles caxixi ali, esses caxixi também, comprei esse material aí, e vai que vai.
P/1- Aquela bainha de facão foi você que fez?
R- como é que é?
P/1- A bainha do facão.
R- Não, foi eu não, certeza
R- Entendeu?
R- Agora, reco- reco eu faço também, entendeu?
P/1- Você faz reco-reco?
R- Faço reco- reco de Bambu, pode crer.
R- Tem um bambu por aqui..
P/1- E você entrava dentro da mata para pegar as coisas, mestre? Você podia contar como era? Você entrava dentro da mata para pegar as coisas para fazer o berimbau?
R- A biriba?
P/1- É.
R- Tem que conhecer a biriba.
R- Agora, só tem um negócio.
R- A biriba, a gente não pode cortar ela na força da lua.
R- Só no quarto-minguante, noite de escuro, sabe?
R- Entendeu? Se não ela bicha toda.
R- É o caso da cabaça. A cabaça, ela bicha toda. O cara colhe a cabaça, entendeu? Tira do coisa lá. Ela, como é que chama? Na força da lua. Ela bicha toda.
R- É igual a beriba, também.
R- Ela bicha toda também.
R- Você conhece a biriba? Não conhece? Ela é aqui.
R- Vem da Bahia também, essa aqui é a biriba.
R- Olha pra aqui, ó. Essa é a biriba.
R- Eu comprei cem biriba aí, mas o cara coloca sempre a mais ruim também, sabe? As outras eu aproveitei também. Mas eu aproveito isso aqui, entendeu?
R- É isso, meu filho
R- Meu berimbau que faz sou eu mesmo, entendeu, meu filho
R- Meus caxixi
R- Vou levando a minha vida
P/1- Seu mestre, qual que você acha que foi a coisa mais importante que o mestre te ensinou? Seu mestre.
R- Rapaz, é... muita coisa
R- Pastinha falava que quanto mais o capoeirista há carmo, melhor para o capoeirista, entendeu?
R- Você conversa com... Não estou me desfazendo da regional, da contemporânea.
R- Você conversa com um angoleiro, e depois se anota, você vê aquela humildade dele, entendeu
R- Aquela humildade, mas...
R- O Pastinha falou isso…naquele tempo, o capoeirista se pensava para muitas coisas. Admiro o último tempo que um capoeirista se presta para certas coisas
R- Andava com lenço no pescoço, Chapéu jogado de lado, entendeu?
R- E andava com aquele gingado.
R- Pastinha falava isso…
R- Eu admiro hoje um capoeirista se prestar para certas coisas
R- Ô, meu filho.
R- É.
R- Para chegar em Angola demora, meu filho.
R- Quando o cara toma uma pegada na roda.
R- E mexe. Viu, o mestre falou que até chegar em Angola demora. Até chegar em Angola demora, meu filho.
P/1- Mestre, além do mestre Pastinha, quais foram os mestres bastante importantes na sua história?
R- Meu filho, sabe o que acontece?
R- O pessoal da Angola, quando o mestre Pastinha fazia aniversário, eles vinham tudo lá. Totão de Maré, Amorzinho, entendeu?
R- Aquele … como é que chama, outros mestres lá, tudo ia lá, no mestre Pastinha.
R- Todos eles iam lá, mestre Pastinha, lá.
R- Só que eu não vi lá foi o mestre Bimba.
R- Mas no aniversário do mestre Pastinha, todos eles iam lá. Agora não era todo mundo que ia também, né? Mas a maior parte ia.
P/1-E qual foi a coisa mais impressionante que você já viu lá na academia do mestre Pastinha? O que foi mais impressionante para você lá?
R- Foi as pegadas de um dar no outro lado!
R- As pegadas! Pegada mesmo! Entendeu?
R- Uma pegada lá. Era complicado. Aí dizia... Oi, João, foi isso aí.
R- Mestre Pastinha tava cego ficava lá, bem assim, na janela.
R- Aí parava. Dizia... Oi, João, foi isso aí. Aí disse... Eles se acertaram lá. Faziam o que diziam. Eles se acertaram lá.
P/1- Ô mestre, como o senhor ganhou esse nome de mestre bigo?
R- Como é que é?
P/1- Esse nome bigo.
R- Ah, meu filho, é uma história muito longa.
P/1-Pode contar que agora é a hora.
R- Eu nasci no dia 24 de março de 1946.
R- Em Madeira nasceu Oito horas do dia eu nasci, oito horas da noite.
R- Minha mãe era madrinha, não tinha leite, não sei, para me dar.
R- A mãe do mestre Jaime, que me amamentou, que eu chorava muito, chorava muito, ela disse, né, Edi, tem que fazer uma calça para Bigo, para engolir o Bigo dele, para cobrir aquela suspensola aqui assim .
R- Então, ela era modista. Você sabe o que é modista?
R- Costureira, entendeu? Ela é que botou o meu apelido de bigo. Porque ela me chamava de Bigo, eu brigava mesmo aí.
R- Briguei, tortei até o dedo por causa do umbigo aqui, ó. É esse aqui, que era o umbigo grande, entendeu?
R- Ela é que botou o nome de Bigo.
