Projeto: Vale Memória
Depoimento de Fábio Teixeira de Almeida
Entrevistado por Paula Ribeiro e José Carlos
Local: Rio de Janeiro - RJ
Data: 01 de agosto de 2001
Realização Museu da Pessoa
Código da entrevista: CVRD_HV087
Transcrito por Andrea Afonso
P/1 – Paula Ribeiro
P/2 – José Carlos
R – Fábio Teixeira
P/1 – Boa tarde, seu Fábio.
R – Boa tarde.
P/1 – Eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo que o senhor nos forneça o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.
R – O meu nome é Fábio Teixeira de Almeida, nasci em 5 de novembro de 1928, em Oliveira, Minas Gerais.
P/1 – Seus pais, o nome e a origem.
R – Os meus pais: Jaime Pinheiro de Almeida e Maria Madalena Teixeira de Almeida. Meu pai foi advogado, foi deputado estadual e, depois, prefeito, “ditador” de Oliveira [cidade] durante nove anos, porque foi no tempo da ditadura. E ele ficava muito feliz porque naquele tempo não tinha Câmara de Vereadores, nada para encher o saco. Ele fez uma bela administração, transformou a cidade toda. Ele foi muito feliz com isso. Aí depois da ditadura, ele teve que sair da prefeitura e nós tivemos que ir para Belo Horizonte, em 1946. Quer dizer, o meu pai ocupou a prefeitura de 1936, inclusive, até meados de 1946.
P/2 – Ele foi nomeado pelo Getúlio?
R – É. Ele era muito amigo do Benedito Valadares, porque era PSD (Partido Social Democrático). Oliveira é uma cidade muito pequena, uma cidade bonitinha, alto de morro, mas não tinha nada. Não tinha infraestrutura nenhuma, não tinha rede de esgoto, de água, calçamento. Ele fez tudo e, praticamente, sem renda nenhuma. Ele era um sujeito muito honesto, ganhava pouco, tão pouco que não dava para educar os nove filhos que ele tinha. Por isso, eu fui estudar em São João Del Rei às custas dos meus avós, dos meu tio depois e depois do meu irmão mais velho. O meu irmão mais velho custeou todo o meu curso secundário até o científico e, depois,...
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Depoimento de Fábio Teixeira de Almeida
Entrevistado por Paula Ribeiro e José Carlos
Local: Rio de Janeiro - RJ
Data: 01 de agosto de 2001
Realização Museu da Pessoa
Código da entrevista: CVRD_HV087
Transcrito por Andrea Afonso
P/1 – Paula Ribeiro
P/2 – José Carlos
R – Fábio Teixeira
P/1 – Boa tarde, seu Fábio.
R – Boa tarde.
P/1 – Eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo que o senhor nos forneça o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.
R – O meu nome é Fábio Teixeira de Almeida, nasci em 5 de novembro de 1928, em Oliveira, Minas Gerais.
P/1 – Seus pais, o nome e a origem.
R – Os meus pais: Jaime Pinheiro de Almeida e Maria Madalena Teixeira de Almeida. Meu pai foi advogado, foi deputado estadual e, depois, prefeito, “ditador” de Oliveira [cidade] durante nove anos, porque foi no tempo da ditadura. E ele ficava muito feliz porque naquele tempo não tinha Câmara de Vereadores, nada para encher o saco. Ele fez uma bela administração, transformou a cidade toda. Ele foi muito feliz com isso. Aí depois da ditadura, ele teve que sair da prefeitura e nós tivemos que ir para Belo Horizonte, em 1946. Quer dizer, o meu pai ocupou a prefeitura de 1936, inclusive, até meados de 1946.
P/2 – Ele foi nomeado pelo Getúlio?
R – É. Ele era muito amigo do Benedito Valadares, porque era PSD (Partido Social Democrático). Oliveira é uma cidade muito pequena, uma cidade bonitinha, alto de morro, mas não tinha nada. Não tinha infraestrutura nenhuma, não tinha rede de esgoto, de água, calçamento. Ele fez tudo e, praticamente, sem renda nenhuma. Ele era um sujeito muito honesto, ganhava pouco, tão pouco que não dava para educar os nove filhos que ele tinha. Por isso, eu fui estudar em São João Del Rei às custas dos meus avós, dos meu tio depois e depois do meu irmão mais velho. O meu irmão mais velho custeou todo o meu curso secundário até o científico e, depois, o meu outro irmão, que era da Aeronáutica e que morreu por causa disso, se encarregou da educação do meu irmão mais novo. Então, isso era muito bonito, nós éramos uma família muito unida. Eu acho que falar muita coisa do pessoal não tem muito sentido.
P/1 – Fala um pouquinho para a gente, por exemplo, o contato com os avós, a origem desses avós...
R – O meu avô era de uma família da tecelões, então ele começou a trabalhar para o Benjamim Guimarães que era um grande industrial da indústria de tecelagem em Minas Gerais, daquela época, e do qual se tornou sócio depois de duas fábricas, uma lá em Oliveira. Por causa disso, o meu avô foi morar em Oliveira, foi para lá na qualidade de advogado e casou-se com ela [avó]. Então, o outro era também sócio de uma fábrica de tecelagem lá em São João Del Rey. Ele morreu mais ou menos cedo, morreu com 68 anos. Ele era o único cara que eu me lembro que teve problema de coração na família. Os outros não tem, os outros morrem de câncer, certo? São danados para morrer de câncer, incluindo minha mãe. Minha mãe teve câncer no pulmão. O meu pai não teve esse tipo de problema, mas morreu já com 84 anos também com deficiência do coração. Mas era a coisa mais normal, né? Ele também só tinha uma irmã e a irmã morreu de câncer. (risos) Então, eu tenho uma tendência que a gente tem que tomar cuidado. Por isso, eu já tive problema de próstata, já tive que fazer uma operação, mas eu tenho uma filha que é médica, então ela fala: “Graças a Deus papai que a sua manifestação de câncer já passou! Você já extraiu aquilo!” Deus queira! (risos)
P/1 – E um pouco da cidade _______? Como foi a sua infância na cidade?
R - _______? Era uma cidade, como eu falei, pequena, mas que era de um nível social bastante elevado. Por exemplo, não havia mendicância [pobreza] lá, apesar de um tio meu [que] foi o primeiro cara que eu conheci que mexia com Sociedade São Vicente de Paula. Vamos dizer assim: o índice de pobreza da cidade era muito baixo e gente educada, muitos fazendeiros que mandavam os filhos serem educados na Europa, coisa desse tipo. Então era um nível bastante bom para cidade do interior. Eu te ia comparar o que era Oliveira naquele tempo,
evidentemente, com o que é hoje. É completamente diferente, né? Hoje a população é muito maior e é muito mais diversificada em termos sociais. Agora, Oliveira foi uma infância muito feliz porque apesar de meu pai ser muito rígido com relação a honestidade, ele não aumentava o salário dele na prefeitura de jeito nenhum. Não dava para educar os outros que tinham que ajudar, mas ele não aumentava nada. Mas vai lá em Oliveira, hoje que você vai ver uma guerra para disputar a prefeitura que todo mundo quer tirar um pouco... (risos) Então, era tudo diferente, mas não só em Oliveira, acho que isso é em todo o Brasil, né? Aí nós ficamos lá num período muito bom. Eu saí de Oliveira mais cedo para poder estudar fora e, por isso, me perguntar a respeito de muita gente lá de Oliveira hoje quase que não me lembro. Eu saí mais cedo, né? A minha irmã, por exemplo, que era muito chegada a mim, ela lembra de todo mundo e meu irmão mais velho acima de mim ele costuma gozar, porque quando a gente vai à Oliveira por um motivo qualquer, ele pergunta: “E o Fulano?” Já morreu. Parece aquele quadro do cômico, como é que ele chama? Daquele camarada de Juiz de Fora, que faz o papel de jeca.
P/2 – Zorra total?
R – “Morreu!” (risos)
P/1 – Mas como é que eram as brincadeiras, quer dizer, numa família tão grande quanto esta, do que é que se brincava? Como é que era a sua casa?
R – Lá tinha uma coisa que é completamente diferente de hoje, porque todo mundo depois do jantar, que era cedo, tipo, seis horas, por aí, saia para a rua para fazer o “footing”. Então, aquilo era um exercício obrigatório que todo mundo fazia, era normal. A gente ficava das seis horas até às oito horas rodando aquela praça, namorando. Hoje você vai lá na cidade, por causa de televisão, você não vê ninguém no meio da rua. E nesse período que eu vou falar, depois de Araxá, onde a gente teve uma atuação muito intensa lá, também era assim: depois do jantar, você não via ninguém na rua, porque estava todo mundo agarrado nas novelas.
P/2 – Mas essas paqueras do “footing” como eram, senhor Fábio?
R - Era engraçado porque tinha um sentido de rotação: os homens andavam no sentido horário, e as mulheres no sentido anti-horário; de maneira que a gente seguia cada volta duas vezes. Então, era bom para a gente ver as meninas.
P/2 – E se falava o quê?
R - De tudo. De brincadeira que a gente fazia, a gente jogava futebol, brincava de um clubezinho lá que ________ meu pai ajudou a fundar, modesto, tinha só um campo de terra lá, mas a gente jogava _______, futebol e tinha a turminha que jogava futebol no campo do clube local. Mas, então, foi uma infância muito boa, sobretudo porque a minha casa era uma casa de uma horta imensa. Então, eu vivia trepado nos pés de frutas lá. Mangueira tinha uma porção, laranjeira, tinha de tudo que era fruta que podia imaginar. Então, a gente foi muito assim, uma infância muito liberta, muito livre, solta, e agradável por que tudo era muito bom e a gente conhecia todo mundo. Então, foi isso.
P/2 – Essa primeira ida de estudos, o senhor foi para São João Del Rei, é isso, na primeira?
R – É, já no princípio do ginásio, na segunda série do ginásio, eu já fui para lá. E fiquei lá até nós mudarmos para Belo Horizonte, que se deu em 1946. Eu já estava, se não me engano, na quinta série. Os padres lá ficaram meio chateados comigo, porque eu era um aluno privilegiado, ajudava até na disciplina do colégio, que a gente chamava de regentes. Então, no último ano, justamente quando eu fui transformado em regente, com umas certas regalias que a gente não tinha, aí no ano seguinte eu saí do colégio e_______________. “Por que é que você está saindo agora que virou regente?” “Porque agora a minha família vai morar em Belo Horizonte e lá tem colégios.” Isso era uma coisa tão importante que daí a dois anos, o Colégio Santo Antônio fechou em São João Del Rei e se transferiu para Belo Horizonte. O Romeu, por exemplo, o Romeu Nascimento Teixeira, que você deve ter ouvido falar aí, fez o curso científico dele em Belo Horizonte. Já não tinha mais em São João Del Rei, não.
