Entrevista de Sidineia Aparecida Chagas
Entrevistada por Maurício Rodrigues Pinto (P1)
São Paulo, 05 de junho de 2026
Projeto Memórias do Futebol de Várzea
Entrevista MFV_HV003
Realização Museu da Pessoa
Transcrição por Edméia Vieira
Revisão por Anna Miranda
(00:00:47) P1 - Começar primeiro agradecendo por nos receber na sua casa, e pela disponibilidade da entrevista para esse projeto. Para a gente começar peço que você se apresente, fale seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
(00:00:52) R - Eu sou a Sidineia Aparecida Chagas, nasci na cidade de São Paulo, na capital, e hoje resido na região de Parelheiros. Eu nasci no dia dez de maio de mil novecentos e noventa e um. Sou filha da Maria e do Geraldo. Atualmente a minha mãe é do lar, ela não trabalha, mas trabalhou por muito tempo como diarista, trabalhou também em restaurante, em lanchonetes e como merendeira em escola. Meu pai trabalhava em metalúrgica, como eletricista e pedreiro.
(00:01:44) P1 - Você tem irmãos?
(00:01:51) R - Eu sou a segunda caçula de dez filhos. Minha mãe e meu pai tiveram oito mulheres e dois homens. Essa foi a constituição da minha família.
(00:02:04) P1 - Alguém te contou ou seus pais te contaram a história do dia do seu nascimento?
(00:02:13) R - Recentemente, eu fui fazer a segunda via da certidão de nascimento do meu filho, porque eu perdi, e também fui buscar uma cópia da minha certidão. E minha mãe já tinha comentado comigo, mas no meu exame do pezinho está escrito “em trânsito”. E eu fui conversar com ela e ela conta que me teve dentro da ambulância. Então enquanto a cidade de São Paulo estava naquele momento de trânsito caótico, minha mãe estava dando à luz a Sidineia. Eu falo que eu já cheguei com o barulho das buzinas, causando no universo e dizendo que eu vim por algum motivo. Essa foi a história. Eu nasci em trânsito e fui levada para o hospital regional que fica em Santo Amaro. Esse foi meu nascimento.
(00:03:07) P1 - Você sabe a história da escolha do seu nome?
(00:03:13) R - Minha mãe conta que, na verdade, não foi ela quem escolheu os nomes, foi um parente que acabou escolhendo. Meu nome e de todos os meus irmãos começam com a letra S, então tem o Si. Foi uma época que, infelizmente, ela teve os filhos basicamente sozinha, sem o apoio do meu pai. E nesses momentos no hospital, ela teve o apoio e suporte dos parentes e foram eles que acabaram dando os nomes. E ela seguiu todos com S, com Si. Não tem uma história do fato de ter escolhido bem o nome, mas porque alguém quis seguir uma lógica de escolher todos os nomes com S.
(00:04:00) P1 - Você teve acesso a história dos seus antepassados?
(00:04:16) R - Eu não tive convívio com meus avós, eles faleceram muito novos. Minha mãe conta que a minha bisavó era indígena. A família da minha mãe é de Minas Gerais e ela veio para São Paulo em 1989, com meu pai e meu irmão que estava com seis meses de vida. Basicamente é a história que eu sei, que a minha família é da região de Vermelho Novo, em Minas Gerais, naquela região de Caratinga e Raul Soares. Essa é mais ou menos a origem que eu conheço, não tenho grande aprofundamento.
(00:05:06) P1 - Você tem memória da casa onde passou a sua infância e em que bairro era?
(00:05:12) R - Sim. Quando minha mãe veio para São Paulo, com esse meu irmão que tinha seis meses, ela teve eu e a minha irmã Silvani, que somos as caçulas. Filhas de mineiros, mas com sangue paulista. A gente morava na região de Interlagos, no bairro Jardim Orion. Era uma casa muito humilde, mas que traz muitas lembranças para nós. Ali, era no bairro que a gente brincava nas ruas, tinha ali a comunidade. Nossa família movimentava o bairro. Em frente de casa a gente colocava a rede para jogar vôlei e a caixa de som para ouvir axé. A gente vem muito dessa cultura do axé, do futebol de rua. Era um bairro que fazia a gente ter uma memória muito ativa. Era uma casa super humilde, de alvenaria, mas que acolhia. Esses dias eu estava conversando com a Débora, que é minha companheira, sobre como eram os cômodos. A gente tinha sala, cozinha, banheiro e na parte de cima de um dos quartos, tinha uma caixa d'água que a gente usava também para brincar. Essa é a lembrança de infância, para quem nunca tinha piscina em casa, encher a caixa d’água e nadar ali. E da laje de casa a gente conseguia ter acesso às outras casas, a gente pulava para as outras lajes e também dava para ir para a rua. Em 2004, nós saímos da região do Orion, Interlagos, e viemos residir na região de Parelheiros.
(00:06:52) P1- Nesse momento, ainda em Interlagos, morava toda a sua família ou os irmãos mais velhos já tinham saído de casa?
(00:07:02) R - Alguns já estavam morando em outros locais. Tanto que a gente veio para o bairro da Barragem [distrito de Parelheiros] por conta de uma irmã mais velha que já morava aqui no território. Outras irmãs já tinham suas vidas, já eram casadas e tinham filhos. Eu e os meus irmãos mais novos morávamos com a minha mãe, mas não com o nosso pai. Esses dias eu até escrevi que eu conheci meu pai aos 13 anos de idade, porque nem eu nem minha irmã mais nova, a Silvani, hoje com 30 anos, fomos criadas por ele. Quando ele se separou da minha mãe a gente era bem novinha e as memórias que a gente tem do nosso pai não são memórias muito boas. Quando ele resolve aparecer, com 13 anos, a gente começou a ter esse contato com ele, essa aproximação. Há três anos atrás, ele teve um AVC [Acidente Vascular Cerebral], e eu fui uma das filhas que estive mais presente na vida dele nesse momento. Hoje, não tendo ele, eu falo que se eu pudesse ter a oportunidade de viver uma vida ao lado dele, eu viveria, porque eu sei quanto a presença paterna faz falta. Principalmente pela figura do meu pai, que hoje eu só entendo a minha ancestralidade e a minha história de vida por conta da existência dele mesmo.
(00:08:25) P1 - Você falou que foi aos 12 anos que você se mudou para a Barragem?
(00:08:31) R - Isso.
(00:08:32) P1 - Você já tinha uma irmã morando no bairro e como foi essa mudança para você e para sua família?
(00:08:41) R - Antes da gente vir morar aqui, a gente fazia muitas visitas no bairro da Barragem, e era algo novo, como se estivesse saindo da cidade e indo para o interior. Mas quando veio a realidade, quando a gente veio para o Barragem, não foi num momento fácil da nossa vida. A gente acabou tendo que se mudar por uma pressão, a gente não escolheu o bairro. Acho que o bairro que escolheu a nossa família. A gente veio para cá no dia 14 de maio, à noite, em cima da caçamba do carro do meu ex-cunhado. Não foi uma fase muito boa, foi uma fase muito difícil! Meus irmãos não quiseram mais estudar, tiveram que parar porque não aceitavam vir para o bairro. Basicamente, meus irmãos que estavam empregados perderam o emprego e a única pessoa que ficou trabalhando à época foi minha mãe. A gente saiu do bairro ameaçado de morte, por questão deles terem executado o meu ex-cunhado, depois eles queriam a minha irmã e se não encontrassem minha irmã, queriam a família. Foi um momento difícil! Imagina chegar no dia 14 à noite e minha mãe falar que a gente ia embora. Eu não consegui me despedir de ninguém, não me despedi de nenhum amigo ou amiga, que era da época da escola. E pelo fato de que ninguém podia sair da Barragem para trabalhar, porque a gente tinha que ter essa proteção, esse cuidado, a gente teve que ressignificar o morar aqui neste território. Não esquecer da nossa infância, do que a gente viveu em Interlagos, mas reviver tudo que poderia ser possível neste bairro.
(00:10:40) P1 - Quais lembranças você tem quando chega para morar na Barragem?
(00:10:49) R - Quando nós viemos para a Barragem - acredito que todos nós acabamos tendo um pré-julgamento quando mudamos -, eu, às vezes, falava que não era possível mudar para um território onde só tinha mato e onde você não vê outras coisas diferentes. Porque eu morava num território onde tinham as quadras de rua e tinha muita criança nas ruas, então era uma outra realidade. A gente, infelizmente, faz um pré-julgamento. Com o tempo eu fui compreendendo que esse foi o bairro que acolheu a nossa família, e que não teria problema nenhum. A gente morava em uma área de proteção ambiental, em um território indígena, com a diversidade cultural e que era possível construir a nossa história a partir do momento que a gente colocou o pé aqui. A gente foi estruturando e entendendo essa visão de pré-julgamento que nós tivemos lá em 2004, a gente ressignificou juntamente com o território e os moradores. Hoje, para mim, eu falo que a Barragem é potência. As pessoas perguntam: “Você não pensa em sair daqui e mudar para outro bairro?” Eu falo: Claro que não! Eu gosto muito de uma frase do Nego Bispo [Antonio Bispo dos Santos, filósofo, escritor e líder quilombola], que fala sobre o envolvimento. Porque o tempo todo a gente pensa em desenvolver o território. E hoje eu trabalho o envolvimento, pensando em como envolver a comunidade e ao mesmo tempo me envolver nela, para que eu seja pertencente disso.
(00:12:15) P1 - Antes de falar um pouco mais sobre esse envolvimento comunitário, queria saber quais eram as suas brincadeiras, de criança, favoritas.
