P1 - Alexandro, vou pedir para você para a gente começar, eu quero que você me diga o seu nome completo, o local e a data do nascimento. R - Bom dia, o meu nome completo é Alexsandro Pereira de Jesus. Nascido em 10 de fevereiro de 1979 na cidade de Feira de Santana no Estado da Bahia. P1 - Estado da Bahia. E você trabalha com quê? R - Eu trabalho com material reciclável. P1 - Material reciclável. O que é que você faz? R - Eu cato o material em um aterro aí. P1 - Em um aterro? R - Em um aterro. P1 - E há quanto tempo você faz isso? R - Há 10 anos. P1 - 10 anos? R - 10 anos. P1 - Como é que foi? Como é que você entrou a primeira vez? R - A primeira vez muito complicada. Quando eu decidi ir trabalhar lá eu era de menor e ninguém entrava. Podia se de menor ou de maior, só entrava à noite. E aí eu só trabalhava de noite lá no aterro. Eu trabalhava à noite e o dia não podia trabalhar por causa dos vigias que não deixavam a gente trabalhar. Foi uma dificuldade muito bastante. E eu cheguei para trabalhar lá no aterro porque a minha família estava passando fome e eu necessitava de um emprego. Como eu não arranjava, a minha escolaridade era pequena e ninguém me empregava porque eu andava perambulando pela rua, aí quase ninguém me queria porque eu era pivete: "Não, a gente não vai querer você porque você é pivete, você mora na periferia.". E ninguém queria. Aí uma senhora de idade, mais velha, me indicou: "Por que é que você não vai para o lixão?". Aí eu falei: "Onde é que fica esse lixão?". E ela falou: "Fica lá no bairro Nova Esperança. Vai lá, vai ver se você consegue algum emprego lá.". Aí eu cheguei lá, que nem, minha vida é de catador. Eu comecei a catar minha lata e vendia. E o dinheiro que eu tirava, porque embora não saiba, aquilo era o sustento da minha família em casa, entendeu? P1 - Você vendia para quem nessa época? R - Eu vendia para o rapaz lá que comprava lá, o Seu Valmir. P1 - No...
Continuar leituraP1 - Alexandro, vou pedir para você para a gente começar, eu quero que você me diga o seu nome completo, o local e a data do nascimento. R - Bom dia, o meu nome completo é Alexsandro Pereira de Jesus. Nascido em 10 de fevereiro de 1979 na cidade de Feira de Santana no Estado da Bahia. P1 - Estado da Bahia. E você trabalha com quê? R - Eu trabalho com material reciclável. P1 - Material reciclável. O que é que você faz? R - Eu cato o material em um aterro aí. P1 - Em um aterro? R - Em um aterro. P1 - E há quanto tempo você faz isso? R - Há 10 anos. P1 - 10 anos? R - 10 anos. P1 - Como é que foi? Como é que você entrou a primeira vez? R - A primeira vez muito complicada. Quando eu decidi ir trabalhar lá eu era de menor e ninguém entrava. Podia se de menor ou de maior, só entrava à noite. E aí eu só trabalhava de noite lá no aterro. Eu trabalhava à noite e o dia não podia trabalhar por causa dos vigias que não deixavam a gente trabalhar. Foi uma dificuldade muito bastante. E eu cheguei para trabalhar lá no aterro porque a minha família estava passando fome e eu necessitava de um emprego. Como eu não arranjava, a minha escolaridade era pequena e ninguém me empregava porque eu andava perambulando pela rua, aí quase ninguém me queria porque eu era pivete: "Não, a gente não vai querer você porque você é pivete, você mora na periferia.". E ninguém queria. Aí uma senhora de idade, mais velha, me indicou: "Por que é que você não vai para o lixão?". Aí eu falei: "Onde é que fica esse lixão?". E ela falou: "Fica lá no bairro Nova Esperança. Vai lá, vai ver se você consegue algum emprego lá.". Aí eu cheguei lá, que nem, minha vida é de catador. Eu comecei a catar minha lata e vendia. E o dinheiro que eu tirava, porque embora não saiba, aquilo era o sustento da minha família em casa, entendeu? P1 - Você vendia para quem nessa época? R - Eu vendia para o rapaz lá que comprava lá, o Seu Valmir. P1 - No lixão mesmo você vendia. R - No lixão