P/2 – Esse colégio em São João Del Rei era tradicional?
R – Era. O Colégio Santo Antônio de São João Del Rei era um bichão de colégio muito bom, muito bem instalado. Tinha seis campos de futebol, tinha piscina olímpica...
P/1 – Era um tipo de colégio religioso?
R – Era dos franciscanos holandeses. O que era muito engraçado, porque os franciscanos eram diferentes dos brasileiros. A gente fazia uma competição esportiva qualquer, o prêmio que eles davam era cigarro. (risos) Dava um torneio de ping-pong... Cigarro.
P/2 – Santo do pau oco!
R – Então, por isso eu comecei a fumar cedo, mas, felizmente, tem 26 anos que eu parei.
P/1 – E em termos de formação religiosa na sua casa, na sua família...
R – Nós somos todos católicos, não é? Na minha família tem duas irmãs religiosas. Uma, atualmente, está em Cuba, por sinal, ela se voluntariou para ir para Cuba, para reinstalar as práticas religiosas católicas lá em Cuba. Então, já tem quatro anos que ela está lá e está se sacrificando, porque ela é acima do nível, e normalmente esse tipo de sacrifício é só por três anos. Agora já tem quatro anos que ela está lá e parece que ainda vai ficar mais tempo. Mas a outra é completamente diferente, ela é __________, atualmente está em Taubaté, em São Paulo. Essa é bem contemplativa, aquela coisa quadrada, e a outra é toda de iniciativa...
P/2 – Missionária?
R – Já morou em favela antes de ir para Cuba, ela morava em favela aqui no Rio de Janeiro. Então, era uma vida diferente. Instalaram um bispado lá em Oliveira e ele vendeu a casa para o bispado. O bispado fez de lá uma espécie de uma casa de retiro, de atividades sociais, desse tipo de coisa e, dessa última vez que eu fui lá, fui lá acompanhar o enterro de um primo, passei na rua e a casa tinha sido demolida.
P/1– Ah!!! Que isso!
R – Foi assim de um dia para o outro, porque agora eles estão tombando essas casas de pessoas mais importantes lá, mais destacadas, então para não serem obstados de um dia para o outro a casa estava no chão.
P/1 – Para construir um prédio?
P/2 – O senhor tem contato com suas irmãs, o senhor tem contato com essa irmã de Cuba?
R – É, os meus irmãos já foram lá visitá-la, mas eu ainda não fui não. Eu conheço Cuba por causa do Cetec (Centro de Pesquisas Tecnológicas do Estado de Minas Gerais), apesar de não estar mencionado aí, onde eu fiquei. Aliás, eu acho...
P/1 - ...aqui no currículo.
R – Fiquei lá três anos ou mais ________ . E, nessa época, nós estávamos pretendendo fazer um projeto conjunto com os cubanos, porque os cubanos se desenvolveram muito na área de microeletrônica. E nós estávamos com um projeto aqui no Cetec que era nessa área. Então, nos mandaram lá para ver se dava jeito de fazer uma colaboração. Eles fizeram um laboratório magnífico lá que se chama, evidentemente, Che Guevara, que tem um busto, é um prédio de três andares só a cara do homem, mas muito bem montado, com toda a técnica, porque eles supostamente iam suprir todos os países socialistas. Nessa área de microeletrônica, eles se especializam. Por exemplo, a Hungria é eletricidade, eletrônica, essas coisas e, no caso de Cuba, a microeletrônica. Aí não deu certo e eles ficaram com aquele abacaxi na mão, porque não tinha mais para quem fornecer. Então, eles estavam procurando parceiros. Mas, infelizmente, até eu sair de lá, não aconteceu nada de importante nessa área. Mas, então, a minha irmã está lá, ela veio recentemente para cá passar umas férias, ficou conhecendo os meus netinhos, que eu tenho da minha filha que é médica. Eu tenho um casalzinho de gêmeos. Então, ela foi lá em casa, os meninos adoraram. Ela sempre foi assim, da música, porque antes dela ser freira, dela ser irmã de caridade, - ela é salesiana - ela tinha feito todo o curso de conservatório lá em Belo Horizonte, piano. Então, foi porque ____ que está lá, não é? E eu hoje fico brincando com ela e digo assim, chamo ela de Dida: “Ô Dida, você fez o curso de conservatório e hoje é cozinheira lá em Cuba. _____ troço, mal colocada.” “Pois é, mas é a vida, não é?” Então tem isso. Eu mesmo, quando era menino, eu pensei ser padre, porque a influência da família era muito grande, e meu pai não deixou. Eu falei isso com 12 anos. Aí ele falou assim: “Quando você tiver 18 anos e ainda quiser, então você vai”. E quando eu estava com 18 anos, eu não estava nem aí mais para ser padre. (risos)
P/2 - ____________________?
R – Está certo. Eu não teria sido um bom padre, em tão pouco tempo para largar essa ideia. Mas então, era muita religiosidade na família. Eu tenho um tio lá em Oliveira que teve 15 filhos, no décimo sexto parto da mulher dele, eu não me lembro, ela morreu. Então, ele casou de novo e teve mais três. (risos) E esse tio tem dois filhos padre, então é muito frequente. Eu tenho dois tios também desse meu avô. Então é muita religiosidade na família.
P/1 – E política?
R – Se o seu Eliezer ouvir isso ele vai ficar chateado com isso, porque ele não gosta muito de padre. (risos) Mas ele tem uma irmã que é freira.
P/1 – E política? Quer dizer, o pai fez uma carreira política, algum outro...
R – Ele foi deputado antes de ser prefeito de Oliveira e depois que deixou de ser prefeito ele veio para Belo Horizonte e trabalhou em Coletoria Estadual, essas coisas, até se aposentar. Morreu com 84 anos, mas viveu bem.
P/2 – Ele levava essa formação política para dentro de casa, vocês tinham educação política?
R – A gente discutia muito, porque todo jovem era contrário aquela tendência natural que existia na família, então ele era PSD e nós éramos do lado da UDN. E tínhamos discussões, mas ele respeitava, não tinha problema.
P/2 – E essa ida para Belo Horizonte? Como foi isso, como vocês se instalaram, como foi que você recebeu a cidade?
R – Foi meio traumático porque nós éramos muito bem quistos lá na cidade e, então, de repente, foi uma espécie de uma separação meio à força e a gente não gostou de jeito nenhum de sair de lá. Mas Belo Horizonte é uma cidade muito boa, sobretudo naquela época, e a gente até jogava bola no meio da rua, tinha tão pouco carro. Por isso hoje, se você pensar nisso... Não tem jeito. Mas também foi uma vida boa lá em Belo Horizonte.
P/1 – Vocês moraram em que bairro?
R – De funcionários. Meu pai, que era um péssimo negociante, deixou de comprar uma casa que tinha sido de Tancredo Neves lá na Savassi... (risada que atrapalhou a gravação) Essas são as coisas da vida. Nós ficamos até hoje morando... Já vendeu a casa depois que ele morreu, né? Então, cada um foi para um lado.
P/2 – Você foi estudar aonde em Belo Horizonte?
R – Em Belo Horizonte? Fui para o Colégio Marconi. Existia dois colégios bons em Belo Horizonte naquela época: o Estadual, que era bom, e o Marconi, que era um colégio com muito bons professores etc. Então, o Marconi tinha um problema muito sério porque rolava lá uma chincha dos diabos (risos) e o Colégio Marconi não tinha tanto nome. Então, eu me formei lá no curso secundário, no curso científico, e depois fui me preparar para entrar para a universidade. Aí, entrei para a universidade e comecei a trabalhar como topógrafo da prefeitura e, por causa disso, quase que eu larguei a escola de engenharia, porque eu estava achando muito ruim o curso, não via nada de engenharia, só tinha matemática, teorias etc. Daí, eu estava decepcionado, ganhando um dinheirinho. Foi uma namorada que me fez ganhar o curso, porque senão não tinha acabado não.
P/1 – Mas a engenharia foi uma profissão escolhida, o senhor desejava, era uma profissão que o senhor já almejava, foi uma exigência...
R – Eu tive sempre uma dúvida entre engenharia e medicina. Lá no Colégio Santo Antônio, quando eu era interno lá, na qualidade de regente, como a gente chamava, eu ajudava também na enfermaria, eu dava pelo menos umas trinta injeções por dia, por noite, nos colegas lá na enfermaria. Então, os padres achavam que eu devia ser médico. E eu tinha muita dificuldade com essas matérias que se tinha memória, não é? Então eu preferia matemática, no ramo das Ciências Exatas. Eu fui estudar engenharia por causa disso. Eu tenho uma filha que é médica. Vivo falando com ela: “Eu não acredito em medicina.” (risos)
P/2 – Mas na sua casa havia uma expectativa de você seguir uma carreira?
R – Não, não, não. Fora o meu irmão que foi militar, ele fez o curso no Campo dos Afonsos e morreu em seguida praticamente, eu fui o terceiro lá de casa que fez curso superior. O meu irmão mais velho foi trabalhar logo cedo, porque queria casar e depois ele que arcou com os meus estudos. Depois, ele teve uma compensação quando casei. Eu tinha uma casinha lá em Belo Horizonte e ele com a família de oito filhos morou lá na minha casa durante muito tempo, sem pagar e, depois, acabou comprando a casa, que ele era funcionário do Banco do Brasil. E o meu irmão mais velho, do Banco do Brasil, dos homens acima de mim, foi ser advogado também no Banco de Brasil, ele foi um dos que foram para o Chile, para Santiago, para instituir o Banco do Brasil lá. Depois ele voltou, foi para São Paulo, ficou lá na Cacex até se aposentar e mora lá até hoje. Dos homens, o meu irmão mais novo não estudou também não. Esse daí foi o único que não se meteu no colégio, tinha uma tendência que não era muito própria da família.
P/1 – E o curso de engenharia, como é que foi, em que ano o senhor entrou, a sua turma, colegas?