R- E o que chama 45, é que eu tinha uma chapa giratória, o cara voava no inferno. O cara dava uma milão de costas para cá, uma armada, e eu dava a cruzada. Ele dava para levantar o cara, entendeu?
R- Então, eu tinha aquela cota 45, que eu usava, era somente os militares, os militares da marinha, exército aeronáutica, que andava com aquilo ali.
R- Aquela cota 45.
R- Aí buscou e botou o nome, Francisco 45.
R- É tanto que o pessoal da Capoeira não quer este nome Bigo , quer Francisco 45.
R- Foi uma chapa giratória que a gente tinha. Até hoje o pessoal em São Paulo tem medo dessa chapa minha
P/1- É mesmo?
R- Meu filho...
P/1- Lembra de alguma história de ela pegar alguém, essa chapa aí, 45?
R- Já peguei alguém também, pegaram também.
R- Meu filho, é tarde demais.
R- Eu fui num evento, uma ocasião.
R- Um evento não, um batizado.
R- Aí, uma pessoa chegou assim, um rapaz que é aluno do Mestre Grande
R- Ele chegou assim e disse assim, Me convidou. Vou apresentar uma pessoa que diz que é de Mestre Pastinha. Aí me chamou para eu batizar para ser um contramestre dele.
R- Repara bem assim, ele estava com os cordões aqui assim
R- Eu não sei se era namorada dele ou era esposa. Ela estava com aquela saia.
R- Aquela saia dessa, de Wanderléa, curta, né?
R- Que Wanderléia trouxe lá … sou a garota papo firme que Roberto falou, ando de Mini Saia
R- Ele pegou o livro da mão dela e chamou.
R- Mestre Bigo… vou apresentou uma pessoa que disse que era de Mestre Pastinha
R- O Mestre Grande olhou para ele assim… e não disse nada
R- Rapaz, se eu estivesse indo até Berimbau, eu e o rapaz, o negócio não pegou.
R- Não sei se foi coisa boa ou coisa ruim.
R- Eu dei uma cabeçada no rapaz, joguei em cima da menina, da esposa dele lá.
R- Ela caiu lá, no tempo da calcinha preta. Entendeu? É preto, é vermelho, é azul.
R- Aí o mestre está vendo você, brincando com o angoleiro, o angoleiro é mandingueiro, você viu aí?
R- Só eu ver que sua esposa está com a calcinha preta aí, está vendo aí? Ela caiu lá.
R- Rapaz, trabalho desgraçado, rapaz. Eu não sei como eu fiz aquilo. Joguei em cima dele, em cima dela, ela caiu lá com a calcinha preta assim, ela tava de mini saia.
R- Rapaz, é complicado, né
P/1- Ô, mestre, como foi que o senhor se formou o mestre? Como é que é? Na verdade, antes eu queria saber...
R- Sim.
R- Meu filho, sabe quem me chamou de mestre? Um primo de beca, que trabalha na Pedra Barra , começou a me chamar Mestre Bigo, Mestre Bigo, Mestre Bigo, e o pessoal foi se adaptando.
R- Encantou, pai, tai, tudo bom, vai que vai.
R- Cheguei aqui em São Paulo, começou a me chamar de mestre também.
R- Bem assim.
R- Mas eu não tenho mestre aí não, filho, pelo amor de Deus.
R- que eu tenho é quem faz o mestre. Mas vai e faz. Agora, esse aqui, eu também me peguei do mesmo aluno.
R- Eu tenho quatro contramestres aí.
P/1-Contramestre?
P/1- E você tem algum mestre?
R- Não.
R- Até agora, não.
R- O pessoal está querendo…
R- Ah, meu filho, sabe? Teve um rapaz aí que deu em cima de mim aí, rapaz, para eu formar ele.
P/1- É mesmo?
R- Deu em cima de mim, demais, demais, e eu comecei com o jogo de dentro, que aí eu digo assim, vou fazer um negócio, eu converso sobre o jogo de dentro, converso no trinco, converso topete e tal, tudo bom, né?
R- Não, mestre, você é mais velho, mais velho já tá dentro
R- nada disso…
R- Não é bem assim, não.
R- Aí, jogo de dentro, mestre, ele merece.
R- O Topete, por ele, merece também.
R- Alemãozinho, ele merece também.
R- Mestre ele tem que treinar com o senhor mais ou menos uns dois anos. Ele veio aqui e treinou comigo uma vez só, entendeu? Não dá pra...
R- Aí, vou fazer assim.
R- Eu vou formar você. Mas jogo de dentro, tem que assinar. Pino assina, Topete assina e a Alemãozinho assina também.
R- Mestre os caras falam de boca e depois assina
R- Digo, tá legal.
R- Aí ele fez o negócio lá pra eu ir.
R- Ele fez uma cirurgia na perna.
R- Tinha três dias que tinha feito a cirurgia … pra poder eu formar ele.
R- Ele tem que jogar, né, meu filho?
R- Aí eu não fui. Pronto.
R- Ele ficou até meio assim comigo.
R- Não é porque eu sou mais velho, não, que eu posso fazer o que eu quero, não.
R- Eu converso com o Pim de Jogo de Dentro, eu peço só bem assim, para ver como é que é
R- Não, não é pra fazer o que quero não, meu filho.
