Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Olindo Sezenando
Entrevistado por Sofia Tapajós e Diwarian Pego
Caieiras Velha, Aracruz, 20 de março de 2026
Código: DCC_HV009
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
R – Pois é, meu nome é Olindo Sezenando, nascido e criado aqui em Caieiras Velha, não fui pra canto nenhum. Praticamente, sou, dos [novos?] aqui, o mais velho aqui dentro dessa aldeia aqui sou eu. Os mais velhos estão acabando, só tenho uns quatro velhos da minha idade ou mais velho que eu. Mas, no mais, o mais velho daqui de torno é eu. Sou nascido e criado aqui, sou dono do Congo de Caieiras Velha, bato tambor, bato tambor, e tenho um bocado de anos que moro em Caieiras Velha, nunca saí daqui.
P/1 – Qual que é o nome dos seus pais?
R – Meu pai se chama Alexandre Sezenando e a mãe, Ortália da Conceição.
P/1 – O que você lembra deles?
R – O que eu lembro do meu pai, porque nós todo tempo fomos pessoas que tocava o tambor. Todo tempo nós tocamos, todo tempo nós fazíamos festa, todo tempo nós éramos convidados pra muitas coisas, né?
P/1 – Como que eram essas festas?
R – Essas festas eram festa de tambor, festa de mastro, batuque, né? Essas festas que eram as nossas festas, né?
P/1 – E aí, você consegue falar um pouco como que era? O que tocava?
R – Pois é, se tivesse os dois tocador de tambor, seria mais fácil nós tocar do que lembrar. É porque convidavam nós, de vez em quando nós íamos pra Ibiraçu, íamos pra João Neiva, íamos pra coisa ali, Nova Almeida, tocar, levantar mastro, né? Tem essas saídas. Vamos pra Vitória umas vezes, Vitória, sempre vamos pra Vitória tocar, Barra do Jucu.
P/1 – E a sua mãe, o que ela fazia?
R – A minha mãe? A minha mãe trabalhava em casa com o papai, fazia as coisas pro papai, a minha mãe fazia esteira, mariscava, tirava [amêijoa?], tirava ostra, era o trabalho dela antigamente. A esteira era...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Olindo Sezenando
Entrevistado por Sofia Tapajós e Diwarian Pego
Caieiras Velha, Aracruz, 20 de março de 2026
Código: DCC_HV009
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
R – Pois é, meu nome é Olindo Sezenando, nascido e criado aqui em Caieiras Velha, não fui pra canto nenhum. Praticamente, sou, dos [novos?] aqui, o mais velho aqui dentro dessa aldeia aqui sou eu. Os mais velhos estão acabando, só tenho uns quatro velhos da minha idade ou mais velho que eu. Mas, no mais, o mais velho daqui de torno é eu. Sou nascido e criado aqui, sou dono do Congo de Caieiras Velha, bato tambor, bato tambor, e tenho um bocado de anos que moro em Caieiras Velha, nunca saí daqui.
P/1 – Qual que é o nome dos seus pais?
R – Meu pai se chama Alexandre Sezenando e a mãe, Ortália da Conceição.
P/1 – O que você lembra deles?
R – O que eu lembro do meu pai, porque nós todo tempo fomos pessoas que tocava o tambor. Todo tempo nós tocamos, todo tempo nós fazíamos festa, todo tempo nós éramos convidados pra muitas coisas, né?
P/1 – Como que eram essas festas?
R – Essas festas eram festa de tambor, festa de mastro, batuque, né? Essas festas que eram as nossas festas, né?
P/1 – E aí, você consegue falar um pouco como que era? O que tocava?
R – Pois é, se tivesse os dois tocador de tambor, seria mais fácil nós tocar do que lembrar. É porque convidavam nós, de vez em quando nós íamos pra Ibiraçu, íamos pra João Neiva, íamos pra coisa ali, Nova Almeida, tocar, levantar mastro, né? Tem essas saídas. Vamos pra Vitória umas vezes, Vitória, sempre vamos pra Vitória tocar, Barra do Jucu.
P/1 – E a sua mãe, o que ela fazia?
R – A minha mãe? A minha mãe trabalhava em casa com o papai, fazia as coisas pro papai, a minha mãe fazia esteira, mariscava, tirava [amêijoa?], tirava ostra, era o trabalho dela antigamente. A esteira era aquela coisa que fazia dormir em cima, sentar em cima, descansar, era uma coisa muito boa a esteira.
P/1 – Era do que a esteira?
R – Taboa.
P/1 – E você lembra como ela fazia?
R – Lembro.
P/1 – Como que era?
R – Ela ia lá no brejo, cortava a taboa, botava pra secar, depois ia lá, sequinho, juntava o feixe e trazia pra casa, ia no mato, tirava a imbira, aí ela tecia o [zubio?], o [zubio?], um pedacinho mais ou menos desse tamanho aqui, aí fazia um teiá, aí botando a taboa e tecendo, né? Aí, fazia as esteiras. Essas esteiras que ela fazia serviam pra muitas coisas, servia pra comprar algum alimento pra nós, servia pra comprar nossa roupa, servia pra algum remédio, quando não existia remédio, só existia remédio do mato mesmo, na minha época, onde estamos hoje, só existia remédio do mato. Então, é isso aí que fazia, servia pra nós a esteira.
P/2 – E o senhor tinha irmãos?
R – Meu irmão tem. Tenho três irmãos vivos.
P/2 – Três irmãos? Qual é o nome deles?
R – O Manoel Sezenando, o Mário Sezenando e o Zé Sezenando.
P/2 – E a vida, a relação com eles era boa?
R – Nossa vida era boa. Nossa vida era boa, tranquila, não tinha esse negócio de celular, não tinha esse negócio de farra. Nossa vida era boa. Como diz a história, eu tive uma vida de pessoas fracas, porque hoje em dia, hoje em dia, eu falo, nós não somos ricos, nós não temos dinheiro, mas o nosso relacionamento com eles é bom. Eu acho que é bom. Hoje, nós almoçamos, hoje, nós jantamos, mais tarde nós temos um cafezinho. Então, hoje nossa vida, eu acho que é boa, do meu tipo que eu era, do meu passado, entendeu? Se eu tô falando mal dos meus pais, eles me desculpam, mas eu estou falando que foi a verdade, é o que a gente pode falar.
P/2 – E a culinária? A comida que você comia aqui?
R – A comida que nós comíamos aqui? Rapaz, era uma comidinha simples. Minhas filhas hoje não comem essa comida que eu comia. Minhas filhas hoje não comem essa comida que eu comia. Eu pescava, pegava o peixe, eu comia um pirão de peixe, eu comia um pirão de caranguejo, eu comia um pirão de siri, eu comia um pirão de ostra. A ostra lá a mamãe pegava, chegava na casa, cozinhava ela, escaroçava e fazia aquela moqueca. A moqueca, a gordura, o colorau, a cebolinha, o coentro, essas coisas assim. E nós comíamos aquilo. Fiquei desse tamanho [risos] [barulho de chuva].
P/1 – E quando você era criança, como que era o território aqui?
R – Quando eu era criança, o território aqui, aqui não tinha casa. Aqui, tinha poucas casas. Se tivesse 15 casas, era muito. Se tivesse 15 casas, era muito, mas era tudo separado. Não tinha essa casa, esse monte de casas que foram aqui. A rua principal ali, aquela mesma ali, foi a primeira rua que eu conheci na minha vida aqui, dentro.
P/1 – E do que você brincava?
R – Brincava. Nós brincávamos ali até pra seis, sete horas da noite, né? Aí os pais já: “Tá na hora de vocês irem pra casa que, aqui tem, pode ter saci, pode ter lobisomem”. Aí sempre eles metiam medo. É que eles falam, eles contam uma história que tem aquela igreja alí e tem uma serpente lá debaixo. Eu acho que é a história deles, porque o papai dizia que é pra nós dormir mais cedo. Pois é.
P/2 – E a casa que você cresceu quando era criança, como que ela era?
R – Ela era de estuque e palha, embarrado de barro.
P/2 – E você sabe como que faz essa casa?
R – Sei.
P/2 – Como que é?
R – Ah, você corta o estende, bota as coisas, as travas, né? E “envara” ela toda de entulho, fazendo entulho, fazendo entulho, entulho, assim, prego, molhar as barras de cipó, barra de cipó e entulho. Embarrei com _____, embarrei com barro pisado. Era muito importante. Agora, a gente tá fazendo casas de tijolo, de lajota, né? Tiozinho ainda tem uma casinha dele lá de estuque ainda.
P/1 – Você falou do saci, tem alguma história que te contavam quando você era criança?
R – Tem nada. A história minha é do saci, né? Eu digo que é mentira que eu nunca vi saci [risos]. Eles falam: “Saci existe”. Eu falei: “Não existe nada, já andei muito nos matos aí. Nunca vi um saci, já caçei de noite, caçei de dia, andei nas matas, nunca vi um saci, nunca vi um caipora, nunca vi nada”. É por isso que eu não acredito nessas coisas [risos].
P/1 – Mas quem que te contava essas histórias?
R – Ah, quem me contava era o papai, eram os meus tios, né?
P/1 – E tem alguma outra história que eles contavam que você lembra?
R – Não tem, não. Contavam muitas histórias, histórias boas, né? História de história mesmo pra criança, né?
P/2 – E qual é a sua relação com o Congo?
