Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos
Entrevistado por Tânia Coelho
Depoimento Fagner Silveira Pires Carvalho
Local Macaé, 03/06/2008
Realização Museu da Pessoa
Depoimento CB MBAC 004
Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva
P – Fagner, seu nome completo e a data de nascimento.
R – Fagner Silveira Pires Carvalho. Quatro de setembro de 1989.
P – E você fez algum curso, está cursando alguma escola? Qual é a tua formação?
R – É, eu estou cursando ensino médio, e estou fazendo curso de assistente administrativo aqui na Petrobras.
P – Há quanto tempo?
R – Vai fazer dois anos quinta-feira agora.
P – Que você entrou aqui.
R – É.
P – E como é que você chegou aqui?
R – Praticamente foi muito difícil. Porque eu fiquei sabendo sobre, por amigos na escola, que a Petrobras estava fazendo um projeto social para capacitar os jovens para o mercado de trabalho. Aí eu fui até o Senai e tinha mais de 1.500 jovens numa fila. E eu achei que ia ser bem difícil entrar. Mas tudo tem que ter uma esperança. E eu fui lá e fiz e consegui entrar. E estou até hoje aí aprendendo tudo que for possível.
P – Você disse: "Eu fui lá e fiz." Fiz o que? Como é que você, o que é que você precisou fazer para entrar? Você fez prova?
R – Não, não foi exatamente uma prova. Foi assim, mais para pessoas que tinham baixa renda, que precisavam mais ajudar a família. Porque eu tenho os pais separados, infelizmente, e foi uma ajuda porque eu pude ajudar minha mãe em casa. Porque, infelizmente, meu pai saiu cedo de casa. E quem poderia ajudar minha mãe era só eu. E esse projeto da Petrobras veio me ajudar para isso.
P – Qual é o projeto?
R – É o Jovem Aprendiz.
P – Como é que é esse projeto? É um projeto, veio você e outros jovens?
R – É. Aqui em Macaé são, se eu não me engano, são 140 jovens. Você começa com estudando Ética e Cidadania nas ONGs. Eu faço pela ONG Viva Rio, mas aqui em...
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Entrevistado por Tânia Coelho
Depoimento Fagner Silveira Pires Carvalho
Local Macaé, 03/06/2008
Realização Museu da Pessoa
Depoimento CB MBAC 004
Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva
P – Fagner, seu nome completo e a data de nascimento.
R – Fagner Silveira Pires Carvalho. Quatro de setembro de 1989.
P – E você fez algum curso, está cursando alguma escola? Qual é a tua formação?
R – É, eu estou cursando ensino médio, e estou fazendo curso de assistente administrativo aqui na Petrobras.
P – Há quanto tempo?
R – Vai fazer dois anos quinta-feira agora.
P – Que você entrou aqui.
R – É.
P – E como é que você chegou aqui?
R – Praticamente foi muito difícil. Porque eu fiquei sabendo sobre, por amigos na escola, que a Petrobras estava fazendo um projeto social para capacitar os jovens para o mercado de trabalho. Aí eu fui até o Senai e tinha mais de 1.500 jovens numa fila. E eu achei que ia ser bem difícil entrar. Mas tudo tem que ter uma esperança. E eu fui lá e fiz e consegui entrar. E estou até hoje aí aprendendo tudo que for possível.
P – Você disse: "Eu fui lá e fiz." Fiz o que? Como é que você, o que é que você precisou fazer para entrar? Você fez prova?
R – Não, não foi exatamente uma prova. Foi assim, mais para pessoas que tinham baixa renda, que precisavam mais ajudar a família. Porque eu tenho os pais separados, infelizmente, e foi uma ajuda porque eu pude ajudar minha mãe em casa. Porque, infelizmente, meu pai saiu cedo de casa. E quem poderia ajudar minha mãe era só eu. E esse projeto da Petrobras veio me ajudar para isso.
P – Qual é o projeto?
R – É o Jovem Aprendiz.
P – Como é que é esse projeto? É um projeto, veio você e outros jovens?
R – É. Aqui em Macaé são, se eu não me engano, são 140 jovens. Você começa com estudando Ética e Cidadania nas ONGs. Eu faço pela ONG Viva Rio, mas aqui em Macaé tem a Escoteiro também.
