ENTRE O CÉU E A TERRA
ENXERGANDO COM O CORAÇÃO
Almerinda Batista de Moura é a minha mãe, nascida em Picos, Piauí, no dia 12 de novembro de 1924. Seus pais se chamavam Américo de Moura Santos e Isabel Maria Batista. Hoje, com a idade de 101 anos, a minha mãe carrega as rugas profundas em seu rosto. Outrora sorridente, jovem e feliz, hoje se curva em uma expressão de resignação silenciosa.
Mãe é Criação Divina. É o Amor e a força coesiva fundamental do universo, a expressão máxima da Lei Divina. A maternidade é, talvez, uma das experiências humanas em que o amor e a dor se entrelaçam de forma mais intensa e transformadora, impulsionando o crescimento espiritual.
A maternidade pode ser vista como a manifestação imanente do aspecto criador da Divindade. A experiência da maternidade, com seus desafios, sacrifícios e alegrias, é um campo fértil para a evolução espiritual. O amor maternal, em sua forma mais pura, reflete o Amor Divino e impulsiona a mãe (e, por extensão, a família e a sociedade) a transcender o egoísmo e a desenvolver virtudes como a paciência, a doação e a compaixão. A dor, por sua vez, surge como consequência do afastamento dessa lei, atuando como um mecanismo de aprendizado e reajuste
Este livro, "Entre o Céu e a Terra", narra instantes desde o nascimento de Almerinda Batista de Moura em 1924 até os dias de hoje. Alguns fatos importantes de sua vida ou outros de somenos importância, mas que ela viveu e recorda com graça. Apesar dos desafios, mãe sempre cumpriu com maestria a sagrada missão de amar, cuidar, perdoar e acalmar os corações de seus filhos.
O que diferencia a protagonista neste livro é a sua resistência inabalável e força de vontade. Reconheço e honro a luta, o sacrifício e a dedicação de todas as mães, mas a dor e o sacrifício que a minha mãe suportou foram tão profundos que mereceram ser imortalizados neste livro.
A sua resistência não se limita ao corpo, mas...
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ENXERGANDO COM O CORAÇÃO
Almerinda Batista de Moura é a minha mãe, nascida em Picos, Piauí, no dia 12 de novembro de 1924. Seus pais se chamavam Américo de Moura Santos e Isabel Maria Batista. Hoje, com a idade de 101 anos, a minha mãe carrega as rugas profundas em seu rosto. Outrora sorridente, jovem e feliz, hoje se curva em uma expressão de resignação silenciosa.
Mãe é Criação Divina. É o Amor e a força coesiva fundamental do universo, a expressão máxima da Lei Divina. A maternidade é, talvez, uma das experiências humanas em que o amor e a dor se entrelaçam de forma mais intensa e transformadora, impulsionando o crescimento espiritual.
A maternidade pode ser vista como a manifestação imanente do aspecto criador da Divindade. A experiência da maternidade, com seus desafios, sacrifícios e alegrias, é um campo fértil para a evolução espiritual. O amor maternal, em sua forma mais pura, reflete o Amor Divino e impulsiona a mãe (e, por extensão, a família e a sociedade) a transcender o egoísmo e a desenvolver virtudes como a paciência, a doação e a compaixão. A dor, por sua vez, surge como consequência do afastamento dessa lei, atuando como um mecanismo de aprendizado e reajuste
Este livro, "Entre o Céu e a Terra", narra instantes desde o nascimento de Almerinda Batista de Moura em 1924 até os dias de hoje. Alguns fatos importantes de sua vida ou outros de somenos importância, mas que ela viveu e recorda com graça. Apesar dos desafios, mãe sempre cumpriu com maestria a sagrada missão de amar, cuidar, perdoar e acalmar os corações de seus filhos.
O que diferencia a protagonista neste livro é a sua resistência inabalável e força de vontade. Reconheço e honro a luta, o sacrifício e a dedicação de todas as mães, mas a dor e o sacrifício que a minha mãe suportou foram tão profundos que mereceram ser imortalizados neste livro.
A sua resistência não se limita ao corpo, mas transcende todos os limites humanos. É uma força que inspira e merece ser reconhecida.
Mesmo diante de acontecimentos que, apesar de trágicos, vejo como provas da vida. Ela suportou, além dos limites, a força da bondade de Deus, fazendo-a resistir e manter-se firme, como uma matriarca no comando de sua vida. Como instrumento na Terra para lhe dar essa sustentação, Deus enviou mais uma alma em forma de filho, o único não gerado de seu companheiro, Alberto de Deus Nunes, mas o que seria a base para continuar a seguir a sua missão na Terra, sendo o mesmo espírito que na Terra passou a se chamar Itamá Moura Nunes.
Uma mãe pode amar intensamente o seu filho mesmo sem tê-lo gerado. A evolução desse processo se dá pela expansão da consciência e do amor, sendo o laço profundo entre mãe e filho, interpretado como um eco da Unidade primordial da qual todos os seres se originaram. Nos primeiros estágios da vida, essa simbiose reflete a interconexão fundamental de tudo o que existe. A dor é um instrumento pedagógico da evolução. A maternidade, desde a gestação e o parto até os desafios da criação dos filhos, envolve frequentemente sacrifício e dor. No entanto, essa dor, quando compreendida e vivida com amor, torna-se redentora e impulsiona um profundo crescimento espiritual, alinhando-se com a Lei do Amor e da Dor.
Aprofundar-me no texto nessa estrutura um tanto quanto filosófica e espiritual para enriquecer a compreensão da maternidade como uma "Criação Divina" é situar-se na experiência materna dentro de um plano evolutivo universal, regido pelo Amor e pela Sabedoria Divina. Mãe, ao aceitar incondicionalmente a dor em dimensões profundas já no final de sua existência física, tendo atravessado fases do Amor filial, revelando a mãe não apenas como geradora de vida física, mas também consciente, apesar de seus longos anos, revela o instrumento da contínua obra criadora evolutiva de Deus. Mãe, no espaço criador espiritual, como todo ser, esteve presente em estágios de preparação para os embates de sua vida física atual.
A dor, porém, se manifestaria com maior intensidade nos momentos finais de sua existência. Aos 98 anos de idade, em vez da esperada paz e do cuidado de seus filhos, ela enfrentou a dura realidade da ganância, um período que o livro narra em detalhes.
Mãe é uma "Criação Divina"; é a figura da própria Mãe, sob um símbolo poderoso da força criadora, do amor incondicional e do caminho evolutivo que todos estamos trilhando em direção à Unidade.
A fragilidade do corpo é a sua companheira constante e a visão já não alcança sequer a presença de alguém à sua frente, imagina então o brilho das estrelas que tanto admirou e muito gostaria de novamente contemplar.
Em cada fibra do seu ser reside a essência da maternidade em sua forma mais pura e grandiosa. Sua jornada como mãe é um exemplo de amor incondicional, cuidado incansável e uma dedicação que transcende os laços sanguíneos. Doze filhos gerados em seu ventre, cada um recebendo o calor do seu abraço e a doçura do seu olhar. E então, o coração generoso se expandiu ainda mais para acolher um décimo terceiro filho, um presente da vida que encontrou em seus braços um lar, amor e a segurança de pertencer.
Sua grandeza reside precisamente nessa capacidade de amar sem distinção, de nutrir cada vida que lhe foi confiada com a mesma intensidade e zelo. Ser mãe não se limita à biologia, mas floresce na arte de criar, educar e guiar. Sua história ecoa a verdade fundamental de que mãe é aquela que se entrega, que se doa, que oferece seu tempo, sua energia e, acima de tudo, enxerga com o coração cada rebento. Sua jornada é um farol de esperança e um exemplo inspirador da beleza e da força do amor materno em sua forma mais completa.
O título desdobra-se em realidade quando, naquele 8 de novembro de 2025, no quarto de hospital, o tempo parecia suspenso enquanto ela dormia. No entanto, ao despertar, ela trouxe consigo o rastro de outro plano, perguntando num sussurro de susto e saudade: "Alberto, é voce?"
"Não", respondi, "sou eu, o Douglas".
Um sorriso de reconhecimento flutuou em seu rosto. "Ah, é você... Eu estava sonhando com o Alberto".
"Sonhando com o meu pai?", perguntei, sentindo o ar mais denso de significado.
"Era o seu pai", ela confirmou.
Aquelas palavras me atravessaram. Meu pai, partido em 1969, parecia caminhar ali, a um passo de nós. Naquele instante, as fronteiras se dissiparam: o mundo espiritual estendia as mãos para ela, e ela, com uma leveza serena, parecia já tocar as margens do plano maior. Mas só Deus conhece o íntimo de cada um de seus filhos e pode elucidar nossas dúvidas.
"Entre o Céu e a Terra", bem que poderia dedicar-se somente a revelar a grandeza de coração que é a minha mãe, de seus treze filhos que serviriam de testemunhas vivas desse amor que une, que fortalece, que molda caracteres e ilumina caminhos. Mas eu não posso! Ela já não tem aquela vontade própria de decisão e de dirigir seus próprios passos e, por isso, lhe foi concedida uma curatela através da Justiça de Picos, PI. A ironia cruel da curatela concedida ecoa nas paredes da casa. Porque a Justiça é fria, é cega às sutilezas do afeto e da dedicação, e, sendo cega, confiou os cuidados de Almerinda a quem menos poderia oferecer e Almerinda merecer.
E ela sofre em silêncio, engolindo as lágrimas da decepção e da impotência. Percebe a sombra branca cruzar apressada ao lado, alheia ao seu cansaço, à sua necessidade de companhia. O rádio em um canto toca melodias antigas, lembrando tempos mais felizes, quando os filhos eram pequenos e seus risos preenchiam a casa. Agora, o silêncio é quase palpável, rompido apenas pelos seus suspiros discretos e pelo ranger da cadeira de balanço onde passa longas horas, perdida em pensamentos.
Resignada, ela aceita o fardo com a paciência de quem viu muitas luas e sóis cruzarem o céu do Piauí. Mas a resignação não anestesia a dor. No silêncio da noite, quando as lembranças a assaltam com mais força, as lágrimas silenciosas escorrem por seu rosto marcado pelo tempo, irrigando a terra seca da sua solidão, ela se pergunta para onde foi o amor que uniu aquela família, onde se perdeu a compaixão que deveria florescer nos corações dos filhos.
Ingenuamente, eu acreditava que atrocidades cometidas pelos filhos contra a sua própria mãe seriam exclusivas de outras famílias ou de um passado distante e sombrio, onde a ausência de lei, polícia e justiça permitia tais barbáries. Contudo, a cruel realidade escancara que, mesmo em pleno século XXI, sob a égide de leis, da presença policial e de um sistema judiciário, os interesses egoístas continuam a esmagar os mais elementares valores humanos e familiares.
Este livro não é uma delação, mas um alerta. Um alerta às atrocidades que meus próprios irmãos infligiram à nossa mãe centenária. Muito mais que um alerta, este livro revela o sofrimento físico e moral a que ela foi submetida nesses últimos anos. Um clamor por justiça para aqueles que causaram e que despertem para uma verdade inexorável: Suas ações encontrarão a medida de sua própria maldade. Pois, em última análise, quem semeia a dor invariavelmente colhe a solidão e a discórdia, tecendo para si uma existência de conflitos e isolamento.
Desde o princípio, os absurdos desta história clamam por atenção. Mas o que relato a seguir ultrapassa os limites da mais sombria imaginação, desvendando uma crueldade inominável, perpetrada por um ser humano com a sua própria mãe idosa. Porém, dois episódios selaram irrevogavelmente minha decisão de expor a verdade; esses fatos são os retratos lastimáveis da agonia, da covardia, da maldade.