R- Você está pensando o quê? Eu tenho achado por aí, meu filho, para formar mestre
R- Dô oito mil, dô seis mil.
R- Não, não vou não, meu filho.
R- Nada disso. Vou não.
R- Mas não vou mesmo, entendeu?
R- Rapaz, meu filho, você conversa, conversa aí. Porque eu não sei onde está a revista. Onde está a revista, meu filho? Quando saiu essa revista aí, botaram Mestre Bigo, Piação 45, né?
R- Baixou aí João pequeno, voou de bobó e essa, como é que chama aí, onça branca, pra ver se era eu mesmo.
R- Esse é irmão desse, rapaz, não é não? Pô, não. Fazer o que eu quero, não.
R- Tenho a chave ta ai
R- Você sabe o que aconteceu, meu filho?
R- Eu saí daqui, fui lá pra São Miguel, como é que chama? para o Paraná, ou foi Curitiba.
R- São José dos Pinhais.
R- Quem tem um trabalho lá é o Mestre Kunta Kintê.
R- E aquele outro mestre lá é … Chirito
R- Aí foi na Samaninha, foi Miguel Machado e eu, dos mestres, mais velhos lá…
R- Teve uma formatura lá … que eu assinei sem saber que estava assinando
R- Depois o pessoal viu… que eu estava no meio também.
R- Mas ficaram todos calados, sabe por quê?
R- Porque a naninha não come ré de ninguém.
R- Samania não come ré de ninguém também, Miguel Machado.
R- Se fosse eu sozinho, eu estava lastrado, né não meu filho?
R- Esse é irmão desse.
R- O pessoal sabe que é Mestre Samania e sabe que é Miguel Machado.
P/1- Quem é o Mestre Samaninha e o Miguel Machado? Você podia contar um pouco deles?
R- Não, porque o Miguel Machado era do Cativeiro, meu filho, que faleceu aí
R- Tá lembrando? Não? Foi um grupo pesado mesmo, ali era madeira que dá em doido ali, rapaz…
R- Tanto que ele como pessoal dele.
P/1- Você conheceu ele como?
R- Eu conheci ele, repara bem assim.
R- Uma vez eu estava lá em pime, lá.
R- Aí ele chegou, mas eu ia saindo.
R- Depois, pensou o Mérido, e falou que o Mérido achava melhor que eu conhecesse o senhor e o pai e tal.
R- Ele olhando para mim, dando risada, mas ele queria se aproximar de mim, mas não deu tempo e foi embora.
R- Depois, começamos a nos conhecer nos eventos que ele ia, eu ia também para conhecer a coisa, e nós conversávamos.
R- E a senhora... meu filho, passei o grupo, o maior do mundo era o cativeiro
R- Diga você, o maior do mundo agora.
R- Não pode falar, meu Deus.
R- A violência, ali, olha, era demais
P/1- Ô, mestre, eu queria que você me contasse que esse é o mestre do meu mestre, o Ananias. Como é que o senhor conheceu o mestre Ananias?
R- Meu filho, eu cheguei aqui em 69, eu já encontrei o mestre Ananias ali, na república lá. R- Entendeu?
R- Ele com cabelo cortado, maracanã, um coturno de policial, entendeu?
R- E roupa normal.
R- Entendeu?
R- Cabelo cortado, já tinha ano lá.
R- Em 69.
R- E comandando já a roda ali já, entendeu?
R- Eu estava morno nesse tempo. Estava com uma resistência fora de sério.
R- O pessoal deram chuveiríssima em cima de mim.
R- Não me regue não, rapaz. Não se regue ali.
R- Olha só.
R- Você vai perguntar a Mestre Pinatti? Repara bem assim.
R- Aí, daí... Nós fomos no Mestre Pinatti.
R- O Mestre Pinatti treinava karate.
R- Ele dava um mangueirinho e o cara voava pros infernos, que é a benção
R- Eu vi o mestre Nath derrubar uns quatro lá.
R- Jogou com o João Pequeno, com o Diodato, ele não tocou.
R- Mas os caras novos, ele dava o cara lá.
R- Rapaz.. aí ele me chamou para jogar
R- O cara com medo mata o outro. O cara, com aquele barulho, deu a cabeça em mim. Eu puxei aqui, assim, e deu a cabeçada aqui.
R- João Pequeno, disse assim, você é doido, rapaz, não é?
R- Eu estava com o menino de dois anos de idade, casei, cheguei aqui e estava com cinquenta e tantos anos lá.
R- Quase sessenta anos.
R- Ele foi lá. Aí teve um torneio, acho que foi ele lá, ou ele, Mestre Pinatti, ou esse, como é que chama? Piloto, uma galera danada, chamando a gente, já tinha um torneio lá na Zona Sul.
R- Eu conheci o Mestre Pinatti.
R- Ele não me conheceu, porque eu estava novo. O senhor é o Mestre Pinatti, sou eu mesmo.
R- Eu disse que estive na Academia do Senhor, fiz quando? Eu disse 69, que veio aquele pessoal da Bahia e tal, né?
R- Ele disse, cadê aquele cara bom de rasteira?