P – Você faz por qual ONG?
R – Viva Rio. E depois você vai para o Senai fazer o curso profissionalizante. Que tem vários cursos, eu faço, por exemplo, Assistente Administrativo. Mas tem de Assistente de Pessoal, de Técnico em Rede, Encanador Industrial e Eletricista. E depois você vem fazer a vivência, que é em forma de estágio aqui na Petrobras.
P – Mas aqui, com você, tem outros jovens trabalhando ou você é o único que...
R – É, dentro da Petrobras eles são espalhados por vários setores. E dentro, aqui na Petrobras funciona como ativos de produção. E eu sou do Ativo de Produção Centro. Aí no meu Ativo tem eu mais três meninos. Eu sou do setor de PDCP, e as outras três são divididas.
P – Que setor?
R – PDCP, é Programação, Desenvolvimento e Controle da Produção.
P – Como é que é o seu dia-a-dia? O que é que você faz? Como é que você...
R – Olha, eu tenho até prazer de vir trabalhar na Petrobras. Porque tipo assim, a pessoa fala: "Ah, você faz Jovem Aprendiz na Petrobras." na Petrobras eu chego aqui às sete e meia da manhã, a minha chefe, no caso assim, e orientadora vai me ensinando as coisas e eu vou aprendendo. Porque quando eu entrei aqui eu aprendi coisas para a minha vida profissional e para a minha vida assim, como que eu posso dizer? Normal assim...
P – Pessoal.
R – ...a vida do dia-a-dia, a vida pessoal. Então você não aprende só o profissional, você aprende conviver com as pessoas, entendeu? É isso aqui.
P – Por exemplo, que coisas você aprendeu aqui? Que é que você acha que você aprendeu mais? Foi alguma coisa que pode mudar a sua vida, que pode ser um instrumento para o resto da vida?
R – Acho que o que eu mais aprendi foi poder conversar, igual eu estou conversando com a senhora aqui. Porque eu era um garoto muito preso assim, para poder dialogar com a pessoa eu ficava muito inseguro. E quando eu entrei aqui na Petrobras, primeiro eu aprendi na parte da área de Cidadania. Aí depois quando eu entrei para trabalhar você vê que você tem que dialogar com muitas pessoas, conversar, porque se você for um cara que não conversa você não vai fazer seu serviço direito. Então você tem que, então foi isso que eu mais aprendi, conversar, você ter acesso às pessoas, entendeu? Conversar claramente com as pessoas.
P – Foi difícil isso? Foi um desafio muito grande? Você contou com a ajuda das pessoas para poder conviver, ou você foi tirando de você a força que você tinha para vencer esse bloqueio?
R – É, no início eu fiquei meio coisa, como eu disse que eu era muito tímido. Mas quando eu vi que isso não ia dar em nada, eu tinha que tirar força de mim mesmo porque ninguém poderia me ajudar mais do que eu mesmo. Então eu fui me esforçando e hoje eu acho que eu tenho que melhorar mais um bocadinho. Acho que eu estou caminhando para...
P – Você acha que o fato de ter gente de tudo quanto é estado, de todos os lugares por aqui, porque tem gente, né, do Brasil inteiro...
R – De muitos lugares.
P – Isso te ajudou? Te fez crescer até nessa coisa de poder entender melhor o outro?
R – Eu acho que sim. Porque é muito sotaque diferente assim também, e você aprende mais sobre os outros lugares também. Dentro da Petrobras, dentro do seu trabalho você aprende sobre outros lugares. Igual no meu setor, no meu setor só tem eu de Macaé. Tem gente de Minas, tem gente de outras cidades mesmo. Porque dentro do, eu acho que dentro do Brasil parece que tem vários países mesmo, porque é cada lugar tem uma linguagem diferente. Então você já vai aprendendo: "O que é que essa pessoa falou, o que é que significa?" Você já sabe explicar o que significa. Então é bom você conviver com as pessoas assim a convivência. Porque, tipo assim, no meu setor a convivência é muito unida, entendeu? Igual quando saiu, quando muda de gerente a gente faz a despedida bonita, uma festa, faz uma plaquinha de homenagem. É isso aí, eu acho que é a convivência, o bem estar de você conviver com as pessoas.