R – A minha relação com o Congo? O Congo, eu acho que o Congo, aí que eles falam, o tambor tem duzentos e poucos anos, mas eu digo que a idade do tambor não é pra mim, não é pra você, não é pra ninguém, porque esse tambor, quando eu nasci, já existia esse tambor. Tô com setenta e cinco anos e eu já conheci os tocadores de tambor. Antes do papai, eu conheci aqui, o papai do papai, eu conheci aqui Manoel Francisco, eu conheci aqui Leopoldino, antes de Leopoldino, tem outro capitão que eu esqueci o nome dele, que era [Vendido?], sei lá o que que é, era [Vendido?], depois Leopoldino, depois o Fernando Vovô, o Manoel Sezenando, esse foi o Manoel Francisco, esse foi o Manoel Francisco, papai, agora é eu, entendeu? Então, esse tambor pra nós, nós acha como uma coisa de conversa, de encontro, relação de encontro, de entender com as pessoas, conversar, alguma história, né? Então, esse tambor pra nós era isso.
P/2 – E para você, como que é manter viva a cultura do tambor?
R – Como manter viva a cultura do tambor? É nós não abandonar, porque tudo que, toda cultura que nós tiver, se nós abandonar, ela acaba. Então, sempre nós lembrando dela e conseguimos tocar, tocar, ou cantar, então nós continuamos levando a cultura em frente.
P/2 – E você passa ela para frente?
R – Nós passamos pra frente. Agora, temos alunos na escola, que estão tocando muito bem, né? Então, pra mim, a gente acha importante que, mesmo assim, não acaba, entendeu?
P/1 – E aí, você falou que você pescava.
R – Pescava.
P/1 – Com quem você aprendeu a pescar?
R – Aprendi a pescar com papai, porque sempre, todo tempo, nós índios, somos pescador. Nós índios somos pescador, porque nós pescamos pra sobreviver, pescamos e caçamos pra sobreviver. Hoje, mesmo eu tava conversando aqui com minha esposa, minha esposa, conversou comigo aqui, minha filha. Antigamente, hoje, essa semana, nós estamos na época de caranguejo, né, caranguejo andando. Na minha época, quando eu tinha meus dez anos, dez, quinze anos, mais ou menos, aqui era igualzinho uma peça de gente comprando caranguejo. Caranguejo, pra nós aqui, isso é cultura, pra nós aqui é cultura, caranguejo, guaiamum, pra nós aqui é cultura. E agora não, agora, anda caranguejo, anda guaiamu, ninguém pega, por causa do quê? Porque vem a proibição, e se não tivesse a proibição, aqui tava cheio de pegador de caranguejo, vai pegar, então, acabou. Pra nós, primeiro, o caranguejo é a cultura, é uma coisa de nós sobreviver, é nosso ganho de dinheiro, nós pegamos caranguejo pra comprar um feijão, comprar uma farinha, comprar um açúcar, um querosene, que nós usávamos, mais querosene, é isso aí. Então, pra nós, é mais importante a pescaria. (conversas externas). Eu tive minha mãe. A mãe de papai também era índia, que era irmã da minha ____. “Pai, você gosta muito de negro”. Eu falei: “Eu gosto de negro, porque sou negro” [risos].
P/1 – E como que é quando bate o tambor aí na casa?
R – Ah, quando bate o tambor é muito bom. Quem é filho de santo costuma baixar um espírito nele [risos].
P/1 – Você pode falar quais espíritos?
R – Não, não sei, não, não conheço esses direitinho nenhum e nem eu chego espírito, porque eu nunca fui nessas coisas de espírito. Eu gosto porque a minha filha, ela é espírita, tem um neto, você não conhece, não, o Caleb? Ele é um médico muito bom. Ele tá relaxando. Depois que ele começou com a companheirada, esquece das coisas importantes, porque eu tenho, pra mim, eu sou um cara que não faço muito com essas coisas, mas eu tenho pra mim que isso é uma coisa importante pra gente, espírito. Nós tudo tem espírito. Então, nós temos que conservar. Nós temos que conservar um. E depois que a _______, esquece do que tem.
P/2 – E as igrejas evangélicas aqui, elas condenam isso?
R – Condenam. Às vezes, quando estão trabalhando aí, batendo _______ deles, pra cá não olha, já passa assim. Isso que é coisa do demônio [risos]. Pois é, menino, é isso aí.
P/1 – E você falou também que levantou os mastros nas festas.
R – Nós levantamos, todo ano nós levantamos os mastros de Santa Catarina, mas o chefe mesmo é São Benedito. O chefe mesmo é São Benedito, São Benedito e São Sebastião, o chefe mesmo, das aldeias é São Benedito. São Benedito era um negro, sempre vivia nas aldeias, muito massacrado, ajudava as pessoas muito. Então, São Benedito é um padroeiro.
P/1 – E tem uma data, um período?
R – Nós sempre cortávamos o mastro de primeiro de... antes do dia dois. Dia dois é dia de finado, que se fala. É que mês é? É que mês, Finados? Novembro? Acho que é novembro, acho. Acho que é novembro. Primeiro, que era o dia que trabalhava com São Benedito. Aí, levantava o mastro no dia 25 de novembro, alguma coisa assim, de Santa Catarina.
P/1 – E como que é levantar o mastro? Tem alguma reza?
R – Levantar o mastro, há muitos toques de tambor, né, e cantoria. Aí, quando vão levantando o pau (entrevistado canta): “São Benedito foi pro céu, eu também queria ir. Ah, meu Deus, será bonito a porta do céu abrir. São Benedito foi pro céu, eu também queria ir. Ah, meu Deus, será bonito a porta do céu abrir”. Aí, muita gente tá cantava bom, bonito, né?
P/2 – E antes de levantar o mastro, tem alguma coisa?
R – Tem não.
P/1 – E onde que é que levanta?
R – Aqui, perto da porta da igreja.
P/1 – E vocês levantam o mastro desde que você era criança?
R – Desde criança. Quando eu comecei a me entender do mundo, o mastro já existia.
P/1 – E mudou alguma coisa?
R – Mudou não, mudou não. Mudou que os foliões, os tocadores de tambor, da cultura, estão sumindo tudo. Eu canto assim [entrevistado canta]: “Cadê meus companheiros que ajudam a eu cantar, hoje vocês estão vivos ou estão no morto, o Deus, o Congo, em bom lugar” [risos]. Aí, é o toque do tambor, né, o cavaco.
P/2 – E o senhor encontrava outras bandas de Congo?
R – Encontrava. Sempre foi de primeiro que nós tocava o tambor levantando o mastro, vinha gente de Ibiraçu, vinha como de Ibiraçu, vinha de João Neiva, de Nova Almeida. Aqui, que vem mais é vem mais agora da vila de ______.
P/2 – E como que era isso pro senhor?
R – Aí, a gente se juntava tudo e tocava, formava uma folia muito boa.
P/2 – E a música tava boa?
R – Muita música boa.
P/1 – E tem alguma vestimenta, alguma farda, uniforme?
R – Tem, tem uniforme. Tem isso ali.
P/1 – Como que é esse uniforme?
R – O uniforme, o uniforme tem uns que tem um tambor, uma casaca, é um uniforme assim.
P/2 – E o senhor falou que é o capitão da banda?
R – Capitão, eu sou o capitão da banda.
P/2 – Existe uma roupa específica para o capitão da banda?
R – É quase igual. Agora, de outras bandas botam aquela calça branca, boné de marinheiro. Inclusive, a vila tudo calça branca, boné de marinheiro.
P/2 – E aqui não?
R – Aqui não. Aqui é um cocar.
P/1 – E o que que significa ser capitão pra vocês?
R: O ser capitão, pra nós, é igual assim, é o mestre. Mas pra vocês… Você não tem o mestre? É isso aí. Então, o capitão do tambor é o mestre. O mestre é pra levantar as cantigas, marcar os toques, se o toque tá certo ou tá errado, é desse jeito.
P/2 – E como é passado o posto de mestre?
R: O posto… O menino agora aí é muito, muito… Aqui, tá sendo quase família por família.
P/2 – É a família passando pro…?
R – É, aham.
P/2 – E o senhor tem alguém que vai passar?
R – Eu tenho uns dois ou três pra passar, né. Inclusive o meu cunhado, ele quer ser o mestre, mas as pessoas não tão gostando dele. Então, o mestre estão pensando ou uma filha minha, ou um neto meu, pra não sair da cultura.
P/2 – E qual filha sua?
R – Esse que ____ mais é Olinda. Olinda canta muito bem, toca muito bem. É uma pessoa, como diz, pessoa de Deus pra fazer essas coisas. Canta muito bem. Inclusive o papai, antes que ele morreu, ele pediu: “Ó, na minha morte, eu não quero choro, eu não quero nada, eu só quero alegria. Então, eu quero que vocês façam um toque de tambor pra mim”. “Não quero choro nada”, quando o papai morreu. Aí, ela falou: “Eu vou fazer uma música pra vovô”. Aí ela inventou aquela música assim, assim (entrevistado canta): “Meu companheirada, eu aqui tô indo embora, pois aqui eu não posso mais ficar. Pois Jesus Cristo que mandou me chamar. Mas com vocês eu não posso mais ficar. Olê, olá, Deus abençoa quem ficar no meu lugar”. Ela quis tirar essa música, né. E aí, é muito importante, tambor em cima da música tocando, né, tocamos aqui na igreja, tocamos lá no cemitério. Ele falou que quando ele morresse, ele não queria nada. Dizia que ia dar trovoada e chuva, mas, com diz a história, deu trovoada e chuva. Na hora que nós entramos lá no cemitério, trovoada deu dois roncos, três roncos e deu a chuvada. Depois, acabou tudo. E Olinda trouxe a música e deu certo.
P/2 – E quem era o seu pai pra comunidade?
R – Ah, papai, pra comunidade, ele era um homem muito forte, muito grande, ele era, se chamava de pajé, ele era o pajé. Ele benzia, ensinava remédio, fazia tudo. Ele era o pajé. Então, a pessoa era grandeza, o papai.