R – Eu entrei em 1951 e quase que larguei, me formei em 1956. Não tenho muita coisa que falar do curso de engenharia, era um curso como outro qualquer. Eu não via muita prática na escola, por isso que eu fiquei meio decepcionado, porque de engenharia era muito pouco, não é? Era mais matemática, havia mais cálculos etc. Então eu fiquei assim meio desiludido, daí eu ficava sempre pensando: “Puxa vida, eu devia ter estudado medicina.” Mas passou e eu comecei [a] trabalhar gostando, sempre gostei. O meu primeiro [emprego] foi na fábrica de materiais ferroviários, na qual eu ocupei três posições: chefe de montagem, responsável pela montagem, responsável pela preparação de peças e, depois, na área de materiais. E também foi um emprego assim meio decepcionante porque nós estávamos preparados para fazer uns 1200 vagões por ano e, em todo esse tempo que eu estive lá, nós fabricamos 400 vagões, porque não havia encomenda. Então eu saí de lá, fui trabalhar numa indústria pequena, da qual eu fui diretor de produção – Artefatos ________. Fiquei lá só um ano, porque me desentendi como os donos. Eu queria modernizar o negócio, com a minha experiência de Mafersa, e eles eram muito dependentes de dois candangos graduados que eles tinham lá e com os quais eles se instalaram. Eles tinham duas áreas: uma é a de implemento de construção e a outra de esquadrias metálicas. Então, eu trouxe um encarregado que tinha trabalhado comigo na Mafersa e comecei a mudar o negócio, eles não gostaram. Eu falei: “Então se vocês não estão gostando, eu não vou ficar aqui não, vou embora.” Eu já tinha dois filhos e estava nascendo o terceiro. Naquele tempo era bom, porque a gente largava o emprego com a cara, a coragem e a ______________________.
P/1 – E o nome da esposa? Casou quando?
R – Ela se chama Vera Maria Costa de Almeida. Casei em 1956, em janeiro ou fevereiro. Ficamos casados até 1988, durou 32 anos. E, depois, o negócio começou a ficar ruim porque eu estava ganhando pouco dinheiro. (risos) E como empregado da Vale... Tinha vários tipos de problemas, mas um dos quais foi exatamente porque dentro da Vale eu fui designado para ir para a área comercial, eu fui ser superintendente de vendas. E, por isso, eu tive que vir morar aqui no Rio, e ela não gostava daqui. Ela queria ficar perto do papai e da mamãe. Daí, para não desfazer a família, eu também tinha um filho que já estava problematizado por causa dessa situação, aí nós voltamos. Foi quando eu entrei para o Projeto Titânio.
P/1 – Como é que o senhor entrou, como é que foi a sua entrada na Vale, como é que surgiu essa sua entrada?
R – Como é que eu entrei na Vale foi um caso engraçado, porque quando eu me formei um colega meu... Primeiro, eu fui fazer um curso na Petrobras e, nesse período, um colega meu que era muito meu amigo entrou para o DNER, na construção das estradas que estavam construindo para Brasília. Aí ele me convidou para trabalhar lá, mas eu não quis porque eu já estava entrando para a Mafersa. Então, ele convidou o Romeu, o Romeu Nascimento Teixeira para ir para lá. Ele ficou lá um tempo, depois foi para a construção daquela estrada de Itabira, a BR 262, que chamou MG3 e, de lá, ele entrou para a Vale. Aí eu fiquei, eu saí da Hércules, então ele soube disso e me convidou para ir lá para a Vale, para conhecer, então. Eu cheguei lá na Vale e falei: “Aqui que é o famoso [Mina do] Cauê...” (risos) Eu não sabia nada.
P/2 - Direto para Itabira.
R – Fui correndo para Itabira, fiquei lá seis anos.
P/1 – Mas o quê que o senhor ouvia anteriormente sobre a Cia. Vale do Rio Doce?
R – Muito pouco, quase nada. Eu sabia que mexia com minério de ferro, não sabia nem direito como é que era isso, como que ocorria, nada. Lá em Itabira eu fui trabalhar em obras e nós fizemos uma instalação chamada Mecanizada 2, que ela foi feita com a capacidade de 2 mil toneladas por hora. Então, nós podíamos produzir dois e poucos milhões de toneladas por ano nessa instalação. Aliás, tinha uma instalação com o Cauê, a mecanizada velha que passou a ser conhecida e a outra de Conceição. A de Conceição já estava sendo desativada porque não tinha mecanização nenhuma, aí nós construímos essa mecanizada nova. O Ditzel, vocês já devem ter ouvido falar no Ditzel, era o meu chefe lá. O alemão era fogo para trabalhar. Aí eu fiquei com ele lá até que ele começou a se enamorar na construção de Tubarão. Então, ele quis assumir a construção de Tubarão, como aconteceu realmente, aí eu fiquei chefiando o grupo lá. Nós continuamos lá até depois de terminada essa mecanizada e aí eu fui para Belo Horizonte, ainda dentro do departamento de obras, para poder fazer o aproveitamento de umas instalações antigas que a Vale tinha, para começar a trabalhar a mina de Conceição. Então nós compramos umas instalações antigas que tinham trabalhado na construção de Três Marias e, com esta instalação de recuperação dos rejeitos de Conceição, nós fizemos uma instalação pequena lá em Conceição. Era muito engraçado isso, porque nesse tempo não havia mecanização nenhuma em Conceição. Então, eles faziam o seguinte: mineravam através de dinamite etc., pegavam o minério e levavam para uma praça onde o minério era marroado à mão. [Pausa] Ela depois, mais tarde, foi construída uma instalação completamente mecanizada na imagem do que foi feita do Cauê. Bom, aí vem a história: depois eu fiquei lá em Belo Horizonte, acabou esse projeto, começou a construção do Centro de Pesquisas Tecnológicas, do Laboratório, o famoso Quilômetro 14, do qual o Márcio foi chefe ________. E foi constituído um grupo lá que se chamava Centro de Pesquisas de Minério, que cuidava da pesquisa geológica, que fazia prospecção das minas da Vale naquela época e a pesquisa tecnológica, que era esse laboratório. Então, eu fiquei lá, chefiei o Centro de Pesquisas de Minério até o Fernando Reis entrar. E foi nosso em 74, não é?
P/2 – Foi o primeiro Centro de Minérios da Vale, de Pesquisas da Vale?
R - Foi, foi. Talvez do Brasil. Então era um negócio assim muito evoluído, ele tinha um nome internacional. Foi por causa disso que eu saí, que eu briguei com o Fernando Reis, porque ele tinha um senhor lá que cuidava da parte de divulgação da companhia etc. Então, um dia ele escreveu uma bobagem qualquer num jornalzinho da Vale que existia dizendo que o laboratório era um aquário, não sei o quê, que não fazia nada. Coincidiu que nessa época nós tínhamos recebido uma consulta direta de um governo da Europa pedindo que o nosso laboratório servisse de modelo porque eles pretendiam fazer um igual lá. Então, eu escrevi uma carta para esse Perico de Souza Cruz dizendo: “Apesar de o nosso valor não ser reconhecido internamente, lá fora ele está muito bem visto.” Ele ficou _______ da vida, ele achava que era o _______. Então, ele me chamou lá, me chamou para me esculhambar. (risos) O fato é que pouco depois eu fui tirado das funções do Centro de Pesquisas de Minérios e aí, nós estávamos trabalhando num projetinho pequeno que era a produção de magnetitas, ferro magnetita. Nós estávamos trabalhando com o _________. O _________ é um minério _______________ lá em Conceição, que não tinha muita aplicação, porque ele só serviria para pelotização e nós não tínhamos pelotização ainda. Então, aquilo era quase que um rejeito da mina, apesar de ter um teor de ferro muito alto. Então, com isso, nós procuramos fazer o aproveitamento desse minério em escala pequena, mas sempre ________ alguma coisa, não é? E então, foram feitas as Ferritas Magnéticas e me puseram lá como presidente dessa firma. Então, eu trabalhei lá até instalar o projeto, até o dia da inauguração eu ainda estava lá. Mas já, nessa época, eu estava já mais como convidado porque eu já tinha saído. Porque a Vale tinha uma associação com dois grupos: uma era uma construtora lá de Belo Horizonte, Mascarenhas Barbosa (Hoskes?) e um grupo italiano que fabricava ferritas e produtos que usavam ferritas. Então, eram três partes, e a Vale tinha de botar dinheiro lá como os outros punham. Eu ia lá para a diretoria pedir que eles alocassem alguma verba e eles nem davam confiança para mim. Eu falei: “Assim não vai, eu vou embora daqui.” E pedi demissão. Eu fiquei com o cabo da vassoura na mão, sem ter muito o que fazer durante um ano e pouco até que o Fernando Reis saiu e aí me convidaram para ser superintendente de vendas aqui no Rio, aliás, foi o Dickson quem me convidou, mais especificamente. Eu vim para cá, fiquei três anos e meio, quatro, depois eu tive esses problemas de ordem particular e eu voltei para Belo Horizonte, e foi quando eu assumi o projeto Titânio.
P/2 – Mas como é que funcionava esse seu trabalho aqui no Rio de Janeiro? Esse seu trabalho de superintendente?
R – Ele era encarregado de todas as vendas que a Vale fazia de minério de ferro. Tinha uma diretoria que era uma diretoria de vendas, da qual o Dickson foi o titular. Depois, nessa época, nós estávamos trabalhando no projeto de Carajás, então havia um trabalho muito grande de obtenção de recursos para isso, financiamento e tal. E o Dickson era muito atuante nessa área, então o Dickson quis se descompatibilizar daqui da diretoria que o prendia aqui porque tinham funções que eram burocráticas, reuniões de diretoria para decidir coisinhas que não tinham nada a ver com vendas. Ele pediu para sair desse cargo e, pouco depois, eu saí também por causa desse meu problema e... Não quer dizer que eu podia ter sido substituto dele não, porque eu acho que eu não servia para aquilo, não. Eu não gostava muito de vendas, eu era mais da área técnica, né? Eu sou engenheiro civil formado em engenharia de minas na “Universidade do Cauê”. (risos) Então, nós fizemos muita coisa junto lá. O Schettino, nessa época, trabalhou comigo na época da Mecanizada II. Depois, nós trabalhamos no projeto do Tubarão junto, no porto Novo, e a gente tinha muita afinidade, sabe? Primeiro, porque nós moramos junto lá na Conceição, na Vila dos Engenheiros, então nós cuidávamos dessa parte comercial toda. Nessa qualidade a gente tinha [que fazer o] quê? Viajar pelo mundo todo, sobretudo sob a chefia do Dickson. Mas havia dois grupos constituídos: um na América do Norte e outro na Europa. Tinha sido primeiro em (Sheldorf?), depois passou para Bélgica, para Bruxelas, e nessa época a que estou me referindo já era Bruxelas. Mas aquela engrenagem de venda de minério era muito sólida., então os nossos clientes sabiam da vantagem de comprar minério da Vale do Rio Doce, por causa da qualidade sobretudo química. Nessa época, aconteceu muita coisa interessante porque o Márcio Paixão, por exemplo, ele começou lá no laboratório a pensar [em] minério de ferro porque a Vale do Rio Doce não pensava [em] minério de ferro, por incrível que pareça. Ela era uma mineradora, era como se fosse uma pedreira grande. Então, eles não sabiam muita coisa a respeito de minério e o Márcio Paixão começou a matutar porque se falava, por exemplo, que o minério da Vale do Rio Doce não era bom no alto forno, porque ele crepitava. Quando foi dito essa primeira palavra, crepitação, na Vale do Rio Doce, foi um Deus nos acuda. Eles não acreditavam que isso fosse verdade. Eles achavam que aquilo era jogada comercial para aviltar o preço do nosso minério, mas, na realidade, existia um problema muito sério que o Márcio estudou bastante, profundamente, e botou na cabeça do nosso pessoal que aquilo era importante. Então, por isso que nós estávamos perdendo mercado, por exemplo, para a Austrália. A Austrália tinha um minério que era diferente do nosso porque ele não tinha esse problema de crepitação.