R- Digo, já morreu. Depois pega, me acha, eu vou a Mestre Pinatti.
R- Aqui.
R- Tinha um cara lá, um cara fortão, dava uma benção lá.
R- Onde eu estive aqui, o cara voava no inferno.
R- Eu fui jogar com esse cara, ele deu a benção, eu puxei aqui assim, deu uma cotovelada, deu aqui assim
R- Ele falou assim, foi você que me deu aquela rasteira
R- Rapaz, ele me reconheceu… rapaz
R- Mesmo cara. Deu uma rasteira, cotovelada embaixo, duas cotoveladas.
R- Esse movimento aqui, chamam de escala né
R- Na Angola, chama galopante.
P/1- Teve alguma coisa que o senhor viu o mestre Bastien fazer que você nunca viu outro capoeirista fazer?
R Rapaz, o mestre Pastinha gingava na ponta dos pés.
R- Eu nunca vi ninguém fazer aquilo.
R- Entendeu? Enganação dos pés.
R- Tem uma coisa que ele está jogando ele, mas uma menina, não tem? A minha tá com uma bermudazinha, né? Essa é a Linha. Parece que ela é a irmã de Gildo Afinetti, né? Irmã de Gildo Afinetti. Se o Ganga Zumba crê em Gildo Afinetti, Chamava Ganga Zumba. Eu estive até lá em Ilhéus, com o Ganga Zumba. Foi quando eu conheci o mestre, Virgínio de Ilhéus.
R- Teve a feira, nós fomos lá, depois fomos para a feira. Depois da feira teve a roda, lá, entendeu.
R- Eu e o João Grande. Você conhece o Pimentel, do Rio de Janeiro? O Pimentel foi de Caiçara. Começou assim, depois veio para o Rio de Janeiro. Quem ajudou ele a pagar o diploma foi eu.
R- Quando ele recebeu o diploma, eu recebi também.
P/1- E como foi que você recebeu esse diploma?
R- Meu filho, depois que eu vim pra São Paulo, que eu voltei. Aí eu me formei. Em Capoeirista, Capoeirista , entendeu? Tava como trocado, aí eu fiz aí, entendeu?
R- Aí imprimi.
R- Aí, pô, eu falei com Mestre Pastinha lá, entendeu? que tava dando... não era de mestre, não, de capoeirista, né? Entendeu o quê? Estava lá há um tempo, já, e conversei com ele.
R- Aí eu paguei.
R- Entendeu, meu filho? Tinha um aluno meu que não queria pagar, não. Falei, rapaz. Paguei. R- Não dô de graça, não.
R- Tá bom, meu filho?
R- Teve um aluno meu que eu formei e não cobrei ele , meu primeiro aluno. Aí o outro teve o outro e ficou zangado. Problema dele. Isso mesmo.
P/1- Quem que foi seu primeiro aluno? Seu primeiro aluno, quem que foi? Seu primeiro aluno?
R- Foi o do Douglas. Mas o Douglas saiu, aí ficou o Jaro, o Jadule. Peguei tudo criança, meus alunos.
R- A não ser o Tubaína.
R- O Tubaína já peguei a coroa já e o Nélis, né? Mas eles largaram tudo para trás.
R- Largaram tudo pra trás, começou tudo de baixo. É igual o Claúdio. Você não conhece o Cláudio, não? Vocês devem conhecer o Claúdio.
R- Porque tem um trabalho... Porque tem um trabalho com ele lá no... coisa lá. Peraí. Peraí, não é? Peraí um pouquinho, dá pra ver?
P/1- Sim.
R- Meu Deus do céu! Meus netos que mexeu aqui? Para aparecer, como é que faz aqui?
P/1- Não, mas depois vai me contando do... Então?
R- Falei sobre o quê? Espera aí. Ih! Não! Ih, caralho!
R- Pra mim é assim o pessoal começou de baixo
R- Na Angola é assim, se o cara for regional, Mestre na Regional, se ele vir pra Angola, tem que começar tudo de baixo.
R- Aí tem que começar tudo, largar tudo pra trás, entendeu, meu filho? E começar de baixo, começar com o aluno.
R- Aí com o tempo, depois a gente forma ele.
P/1- Você faz alguma prova pra ir testando o seu aluno? Eu vejo uns mestres que falam que o mestre dá prova no aluno, faz teste no aluno. Você fazia alguns testes com seus alunos? Testava seus alunos?
R- Rapaz, sabe o que acontece? É bem assim. O teste... Nunca acaba o teste do aluno.
R- Mas nunca acaba. O que está acontecendo aí?
R- Um aluno meu, ele está jogando direitinho, mas o outro está escondendo o jogo.
R- Eu botei ele para dar aula lá, ele está escondendo o leite.
R- Não ensinando para o pessoal o certo, não.
R- Os caras que entrava novo lá, fazendo errado, e ele deixando.
R- Entendeu?
R- Quer dizer, só queria para ele, só.
R- O cara treinava com o jogo dentro o tempo todo.
R- Quando sai, do jogo dentro, deixa ele pensar que sabe.
R- Repara bem assim…
R- Se a onça ensinasse tudo para o gato, era como gato, não foi?