P/1 – E como você se sentiu quando você assumiu ser capitão?
R – Ixi, foi muito triste pra mim. Rapaz, quando eu peguei o capitão pra ser mestre, eu não queria ser mestre, não. Mas ele falou: “Você vai tomar conta desse tambor, vai tomar conta e dá conta”. Ele praticamente forçou pra mim tomar conta. Aí, eu tomei conta. Então, hoje estou levando o bastão do Congo à frente, o tambor. Todo mundo passa a me respeitar como mestre do Congo, né? Igual, meu cunhado quer tomar conta do tambor, tem umas pessoas da minha idade: “Não, não entrega pra ele. Você não morreu ainda, depois que você morrer, eles vão tomar conta do tambor”. Então, eu já acho muito importante. Aqui quem canta, quem toca, é da turma quase minha família mesmo. Quem canta muito bem é a Olinda, a Helena, minha esposa. Eles cantam muito bem. As filhas de Olinda tocam casaca, tambor. Estão querendo que esteja o Caleb pra ser capitão, mas ele está muito novo. Ele quer viver agora só na farra de hoje. Essas farras de hoje eu passo, essas farras de hoje não prestam. A farra boa nossa antigamente não tinha nada de coisa ruim pra nós. Agora, a bebida sempre existia na nossa época, sempre existia a bebida. Diziam que a cachaça que anima o povo, mas eu já falei com eles, cachaça, bebida não anima a gente, a gente é animada de natureza. Porque, desde o dez anos, eu toco casaca e tambor, casaca não, só tambor, desde dez anos, mas nunca bebi na minha vida. Entra a noite, sai o dia, entra a noite, eu vejo que estou conversando com vocês aqui, de manhã, e tocando tambor do mesmo jeito. Então, eu acho isso pra mim, eu tenho isso pra mim como importante. Importância é coisa legal, coisas boas. O tambor faz parte do espírito. O tambor faz parte do espírito, faz parte da comunicação. Pessoas se comunicam mais com o tambor. Comunica mais com o tambor. Tocava aqui, lá no Irajá, o Pau Brasil diz os mais velhos que escutavam, não sei se é verdade essa história deles [risos]. Tocava o tambor aqui, lá no Pau Brasil já ouvia o toque do tambor. Então, é por isso que digo, o tambor faz parte do espírito. É isso aí.
P/1 – Como você se sente quando você ouve o tambor?
R – Ah, eu me sinto muito bem, muito alegre. Eu posso estar triste quando eu vejo o tambor tocar, abre aquela alma, aquele espírito bom, aquela alma boa pra gente. Bem, aquela alegria aparece. Eu também posso estar “perrenguinho”, mas, quando eu vejo o tambor tocando, eu fico alegre. Então, é por isso que eu digo, o tambor faz parte do espírito, né? Aliás, muitas coisas boas fazem parte do espírito. Se não faz parte do espírito, são coisas ruins.
P/1 – E aí, voltando um pouco. Você estava falando lá atrás do caranguejo...
R – Ah, é o caranguejo. Na época que era a época do caranguejo, é que dava muita gente, era igualzinho pesca atrás do caranguejo, guaiamu, lá na beirada do porto, que muita gente pegava caranguejo. E hoje, tem aquela proibição de caranguejo, pesca, e não está tendo ninguém mais. Inclusive, desde quando inventaram esse negócio de laço, desde quando inventou o laço, eu parei de tirar caranguejo. Eu tirava dez, 12 caranguejos por dia. Podia não dar 7 horas, até duas horas, uma hora, dez, 12. Eu tirava, mas, agora, com negócio de laço, eu até abandonei o mundo. E agora vem a proibição, não pode pegar caranguejo pra vender, não pode pegar caranguejo pra comer. O guaiamu, essa semana mesmo, prenderam uma mulher, mais a filha, porque te verem comendo o caranguejo no guaiamu, né? Veem gente pegando no guaiamu aquela multa é muito grande, a multa é grande, quase mais caro que um boi. Então é isso aí, ninguém quer comer mais caranguejo por causa disso. Eu gostava de tirar caranguejo, saia pra o guaiamu, saia pra o guaiamu, desandava, e os buracos estavam cheios, pegava cinco, seis guaiamu no buraco só. Mas agora, tem aquela proibição. Certas horas, eu dou apoio, porque na época do caranguejo, pegava dois, três sacos de caranguejo, porque ele levava tudo. É uma coisa que não come. O caranguejo só come uma lama, só vende a lama do mangue. Não come um feijão, não come um arroz, não come um milho, não come nada. A ____ deles é morrer tudo, dois, três e estão morrendo. Aí, era um prejuízo. Agora de pegar pra comer, uma dúzia, duas dúzias pra comer, poderia pegar, vai lá, pega, come. Então, tem essa proibição. A gente com o guaiamu, preço, pra vocês veem, é mais caro do que a pessoa matando um boi. Parece que multaram a menina esses dias, parece que por 6 mil, parece a multa, e é mais.
P/1 – E peixes? Que peixes você pescava?
R – Aqui, nós pegava robalo, pegava vermelho, caratinga, tainha. Esses peixes nós pegávamos bastante.
P/1 – Tinha algum jeito especial?
R – Tinha, nós pegávamos de rede, fazíamos cercado. Nossa cerca de primeiro era, a gente fala, era cultural. Agora, não é mais cultural. Eles vinham pegar peixe de cultura, mas hoje não tem peixe de cultura. Não tem peixe de cultura. A cultura é fazer uma gamboa, fazer uma gamboa, fazer um fazer um cercado de palha. Hoje em dia é rede. Então, eles falam: “Ah, bota a pescacultural”. Não é cultura agora, é rede, não é cultura. Cultura é você fazer pelas suas mãos próprias, fazer pelas suas mãos próprias, colocar lá e pegar o peixe. Então, não tem mais cultura. Nós fazíamos assim, fazíamos de palha, [espinha?], e, quando a maré enchia, nós fechávamos aquilo tudo ali e pegávamos o peixe.
P/2 – Esse é gamboa?
R – Gamboa é uma coisa grande assim, ó. Aqui, aqui tem o matador, aqui tem o lugar deles entrar, né? Aqui, ó. Aqui, tem outro aqui, que a gente entra aqui, faz por aqui, entra aqui, depois que entra aqui ele fica aqui, lá no fundo, aí não sai mais. Aí, a gente pode, se puder pegar, a gente tem que pegar de rede mesmo, essa redinha, e pega aí o peixe. Isso que é. isso é a gamboa.
P/1 – E a caça? O que você caçava?
R – A caça, quando eu caçava, nós caçava muito de pau de ponta. Põe a ponta na vara, o cachorro arrancava a paca lá, trazia pra beirada do rio e a gente matava de pau de ponta. Ela passava, metia o pau, fisgava ela. Veado, já era difícil caçar veado, porque tinha que ser arma de espingarda, nós não tínhamos espingarda. Mas, depois que começamos ter armamento de fogo, aí nós matávamos tudo de espingarda, passarinho, tudo de espingarda.
P/2 – Antes da espingarda, vocês matavam passarinho com o quê?
R – Antes da espingarda, matavam de pelota, de bodoque.
P/2 – O que é bodoque?
R – Bodoque é aquilo que vocês fazem a festa de vocês aí, marcando um alvo lá fora pra “pelotar”, se acerta, se não acerta. Flecha. Mas é isso aí.
P/1 – E quem que te ensinou a caçar?
R – A gente já nasce caçando. O índio já nasce caçando, já nasce caçando. Ele tem que sobreviver. Ele tem que se virar [risos]. Eu nunca fui empregado na minha vida. Eu nunca fui empregado na minha vida, mas eu tratei dos meus filhos tudo, criei, me criei também tudo desse jeito. Tem que fazer o jeito de sobreviver na vida, menos roubar.
P/1 – E ali na sua juventude, o que você fazia pra se divertir?
R – Pra se divertir? Era o tambor mesmo. Todos os sábados nós tocava o tambor.
P/1 – Você falou da sua esposa, como você conheceu ela?
R – A minha esposa? A minha esposa eu conheci, na verdade, de um futebol no campo. Aí, bateu um papozinho, eu era muito magrinho, a minha sogra não queria que eu casasse, não queria que ela namorasse eu, porque eu era muito fraco, né? Aí, acabando a teima do casal, é um problema, né? A pessoa, quando gosta, parece que gosta mesmo, né? Foi desse jeito, casamos. Aí, ela falou comigo: “Olindo, vamos entrar e mostrar pra todo mundo que eu estou namorando você, não sei lá o quê, não sei lá o quê. Você é um cara canalha, você é um malandro aí da rua”. Mas eu nunca fui malandro, nunca fui malandro [risos]. É porque eu não sou muito chegado a malandro, pra falar a verdade, me desculpa, pessoal, mas não sou muito chegada malandro, porque todo o tempo eu lutei pra sobreviver. É, todo o tempo. Então, aí, ela falou: “O que você acha?”. Eu falei: “Se você quiser ir embora comigo, se você for embora comigo, eu te carrego, de dentro da casa da sua mãe”. Aí, ela falou: “Eu vou ver”. Aí, o pai falou: “Se você tiver coragem de carregar, pode levar embora”. Aí, ela veio morar comigo. Vivemos três anos juntos, namorando, né, mas na minha casa, namorando três anos, no final dos três anos, me casei. Eu vi que dava certo o casamento, me casei. Mas eu tinha uns 18 anos, mais ou menos. Então, eu não tinha esse corpo que eu tenho agora, não. Eu era um porcaria, magrinho.
P/2 – Você conheceu ela no campo?
R – Eu conheci ela na beira do campo, nós estávamos jogando bola, e conheci ela ali.