P/2 – O que é crepitação?
R – Exatamente a dureza dele, a formação geológica dele. Então, ele era um minério assim muito tenso, sabe? Na hora que botava ele no calor, ele explodia todo. E quando ele explodia dentro do forno, ele se transformava em partículas pequenas que prejudicava a passagem dos gases por dentro do forno. Vai daí que entupia, vamos dizer entre aspas, entupia o forno prejudicando a velocidade da redução. Então, por isso, o minério nosso não podia ser usado no forno grande, sobretudo nos grandes japoneses. Não podia ser usado puro, não. Tinha que misturar com outra coisa que não tivesse esse problema. Mas, ele sempre foi importante pelo alto teor de ... A nossa mentalidade era tão refratária a esse tipo de coisa que eu na qualidade de superintendente de vendas, cheguei para o Dickson uma vez e falei: “Dickson, está vendo como é importante! Olha como o minério de Carajás parece muito mais com o da Austrália!” Ele virou: “Fábio, você precisa ver que... - ele é descendente de alemão - você hoje é superintendente de vendas, você não é mais tecnólogo!” (risos) Era assim! Só o Eliezer era que tinha a cabeça aberta para isso, fora nós.
P/2 – A área comercial era muito mais poderosa que essa área de pesquisa?
R – Ah, era! O pessoal fazia o faturamento todo da Vale, sem dúvida. Agora, eu não gostei de trabalhar lá não porque... Exatamente por causa disso: não tinha tecnologia. Era um negócio meio assim: vender, vender, vender, sem se interessar pelos problemas de base, né? Hoje, isso tudo mudou, mas o nosso laboratório lá de Belo Horizonte, do Quilômetro 14, tem muita importância dentro da Vale sobretudo pelo motivo que foi lá criada a concentração de itabirito. Para cada tonelada de minério de alto teor, de hematita, a gente tinha que minerar seis toneladas de minério que tinha que ser posta de lado. Aquilo onerava o custo da mineração do produto principal e não tinha nada que fazer com aquilo. Então, foi aí que nós estudamos a concentração de itabirito, que deu mais uma patente da Vale, e que deu margem a um grande crescimento da Vale, porque, naquele tempo, nós minerávamos, nós produzíamos mais ou menos umas três milhões, um pouco mais do que isso de toneladas por ano. Depois da concentração, só da concentração... Ela era alimentada com... 36 milhões de toneladas de aumento da produção, graças a essa concentração. Então, o negócio mudou, né? Foi por isso que a estrada teve que ser duplicada. O porto de Tubarão já estava adiantado. Navios imensos para poder levar o minério lá para o Japão, essa coisa toda. Há umas coisas muito engraçadas: o frete da Vale do Rio Doce para o Japão era mais baixo do que o porto de Tubarão até Cubatão em São Paulo. A cabotagem, né? O frete de Tubarão até Cubatão em São Paulo, onde estava a Cosipa, era muito mais caro, quase o dobro do valor daqui até o Japão. Japão gastava 45 dias de viagem num sentido só...
P/2 – Por que isso?
R – Por causa da distância!
P/2 – E por que essa diferença de preço?
R – Cabotagem. A cabotagem é um preço absurdo, ainda é até hoje. E isso se refletia na comercialização do minério, né? Porque acabava que era mais barato levar minério de trem, por exemplo, da MBR, do que de Tubarão até alí que era mais próximo, só porque tinha que ir de navio. Então, o negócio era muito complicado, mas mesmo assim a gente sobreviveu a esse troço todo, as vantagens do ________. Uma porção de coisas.
P/2 – Fora da concentração dentro do laboratório, vocês fizeram outras pesquisas, outro tipo...?
R – Muitas, muitas. Nós fizemos... Vamos ver: manganês, ouro, alumínio, bauxita, caulim, logo depois, veio o cobre e, finalmente, que é a minha grande mágoa, titânio. Titânio era para ter sido um projeto magnífico dentro da Vale. Não foi. Não foi por quê? Porque nós estávamos demorando muito. O minério é tremendamente complexo. Tudo o que está escrito nesse papel - depois de escrever mando uma cópia... Mas o Brasil tinha 72% da reserva mundial de titânio do mundo. Para vocês terem uma ideia do que é isso, é muito mais do que o Brasil tem em minério de ferro. Só que o nosso minério se chama (aratarso?). (Aratarso?) é um minério complexo para burro, tem quase toda a cadeia periódica de elementos dentro dele. Você tem alumínio, tem cálcio, tem magnésio, tem terras raras, tem radioativos, tório, urânio, tem nióbio. Então, tem troço “para burro” lá e essas coisas em termos de titânio, de TiO2 (Dióxido de titânio) elas são inconvenientes, então, você tem que purificar esse troço, tirar tudo fora. E nós estávamos nesse processo de purificação... Mas acontece que nós estávamos trabalhando... Porque essa mina lá de Itabira, ela tinha sido minerada por causa do fosfato. O fosfato cobre o minério de titânio. Ao contrário, o titânio é que cobre o minério de fosfato. Então, para atingir o projeto de fosfato, você tinha que tirar antes o titânio. O minério nosso já estava minerado, tinha um custo a menos. Quem fazia isso era a Fosfertil. A Fosfertil foi instalada pela Vale do Rio Doce. Aí depois o Dr. Eliezer, num golpe muito sábio, se livrou do fosfato. Então, o fosfato no Brasil é muito ruim. Ele dava acho que são 12% ou 13% de P2O5 (Pentóxido de fósforo). Então, você vê o minério lá do Marrocos, por exemplo, ele tem um teor de 30% e tantos, quase pureza teórica de P2O5. E nós aqui partimos de 12% e chegávamos ali nos 32%, 33% etc. Mas nós fizemos um estudo da concentração desse fosfato, também em laboratório, - fizemos uma patente, fizemos tudo - mas, então, foi decidido [que] antes do titânio, instalaria o aproveitamento do fosfato, porque o Brasil era carente de fosfato. Nosso interesse era crescer mais a agricultura também, então nós precisávamos de fosfato. Aí daí que foi feita a instalação da Fosfertil e ela começou a produzir, mas para ela começar a produzir, ela tinha que tirar o titânio de cima. Mas eles começaram a minerar numa área da mina que era mais alto o teor de titânio e nós começamos a trabalhar esse material num piloto que foi feito lá que custou caro, custou 18 milhões e meio de dólares.
P/2 – Lá aonde? Onde é que era exatamente?
R – Lá em Itabira, perto de Araxá. Então, nós começamos a trabalhar na piloto e eu estou vendo que às vezes dava um concentrado de alto teor de 92% de TiO2, e outras vezes passava para 87%, 86%... “Puxa, o que é isso? É falha na operação.” Mas não era! Era a qualidade do minério. A qualidade do minério variava tremendamente porque era um minério muito complexo, né? E a gente só aproveitava cerca de 10% do minério, ou melhor do TiO2 que colocava na instalação. Além disso, tinha esses problemas: você tinha alumínio alto, tinha fósforo alto, tinha não sei o que alto, tinha até radioativos altos. Então foi daí que o nosso amigo, o Dr. Márcio Paixão, teve um lampejo e mudou completamente o processo. Mas, antes disso, eu que era o chefe lá do projeto fiquei muito preocupado com aquilo, então mandei fazer um estudo estatístico pegando todos os _____? De multi perfuração, de ______? E montamos um micro piloto dentro da piloto, de maneira que nós pudéssemos saber de antemão qual era o comportamento porque o negócio era absurdo, quer dizer, de uma reserva que, se não me engano, era de 180 milhões de toneladas e tanto de (PiO2?) você só aproveitava 20% e pouco. Então, puxa a vida, tá danado!
P/2 – Mas tinha o apoio da empresa para essa pesquisa, para esse...
R – Tínhamos até certo ponto. Aí foi feita essa modificação no projeto, nós obtivemos um produto de uma pureza absurda, alto para burro, livre desses deletérios todos. Até os radioativos passaram a muito mais baixos que os outros minérios que eram oferecidos ao mercado e estava faltando só consolidar o processo através de um estudo mais profundo do tipo de forno que ia ser usado, que tinha um processo de redução lá. Mas o que era mais importante desse troço todo é o seguinte: antes eram só 10% que a gente aproveitava, depois, mais de 80% de minério que estava lá dentro virava TiO2. Uma diferença absurda! Com uma vantagem muito grande, é que também a magnetita que chegava a ser 45%, que era posta de lado, ela entrava no processo como elemento que fazia parte da redução propriamente dito. Aí estava tudo esquematizado, bonitinho. Entrou uma nova diretoria da Vale do Rio Doce, que não vale a pena citar nomes, e decidiu que o negócio deles não era mais gastar dinheiro, era fazer dinheiro. Então mandou parar o projeto, aliás, mandou parar o projeto não. “Eu estou vendo que o negócio estava mal parado, que aquele negócio não tinha apoio mais. Então, se for parar assim, eu vou embora.”
P/2 – Qual era o nome do projeto?
R – Projeto Titânio.
P/2 – O senhor foi convidado quando? Ou por que o senhor foi convidado para assumir esse projeto?