P – Você acha que isso acontece exatamente porque tem gente, porque as pessoas deixam as famílias e vêm para cá, né?
R – É.
P – Essa solidariedade, essa vontade de estar junto, esse apoio com que eles recebem, você acha que tem a ver com o fato de ser esse universo da Bacia de Campos gente de tudo quanto é lugar?
R – é, eu acho que sim. Porque esse negócio também as pessoas abandonarem a família assim, não é praticamente abandonar, tem que vir em busca de trabalho. Por ela estar sozinha aqui, falta de amizade, eu acho que é mais fácil dela arranjar amizade é dentro do próprio serviço. Então você vê que dentro da Petrobras as pessoas aqui combinam: "Ah, final de semana vamos para a praia, vamos viajar." Então eu acho que é isso, a Petrobras, dentro do seu trabalho, você tem uma família, entendeu? Não é só aquilo de profissional. Você tem uma família: "Ah, vamos para o show."
P – Se você tivesse que definir hoje a Bacia de Campos, você está há pouco tempo, mas você já viu algumas mudanças na área Administrativa, enquanto pessoa. Você diria o que? Quer dizer, o que é que significa isso, ou para você, ou para Macaé, ou para o país? Você definiria como?
R – Olha, assim, definir...
P – Você já falou em uma família, né?
R – Han, han. É, eu acho que definir é uma família. A Petrobras é uma grande família.
P – Mas é uma coisa muito grande, ninguém tem uma família desse tamanho. (riso)
R – Ninguém tem, com certeza. Eu acho que sim, porque o que eu acho também é que assim, muita união. Porque nenhum setor trabalha sozinho. Você sempre tem que procurar o outro setor para ver o que é que ele precisa ou o que você precisa daquele setor para te ajudar. Igual, tipo assim, o meu é Programa, o meu setor é PDCP, Programa de Desenvolvimento do Controle da Produção. Mas ele precisa das operações das plataformas. Então você está ali no Controle da Produção, mas se você não tiver a ajuda das plataformas você nunca vai ter o controle da produção. Então o PDCP não controla a produção sozinho. Eu acho que eu definiria como uma união, uma grande comunhão.
P – Existe uma comunhão dos outros setores.
R – Isso, dos outros setores. Todos os setores trabalham em uma só função, tipo assim, entendeu?
P – Hum, hum. E por ser de Macaé, você acha que em relação a você e à sua família, e o bairro onde você mora, mudou muito? Quer dizer, você, porque na área Administrativa você pode ver o que cresceu, né? E você, para você o mais importante foi você falar, poder trocar com as pessoas. E enquanto cidadão?
R – Eu acho que cidadão eu acho que eu melhorei mais ainda. Porque eu era aquela pessoa que chegava em casa, saía de casa para a escola, e não passava de cabeça para cima e não falava com ninguém. Voltava para casa e não falava com ninguém. Hoje quando eu saio de casa eu vejo a pessoa, falo: "Bom dia." ou até paro para conversar. E eu acho que até eu era conhecido como uma pessoa metida. Hoje não, é simpático. Eu converso, eu paro para conversar. Eu prefiro parar para conversar com pessoas que são mais velhas, para você poder ganhar experiências. Porque, tipo assim, o jovem hoje em dia, assim, não todos, né? Porque todo mundo pensa que são todos, mas não todos, pensam muito pequeno. Não sei como explicar. Eu sei que ele pensa que é só curtição e não pensa no futuro. Não pensa assim: "Ah, quando eu, eu quero ter uma profissão, eu quero ter uma família." porque como eu expliquei aqui para a senhora, com os meus pais separados, eu não quero isso para a minha vida: você um dia casar e depois separar. Eu não quero isso para ninguém também. Porque no Jovem Aprendiz também acontece muito isso, muitos jovens têm os pais separados. Ou até os pais mortos. Eu acho que os pais mortos são mais difíceis do que os pais separados. Mas o Jovem Aprendiz, eu acho que ajudou muitos jovens na área da Cidadania também. Porque muitos dizem: "Ah, eu aprendi mais na Ética e Cidadania, não sei o que." Sim, eu aprendi na Ética e Cidadania, mas no curso de, no profissionalizante, curso profissionalizante, você aprendeu mais um pouco de Ética e Cidadania também. Porque para você trabalhar no assistente administrativo você tem que como saber lidar com as pessoas. E é uma ética de como lidar com as pessoas. Você não pode falar com as pessoas de qualquer maneira. Então você sempre está aprendendo o nexo do início. E o que a gente aprendeu, que é uma coisa que a gente, que ninguém nunca pode roubar da gente, pode roubar tudo que for possível, mas menos rouba de você, o que não tem como roubar é o conhecimento. Então eu sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas, ou até jovens também, que tenham experiência. Passar um para o outro. O que eu não sei ele pode passar para mim, e o que ele não sabe eu passo para ele. Mas eu prefiro conversar com pessoas mais velhas, para elas passarem experiência para mim.