P/2 – E você jogava para qual time?
R – Eu jogava pra o São Paulo, aqui do time velho.
P/2 – E como que era jogar?
R – Era bom, o jogo aqui era bom. Muito animado, muita gente. Hoje, não é na beira do campo, não está vindo gente hoje. Na beira do campo, ficava assim de gente, vinha de todo lugar ver a gente jogando bola.
P/1 – E com quem você jogava?
R – Todos os times que vinham de fora, Aracruz, Ibiraçu, Joaneiro, Guaraná, Linhares.
P/1 – Qual era a sua posição?
R – Eu era borda lateral esquerdo, direito. Então, era desse jeito. Tinha sempre um bom de bola. Eu todo tempo fui ruim de bola. O Mário, meu irmão, era bom de bola. O Zé Sezenando era bom de bola isso daí. O mais ruinzinho era eu [risos].
P/2 – Você jogava como titular?
R – Jogava como titular, né?
P/1 – E teve algum jogo, algum passe que te marcou?
R – O jogo que me marcou foi a perna deslocada [risos]. Sofro até hoje. Agora, eu desloquei esse joelho aqui, que ficou desse tamanho, mas agora eu sinto assim aqui. Então, me marcou por isso aí. Sofro até hoje por causa de jogo. Mas esses irmãos eram bons de bola, o Mário… o Zé Sezenando.
P/1 – E você lembra o dia do seu casamento?
R – Não lembro, não. Helena deve lembrar, ela lembra de tudo. Uma coisa, mais outra, esqueço tudo. É muito trabalho, né?
P/1 – E você tem filhos?
R – Tenho quatro meninas. Só tivemos quatro filhos, eu trouxe quatro fêmeas.
P/2 – Qual é o nome delas?
R – A mais velha é Vera, a segunda, a Cristina, a terceira, a Olinda, a quarta, a Janaína.
P/1 – E como você se sentiu virando pai?
R – Eu me senti muito bem. Tenho orgulho das minhas filhas até hoje, porque se criaram tudo, graças a Deus, são gente boas. Então, como dizia a história, eles, por mim, se criavam numa boa, porque eles se criaram na igreja, nunca levei isso pro forró, nunca levei pra canto nenhum, a não ser a igreja. Mas, agora, uma toma uma cerveja, outro toma outra. É desse jeito. Nunca a gente nasce perfeito, a gente nasce perfeito, mas um dia a gente sempre tem que fazer as coisas que não deve fazer, que é bebida, outras coisas qualquer.
P/1 – E quando elas eram pequenas, como você passava tempo com elas?
R – Eu passava um tempo com elas em casa, porque eu sempre, quando eu chegava da pescaria, eu estava em casa, saia cedo, chegava mais de duas horas, aí passava o tempo todo. Talvez, o dia que eu saia, o dia que eu ia pra a roça, eu chegava de tarde, de tarde pra a frente, a noite toda em casa.
R/1 – Você falou da roça, o que você plantava?
R – Eu plantava feijão, plantava milho, plantava “mandiba”. Eu fiz muita farinha, esses espigos mesmo, tirelas deles aí, quando chegaram por aí, eles fizeram muita farinha de mandioca que eu plantei. Agora, eu tenho, agora depois de velho que eu não aguento fazer mais nada, eu tenho um gadinho, agora eu tenho um gadinho, e quem toma conta, eu queria vender de tudo, mas o neto falou: “Não, vô, você não vende não, porque eu tomo conta pra você”. Então, ele que toma conta do meu gado. Aí, eu estou aqui sentado aqui, esperando aqui, o que Deus mandar pra mim.
P/2 – E como que era fazer farinha? Era em que lugar que fazia farinha?
R – A farinha, nós tínhamos [kitungo?] aqui, o lugar dessa casa era o [kitungo?], muito bom, aí trabalhava de noite esse [kitungo?] aí. Depois tem outra casa lá de farinha, mas é muito bom fazer farinha. Acabava de dar uma, ralava, ralava, enxugava a massa pra torrar farinha.
P/2 – E vocês vendia, trocava?
R – Vendia, trocava.
P/2 – Como que era isso, a forma de troca?
R – A troca, você trazia um peixe, um feijão, um arroz, a gente trocava, dava tantos litros, tanto litro de farinha, assim. Coisa é muito boa. Hoje, ninguém está trocando mais um litro de farinha pra um litro de caranguejo, é demais. Farinha encareceu, caranguejo encareceu, e ninguém dá mais um quilo de farinha em uma dúzia de caranguejo. Estou falando de caranguejo 70 contra a dúzia, e quantos caranguejos que eu vendia a dois contos, três contos.
P/1 – Seu Olindo, você falou bastante do forró, como que é esse forró?
R – Ah, de primeira, aliás, de primeira não era forró, era baile. De primeira era baile, não era forró, forró é hoje, né? Forró é hoje, hoje se fala em forró, mas era baile. Então, tocava um baile, assim, de violão, ou de uma sanfona velha aí, e aqueles discos, esses discos, era só que a sonata, esses instrumentos. Quando a gente fazia baile, precisava de uma noite toda, tocando aquele bichinho, hoje é um forró, trocadores que tocam, né? É desse jeito. Ia pra lá, assim, tinha uma lamparina, era lamparina mesmo, botava lá, sentia pra “luminar”, e o pião dançava. Não existia briga, não existia bebida, não existia nada. Era muito bom o baile, antigamente. Eu dancei um pouco, quando era solteiro, dancei um pouco, depois me casei, aí parei de dançar. É o tal de ciúme, pessoal fala que o ciúme é o querer bem, mas não é nada. O ciúme faz parte do satanás [risos]. É porque a gente está muito bem, aí vem o tal do ciúme, aí “desaparta” qualquer um, qualquer uma pessoa que estiver junto, mora junto. Aí, a mulher começou aquelas ciúmes bestas, aí eu falei: “De hoje em diante, nem eu danço, nem você dança mais”. Eu parei de dançar, eu não dancei mais. Há muitos anos eu parei de dançar. Eu tenho uma opinião muito boa, eu tenho. Se eu disser que essa água eu não bebo mais, eu tenho que parar de beber ela. É o que meus netos falam, meus netos que estão no mundo ainda: “É por isso que esse senhor está vivendo até hoje”, eu falei “Por isso que eu estou vivendo bem até hoje. É por essa idade toda, é por isso que eu tenho essa idade toda”. Nunca fui preso, nunca a polícia me “parpou”, nunca fui chamado na delegacia, nada. Podia me procurar em qualquer coisa, em qualquer coisa ali, meu nome é nome limpo. Pois é, eu sou desse jeito.
P/1 – E esses bailes eram onde?
R – A baile era na casa dos amigos, um amigo fez fazer um baile, chamou “Tem um baile de lá em casa, você vai lá?”. Aí, a gente vai, ia. Era assim. Outro lugar, outro baile, a gente ia lá também, era assim. Era convidado, não era forró que a gente ia no forró não, era bailezinho. Pois é. Então, quem dançou o baile, dançou o baile muito bem, hoje é forró.
P/1 – E aí, você falou das suas netas também, quantos netos e netas você tem?
R – Neto, neto, acho que eu tenho doze ou treze netos. Bisneto eu tenho três, treze a quatorze bisnetos já. Agora nesse mês de maio vai chegar duas netas, neto ou bisneto. Daveiro tem dois bisnetos, o Grilo tem quatro bisnetos, o _____ tem um bisneto, o Alexandre tem quatro, e vai levando a vida. A Janaína tem um bisneto. É desse jeito. Tem um punhado deles.
P/1 – E o que mudou na sua vida quando você virou avô?
R – Praticamente, eu não achei coisa difícil não. E tem gente que não quer ser avô, não quer ser avó: “Ah, sou muito novo pra ser avô, sou muito novo pra ser avó”. Aí, se fala isso, nunca achei muito. E tem uma benção, que tem gente que acha difícil botar uma bênção na criança, mas eu gosto que me chamem avô. Eu estou sentado aqui, de vez em quando passa: “Bença, vô”, “Deus abençoe”, “Bença, tio”, “Deus abençoe”. As crianças que nem conheço estão pedindo benção, não paga nada botar uma bênção. Não deixa a gente nem mais velho, nem mais novo, é o mesmo jeito. É assim, é desse jeito.
P/1 – Eu queria voltar um pouco para os seus avós e avôs. Você conheceu eles?
R – Meu avô só conheci um, Manuel Sezenando.
P/1 – O que você lembra dele?
R – Ele era um velho muito bom, muito animado, muito conversador. Ele era um pajé também. Benzeu muita pessoa, curou, curandeiro de raiz, né, era um raizeiro. Então, ele foi um velho muito bom, dentro dessa Caieiras Velha.
P/1 – E esse conhecimento de raizeiro, ele te passou algum?
R – Passou, não. O negócio de benzimento, de raizeiro, não sou nada. Agora, o papai, antes de ele morrer, quando ele estava bem fraquinho já, ele ensinou à Olinda. Já fraco, né? Pegou as coisas toda... Olinda benze. Acho que ela mexia no remédio, não sei. Mas ela benza muito bem, Olinda. A minha família era uma família de raizeiro, curador, curandeiro, né? Eu sou de uma família desse tipo, né? ______ também era curandeira, antigamente. Depois passou pra crente, trocou de religião, passou pra crente, né? Aí, tira muita cultura da pessoa. Muito bom, a religião é muito boa, mas tira muita cultura da pessoa. Eles acham que essas culturas que nós temos é coisa ruim, coisa do capeta etc. Cultura é coisa muito boa. Eu gosto da cultura. Por tudo que eu sou cultural até hoje [risos].
P/2 – E como é pra você ser de família de raizeiro?