(00:12:26) R - As minhas brincadeiras favoritas eram o futebol, sempre presente, a bolinha de gude, o pipa, o peão, o pega-pega e o esconde-esconde. Eram brincadeiras que eu amava muito fazer na infância e tinha muito contato. Foram essas brincadeiras que ficaram marcadas.
(00:12:55) P1 - Qual é a primeira memória que você tem associada ao futebol?
(00:13:01) R - Quando eu morava no bairro do Orion, eu tive um professor, o Renato. Ele treinava no campo de futebol no Terrão, atrás da escola. Eu tenho a memória de todas as vezes que eu ia lá treinar. Uma outra memória era quando a gente ia brincar na rua. A gente colocava nossos chinelos como travinhas para brincar de futebol.
(00:13:29) P1 - Quando você tem a possibilidade de voltar a jogar futebol morando na Barragem?
(00:13:36) R - Quando a gente mudou para a Barragem, precisou compreender o que tem no bairro de novo, de diferente. O que eu achei bacana é que as escolas ainda assim têm esse projeto de futebol. Antes de me mudar para a Barragem, eu participava de campeonatos da escola Santos Dias, [Escola Estadual Santos Dias da Silva], no Orion. Quando eu vim para o Barragem, uma das coisas que eu procurei me envolver foram as competições da escola, apesar de serem competições que davam mais visibilidade e oportunidade para os meninos do que para as meninas. Eu comecei a participar até mesmo da escola da família [Programa Escola da Família, realizado em escola da rede pública estadual], entrei como voluntária. E foi quando a gente entendeu sobre a questão do futebol, pois os meninos utilizavam a quadra para jogar bola, e quando eu e as minhas irmãs pedíamos para jogar, a gente ouvia muitos nãos por parte deles. Eles diziam que se a gente quisesse jogar, a gente ia ter que aguentar a pancada”. Porque eles ainda acham que o futebol é uma luta corporal, que precisa ter agressividade, em vez de entender que o esporte é esse movimento de participação e de educação. Eu e minhas irmãs fomos muito resistentes e sentávamos na quadra e dizia que já que a gente não podia jogar, eles também não jogariam. Sem noção alguma do que a gente tava fazendo ali, mas era o movimento do corpo dizendo, faça isso, mesmo sem entender. Antigamente tinha um time de futebol do Barragem e nós começamos a se envolver com esses times que estavam dentro do território para posteriormente a gente constituir o nosso time.
(00:15:25) P1 - Já tinha um time de futebol feminino na Barragem?
(00:15:29) R - Sim, era um time feminino que tinha aqui. Tem um rapaz, o “Suco”, que hoje ele joga no time do Vera Cruz e ele já tinha um time feminino. No outro bairro, Cidade de Luz, também tinha um time que a gente começou a jogar. Já existiam times femininos anteriormente no bairro.
(00:15:56) P1 - Quais lembranças marcantes você tem da época de escola, no Orion e na Barragem?
(00:16:09) R - Eu falo com muita firmeza que eu ter mudado para o território da Barragem foi um fator importante para contribuir na minha formação pessoal e profissional que hoje eu tenho. Eu sempre tento fazer essa ligação da minha infância lá no bairro do Orion com a infância que eu tive na Barragem, porque eu cheguei aqui aos 12 anos de idade. Só que no Orion foi um bairro onde eu brinquei muito, eu estava o tempo todo com a comunidade, brincando, me divertindo. Mas em compensação, lá eu não tive a presença da minha mãe, porque minha mãe precisou trabalhar para sustentar a gente. Eu lembro da minha mãe sair para trabalhar e a gente estar dormindo e ela chegar e a gente estar dormindo. Aquela correria, os irmãos iam para escola e para o trabalho. Quando a gente vem para o território da Barragem, a gente consegue ter uma relação mais afetiva, tanto entre a minha mãe como entre meus irmãos. A gente começa de fato a conviver, estar juntos, celebrar, comemorar. A gente tem contribuído muito na formação uns dos outros. E até mesmo o diálogo. Minha mãe não era uma pessoa aberta ao diálogo, e hoje ela conversa, a gente vai na casa dela e fala sobre todos os assuntos possíveis. Essa lembrança que vem. Antes dos 11 anos de não ter esse diálogo, apesar de ter as brincadeiras, mas vivia na correria e não tinha essa relação de afeto. Eu, meus irmãos e minha mãe, por muito tempo a gente não sabia dizer eu te amo um para o outro, porque não foi nos ensinado sobre isso. Quando a gente passa a morar na Barragem, compreende que era possível abraçar, dizer eu te amo, falar dos sentimentos, dos sofrimentos e das dores. Essa é a lembrança deste bairro, e isso a gente acaba transmitindo para as outras pessoas também.
(00:18:10) P1 - Ainda no Orion vocês já tinham um histórico de envolvimento e de uma mobilização comunitária. Quando vocês mudam para a Barragem, precisam reconstruir toda uma vida. E como vocês reconstroem - aqui - o ativismo, a mobilização comunitária dialogando com vários atores e toda a diversidade que você disse que já existia na região?
(00:18:46) R - O nosso envolvimento começa na Escola da Família, um programa excelente daquela época e hoje não se tem mais. Eu, meus irmãos e irmãs começamos a participar de diversas atividades oferecidas, e em seguida, em 2008, por eu ser uma das voluntárias, eu fui convidada pela educadora Darlene a participar de formações e oficinas que a organização IBEAC [Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário] daria para a juventude. Era um momento da minha vida que eu participava de qualquer coisa que as pessoas me convidassem, desde o teatro, eu fazia tudo. Eu fui entendendo que esse meu impulso em aceitar tudo o que estava sendo oferecido, era para cobrir ausências que tinha na minha vida. Ainda aos 12 anos eu estava tentando entender tudo o que estava acontecendo, a mudança de território, não ter tanto a presença da minha mãe fisicamente e ver meus irmãos sofrendo com tudo aquilo. Eu fui aceitando estar em outros espaços e compreendo que aquilo me fazia bem. Depois, com o tempo a gente vai entendendo e começa a denominar o que é ativismo, militância, mas até então era participar por participar. Hoje, a gente consegue compreender que todo esse envolvimento comunitário que a gente tem no território é a partir do que a gente entende o que é política. Então sobre o que nós, enquanto sociedade, podemos fazer para contribuir não só na nossa formação, mas também na formação das outras pessoas.
(00:20:24) P1 - Nessa fase da adolescência e juventude, para além das várias atividades socioculturais que você tinha acesso, o que você gostava de fazer aqui ou fora da região?
(00:20:48) R - Uma coisa que eu gostava e ainda gosto até hoje é dançar. Eu amo dançar, e principalmente a axé. Nos meus momentos de hora vaga, meu filho até brinca comigo e fala que eu sou tiktoker, porque vem as musiquinhas novas e eu já sei os passos. Eu fiz aula de dança, porque mexe com o meu corpo e faz com que eu me desligue um pouco das coisas externas que acontecem. A dança é algo que me acompanha desde quando eu morava no Orion, e me segue até hoje. Não é algo que eu faço profissionalmente, mas por hobby, por entretenimento, e eu tento o máximo dançar para me movimentar. E a questão das próprias brincadeiras, até hoje, eu e minhas irmãs, ofertamos brincadeiras para outras crianças, para os adulto e para os jovens, por a gente entender que o brincar não tem idade.
(00:21:54) P1 - Em que momento você teve que trabalhar ou começou a pensar em uma área para sua formação?
(00:22:06) R - Uma coisa que eu também amo fazer é cozinhar. Minha minha mãe é mineira, então a minha alimentação foi sempre na base do angu, do quiabo e do tutu. Foram comidas que enriqueciam a gente a ter uma história cultural. Todas as vezes que eu vi minha mãe cozinhando, ela depositava muito amor. Ela foi merendeira de uma das escolas que nós estudamos, e falava que seu desejo era poder ter um restaurante. Eu pensei em realizar esse sonho da minha mãe de ter um restaurante, e consequentemente também realizar um sonho meu. Eu falava que teria o restaurante da família Chagas de Cozinha Mineira. Era o sonho que eu tinha. Um dos caminhos que eu fui fazendo, em 2008, quando eu comecei a participar dos projetos do IBEAC quando constituía bibliotecas comunitárias, eu sempre me colocava para cozinhar. Qualquer evento, qualquer ação, eu estava disposta para cozinhar. Foi um momento que eu fui pensando e ouvindo os elogios. Quando você começa a ouvir elogios das pessoas, “você cozinha super bem, você deveria ter um restaurante”, isso te fortalece e te dá força. Você entende que está seguindo certinho o seu caminho. Foi uma época que surgiu a oportunidade também de fazer faculdade. O pessoal falava para eu fazer pedagogia. Eu disse que não faria, porque não tem muito a ver com a cozinha. Eu me inscrevi, fiz o Enem, consegui uma nota boa, fiz o ProUni, e consegui uma bolsa 100% para fazer Administração na Unisa [Universidade Santo Amaro]. Era uma oportunidade, tem mais a ver administrar um negócio. Foi um pontapé inicial que eu dei para a minha formação acadêmica e compreendi que também é um espaço que nós devemos ocupar. Da minha família, de dez filhos, somos três irmãs que conseguiram ingressar na universidade. Entendemos que começamos a quebrar ciclos e que isso era possível para as outras mulheres e homens da nossa família, e também que outras pessoas pudessem enxergar isso como uma potência, de que a universidade é para nós.
(00:24:21) P1 - Nesse momento - lembrando que você já deu uma outra entrevista para o Museu da Pessoa - você já estava também envolvida com a mediação de leitura?