Um desses episódios aconteceu naquele melancólico 12 de novembro de 2023, dia em que minha mãe completou 99 anos. Nesse dia, foi vetada a participação de várias pessoas no interior de sua própria casa para a celebração de seu aniversário. Para materializar essa decisão absurda, além das ordens emitidas de que ninguém seria convidado, os portões foram trancados com cadeados.
Para minha pobre mãe, a alegria de reunir irmãs, sobrinhas, primas, amigos e até mesmo os filhos era personificada em sua festa anual, um evento sempre vibrante e acolhedor. O som da sanfona, os cantos e as danças enchiam a casa de vida. Os portões de entrada da casa sempre abertos, com acesso livre para quem quisesse da festa participar, era essencial para a sua felicidade. Mas neste dia, os portões foram lacrados com enormes cadeados, impedindo a entrada de qualquer pessoa, inclusive dos filhos que desejavam apenas prestar suas homenagens no seu 99º aniversário.
A festa reduzida a apenas cinco pessoas num ambiente carregado de tristeza e dor, contrastando drasticamente com a alegria habitual. A violência contra aquela vulnerável idosa, infelizmente, não cessou por aí. Seis meses depois, em 3 de maio de 2024, protagonizaram outro episódio chocante que o leitor conhecerá na leitura deste livro. E mais outro, algumas semanas depois, aumentando a lista de crimes contra uma idosa de 99 anos de idade. Num desses atentados, mantiveram-na imobilizada numa cadeira de rodas sob o sol do meio-dia junto ao portão de entrada por dez ou quinze minutos.
Foram esses acontecimentos que me rasgaram o peito de dor, motivando a publicação deste livro. Um drama pungente e revelador, essencial para o conhecimento de todos, para que atrocidades como essas jamais caiam no esquecimento. Mas os fatos acima descritos são apenas resumos no meio de tantos que surgiram há muitos anos.
Que um dia, talvez tardio, a névoa da insensatez se dissipe e os filhos possam enxergar além do próprio umbigo, o oceano de amor que sempre cercou a família. Que a dureza do egoísmo se renda à suavidade da lembrança, e a ignorância se curve diante da verdade silenciosa de um coração materno ferido, mas eternamente disposto a perdoar.
O Autor
A METAMORFOSE NA VIDA E NA ARTE
O quadro intitulado Metamorfose, um presente da poetisa e artista plástica Raimunda Fontes de Moura, tornou-se, para mim, muito mais do que uma obra de arte. O quadro se transformou na lente através da qual comecei a enxergar e a dar sentido às profundas transformações que ocorreram nos últimos anos na vida de minha mãe. A cena de metamorfose capturada na tela, com sua promessa de renovação e seu processo de mudança radical, parecia ser a analogia mais adequada para o drama que se desenrolou ou irá se desenrolar na leitura desta obra. A poesia silenciosa de uma tela. O drama silencioso de uma vida.
O escultor, quando trabalha a pedra, não apenas toca a pedra, ele a sente; suas mãos enxergam a forma oculta que aos poucos se transformará. Da mesma forma, o poeta não escreve, ele molda as palavras, dando vida a sentimentos que a alma leiga, muitas vezes, não pode ver. Aos 101 anos, o mundo de minha mãe, outrora vibrante de cores e imaginações, tornou-se um silêncio solitário. Mas a sua existência não foi de cores apagadas. Foi uma tela pintada com a luz mais intensa do sol, desenhada pelos versos que meu pai criava. Para ela, a vida era uma poesia, uma canção que ecoava em cada riso e em cada lágrima.
As cores de um quadro como o que vemos acima não são fáceis de descrever. Não são as cores que um pintor vê na paleta, mas sim a infinitude que ele imagina. São os tons vividos na cidade de São Simão, as nuances de Jaú, onde a vida testou a sua força, ou Barra Bonita. Mas foi em São Paulo, na Rua Dom Antônio de Mello, no Bairro da Luz, que o destino, qual um fio de bordado, teceu os momentos que se tornaram a essência deste livro.
Neste registro, é celebrada como a obra-prima que ela realmente é. Um poema vivo, moldado pela mão do tempo, pintado pela resiliência de um coração que soube amar. Ela é a poesia que meu pai nos deixou, um eterno e inesquecível verso de amor.
É essa a essência do meu livro, "Entre o Céu e a Terra"; nele, não apenas relato, mas também faço uma dolorosa denúncia sobre a forma como a confiança de uma família pode ser violada. A metamorfose que se deu aqui não foi a da lagarta que se torna borboleta, mas a da confiança que se desfaz e a da estrutura familiar que se corrompe.
Para ilustrar e aprofundar essa comparação, a foto do quadro Metamorfose servirá como um ponto de reflexão sobre como uma mudança na forma, na estrutura e no comportamento de um organismo — seja ele biológico ou familiar — pode ocorrer de maneiras tão distintas. Enquanto na natureza a metamorfose representa um ciclo de evolução e beleza, no nosso caso, ela se manifestou como uma triste deterioração moral.
No sentido mais literal, a metamorfose é uma mudança na forma e na estrutura. No entanto, sua definição aqui se expande para o campo das emoções e dos valores. Nela, defino que essa transformação também é usada em sentido figurado para descrever mudanças significativas e irreversíveis na aparência, mas, principalmente, no caráter, no modo de pensar e de agir de uma pessoa. Foi essa metamorfose humana, silenciosa e amarga, que permitiu o abuso e a traição, e é essa a realidade que o quadro e a minha história procuram desvendar. A arte nos convida a ver o ciclo da vida com esperança, mas a vida nos mostra que, às vezes, a metamorfose pode ter um custo muito alto.
NASCIMENTO DE
ALMERINDA BATISTA DE MOURA
Américo de Moura Santos casou-se com Isabel Maria Batista, uma das filhas de Firmino José Batista e Mariquinha, por volta do ano de 1917/18, e dessa união, tiveram oito filhos: seis mulheres e um homem, são eles: Francisco Batista de Moura, Maria Batista de Moura, Constança Batista Moura, Eduvirgem de Moura Batista, Maria Duó Batista Barros, Maria de Jesus Batista de Moura, Almerinda Batista de Moura, Rosa Batista de Moura.
Almerinda Batista de Moura nasceu em 1924, após o nascimento de Francisco Batista de Moura em 1919 e o de Maria Batista de Moura, nascida em 1922.
A casa em que moravam no lugar Cercado foi construída pelo senhor Américo de Moura Santos, no alto de uma pequena elevação e com um vasto e plano terreno à frente da casa, próximo a uma igreja que hoje não existe mais. Três dias depois do nascimento de Almerinda, no dia 15 de novembro, no sábado, o lugar viveu um momento inusitado e incomum. A casa, antes isolada, silenciosa e distante, fervilhava de atividades. Era dia de festa, dia de celebrar o nascimento de uma bela criança e agradecer as bênçãos recebidas. O aroma de café fresco e broa de fubá aquecia o ar enquanto os preparativos finais eram feitos.
No terreiro, crianças corriam e brincavam. Seus risos ecoavam pelas encostas da elevação, assustando a passarada e parecendo dar vida à mata. No interior da pequena casa, as mulheres se esmeravam nos últimos preparativos do banquete que logo seria servido: capão assado, farofa crocante, pernil de porco assado, molho de legumes diversos e, para o final, doce de leite caseiro e frutas frescas da época. Enquanto as mulheres se ocupavam de auxiliar na cozinha, os homens conversavam no terreiro sob a sombra de um enorme umbuzeiro. Ali, foram postas mesas e cadeiras para os convidados, além de vasos com flores sobre as mesas e alguns enfeites brilhantes entre os galhos do umbuzeiro. Era um dia de sábado e, mesmo à distância das casas entre si, não impedia que a residência do senhor Américo estivesse cheia naquele dia.
O senhor Américo, homem alto e forte de 34 anos de idade, de mãos calejadas pelo trabalho, observava tudo com um sorriso largo no rosto. Sentia-se feliz, orgulhoso da família que construíra e da vida que levava naquela terra próspera. Quase toda a sua família se encontrava ali, seus pais, Cândido de Moura Fé e seus irmãos, entre eles Pedro de Moura Santos, que se entretinha em conversas as mais variadas, inclusive falava até de suas andanças pelos lados da Lagoa das Abóboras, São João da Cana Brava e Fazenda Monte Alegre (Hoje São José do Piauí). Além dos primos, seu tio Aristides e até mesmo seus avós, o Major Firmino José Batista e Mariquinha, mas esta, apesar dos anos, ainda se ocupava com os afazeres da cozinha, dando especial atenção a Bela, levando-lhe água, e outro alimento qualquer, mormente caldo de galinha.
O entra e sai de pessoas, amigos e parentes era constante. Os casais que chegavam traziam potes de doces ou refrescos e as crianças traziam flores silvestres colhidas ao longo da estrada. Outros casais traziam biscoitos caseiros e roupinhas de tricô e croché e até pratos e panelas foram oferecidos à mamãe Isabel Maria Batista, que agradecia os presentes.
No terreiro, onde todos se reuniam, as boas-vindas à nova moradora, Américo contava histórias e dizia o nome escolhido para o seu terceiro filho. Sentado e com o filho Francisco de cinco anos sobre seu colo enquanto balançava suavemente a rede onde dormia a pequena Maria de apenas dois anos. Ele dizia: "Almerinda é o nome da minha princesa". E ante as perguntas frequentes, ele continuou:
"O nome Almerinda é de origem árabe e significa "Protegida por Deus". Foi lá nos Picos no sábado passado, ouvi falar de uma moçoila de nome Almerinda Farias do Maranhão que era letrada e escrevia poesia muito bem, e guardei o nome na memória e pensei: "Se for mulher, vai se chamar Almerinda".
Almerinda nasceu numa quarta-feira, dia 12 de novembro de 1924, mas a festa promovida por Américo de Moura Santos foi no sábado, dia 15 de novembro. Um dia especial para toda a família. Um dia que ficou para sempre marcado na memória como um símbolo da união, da felicidade e da gratidão de seus familiares e amigos por uma vida próspera e abençoada.
Na verdade, o senhor Américo de Moura Santos era uma pessoa muito influente na região; apesar de sua pouca instrução, conseguiu, ao longo dos anos, amealhar alguns bens suficientes para a construção da grande casa e também as faixas de terra e casas dos moradores e trabalhadores. Alguns de seus empregados se faziam presentes com suas esposas e filhos, e todos eram bem-vindos, além de amigos de outras regiões que vinham ou a pé ou montados. As suas terras pelos lados do Cercado e Abóboras eram utilizadas no plantio de arroz, milho e feijão, além da criação de gado. Essas terras passaram a ser administradas por ele após casar-se com Isabel Maria Batista, a Bela, como era conhecida. Eles receberam as terras como herança dos pais de Bela.
À mesa posta no alpendre, todos se serviam enquanto o clima agradável e convidativo para o ambiente tranquilo convidava a todos para uma conversa divertida e também para o diálogo sobre os preparativos para o plantio que, sem dúvida, todos os lavradores esperavam, já que o inverno prometia ser bom para aquele próximo ano.
No quarto, onde Isabel Maria se encontrava, suas irmãs e demais parentes lhe faziam companhia. Ali se achavam Antônia de Moura Santos, Maria do Carmo de Moura Santos e sua irmã mais nova, Antônia Ana de Moura, de apenas seis anos. Mas a que mais auxiliava era Mariquinha, e não foi somente neste dia; sempre que podia, Mariquinha lá estava e foi durante todo o período de puerpério que a presença de Mariquinha se fazia presente. Uma verdadeira mãe, auxiliando em tudo o que lhe era possível. Mariquinha adorava crianças e fez de tudo para que Isabel estivesse no melhor conforto possível, arejando o ambiente e auxiliando na hora da amamentação e do asseio.