R – Ah, eu acho muito bom. É uma família muito boa. A gente fica chateado, porque dizem: “Olha lá, um feiticeiro lá. Uma coisa daquela lá é feiticeiro”, mas a gente não é feiticeiro. Eu não sei nem como é fazer o feitiço, entendeu? Pois é. Então, eu me acho orgulhoso: “Olha lá, aquele lá é um benzedor”. Eu acho muito orgulhoso de ser um benzedor, se eu fosse um benzedor, mas eu não sou um benzedor. Pois é.
P/1 – E além dos benzimentos, que outra cultura que você tem?
R – Eu acho que eu não sou de outra cultura, não. A nossa cultura mesmo é o tambor mesmo. Como é que eles falam? (entrevistado canta): “É a casaca e o tambor é a cultura”. Pois é.
P/1 – E como que faz o tambor?
R – Como que faz o tambor? O tambor nós faz de várias coisas, né? Nós fazia, de primeiro, na época dos mais velhos, o tambor era um pau que a gente arrumava lá pelos matos, né? Cavava ali pra ele e botava o couro nele e tocava. É muito fácil fazer o tambor. Eu fiz muito tambor depois que eu, fazia muito tambor. Agora, parei de fazer tambor. Não aguento mais tirar madeira. Agora, quase todo mundo faz tambor agora, apenderam a fazer, todo mundo faz. Fiz uma oficina de tambor aqui um dia com o pessoal da escola. Aí, quem aprendeu, aprendeu, quem não aprendeu, não aprendeu, casaca. Agora, casaca eu nunca fiz, foi casaca, mas casaca nós tinha um velho aqui que ele fazia muito, fez muitas casacas. Tudo faz aqui pra dentro como pra fora, né? Teve o Juvêncio ali que fazia muitas casacas, muitos tambor. A gente vendia muitas casacas, vendia tambor. Vendia tambor e casaca. Depois, a pessoa fazia.
P/2 – A escola. Por que quando começou a ter escola aqui o senhor não foi?
R – Mas quando começou a escola aqui, porque não tinha jeito de fazer escola aqui. O papai falava que muitos anos tinha uma escola aqui, né? Aí, essa escola, quando eu comecei me entendendo no mundo, não existia mais. Quando apareceu uma escola aqui, eu já tinha uns dez anos ou mais, que apareceu uma escola. Aí, começou as escolas, né? Nós saímos daqui pra estudar lá em Olho d'Água. A gente ia lá umas duas ou três vezes, depois abandonei aquilo ali. Depois, formaram uma escola aqui, nas casas, nas escolas, né, era escola mesmo. Tinha uma casa ali que eles davam aula ali, aula ali, da igreja, dava aula das igrejas. Eram mais nas igrejas essas aulas que tinha, né? Depois, veio essa escola aqui, essa escola grande aí.
P/2 – E a luta territorial, o senhor participou? A luta pela demarcação, o senhor participou?
R – Eu praticamente, eu fui o... Nós aqui, os Sezenando daqui, foram a pedra fundamental dessa luta, fomos a pedra fundamental. Por quê? Praticamente, na luta dessas lutas, dessas terras, eram só nós mesmos, né? Era só a família mesmo. Nós tínhamos umas _____ pessoas ou menos, não sei. Aí, demais era gente de fora que morava aqui dentro. Aí, começou a luta. Quando começamos a lutar, nós fomos uns dez ou oito mais ou menos. Passava na casa: “Vamos lá?”, “Vou lá nada, vou lá nada, tomar as coisas que é dos outros”, sabendo que isso aqui todo o tempo foi nosso, né, “Tomar as coisas dos outros”, mas nunca foi dos outros, todo o tempo foi nosso, né? Aí nós fomos, não tem uma montoeira de gente, nós fomos pra essa luta, né? Passava perto de um, tinha vez que ia dez, tinha vez que ia menos, passava na casa de um. A fraqueza de dinheiro era muito, né? A fraqueza de fome era muito. Passava na casa de um: “Fulano, vamos lá”, “Ah, quem dera, eu tenho vontade de ir, mas eu não tenho nada pra levar pra ir comer”. Aí, a gente dizia: “Vamos lá. Nós temos um punhado de farinha aqui, um ovo, nós repartimos, nós comemos”. Aí, isso mesmo, né? Foi indo um tempo que foi chegando mais gente, chegando mais gente, fomos animando. Comecinho, nós trabalhando, aí, fomos animando os outros, né? E como nós demarcamos a primeira vez, depois veio a segunda vez, né, depois veio a terceira vez. A terceira vez foi bom, o pessoal já tinha a alimentação lá no mato, né? Aí veio o Cimi [Conselho Indigenista Missionário], na segunda vez. Aí, veio o Cimi, o Cimi ajudava muito a gente, né? Então, foi por isso que nós fomos em peso nas demarcações. O Cimi sempre trazia feijão, arroz, farinha, não trazia carne, né? Essas coisas traziam, as pessoas trabalhavam. (pausa) E na segunda demarcação, foi melhor. Na terceira foi melhor, na verdade, que deu confusão, com a gente tomando tiro de borracha, né, mas ficou muito boa. Já tinha carro pra carregar gente, trazer, levar água, e não tinha nada dessas coisas, primeira. Então, foi muito boa. E pra nós foi... Eu tenho pra mim, eu como conheci, fui o dono da luta, pra mim isso foi muito importante, pra mim e pra todo mundo que chegou depois. Se nós não tivéssemos demarcado essas terras, você acha que Caieira Velha tava desse jeito? Tava não. Tava daqui é pior. Então, depois que nossas terras foram demarcadas, andamos recebendo nosso dinheirinho, mas muito tá aqui hoje em dia que é por causa disso. Não é por causa de outras coisas, é por causa disso.
P/1 – E por que você tá aqui?
R – Eu tô aqui, porque, na nossa primeira demarcação veio, era o tempo da ditadura. Era ditadura, sabe que que é. Minha língua não dá pra falar, a gente não sabe falar. Eles vieram pra tirar nós tudo daqui, porque eles dizem que era tudo da Aracruz Celulose, vieram várias pessoas pra tirar nós daqui. Inclusive, você conhece o Bento Fumaça, né? O Bento Fumaça foi embora naquela época. Aí, ficou o nosso mais velho aqui, mais velho que eu, os pais da gente: “Vamos levar vocês também”, “Não, daqui não”, “Não, é muito bom, lá tem uma aldeia muito boa pra vocês. Vamos desocupar essa aldeia aqui, porque essa aldeia aqui é da Aracruz, eles vão chegar aqui, vão meter o trator e vão derrubar a casa de vocês, tudo. E vocês têm que ir embora, vocês não vão sobreviver”, “Ah, não, não, não. Se tiver de matar, nós vamos morrer, nós vamos morrer dentro do que é nosso. Nós vamos morrer dentro do que é nosso”. Então, nós não fomos, botamos um barreiro, nós não fomos, nossos velhos. E é por isso que nós estamos aqui até hoje. Aí, daqui, vamos sair depois que eu não morrer. Como na época, depois disso, foi embora o meu pai, foi minha mãe, foi mais os outros aí. Então, eu estou aí, fui embora daqui quando eu morrer. Nós vencemos nossa luta, graças a Deus, e estamos aí, porque aqui nós somos na época de não ter nada mesmo, né, não ter nada. Porque às vezes que nós tínhamos dia que não tínhamos café pra tomar, ou piorou um pouco, não tínhamos pão. Nós fomos muito fracos aqui dentro, muito fracos. Fomos pessoas muito fracas aqui dentro, mas sobrevivemos. Tinha cada caboclo parrudo aqui dentro. Nesse tempo, porque eu era de fraqueza, né, mas tinha cada caboclo parrudo. Depois que os parrudos foram embora, ficando nós, estamos aí vivendo, (pausa) comendo caranguejo e ostra.
P/2 – E o que você comia no lugar do pão?
R – O pão? Nós tínhamos sempre um aipim, uma batata, uma batata, um aipim, uma batata, e comia a farinha, farinha com café, quando tinha café, quando não tinha, ficava assim mesmo. Uma farinha com café é bom. Comer farinha com café. Farinha feita aqui da roça, do braço.(som de alto-falante)
P/2 – E beiju?
R – Ah, beiju. As pessoas têm que aproveitar, enquanto eu estou falando. Depois que eu parar de falar [risos].
P/2 – Mas você ia falar um pouquinho do beiju.
R – Ah, o beiju. Beiju era uma coisa muito importante pra a gente aqui. Nós comíamos beiju de goma, comíamos beiju de massa e comíamos tapioca. Era uma coisa... A gente fazia farinha. Quando não fazia farinha, não comia. Comia, quando ele estava no cafezinho, comia uma farinha com café. É muito bom comer farinha com café. Eu gostei de comer farinha com café. De vez em quando, aquela farinha torradinha, feita no [kitungo?], né? De vez em quando, eu vou lá na loja de farinha, pego a farinha, jogo na boca e saio comendo café. É muito bom. As pessoas: “Comendo farinha com café, pai?”. Eu falei: “É o nosso... Foi o nosso tempo de vida, o nosso tempo de vida”. Então, isso era muito importante pra nós, entendeu?
P/1 – O que é beiju de goma?