(00:24:37) R - Sim, eu comecei a me envolver na mediação de leitura em 2008. A minha formação acadêmica começou em 2017, quando eu entrei na universidade, mas anteriormente a isso eu tive formação em escrita, em literatura e em permacultura. Toda formação que era oferecida, eu fui participando. Desde 2008 eu sou mediadora de leitura e faço mediação para todos os públicos, público intergeracional, que vai desde o bebê ao idoso. Eu sempre estive nesses espaços, escola, creche, praças, CEUs, EMEIs, EMEFS e na rua, lendo para outras pessoas. É uma leitura que a gente compreende que é possível ser prazerosa a leitura. Diferente desse contexto escolar que muitas vezes a gente lê para aplicar uma prova posteriormente. A gente ensina as pessoas e também leva a literatura de uma forma diferenciada. Trabalha a relação afetiva, a escuta, incentiva a leitura literária e democratiza o acesso à leitura e ao livro, principalmente nas bibliotecas comunitárias e dentro do território periférico, onde a gente tem as bibliotecas comunitárias. Quando você acessa uma biblioteca pública no centro, tem o custo do transporte, que às vezes as pessoas não têm. Consequentemente, talvez, exijem documentação, como o RG, que muitas vezes as pessoas não têm, para pegar um livro. Tem também o custo de ir numa livraria, o custo de um livro. O fato de ser mediadora é para ser essa ponte, conectar esse leitor e não leitor aos livros, a essas obras que de alguma forma fazem esse contato com quem está ouvindo. Eu tenho muitas experiências com a literatura; desde uma criança que começa a compreender a questão da morte a partir de um livro. Nós, adultos, ainda temos dificuldades em inserir as crianças, em falar sobre temas que são importantes e relevantes, porque a gente acha que não é o momento certo. A literatura vai perpassando. Atualmente, a gente trabalha com a literatura também para falar de sentimentos e sensações. Como a gente denomina aquilo que a gente está sentindo? Como a gente autorregula aquilo que a gente está sentindo? É possível fazer isso a partir da literatura.
(00:27:13) P1 - Como mediadora de leitura para outras pessoas que não têm acesso aos livros, tem alguma obra que, de alguma forma, te sensibilizou?
(00:27:28) R - Tem um livro, que li na época da adolescência, que chama Alice Está Acesa, da Terezinha Alvarenga. É um livro que fala sobre a puberdade. Como eu não tinha esse diálogo com a minha mãe, por conta do seu conservadorismo, eu fui buscar no livro informações para entender o que meu corpo estava dizendo e as transformações que a gente vai vivendo. Nessa época eu morava no Orion. Quando a gente passa a morar na Barragem e eu começo a ter contato com a literatura, eu recebi da escola o livro O Menino do Pijama Listrado. Foi uma época que eles davam vários kits de livros. E eu me apaixonei pela história. Era uma história que não negava nada, contava do começo ao fim a realidade que era vivida ali na Alemanha. Eu me perguntei por que a minha história não é contada? Quando a gente começa essa entrevista, você pergunta para mim se eu sei um pouco da minha ancestralidade. E eu não sei, por mais que eu busque essa informação, eu não tenho. E quando eu olhava para esse livro, eu via como é rico, não é uma história positiva, porque viver no holocausto não era uma coisa boa, mas era uma história que não era negada, diferente da nossa história, da população negra, que ainda, infelizmente, a gente não ouve tanto, ainda é negada. Foi uma história que mexeu muito comigo, e em 2016, eu tive a oportunidade de ir para Berlim, na Alemanha. Eu consegui ver o campo de concentração e o muro. Na mesma época do livro O Menino do Pijama Listrado, um outro livro que eu me apaixonei foi o Diário de Anne Frank. Foram duas obras que eu fui me apaixonando. E o tempo foi passando…. tem um livro O Grãozinho de Areia, de Fernando Paixão, era um cordel e ele ia rimando e rimando. Aquele livro fez com que eu me conectasse às outras pessoas. O Grãozinho de Areia era uma pedrinha de areia e com o passar do tempo ele se torna uma pérola de valor. Eu fui entendendo que é possível, que as pessoas às vezes nos desvalorizam, mas que as nossas potências podem se tornar uma referência. Quando eu olho para essa história, eu vejo que hoje eu sou uma pérola de valor, por tudo que construí e pela referência que eu sou para esse território aqui. Por isso eu olho para essas histórias, para esses textos que eu vou lendo como reflexo daquilo que eu vou construindo. São tantas outras obras. Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, que fala sobre o navio negreiro, sobre a nossa ancestralidade e tudo que vamos vivendo. Aí sim foi onde eu fui buscando os caminhos para entender quem de fato é a Sidineia.
(00:30:33) P1 - Em 2016, como foi a sua experiência na primeira viagem para fora do Brasil?
(00:30:45) R - Foi a primeira e única viagem que eu tive para fora do Brasil. Sonho em poder viajar pelos países do continente africano, é um desejo. Mas, foi um convite que veio da parte da Bel Santos Mayer. Dois amigos dela, a Úrsula e o Holger, queriam levar dois adolescentes para conhecer Berlim e tudo foi custeado por eles. Nós, os adolescentes da biblioteca, conversamos e chegamos em um acordo para saber quem iria. Fui eu, mais um outro jovem da biblioteca, a gente foi em dupla. Passamos uma semana para conhecer e o que é bacana é que pudemos escolher os lugares que queríamos conhecer. Para mim, eu realizei um sonho que para além de ler o livro O Menino de Pijama Listrado e O Diário de Anne Frank, eu estava vivenciando e conhecendo uma história contada pelos livros.
(00:31:49) P1 - Nesse momento, você já estava engajada em várias frentes. Onde estava o futebol na sua vida?
(00:31:56) R - O futebol sempre esteve presente na minha vida. Eu sempre me vi no futebol, realizando algo coletivo, de estar com o outro. Quando a gente começa a entender a prática esportiva também como política pública, em 2014, neste ano, eu e minhas irmãs, fizemos partidas de futebol contra os rapazes da comunidade, aquele futebol de final de ano, onde as pessoas se reuniam para jogar bola. Neste dia, a gente vestia o uniforme dos meninos e a gente emprestava nossas vestimentas para eles. Assim, os meninos colocavam nossa saia, nossa legging ou nosso vestido para jogar bola. A gente fazia essa partida sempre no final de ano valendo alguma coisa, como cerveja. E, quem perdesse ou ganhasse tomaria de qualquer jeito. Quando a gente estava jogando bola, a recordação que eu tenho é que a gente achava muito engraçado. Os meninos corriam e baixavam as saias, tentando não mostrar as partes íntimas, porque a roupa subia. Isso entre 2014 e 2015, a gente jogava como entretenimento, diversão, e foi o mesmo tempo que a gente ainda jogava na escola, tentava brincar e ocupar os espaços. Em 2016, a gente recebeu o convite de um colega. Ele via a gente jogando bola e perguntou se a gente não gostaria de jogar contra um time da região de Parelheiros, que era o União de Parelheiros. Eu comentei com ele que uma coisa era jogar sem compromisso e a outra coisa era coordenar um time de futebol. Mas, nós aceitamos esse desafio. Eu e minhas irmãs, que são Silvani, Silvia e Sideilde, decidimos convidar as meninas para o festival. A gente ouviu muitos relatos delas dizendo que não podiam jogar porque estavam acima do peso, ou porque estava gestante, ou porque tinham filhos e não tinham com quem deixar, ou porque estavam em relacionamentos onde o companheiro ou a companheira não permitia que jogassem bola, ou relações familiares que os pais achavam que se a filha jogasse bola teria influência na orientação sexual, ou porque futebol é coisa de homem. Ouvimos tantas coisas que, naquele momento, ficamos um pouco desanimadas. Mas, ao mesmo tempo, a gente acreditava que mesmo sendo quatro irmãs, a gente conseguia jogar bola. Por que desistir? Aí aconteceu que no dia do jogo de futebol, apareceram quase 30 mulheres. Neste dia, nos olhamos e nos perguntamos o que íamos fazer. Uma coisa é jogar, outra coisa é ter a base técnica do que é o futebol. Nesse dia o universo ajudou a gente, porque o time adversário não compareceu. E a gente tem falado que isso foi bom. Algumas meninas foram embora, outras permaneceram e a gente jogou um futebol entre nós. Então a gente decidiu que a partir daquele dia, todos os domingos a gente se encontraria para jogar bola. E foi dali que, de fato, a gente constituiu um time. A gente fala que é 2014 porque a gente estava envolvida com o futebol, mas foi em 2016, que a gente começou a participar de competições, e a gente é chamada para participar da Copa Delfino Braga, em Embu-Guaçu, do torneio do Parque Florestal e outras competições. Quando em 2016 é criada a Liga Feminina de Futebol Amador, a gente começa a fazer parte. Acho que foi muito intencional do próprio universo envolvendo a gente na prática esportiva. Então a gente foi participando e jogando bola.
(00:36:05) P1 - Quais as memórias mais antigas você tem de futebol de várzea?