mesmo. P1 - Você lembra o que você fez a primeira vez que você pegou o dinheiro? R - Mais ou menos. Ah, na primeira vez que eu peguei o dinheiro, eu levei ele para casa e falei assim: "Mãe, hoje a gente vai comer gostoso, hoje a gente vai comer galinha.", que naquele tempo a carne era barata e a galinha era cara. P1 - E ela? R - Ela falou: "Meu filho, você achou esse dinheiro aonde? Você não pegou esse dinheiro de alguém, não?". E eu falei: "Não, mãe, se eu disser à senhora, a senhora nem vai acreditar.". E ela falou: "Tem uma semana que eu estou lhe procurando. Você saiu de casa e não me disse para onde você ia.". Aí eu falei: "Não, mãe, eu tô lá no lixão.". E ela falou: "Lá é bom? Lá tem o que você comer?". E eu falei: "Tem do bom e do melhor. Ó, painho, como eu tô forte, olha a minha diferença, como eu tô mudando.". Aí ela falou, aí como tinha muitos amigos ela falou: "Tem gente lá daqui?". Aí eu falei: "Tem, tem um bocado. Meus amigos são todos de lá. Eles também me apoiaram lá.". Mas foi uma dificuldade bastante. Chovia bastante e quando dava chuva eu pegava um papelão e ficava encolhido assim. Todo molhado igual à um pinto. P1 - E depois você passou a fazer parte da cooperativa? Como é que foi? R - Depois que o trabalho foi subindo mais, aí chegou uma firma lá de São Paulo e se a gente não organizasse em cooperativa, eles iam fechar o aterro. E provavelmente a cooperativa da gente está em andamento. Se a gente não fizesse isso - se nós não organizássemos, não fizéssemos a cooperativa - a gente hoje não sabia onde a gente estava. Agora a gente está aqui procurando mais clientes para a gente, saber, entender como é que é cooperativa. Por isso é que a gente está aqui nesse encontro. P1 - E quem apareceu para falar da cooperativa? Como é que você conheceu? R - Como é que eu conheci o termo de cooperativa? Foi... Eu passei cinco anos, mais ou menos, dois anos afastado de lá. Eu saí porque eu tive um acidente com o compactador de lixo prensou a minha perna. E eu fiquei com uma dificuldade muito grande. Aí eu me afastei de lá. Eu passei um mês e duas semanas no hospital. Quando eu cheguei no hospital eu cheguei com a minha perna totalmente, quase toda assim quebrada com um corte profundo, um corte profundo na perna. Aí eu cheguei, fiquei internado no atendimento. Me atenderam urgente. Aí eu fiquei lá. Quando foi no passo de três dias que eu estava lá eu tive infecção hospitalar. Apesar disso, a infecção hospitalar, eu falei: "Meu Deus, se não achar uma pessoa que tem jeito aqui para me cuidar direito, eu acho que vão ter que amputar a minha perna esquerda.". Aí tinha uma senhora que era coordenadora de lá, chefe das enfermeiras do centro cirúrgico, da clínica cirúrgica de lá Ela mora em um conjunto lá em Feira de Santana Aí quando ela me viu, eu não sabia que ela trabalhava lá, e ela me conhecia porque desde menino eu andava lá e lavava o carro dela. E aí quando ela me viu a situação ela falou: "É você que está aqui? O que é que você tem? Você está operado?". E eu falei: "Não, porque eu fiz uma cirurgia aqui e me botaram em um quarto com um bocado de paciente que tiveram infecções, a bactéria coisou e eu tive infecção hospitalar.". E ela falou: "Não, não se preocupe, não.". E eu falei: "E estou com medo de perder a minha perna.". E ela falou: "Não, não se preocupe não porque você um dia vai poder andar. Você vai andar, você não vai perder a sua perna não. Enquanto eu estive aqui, o máximo de cuidado com você não vai ser bastante.". Aí nisso aí eu fiquei despreocupado, né? Ela deu ordem lá, toda hora é curativo diário, medicação diária, completa, de duas em duas horas medicação. Eu tomei um monte antibiótico na veia e fiquei lá um mês e duas semanas internado. Quando eu saí ainda eu passei o ano de 2000 andando ainda de muleta, na bengala. E foi um milagre de Deus. Quando eu estava na mesa de cirurgia, que era para colocar os ferros, os