R – Beiju de goma? Beiju de goma é a água da massa. Você “rela” a massa ou a mandioca, né? Aí, bota pra enxugar. Aí, aquela água cai. Você bota uma vasilha debaixo daquela água pra juntar aquela água. Depois, aquela água fica ali embaixo e põe naquela goma. Aí, você joga a água fora e fica naquela goma. Aquela goma você torna a apanhar, torna a apanhar ela. Torna “desmiucar” ela de novo. Torna a lavar na água. Nessas águas assim, você torna a lavar. Lava ela bem lavadinha e bota lá pra enxugar de novo. Aí, ela enxuga de novo. Virou aquelas que as coisas assim de goma, né, que as tabelas de goma. Aí, você pega peneira e faz o beiju. Fica um beiju bom. Faz de coco, faz de doce, faz sem doce. É isso aí que é o beiju. E você come de dar sono. Então, eram nossas comidas antigamente. Nossas comidas. Fazer, entendeu? Minha mãe fazia muito beiju. Nós mesmos fazíamos muito beiju. Pois é. Isso aí.
P/2 – E hoje em dia, você come beiju?
R – Eu como beiju. Se tiver, eu como. De vez em quando, as meninas compram, as vendedoras passam, a gente compra, né? Mas não é aquele beiju que nós fazíamos natural ali, não. Às vezes, a gente compra muita coisa. Hoje, não é aquela comida gostosa que a gente fazia, não. Hoje em dia, aquele tempero, sei lá se é o tempero, tira muito o gosto das comidas, das coisas que a gente come ou não. Aí que Antonio, meu cunhado: “Não é não, Olindo, é porque, de primeiro, era fome” (risos). Mas era assim mesmo.
P/1 – E tem algum gosto que você lembra, além do beiju, assim, da sua infância?
R – Ah, poxa. Eu lembro da comida da minha mãe. Minha mãe fazia uma moqueca de peixe. A gente comia aquela moqueca de peixe, o pirão daquele peixe. Você comia e lambia os beiços. E hoje em dia, eu digo pra a minha esposa, digo: “Helena, faz um peixe com caldo, meio que de pirão”. Ela faz e eu não como, não gosto mais daquele pirão. Era o pirão da minha mãe, entendeu? Aí, eu digo pra ela, ela diz: “Se está bom, bem, se não está, bem que eu faça esse pirão pra você”. Ah, eu não sei, não. Acho que é muito tempero hoje. É o tempero. De primeiro, nosso tempero, você fala, um tomatinho, aqueles tomatinhos miudinhos, assim, era um coentro, era essas coisas assim, uma cebolinha verde. E a gente comia aquilo e gostava, e não é agora um pirão que a gente pede, que a gente come lá fora, em casa mesmo, entendeu?
P/1 – Você sabe se sua mãe tinha uma receita especial?
R – Aquela mesma receita, porque um dia, eu vou te contar a história, agora é história. Um dia tinha um doutor que foi caçar, aí se perdeu no mato. Se perdeu no mato, lutou, lutou com três dias e apareceu numa fazendina. Aí, viu uma casinha lá fora e fui lá. Falou “Oh, moço, tô cheio de fome e sede. Você tem comida pra me dar aqui?”. Ele falou: “Oh, doutor, eu não tenho, não”, o homem era um doutor, “Ah, doutor, não tenho, não. Eu tenho aqui uma cabeça de carneiro cozido. É o que eu como, o que eu tô comendo. O senhor quer?”. Ele falou: “Ah, faz, faz pra mim, faz pra mim, que eu não morto”. Aí, ele foi lá, fez aquela pratada, aquela cabeça, ele fez aquela pratada de comida, pirão, e deu pra ele. Aí, ele sentou na mesa e baixou a boca, comeu até suar. Aí, ficou lá uns dois dias comendo aquela cabeça, aquele pirão. Aí, no outro dia, ele pediu que ensinasse pra ele e foi embora: “Eu vou voltar aqui de novo”. Chegou em casa, disse à empregada: “Ah, eu hoje quero comer uma cabeça de carneiro. Vai lá comprar”. Mandou comprar a cabeça de carneiro. Foi lá, comprou a cabeça de carneiro, fez pra ele, bem temperado, muito tempero, botou pra ele comer. Ele falou: “Ah, essa aqui não tá boa, não tá igual àquela lá”. Aí, passou e foi lá: “Ôh, seu moço, eu vim aqui pedir pro senhor o tempero daquela cabeça de carneiro que o senhor fez pra mim, deu pra mim comer”. Ele falou: “Ih, meu senhor, é difícil e é fácil”, “Como é que o senhor fez o tempero?”, “Ah, o tempero são três dias de fome. Com três dias de fome, o senhor come qualquer comida” [risos]. É por isso que eu digo que o tempero da comida são três dias de fome. Aí, ele falou, não teve jeito não. Ficou sem comer a cabeça de caneiro, mas acabou, esqueceu. Aqui, nós era de primeiro, passava muita falta, não tinha nada. Só aquelas coisinhas que nós comíamos, né? É verdade. O ensopado, de primeiro a gente comia aqui o ensopado de mamão. O ensopado de mamão era um ensopado muito bom, o ensopado de mamão. E agora ninguém quer comer o ensopado de mamão, mas era uma comida muito boa, o ensopado de mamão. Agora, fazer aquele ensopado de mamão com a carne seca, cozido com carne seca, é uma comida muito boa. Comia carne que fazia aquelas rabadas com abóbora. Ah, não tem coisa melhor que um boi com abóbora. Então, essas coisas que a gente não comia, mas existia, a gente comia de outras coisas, de outras caças. Pois é, era isso aí.
P/1 – E aí, voltando um pouco aqui para o território. Você falou das casas, o que mudou? O que mais você acha que mudou aqui?
R – Aqui, mudou tudo. Aqui, mudou até a consciência da gente. Aquela coisa que a gente era de primeira, que era gente boa, gente boa. A gente de primeira aqui se servia com os companheiros. Quem não tinha nada, não tinha nada. Quem tinha alguma coisa, aí, repartia com a gente. E aquele que, de manhã cedo, a mãe da gente olhava assim: “Poxa, não tem um açúcar pra fazer café”, não tem aquela bondade que a pessoa tinha de primeira, “Ah, vai na casa de fulano pedir a canequinha de açúcar”, ia lá e pedia a canequinha de açúcar que estava pronto pra dar, “Ah, um pouquinho de pó”, ia lá na casa de outro, arrumava o pó. Era assim de primeira, agora hoje em dia não. Hoje em dia, todo mundo tem e ninguém quase dá nada a ninguém. E ninguém quase bebe um café na casa do outro. Primeiro, chegava na casa de uma pessoa: “Ah, pois, fulano, quer café?”, “Quero”. Aí, ia lá pegar o café, dava pra ele beber. “Quer a farinha?”, dava uma cuia de farinha, uma cuia. Aí, a pessoa comia aquele café com farinha e vinha café com farinha. Então, a união de antigamente era muito melhor do que hoje. Hoje, ninguém tem, hoje ninguém tem, hoje, me desculpa, mas ninguém tem união mais. Hoje, o que comanda é o dinheiro, Deus, primeiramente, depois, o dinheiro. Acho que foi o dinheiro que mudou todas as coisas, eu acho. Pois é. E a gente sem dinheiro não é nada. Então, é isso aí.
P/1 – E a casinha, a casa dos tambores, sempre foi aqui?
R – Não, a casa dos tambores foi assim. Se você tomar conta do tambor, tem aí os tambores lá pra a sua casa. Você é que vai tomar conta. E o dia que você não quiser tomar conta, se o menino quiser tomar conta do tambor, ele vai tomar conta do tambor, ele vai lá pra a casa dele. É desse jeito. É na casa das pessoas, porque sempre foi na igreja, né? Quando comecei a me entender no mundo, o tambor era na igreja, mas se um padre aqui em Aracruz, aquele tal de padre Guilherme, eu não sei nem que bicho era aquele. Eu sei que era um padre (risos). Ele tirou o tambor da igreja. A discriminação veio pelo padre. O padre: “Ah, esse negócio do tambor da igreja, isso não é coisa de santo, não sei lá o quê. Esse tambor aqui é coisa de negro, é coisa de índio, é coisa de macumba”. Por isso que o tambor saiu da igreja. Ficou em casa, em casa, as pessoas. Quem tomava conta do tambor tomava. Quem é o capitão que toma conta, é o dono, a casa dele, é o dono da casa do tambor. É desse jeito, foi tirado pelo padre. Agora, o que estão pedindo, porque às vezes muita cultura, quem tirou dos índios foi os portugueses, quando vieram de Portugal aqui, os padres mesmo, os padres jesuítas. Dizem que o padre jesuíta ajudou muitas pessoas, né? Mas também tirou muita cultura do índio. Pois é, isso aí.
P/1 – E hoje, os tambores estão onde?
R – Estão na minha casa.
P/1 – E como que você cuida dele? Tem algum jeito?
R – Um jeito de vez é cuidar dele, não deixar nada roer ele, né? Cuidar dele desse jeito.
P/1 – Tem alguma questão assim espiritual? Tem alguma coisa assim?
R – Espiritual não tem, não. Espiritual é como nós vamos tocar ele, né? É como eu digo, o espiritual vem num toque do tambor.
P/2 – E tem alguma música que você gosta de cantar?
R – Aqui, a música que diz que é espírita é aquela música que se fala assim (entrevistado canta): “Oi, lá no mar tem pedra debaixo da... Oh, no mar tem areia, debaixo da areia tem ar. Oi, lá no mar tem sereia, quem manda no mar, é sereia, é sereia, é sereia, é sereia quem manda no mar, é sereia”. Ah, diz eles que mexe com espírito, quem tem espírito, né? Mas tem muitas músicas boas que tocam na cabeça da gente. Eu não sei, porque eu não sei cantar, mas quem canta muito é minha filha, a Olinda. A Olinda canta muito. A Olinda canta no tambor, canta na igreja. Ela sim. Só não canta pra forró, nunca cantou [risos]. Ela é convidada pra tocar nas igrejas. Ela canta muito.
P/1 – Você falou da igreja aqui. A igreja mudou muito também?
R – Mudou.