(00:36:14) R - Em 2016, no Parque Florestal, era um fut7 num terrão e a gente jogava bola ali, tinha época até que tava aquele dia de chuva e a gente tava jogando. Nosso time sempre foi um time misto de mulheres adultas e durante a partida a gente sempre escutava as pessoas falando que nosso time era de pessoas velhas. Isso desmobilizava as meninas psicologicamente. Mas a gente foi entendendo que ocupar esse espaço também era resistência. Quando a gente foi para outro campo, que é na região do Marsilac, um local mais distante, nosso jogo é sempre dentro da várzea, e os jogos femininos sempre foram depois das duas horas da tarde. Isso ainda acontece. Quando você começa a jogar às duas horas da tarde no espaço, todo mundo já está indo embora para sua casa, não tem torcida, ou as pessoas saem de um jogo e chegam ali para curtir a sua resenha, a gente começou a entender que precisava mudar alguma coisa na estrutura do futebol de várzea. Dentro das regiões periféricas a gente tem um privilégio que são os campos de terrão e de gramado natural. Nós temos aqui um campo de gramado natural que a gente sempre utilizou. Mas, querendo ou não, é um território que, pensando no futebol feminino, muita gente não ocupa. Os times ocupam mais os territórios centralizados do que os territórios periféricos. Mas o futebol de várzea, me traz uma lembrança de um local de acolhimento. Apesar de ser de muita resistência, é um local de acolhimento para tantas outras meninas e mulheres. Quando eu trago para você a história de que a gente, por um instante, achou que não teriam meninas para jogar e a gente, aos poucos, foi trazendo as meninas. A gente falou para elas levarem seus filhos e filhas, que teriam outras meninas nessas condições e que a gente podia olhar uma os filhos das outras enquanto elas jogavam bola. E - também - dizer para família que é possível aquela menina jogar bola e acompanhar competições. Assim, a gente foi entendendo que é um espaço de acolhimento. Acho que não tem um território periférico que não exista um campo de futebol, porque é um lugar onde as pessoas se encontram, seja para fazer seu piquenique, seja para jogar bola, fazer seu vôlei. Mas o futebol, principalmente o futebol de várzea, trabalha a questão da participação e da educação. É um esporte educacional. As pessoas vêm para poder jogar bola e entendem que é possível construir relações positivas nesse meio.
(00:38:57) P1 - Você falou dessa relação comunitária que o futebol de várzea tem e que, de alguma forma, acaba envolvendo todas as pessoas, ainda que existam camadas de invisibilização. Antes de vocês formarem o time, como você percebia os espaços que essas mulheres ocupavam na várzea?
(00:39:25) R - Os espaços que essas mulheres ocupavam na várzea não eram dentro do campo. Isso você pode ter certeza. As mulheres ainda ocupavam lugares que eram dos afazeres domésticos, como a dona do lar, a diarista, ou muitas vezes trabalhavam fora, e ainda não tinham esse espaço oportunizado para essas mulheres. Foi por esse fator que a gente entendeu que muitas mulheres são atravessadas diariamente, seja pelo sexismo, machismo, racismo, a gordofobia e a homofobia. Quando elas saem das suas residências, que também é um lugar que, por vezes, elas vivem a violência doméstica, elas fazem esse trajeto até o campo de futebol e neste espaço sofrem outras violências…a gente não podia permitir isso. Apesar de que muitas meninas e mulheres não compreendiam esse movimento que a gente estava fazendo. Elas olhavam para nós e achavam que queríamos briga e encrenca. E a gente entendeu que era dessa forma que a gente falaria para as outras pessoas que não era legal o que elas estavam fazendo. Mas a gente também buscou outros caminhos. Eu como tenho um trabalho anterior com literatura e bibliotecas comunitárias e conheci outras referências. Quando eu conheci Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo [escritoras brasileiras], Chimamanda Ngozi Adichie [escritora nigeriana], Malala [ativista paquistanesa], Tati Pretta Soul [rapper/cantora brasileira], Elânia Francisca [psicóloga brasileira]...eu fui tendo outras referências como mulheres, na literatura. E, eu me perguntei por que eu e minhas irmãs não poderíamos ser referência para outras meninas e mulheres. Por que não dizer para elas que é possível estar em um espaço seguro, poder jogar bola tranquilamente sem sofrer opressões que a gente vai sofrendo. E um dos primeiros movimentos que a gente fez dentro do campo de futebol foram as rodas de conversa. Nós tivemos uma sacada de trazer assuntos que às vezes rolavam nessa época de 2016 e 2017. A gente ouvia muito chamar as meninas de Maria Macho, quando a menina era bem habilidosa era comparada com o gênero masculino. Ou chamavam a nossa goleira de mão de alface, ou trazendo isso para a questão da orientação sexual. Então a gente aproveitava esse momento de conversa para trazer esses assuntos, e num momento de diálogo, de brincadeira, de descontração a gente podia falar sobre isso. Chegou um momento que a gente falou para elas que isso podia ser chamado de roda de conversa. Todos os jogos, antes ou depois, a gente fazia rodas de conversa. Num outro momento nós levamos as meninas para dentro da biblioteca e fizemos um clube do livro para que elas pudessem ler Sejamos todos feministas, de Chimamanda, e entender que além de ter um espaço para jogar bola, a gente precisava se unir para falar de outros assuntos que nos atravessavam para que a gente pudesse jogar bola tranquilamente. Imagina a gente ter que jogar bola e antes de jogar ter que discutir com as outras pessoas sobre os nossos direitos que estavam sendo violados naquele espaço? A gente buscou caminhos para ser o mais natural possível, para que as meninas não achassem chato estar em campo e ter que passar por isso.
(00:42:58) P1 - De alguma forma, você fala um pouco que jogar bola para vocês não era só jogar bola, era algo que envolvia também a formação de uma consciência política de estar disputando um espaço.
(00:43:10) R - Sim.
(00:43:11) P1 - Nesse sentido, o nome do time me parece que tem um papel muito importante também de afirmação. Como foi a escolha do nome do time Perifeminas?
(00:43:21) R - O nome Perifeminas é a inspiração de uma coletânea de livros do movimento do hip-hop. Existe um livro chamado Perifeminas, e nós conhecemos na biblioteca comunitária, Caminhos da Leitura. A gente buscava um nome para o time e se perguntou por que não colocar esse nome. A gente estava olhando para a história de outras mulheres que estavam no movimento do hip-hop e estavam no momento também da cena querendo visibilidade e o reconhecimento. As mulheres estavam fomentando o hip-hop, e ainda assim a figura masculina era a que sempre estava em destaque. A gente precisava se unir! Quando eu trouxe essas referências de escritoras e falei que queria ser referência para as outras mulheres, a gente decidiu colocar esse nome como inspiração. Eu sempre falo que o nome Perifeminas foi porque a gente se inspirou em outras mulheres. Dentro dessa escrita temos duas pessoas, a Tati Pretta Soul e a Elânia Francisca, que também foram escritoras desse livro. Elas são também do território de Parelheiros. Poder olhar para elas e pensar: “poxa, a gente não vai se desligar, a gente vai continuar”. Elas fizeram a gente olhar com carinho, e dessa forma fomentar a escrita feita por mulheres dentro do futebol. Tanto é que a gente tem o nome Perifeminas e todos os nossos uniformes são frases de escritoras e assim a gente foi levando a literatura, se as pessoas procuram entender o nome e ver o nosso uniforme. Porque se a sociedade tem uma dificuldade imensa de ouvir as nossas vozes, elas terão que ler nossos corpos. E ao ler os nossos corpos elas leem todas as outras escritoras, sejam brasileiras ou internacionais. Foi assim que a gente buscou formas de introduzir a literatura. Eu sou defensora da literatura. Poder envolver hoje futebol e literatura, para mim, foi um encaixe perfeito.
(00:45:33) P1 - Você está falando de literatura e, de alguma forma, do feminismo, e adentrando um universo extremamente, ainda, hegemonicamente masculino. Conhecendo um pouco da história, uma das pautas que o time mais chama à atenção é a da maternidade. Como esse tema e outros debates políticos se relacionam com a história do Perifeminas?
(00:46:11) R - Relatar o início da história do Perifeminas, onde muitas meninas se ausentaram por conta da maternidade, é ao mesmo tempo olhar para nossa história. Eu sou mãe também, do Octávio, que vai fazer 17 anos em julho, e as minhas irmãs também são mães e atletas e a gente percebeu que o time é uma rede que a gente vai se conectando e a gente tem que se abraçar. É um movimento que a gente pensou em como se acolher. Temos um histórico de muitas meninas levarem seus filhos e filhas para o futebol, e de alguma forma dizer “pode levar lá que a gente olha”. Tem duas irmãs que moram aqui no Barragem, que é a Ana Paula e a Hortência, que também são mães. A Hortência conta, que ela estava num processo de depressão quando ela teve a filha dela, que nasceu prematura e de parto cesárea, e ela ia para os campos jogar bola e a gente dava todo suporte. A Ana Paula também vivendo a maternidade e se autodescobrindo dentro da sua orientação sexual. De alguma forma, a maternidade, apesar das vidas diferentes, passava pela vida dessas mulheres e não tem como se desvincular. Claro que a gente quer que a família dê apoio, claro que a gente entende que a comunidade, a sociedade também deveria se responsabilizar pela educação dessas crianças. A gente entende também que as mulheres, querendo ou não, têm força. A gente apoia umas às outras para que a gente possa fazer com que as outras pessoas enxerguem isso também como responsabilidade delas. A maternidade sempre foi muito presente. Meu filho que me acompanha desde quando ele era pequenininho no futebol, e ele começou a pedir muito para jogar bola, para ir para a escolinha de futebol. Como colocar numa escola de futebol se eu não tinha condições financeiras para custear todas as despesas? Ao mesmo tempo foi uma época que a minha irmã, Silvani, estava grávida e ela precisou se ausentar do futebol. Minhas outras irmãs acabaram também se ausentando da prática esportiva, uma porque teve uma lesão e a outra por uma questão de saúde. Nesse momento, era eu e meu filho, e eu não queria acabar com o futebol porque era aquilo que me movia, aquilo que fazia com que eu acordasse e estivesse ali jogando bola, fazia eu olhar para outras mulheres de forma diferente. Às vezes as pessoas me perguntavam o porquê desse olhar diferente. É que eu me via na vida dessas meninas fazendo algum diferencial. E, ao mesmo tempo, eu olhava para vida das minhas irmãs e pensava que eu precisava quebrar ciclos, interromper eles porque dá para a gente fazer uma história diferente. E, em 2018, depois que o Perifeminas deu uma pausa, eu decidi que o time não acabaria e voltei para as quadras. Eu voltei com o meu filho e a minha sobrinha Maiara. A gente ia para a quadra jogar bola, bater a bola na parede e brincar. E eu tive uma sacada sobre o pedido do meu filho de ir para a escolinha de futebol. Se eu e minhas irmãs conseguimos criar um time e colocar as meninas para jogar, por que não criar um time também masculino? Assim, a gente criou a primeira categoria do Perifemanos, em 2018 com as crianças pequenas, de 8, 9 e 10 anos. Foi uma forma de acolher filhos e filhas de outras meninas, e fazer com que as meninas chegassem ao futebol. Porque se a menina não vem no futebol porque não tem ninguém para cuidar dos filhos, ela consegue trazer seus filhos e filhas e a gente vai jogar bola. A maternidade esteve muito presente nesse sentido. Existe a ausência paterna e consequentemente a sociedade ainda responsabiliza as mulheres por, às vezes, escolher ou não escolher ser mãe. Nesse momento, a gente decidiu só acolher e escutar, e criar um time de base masculino. Ao mesmo tempo, a gente retoma com o Perifeminas também, e chegam outras meninas e mulheres mais novas, como a Maiara e a Bianca. A gente entendeu que trabalhar a maternidade no futebol não era só falar para menina jogar bola, mas era criar também algo que fortalecesse essas meninas.