R- A onça quis punir o gato, e o gato deu um ponto para trás. Esse me ensinou. Se eu não tinha ensinado, ele teria me pegado.
R- Entendeu?
R- É complicado.
R- E outra coisa, todos nós temos falha no jogo, ou no ataque ou na defesa. Todos nós temos. Se você chegar em uma roda, não entra na roda logo não.
R- Roda de rua, né?
R- Olha ali, pá, etá, etá, etá.
R-Você é filho de família, né?
R- Tem seus irmãos ali, tá tudo criancinha ali, um pega a chupeta do outro, pega o xanque no outro, não dá nada.
R- Entendeu?
R- Briga ali e acabou.
R- Mas depois se cresce, um não pode pegar o sapato do outro.
R- É igual dentro da academia, os alunos também.
R- Vai crescendo o cangote entre os outros, um não pode um tocar no outro. É pra conversar, e ele falou assim... Ninguém pode tocar no aluno dele. Agora o dele pode toca.
R- É complicado.
R- Caldo vai engrossando,,, o cara vai se achando. Não pode tocar no outro.
R- Complicado.
P/1- E aí como é que você acalma quando o aluno fica assim? Como é que você amansa?
R- Rapaz, sabe o que acontece? Eu vou levando devagarzinho.
R- Conversando com ele. Rapaz, meu filho, olha.
R- Você pode perguntar na Zona Sul, entendeu? Só quem ia lá era o Abadá. Esse cara de São Paulo não ia lá, não.
R- Entendeu? Pode perguntar aos caras.
R- Agora que eu melhorei mais. Sabe o que aconteceu? Trabalhava eu e o Fábio, meu filho na comunidade lá.
R- Eu dava aula de Angola, Fabinho de Regional.
R- Mas, acontece, quem assinou lá fui eu, por cinco anos. Aí, quando eu estava quase com três anos, o Fabinho partiu para Angola, com um jogo de dentro. E eu fiquei cá. Aí, sabe o que eu fiz? Falei com o Kleber, o final do Kleber.
R- Aí, eu contratei 12 alunos dele. Foi o final do Tica que mataram.
R- E Edson, que agora é Regional. Eu dava aula de Angola. Depois, não.
R- Aí, quando terminou o contrato, eu digo tá aqui, ó
R- Fazia meu trabalho de angola, mas não aqui.
R- Em outro lugar.
R- Aí, abri uma academia lá na DIN. Aí, chegaram uns caras lá, professores lá.
R- E eu mandei meus alunos, entendeu? Respeitar os contra-mestre, mestre e professor da Regional.
R-Eles falaram assim, pra que eu treinar capoeira angola com o Mestre Bigo e Pastinha? Que nós chega lá e quebra os aluno dele no pau
R- Eu dio não tá legal.
R- E quem falou comigo isso também foi o Rafael, aquele aluno do Mestre Samania, né?
R- Os caras estavam falando isso. Eu preparei meus alunos três anos. Só ensinando, só. Viver na Bahia e pá e tá tudo bem. E não tinha roda. Roda com nós ali. Depois, eu abri.
R- Os caras foram para um batizado de manhã. Foi para outro batizado de tarde. Chegaram lá de noite.
R- Os caras tinham bebido, tinham fumado e tinham cheirado. Eu estava sabendo que eles vinham, né? Eu mandei a Adi passar vaselina no chão. Sabe o que é vaselina? E jogar aquele alpiste de passarinho no chão.
R- E mandei botar uma luz negra no bairro de abopá. Luz negra, né? É boa isso lá.
R- Pessoal chegou lá.
R- Meu filho, foi dente no chão e sangue na roda.
R- Ele levantava as pernas, picava a rasteira, picava o cara lá.
R- Nunca mais foi lá.
R- Entendeu? Tá indo agora.
R- Pode perguntar os caras. Só ia lá o abadá.
R- Pra entrar lá, assim, andar um quilômetro dentro da favela, dentro de coisa assim, ó. Dava até medo.
R- Entendeu?
R- Pode crer, meu filho. Eu cantei, eu cantei. Dentro do chão, de sangue na roda, pega a beriba e dá nessa cobra, meu irmão. O pau quebrou lá mesmo, meu filho.
R- Nenhuma. Pode crer, meu filho.
R- É. É, rapaz. Nenhuma.
P/1- Mestre o negócio do... Do fósforo, como você aprendeu?
R- O quê? O fósforo.
P/1- Você podia fazer o fósforo?
R- Eu não entendi, o que ele estava se falando. Você bota aqui assim, aí... Deixa eu ver aqui embaixo. Já está listinho.
R- Joga no cara aqui assim, né?
P/1- Como você aprendeu isso, né?
R - Mestre Pastinha.
R- Por causa da cachaça, tinha meus amigos também.
P/1- E você já usou isso alguma vez, Mestre?
R- Hein?
P/1- Você já usou isso alguma vez?
R- Você sabe quando? Lá no Pico do Jaraguá.
R- Entendeu? Eu ia pra jogo dentro, lá em Campinas, em 2005, né?
R- Aí a laje caiu lá, não deu pra eu ir.
R- Aí eu liguei pra... como é que chama esse menino de … amania? Pra ele passar direto, que eu ia no outro dia.