fixadores na perna, aí o médico falou bem assim com o assistente: "Por favor, encarregue esse rapaz para o centro de raio-x que é para eu poder tirar um raio-x na perna dele.". Aí ele chegou, olhou na minha perna e me encaminhou ao centro de raio-x. Chegou lá a moça aplicou o raio-x e aí deu à ele. E aí me levou de volta e eu já estava já vestido já para a mesa de operação. Aí chegou lá e ele falou: "Aguarda um poquinho aí.". Aí eles começaram a preparar a injeção que dá para a pessoa dormir, a geral, amarraram os meus braços e falou: "Fique tranqüilo.". Aí o médico pegou, analisou a radiografia, aí ele falou... Aí ele encostou o joelho em mim e falou: "Você é um rapaz que teve muita sorte.". Aí eu falei: "Por que, doutor?". Aí ele falou: "Você agora não vai precisar fazer cirurgia, não.". Aí eu falei: "Como assim? Eu quero fazer essa cirurgia para eu poder ficar bom da perna porque eu estou com dificuldade até para ir para o colégio.". Eu querendo estudar e não conseguindo ir para o colégio porque o colégio era mais ou menos um quilômetro. Aí ele falou: "Não, não se preocupe, não. Agora você vai seguir as seguintes recomendações que eu vou fazer aqui para você. Eu sei que você não teve recursos suficientes. Você teve mais ou menos de recurso. Essa orientação médica que eu vou passar aqui para você vai ser o seguinte, você vai me prometer que não vai andar. Você largue a muleta, larga a muleta, ande devagar, não empurra, não pratique esporte, não ande de bicicleta e não pegue peso.". E aí eu falei: "Por que, doutor?". E ele falou: "Não, porque foi um milagre de Deus, você está completamente, o seu osso, a sua perna esquerda voltou para o lugar.". Porque na hora que eu fui tirar o raio-x, quando eu tirei o raio-x para fazer a cirurgia, o meu osso estava assim. Aí na segunda raiografia, aí ele encostou. Aí dali quinze dias, na quinzena que ele encostou, ele aqui ele ficou. Aí o médico percebeu e falou olha: "Ele encostou aqui, ele ficou, mas ele não quer encaixar para ficar retamente. E ele ficou e parou. Provavelmente eu acho que você aí, meu velho, você perdeu um pedaço de um osso. Por isso é que ele não dá. Mas só que eu vou fazer o exame direito, vou olhar direito a sua radiografia e provavelmente esse osso tenha se juntado.". Aí foi isso que fez mesmo. Porque eles pegaram e tiraram outra radiografia mais visualmente e que descobriu que um médico mentiu para mim. Agora o outro não mentiu, não. Ele falou: "Olha como está o seu osso aqui agora. Está completamente junto. Você já pode esquecer a muleta e já pode ir para o seu colégio.". Foi uma alegria para mim mas eu passei muita dificuldade. P1 - Você ficou quanto tempo sem andar? R - Sem estudar eu fiquei, eu fiquei o meio do ano de 99 e o ano de 2000. P1 - Sem catar papel também? R - Sem trabalhar. Com ajuda da minha avó, que eu moro com ela hoje, com ajuda da minha avó. E os meus amigos que muitos já morreram, que trabalhavam lá. Que tomavam muita chuva, tinham muito problema e aí não podia ficar no aterro e Deus já levou há dois anos atrás. P1 - E aí você entrou, você estava falando da cooperativa. R - Aí quando eu voltei ao aterro, quando eu retornei para lá, aí quando eu cheguei lá, já tinha a coisa de cooperativa. Aí falou: "Fulano, você vem trabalhar? Mas você já está sabendo? Vai trabalhar todo mundo agora junto.". Aí eu falei: "Que bom, então vai ser todo mundo organizado.". Aí acabou aquela ganância que um queria passar na frente do outro, empurrava porque era para pegar o material. E tende a gente cair atrás da rasteira de uma lâmina do trator que espalha o lixo, que corta para poder aterrar. Aí eu falei: "Que bom, pelo menos eu não fico atrás do trator porque eu não posso correr, viu?. Aí falou: "Não, está bom.". Aí nós começamos a trabalhar e juntar o material e dividir o dinheiro. Aí na divisão de dinheiro, o começo era assim, a pessoa quando vai montar uma