(00:51:08) P1 - Em 2018 tem a formação do Perifemanos, um time de base para meninos. Hoje, como está organizado e estruturado o Perifeminas e Perifemanos? São quantos times?
(00:51:2) R - Hoje nós no Perifeminas, temos o Sub-16, que são as meninas que acabaram de participar da primeira edição da Taça das Formigas, realizada pela própria jogadora, e a gente saiu como campeã ouro. Para nós foi um resultado muito importante. O Sub-16 foi a categoria que a gente acabou de criar esse ano, porque o Perifeminas durante esses 12 anos de história, foi uma categoria livre, como a gente chama dentro do futebol feminino. Eram meninas e mulheres, dos 13 aos 50 anos, porque a gente não conseguia fazer subcategorias. E, nesse ano, a gente conseguiu montar o Sub-16 e foi a primeira competição em que as meninas participaram e saíram vitoriosas. Mais do que esse título de campeãs, elas puderam conhecer mulheres pioneiras do futebol, conhecer quem está no futebol profissional atualmente e ter a oportunidade também de, talvez, entrar para algum time de base profissional. No masculino, a gente tem a categoria adulto, esporte, que são os meninos acima de 16 anos e também a gente tem a categoria masculina sub-18, que eu sou treinadora. Sou treinadora também da categoria livre do Perifeminas e do sub-16. A minha irmã, a Sideilde, é treinadora do esporte. Tem a Débora, que é instrutora esportiva, e a Silvani, que está como auxiliar. A Débora entrou como instrutora porque no ano passado a gente conseguiu um apoio-patrocínio de uma organização, e a gente decidiu montar a base. Porque a gente foi entendendo que quando a gente olha para o histórico do futebol feminino de Várzea, acredito que nesses cinco anos, a gente perdeu mais de dez times femininos. Mais de dez times femininos desfeitos! A gente sabe que a ausência das meninas é porque trabalham de domingo a domingo e não conseguem praticar. Muitas meninas focam nos estudos e também não conseguem jogar bola. Tem uma evasão no futebol! Esse mês a gente foi falar sobre dignidade menstrual. Muitas meninas, por não terem o próprio absorvente ou não ter suporte, ou até mesmo por conta de dores abdominais, deixam aos poucos o esporte. Tem ainda a questão dos responsáveis não permitirem que muitas meninas e mulheres joguem bola. Tem também a questão da exposição à violência, ao deixar uma menina sair de um bairro para o outro. Ou porque é menor de idade ou não tem uma chuteira para jogar bola. Todos esses fatores a gente foi entendendo. Tem uma outra questão também dentro do futebol de várzea que a gente enxerga, é que enquanto eu estou fomentando o futebol de várzea, a base, muitos treinadores e treinadoras pegam as meninas de outras equipes e montam uma equipe apenas para uma competição específica. Isso enfraquece quem está se formando na base. Por conta de todos esses fatores e relatos que a gente foi ouvindo de outras pessoas que estão à frente do futebol feminino, a gente decidiu criar, no ano passado, o futebol de base. A gente tem desde Mirella, de 4 anos, até a Catarine, que tem 17 anos. Nesse futebol, a gente pensou em não preparar as meninas para essas competições, mas ensinar para essas meninas que o futebol também é um esporte para lazer. Trabalhar também as competências socioemocionais. Por exemplo, como a gente denomina o que está sentindo, como a gente sente tudo que reverbera dentro da gente. A gente começou a levar a mediação de leitura também para essas meninas. Começou a fazer roda de conversa, trabalhar a respiração. Ou seja, preparar essa base para que elas possam entrar daqui a pouco no sub-16, ou na categoria livre. Hoje, o Perifeminas acaba tendo esse trabalho. E a Débora, uma das instrutoras, auxilia as meninas menores nesse processo como um todo.
(00:55:35) P1 - As meninas menores fazem as atividades de treino e formação quantas vezes por semana?
(00:55:44) R - Atualmente a gente tem se encontrado no final de semana. No ano passado a gente conseguia fazer de duas a três vezes na semana, mas por conta das meninas terem escola e um outro espaço que é contraturno escolar, o CC Inter, um espaço intergeracional, e tem ainda a catequese, que muitas famílias ainda que preservam esse ensino. A gente entendeu que a dinâmica na semana era diferente do final de semana. Assim, a gente sempre se encontra aos finais de semana ou feriado, quando é possível. A gente acaba se encontrando tanto com as meninas menores, quanto com as subcategorias e as categorias livres.
(00:56:25) P1 - Como é que você vê o cenário do futebol feminino de várzea, em São Paulo?
(00:56:35) R - Hoje, eu enxergo o futebol feminino de várzea tendo mais visibilidade. São 12 anos de história e antes a gente não tinha visibilidade. A gente começou a jogar bola porque a gente gostava e queria praticar um esporte. Hoje, a gente fomenta e entende que isso é uma política pública, que a gente exige, questiona e vê o futebol. Em 2027 a gente vai celebrar a Copa aqui no Brasil, vão ter amistosos e neste sábado vai acontecer um amistoso. Ver os estádios lotados, as pessoas adquirindo ingresso e quem diria que a gente conseguiria estar próximo das jogadoras e ter reconhecimento? Atualmente, as pioneiras vão ter reconhecimento e serão premiadas financeiramente pela participação na Copa. Eu enxergo como potência e isso só acontece porque nós tivemos as pioneiras que resistiram e resistem até hoje e por tantas outras pessoas que continuam fomentando o futebol de alguma forma, seja treinando, narrando, apitando o jogo, seja ali dando reportagem. As mulheres têm ocupado esse cenário do futebol feminino de todas as formas. Hoje tem muitos cursos também sobre liderança de mulheres no esporte. Atualmente, eu fui convidada para ser mentora e pela primeira vez eu vou ser mentora de outras mulheres que estão se formando como treinadoras. Eu olho que a gente está conseguindo alcançar essa valorização e visibilidade que tanta gente sonha, mas a gente compreende que ainda existe um caminho pela frente a ser seguido.
(00:58:17) P1 - Você falou que em 2016 houve a construção da Liga de Futebol. Queria que você falasse um pouco da Liga e quais são os circuitos que o time do Perifeminas participa atualmente.
(00:58:34) R - Em 2016, aconteceu o primeiro torneio do Parque Florestal, e naquela época foram vários times. Foi o ano que foram criados muitos times femininos na cidade de São Paulo. A gente participou dessa competição e conseguiu reunir em média de oito a dez equipes jogando bola. E através da Maria Morim, ela viu um potencial de formar a Liga Feminina de Futebol Amador, e fez o convite para algumas equipes e o Perifeminas foi uma das equipes que começou a fazer parte da Liga. A Liga realizou várias competições. A gente também tem um grupo que normalmente faz competições e sempre está em contato para fomentar para as competições não acabarem. Joga uma equipe contra a outra, a gente visita os territórios e recebe visitas de outras equipes. A gente vai fazendo esse movimento para não se perder e se fortalecer. Hoje, apesar de muitos times serem distantes de um bairro para o outro, a gente ainda segue firme fazendo isso. O Perifeminas é um time que tem buscado sempre participar de competições que também é política. A gente é muito estratégica pensando nos espaços que a gente vai ocupar para que, de fato, a gente continue fomentando o futebol, tendo visibilidade, abertura para poder falar sobre o futebol de várzea e para que todos os times sejam reconhecidos. Pensar mais na estratégia do que na competição em si, porque a gente entende que a gente quer que no nosso time as meninas joguem bola. Às vezes, muitas meninas ficam com medo, com receio, aquele frio na barriga de entrar em tal competição. O que a gente não quer é que as meninas cheguem desmotivadas para certas competições, porque a gente sabe que tem times com potencial muito grande e uma trajetória de vitórias consecutivas. Quando você se inscreve numa competição, e às vezes você vê esses times, dá um desânimo, porque tem times que têm uma estrutura. E outros times que, por mais que estão ali fomentando o futebol, às vezes não conseguem ter uma estrutura mínima. A gente vai trabalhando com essas meninas que a participação é o meio e que a vitória é um pós, um reconhecimento daquilo que a gente vai fazendo. E se não vier a vitória, a gente vai trabalhar nos nossos treinos e trabalhar o coletivo para entender. Então a gente vai participando. Muitas competições que a gente participa é a partir de convites. As pessoas convidam a gente para participar e a gente aceita, porque entende que é importante ocupar esses espaços.