P/1 – Como que era?
R – A igreja mudou muito. A igreja antigamente só cantava ladainha, né, ladainha. Sabe o que é ladainha, né?
P/1 – Não.
R – Não? Ladainha é você ser um cantor de igreja, em casa mesmo, se você sabe rezar, você pega uma Bíblia e vai nas igrejas rezar. Um Pai Nosso com Ave Maria e outros santos, outros rezam qualquer. Aí, você passa a ser um rezadeiro da igreja, _____ de igreja. Aí, você passa a ser um rezadeiro de igreja. E é desse jeito. Então, a igreja mudou muito. Agora, tem o pastor da igreja evangélica. O pastor da igreja. Na minha época, era pastor também. Agora é o presbítero da pequena igreja. Então, são eles que cantam na igreja todo sábado, todo domingo. Querem botar doutrina, essas coisas aqui. É desse jeito. Lê catequese, né? São essas coisas assim. Então, mudou muito. Primeiro, não tinha. A gente tinha que ir pra a igreja. Se aprendesse a rezar, aprendesse. Se não aprendesse, aprendesse a xingar, e levando a vida [risos]. E agora, tem essas coisas. Agora, todo mês tem padre da igreja. Primeiro, não tinha padre nessa igreja. Agora, tem. Então, mudou muito.
P/1 – E o lugar que ficava a igreja?
R – O lugar que ficava a igreja? Todo tempo a igreja foi ali, aqui é agora. Aquela igrejinha pequena é muito antiga. Foi desmanchada, porque ela começou a querer cair. Desmanchamos ela pra reformar ela. E eles fizeram aquela igreja de lado ali. Aquela igreja pequena ali na época em que ela foi afundada ali tem mais de uns 500 anos, eu acho. E tem aquela história do que é que derruba aquela igreja, aquelas igrejinhas históricas. Sempre tem uma história. “Ah, se derrubasse a igreja tem isso, tem aquilo outro”, aí, bota lobisomem, bota cobra, bota tudo. E ninguém derruba aquela igreja por causa daquela conversa de antigamente. Se ele vê que eu conto a história da igreja, ele quer que eu diga que tem uma cobra embaixo daquela igreja. Ah, isso aí é mentira. Eu não podia falar isso [risos]. Ah, essa é história, é a história dos antigos, como eu falei, porque primeiro não tinha lâmpada, não tinha nada, era tudo escuro. Então, a pessoa com tempo contava a história pra amedrontar a gente, pra a gente não ser arteiro [risos]. Pois é, isso aí.
P/1 – E hoje como que é seu dia a dia?
R – Meu dia a dia hoje é sentar nessa cadeira daqui pra dentro de casa e de dentro de casa pra essa cadeira. Meu dia a dia. Agradeço que eu sou aposentado. Alguns acham que a aposentadoria de velho não é importante. Eu, como velho, eu agradeço essa aposentadoria, porque, se não fosse essa aposentadoria que eles arrumaram pra nós, não existia a gente, já tinha morrido tudo, porque velho não aguenta trabalhar, velho não aguenta fazer nada. Passou de 40 e pouco, não existe mais serviço pra velho, e o velho tenta viver ainda, passou dos 40 e tantos anos.
P/1 – E quem são seus companheiros de Congo que estão aqui?
R – Ah, meus companheiros de Congo aqui é eu, Helena, Vera, aquele Edinho e depois os meninos que estão por aí, seus primos aí, os filhos… aqueles meninos, que eu esqueço o nome deles, são os meninos que estão aí. Estão cantando muito bem, gosto bastante dos meninos. Os filhos de Margi e de mais outros.
P/1 – Eles vêm aqui?
R – Eles sempre vêm aqui. Depois, Celina arrumou aqueles tambores pra eles tocar, eles pararam de vir aqui, pra a gente. Então agora, esse mês de agora, eu andei saindo duas vezes. Fui na Barra do Sahy e fui em Santa Cruz. Eu fui com 14 pessoas só, 14 pessoas. Um ônibus lotado, 14 pessoas. Ainda tinha lugar na rua pra embarcar ainda. Foi eu, Olinda, as duas filhas dela, o filho, Olinda, cinco. Fomos cinco, eu, aquele Caleb, Raoni, Raoni daqui. Fomos 11, sete pessoas. Aquele menino de Deu ali, sete. O Paulo e a mulher, oito. Fomos 14 pessoas só. Não foi mais ninguém. Foi desse jeito aí.
P/1 – E os companheiros que já foram, tem alguém que te marcou?
R – (sons de galo) Não, não, não. Eu não sei porque quem quiser mandar o nosso tambor, uns dizem: “Ah, porque o tambor, não sei lá o quê. Mas é porque o tambor… esses meninos não bebem”. O tambor todo o tempo tinha uma pinga, mas eu não gosto de pinga [risos]. Eu não gosto de bebida. O companheiro tem que sair sem bebida, igualmente a mim. “Então, eu não vou”. Eu não gosto de bebida nas minhas coisas. Eles falam que a bebida é a coisa do índio, mas eu sou índio, mas sou índio sem bebida.
P/1 – Seu Olindo, o que o Congo te ensinou?
R – O tambor me ensinou muitas coisas. Me ensinou a tratar bem os outros. Me ensinou a receber as pessoas legal. Foi uma coisa muito importante pra mim, foi que eu sei não sei conversar, mas sei aceitar as pessoas chegarem perto de mim e conversar, atender, prestar atenção nas pessoas. Então, pra mim foi importante. Nós estamos aqui nós quatro aqui, nós cinco, aliás, isso pra mim é importante, você chegar e conversar, bater um papo comigo, atender vocês, você me entender. Se você não me entender, vai ficar assim mesmo. E se eu não entender vocês, eu vou ficar do mesmo jeito, entendeu? Mas eu sei que minha consciência é limpa e estou conversando com vocês, dando atenção, entendeu? O importante da gente é ser a pessoa legal, dar atenção a todo mundo e prestar aquele amor de atenção. O tempo que o tambor me ensinou essas coisas. Muito bom que meu pai também ensinou bastante pra gente, né? É isso aí.
P/1 – E o que esse território te ensinou?
R – Esse território que me ensinou? Esse território que me ensinou essas coisas mesmo, de eu ser o que eu sou hoje, entendeu? Pai de quatro filhos, receber todo mundo, aceitar todo mundo e conversar com todo mundo. Não tem uma pessoa que eu não falo. Tem vezes que passa pra gente e não dá atenção. Aquele lado é das minhas pessoas, os meus companheiros passam pra gente e não dão atenção a gente, pra mim eles ficam lá e eu fico pra cá, fico desse jeito. Então, me ensinou muitas coisas boas. Me ensinou a tratar todo mundo. O território aqui, na minha época até hoje, não me ensinou coisas ruins, só me ensinou coisas boas. As coisas boas que eu estou falando, aceitar todo mundo, receber todo mundo. É desse jeito aí.
P/2 – E o senhor sente saudade do seu território quando era criança?
R – Bom, quando eu era criança, era bom, porque nós mesmo ficávamos pra tudo quanto é canto, íamos pra um canto, corríamos no beiral de casa, não saíamos de casa pra longe, igual estamos saindo agora. Hoje nós já vamos pra Coqueiral ali, vamos pra Santa Cruz, vamos pra Barra do Sahy, dançar forró, essas coisas tudo. Pra mim, hoje essas coisas não é importante e nesse meio da saída deles tem muitas coisas boas, tem muitas coisas ruins, o resto é mais coisa ruim do que coisa boa. E na minha época, não tinha isso. Na minha época, não tinha isso. O que eu vivi nesse mundo até hoje, eu nunca aprendi a beber. Fumar um cigarro picado eu fumava, mas o dia que o cigarro picado me queimou a mão, eu falei: “De hoje em diante, não boto cigarro na boca mais”. Parei de fumar. E é desse jeito que me ensinou. É esse aí que me ensinou o cultivo no mundo de bom estilo. E nem conversava com os companheiros, dar conselho pra tirar isso do mal, mas hoje ninguém te aconselha. Eu tenho um neto aí que mora comigo aí. Isso aí me dá uma dor de cabeça, que eu não sou disso. Tem dia que os companheiros aí ficam a noite toda na rua, eu não gosto. Eu nunca fiquei na rua, não sou pessoa de rua. Então, é isso aí que eu tenho hoje pra reclamar. E tem o modo meu passado, que era muito bom, que eu não saía de casa. Talvez quando eu ia pra um bailezinho, era pouco, lá pras dez eu só tava em casa. Meu pai e minha mãe recebiam novamente. Eu deixava meu pai da noite toda, nunca deixei. Então, é isso aí de hoje, de hoje que a gente era obediente dos pais, o pai falava que a gente obedecia. Hoje, igual nós falamos, hoje criar cinco, seis filhos, dez filhos pra quê? É pra dar dor de cabeça. E de primeiro não tinha esse negócio. Hoje, nós só queremos criar dois filhos, três filhos, mas tem vezes que o filho quer mandar a gente, não quer mais a gente que manda eles, eles têm que mandar a gente, não respeita a gente. É isso aí que é o problema dos filhos de hoje. É o de hoje, o de ontem pra hoje, entendeu? Aqueles que têm boa vontade de estudar vão estudar, aqueles que não têm não vão estudar. É desse jeito.
P/1 – E quais seus sonhos pro futuro daqui, do Congo?