R – O Projeto Titânio? Porque eu tive que voltar para Belo Horizonte e em voltando para Belo Horizonte, o Dioclécio Rodrigues, que era o chefe da área, ele me convidou para assumir a direção do projeto. Já estava sendo instalada a Piloto, né? Então, eu fui para lá e fiquei trabalhando lá de 82 e meio, 83 até eu sair da Vale, que foi em 1990. Então, nós estávamos já com tudo equacionado, aí esfriaram o projeto. Eu já tinha [direito] de aposentadoria. Eu estava na Vale por causa disso, porque eu queria ver o projeto frutificar. Mas como eu vi que não ia mais, eu falei assim: “Ah! Isso um dia vai acontecer, mas eu não vou estar aqui para ver. Então, vamos embora, não é?” E o projeto está até hoje parado. Vocês vão ver esses números daqui, vão ficar abismados de ver, um troço importantíssimo. Então, eu fiquei muito chateado com isso. Fiquei chateado e me aposentei. Bom, daí então, saí da Vale do Rio Doce, o Márcio foi convidado, também saiu. Eu saí em fevereiro de 1990 e o Márcio saiu junto, se não me engano, no mesmo mês do meu ano ou do ano seguinte, não sei. O fato é que ele foi convidado para ser presidente do Centro de Pesquisas Tecnológicas do Estado de Minas Gerais, Cetec, foi convidado pelo Otávio Anísio, que era engenheiro de minas, que estava ocupando a diretoria de ciências tecnológicas. Então, o Márcio me chamou para ser diretor, diretor lá da parte mais, assim, ativa da organização. Eu fui para lá com ele muito chateado, porque eu costumo falar umas coisas que vocês não gostam de ouvir, mas tinha PT demais na coisa. (risos) Eles [têm] uma mentalidade, os caras não queriam trabalhar de jeito nenhum, só queriam fazer política. E nesse tempo foi no tempo do governo Hélio Garcia [foi governador de Minas Gerais], mas não havia dinheiro, não havia dinheiro mesmo. E o pessoal ficava com salário baixo. Os salários foram defasando, defasando, defasando porque não eram corrigidos. Naquele tempo, era de inflação alta, então era um ambiente horroroso de trabalho. Foi daí que o Márcio pediu demissão e logo em seguida eu capinei.
P/2 – E quando?
R – Em 1980. Não, em 82 para 83, por aí. Aí eu trabalhei mais um bocadinho fazendo umas consultoriazinhas, depois parei porque tudo estava ruim, o mercado no campo de minério [estava] péssimo. Parei, fiquei parado. Hoje eu sou um atleta, apesar da barriga. Eu nado em Minas todos os dias, faço os meus 2500 metros lá, faço uma musculaçãozinha e tal. A barriga cresceu um pouco nos últimos dias por causa desse negócio do olho, eu tive que ficar parado. Então, é isso em resumo.
Vm – Vamos dar uma paradinha?
P/1 – Vamos fazer uma pauzinha?
Vm – Hum, hum, de cinco minutinhos.
R – Tem que falar mais? Eu falei tudo!
Vm – Não, agora que tem! (risos)
Vm - ...entrevista. Seu Fábio, eu gostaria que o senhor nos narrasse um pouco como foi o período que o senhor assumiu a presidência da (Titansa?) e qual era o trabalho que era desenvolvido basicamente na empresa?
R – A (Titansa?) é decorrência de uma Companhia Meridional de Mineração, que ela foi pesquisar a chaminé de Tapira, lá próximo de Araxá, na busca de minério de nióbio, porque, praticamente, toda a reserva de minério de nióbio do Brasil conhecida, então, estava na mão da CBMN, Companhia Brasileira de Mineração, não sei o quê. E eles queriam procurar minério que pudesse fazer frente a essa vantagem que essa companhia tinha. E um senhor, engenheiro de minas, chamado Pedro Maciel, trabalhava para a Meridional, nessa pesquisa geológica. E, de repente, a Meridional desistiu, desinteressou-se porque não havia lá em Itapira um minério que pudesse ser considerado como minério de nióbio, sabe? Tinha titânio, tinha fosfato, tinha outras coisas, mas não tinha uma concentração significativa de nióbio. Aí, então, que ela desistiu. Então, o Pedro Maciel ficou sendo titular dos direitos minerais dessa chaminé alcalina de Tapira.
P/1 – Uma chaminé alcalina. O que é uma chaminé alcalina?
R – A origem é vulcânica, sabe? Então, você tem na própria formação, numa fotografia aérea, você vê que tem uma forma arredondada, como se fosse uma chaminé que tivesse sido erodida. Porque o Brasil é um país muito velho, você sabe disso, geologicamente falando. Então, era uma das chaminés que existia. Se existia uma outra que era lá em Barreiro, encostada no Hotel de Araxá, onde está a CBMN operando a produção de nióbio. Você tinha essa de Tapira, tinha outra que era de Salitre, no município de Salitre, tinha outra que era em Goiás. Bom, está aqui tudo direitinho de informação a respeito de reserva, etc. E mais tarde, bastante tempo mais tarde, a Vale do Rio Doce, através da Docegeo, descobriu uma outra chaminé muito grande lá em Maicuru, no estado do Pará, muito grande. Que eu saiba, os estudos geológicos da potencialidade dessa chaminé nem chegaram a ser concluídos, mas ela é maior que as outras de Minas e de Goiás. A Metágua, em Goiás é Metágua, e CBMN, etc. Então, foi feita essa... O Pedro Maciel se aproximou da Vale do Rio Doce: “Poxa, eu não tenho condição de sozinho fazer o estudo desse minério.” Porque ele precisava, além da conclusão dos estudos de geologia, precisava de fazer toda tecnologia que não existia. Então, por isso, ele se aproximou da Vale do Rio Doce. A Vale do Rio Doce comprou os direitos dele, ele ficou sendo diretor e eles me puseram como presidente dessa (Titansa?), que foi constituída para isso. Então a Docegeo fez os estudos da geologia e o nosso laboratório ____________ começou a trabalhar tecnologicamente o minério que a gente trazia de lá. Daí surgiu o processo. O processo levou algum tempo, levou bastante tempo, foi feita essa piloto, etc.
P/1 – Mas essa ______ foi o embrião ________
R –Foi o embrião, e da Fosfertil também, não é? Porque só lá em Tapira e Salitre é que existia minério de fosfato, lá em Barreiro não tinha. Tem, sempre tem, mas é muito pouco. Então, depois, houve a mudança de orientação porque o Brasil estava precisando de fertilizantes, tal, tal, pau, pau. E ficou decidido, no tempo do Fernando Reis, que o projeto de fosfato tivesse prioridade. Então foi construída uma planta lá e tal, boa e grande. E com isso, o projeto Titânio ficou liberado do ônus de minerar, porque nós já estávamos minerados pela Fosfertil. A Fosfertil foi vendida para a Petrobras. O Doutor Eliezer conseguiu convencer, se eu não me engano, o Shigeaki Ueki [ministro de Minas e Energia durante o governo Geisel], que aquilo não era um negócio da Vale, que era mais da Petrobras. E passou o negócio para a Petrobras. Mas eles tiveram o compromisso de botar o minério minerado, quer dizer, o titânio, o anastasio, que era removido de sobre a camada do fosfato, eles tinham que estocar numa área predeterminada, tudo direitinho, estudada, identificada. Bom, depois que foi constituída a Fosfertil, o Fernando Reis decidiu que era melhor o Pedro Maciel... Então comprou os direitos do Pedro Maciel por um tanto, que eu não me lembro quanto que era, porque não me interessa, e o Pedro Maciel se afastou. Então ficou só a Vale do Rio Doce. Nós estudando titânio dentro da Vale e a Fosfertil com o fosfato, não é? Essa é que é a história da (Titansa?). Isso durou pouco tempo. Eu não me lembro exatamente a época, talvez isso esteja mencionado aí.
P/1 – 1970?
R – A época da instituição da (Titansa?) foi mais ou menos em 70, ela ficou até o tempo do Fernando Reis. Quer dizer, ficou os quatro anos, onde só se trabalhou em geologia e começou também a parte tecnológica. Então, havia muitos episódios interessantes aí. Ninguém acreditava que a gente pudesse fazer a flutuação do fosfato. Agora, nós fizemos o projeto lá no laboratório e chegamos a obter produtos de teores quase que teoricamente puros. Aí, depois, decidiu-se que o projeto, o processo do Paulo Habib, que era uma firma de consultoria técnica, era mais consolidado e, por isso, eles quiseram usá-lo e até hoje está sendo usado. De vez em quando, eu ia lá na (Titansa?). Nessa época que nós estávamos com as atividades lá do titânio, eu ia lá na Fosfertil, e falava lá com o superintendente deles: “Vocês estão fazendo um produto aqui de um teor mais ou menos, 32%, vocês podem fazer de quase 36%, que é praticamente quase pureza teórica, que serve até para fósforo alimentar, que tem um valor muito mais alto. Mas nunca chegou a ser feita a instalação. Podia ser feita até em paralelo, uma linha só para a produção, porque o fosfato alimentar é consumido numa escala muito menor do que como fertilizante. Mas nunca chegou a ser feito e nós começamos a trabalhar só com titânio lá na piloto. Mas a história da (Titansa?), depois que o Fernando Reis juntou, ela foi extinta, porque comprou os direitos do Pedro Maciel e ficou só a Vale do Rio Doce. A Vale do Rio Doce fez a Fosfertil, a planta de fosfato, depois foi vendida para a Petrobras e nós ficamos só com o titânio. Em resumo é isso.
P/1 – Mas o projeto titânio, depois, já na década de 80, é uma continuidade desse trabalho que vocês fizeram na década de 70, sob a gestão do Fernando Eiras?
R – É claro. Um parêntese: o nosso Centro de Pesquisa de Minério tinha dois setores: o tecnológico e o geológico. O geológico cuidava só de fazer a prospecção das minas de minério de ferro. E o nosso chefe do setor de pesquisas geológicas começou a achar que aquilo lá precisava de ser aumentada, aumentada a amplitude de atuação da Vale em termos geológicos, em todo o território nacional. E daí, então, nasceu a Docegeo. Essa pessoa se chamava José Eduardo Machado, eu não sei se já apareceu por aqui, mas foi o Machado que foi um dos pais da Docegeo. Então, foi feita a Docegeo e começou a trabalhar minérios de um modo geral em todo o território nacional. E a Docegeo foi convocada para fazer a prospecção da geologia da chaminé de Salitre e Tapira. Mas ela fez aquilo geologicamente, sem se preocupar com tecnicalidade, a parte tecnológica propriamente dita. Ela falava: “Faça os furos de tanto em tanto, tal, tal, tal...” E botava os testemunhos de sondagem para serem estudados em laboratório, para fazer o estudo microscópico e também o estudo que não foi completado, o estudo da parte de comportamento processual. Quando então nós começamos a trabalhar em torno do piloto, do ponto de vista do titânio, eu comecei a perceber que havia uma grande diferença de comportamento do minério. Mas daí fala: “Pô, o negócio aqui está de assustar.” Daqui a pouco, eu vou ter que chegar para o meu diretor, que era o Dioclécio e falar assim: “Para, para que nós não temos minério.” A quantidade de minério que respondia ao processo que estava instalado lá na piloto era muito pequena, então precisava de mudar aquele troço. Então, o Márcio Paixão teve, como eu falei, o “insight”, bolou um processo que não só corrigia, limpava todo minério, como fazia o aproveitamento em escala muito maior do que o __________ presente na chaminé.