O inverno do ano seguinte, 1925, não foi tão bom quanto esperado pelos sertanejos. Durante as conversas que mormente aconteciam entre os fazendeiros naqueles meses de março e abril, era sobre o plantio de arroz, feijão e milho. Surgiu, no entanto, entre um deles, a notícia trazida por um viajante da morte de 621 pessoas no dia 28 de fevereiro de 1925, quando da explosão de uma caldeira na ilha do Cajú, na distante cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Mas poucos estavam interessados nisso... O que predominava mesmo era o inverno e as plantações daquele ano de 1925.
Em 1926, pelos meses de junho e julho, o clima foi de muito calor. Mesmo à noite, as altas temperaturas obrigavam a todos dormirem com as portas e janelas abertas e a manter água nos potes cobertas com panos úmidos para refrescarem durante a noite.
Em primeiro de setembro daquele ano, nascia mais uma bela criança, uma menina que recebeu o nome de Constância. Talvez pela persistência ou determinação de Américo de Moura Santos, na continuação da família, patrimônio muito maior do que uma simples e modesta herdade ou sítio, ele não se fazia de rogado, se era à vontade do Todo Poderoso o nascimento de novos filhos... que assim fosse. Sem dúvida, ele estaria cumprindo os desejos da multiplicação e da família.
Almerinda, por sua vez, já contava dois anos de idade. A família crescia - Já quatro filhos para enriquecer o domínio de sua existência... Américo de Moura Santos era feliz. Demonstrava isso nos seus colóquios com seu irmão Pedro de Moura Santos.
No ano de 1926 não houve inverno. Chegava o fim do ano com pouca chuva e assim entramos em 1927; durante esse ano, por meses, nenhuma gota de chuva caiu dos céus, atormentando o sertanejo que olha as poucas nuvens passarem rapidamente em direção ao poente, sem perspectivas de melhoras do tempo. Famílias inteiras da região anunciaram que partiriam em busca de melhores condições no Maranhão ou na Bahia. Muitas dessas famílias, depois que partiram, jamais deram notícias.
A GRANDE SECA DE 1932
Em 1932, a terra rachou sob um sol implacável, e cada grão de poeira levantado pelo vento contava a história silenciosa de corações partidos e esperanças que secaram junto com os rios.
Os anos anteriores parecia prenunciar a grande seca que viria no ano de 1932. Aquela seria uma das mais intensas e prolongadas da história do Nordeste, causando grande sofrimento e desespero. Famílias inteiras sofreram com a seca.
O sol inclemente de 1932 castigava o sertão piauiense com uma fúria implacável. A terra, antes um mosaico de tons terrosos salpicados pelo verde resistente da caatinga, agora se estendia como um lençol cinzento e rachado, sedento por uma gota sequer de água. O ar, denso e quente como bafo de fornalha, carregava a fina poeira avermelhada que impregnava tudo, desde as roupas esfarrapadas até as poucas lágrimas que ainda ousavam rolar pelos rostos curtidos pelo sol.
As manhãs não traziam alívio, apenas a promessa de mais um dia de agonia. O canto matinal dos pássaros havia sido silenciado, substituído pelo gemido fraco do gado definhando nos currais vazios. Os açudes, antes espelhos d'água que refletiam o céu azul, eram agora crateras secas, expondo o barro endurecido e as carcaças de peixes que não resistiram à sede.
Nas casas de taipa, o silêncio era pesado, interrompido apenas pela tosse seca das crianças e pelos suspiros cansados dos pais. A farinha de mandioca, outrora sustento básico, tornava-se um luxo raro. A caça, já escassa em tempos normais, desaparecera por completo, e as raízes que antes complementavam a dieta se escondiam teimosamente sob a terra ressequida.
A esperança, teimosamente agarrada aos corações sofridos, começava a esvanecer. As novenas e as promessas aos santos pareciam ecoar no vazio. Os mais jovens, com olhos fundos e barrigas inchadas, perguntavam com vozes fracas quando a chuva voltaria, um questionamento que os mais velhos não tinham coragem de responder, pois a incerteza era um fantasma ainda mais cruel que a própria seca.
Homens e mulheres, outrora fortes e trabalhadores, viam seus corpos definharem dia após dia. A energia para cavar em busca de um fio d'água subterrâneo se esvaía, assim como a força para caminhar léguas em busca de alguma alma caridosa que pudesse oferecer um punhado de milho. O êxodo, silencioso e desesperançoso, tornava-se a única alternativa para alguns. Famílias inteiras, carregando trouxas magras e a tristeza estampada no rosto, partiam em busca de terras mais generosas, deixando para trás a poeira e a lembrança amarga de um tempo em que a vida no sertão era dura, mas não implacável como em 1932.
A seca não era apenas a ausência de chuva; era a ausência de vida, de futuro, de esperança. Era a dor lancinante da fome, a agonia da sede, o desespero de ver os filhos definharem. Era o sertão piauiense sangrando sob o sol inclemente, clamando por misericórdia em um silêncio ensurdecedor.
Dentro das paredes de taipa rachadas, onde o calor se concentrava como em um forno, o sofrimento do sertanejo em 1932 ganhava contornos ainda mais íntimos e dolorosos. As casas, antes refúgios do sol escaldante, tornavam-se prisões de poeira e fome.
Os pensamentos eram um turbilhão de apreensão e impotência. Os pais, com o olhar fixo no chão batido, remoíam a angústia de não poderem prover o sustento da família. A lembrança das plantações viçosas e dos currais cheios assombrava as noites mal dormidas, onde o estômago roncava em protesto. A pergunta que não ousavam verbalizar pairava no ar denso: até quando essa provação iria durar?
Os dias se arrastavam em uma rotina de escassez. As poucas panelas permaneciam frias por longas horas. O trabalho na roça, antes árduo, mas recompensador, cessara com a morte da lavoura. Os homens tentavam caçar algum preá esquivo ou buscar raízes escondidas na terra seca, um esforço quase sempre inglório. As mulheres, com a resignação forçada pela necessidade, economizavam cada grão de milho, cada lasca de rapadura, dividindo em porções minúsculas que mal enganavam a fome.
A fé era, para muitos, o último refúgio. Rosários desfiados com dedos trêmulos, ladainhas sussurradas na penumbra dos quartos, promessas feitas a santos milagreiros eram a válvula de escape para a desesperança. Acreditavam em um milagre, em uma chuva abençoada que pudesse revitalizar a terra e trazer de volta a fartura. Mas a cada dia sem nuvens no céu, a fé era testada, e a dúvida sutilmente se insinuava nos corações sofridos.
A alimentação era um capítulo à parte na crônica da miséria. O café da manhã, quando existia, era um gole ralo de água morna. O almoço e a janta, na maioria dos dias, resumiam-se a um punhado de farinha seca engolida com dificuldade ou a algumas folhas amargas encontradas no mato. A carne se tornara uma lembrança distante, um luxo de tempos melhores. A água, buscada a longas léguas em cacimbas quase secas, era racionada com rigor, cada gota valiosa como ouro.
E as crianças... Ah, as crianças. Seus olhos antes brilhantes perdiam o viço, substituídos por um brilho opaco de cansaço e fome. As brincadeiras cessavam; a energia se esvaía. Seus pequenos corpos magros exibiam as costelas salientes, e as barrigas inchadas eram o triste retrato da desnutrição. As mães, com o coração apertado, tentavam amenizar o sofrimento dos filhos com histórias tristes e canções de ninar abafadas. A amamentação, para aquelas que ainda conseguiam produzir leite, era um alento fugaz. Para as outras, restava oferecer água suja e a promessa vã de que logo a fartura voltaria.
As crianças eram alimentadas com o pouco que havia: um mingau ralo de farinha, um pedaço duro de rapadura, a água barrenta da cacimba. Cada alimento era oferecido com a dor de saber que não era suficiente, que não saciaria a fome que lhes roubava a alegria e a vitalidade. Seus pequenos rostos pálidos eram o espelho da seca impiedosa que assolava o sertão, marcando suas vidas com a cicatriz invisível da privação.
Dentro daquelas casas de taipa, o sertanejo piauiense de 1932 vivenciava uma batalha silenciosa contra a fome, a sede e o desespero. Uma luta onde a esperança se agarrava teimosamente à fé, enquanto a vida se esvaía lentamente, dia após dia, sob o olhar impotente de pais e mães que tudo fariam para aliviar o sofrimento de seus filhos.
JANEIRO DE 1933
Em janeiro de 1933, o final da seca trouxe os primeiros pingos, recebidos como uma bênção divina após um longo período de escassez.
Janeiro de 1933 chegou ao sertão piauiense com uma brisa úmida que carregava um aroma há muito esquecido: o cheiro da terra molhada. Após um ano de 1932 de sofrimento lancinante, o céu, antes um implacável disco de metal incandescente, começou a exibir sutis mudanças. Nuvens tímidas, como algodão sujo, surgiam no horizonte, crescendo lentamente, prenunciando o milagre tão esperado.
Os sertanejos, com a memória ainda fresca da seca que lhes roubou a alegria e a subsistência, observavam o céu com uma mistura de incredulidade e esperança. Cada mudança na cor do céu, cada sopro de vento mais fresco, era interpretado como um sinal, um aceno da natureza que parecia finalmente se compadecer de seu sofrimento. As crianças, que mal se lembravam de outra paisagem senão a da terra rachada, apontavam curiosas para as nuvens, seus olhos antes opacos começando a brilhar com uma nova expectativa.
Os primeiros pingos foram recebidos como uma bênção divina. Finos e hesitantes a princípio, logo ganharam força, batendo no chão seco com um som que era música para os ouvidos castigados pela aridez. A poeira vermelha, onipresente durante a longa estiagem, era lavada, revelando tons terrosos mais escuros, a promessa de vida adormecida.
A alegria explodiu nos corações sofridos. Homens e mulheres saíam de suas casas, erguendo os rostos para sentir a água fria escorrer pela pele ressecada. Lágrimas, antes de tristeza e desespero, agora eram de alívio e gratidão. As crianças corriam e pulavam nas pequenas poças que se formavam, seus risos ecoando pela primeira vez em muito tempo, contagiando os mais velhos.
As novenas e promessas feitas durante a seca ganhavam um novo significado, a prova de que a fé, mesmo abalada, não havia sido em vão. A esperança, que teimava em resistir nas profundezas da alma sertaneja, finalmente florescia.
Aos poucos, a paisagem começava a se transformar. O verde pálido ressurgia timidamente na caatinga; os riachos antes secos mostravam os primeiros sinais de água corrente. A terra, sedenta por tanto tempo, absorvia avidamente cada gota, preparando-se para o ciclo da vida que se renovava.
O trabalho na roça recomeçava, agora com um vigor renovado. As mãos calejadas cavavam a terra úmida, plantando as sementes da esperança, imaginando a fartura que a chuva traria. O som do pilão voltava a ecoar nas casas, anunciando a preparação dos alimentos com os primeiros frutos da terra renascida.
Janeiro de 1933 não trouxe apenas chuva; trouxe consigo a promessa de um novo começo, a certeza de que a resiliência do sertanejo era mais forte que a mais cruel das secas. A alegria da água que caía era a celebração da vida que persistia, a reafirmação da fé e a esperança renovada em um futuro onde a terra voltaria a ser generosa e o sertão voltaria a sorrir.
Mas os anos seguintes não foram de "um bom inverno", como costuma dizer o sertanejo. Cada ano é um ano de novos desafios e preocupações.