(01:01:22) P1 - Recentemente tem havido um crescente investimento no futebol de várzea, por ser também um fenômeno muito plural, tem vários torneios que pagam prêmios grandes, times que pagam jogadores e até um movimento de ex-jogadores profissionais que jogam no futebol de várzea. Você percebe um reflexo disso no futebol feminino de várzea?
(01:01:53) R - Sim, tem essas competições, como a Taça das Favelas e acontecem as peneiras. Muitas meninas que estão jogando nesses times, que estão sendo formados, são meninas que participaram da peneira tanto da taça quanto de outras competições e elas são pagas. Recentemente, fiquei sabendo que tem um aplicativo onde as meninas podem fazer inscrição e quem quiser paga. Quem paga mais consegue a atleta para a competição. Ao mesmo tempo, as competições têm tido esse olhar para o futebol feminino. No ano retrasado, eu fiz parte da comissão da Supercopa, que aconteceu no bairro do Grajaú. Pude ver de perto o que é organizar uma competição e saí por algumas questões. E olhar que existe muito mais oportunidade! A taça que nós participamos, que é a Taça das Formigas, a Liga das Minas, são competições que quem está organizando, às vezes, não oferece a premiação em dinheiro, mas eles custeiam, desde o transporte, o uniforme, a alimentação e dão um presentinho com medalha e troféu. Há outras competições em que a premiação é em dinheiro ou dão o uniforme. Hoje, a gente enxerga que há um suporte para essas equipes. Mas se a gente colocar na balança, tem equipes que os custos de inscrições são super altos e você não consegue custear, mesmo que você divida esse valor entre atletas, você não consegue. Por isso que eu falo que nós, Perifeminas, tem estratégia para escolher as competições. Tem competições que, às vezes, o custo é R$500 uma inscrição, e não tem como participar, porque você também tem que pagar o juiz, pagar o transporte, alimentação e o custo sai bem alto. Para se manter no cenário do futebol, a gente segue por caminhos que a gente consegue ter mais acesso.
(01:03:51) P1 - Como você avalia, nesse histórico de 12 anos, a relação que o Perifeminas tem com a comunidade do Barragem?
(01:04:02) R - A gente construiu uma relação muito sólida com o território da Barragem. Hoje, nós somos referência, as pessoas olham para nós como a família que faz pelo bairro. Eu escuto muitas pessoas falando para me filiar em algum partido e me candidatar. Onde eu passo, as pessoas falam do trabalho que a gente faz. Eu falo, que da forma que nós estamos, a gente tem feito com muita qualidade. Claro que é importante chegar no poder, porque é uma forma que a gente consegue acessar muitas outras coisas, mas eu não sei se alcançar o poder, eu consigo executar aquilo que eu desejo para o meu território. Porque a gente sabe as lacunas que acontecem nesse caminho. Quando a gente não está no futebol, minha casa está cheia, principalmente dos meninos. Os meninos falam: “tia Neia, a gente pode ir para a sua casa?” Eles vêm e passam a noite, a gente conversa, come uma pizza, faz um churrasco. No final de semana retrasado, eles jogaram e perderam! Quando eu olhei, eles estavam muito desmotivados, não estavam numa vibe boa. Eu falei para gente ir para casa e fazer um churrasco! Eles falaram: “mas como assim, a gente perdeu?” Eu falei, vocês não perderam! Vocês saíram de um território e foram jogar em outro lugar, vocês estão fazendo o que vocês amam. Então, a gente fez o churrasco. Tem também que conversar com os responsáveis, ontem mesmo eu estava conversando com uma das mães de um dos meninos, falando sobre o quanto é importante o futebol, porque a gente trabalha a redução de danos na vida dessas meninas e desses meninos, de alguma forma. Porque eles podem se envolver com qualquer outra coisa que a gente denomina como errado. Mas não adianta eu chegar e falar, sai dessa vida, não faz isso, se eu não dou suporte e apoio. Principalmente os meninos, no futebol de várzea, eu sinto que eles buscam essa escuta, que por vezes não tem. Por conta de uma figura masculinizada, sobre o que é ser homem, de não poder chorar e conversar. Achar que o homem tem que ser forte o tempo todo. A gente, dentro do bairro, desde os meninos pequenos, constrói essa relação. Quando a gente olha para as meninas, e fala, dentro da comunidade, que é possível jogar bola, chama para conversar e diz que pode não ser o futebol a escolha hoje, mas pode escolher outra profissão. A gente vai buscando caminhos. Se eu saio daqui, a comunidade fala e quando, às vezes, passa na televisão, e reconhece que é do Barragem, de alguma forma, a gente fez com que o bairro fosse reconhecido. E é graças à comunidade. Se a comunidade não nos acolhesse também, isso não faria sentido.
(01:06:56) P1 - Pensando nos meninos, especificamente nos Perifamanos, seja os que jogam no time ou os que olham de fora, você percebe se existe algum tipo de receio e desconfiança inicial em fazer parte de um time que tem um protagonismo marcadamente feminino?
(01:07:24) R - Sim, claro. Acho que ter uma mulher à frente é como se fosse um problema! Porque querendo ou não, a gente ainda vive dentro de uma estrutura machista. Hoje, eu e minha irmã tomamos conta do campo de futebol aqui do bairro, e existe uma resistência, porque quem ocupa 100% do campo de futebol são os times masculinos. E não há reconhecimento por parte desses times. Você põe na ponta do lápis quem reconhece todo o trabalho que a gente faz. Desvalorizam, acham que a gente não tem feito um bom trabalho. Há uma cobrança excessiva que, às vezes, faz com que você queira desistir, desse zelo e desse cuidado. Ainda existe essa resistência, porque para eles a figura feminina não deveria ocupar um esporte, que por muito tempo foi falado que é masculino. Mas, por outro lado, a gente tem visto outros meninos enxergarem isso com bons olhos. Não à toa hoje a gente consegue ter as minhas irmãs e minha companheira treinando os meninos. Esses meninos reconhecem e valorizam tudo o que a gente vem fazendo. Tem uma parcela que ainda não reconhece, desvaloriza e não aceita, mas a gente tem, com outros meninos e outros homens, mostrado um cenário que é possível a gente trabalhar juntos. A gente não está aqui porque um tem que estar à frente do outro, um tem que ser mais que o outro. A gente trabalha pela equidade, que é possível trabalhar junto. A gente sabe que ainda é um caminho que a gente tem que percorrer, mas a gente tem feito o nosso trabalho, mesmo que seja com muita resistência.
(01:09:15) P1 - Você falou sobre o Perifeminas e Perifemanos terem que decidir quais espaços querem ocupar. Um dos espaços escolhido foi com times LGBTQIA+. Tiveram os amistosos com o T Mosqueteiros, um time transmasculino, por exemplo. Queria que você falasse um pouco sobre essas experiências.
(01:09:53) R - Dentro do futebol feminino, hoje, quando você participa das competições e, principalmente, quando você encontra outras meninas, a gente vê a questão da identidade de gênero e da própria orientação sexual. Muitas meninas, enquanto estão no futebol, elas estão ali livremente. Mas a gente sabe que quando elas voltam para as suas famílias, elas não conseguem estar nesse espaço familiar sendo quem elas são. A gente foi entendendo como acolher essas meninas. E para acolher essas meninas, eu preciso entender do assunto, entender da realidade. Hoje, eu sou casada com uma mulher. Muita gente me pergunta como é essa relação com meu filho e se ele aceita. Eu respondo, que ele respeita. A gente foi construindo com respeito, porque a gente entendeu que essas meninas precisavam construir essas relações nas famílias. Não que isso tenha mudado e que as famílias tenham aceitado, mas hoje elas conseguem se posicionar e dizer para a família quem elas são. Quando a gente começa a entrar nessas competições, é para ocupar espaços e para a gente dialogar junto. Não tem como a gente caminhar sozinha. O T Mosqueteiros é um time também, para gente, de referência e o Bernardo é o nosso conselheiro. Como falar sobre o futebol de pessoas trans, se indiretamente a gente não tinha ninguém no time? Atualmente nós temos. Mas a gente precisa se conectar a essas pessoas que vivem na pele diariamente para que elas possam também nos ensinar como lidar com situações vividas, como dialogar sobre os temas. Como você dialoga com o tema e com as coisas que vão acontecendo se você não quiser saber? Precisa querer saber! Foi uma oportunidade para a gente poder ocupar esses espaços e entender. Nessa competição, a Supercopa, que eu fiz parte da organização, a gente teve que lidar com uma situação em que uma pessoa que ia se inscrever na competição feminina, era uma pessoa que se denominava como transmasculino. Os demais não queriam concordar, pois entendiam que era um homem. Eu falei, gente, estamos falando sobre futebol de várzea. A gente começaria uma segregação, quem é trans joga com trans e quem é feminino joga com feminino e quem é masculino joga com masculino. Desde a nossa infância, a gente sempre jogou junto. Por que não acolher antes de fazer pré-julgamento? Se você for no futebol de várzea masculino, as pessoas trans não serão acolhidas, a gente sabe. Então, a gente começa pelo futebol feminino, para acolher todas as pessoas. Depois a gente dialoga sobre como são esses espaços. A gente vai entendendo o que é estar junto para combater toda a homofobia, todo preconceito e toda transfobia. Hoje, é uma luta que eu defendo, para que a gente possa ser livre, ser quem somos.
(01:13:22) P1 - Quantas pessoas fazem parte do time?