P – E você falou em pensar grande, pensar pequeno, e não pensa no futuro. Pensar grande para você e pensar no futuro, em relação à Bacia de Campos, seria o que?
R – Ah, eu acho que assim, é igual...
P – O que é que você imagina isso daqui a algum tempo? Você é tão jovem.
R – Ó, o que eu vejo é sempre crescendo mais. Porque é tipo assim, como eu vejo a Petrobras sempre pensa no futuro. Ela nunca faz assim: "Ah, o planejamento de..." Nós estamos em 2008, ela não fala: "Planejamento de 2008." ela está no planejamento de 2012, ela está no planejamento de 2020. Então eu acho que o, eu vejo a Petrobras sempre com mais campos de petróleo, sempre com mais coisas. Porque dentro de Macaé para onde você olhe tem uma coisa da Petrobras.
P – E você dentro disso?
R – Eu? Eu pretendo estar aqui. E como Petrobras, como concursado. Com uma faculdade.
P – Fazendo concurso, fazendo faculdade.
R – Isso, fazendo concurso e ter passado.
P – Do ponto de vista da tecnologia você aprendeu alguma coisa também?
R – Eu acho que aprendi também, em tecnologia aprendi bastante aqui. Porque quando você faz um curso lá fora de informática você faz, eu acho que é o básico. Porque o que eu vi aqui dentro não é nada do que o pessoal passa no curso lá fora, de informática. Então eu acho que eu aprendi muito mais dentro aqui, na informática aqui dentro da Petrobras, trabalhando, que fazendo um curso lá fora. É claro que fazer um curso é bom, antes de você entrar aqui. Mas eu acho que eu aprendi mais, tipo assim, o Excel é um programa muito difícil. Então eu hoje eu mecho no Excel, não aquilo, né, coisa assim, mas sem problema nenhum. O que você pedir para mim fazer eu faço. Mas eu não aprendi lá fora no curso, eu aprendi aqui dentro. E quem me ensinou mais foram os engenheiros.
P – E o que é que você acha desse projeto de gravar a memória e ouvir os funcionários e as pessoas que trabalham aqui para contar a história da Bacia de Campos?
R – Olha, eu acho bastante interessante. Porque eu acho que a minha oportunidade, eu não sei se vai passar para outras pessoas fora da Petrobras, mas se passar as pessoas de fora vão poder ver que a Petrobras não é só aquele petróleo, petróleo, petróleo. É aquela comunhão de pessoas, é a união. Porque muita gente passa: "Ah, a Petrobras só fala em petróleo, só fala em petróleo." E não é bem isso, você aprende muita coisa. Igual eu, uma coisa também que eu aprendi muito no meu Ativo, o SMS, é Segurança, Meio-ambiente e Saúde, faz, por mês faz palestras. E sempre palestras sobre saúde. Muitas coisas que eu nunca ouvi falar lá fora eu aprendi aqui dentro da Petrobras. Então eu acho que isso que é importante. Além de você trabalhar você está informatizado, você está sempre atualizado sobre as coisas, entendeu? Não é só petróleo. Todo mundo pensa que Petrobras só faz petróleo, petróleo.
P – Você tem quantos anos?
R – Eu tenho 18.
P – Muito obrigada.
R – De nada.
P – Foi um prazer.
(FIM DA ENTREVISTA)
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