P/2 – Você conhece alguma coisa desse processo, como é que é?
R – O processo... Vamos começar com o que estava na piloto. Na piloto, você tinha três, quatro etapas: primeiro, a deslamagem, todas as lamas eram jogadas fora. Nesse tempo, a Fosfertil tinha uma barragem de rejeitos lá, na qual nós jogávamos os nossos rejeitos também. Depois você fazia moagem, fazia a eliminação de magnetita, depois fazia a homogeneização de minério e, daí, você ia para a parte de uma redução. Essa redução consistia no seguinte: o minério quando era submetido a uma atmosfera redutora, quer dizer, para isso você botava elementos redutores que, no caso, era gás de carvão. Ele [gás de carvão] começava a ser reduzido e o ferro, evidentemente, começava a ser reduzido [também]. E na hora que ele começava a ser reduzido, ele crescia. Ele crescia e era expulso de dentro das partículas. E quando ele era expulso de dentro das partículas, ele passava a ter um tamanho granulométrico muito maior do que o minério de onde ele se originou, de tanto que ele crescia. E com isso, ia embora quase todo o ferro que estava lá dentro, que era muito, não é? Aí, depois, surgiu a ideia de aproveitar esse óxido de ferro que tinha sido expulso de dentro das partículas para outras finalidades que depois a gente pode falar. Mas, então, o minério ficava muito mais poroso. E depois vinha a última etapa do processo que era uma etapa química, que nós iríamos fazer aquilo com ácido sulfúrico, que era um negócio corrosivo muito violento. O seu ambiente dessa parte da planta era todo recendendo a ácido, como, aliás, é a planta da Fosfértil, porque a Fosfértil também faz um tratamento com ácido sulfúrico lá na produção de fosfato. Então, a ação da redução química, vamos chamar assim, era muito mais eficaz por causa dessa porosidade que as partículas passaram a ter depois de ter sido expulso o _________________. E, com isso, a gente chegava a ter resultados bons, produzimos porcentagem de 92% de ____________. Mas, às vezes, ele passava sem mais a gente esperar e passava para 86%, 85%... Puxa vida. O que significa isso? Que tinha muito mais contaminantes dentro dele que ________ depois de todo o processo, do que era de se esperar. E aquilo começou a preocupar. Então, nós determinamos ao Paulo Habib, que nesse tempo estava trabalhando conosco na parte de estudos e também nessa parte de geoestatística [que] fizéssemos um estudo amplo de geoestatística, na piloto da piloto, então nós começamos a verificar que o comportamento do minério era completamente errático. Às vezes, ele dava um troço alto e depois ele não dava mais. Eu falava: “Puxa vida! Então nós não temos mina!” Aí o Márcio começou a ficar de cabelo em pé. Aí, então, ele mudou o processo de redução. Aí ele começou a botar ferro, mais ferro. Depois de ter tirado o ferro, ele botava mais ferro e fazia uma redução mais violenta, saía dali então um produto de titânio muito mais puro. As particularidades desse processo aí não valem a pena falar porque eram muito técnicos, mas, em suma, foi isso: você faz uma redução e põe mais ferro dentro e aí resultava num produto de titânio muito mais puro. Ele chegava a ter uma pureza quase teórica, mais puro do que o rutilo, o rutilo é um minério de titânio mais puro que existe na natureza e que tem mais ou menos 95, 96% de teor TiO2 (Dióxido de titânio). Como o minério... Depois dessa redução, o titânio tinha outras valências que não só TiO2, ele tinha Ti2O3, Ti3O5, TiO, etc., um titânio, óxido de titânio. Então, quando você traduzia aquilo em termos de TiO2, você passava a Ter mais de 100%, passava a Ter 106% de TiO2. Mas não era TiO2. Nessa época, você estava se referindo a TiO2. E nós, eu e o Márcio Paixão, saímos com uma sacola grande de produtos _________ lá no laboratório pelo mundo a fora. Nós fomos à América do Norte, aos produtores de titânio ________ , que são os produtores de pigmentos. Fomos ao Japão e, lá, também tem uma grande produção de TI Metálico. E fomos à Austrália, fomos à África do Sul, fomos à Coreia, porque nós tínhamos um amigo que era da DuPont que trabalhava lá num projeto de produção de pigmentos, então nós fomos lá também, e deixando amostra em tudo quanto era lugar. Mas pelo fato da redução desse minério ser diferente, por você ter outros óxidos de titânio que não só TiO2. Então aquilo, vamos dizer assim, influenciava o minério do ponto de vista tecnológico porque o que é que você quer do projeto da produção de pigmentos? Pigmento consiste em você pegar um produto de TiO2 e tirar tudo que não é titânio de dentro dele. Você faz isso com a redução química de cloro, violenta para burro. Então, quanto menos deletérios você tiver para tirar, tanto mais fica rentável o projeto, porque você tem menos coisas para jogar fora. Cloreto de magnésio, cloreto de alumínio, cloreto de tudo. Esse troço é tão importante que a planta maior que a Dupont tem é lá na... Como é que chama aquele estado da América do Norte? Bom, tem uma planta muito grande lá que é toda moderna e eles, de maior tamanho, são obrigados pelos ecólogos lá a jogar todos esses rejeitos, todos esses cloretos formados em grande profundidade bombeando lá para baixo, a 10 mil pés de profundidade, três mil metros. E isso aí só é possível quando você tem condições geológicas favoráveis. Você tem que ter um envelopamento por cima de onde você descarrega o minério, porque senão ele vai para cima e contamina tudo. Cloreto é um troço violento. Então, só em determinadas condições geológicas muito especiais é que você pode fazer isso. Então, o nosso minério, que tinha muito menos deletérios poderia ser usado, porque não só consumiria menos cloro, ele é um elemento raro, como também eliminava grande parte desse problema de jogar fora os cloretos formados. Mas acontece que para isso eles teriam que adaptar os fornos redutores, os cloradores deles a uma condição um pouco diferente. Ou, então, nós teríamos que adaptar os nossos produtos reduzidos, transformando-os só, entendeu? E poderia ser feito, mas ainda não tinha sido estudado, a única coisa que estava faltando. E o forno de redução, nós trabalhávamos com um forninho pequeno para dar esse produto. Então, tinha que fazer o _________ daquilo, mas isso aí é um processo de conhecimento da tecnologia. Era só contratar uma firma especializada em coque – nós já estávamos em contato com duas ou três importantes – e determinar que eles dimensionassem esse forno para nós. Bom, agora, outra coisa que nós estávamos estudando era o processo de redução de sais fundidos. Nós começamos [a] estudar isso, alguém teve uma luz lá no laboratório, e começamos a estudar isso em ________, porque nós tínhamos contratado uma assessoria de professores franceses, lá da Escola de Química de Paris, e ele começou a trabalhar conosco e tal, e “Vamos fazer sal fundido.” “Vamos lá!” E começamos a trabalhar nisso, trabalhar nisso, tal, chegamos à conclusão que nós podíamos fazer ___________________, que é o hidróxido de titânio, com uma pureza e um custo muito baixo. Aí todo mundo começou a falar: “Pô, esses caras são doidos!” Mas aí nós descobrimos que a Rússia estava fazendo aquilo numa escala imensa. E a Rússia é “by far”, que dizer, de longe o maior produtor de titânio metálico do mundo. Porque eles não olham custos, eles querem produzir. Então a Rússia estava fazendo uma escala gigantesca esse tipo de redução que nós estávamos fazendo aqui em escala pequena. Então, eles abriram lá com aquele negócio da “perestroika” [reforma política que aconteceu na União Soviética], aquele troço todo, aquela abertura toda, e nos convidaram para ir lá. Eu e o Márcio não fomos, nós não pudemos ir não sei porque. Mas o fato é que mandamos dois engenheiros lá e eles viram aquilo e ficaram abismados: “Poxa! Exatamente o nós estávamos fazendo numa escala imensa!” Então, era só contratar a parte de engenharia disso com eles, estava pronto, não é? Daí você podia tirar o TiUH4, que é o estágio intermediário da produção de pigmento, sobretudo na rota de sulfato, porque aí tem que falar uma porção de coisas, a respeito do que é pigmento, como é que você produz pigmento, tal. Por exemplo, você tem na realidade duas rotas de produzir: uma rota cloro e uma rota sulfato. A Tibras, lá na Bahia, ela faz rota sulfato. Então, ela tem um problema muito sério, porque ela gera um efluente, que é o sulfato ferroso, que tem que jogar fora, joga no mar. Mas ela joga a uma certa distância e aquilo não é, vamos dizer assim, pernicioso para a natureza. A única coisa que faz é sujar a água. Mas como joga lá para longe, aquilo não tem muita importância, não. Mas, a outra rota é a rota cloro, que usa a DuPont, que usa outras firmas lá na América do Norte, etc. Mas a DuPont estava desesperada atrás de um produto que substituísse o rutilo, porque o rutilo estava acabando. Você para minerar rutilo lá na África do Sul e na Austrália, você tinha que minerar uma extensão enorme de praias, sabe? Tirar areia aquele material e, depois, reconstituir a praia a um custo alto para burro. E aquilo é um percentual mínimo que se retira de lá, então eles estavam doidos atrás de um substitutivo. Por isso, eles estavam muito interessados no nosso processo, nosso projeto, que ia fazer um concentrado aí da ordem de 90%, mas que, pô, já estava ótimo, pelo menos [em] quantidade tinha muito. Eu me lembro muito bem que uma vez eu fui com o doutor Eliezer lá - Eliezer então presidente, logo depois, tinha voltado a segunda vez - fomos visitantes lá em Tapira, e nós falávamos: “Ali está o titânio já minerado.” Ali tem 27 milhões de toneladas de titânio _________. Como é que pode ter essa quantidade de titânio numa área tão pequena, tão fácil de pegar e usar? Não existe isso em lugar nenhum do mundo, porque aí o ________ são tirados de areia, de praia. Para você minerar aquilo, você tem que fazer uma bagunça dos diabos, em termos ambientais e, depois, reconstituir tudo. Aquilo é caro. Caro e, hoje, difícil, porque os ecólogos não querem mais saber disso. Agora, minerar isso numa área como a nossa lá... A Fosfertil está minerando! Não tem problema porque é tudo circunscrito a uma área pequena. É a mesma coisa que o cauê. O cauê é circunscrito a uma área pequena. Lá, no caso do titânio, é uma área muito menor ainda. No caso de Carajás, está tudo circunscrito ali, ali você controla os rejeitos que houver e tal e pau, pau, pau e não tem problema nenhum. Então, eles ficaram abismados: “Ô, que coisa sensacional!” Mas é um minério complexo para _______, tem-se que tirar o diabo. Esse troço é tão importante que, se nós tivéssemos feito essa rota de cloração de sal fundido, você ia produzir os rejeitos todos sob a forma de cloreto. Então, você ia ter: cloreto de titânio... Ah! Digo: cloreto de sódio, cloreto de potássio, cloreto de terras raras, nióbio clorado, tudo, tudo, tudo. Depois, você podia aproveitar aquilo. E, no caso das terras raras, as terra raras estavam sob um forma hídrica, então ela tinha uma possibilidade de ser aproveitada, muito maior, muito mais simples. Só que nós não tínhamos uma mina de terras raras, nós tínhamos uma mina de titânio. Aquilo era um produto que podia ser aproveitado. E estava interessado nesse aproveitamento a (Ronipulan?) que é a maior produtora de _______ da Europa e a Mitsubishi, técnico do Japão. Estavam quase que brigando um com a outro para ver quem que poderia vir a ter o direito e fazer esse trabalho junto com a Vale do Rio Doce. Mas aconteceu também que, depois disso, foi descoberta uma “big” mina de terras _____ lá na China e então é mais barato trabalhar lá do que aqui. (risos) Mas aqui é subproduto, tem essa vantagem. Então, você clorava também os radioativos: tório e urânio. Se você chegasse a recuperar todo o urânio que estava lá dentro, o Brasil poderia passar a ser um dos grandes produtores de urânio do mundo. Só com esse subproduto tem duas coisas notáveis lá: Terras Raras que tem uma terra rala lá que chama (europion?), que nós temos dez vezes mais lá do que tem em outras minas de Terras Raras. E é um dos elementos mais caros que existem na cadeia dos Terras Raras. Ela é usada principalmente para dar cor vermelha na imagem da televisão. Então, o Dioclécio - o Dioclécio é muito gozador e muito inteligente também - dizia: “Pô, mas agora com esse negócio do comunismo que está acabando a cor vermelha, vai ser muito menos usada!” (risos) Então, tem aspectos muito interessantes dessa história, mas muito interessantes mesmo. Tem um troço lá chamado Escândio que é um negócio usado na Guerra nas Estrelas [“Star Wars”], metal super raro, super caro. Ele é mais caro que o ouro, porque ele é muito raro. Nossa concentração de Escândio é muito grande comparado com tudo o que é conhecido no mundo. Tudo isso podia ser para o... Mas não foi, né?