R – Ah, meu futuro pro Congo daqui, meu futuro daqui, do jeito que eu estou, minha idade tá chegando, é acabar de viver e acabar de morrer, porque o que eu tenho, eu não tenho nada. Se você tem uns quatro cabecinhas de boi lá no pasto, um carrinho velho, o que eu tenho? E tem esse barraco aqui, outro barraco lá em cima, né? E se os filhos não brigarem com os netos, não brigarem com os outros netos, né, por causa disso que eu tenho, eles vão ter, se eu não tiver a começar a brigar, eles vão sumir com tudo, vai acabar com tudo, porque eu tenho essas coisas. Não é por causa que eu tô batendo os zóio ainda. É porque neto, neto só sabe se tem pai, neto, filho, quando o pai morre, se deixar, ó [risos]. Porque eu digo, quando eu termino, a gente vai dizer: “Ó, com o papai morrer, essa casa querendo ser “desmulhada”, pra não deixar pro outro neto. Aquela lá de ser do mesmo jeito. Nós vamos ficar com a terra lá, mas não sei o que eu vou fazer com a terra”, entendeu? Então, é o futuro que a gente tem que dar pra a esposa. Quando a esposa passou dos 70, 60 anos, nós não temos mais futuro. Nós pensamos no futuro, que eu ainda penso no futuro meu ainda. Um dia eu tô querendo comprar um carrinho pra mim andar. Eu tenho um carro, mas é um carro velho, de trabalho, pra puxar boi. Então, eu tenho um pensamento aí. Não é o que eu penso, o futuro meu é esse aí. Eu tenho uns boi, tenho uns cavalos, né?
P/1 – E pro Congo? O que você espera?
R – O que eu espero que esse Congo nunca acaba, nunca pare, continua todo o tempo. Morre um, vem outro, pelo menos, um capitão vai ficar, uma banda dos tambores. Mas eu espero que isso aconteça, mas acho muito difícil. A noite cultural diz que tem pouca gente na noite cultural. Então, sabemos que estamos enfraquecendo os tambores. Pois é, então, é isso aí.
P/1 – Qual que é a sua marca para ficar para história, para esse povo?
R – Eu praticamente não tenho marca nenhuma. Minhas marcas são essas que eu estou contando pra vocês, que eu tive, que eu vivi muito tempo no tambor, que eu vivi muito tempo em Caieiras Velha. Essas são minhas marcas. E meus netos que eu vou deixar, minhas filhas, talvez eu possa morrer primeiro, de que eles morrem primeiro que eu, né? Então, essas são as marcas que eu vou deixar, porque a gente foi aqui no lugar, o pessoal sabia que nós fomos, como eu cansei de falar, tem mais Sezenando aqui que outras pessoas. E agora juntou o Pego e o Pajeú, que aumentou muito Caieiras Velha. Então, a marca nós temos aí, saber quem era o Sezenando aqui dentro, como é que eles eram, como é que eles viveram. A marca eu tenho que deixar essa aí. Quem era o Sezenando aqui dentro e quem vai ser o Pego amanhã, quem vai ser o Pajeú amanhã também ou depois. E o Pajeú Velho morreu com os cento e tantos anos, não, ia dar cem anos e morreu. Então, são as histórias, as marcas que nós temos que deixar. O que que eles fizeram aqui dentro, se você lembrar da gente, igual eu lembro, eu lembro que os velhos faziam, andavam fazendo aqui, tá bom. E se não lembrar, aí acabou a marca toda, acabou com tudo. É porque sempre se fala que nós velhos, nós da nossa idade assim, nós somos históricos, mas nós somos o passado, mas nós não somos o passado. Se eu tivesse esquecido do passado que meus velhos passou pra mim, hoje eu não tava contando pra vocês. Então, eu não sou o passado. Nós vivemos todo o tempo, se Deus abençoar chegar a cem anos, você vai viver. Ele lá também vai viver. Vai contar uma história que hoje eu tô contando, que amanhã eu posso morrer, ser morto, posso morrer em qualquer hora. “Ah, eu estive na casa do Olindo uma vez, o seu Olindo tem 70, 80 anos, mas ele contou umas histórias, eu lembro que o seu Olindo falou isso, seu Olindo falou aquilo. Se ele não encontrasse comigo, como é que ele ia contar essa história?”. Não ia, vocês iam contar essa história. Então, nós estamos todo o tempo, se ninguém esquecer, nós vamos viver. Todo o tempo nós estamos vivos.
P/1 – E o que que você achou de contar sua história?
R – Eu acho muito importante, porque eu sempre digo, nossos velhos não têm uma história igual essa que eu tô contando pra vocês aqui, porque não existia essas coisas que vocês estão fazendo aí. Se existisse, tinha muita história boa. Hoje, se eu não conversar com vocês, não conversar com ninguém, nós não temos uma conversa pra amanhã. Hoje, é hoje que eu falo com minha filha: “Ah, papai, tá bom de o senhor parar de conversar com o pessoal”, sei lá o que, sabe? “Não, minha filha, é bom a gente conversar, porque amanhã um neto meu, um bisneto, se tiver uma câmara apresentando aí um rádio ou uma televisão em qualquer lugar, no cinema, aí, se eu aparecer lá: ‘Ó, aquele era seu avô antigamente’”. Então, sempre nós tem que ter uma história pra nós, até amanhã pros nossos netos, nossos filhos, nossos bisneto, tataraneto. Então, nós temos essa história. Então, eu acho isso muito importante, entendeu?
P/1 – Tem alguma coisa que a gente não perguntou?
R – Não, vocês perguntaram muitas coisas. Foi muito importante vocês perguntarem. O que eu lembrei eu falei, o que eu não lembrei e não falei. E se eu não falei bem, vocês me desculpem, porque hoje eu tô conversando com vocês, amanhã eu não posso estar mais, mas eu tô muito ruim pra conversar, entendeu? Só as histórias que eu sei contar são só essas histórias aí. Se não ficou bom, vocês me desculpem. E o dia que quiser voltar pra ter outro papo, pode voltar, nós estamos até no mesmo ponto, no mesmo banco, no mesmo lugar, debaixo do pé de manga. Pois é.
P/1 – Queria perguntar o que esse lugar aqui significa pra o senhor?
R – Esse aqui? Isso aqui significa uma coisa muito bom. Se nós não tivesse esse pé de manga aqui, ou nós estávamos no sol quente aí, ou estávamos na chuva. Então, esse lugar pra nós, pra nós, é importante. Então, o pé de manga, se você entrar debaixo, conta uma história. Conta uma história, conta uma mentira, conta a verdade. Pois é. Eu conversei com vocês, ainda contei uma história aí do doutor que tá com três dias de fome, né? Então, pra nós, é importante, existem umas histórias. Eu não sei histórias, de primeiro, os mais velhos sentavam num terreiro desse aqui, botavam o banco pra lá, enchia de gente pra contar histórias, essas histórias passadas, histórias mesmo, entendeu? A gente dava risada aqui, os outros ficavam com medo, era muito importante. História é uma coisa muito boa. História é uma coisa muito boa. Faz reviver o espírito. O espírito também é uma coisa boa que nós temos, nós temos espírito. Ai de nós se não fossem o espírito. Mas vocês não vão pensar “Poxa, o senhor Olindo é um espiritista, Olindo é um pembera, é um feiticeiro”, não vão pensar nisso não, que eu não sou não. Aí que o dia eu tô sentado aqui, chegou uns rapazes de bicicleta: “O senhor que é seu Olindo?”. Falei: “Sou eu mesmo”. “Poxa, eu estou procurando o seu Olindo. Disseram pra nós que o senhor é um rezador muito bom, vem aqui pra o senhor rezar nós”. “Ih, rapaz”, falei, “Ih, meu filho, vocês se enganaram. Vocês vieram nas pessoas erradas. Eu não sei benzer, eu não sei rezar”, “E o senhor sabe fazer o quê?”, “Eu só sei matar”. Aí, um olhou pra cara do outro, pocaram fora, não quiseram mais nada. Aí o Lena falou: “Mas você não tem jeito” [risos]. Eu sou contador de mentira. Tinha uma família que morava aqui, o Joãozinho, os filhos dele, eles gostavam de conversar comigo, ficavam até lá pras meia-noite conversando comigo. Aí, os outros: “Você gosta de conversar com Olindo, ele só fala besteira”. “Não, mas seu Olindo fala muita besteira, mas fala muita coisa boa” [risos]. Mas eu sou aquele homem fraco, contador de história, mal, mal, mas conto. Então, é o que eu estou falando, se eu falei mal, desculpa. Eu estou esquecendo de muitas coisas, a cabeça também não tenho aquela memória boa mais.
P/2 – O senhor falou muito bem, lembrou de muita coisa.
P/1 – Foi ótimo.
R – Você venha aqui pra me contar a história de Caieiras Velha, como Caieiras Velhas era, como é hoje. É o que você está vendo. Agora, se eu não me lembro do passado, era só a rua ali que tinha, que não tinha casa nenhuma. Eu contava as casas que tinha aqui todinha. Eu sabia quem era, quem não era, conhecia as pessoas, conhecia pessoas de 100 anos, 80 anos, conhecia umas pessoas dessa idade aí.
P/2 – Antes das ruas, as casas eram ligadas como?
R – Não tinha casa ligada, não.
P/2 – Era no mato?
R – Era no mato. Uma casinha aqui, outra lá na frente. Aqui, as primeiras casas que tinha, aquela tinha uma casa lá, tem outra lá pra cima, tem outra pra lá, tem outra pra lá. Quando fazia uma festa, aparecia gente de Caieiras Velha. De mais, era assim, falhada, porque não tinha casa. Aqui, tinha a minha casa, que morava ali, depois veio o seu Mário Oliveira, fez uma casa do outro lado, lá pra frente tinha coisa, o velhinho que morava lá, era vizinho meu. Essas casas eram assim. Quando a gente pedia uma caneca de açúcar e botava um pano na cabeça fazendo molhar o açúcar, era desse jeito, quando estava chovendo aí.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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