cooperativa uns que pensam, uns gananciosos pensam que... Já fica pensando logo: "Eu vou ganhar mais do que eu ganhava.". E muitos não. Muitos já sabem que no começo é dificuldade. E com a dificuldade a pessoa vai melhorando e vai subindo, subindo até chegar o limite, né? Porque a gente não pode subir demais, não. Porque se criar olho demais, se afundar, afunda para pior. Eu sou assim, eu graças a Deus eu sou um rapaz honesto, gosto da minha função no trabalho, tenho orgulho do meu trabalho. Gosto muito. E também não sou desvalorizado pela comunidade. As pessoas me dão muito apoio. Porque - eu não vou mentir para a senhora - quando eu fui para lá, antes de eu chegar lá, eu era um rapaz com sérios problemas. P1 - Por quê? R - Porque eu saia de manhã e eu pegava uma latinha de cola. E o que é que eu fazia? Eu ia cheirar cola. Aí um dia eu parei assim comigo, assim mesmo e eu pensei o que faço da vida. Eu falei: "Vou parar e vou analisar. Minha família é uma família decente. Família que vem do interior, de roça. E eu tô na cidade, nasci na cidade, na periferia e tô nessa aqui? Não. Eu falei, vou ter que parar.". Comecei a estudar aos seis anos de idade e não andava. Quando eu cheguei aos oito, 10 anos, eu comecei a cheirar cola. E aí eu falei: "Não, eu vou parar e vou largar isso.". E aí, graças a Deus, eu parei. Muita gente me deu conselho, me deu colégio, material. Falavam: "Olha, se não tiver material, eu lhe compro material.". As pessoas compravam material porque eu lavava o carro, limpava o jardim, varria a frente da casa assim em bairro. E ele falou: "Ó, fulano eu quero que você estude. Eu quero que você tenha um futuro pela frente. Agora, não me decepcione.". Eu gaguejo um pouco porque eu puxo um pouco da língua. Aí ela falou: "Não me decepcione.". Aí eu falei: "Não, está bom. Eu não vou decepcionar a senhora não.". Aí ela falou: "Vá para o colégio e no final, quando for o final do ano eu quero ver todas as provas que você fizer, da primeira à quarta unidade, eu quero ver as notas. E o dever que você estiver com dificuldade para você fazer, você vem aqui que eu lhe ensino.". Aí eu falei: "Tá bom, não se preocupe, não, porque isso aí eu vou fazer para a senhora, entendeu? É um conselho que a senhora está me dando e eu vou seguir o seu conselho.". Porque muitos amigos meus, colegas, eu não tenho nada a ver, né? Pratica altos delitos, é de conseqüência deles. Quando a polícia chega lá onde a gente mora, quando a polícia chega, mesmo que você não seja do meio, mora na periferia, ele diz que o cara é também. Já chega já gravando todas. E aí, certa época eu cheguei e eu estava sentado ouvindo um walkman e eu estou sentado quase na frente de minha casa. E estava construindo porque caiu porque era de taipa, e aí nós derrubamos para fazer de bloco. Aí eu terminei em um domingo. Terminei de ajudar porque eu tinha vindo de um aterro no sábado. Porque eu passava lá e tinha vezes que eu vinha no domingo. Tinha vezes que eu passava nas férias e estava tendo greve, e eu passava duas ou três semanas lá na greve que estava tendo. Aí eu ficava duas ou três semanas lá para não vir em casa, para poder arrecadar o máximo de material para quando eu fosse vender, para ter um dinheirinho bom e suficiente. Aí eu vim, né? Para casa. Terminei e ajudei o pedreiro, ajudei o pedreiro a levantar as paredes. Eu era ajudante. Dava a massa e ele levantava as paredes. Aí terminou duas horas da tarde. Aí eu falei: "Agora eu vou tomar um banho.". Tomei um banho e almocei. Aí eu peguei, como eu fumo cigarro, fui no bar, tomei um tubaina - lá chama tubaina - fumei um cigarro e estou sentado. Joguei duas pedrinhas de dominó e aí eu falei: "É. Agora eu vou pegar o rádio porque daqui a pouco vai passar o reggae eu vou curtir um reggaezinho. Baiano gosta mesmo de reggae e eu vou curtir um reggaezinho.". Estou sentado ouvindo um som, um sonzinho no walkman e aí chegou