O local Data Cercado era um universo em si mesma, e as crianças aprendiam desde cedo as tarefas do dia a dia. A lição mais importante era a da autossuficiência. Meninos e meninas aprendiam a cuidar dos animais, a plantar e colher, a construir cercas e a realizar pequenos reparos. A natureza era a sua sala de aula, e cada dia trazia novas descobertas e desafios.
A escola, como a conhecemos hoje, era um luxo reservado a poucos no século passado, especialmente em áreas rurais distantes. Para as crianças que viviam em povoados isolados, a educação era moldada por um ambiente completamente diferente: a própria natureza, os ensinamentos dos pais e a rotina da vida no campo.
A família era o centro da vida nas vilas e nos povoados. Os pais transmitiam aos filhos não apenas os conhecimentos práticos, mas também os valores e costumes da comunidade. As noções de respeito, trabalho duro e solidariedade eram passadas de geração em geração por meio de histórias, exemplos e ensinamentos.
Apesar do isolamento, as fazendas não eram ilhas. As comunidades rurais organizavam festas, eventos religiosos e mutirões, que eram momentos de encontro e aprendizado para todos. Nessas ocasiões, as crianças tinham a oportunidade de interagir com outras pessoas, compartilhar experiências e ampliar seus horizontes.
A educação recebida nos anos do século passado moldou gerações de homens e mulheres rudes e resilientes. O contato constante com a natureza e o trabalho duro desenvolveram neles um senso de responsabilidade e um profundo respeito pela vida. Embora as condições de vida fossem mais simples, a educação recebida na fazenda era rica em valores e ensinamentos que perduram até hoje.
Desde muito cedo, Almerinda observava a natureza árida e aprendia as lições da seca. A cada amanhecer, Almerinda acompanhava sua mãe nas longas caminhadas em busca de água potável. O sol castigava a pele, e a poeira se misturava ao suor, formando uma camada espessa em seus rostos. A água encontrada era racionada; cada gota era preciosa e utilizada com parcimônia para beber e cozinhar.
O trabalho no roçado era árduo. Almerinda e seus irmãos mais velhos passavam horas sob o sol escaldante, plantando arroz, feijão e milho. A terra seca e rachada dificultava a tarefa, e as sementes muitas vezes não brotavam. A esperança de uma boa colheita era tênue, e a ansiedade crescia a cada dia.
A falta de chuva tornava o dia a dia ainda mais desafiador. A família enfrentava a fome e a sede, e a saúde de todos era fragilizada. Almerinda, apesar da pouca idade, já sentia a responsabilidade de ajudar seus pais. Ela cuidava dos animais, buscava lenha para cozinhar e trazia água para a casa.
Outras vezes, em tom de diversão na busca da água nas cacimbas dos pés de manga, Almerinda recebia a ajuda de seu primo Antônio Leal que não deixava que a mesma levantasse o balde de água nas âncoras presas nos lombos dos animais para despejar nas cangalhas. Era um verdadeiro cavalheiro, apesar da idade de 14 anos.
As noites eram longas e silenciosas. Almerinda, deitada em sua rede de dormir, lembrava os episódios durante o dia e sorria satisfeita. Ali, ao lado de outras redes, ouvia os grilos e os uivos dos animais selvagens no escuro da mata e sonhava com um futuro diferente, com um lugar onde a água abundasse e a terra fosse fértil.
Apesar de todas as dificuldades, ela nunca perdeu a esperança. A menina aprendeu a valorizar a vida, a importância da família e a força da natureza. A seca moldou seu caráter, tornando-a forte, resiliente e determinada.
A INFÂNCIA DE ALMERINDA
Nos anos 30, quando Almerinda era só um brotinho, seus dias eram tecidos com a imaginação e a magia do que via. Seus brinquedos não vinham de lojas distantes, mas nasciam de suas próprias mãozinhas, como flor que desabrocha no quintal.
Suas bonecas, ah, essas eram verdadeiras princesas do mundo! Não tinham rosto pintado nem cabelos de seda, mas eram feitas com carinho de panos velhos, palha de milho ou até mesmo de sabugo. Ganhavam vida com roupinhas feitas por ela e pelas suas irmãs, de retalhos coloridos, costuradas com carinho e paciência. As casinhas, feitas de pequenas pedras ou latas de óleo ou qualquer tesouro encontrado no chão, eram pequenos reinos onde a vida adulta era imitada com a inocência de um sonho. Almerinda, com seus olhos de jabuticaba e alma de passarinho, tecia seus dias com a magia das brincadeiras. Seus brinquedos não vinham de caixas coloridas, mas nasciam da terra e da sua imaginação, como flores que desabrocham no quintal.
E as comidinhas? Que delícia! Embaixo da sombra generosa das árvores ou na imensidão da chapada, panelinhas de ferro serviam banquetes de faz de conta, com feijãozinho de mentira e carne inventada, temperados com risadas e segredos sussurrados. Tudo era um convite para o piquenique da imaginação, onde a fome era de alegria e a sede, de brincadeira.
Aos sábados e domingos, o ar ficava mais festivo. A casa de Almerinda se enchia de vozes e risadas. Os irmãos e primos de Américo de Moura Santos, junto com a família de Mãe Bela, chegavam para longas conversas que se estendiam até as estrelas aparecerem, pontinhos de luz no céu imenso. O cheirinho bom de café com biscoitos adoçava a noite, enquanto as crianças se juntavam para suas cantigas de roda.
As cantigas de roda, essas sim, eram tesouros! Passadas de avó para neta, de mãe para filha, eram melodias que contavam histórias e segredos do sertão. De mãos dadas, as meninas giravam, cantando com vozes fininhas e alegres, seus nomes brincando nas letras das canções. Cada coreografia era um balé de inocência, onde o corpo seguia a melodia, em um ritmo que unia corações e almas. Era a pura poesia da infância, simples, genuína e cheia de encanto.
Chegava um momento, porém, em que a magia da roda começava a se desmanchar. A Lua, cansada de tanto brincar, se escondia lá longe, pintando o céu de adeus. E com ele, vinha a voz da mãe, suave, mas firme, chamando para se recolherem. As mãos se soltavam devagar, e o riso virava um sussurro, enquanto os pezinhos descalços, antes tão livres na terra, sentiam o peso da despedida.
Era uma tristeza miúda, que apertava o coração feito um caroço de jaca. As bonecas de sabugo e pano ficavam ali, quietinhas, esperando o novo dia. As panelinhas de ferro, vazias de feijão de faz de conta, brilhavam no escuro, à espera de outra manhã de festim. O mundo de faz de conta, tão vivo segundos antes, se tornava um segredo guardado, e a casinha de lata de óleo, um cantinho adormecido. Almerinda e suas irmãs se esgueiravam para dentro, deixando a chapada e as árvores sob a guarda da noite e das estrelas.
No aconchego da rede que balançava mansamente ou do colchão de palha que cheirava a sol, com o aroma de terra e de fumaça de lenha no ar, os olhos miúdos de Almerinda se fechavam. Mas era ali, no limiar do sono, que a magia renascia, mais forte e sem interrupções. A tristeza do recolher dava lugar a um novo jardim de esperanças, onde tudo era possível. Ela sonhava com as bonecas dançando sozinhas, com panelinhas cheias de doces de verdade que nunca acabavam, com cirandas que não tinham fim e risadas que ecoavam pelo sertão sem precisar de pausa, sob um céu sempre azul.
Nos sonhos, a felicidade era plena, sem relógios ou chamados que pudessem interromper. Era um campo vasto onde as meninas voavam sem asas, leves como plumas, brincando sob um sol que nunca se punha, ou uma lua que nunca desaparecia, com um brilho nos olhos que o cansaço não apagava. E assim, adormeciam, carregando no peito a promessa de que, no dia seguinte, a imaginação voltaria a pintar o mundo com as cores mais bonitas, e a vida, mesmo no sertão, seria um poema sem fim, um sonho bom que se estendia para além do despertar.
ANTÔNIO LEAL DE MOURA SANTOS
Antônio Leal de Moura Santos era irmão de Luiz Leal de Moura Santos. Pedro de Moura Santos, era o pai de Antônio Leal de Moura Santos. Pedro era irmão de Américo de Moura Santos, que se casou com Isabel Maria Batista. Sendo assim, Almerinda e Antônio são primos legítimos. (Josselmo Batista)
A experiência vivida pela minha mãe se tornou uma história que ela contava frequentemente e falava da coragem e da solidariedade de seu primo Antônio Leal. Por isso, ela sempre recomendava quando alguém fosse andar pelos matos: "Olha as cobras..."
Em uma tarde de 1936, a tranquilidade da rotina de Almerinda, no povoado Saco das Tábuas, foi abalada por um susto inesperado. Com um balde nas mãos, a jovem de 12 anos seguia para o açude na companhia de sua irmã mais velha, Maria Batista, de 14 anos, tangendo à sua frente um jumento com suas cangalhas para buscar água. As duas, a pedido da mãe que estava de resguardo de Maria do Ó, nascida dias antes, em 18 de dezembro, saíram para dar banho no pequeno bebê, já que pela manhã ela já fora ao açude pelo menos duas vezes, mas a água já se esgotara. O açude, já bem conhecido delas, era a única fonte de água na época, naquela pequena comunidade. O inverno naquele período parecia surgir com certo atraso, mas sempre bem-vindo. Francisco Batista de Moura, já com quase 18 anos, auxiliava o pai Américo de Moura Santos no preparo do terreno no plantio de milho e feijão. E por lá ficariam até além da metade do dia, quando o sol estivesse declinando no poente.
E lá foram Maria e Almerinda, seguindo o jumento que já conhecia o caminho e sabia por onde deveria ir, entrando pela porteira rústica meio que caída, passando pelo terreno pedregoso da estrada estreita, descendo até a cacimba sombreada pelos imensos pés de manga. Já próximo ao açude, foram alcançadas pelo primo Antônio Leal de Moura Santos que na época tinha a idade de 14 anos, que também fazia o mesmo trajeto na busca pela água em baldes e cangalhas. Antônio Leal de Moura Santos era filho de Pedro de Moura Santos, irmão do pai de Almerinda; sendo assim, eram primos legítimos e eram muito próximos e amigos. Morava mais distante e fazia duas ou três viagens diárias para trazer água, pois servia para beber, lavar a louça, cozinhar e também banhar. Naquele dia, o açude estava mais cheio, tornando mais difícil recolher a água devido ao chão escorregadio causado pelas chuvas na madrugada. Com isso, Almerinda e Maria jogaram algumas pedras, movimentando a água para não pisar no chão lamacento. Antônio, no entanto, entrara no açude até a altura dos joelhos, sorrindo da atitude das duas irmãs que enlameavam a água que deveriam recolher com o balde.
Almerinda, com a movimentação da água, já na beira do açude de água barrenta, sentiu um peso inesperado em sua perna direita. Ao olhar o que lhe causava aquele peso, seu coração disparou: uma cobra enorme se enrolara em sua perna e a comprimia com força,estreitando-lhe como se quisesse esmagar-lhe a perna.
A visão da serpente enrolada em sua perna provocou em Almerinda um susto aterrador e um grito imenso ecoou de sua garganta por toda a grande plantação, que foi ouvido pelos trabalhadores da roça. Maria Batista gritava de horror e chamava por Antônio para acudir e salvar Almerinda, que não parava de gritar e pedir ajuda. A pressão do corpo da cobra em sua perna a deixava imóvel, e Almerinda foi ao chão aos gritos.