R- Aí a laje caiu, e terminaram tarde da noite …
R- Aí depois… peguei um trocado, tomei o banho.
R- Tinha que tomar alguma coisa ali, né? Tinha um salão de baile lá
R- Pico Jaraguá.
R- Naquela rua, João do Val, entendeu?
R- Aí tudo bem
R- Aí tô lá, um barzinho lá, e pá, tomei uma cervejinha, né? Depois eu saí fora.
R- Aí eu vi dois caras assim e duas meninas me olhando, né? Quando eu tomei ponto lá, vem ele lá.
R- Entendeu? E aí, coroa, como é que tá? Tudo bem? Passa pra cá, meu irmão. Passar o quê? Eu pá com o fósforo.
R- Piquei o fósforo
R- Eles correram pra lá, eu corri pra cá.
R- É isso mesmo, meu filho
R- É a vida, pode crê, não é mole não.
P/1- Mestre, como o senhor conheceu Cobrinha Verde?
R- Lá em Mestre Pastinha.
R- Eu saía com Mestre Pastinha lá, meu filho, entendeu?
R- Ali o Pelourinho, meu filho, ali é fumante, é milico, entendeu, ali era o centro mesmo, ali.
R- Era ali.
R- Ali é uma tradição muito grande, aquele Pelourinho ali.
R- Porque dali sai o Filho de Gandhi.
R- Saiu daquela ali também.
R- Eles treinavam lá no fundo, e Mestre Pastinha cá na frente, Filho de Gandhi
R- Filho de Gandhi é aqueles que andam com aquela roupa branca.
R- Pelourinho é tradição muito grande
R- Ali tinha umas coisas dos negros mesmo, onde tinha um pau, um negócio assim, que amarrava os negros para bater nos negros ali.
R- Ali é tradição.
P/1- O Pelourinho... Você já viveu algumas coisas ali no Pelourinho? Ou alguma história ali no Pelourinho sua?
R- Rapaz, eu ouvia falar que ali era onde amarrava os negros para bater nos negros.
R- Era assim, entendeu? Era assim.
R- Você vê, e o coisa, ele sai ali também, hein? Sai lá dentro, sai ali fora também, entendeu?
R- O garro ali, o capoeira ali também. O Pelourinho ali. Você vê esse aqui, era? Era o cartão postal de Salvador. Você achava naquelas barracas, nas faixinhas. Olha aqui. É isso, meu filho.
P/1-E como foi seu trabalho na Zona Sul aqui, Mestre?
R- Como é que é?
P/1- Como foi seu trabalho na Zona Sul de São Paulo?
R- Rapaz, eu quando eu cheguei aqui, através do Cleberson, entendeu?
R- Meu filho foi treinar com ele, aí eu estive lá pra conhecer ele.
R- Aí o Fabinho até somou com ele.
R- Saiu de professor, passou para Mestre..
R- Mas depois resolveu montar uma academia, de capoeira Angola.
R- Aí, o Kravis saiu desse lugar e o Fabinho estava lá. Mas, o Fabinho era de Menor.
R- Aí, o Fabinho ficou dando aula de Regional e eu de Angola.
R- Depois, o Fabinho partiu para Angola. Aí, eu me entreguei lá e abri outra academia. Minha academia é dentro da Bahia, em Ilê axê.
R- Fabinho vai explicar para vocês o que é Ilê axê, o significado. É casa e força, não é, filho? Dentro da Bahia, lá.
R- Veio de Catu. Em Santo tinha academia, mas não tinha nome. São Tomé de Paripe, não tinha nome, não. Voltei de Catu.
R- Tem muitos anos já. Pode crer, viu?
P/1- E você já viajou muito pra Capoeira?
R- Meu filho, eu viajei pra México, né? Lá fora, né? E pra Montevidéu, aqui no Uruguai, né?
R- Eu ia pra o... como é que chama lá? Pra... Os Estados Unidos? E o meu grande tava lá, com cobrinha. Meu nome tava sujo, meu filho sujou, eu não sabia. E meu filho até bastou, aí não deu pra viajar. Mas eu falei pra... O pessoal ali, eu e o pessoal, falou com a Cobrinha que eu ia trazer os documentos para não falhar, que não estava certo. Mas já limpou, graças a Deus.
R- E o grande me chamou a atenção. Eu até falei que eu tinha atrasado os documentos.
R- Outra coisa que... A pessoa que me ajudou para levar lá para fora foi a Mestre Cobrinha. E chama um trabalho aqui, lá fora. Mas deixa lá, quem é cabecinha? Para começar, asanto de casa, não faz milagre. Porque ele é de ouro, você é de barro. Quem faz é Jesus Cristo, não é? É isso aí.
P/1- Mestre, você teve alguma história com o Mestre Felipe de Santo Amaro?
R- Não, tenho não, meu filho. Nós sempre nos encontramos nos eventos. Teve esse evento na Bahia mesmo. Lá nós nos encontramos. Esse mestre também daqui, Mestre Sombra, também… conhece o mestre Sombra, do Rio de Janeiro? Não, daqui de Santo. Eu já estive na academia dele lá, entendeu? Muitos anos atrás.