um cidadão correndo. Dois rapazes com arma na mão. Eu tava de cabeça baixa. Aí o outro mais ou menos perguntou: "Dá para dar uma abaixada aí?". E eu falei: "Dá.". Tirei o walkman do ouvido, botei aqui no pescoço. E ele falou: "Você não viu um rapaz aqui de camiseta branca passar por aqui, não?". Aí eu falei: "Eu cheguei aqui agora nesse exato momento. Até agora aqui não passou ninguém.". Aí ele falou: "Não, tá bom, obrigado e não sei o quê.". Aí ficou, né? Aí um, porque eu andava com um cara que ele era torto, porque o cara era torto, ele pensava que eu andava com esse cara aí. Porque esse cara era um amigo de infância e quando nós fomos crescendo, e ele foi crescendo com maldade, eu já fui me afastando dele. Ele foi para um lado e eu fui para o outro. Ele seguiu o caminho dele e eu segui o meu. Porque quando a pessoa está na infância e vai crescendo, a pessoa segue o caminho que é bom. E ele seguiu o caminho errado e eu segui com o meu caminho certo. Que foi trabalhar e estudar. E aí ele chegou: "Não, você anda com fulano?". E eu falei: "Não.". Ele falou: "Você é fulano?". E eu falei: "Sou.". "Ah, você anda com fulano, você é arrombador.". E eu falei: "Não sou arrombador. Você está se enganando". Aí ele: "Vamos aqui que fulano já lhe levou para a delegacia.". Eu falei: "Ele me levou para a delegacia enganado.". Nesse dia, quando eu cheguei na delegacia, quando as cartas de recomendação chegaram lá para mandar me soltar. E tá aqui em casa aqui os papéis assinados pela juíza. Aí mandei chamar meu tio, meu tio foi, trouxe os papéis, mostrou a ele. E ele falou: "Pó...Vai desculpando aí. Mas eu ia fazer uma barbaridade muito grande com você. Eu ia lhe torturar um bocado pensando que você andava mais aquele cara.". E eu falei: "Não ando com ele desde quando eu estudo e trabalho". E ele falou: "Você trabalha onde?". Eu falei: "Eu trabalho, numa dificuldade que ninguém gostaria de pegar. Pegar no lixo.". Aí ele falou: "É mesmo, é? Tem certeza?". E eu falei: "É. Pode perguntar aí à qualquer pessoa aí, mais velho aí. Ou chegue lá na cooperativa, lá no Aterro Sanitário Nova Esperança, você pode chegar lá que você vê eu trabalhando lá. A hora que você quiser, você vê a minha dificuldade.". E aí ele falou: "Não, vai desculpando isso aí.". Aí falaram: "Não, vai no batalhão, conversa com o comandante, que o comandante bota ele na disciplina.". E eu falei: "Não. Pode deixar ele à vontade. Deus sabe o que é que faz.". P1 - E como é que é estar chegando agora no congresso? R - Eu, no congresso eu estou gostando porque é a minha primeira vez no sul, e primeira vez também que eu saio da Bahia, porque eu nunca sai do Estado da Bahia, só no Estado da Bahia mesmo. Quando eu cheguei na divisa de Minas Gerais eu falei: "Pô, por aqui tem um cenário bonito A natureza por aqui é viva.". Aí eu fiquei imaginando, eu falei: "Porra, esse foi o maior presente que eu ganhei. Uma viagem de ida e volta para conhecer do sul do país.". Aí vim andando assim e quando chegou mais ou menos em Caxias, para pegar aqui São Leopoldo, a gente veio subindo montanha e descendo montanha. E aí eu olhava para o lado e aí vez em quando eu cruzava com um rio. E eu falava: "Rio bonito.". A natureza por aqui é viva. É um bocado de pé de pinheiro, é o símbolo da nossa cooperativa também. Eu gostei muito daqui da cidade. Em breve, se Deus me ajudar, um dia eu volto aqui ainda. Eu gostei dos gaúchos. Os gaúchos são gente boa. P1 - Como é que é encontrar outros catadores aqui? R - É forma de conhecer, levar a minha experiência para eles e trazer, e pegar as deles também. Os conhecimentos que eles têm, dar o meu conhecimento à eles em troca se eles quiserem o nosso. Não é obrigado, eles dão se eles quiserem. Se não quiser tudo bem, mas foi até bom conhecer. P1 - Legal, muito legal a sua história. Obrigada pelo depoimento. R - De nada.
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