Nesse momento de desespero, Antônio Leal, não sabia do que se tratava, achando que era brincadeira das meninas, mas logo saiu da água e correu em sua direção sem saber o que fazer, mas com coragem e determinação de um verdadeiro herói. Não hesitou em enfrentar a situação. Sabendo que a jiboia não era venenosa, mas que o susto e o aperto que ela fazia poderia machucar Almerinda, ele procurou rapidamente um pau numa cerca próxima que tivesse uma forquilha numa das extremidades e tendo a sorte de encontrar uma que servisse, começou a pressionar a cabeça da cobra forçando-a contra o chão. Porém, a jiboia resistia apesar da força que Antônio empreendia pra empurrar-lhe a cabeça até o chão, ao mesmo tempo em que pedia para que Almerinda fechasse os olhos e se acalmasse e evitasse movimentos bruscos. Pedia também a Maria que o ajudasse, mas ela permanecia distante, horrorizada com a cena da cobra enrolada na perna de Almerinda.
Com paciência e cuidado, Antônio Leal conseguiu fincar a forquilha no chão, enterrando na terra úmida junto com a cabeça da jiboia, apesar da força descomunal da cobra, até que, aos poucos, a jiboia foi afrouxando e se desenrolando da perna de Almerinda. Aproveitando o momento, ele cuidadosamente afastou a cobra e esmagou-lhe a cabeça com uma pedra.
Nisso, chegaram Francisco Batista e seu pai e outros trabalhadores que tomaram conhecimento do ocorrido e elogiaram Antonio Leal pelo feito, salvando Almerinda do ataque da terrível jiboia.
A notícia do ocorrido se espalhou rapidamente pela pequena comunidade. A coragem e a presença de espírito de Antônio Leal foram elogiadas por todos. Almerinda, por sua vez, ficou profundamente grata ao seu primo por tê-la salvo de um susto tão grande.
O PAPAGAIO LOURO
No limiar da juventude, quando os catorze ou quinze anos pintavam seus dias, Almerinda nutria afeição por um papagaio singular, resgatado pelo seu irmão Francisco Batista do berço de seu ninho, nas entranhas da Serra do Olho D’água dos Oitis, a ave fora iniciada na arte da fala humana. Com esmero, aprendeu a espelhar as vozes do casarão e, mais tocante ainda, a entoar súplicas ao Pai Celestial, buscando escudo contra as armadilhas cotidianas.
Todas as manhãs, sua voz ecoava pelo casarão e era ouvido com louvor pelos moradores, pois o nome sagrado do Mestre Jesus era pronunciado com frequência e isso trazia benesses de tranquilidade aos moradores, pois se ninguém pronunciava o nome de Jesus, o Louro o fazia. Ele dizia: "Valei-me Jesus Cristo", ou então, pela manhã, quando o aroma do café subia aos ares, ele gritava: "Hora do café, éh - Hora do café!"
E assim vivia o Louro, como se a cada instante um perigo iminente o espreitasse. Suas preces, transformadas em gritos de alerta, ecoavam pela casa, sobressaltando os incautos que adentravam sem aviso. Para o visitante desavisado, o clamor soava como um pedido real de socorro, um prenúncio de ataque, sem que soubesse ser apenas o ofício temeroso da ave, sua constante vigília vocal.
Seu poleiro, uma trave de madeira estrategicamente posicionada no alto da cozinha, era um observatório privilegiado. Dali, roçando o telhado, seus olhos perscrutavam o verde luxuriante das matas que cingiam o casarão, um portal para o mundo selvagem. Era ali que a natureza o visitava em revoadas. Andorinhas, em balés aéreos, riscavam o céu com seus guinchos melódicos, pintassilgos e seus cantos variados e também o Cabeça-Vermelha com seu canto melodioso e agradável, além, é claro, dos pardais, numa algazarra festiva, bicavam o solo em busca das migalhas generosamente ofertadas por Rosa Batista, a irmã de Almerinda. Numa vasilha grande com água fresca, Rosa e Almerinda espreitavam a festa no espelho do céu, das aves que aplacavam a sede e o ardor em banhos festivos, todos juntos naqueles dias quentes.
Tecia-se ali uma confraria de penas e cantos, um banquete diário onde todas as criaturas aladas encontravam abrigo, sustento e paz. Os habitantes do casarão, embalados por essa sinfonia natural, já não se importunavam com o burburinho. Contudo, o Louro de Almerinda, do seu pedestal, sentia o ciúme aguilhoar-lhe o peito. Seus gritos agudos não eram apenas rogos; eram demarcações de território, um protesto contra a invasão de seu santuário. Temia, talvez, que um daqueles seres livres e errantes lhe usurpasse o lugar cativo no coração daquela família benfazeja. Ali, ele não era um mero animal; era um ente querido, um amigo que recebia afeto e, sobretudo, o alimento que o prendia àquela existência protegida.
Mas o destino, tecelão de surpresas, reservava um dia em que o habitual grito de socorro, um entre tantos, se converteria no derradeiro.
Era uma manhã de inverno, por volta das nove horas. O sol, tímido, espreitava por entre nuvens que não prometiam chuva. A família, congregada na varanda frontal, foi surpreendida pela voz familiar do Louro, vinda da cozinha: "Valei-me Jesus Cristo".
Um silêncio perplexo pairou entre eles. O grito, embora conhecido, carregava uma inflexão distinta, uma urgência lancinante que jamais se ouvira. E, num átimo, um novo lamento, mais estridente e desolador, cortou o ar. Desta vez, não mais da cozinha, mas de fora, e com a tristeza da distância.
Acorreram todos, num impulso. Ao alcançarem a cozinha, encontraram apenas o vazio do poleiro e, ao longe, a silhueta imponente de um gavião singrando os céus. Entre suas garras impiedosas, o pobre Louro, ainda em agonia, desferia seu último apelo, a prece que se fizera realidade, esvaindo-se na vastidão azul e fria: "Valei-me Jesus Cristo".
O ENCONTRO COM ALBERTO
Alberto de Deus Nunes nasceu em Lagoa Grande, Município de Picos, no dia 25 de abril de 1913. Na adolescência dedicava-se à confecção de livros, e outros manuscritos que encontrava. Costumava refugiar-se, ora em seu quarto, ora à sombra das árvores na companhia dos livros, compenetrado em instruir-se e apurar a leitura. Sobraçava livros, almanaques emprestados. Copiava dicionários inteiros, aperfeiçoando assim sua grafia e seu saber. Alberto frequentou escola em Jaicós, mais para lecionar do que aprender.
Passam-se os dias, os meses e os anos. Almerinda com seus quinze anos recém-completados, como um botão de rosa desabrochando em meio à aridez, trazendo cor e delicadeza à região do Saco das Tábuas, onde passaram a morar desde de 1935, após a grande seca que assolou todo o Nordeste. Seus cabelos longos e escuros, sempre adornados por uma florzinha campestre, emolduram um rosto de traços finos e olhos curiosos que observam o mundo com uma mistura de encanto e sabedoria precoce.
Ao raiar do sol, Almerinda já está de pé, ajudando a mãe nos afazeres da casa. Faz a ordenha, alimenta as galinhas e cuida da pequena horta que garante o sustento da família. Suas mãos, apesar da pouca idade, já conhecem a lida da terra, o toque áspero da corda, o calor do sol na pele e a busca pela água nas cacimbas. Enquanto trabalha, seu olhar se perde no horizonte, nas serras azuis que emolduram a fazenda, e sua mente viaja para além das cercas de varas que contornam os terrenos em volta.
Almerinda pensa muito. Pensa na chuva que teima em não chegar, no canto melancólico do acauã, nas histórias que sua avó contava sobre os tempos antigos, quando o sertão era ainda mais misterioso e cheio de encantos. Pensa nos livros didáticos surrados, que guarda com carinho e lê ou decifra nas horas vagas, sonhando com as letras e os mundos que elas abrem. A escola, tão distante, é um desejo constante em seu coração, um lugar onde poderia aprender mais, conhecer outras meninas, descobrir novos saberes.
Seus sonhos são simples, mas profundos. Sonha com um vestido novo para ir à festa da padroeira, com um par de sapatos que não machuquem seus pés descalços, com um futuro onde possa ter sua própria casa, talvez até mesmo uma pequena biblioteca repleta de livros. Mas seu sonho mais secreto e acalentado é conhecer o mar. Imagina as ondas quebrando na areia, o cheiro salgado do vento, a imensidão azul que sua avó descrevia em suas narrativas. Para Almerinda, o mar é a materialização de todos os seus anseios por um horizonte mais vasto, por novas possibilidades.
À noite, sob o céu estrelado e silencioso do sertão, Almerinda se senta na varanda com sua família. O som dos grilos e o coaxar dos sapos embalam seus pensamentos. Ela observa a lua crescente, imaginando que um dia, quem sabe, poderá viajar até ela. Por enquanto, contenta-se em sonhar, em sentir a força da natureza que a cerca e a esperança que floresce em seu coração, tão forte e resistente quanto os mandacarus que adornam a paisagem do Saco das Tábuas. Almerinda é a flor do sertão, forte, bela e cheia de sonhos, esperando o tempo certo para desabrochar em toda a sua plenitude.
E aconteceu! Dois ou três meses depois, lá pelo mês de março de 1939, quase todos os moradores do casarão viajaram a convite do tio Moura Santos até a sua cidade, Picos, Piauí. Almerinda, Francisco, Constança, Maria Batista, Rosa Batista, Eduvirgens e Maria Do Ó Batista que contava apenas três anos de idade e alguns primos, para visitara igreja de Nossa Senhora dos Remédios e permanecerem na casa do tio na pacata Rua Santo Antônio em Picos. No sábado, na movimentada feira, vendo as novidades, roupas e artigos de luxo, e no domingo, em Picos, monótona já naqueles idos dias, mas havia a promessa de movimentação à noite, na pracinha da cidade, onde reuniam os jovens namorados. Porém, já prontas, todas as meninas arrumadas e perfumadas para saírem em direção à pracinha, mas ainda permaneciam sentadas em frente à casa do seu tio Moura Santos, na poeirenta e charmosa Rua Santo Antônio, em Picos. Naquele ano de 1939, o tempo parecia dançar em um ritmo lento e acolhedor. O ar carregava o perfume das flores que enfeitavam os pequenos jardins e o murmúrio das conversas e dos risos que ecoavam das janelas abertas. Foi nesse cenário singelo que o destino, com sua maestria invisível, decidiu tecer os primeiros fios de um amor que resistiria ao tempo.
Alberto Nunes, um jovem de coração puro e olhar curioso, caminhava pela rua com a despreocupação da juventude. Seus vinte e sete anos traziam consigo a energia vibrante e os sonhos ainda não desvendados. De repente, seu olhar foi tomado por uma visão que fez seu passo vacilar e o coração acelerar.
Próximo à soleira de uma casa modesta, com um olhar fixo num ponto qualquer, estava Almerinda, na companhia de suas irmãs e primas. De imediato, o seu pensamento dirigiu-se ao seu amigo Moura Santos e ele num relance: "Que felicidade, meu Deus! Justamente a casa que eu busco encontrar meu amigo..."
A jovem que ali estava, com seus cabelos negros, emoldurando um rosto de beleza serena e cativante, brilhava sob a luz suave do final da tarde. Seus olhos castanhos, concentrados no olhar, cruzaram os de Alberto, que a fez estremecer. Seus olhos possuíam um brilho suave que irradiava uma doçura quase etérea. Para Alberto, naquele instante, o mundo ao seu redor pareceu emudecer, e toda a sua atenção se concentrou naquela figura graciosa. Era como se uma melodia suave tivesse começado a tocar em seu íntimo, anunciando um sentimento até então desconhecido.