P/2 – Politicamente como é que foi esse processo, de quatro gestões e depois a superintendência, como é que isso era trabalhado, com as direções, com a presidência?
R – Nós começamos a trabalhar em pesquisa, praticamente, no tempo do doutor Eliezer, na primeira gestão dele e, depois, do Mascarenhas. Foi na gestão do Mascarenhas que aconteceu a instalação do itabirito no Cauê. Eu estava falando para vocês que o doutor Mascarenhas tinha um peito danado. Por quê? Ele decidiu fazer esse processo baseado nos estudos que nós fizemos. [Pausa] O seu Márcio deve ter explicado isso, que primeiro era concentração magnética a seco, depois passou a ser úmida, então, na hora que nós estávamos montando o concentrador úmido, lá na Piloto nossa de Cauê, a planta industrial já estava em grande fase adiantada de construção. Aí começou a dar problema lá. Falei: “Como é que vai ser agora? Estamos n’água.” Aí, então, foi que mais uma vez houve a intervenção do Márcio que mudou uma parte importante, o coração do concentrador, mudou o desenho dela. Até o Schettino, que nesse tempo estava mais na manutenção das minas, - ele era engenheiro de manutenção das minas - ajudou muito a fazer essas placas novas e a máquina passou a ter uma capacidade muito maior. Mas o fato é que a coragem que o Doutor Mascarenhas teve de ir atrás da gente, que trabalhou numa escala pequenininha. Eu vou te contar, é muito peito. E tudo deu certo depois. Eu e o Márcio discutimos muito com o pessoal das minas, porque eles introduziram umas modificações lá que eu acho que foram absolutamente imbecis. Em todo caso, o negócio funcionou de qualquer jeito, está tudo bom lá. Aquilo era à prova de burrice.
P/1 – Esse laboratório era composto, qual era a profissão? A maior parte de vocês era engenheiro?
R – Era quase sempre engenheiro de minas, químicos, geólogos, tinha muita parte de geologia lá, estudo de, investigação da formação, da conformação dos minerais que a gente mandava para eles, tudo isso. Então tinha muito geólogo e pesquisador lá, tinha... Era, mais ou menos, isso: engenheiro de minas, [de] engenheiro civil acho que era só eu. (risos) E o Márcio era químico. O Márcio passou a ser uma autoridade em tratamento de minério, mundialmente conhecido [e] respeitado. O Márcio, ele é meio travado, porque ele não fala nada de inglês. Então, quando a gente viajava por aí, o Márcio ficava na moita, não é, porque ele não falava nada, pô. Mas eu traduzia tudo para ele, e nós dois estávamos sempre juntos. E o pessoal começou a perceber: “Quem manja desse troço todo é o Márcio!” Ele falava comigo em inglês: “Pergunta a opinião dele?” (risos) Então, foi isso: Aí, na volta do Rio, eu fiquei por conta do Projeto Titânio. Eu vim de volta para o Rio na qualidade de coordenador de projetos, que era o Márcio. Era uma graduação menor que superintendência, mas depois, logo em seguida, foi transformada em superintendência, e o laboratório também passou a ser uma superintendência. Então, nós ficamos trabalhando juntos, durante todo esse tempo. Mas o fato é o seguinte: Como vocês vão ver nesses números aqui, eu tenho um trabalho muito mais completo do que esse que fala muito mais das tecnicalidades dessa coisa toda. Porque para leigo é muito chato ficar lendo, não é? Vocês já devem estar cheios desse papo aqui. (Mas, então, fala como funciona tudo, porque é que é assim, porque é que é assado, tal.?) E uma outra curiosidade desse processo é o seguinte: que a Petrobras estava procurando uma substância que ela pudesse usar na perfuração dos poços onde havia ocorrência de gás sulfídrico, porque existia uma substância lá, que era um óxido de ferro, que em contato com esse gás sulfídrico fazia FeS2, ou 2F, um sulfeto de ferro que não era pernicioso ao meio-ambiente ou à saúde. Porque, se você estava trabalhando na beira de um poço e tivesse um vazamento de gás sulfídrico e você respirasse aquilo em cinco minutos, você caia duro e morria. Então, era muito importante eles terem um produto que captasse o gás sulfídrico. E tinha um engenheiro lá, um senhor de idade já, que vinha por esse Brasil afora procurando alguma coisa que pudesse substituir esse produto que eles importavam lá da América do Norte e que custava 2 mil dólares a tonelada. Então, eles chegaram lá em Itabira e viram um óxido de ferro lá, e explicamos para eles que era um óxido poroso para burro, com uma superfície específica, alta. Então, ele falou: “Eu vou levar esse troço e vou fazer uns testes com ele!” Levou e deu certo. Então começaram a comprar aquilo. Agora, e preço? Aquilo era rejeito nosso. Então, o Dioclécio teve um raciocínio brilhante: “Vocês estão pagando 2 mil dólares por tonelada, o nosso custo é zero; então, zero mais 2 mil dá dois mil. Dividido por 2 dá mil.” (risos)
P/1 – Aí fixou o preço?
R – Fixou o preço. Mil dólares por tonelada. Nós começamos a vender para a Petrobras esse produto. É muito engraçada essa ________: o velhinho ia lá, discutia conosco, conversava como é que é, tem, tem, não tem, não sei o quê. E nós começamos a falar para dar mais valor ao produto, porque aquele minério era captador por causa da presença do titânio. Não tinha nada a ver. E tinha sempre um resquício de titânio deixado lá. (risos) Não tinha nada a ver. _________ você faz um redutor desse aqui partido em minério de ferro vagabundo, que não vale nada, com a superfície específica muito maior. Quer dizer, quanto maior a superfície específica, mais ele tem a captabilidade do gás sulfídrico. Eu achava muito engraçado isso.
P/1 – Mas voltando ao Projeto do Titânio, quer dizer, no fundo, quais foram as razões apresentadas pela empresa, pela Vale?
R – Não apresentou nada, simplesmente parou.
P/1 – A não continuidade da pesquisa e do incentivo?
R – Porque não queriam mais gastar dinheiro, pô! Nós chegamos num estágio que estava tudo praticamente equacionado, não é? Estava faltando gastar um pouco de dinheiro. Quer dizer, você tinha que dimensionar esse _______. Por exemplo, se você fosse para o sal fundido, você tinha que fazer o “upgrade” da pilotinho que nós fizemos lá, que custou 6 milhões de dólares, pô!
P/2 – Jogou fora?