R- Entendeu? E sempre nós nos encontramos. Por isso lá nós nos encontramos, mas não conheci ele não. Conheci ele através do... de começar o jogo de dentro. Ele apareceu, não foi?
R- Não, não foi.
P/1- O mestre Felipe está vivo ainda.
R- Como é que é?
P/1- O mestre Felipe está vivo ainda.
R- Está vivo. Tem outro mestre aí que faleceu. Ah, foi, não sei o quê, do Boi. João do Boi que faleceu. O mestre Felipe está vivo. Nós nos encontramos lá.
R- Encontrei com ele, o mestre, o mestre... O meu mestre me chama de Eleos, que morreu agora. Os caras mandam pra mim aqui porque eu não sei mexer, filho.
R- Os caras mandam pra mim.
P/1- Ô, mestre, e como foi essa história que você deu capoeira na prisão, né? Você dava capoeira na prisão. Você estava contando que trabalhou... Você já trabalhou dando aula de capoeira na prisão?
R- Não, eu dei aula aqui no … como é que chama? Olha lá, olha lá em cima. Lá em Campina. O Marcão que me contratava. Conhece Marcão, não? Aquele bem fortão? Ele que me contratava, olha lá.
R- Olha lá, ele lá.
R- Aquele mestre dele lá também. Olha lá, lá em cima.
R- Olha lá o presídio lá.
R- Dou aula na Unicamp, dou aula na Usp
R- Em uma ocasião, dei uma aula na Unicamp, os menino tudo estuda na Unicamp… jogo de dentro né
R- Dei uma aula de movimento, como é gente?
R- Ela vai direto ou como é que é? Vamos levar direto. Aí, pá, dále o caxixi.
R- Era mais ou menos duas horas da tarde. As meninas todas com vontade de comer... de comer uma água e dar um cheiro, né? E disse agora, esse aqui! Ah, merda! Todas elas vão fazer esse aqui. Ah, !
P/1- É isso, mestre, tem alguma coisa que você ainda gostaria de contar?
R- Como é que é?
P/1-Sobre o seu trabalho na capoeira, sua história na capoeira, tem alguma coisa que você gostaria de contar?
R- Meu filho, minha história é uma história longa, entendeu, meu filho?
R- Eu gosto da Angola, entendeu? Tenho meus amigos, agora diga a você, modéstia parte…
R- Santo de casa, não faz milagre.
R- Outra coisa, quem mais me ajuda, os angoleiros me ajuda. Mas quem mais me ajuda é o pessoal da Regional e do Contemporânea.
R- Eles me contratam mais.
P/1- É mesmo?
R- Com certeza. Eles me contratam mais.
R- Mas é isso mesmo. Angola é a mãe. Ela cuidou dos filhos, né? Agora o filho vai cuidar da mãe. Quer dizer, Angola o quê? Angola é a rainha. A Regional o quê? Regional é a princesa.
R- Contemporânea é princesinha. Todos eles me ajudam. O goleiro me ajuda, mas o regional me ajuda mais. E você pode perguntar aos angoleiros, mas quem mais contrata nós? São pessoal da Regional e da Contemporânea.
R- Aí vem assim. Quando nós vêm de Angola, o angoleiro pergunta assim , sabe o que ele pergunta? Se vai ter roda aberta, para eles irem para a roda aberta.
R- Primeiro dia.
R- Cheguei no Rio de Janeiro, fui fazer um trabalho lá, uma pessoal da fica lá.
R- Foi Mestre Bigo Digo, São Paulo, de Pastinha, pá e tudo bom.
R- Aí foi, os angoleiros do Rio de Janeiro lá. Sabe o que fizeram? Não, vai ter que pagar.
R- Entendeu? Foi. Vai ter que pagar. Vai ter que pagar. Aí, quando chegar lá, já fui já, tem que pagar já. Agora, depois, você vê a roda. Porque ele vai... Esperamos logo que vai ter roda aberta. A metade são mão-de-vaca.
R- Pode crer, meu filho. Se a gente faz um evento aí, vai mais regional do que antes, do que Angola.
R- Angola só quer beber e dormir só. Não são todos, não, sabe? Pode crer. É assim.
P/1- Ô, mestre, qual que você acha que foi a maior prova que você já passou? A maior prova de vida que você já passou?
R- É, rapaz, prova de vida, né, meu filho? Meu filho? Cheguei em um lugar... Você conhece Canhão? Mestre Canhão? Ele me convidou pra um trabalho dele.
R- Eu fui.
R- Foi eu, meu filho e outro rapaz lá.
R- Quando chegou lá, tinha um mestre lá de santo, cara da minha cor.
R- Meu filho… só tinha lá de preto, eu, esse rapaz e uma moça lá, tudo branco.
R- Todo mundo apertou a minha mão, ele apertou a minha mão assim, nem na minha cara olhou, veio da minha cor.
R- Aí, pá, tudo bem. Eu fui jogar com um colega dele. Veio me atestar, né? Jogava com um colega dele, ele veio na tesoura. Eu dei uma de costa. Se você dá uma aqui assim, o cara dá uma cabeçada. Quando ele vem e dá uma cabeçada, você tem que dar nele, o braço, assim. Pegou bem aqui nele, no colega dele, né? Depois, disse que o seu pai me fez.