Almerinda, absorta em seus pensamentos, sentiu um rubor lhe subir às faces ao perceber um olhar fixo sobre si. Levantou os olhos timidamente e encontrou a intensidade do olhar de um rapaz desconhecido. Seus corações se encontraram por uma fração de segundo que pareceu uma eternidade, carregada de uma eletricidade sutil e inegável.
Um sorriso tímido e involuntário brotou nos lábios de Almerinda, um gesto singelo que para Alberto foi como o desabrochar da mais bela flor. Em seu peito, uma onda de calor o invadiu, e uma certeza inexplicável tomou conta de si: aquela jovem, com sua beleza singela e seu olhar doce, era diferente de todas as outras.
Para Almerinda, o impacto daquele olhar foi igualmente surpreendente. Nunca antes um desconhecido havia despertado em si uma sensação tão intensa e imediata. Havia algo nos olhos daquele rapaz, uma sinceridade e uma gentileza que tocaram uma corda sensível em sua alma. Um calor suave se espalhou por seu corpo, e um sentimento novo e desconcertante começou a florescer em seu coração.
Naquele breve encontro fortuito na pacata Rua Santo Antônio, sem sequer uma palavra trocada, Alberto e Almerinda foram atingidos pela flecha silenciosa do amor. Um reconhecimento mútuo, um pressentimento forte e inexplicável uniu seus destinos naquele instante mágico. Mal sabiam eles que aquele encontro inesperado era apenas o prelúdio de uma história de amor que se escreveria nas páginas do tempo, pelas ruelas e pelos encantos daquela Picos de outrora. O destino, sorrateiro e sábio, havia plantado a semente de um amor que floresceria com a intensidade e a beleza dos ipês que coloriam a paisagem piauiense.
Alberto estava alheio a tudo ao seu redor: as pessoas, as jovens, o próprio lugar. Seus olhos fixaram-se na jovem que instantaneamente cativou seu coração. Apagou o cigarro rapidamente entre os dedos e dirigiu-se a ela. Murmurou algo ininteligível a princípio, mas logo se recompôs, desculpou-se e perguntou:
"Boa noite. O senhor Moura Santos se encontra?" "Sim. Vou chamá-lo."
Logo ela retornou na companhia de seu tio, o senhor Moura. Seus olhares cruzaram-se novamente. Após os cumprimentos, os dois caminharam até a esquina. Em meio à conversa, Alberto indagou:
"Quem é a senhorita sentada à esquerda, perto da porta, de vestido longo rosa e mangas?" "É Almerinda, minha sobrinha, filha de Américo de Moura Santos."
Enquanto isso, o grupo de jovens percebeu o encontro incomum. Entre risinhos discretos, cochichavam:
"Quem será ele?"
Outras comentavam:
"Ele se interessou por Almerinda."
"O nome dele é Alberto e ele é viúvo."
"Viúvo?"
"Sim, a esposa e o filho faleceram há uns dois anos. Pobre homem, sofreu muito."
A notícia surpresa comoveu a todos que ali se achavam. Elas sabiam da notícia, mas não imaginavam ser ele, o esposo do trágico acontecimento.
Naquele instante, Alberto apaixonou-se perdidamente por Almerinda de Moura, que tinha apenas quinze anos. Ao chegar em casa naquele mesmo dia, dirigiu-se ao seu quarto e escreveu o soneto MAIS BELA, que posteriormente chegou às mãos de Almerinda, um dia antes de sua partida para o Saco das Tábuas.
MAIS BELA
Tenho sonhado tendo em minhas mãos
As mãos macias de feliz beldade.
Meu sonho vai a todos os desvãos
Até tocá-la, com suavidade...
E sempre com entretenimentos sãos
Me fico junto dela, sem maldade.
Até que, fatalmente, meus irmãos...
Acordam-me, cruéis, sem caridade...
Às vezes acordado estou sonhando
Absorto fico só pensando nela,
Pelo formoso busto passeando...
Se um dia o mundo inteiro fosse vê-la
Entre as mais lindas misses desfilando,
Dar-lhe-ia, certo, o título de mais bela.
Apaixonado, Alberto revelou seu romantismo escrevendo belas páginas que dedicou à sua deusa. E passou a frequentar a casa do senhor Américo de Moura Santos, distante de Picos duas léguas. Seguia a cavalo num dia e voltava no outro. Assim, de poesia em poesia, de flores em flores, Alberto conquistou o coração de Almerinda. Foi ali, no casarão mesmo, que Alberto, junto à sua amada, escreveu algumas de suas mais apaixonadas poesias, sonetos dedicados a Almerinda.
Em vez de um pedido formal e direto, Alberto escolheu a linguagem da alma, a melodia das palavras. Dia após dia, cartas perfumadas com a tinta da emoção cruzavam os caminhos poeirentos, levando consigo versos que desvendavam a profundidade de seu amor. Cada estrofe era um passo rumo ao altar, cada rima, um afago na distância que os separava.
Na imagem de Alberto, Picos pulsava poesia naquele ano de 1940, um tempo de serenidade e tradições. No coração da cidade, o trovador, com a alma transbordando de amor por sua amada sertaneja, que vivia na beleza rústica do interior, mesmo na distância, ao invés de esfriar o sentimento, acendia a chama da saudade e da inspiração.
Ela, de olhar sereno, recebia cada carta como um tesouro. As palavras do amado pintavam em sua imaginação a vida que ele sonhava para os dois, um futuro tecido com os fios da poesia e da cumplicidade. Seus dias, marcados pelo ritmo da natureza, ganhavam um novo compasso com a chegada dos manuscritos apaixonados.
A notícia desse inusitado cortejo logo se espalhou por Picos. A curiosidade e a admiração pairavam no ar, enquanto todos aguardavam o desfecho dessa história de amor singular. E então, um dia, em meio a versos que falavam de união eterna sob o céu estrelado do sertão, veio o pedido, singelo e profundo como as raízes da caatinga.
O "sim" ecoou forte, atravessando a distância, selando não apenas um matrimônio, mas um pacto de almas que se encontraram na beleza da poesia. Aquele pedido de casamento, bordado com palavras sentidas em 1940, emoldurou para sempre a história de amor entre o jovem da cidade e a sertaneja do interior de Picos, mostrando que, às vezes, o caminho mais belo para o coração é trilhado pelas veredas da poesia.
Casaram-se no dia 12 de outubro de 1940, já com seus 27 anos bem vividos e Almerinda com 16 anos. O casamento foi realizado na antiga igreja de Picos, pelo padre alemão José Maria Louth. À época, segundo Almerinda, hoje com 100 anos de idade, cinco padres alemães se refugiaram em Picos, fugindo da guerra na Europa, mas pouco tempo permaneceram em Picos; logo, seguiram seus destinos, uns para Teresina e outros para Petrolina e Salvador, não se sabendo mais seus destinos.
NOVOS HORIZONTES
No coração árido da caatinga piauiense, onde o sol castigava a terra e a vida seguia em ritmo lento, Alberto trabalhava como alfaiate na sala de frente, com entrada por um corredor localizado na casa de seu tio na Rua Grande em Picos. Casado, tecia não apenas roupas, mas também versos. Naquele ano de 1941, a escassez de clientes e a poeira nos cantos do pequeno ateliê abriam espaço para a efervescência de sua alma criativa. Agulha e linha repousavam enquanto a caneta riscava o papel, embalada pela melodia silenciosa do sertão.
Apaixonado pela vida e pelas palavras, ele encontrava na poesia um refúgio, um escape da rotina modesta. Seus versos criavam a beleza singela da caatinga, o sofrimento do povo, mas também a esperança que teimava em brotar como flor rara em meio à aridez. Sonhava com a cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, um universo vibrante e pulsante, tão distante da calmaria poeirenta de seu lar. Visualizava-se em um bangalô próprio, com a brisa do mar acariciando a varanda, enquanto seus poemas ganhavam asas e ecoavam pela cidade.
Com o nascimento de sua filha naquele ano de 1943, que recebeu o nome de Honorina em homenagem à sua primeira esposa, com total aquiescência de Almerinda, e dois anos depois, com a morte do Major Firmino José Batista, avô de Almerinda Batista, ocorrida em 13 de janeiro de 1945, e também com o nascimento de seu segundo filho, Jeovah de Moura Nunes, em 2 de fevereiro daquele ano, Alberto se aquietou e aguardou o momento de anunciar sua viagem. Enquanto isso, permanecia em seu trabalho na alfaiataria da Avenida Central, em Picos (atual Getúlio Vargas).
A morte de Firmino José Batista, um mês antes, em Janeiro de 1945, mesmo grávida, Almerinda ajudava sua mãe na companhia de suas irmãs, Constança, que contava 19 anos, Rosa Batista, com 15 anos, e Maria Batista, com 23 anos a recolher barro das cacimbas, juntando tudo numa bacia para fazer o molde da roupa de luto. Era um trabalho que exigia esforço, pois o barro era recolhido e transportado no lombo de jegues até a casa e, depois, misturado com as roupas que serviriam para o luto de seu avô. O tecido, depois de misturado com o barro, modificava a cor, tornando-o marrom escuro, quase preto; permanecia sob o sol durante um dia inteiro e depois era lavado para retirar o grosso do barro e novamente exposto ao sol durante o dia. Após ser lavado e posto para secar, era usado durante o tempo de luto, ou seja, durante todo o ano.
Enquanto embalava o seu segundo filho e recitava os versos que brotavam de sua mente, Alberto sentia um chamado diferente. A poesia, antes um consolo íntimo, começou a ganhar um tom de clamor. Observava a poeira das estradas, a magreza dos rostos, a falta de oportunidades em sua amada Picos. A arte de moldar tecidos com precisão cedeu espaço a um desejo de moldar um futuro melhor para sua comunidade, para seus filhos.
A vida para Alberto não era fácil. A agulha e o dedal, seus companheiros de ofício, teciam remendos em roupas surradas, mas raramente criavam peças novas. Contudo, a alegria da família era seu refúgio, um oásis em meio à luta diária. Ao pegar o filho recém-nascido nos braços, um sentimento profundo de gratidão o invadiu. Olhou para o céu ainda estrelado e sussurrou um agradecimento silencioso. Em reconhecimento à dádiva da vida, à força que o unia à esposa e ao primogênito, e à esperança que cintilava mesmo na dificuldade, decidiu: o menino se chamaria Jeovah. Um nome que ecoava sua fé e a certeza de que, apesar dos pesares, havia uma força maior a guiar seus passos.
Timidamente, Alberto começou a se envolver nas conversas da praça, a ouvir as queixas dos vizinhos, a expressar suas próprias ideias com a mesma sensibilidade que dedicava aos seus poemas. Sua fala mansa, mas carregada de convicção, e o olhar sincero conquistaram a atenção de alguns. Aquele alfaiate poeta, que entendia a arte de unir linhas e tecidos e poesia, parecia ter também a capacidade de unir pessoas em busca de um bem comum. Lentamente, hesitante a princípio, Alberto iniciava sua jornada na política local, tecendo, ponto a ponto, a esperança de dias mais prósperos para Picos e para o pequeno Jeovah, seu presente divino em meio ao sertão.
Os ventos de 1946 sopravam carregados de esperança para Alberto. No final daquele ano, embalando sonhos acalentados havia tempos, o alfaiate poeta se despediu de Picos, rumo ao Rio de Janeiro. A capital brasileira, com seu burburinho e promessa de novas oportunidades, o aguardava. Almerinda, sua companheira, compreendia a ânsia de Alberto por um futuro mais promissor. Os dias no Rio de Janeiro foram de aprendizado e descobertas para Alberto. Mergulhou em um universo de possibilidades, absorvendo novos conhecimentos e expandindo seus horizontes. A saudade da família era constante, mas a certeza de estar construindo um futuro melhor o impulsionava.