(01:13:25) R - Eu acredito que no feminino a gente deve ter uma média de 25 meninas e no masculino também. Porque, muitos meninos que jogam no sub-18 jogam no esporte. Do feminino a mesma coisa. Então a gente tem uma média de 25 em cada categoria. Na base a gente tinha mais ou menos 15, entre crianças, adolescentes e jovens.
(01:13:55) P1 - Vocês têm o suporte de uma ONG, em termos de estrutura. Tem algum outro apoio também, por exemplo, da quadra, que vocês administram?
(01:14:09) R - Atualmente, nós não temos nenhum patrocínio, nenhum apoio financeiro. Nós temos o apoio da comunidade. Desde a escola que cede a quadra para gente utilizar, um clube que tem aqui no bairro e que também cede seu fut7 para a gente jogar bola, e o campo, que vai fazer três anos que eu e minhas irmãs somos responsáveis e a gente pode utilizar. Nós temos equipamentos porque a gente sempre está fazendo algum ato e buscando doação ou porque alguém viu o nosso trabalho através das redes sociais. Quando a gente consegue patrocínio, a gente sempre faz a compra de equipamentos, que são: trave, travinha, bolas, cones, chuteira. A gente sempre recebe alguma doação, que faz a gente se manter.
(01:15:01) P1 - Qual foi o jogo ou evento mais significativo que você esteve presente?
(01:15:10) R - Eu vou citar os dois mais recentes. Nesses anos de Taça das Favelas, eu nunca tinha participado nem como atleta ou com a equipe do Perifeminas. Mas, esse ano eu tive a oportunidade de jogar com a Favela 37, na zaga, que é a minha posição. Para mim foi um feito muito grande participar de uma competição que, querendo ou não, tem nome, e poder jogar. As pessoas perguntam sempre, se sou uma jogadora habilidosa, faço o drible, faço isso e aquilo, porque elas ainda têm um estereótipo do que é ser atleta. Para mim foi muito importante jogar, não veio a vitória em campo, mas o reconhecimento de poder ser chamada para jogar. Isso ficou para a história. A segunda competição foi a Taça das Formigas, que foi a primeira edição da Taça, organizada pela jogadora Formiga [ex-futebolista brasileira]. Pude levar as meninas para jogarem bola, elas brilharam, jogaram muito foram reconhecidas e elogiadas. Nós recebemos também um troféu como treinadoras. Algumas pessoas desacreditaram da equipe, mesmo as atletas que entraram pela primeira vez na equipe, quando olharam para as outras meninas comentaram que não ganhariam porque as meninas não eram boas. Por incrível que pareça, dos quatro jogos, as meninas levaram as quatro vitórias. Para nós é um feito grande estar dentro de um território periférico que ainda não tem o olhar do poder público, não tem o suporte, mas a gente segue firme fomentando e olhando os olhos dessas meninas brilharem. Muitas ainda tem o desejo de seguir profissionalmente e serem chamadas para fazer uma peneira, uma avaliação. A gente fala que será da Barragem para o mundo.
(01:17:15) P1 - Qual experiência você considera mais desafiadora já vivida na várzea?
(01:17:24) R - A experiência mais desafiadora, e que não deixa de existir, é o desafio de você manter as meninas na equipe. É pensar o tempo todo em estratégia de como fazer com que as meninas não deixem de jogar bola, como fazer com que essas meninas participem dos treinos e das competições, esse é um desafio que continua. E, como levar essas meninas para jogar bola, porque nem todo mundo quer vir aqui para o bairro da Barragem, mas todo mundo quer que a gente vá para os outros territórios jogar. É um cenário que a gente vive e a gente sabe que outros territórios periféricos vivem isso também. A gente escuta muitos relatos sobre isso, mas o desafio maior que a gente vive diariamente é saber se a gente vai ter a equipe sempre para as competições. Porque muda da noite para o dia, dificilmente a gente consegue ter a equipe completa numa competição. Agora a gente está formando meninas que são mais novas para poder jogar, mas a gente sabe que a vida está aí, o trabalho, os estudos, outros sonhos que elas vão seguindo. Acho que esse é o maior desafio que a gente está passando.
(01:18:46) P1 - Nessa linha de momentos desafiadores e a dificuldade de manter um time, como foi a experiência na pandemia, pessoalmente e para o time?
(01:19:00) R - Na pandemia, nós tivemos que dar uma pausa, entendendo e respeitando a questão de saúde de todos os atletas. Nós paramos de treinar, de jogar bola, mas a gente ainda continuou fazendo ações que estavam mais próximas da gente. Fizemos campanha referente à vacinação, entrega de máscaras e de cesta básica. Foi uma época que a gente conseguiu bastante doações. Desde absorvente, mantimentos, produtos para higiene até álcool em gel. A gente deu o suporte possível para todos os atletas para que eles pudessem ficar em casa. Mesmo falando que era um lugar seguro, a gente acredita que a casa não era 100% segura. A gente deu o suporte necessário. Os treinos pararam, mas a gente pedia para fazerem um vídeo, treinarem em casa, fazerem um alongamento, baterem a bola na parede. Sempre incentivando para que não parassem de fato a prática esportiva.
(01:20:08) P1 - Quais foram os principais valores que você acha que aprendeu através do futebol de várzea?
(01:20:17) R - Os valores que a gente foi construindo dentro do futebol de várzea foi a valorização, valorizar-se, valorizar o outro, a disciplina, o respeito e a dignidade. A gente foi construindo vários valores que foram caminhando na história do Perifeminas. Acho que o maior valor que a gente construiu ao longo dessa história foi a disciplina. Perifeminas é um time que é reconhecido pela disciplina, humildade e dignidade. A gente foi nesses trajetos da vida olhando para isso. Não é possível a gente ocupar um espaço se a gente não tem disciplina. A gente faz isso com muito amor, muito amor mesmo pelo futebol e também com todo o olhar e cuidado para vida dessas meninas, dessas mulheres e dos meninos. O respeito que a gente segue construindo tem feito a diferença nas nossas vidas.
(01:21:39) P1 - Sidineia, como é o seu dia-a-dia?
(01:21:44) R - Na semana eu trabalho com o IBEAC, que é uma organização sem fins lucrativos, trabalho já há 18 anos democratizando o acesso à leitura, ao livro e à literatura de bibliotecas comunitárias. Aos finais de semana eu trabalho fomentando o futebol de várzea, com o Perifeminas, o Perifemanos, estou em eventos esportivos. Na semana, durante a noite, estou estudando. Os cursos que aparecem, eu participo. Atualmente, eu faço um curso chamado Elas na Liderança, o curso tem sido importante para entender um pouco sobre a história do futebol, das pioneiras, entender sobre os direitos das mulheres, como a gente faz a captação de recursos, como ser liderança nesses espaços que exigem muito de nós. Na minha rotina, ao mesmo tempo que eu estou com os times, que eu estou trabalhando, eu também estou estudando. Uma coisa que eu não abro mão é de estudar. Na minha casa eu tenho uma prateleira grandona, que a gente brinca que é a biblioteca Chagas, a biblioteca da Sidineia Chagas, porque eu estudo tudo: feminismo, racismo, a comunidade LGBTQIA+. E tem a questão também da maternidade, eu sou mãe e esposa. Como a gente trabalha a relação familiar no dia a dia. Não tem como se desvincular, a gente vai se organizando no dia a dia.
(01:23:27) P1 - O que você gosta de fazer em momentos de lazer?
(01:23:32) R - Jogar bola! Nos meus momentos de lazer, eu abro mão de tudo para jogar bola. Sábado, eu estava jogando na Taça das Favelas, domingo a gente acompanhou as meninas para jogar a Taça das Formigas, ontem a gente estava com o Perifermano jogando no festival, e os meninos saíram com a vitória. Qualquer abertura que eu tiver, e se não tiver nenhuma competição ou rachão no futebol, o meu lazer é o futebol. Em alguns momentos também, quando eu não estou no futebol, eu estou lendo, para poder conversar e entender esse cenário que a gente vai vivendo.
(01:24:12) P1 - Você falou sobre o seu atual relacionamento e se puder dizer o nome da sua companheira para que eu registre, e peço para falar um pouco mais sobre a maternidade e o que ela mudou na sua vida.
(01:24:31) R - Hoje eu sou casada com a Débora Paulino de Oliveira de Lima. O nosso envolvimento veio a partir do futebol. Eu sou jogadora de futebol na zaga e a Débora é atacante. A gente se viu em alguns momentos no futebol, mas nunca teve contato, nenhum diálogo. Na Supercopa Terceiro Milênio, nós duas fizemos parte da comissão e foi ali que nós tivemos nossa primeira aproximação, através das amigas, dos amigos e a gente começou a frequentar os mesmos lugares. Quando eu me envolvi com a Débora, ela fazia parte de uma outra equipe de várzea, e ela estava excluída do futebol porque a treinadora falava que ela estava acima do peso, que era muito pesada para jogar bola e que ela teria que se cuidar para depois voltar. Eu compreendendo que nós treinadores e treinadoras também somos educadores, não dá para eu olhar para uma atleta minha e dizer para ela se cuidar e depois voltar. Eu tenho que fazer parte desse processo de autocuidado dessa atleta também. E quando eu vi a Débora vivendo isso, sendo uma mulher preta, atravessada pelo racismo, e ao mesmo tempo pela gordofobia, uma pessoa que ama o futebol e que joga muito. Se eu me coloquei como referência para ajudar outras mulheres, eu não poderia deixar de ajudá-la. Eu fui inspirando a Débora, falando da importância de voltar a jogar bola e que ela é potente. E um dos caminhos foi fazer esse convite para ela entrar para o Perifeminas. Hoje, ela é nossa atacante, joga bola, participou da Taça das Favelas do Embu-Guaçu, e vai jogar a Taça das Favelas de São Paulo, é também nossa instrutora. Hoje, o futebol está sendo diferente na vida dela. Na minha família, eu jogo bola, a Débora joga e meu filho, Octávio, também, ele é ponta esquerda. Além de ser mãe dele, eu sou a treinadora. A referência, quando ele fala de futebol, além de ser uma mulher, é a mãe dele que ensinou ele a jogar bola. Essa é a minha relação com a maternidade. Ele saiu agora à tarde para jogar bola com os meninos na quadra, o futebol move as nossas vidas. Tem também uma relação de cuidado com a escola, estudos, o cuidado com a saúde e todo esse diálogo sempre que possível. A minha educação é a de sentar com o Octávio e conversar sobre tudo. Dizer para ele o que está acontecendo e ele me dizer como estão as coisas, uma relação de diálogo. A maternidade passa por isso e a gente está o tempo todo junto. No futebol, em algum curso, na escola. A minha relação de maternidade é muito respeitosa. Hoje, o Octávio é criado por duas mulheres, ele tem duas mães e recentemente, no dia das mães, ele chegou com uma caixa de bombom e ele falou que foi comprar uma caixa de bombom mas lembrou que tem duas mães, então ele comprou duas e presenteou a gente. Os outros meninos acham incrível que o Octávio tem duas mães. Essa é a relação que a gente vai construindo, e o futebol vem junto.