R- Já me testaram aqui em São Paulo.
R- Dá uma pegada só.
R- Angola só dá uma pegada só, meu filho, entendeu?
R- Regional tem golpes de judô, jiu-jitsu, boxe, não sei o que lá, né? Angola é só uma pegada só. Só uma pegada só. Não dá e passa o dado na hora certa.
R- Faz sentido.
R- Meu filho, você toma uma pegada do regional, né? Então, pegadinha agora, aquela dor dói. Já tomei também. Dói. Já tomei também. Dê também.
P/1- Quem que foi o capoeirista mais malicioso que o senhor já conheceu?
R- Rapaz... Aquele menino, o mestre Bababá. Ele não dava uma U na roda. Carlos. Ele foi o mestre de bola sete Ele não dava um U na roda. Ficava aqui assim. Tá acontecendo aí que o pessoal da Angola, não é mesmo, né? Uma chamada.
R- E aí, pô, o cara não quer que o Berimbau, se benze, não dá mal dele nem nada, né? Não dá mal nem nada. Mas entrar de vez.
R- O cara se assusta, filho.
R- O cara chamou aqui, o cara entrar de vez, entendeu? Estou jogando com você aqui. Vem aqui. Espera aí. Você vai entrar de vez
R- O cara se assusta
R- Os caras da minha segunda geração falam que não, pá, não se benzer, não vem entrar de vez. Aí você se assusta, mete o pé. Vem cá.
P/1- Ô, mestre, você já fez algum canto de capoeira com o rito?
R- Eu já fiz um CD meu, fiz um CD com o mestre Primo, com o Jogo de Dentro, e o mestre Môa. Tem três CD meus na praça aí e fiz um com os índios.
R- Minhas músicas são minhas mesmo. Agora, se eu não... Tem a Ladainha, né? Tem a Lavação, no Corrido. Só Lavação que não é minha.
Ei, viva, meu Deus,
R- Mas o Coisa, Ladainha, no Corrido, as músicas são minhas mesmas. Os caras cantam só Paraná, Paraná Ê, todo tempo.
P/1- Você poderia falar um corrido seu?
Ei, São Jorge que está de ronda
E Oxalá que vai chegando
E salve o guerreiro da fé
E na umbanda e na demanda
Ele faz tudo o que quer
Quiser saber meu nome
Se quiser saber quem é O discípulo de Pastinha Menino de Santo Mestre
Se quiser, moça bonita
Vá na Ilha de Maré
Uma mão quebra o bolacha
Colega velho tomou café? Galo cantou, o galo cantou, calma que eu entro assim.
Tira a ki zanga, sacode a muamba
Rega o olhado com arruda e pitanga
Tiraqui zanga, sacode a muamba
A Capoeira de Angola tira a Kizanga, Sacode a muamba, Capoeira de Angola, tem a fama.
R- As músicas são todas minhas.
P/1- Como você fez essa?
R- É minha mesmo. Bota o meu CD aqui, que você vai ver.
P/1- O que inspira você a fazer um corrido assim? Como é que você criou? Tem alguma história de como nasceu?
R- Ela vai entrando, agora vai entrando aos poucos na gente. Era um ano e dois. Entramos aos poucos. Daí vai. Até chegar agora demora. Aqui,as músicas aqui, são músicas todas minhas mesmas aqui, meu filho. Não quer escutar um pouco esse CD, não?
P/1- Não, depois eu vou escutar.
R- Entendeu?
R- Você vê minhas músicas, como é que é.
R- Pode crer.
R- Eu gravei esse CD aqui, onde o Abadá grava, aqui em São Paulo. Não paguei um tustão, filho. Só paguei somente para imprimir.
R- Naquele tempo, eu ia pagar seis mil reais. Cinco a seis mil. O Abadá liberou para mim. R- Agora, para imprimir... Entendeu, meu filho?
R- Que eu juntei dinheiro, passou dois ou três anos. Mas só o pessoal do Abadá me ajudou.
R- Teve um rapaz que passou pra mim R$ 700.
R- Tudo bom.
R- Passando para um, passando para outro. Foi três anos que ele entrou na Abadá . Porque eu sou mais pobre, né, meu filho? Mas o pessoal me ajudava. Esse aqui. Ele só levou lá pra fora pra me seguir mesmo.
P/1- Mestre, você quer fechar com algum canto?
P/1- Você quer fechar com algum canto? Quer contar mais histórias?
R- Espera aí, deixa eu ver.
R- De repente.
R- Fechar com um canto, né?
E as coisas neste mundo
E que meu coração palpita
É um berimbau barrozeiro com capoeira bonita
E as coisas neste mundo
Não quero falar não
É uma mulher ciumenta
E um menino chorão
O menino e a mulher
Morreram num dia só, que do menino eu tive penida, a mulher tive alegria, que o menino bom é difícil.
Mulher bonita é todo dia, camarada.
Galo cantou, ê, galo cantou, camarada.
Corocó agora.
Depois vem assim, aí.
Angoleiro bom é difícil. Mulher bonita é todo dia. Amboleiro bom é difícil, Ele é difícil, é difícil...
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