Com o coração apertado pela saudade, mas nutrindo a esperança do reencontro, permaneceu na segurança do lar de seus pais, no Saco das Tábuas, aguardando o retorno do amado.
A família, que era a sua maior inspiração, ganhou um novo membro em janeiro de 1949. Jales, o terceiro filho, chegou para completar a felicidade do casal e fortalecer os laços que os uniam. Com a chegada do novo herdeiro, a responsabilidade e a vontade de prosperar se intensificaram em Alberto.
Os conhecimentos adquiridos em sua jornada no Rio de Janeiro floresceram em sua terra natal. Sua visão abrangente e sua capacidade de diálogo o destacaram na comunidade. O reconhecimento veio com a nomeação para Coletor Federal, um cargo de confiança concedido pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. Não tardou para que sua dedicação à educação também fosse reconhecida, sendo nomeado Inspetor de Ensino de Picos.
Alberto, o alfaiate poeta que outrora lutava contra a escassez de clientes, via agora seus sonhos se concretizarem. Aquele sertanejo de alma sensível, que nomeou um filho em agradecimento à vida, trilhava agora um caminho de serviço e progresso para sua comunidade, mostrando que a esperança, tecida com esforço e conhecimento, podia transformar a aridez do sertão em um futuro mais promissor para sua crescente família.
Até 1953, Almerinda desfrutava de uma vida feliz ao lado de seu esposo e seus seis filhos: Honorina, Jeovah, Jales, Alberto Filho, Douglas e Maria Goretti. Aquele ano, contudo, um acontecimento inesperado abalou a comunidade de Picos. Nessa época, a aprovação dos alunos dependia da assinatura do Inspetor que fiscalizava as notas no boletim escolar. Em algumas ocasiões, ao se ausentar, Alberto notou que alguns boletins permaneciam em branco para serem posteriormente assinados. Diante dessa irregularidade, recusou-se a firmar tais documentos, o que lhe gerou sérios dissabores. Professores e alunos organizaram um movimento de protesto na cidade, simulando um enterro em sua homenagem, como se Alberto tivesse falecido (fato detalhadamente descrito no livro "O Vale das Falenas". (O Vale das Falenas no Depoimento do Padre David Ângelo Leal, que foi testemunha ocular dos fatos, livro esse publicado em 2018).
Sentindo-se "persona non grata" em sua própria cidade, Alberto solicitou sua remoção do Ministério da Fazenda e, alguns meses depois, foi transferido para uma vaga em São Simão, município do interior de São Paulo, distante cerca de três mil quilômetros de Picos. Essa mudança forçada alterou drasticamente a vida de Almerinda e de sua família, que se viu obrigada a viver longe de seus entes queridos.
ESTAÇÃO DA LUZ - SÃO PAULO
A viagem, uma verdadeira odisseia de privação, cravou na memória de Almerinda a gratidão pela vida de cada um dos seus, um milagre diante das condições desumanas que enfrentaram.
Finalmente, exausta e alquebrada, a família desembarcou na imensidão da grande metrópole. Chegaram a São Paulo no cume do inverno de 1954, e a realidade foi um choque brutal: um frio cortante e implacável, totalmente desconhecido para corpos moldados sob o sol causticante e inclemente do Piauí.
A chegada foi o limiar de um calvário gelado. Sem um mísero agasalho, sem um cobertor que pudesse oferecer o mínimo consolo contra a agressão térmica da natureza. A Estação da Luz tornou-se seu refúgio precário e, ao mesmo tempo, sua masmorra. Aninhavam-se nas escadarias de pedra fria, de frente para o arvoredo sombrio e gélido do Jardim da Luz, que parecia intensificar o rigor do inverno. A fome e o desespero — um sofrimento mudo e constante — rondavam a cada respiração, unindo-se ao drama de tantas outras famílias que, como a de Alberto, buscavam, desesperadamente, um futuro na selva de pedras.
Aquele drama durou angustiantes cinco ou seis dias. A família permaneceu acampada na Estação da Luz, alternando entre o interior no amplo salão e a dureza das calçadas expostas. O frio era uma presença física e dolorosa, um algoz que castigava impiedosamente.
Apesar da adversidade, a solidariedade dos paulistanos surgiu como um bálsamo inesperado. Mãos anônimas estenderam-lhes pratos de comida quente e, mais precioso que tudo, cobertores. Era um alento vital que, dia após dia, mantinha a frágil chama da esperança teimando em sobreviver. Naquele ano, a cidade de São Paulo celebrava o seu quarto-centenário. A cidade vivia em festa, mas nem todos comemoravam. Uma família vivia reclusa nas escadarias frias da Estação da Luz.
O agente da estação, por sua vez, já parecia tristemente habituado àquela cena recorrente de famílias inteiras de nordestinos. Fazia o que estava ao seu alcance para tentar amenizar a dor lancinante e o sofrimento visível das crianças, permitindo que passassem as noites mais próximas à entrada, onde o vento era ligeiramente menos cruel.
O relato daquele período é marcado pela intensidade do frio. Mesmo dentro da estação, ele era tão avassalador que rasgava a pele. Criava feridas dolorosas nos lábios de Jales e nas mãos dos outros meninos, provocando uma tosse seca e incessante nas crianças menores. O autor deste livro, com apenas 4 anos na época, recorda o martírio dos raros momentos de banho, um suplício partilhado pelas outras crianças. A caçula, Maria Goretti, de apenas dois anos, parecia sofrer menos — talvez em um estado de amortecimento provocado pela exaustão e pelo frio extremo, pois pouco chorava ou manifestava seu tormento.
Após quase uma semana de provações, Alberto, que havia se desdobrado em uma busca frenética por uma solução, regressou com uma notícia que soava como um milagre: embarcariam, dali mesmo, em um trem da Sorocabana com destino a São Simão. O alívio era indescritível: ele trazia a chave da casa e algumas panelas adquiridas, o mínimo necessário para recomeçar. São Simão, a quase 300 quilômetros da capital, era o destino. Um contato, feito por telefone, garantia-lhes uma casa e a promessa, por menor que fosse, de um futuro."
No dia seguinte, a família desembarcou em São Simão. A pequena casa na Rua Marechal Deodoro, próxima à estação ferroviária, era simples, mas representava um porto seguro após a tempestade. Sem perder tempo, Alberto providenciou panelas e os mantimentos essenciais: arroz, feijão, farinha, leite. A refeição singela, preparada em panelas novas, tinha o sabor inestimável da dignidade recuperada. Aquele inverno de 1954, em São Paulo, ficaria marcado como o tempo da provação, mas a chegada a São Simão, por mais modesta que fosse, simbolizava o recomeço, a força e a resiliência de uma família nordestina em busca de uma vida melhor.
A PERDA DO BEBÊ
No ano de 1962, a família residia na acolhedora Barra Bonita, cidade turística à beira do Rio Tietê no interior paulista. Morávamos na Rua Campos Sales, número 315 no centro da cidade. Ali meu pai recebeu a visita de um senhor de Jaú, cidade vizinha a apenas trinta quilômetros de distância. Com a idade de 11 anos, eu já percebia os negócios de meu pai, a compra de uma casa em Jaú, cujo valor na época era de 790 mil cruzeiros.
A propriedade que despertou o interesse de meu pai era um imponente chalé, com uma fachada generosa de quase vinte metros e uma profundidade de vinte e três. Um detalhe arquitetônico que logo chamava a atenção era seu telhado, com uma inclinação acentuada, reminiscente das construções europeias.
Após a concretização do negócio, ainda naquele ano, nos mudamos para o chalé situado na Rua Humaitá, 309, em Jaú. Mal chegamos e a casa já começou a passar por transformações. O que inicialmente se planejou como uma simples reforma ganhou proporções maiores a cada nova ideia, novo quarto, nova sala e dispensa. Uma janela era removida aqui, uma porta realocada acolá, paredes eram alteradas, um terreno nos fundos foi adquirido e muros foram erguidos e uma ampla laje de concreto foi construída na parte frontal, conferindo à residência uma nova e impressionante identidade.
Desse modo, o que era para ser uma reforma evoluiu para a reconstrução de uma casa praticamente nova. Essa escalada nas obras, inevitavelmente, gerou gastos consideravelmente elevados, levando a interrupções nos trabalhos. Consequentemente, a casa permaneceu inacabada por longos meses, pairando a expectativa de sua conclusão.
Nesse período, a mãe engravidara. A prole crescera assustadoramente e foi no ano de 1964, na madrugada de 10 de julho, que um evento trágico marcou nossa história. Duas portas e uma janela que dava para a garagem, eram fechadas somente por tapumes escorados até que fossem adquiridas novas. Um ladrão aproveitando essa fragilidade, invadiu a casa e, ao ouvir o barulho da intrusão, minha mãe, movida pela preocupação, levantou-se para verificar o que estava acontecendo. No meio da sala da grande casa, ela se deparou inesperadamente com o criminoso. O susto foi tão grande que provocou a perda do bebê que ela esperava. Naquele mesmo dia, minha mãe sofreu um aborto espontâneo, e a criança, que seria carinhosamente chamada de Kennedy, não chegou a nascer. Naquele mesmo dia, meu pai providenciou a compra de uma campa no Cemitério Municipal, onde o inocente bebê foi sepultado. Infelizmente, cinco anos mais tarde, foi ele, meu pai, quem ali encontrou seu derradeiro descanso.
Para uma mãe de 40 anos, perder um filho, ainda mais de forma tão abrupta e inesperada como um susto, desencadeou uma cascata de consequências físicas e emocionais profundas e avassaladoras. Nos dias subsequentes a este fato, a mãe teve problemas de saúde, cansaço físico e mental, além da perda de apetite e várias vezes precisou ir ao hospital, pois reclamava de dores de estômago, náuseas e indigestão.
A ADOÇÃO
A adoção é um processo legal que permite que uma família assuma a responsabilidade por uma criança ou adolescente que não tem laços genéticos com ela, criando um vínculo de filiação definitivo e irrevogável. É uma demonstração de carinho e amor, acolhimento e responsabilidade, em que um novo lar e família são oferecidos a uma criança ou jovem que precisa. A adoção transforma vidas e fortalece laços, criando uma família onde o amor é o ponto central.
Após o falecimento de Alberto de Deus Nunes em 1969, a família se desestabilizou. Desavenças surgiram entre os irmãos, culminando em sérios desentendimentos. Os dois anos seguintes foram marcados por dificuldades financeiras extremas, chegando à proximidade da fome, pois a renda que mantinha a estabilidade da casa cessou. A questão do aluguel da moradia se tornou um tormento. Para quem vive de aluguel e não tem como pagá-lo, a realidade é uma constante mudança de endereço em busca de um novolar que ofereça paz. Contudo, essa paz parecia inatingível sem o pagamento do aluguel.
A situação se agravou com as panelas vazias, o principal motivo de sofrimento, até que, por volta de 1972 ou 1973, a mãe passou a receber benefícios do Ministério da Fazenda. Esse período coincidiu com o surgimento de pessoas interessadas em usufruir desses benefícios, embora a mãe ainda mantivesse o controle de sua conta bancária.
Com o coração ainda ferido pela perda e ansiando desesperadamente por um recomeço, Almerinda buscou refúgio em São Vicente, cidade do litoral paulista, fixando residência nas proximidades do lar de Isabel Batista e seu esposo, o policial Apolônio, no acolhedor bairro Beira Mar. Contudo, a saudade e as lembranças persistentes a trouxeram de volta a São Paulo. Em seguida, mudou-se para Jaú, estabelecendo-se nas proximidades do hospital local e do cemitério onde Alberto repousava. Essa proximidade, ironicamente pensada para trazer algum conforto, acabou por exacerbar a dor e as memórias da ausência.