(01:28:06) P1 - Sidineia, o que representa o futebol de várzea para a sua vida?
(01:28:13) R - O futebol de várzea representa para mim conexão. Eu falo que eu existo e resisto por conta do futebol. É ele que me move todos os dias. A Elânia Francisca tem uma frase que diz, “meu corpo é o meu maior instrumento para fazer a revolução”. Quando eu estou dentro do campo, é terapia. Não que eu esqueça os problemas, mas eu consigo conectar os problemas que vão surgindo e procurar soluções possíveis. Eu me conecto àquele movimento que meu corpo está fazendo, aos meus pensamentos, e eu saio muito mais aliviada para poder encarar os problemas que a vida vai dando para a gente. O futebol é o que me move, é o que faz com que eu olhe para a vida das outras pessoas e acreditar que é possível fazer diferente e quebrar ciclos.
(01:29:13) P1 - Qual é a importância do futebol do Barragem para uma cidade como São Paulo e mais especificamente para regiões periféricas, como aqui na Barragem?
(01:29:26) R - A gente sabe que quem consegue acessar os esportes são sempre pessoas de classe alta, pessoas que têm poder aquisitivo. Mas ao mesmo tempo, quando a gente olha para o profissional, quem está lá são os atletas que vieram da periferia e que não tiveram tanto apoio e suporte como deveriam ter. Eu vejo isso com importância. Se a gente reconhecesse mais, valorizasse, patrocinasse, desse todo o apoio e suporte, muitas meninas e meninos alcançariam o desejo do esporte. Seja como atleta, como treinador, como juízes, narradores, jornalistas, ocupando de alguma forma o esporte. Pensar que o esporte também é saúde. A gente cuida da nossa saúde, seja física, mental e emocional. Para mim, o esporte em si é importante. Ele trabalha o desenvolvimento do atleta, de alguma forma. Contribui com a construção de relação, seja familiar ou com a comunidade. Trabalha o convívio e a construção de relações. A gente vai entendendo o que vivencia e consegue conviver melhor em sociedade quando a gente trabalha a coletividade, porque o esporte oferece isso.
(01:30:58) P1 - O que você gostaria que as futuras gerações soubessem, a partir, por exemplo, de um projeto de memória como esse, a respeito do futebol de várzea de São Paulo?
(01:31:11) R - O que eu desejo que as pessoas saibam sobre o futebol de Várzea é que nesse lugar muitas histórias foram feitas, foram contadas, muitas histórias foram acolhidas e que a gente ocupou um lugar que era nosso por direito. A gente tem sido essa referência e inspiração. E também que precisamos manter os campos de futebol de várzea, não pode acabar. É um lugar de encontro de pessoas para jogar bola, para conversar, para se divertir. É um lugar de resistência para as pessoas que estão no futebol de várzea, seja jogando de alguma forma. Acho que é histórico e não tem como a gente se desvincular! O meu maior receio, principalmente com os CDCs [Clube da Comunidade] que estão surgindo, é segregar e limitar a um único público. Quando eu olho para os gramados e para os terrões, é algo que é livre, que todo e qualquer tipo de pessoa ocupa e joga. Eu penso em como não perder essa essência do futebol de várzea que está no território periférico.
(01:32:30) P1 - Qual é o seu sonho para o futuro do futebol de várzea?
(01:32:43) R - Meu sonho para o futebol de várzea é que as meninas e mulheres que a gente tem formado no futebol, possam seguir tanto como atletas, mas também com outras posições no futebol, para que o futebol não acabe. Esse é o meu desejo! Muitas meninas que vem jogar e acham que não se encaixam em qualquer posição dentro do campo, que elas ocupem uma outra posição, mas que continuem fomentando o futebol. Já se passaram 12 anos, então, quando a gente incentiva a minha sobrinha, a Mirella, de 4 anos, a Lívia, que está com 16, a Maiara, que já está com 22 anos, é para que elas continuem com o futebol, de alguma forma, para que ele não acabe. Meu maior medo é que a gente não tenha mais o futebol de várzea, principalmente o futebol de várzea feminino nos territórios periféricos. Eu desejo que as mulheres continuem firmes!
(01:33:41) P1 - O que você ainda almeja viver em um campo de futebol de várzea?
(01:33:49) R - Nosso maior sonho do Perifeminas é que a gente tenha nosso espaço físico para chamar de nosso. E que esse espaço seja seguro e acolhedor para todo e qualquer tipo de pessoa que pratica o esporte. A gente deseja que o Perifeminas seja reconhecido como uma organização que fomenta o futebol de várzea dentro do território de Parelheiros. Esse é o nosso maior sonho, e a gente tem caminhado para isso e para se formalizar. A gente recebeu uma doação de um campo de futebol, e a gente tem depositado todas as nossas forças para isso. A gente quer ver esse campo cheio, de horário em horário, cheio de pessoas jogando bola. A gente sabe que o futebol só vai acabar se a gente não fomentar. Enquanto a gente estiver fomentando, colocando as pessoas para jogar bola, a gente tem a certeza que ele vai continuar. Esse é o nosso maior sonho.
(01:34:49) P1 - Tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e que eu não perguntei?
(01:34:56) R - O que eu gostaria de dizer é que, diferente de tantas histórias de outras meninas que foram proibidas de jogar bola, apesar da minha mãe não ter o conhecimento sobre futebol, não houve uma proibição por parte dela. Não porque ela acreditava que o futebol feminino de fato era para nós mulheres, mas porque ela passou muito tempo da vida dela tendo que se preocupar em trabalhar e criar os filhos. Mas talvez isso, por um lado, tenha sido bom, porque ela não me proibiu ou as minhas irmãs de jogar bola. Mas, por outro lado, claro que a ausência da maternidade, por mais que ela quisesse, não esteve tão forte, mas fez com que a gente pudesse olhar para as nossas vidas e fazer diferente. Hoje, muitas meninas que têm a presença materna ou paterna são proibidas de jogar bola, e a gente sabe que elas têm um desafio muito grande. Por mais que elas amem jogar bola, tem alguém que proíbe e isso é péssimo. O que eu quero poder dizer para essas meninas e mulheres, é que se juntem a outras tantas que estão jogando bola ou que têm o desejo de jogar bola e montem seu próprio time. Se você não consegue entrar em time nenhum, por qualquer outro fator, monte seu time, monte sua equipe, faz que nem nós fizemos no Perifeminas. A gente juntou as irmãs, mas é possível juntar as amigas, os amigos, os amigues, para poder jogar bola.
(01:36:31) P1 - Para concluir, como é que foi essa, agora, segunda experiência de contar a sua história pro Museu da Pessoa?
(01:36:42) R - Quando eu tive a primeira experiência de contar sobre a minha vida para o Museu da Pessoa, eu sempre contava sobre o outro. Contei sobre a minha família, a visão do outro sobre a minha vida. Hoje, eu tive a oportunidade de contar sobre mim, sobre quem eu sou, sobre o que eu tenho construído diariamente. Sobre a pessoa que é a Sidineia. Para mim é importante, e cada entrevista é diferente e faz com que a gente olhe para a nossa história com todo o respeito e carinho. A gente espera que a nossa história também sirva de exemplo, é um legado que a gente vai deixando. Meu filho, morre de vergonha de aparecer nas câmeras e tirar foto. Eu quase não tenho registro com ele. Ele perguntou se precisaria falar, eu disse que talvez precisasse, e ele disse que não. Falei que tudo bem não querer falar, mas quando quiser saber um pouquinho mais sobre a história da sua mãe, ou querer contar para outras pessoas, vai estar no Museu da Pessoa.
(01:37:57) P1 - Obrigada Sidineia, em nome do Museu da Pessoa, agradeço ter compartilhado a sua história novamente conosco. Muito obrigado.
(01:38:03) R - Eu agradeço pelo convite, para mim é uma honra receber vocês aqui na minha casa. São as primeiras pessoas que têm o privilégio de estarem aqui, principalmente no Barragem. A escolha de vir para o Barragem é muito importante para mim. Eu quero que as pessoas saibam de fato o lugar que eu piso todos os dias. Quando eu saio daqui, é essa história que eu saio levando, e de quem também mora nesse bairro. Eu agradeço muito, e que outras histórias possam ser contadas aqui, que eu vou acompanhando. Agradeço muito em nome do Perifeminas e do Perifemanos.
— FIM DA ENTREVISTA —
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