R – Não foi, desculpem os ausentes, mas foi uma bela de uma estupidez ter parado aquilo, porque o potencial daquilo era muito grande. Então, você estava com tudo esquematizado, tudo pronto, só os detalhes para _______ e começar logo. Nós já estávamos num estágio tal que já tínhamos o local da planta lá em Araxá, perto da ferrovia. Uma ferrovia que ligava a Fepasa e ligava a Vale do Rio Doce à Vitória. E a BR, não é, a BR passava ali do lado, a BR 262. Então, você estava com tudo, com a faca e o queijo na mão. Nós já estávamos com o local pronto, escolhido. Tínhamos comprado uma área grande lá, tínhamos estudado um cabo aéreo que vinha de (Itapira?). (Itapira?) é distante cerca de 40 quilômetros desse local. Por que não fazer em (Itapira?)? Por causa desse problema de transporte. Então, você faz o transporte muito mais barato com cabo aéreo e, já de um pré-concentrado, não há condição topográfica tal que seja mais __________ para você trazer insumos. Por exemplo, trazer os ácidos que nós teríamos que trazer, trazer os sais, etc. E tudo, tudo, tudo estava já esquematizado. Aí, de repente: “Não vamos gastar mais dinheiro. Agora nós temos que fabricar dinheiro.” Desculpe os ausentes mais uma vez, mas isto para mim foi uma grande besteira. Porque hoje esse projeto poderia estar funcionando, nós poderíamos estar dominando esse mercado e uma coisa importante é que esse, que eu estava falando para vocês, que é que você tem dois jeitos de produzir pigmento... O principal produto do titânio é o pigmento. Pigmento você vê em todo lugar. Aqui não tem porque é só madeira, mas se você tiver pintura, de qualquer jeito, você tem pigmento de titânio no meio. Maquiagem de mulher, remédio, tem uma porção de coisas que... Sem falar em titânio metálico, não é? Titânio metálico, cuja escala de aplicação é muito pequena hoje, por causa do custo do produto. O processo é complicado, você tem que fazer redução no vácuo, com uma bomba toda especial, que nós tínhamos no laboratório, uma bomba piloto lá, de porte bastante grande. Então, estava tudo, tudo, tudo pronto. Mas, eles começaram a falar que nós estávamos errados. Por quê? Porque nós queríamos produzir metal pelo processo (Kroll?), que é o processo obsoleto. Isso por quê? Porque o CTA estava muito preocupado com o titânio, porque o CTA queria crescer na produção de aeronaves. O pessoal como está agora está competindo aí no mercado internacional, na produção de jatos, etc. Então, para isso, eles precisavam de titânio metálico. Então, a ideia deles era ter a tecnologia para produzir metal titânio eles mesmos, mas usaram uma tecnologia que hoje é obsoleta. E nós, então, compramos lá, para levar lá para o laboratório essa pilotinho que eles tinham lá, para a gente não estudar o processo (Kroll?), que nós sabíamos que estava obsoleto, mas para mentalizar o nosso pessoal com a tecnologia, a metalurgia do titânio, que era um troço completamente diferente. O Brasil não tinha. Então precisava começar a formar a cabeça do pessoal para trabalhar esse tipo de coisa. E vai daí que eles começaram a falar: “Não, vocês estão ferrados: “(Kroll?)? Que bobagem! (Kroll?) não existe mais! Mas não era isso que nós iríamos fazer, nós estávamos lá com o sal fundido, com o sal fundido nós podíamos fazer o (TiOKOH4?), que é o hidróxio de titânio, que ele é obtido a partir do tetra-cloreto de titânio (TiCl4). Na hora que você reduz tudo, você tem o produto que é o TiCl4. Esse TiCl4 você transforma, você tira o cloro e bota o oxigênio. Daí depois, você tira o oxigênio e a água – HO4, não é? – e fica com o teu Ti puro, TiO2, quer dizer, você tira a água. Ou então, você parte daí também para um processo de redução e vai para o Ti puro metálico, você tira tudo, a água e o... E isso não foi feito. Não foi feito, mas já estava tudo, tudo, tudo pronto para ser feito. Agora, tem gente que fala assim: “É, mas se tivesse sido feito não era uma boa porque o uso do titânio hoje já está duvidoso, não sei o quê.” Não está duvidoso, é que o custo do metal titânio está alto. Eu tenho titânio aqui na minha boca porque eu fiz uma implantação aqui, ó. Então, foi feita com titânio metálico. Isso é um DX, não é? Mão vale nada. Mas, o que eu estou te falando é o seguinte: o coração, você tem peças do marca-passo que têm que ser de titânio, porque ele não é rejeitável pelo organismo humano, ele não reage com coisa nenhuma. Por isso que você bota no dente também, porque o dente, a boca da gente é uma usina química danada, não é? Tem uma porção de coisa lá que vai reagindo, não é? Então, o titânio é usado para isso também. Tem uma porção de aplicações, mas são muitas...
P/2 – Ao que o senhor credita pessoalmente esse – o senhor pensando um pouco nesse tempo – ao que o senhor credita o cancelamento desse projeto?
R – Eu acho - é opinião minha, pessoal - que foi a vontade de fazer números, não gastar mais, só produzir números. Eu cheguei [a] escrever um artigo para publicar no jornal falando desse troço todo. Mas depois, isso vai causar mal-estar dos diabos. Isso não vai ser elemento decisivo. E na ocasião da privatização da Vale, não sei se vocês repararam, não foi mencionada a palavra titânio no acervo da Vale do Rio Doce. Compraram aquilo tudo de graça. Titânio passou para outras mãos de graça, não se pagou um tostão para isso, pelo minério de titânio, é um absurdo, né? Então, nessa época também, eu tinha escrito um artigo que eu falava dessa potencialidade toda, não sei o que... Mas a privatização já estava decidida e o titânio não ia entrar de jeito nenhum! (risos) Então, não escrevi não.
P/2 – O senhor chegou a conversar com pessoas da Vale?
R – Conversei com as pessoas a que eu tinha acesso. Tinha umas pessoas a quem eu passei a não ter acesso, que não gostavam do projeto. Eles tinham força, eu não tinha. Por isso que eu saí, vou cair fora, não quero mais saber de Vale. O que é que eu vou fazer aqui. Um dia ele vai ser ressuscitado, ele vai ser retomado. Infelizmente, eu não vou estar mais aqui porque eu já estou com 72 anos, então, é uma pena, né? Tinha um engenheiro lá da (Dopo?) – é só mais um parêntese – mais ou menos contra, ele também já era um cara de mais ou menos a minha idade, nós estávamos trabalhando juntos na adequação de nosso produto as qualidades que a (Dopo?) precisava de ter. Então a gente trocava muita figurinha, trocava muita ideia, discutia muita coisa e ele também falava assim: “Ó, eu estou só esperando decidir esse negócio aí, que eu vou me aposentar!” (risos) Deve ter aposentado sem ver também.
P/2 – Pensando um pouquinho nessa sua trajetória, não só de Vale, mas de vida mesmo, se o senhor tivesse que começar de novo e pudesse mudar alguma coisa, o senhor mudaria?
R – Da Vale!? (risos)
P/2 – Da Vale ou não.
R – Eu gostaria que a Vale tivesse muitos Mascarenhas e Eliezeres. O Eliezer, por exemplo, eu tinha que tirar o chapéu, porque ele sabe o valor disso. Sabe o valor de pesquisa! Nós não sabemos! Nós não sabemos dar valor a isso. O Mascarenhas uma vez nós visitando depois que ele voltou a presidência da Vale do rio Doce, ele falou assim: “Olha, o tamanho que a Vale do Rio Doce tem hoje se deve ao trabalho que vocês fizeram aqui.” E é, senão a gente não podia crescer. E aquele negócio de concentração de itabirito estava mal parado, estava ruim mesmo. Outra coisa que eu esqueci de mencionar que nesse meio tempo que nós estávamos estudando a engenharia do processo de concentração, que eu e o Márcio participamos muito junto da firma Rumbo, que fez o projeto, nós estudamos também Piçarrão que era uma mina menor de minério de ferro, tal, que trabalhou, já foi exaurida, que deu um bom lucro para a Vale do Rio Doce. Chegou a produzir dois milhões de tonelada por ano de concentrado. Era um minério completamente diferente. Então, uma vez o doutor Mascarenhas me convocou para ir lá para o Japão, com o grupo da Vale que estava trabalhando na aceitação dos produtos da concentração. O japonês estava desconfiado: “Esses caras estão fazendo o quê?” Ah! Eles não tinham confiança no nosso taco. Aí eles me puseram na parede lá: “Pô, porque vocês estão fazendo um projeto diferente para a mina do Piçarrão?” Aí eu expliquei para eles tecnicamente porque: por causa do campo magnético, lá tem mais magnetita. Se você botasse aquilo no campo magnético, a partícula de sílica, você tinha que jogar fora, era atraída junto com o concentrado, que contaminava o concentrado, então o seu teor caía. Eles aceitaram tudo isso e firmaram os contratos todos conosco, tudo direitinho. Tudo joia! (risos) E agora hoje temos aí Carajás. Carajás é uma coisa completamente diferente em termo de simplicidade de mineração, de escala, qualidade de minério, tudo diferente. E lá tem uma coisa: não precisa de concentração, não. Já vem pronto. É só tirar do chão, dar uma britadinha muito vagabunda, separar uma coisa da outra e acabou. E também nós estudamos tudo isso lá no laboratório. Você estava perguntando que mais que nós fizemos lá no laboratório, tudo foi estudado lá.
P/2 – Pois é, quer dizer, era de ponta. Vocês eram uma elite de pesquisadores dando a base para a empresa.
R – _____________________________... a _____ corria esse Brasil inteiro. Descobriu minério diferente? Vai para o laboratório. Tudo, tudo, tudo estudado no laboratório. Você tem às vezes que gastar dinheiro para ver que é porcaria, sobretudo em termo de geologia. Geologia se você não gastar dinheiro para ver que aquele troço não presta, você fica com aquele troço atrás da orelha. (risos)
P/2 – Queria fazer uma última perguntinha para o senhor: o que o senhor acha desse projeto de memória da Vale e o que o senhor achou de ter prestado esse depoimento?
R – Eu acho interessante. Agora, eu não sei se os objetivos a que ele se propõe vão ser alcançados. Aí é que está! Eu duvido. Sobretudo hoje que está na mão de outras pessoas que estão mais preocupadas com o retorno do dinheiro do que com outra coisa, né? Eu duvido, mas é bom falar, por exemplo, do Projeto Titânio porque pouca gente conhece. Conhece da potencialidade dele, vocês vão ver nesses números que eu apresento aqui de uma maneira muito sucinta e resumida que esse minério pode faturar alguma coisa da ordem de quase dois bilhões de dólares por ano se for completado. Então, é um troço importante para burro! A Vale do Rio Doce quanto está faturando hoje em minério de ferro... São 105 milhões de toneladas/ano a um preço em torno de 20 dólares. São 202 bilhões e 100 milhões de dólares! É claro que você não começa esse projeto faturando isso tudo não. Isso você leva pelo menos 20 anos para maturar. Mas ele é sensacional! (risos) Eu gostaria muito que se pensasse um pouco de titânio na Vale do Rio Doce ou que alguém que pode não ser a Vale do Rio doce viesse a pensar nisso, porque quem pensar e estiver disposto a gastar o resto de dinheiro que precisa ser gasto, que é pouco, comparado com o que já foi gasto, ele vai ter uma posição privilegiada no futuro que como eu estou dizendo não é um futuro de um, dois, três anos, mas é um futuro mais longo e é muito importante. E bonito, né? Cá para nós! (risos)
P/1 – Muito obrigada pela sua participação, senhor Fábio.
R – Às ordens.
[Fim do depoimento]
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