Em sua busca incessante por um lugar onde pudesse finalmente encontrar alguma serenidade, Almerinda retornou a São Paulo. Inicialmente, morou na Rua Milton, no bairro do Carandiru, depois no Jardim Brasil e, finalmente, em 1974, encontrou moradia no Jardim São Paulo, todos bairros situados na zona norte da metrópole paulistana.
Nesse período, eu exercia a função de Almoxarife na Empresa Elmo Soldas e Equipamentos Ltda. na Av. Radial Leste e exercia outras atividades como Auxiliar de Escritório, no preenchimento de Notas Fiscais na máquina de escrever, pela minha agilidade como datilógrafo. Era o resultado do aprendizado na Escola de Datilografia na qual meu pai me fizera matricular anos antes.
Residia em uma pensão no tradicional bairro da Moóca. Nos finais de semana, visitava minha mãe e, atento às suas necessidades, sempre lhe trazia e entregava a ela uma quantia em dinheiro, diferentemente do que diziam meus irmãos que eu lá comparecia para lhe pedir dinheiro. É claro que eu, ao entregar-lhe o dinheiro, o fazia longe das vistas deles e via como a minha pobre mãe se agarrava àqueles parcos valores, mas suficientes para a compra de algum mantimento para a casa. A razão por trás das frequentes mudanças de endereço era uma só: a dificuldade em arcar com os custos dos aluguéis, o que a forçava a buscar moradias mais acessíveis repetidamente.
Quando das proximidades daquele ano de 1978, a solidão começava a surgir mais intensamente no coração de mãe; ela ansiava por uma presença constante, um farol de afeto para iluminar a jornada derradeira. Naquele ano, mãe viajou ao Piauí, onde, com a ajuda do Dr. Hely da Rocha Nunes, acolheu no orfanato de Teresina uma criança de poucos meses de vida. Adotou o menino, que recebeu o nome de Itamá Moura Nunes, nascido em 18 de março de 1978.
Em meio a essa busca por um laço incondicional que a acompanhasse até o último suspiro, o destino lhe apresentou aquela criança. A adoção daquele ser acolhido em seu lar com amor incondicional, representou a materialização desse anseio profundo, uma decisão tomada com a firmeza de quem encontra um tesouro há muito procurado, ecoando em sua alma independentemente de quaisquer objeções que pudessem surgir por parte de seus filhos biológicos.
Quase meio século depois, transcorridos 47 anos desde aquele encontro transformador, Itamá permanece inabalavelmente ao lado de sua mãe, um testemunho vivo de uma lealdade que transcende o tempo. Seu compromisso de ampará-la, de ser seu suporte físico e emocional, de zelar por seu bem-estar em cada instante, mantém-se tão vívido e forte quanto no dia em que seus caminhos se uniram. Essa dedicação abnegada contrasta dolorosamente com a atitude dos filhos consanguíneos que, ironicamente, no crepúsculo da vida materna, parecem direcionar seus olhares e esforços unicamente para os bens materiais, negligenciando o valor inestimável da presença e do afeto. Essa, afinal, reside a marcante e dolorosa diferença: enquanto laços de sangue se mostram frágeis diante do interesse financeiro, o elo construído pelo coração de mãe e a lealdade incondicional de Itamá permanecem como um farol de amor genuíno e inabalável.
DE VOLTA ÀS ORIGENS
Enquanto os filhos legítimos brigavam entre si, Itamá crescia em silêncio, ignorando o que acontecia à sua volta, como alguém de memória que não tem culpa de seu passado e de seu destino, Itamá acompanha a sua mãe, fiel ao destino a que fora destinado. Somente em 1998, minha mãe, então com 74 anos e residindo em São Paulo, expressou um profundo desejo de retornar à sua terra natal, Picos, no Piauí. Essa mudança representaria a oportunidade de se reaproximar de suas irmãs, primas e sobrinhas, além de descansar no local onde seus pais, Américo de Moura Santos e Isabel Maria Batista, estavam sepultados. Certamente, a tranquilidade do interior a afastaria do ritmo frenético da metrópole e, talvez, das contendas familiares que, por vezes, a afligiam.
Forte e independente, Almerinda tomou a decisão e mudou-se para Picos. No pacato Povoado Saco das Tabuas, onde realizou o sonho de adquirir um terreno e construir uma casa acolhedora, situada bem próxima ao antigo casarão que testemunhou sua infância feliz e despreocupada.Seus primeiros anos de vida foram marcados pela beleza da natureza local e pelo afeto incondicional de suas irmãs, sobrinhas, amigas. Na nova moradia, Almerinda buscava, em seu íntimo, resgatar aquela felicidade primordial, revivendo memórias queridas no mesmo cenário de outrora.
Curiosamente, eu já residia em Picos desde agosto de 1997, buscando um refúgio das desavenças fraternas que frequentemente agitavam a dinâmica familiar. Meus primeiros anos na cidade foram desafiadores, permeados por dificuldades financeiras relacionadas à moradia e à alimentação. Contudo, minha prévia experiência em Picos me dava a confiança de que superaria esses obstáculos, um conforto que meus filhos, acostumados a outra realidade, não possuíam inicialmente.
Com o tempo, gradualmente alcancei a estabilidade, impulsionado, sobretudo, pelo progresso de meus filhos, que hoje trilham seus próprios caminhos com independência financeira, casados e com seus próprios lares, construídos com trabalho honesto. Infelizmente, a mesma autonomia não se observa em meus irmãos, cujas vidas adultas parecem continuar marcadas por discórdias. As histórias que se seguirão ilustrarão o quão imersos eles se encontram em disputas, especialmente em relação à pensão que minha mãe recebe mensalmente do governo federal.
Confesso que jamais suspeitei da dimensão dessas apropriações indevidas dos recursos de minha mãe, embora as brigas pregressas entre eles fossem notórias. Somente entre outubro e novembro de 2023, fui confrontado com a chocante verdade envolvendo-os. Eles, impudicamente, subtraíram todo o dinheiro da conta bancária de nossa mãe, Almerinda Batista de Moura Nunes, então com 99 anos de idade.
O MÉDICO DEDICADO
Todos os anos, no dia 12 de novembro, o médico pediatra José Soares Filho tinha um compromisso inadiável, visitar a sua tia moradora no Povoado Saco das Tábuas, município de Sussuapara, e o fazia religiosamente. Suas visitas eram sempre recheadas de muita alegria e entusiasmo e Almerinda sentia-se igualmente feliz com a recepção, pois Soares era muito bem quisto e sua presença mostrava o carinho que ele sentia por ela.
Poucos quilômetros separavam a sua casa em Picos da casa de sua tia. Nessa pouca distância, não seria sacrifício algum se não fosse pelos compromissos profissionais, pois José Soares era médico pediatra e sem dúvida que havia imposições de momento. No entanto, ele se desdobrava para esse compromisso; era quase um engajamento do coração, uma homenagem fiel e inadiável do dia, a visita à sua tia, Almerinda Batista de Moura.
Não foi diferente naquele dia 12 de novembro de 2016, quando Almerinda completou 92 anos de vida. Porém, sem que ele ou cada um de nós soubesse, aquela foi a última visita à sua tia. Era um adeus velado, a despedida final da casa de Dona Almerinda e das pessoas presentes que já estavam acostumadas com a sua presença todos os anos.
Embora fosse médico, com a mente habituada à ciência, seu espírito encontrava repouso na celebração da tia. Naquele ano de 2016, sua chegada foi como um sopro de alegria. Ao vê-lo, ela, reunindo as forças de seus 92 anos, se levantou da cadeira para abraçá-lo, demonstrando uma felicidade que ele retribuía, grato por mais uma vez honrar aquele compromisso.
Nesses instantes, a seriedade do Dr. José Soares desaparecia. Em seu semblante, não se via o médico compenetrado de suas preocupações com a medicina, mas, renomado como era, não se distanciava dos rogos e pedidos das pessoas em volta; notava-se, sim, a expressão terna de um "menino", simples e à vontade entre o povo querido do interior de Sussuapara. Era um raro momento em que o homem se desfazia de seu título para ser apenas o sobrinho, no aconchego de sua família.
Nas missas que ocasionalmente aconteciam e nas festas animadas pelo toque vibrante do sanfoneiro, Soares não buscava o palco, mas sentia-se feliz. No entanto, sua humildade, em sua forma mais pura, o conduzia silenciosamente para as últimas fileiras. De lá, ele observava a cena, grato por ser apenas mais um no calor da festa. Essa escolha não era falta de mérito, mas um profundo respeito pela vida, o desejo genuíno de servir e de valorizar a presença de todos, longe dos holofotes.
Após a celebração da missa, à qual ele assistia com o recolhimento e o respeito de sempre, a casa desabrochava em um reinado de pura felicidade. O forró tomava conta de cada canto. O som vibrante da sanfona agia como um ímã, unindo irmãs, sobrinhas, amigos e vizinhos em um arrasta-pé contagiante. Ele, o Dr. Soares, preferia osilêncio da observação, com aquele sorriso animado que, de tão sincero, falava muito mais alto que qualquer passo de dança.
Depois da emoção do bolo e dos tradicionais “parabéns”, a festa mudava de ritmo. As conversas fluíam em um diálogo caloroso e espontâneo, com assuntos variados que se seguiam por longas horas, preenchendo o tempo com afeto. Os convidados só se retiravam quando a noite avançava, levando consigo a alma animada e a alegria daquele dia em honra a Almerinda.
Certamente, todos que ali estiveram guardarão a lembrança dos dias em que os portões da casa se abriam como um grande coração. Não havia distinção: amigos, vizinhos, parentes próximos ou distantes, e até mesmo pessoas que por acaso ali estivessem, eram acolhidos no calor daquela celebração. Eram dias de felicidade farta e portas escancaradas.
O destino, porém, tinha pressa. Menos de um ano depois, em 4 de agosto de 2017, a notícia repentina: José Soares Filho partia para as paragens da espiritualidade. Soubemos pelos jornais que a mão de Deus o conduzia a um lugar onde, com certeza, continuaria a sua missão de cura.
Imaginamos que ele seguiria tratando e amparando as pequenas almas, aquelas que, em sua jornada terrena, carregavam as delicadas marcas das enfermidades.
Para mim, a memória do Dr. Soares é revestida de uma gratidão que o tempo não apaga. Onde ele estiver, sabe de minha verdade e meu respeito, forjados em um momento de aflição.
Lembro-me do ano 2000, quando meu filho, então com apenas 8 anos, foi atacado por uma grave infecção, que espalhou dores intensas pelo corpo. Ao saber do ocorrido, o Dr. Soares acolheu meu menino em seu consultório. Com o olhar de amigo e a precisão de médico, prescreveu o tratamento. A cura veio em breve, e aquela intervenção foi para mim um milagre da ternura e da ciência. Por isso, minha gratidão é imensa, um tesouro que guardo para sempre.
Nascido em 22 de março de 1950, filho de José de Sousa Soares e Laurita de Barros Nunes, o Dr. José Soares foi um homem de raízes firmes.
Ele foi o idealizador da primeira clínica infantil de Picos e do Hospital Memorial do Carmo. Médico de inteligência rara e renome, ele dedicou sua trajetória a servir a comunidade picoense e da macrorregião com inabalável dignidade e honradez.
Como funcionário público e pioneiro na pediatria em Picos, o Dr. Soares tocou a vida de inúmeras crianças, deixando um legado que não se mede apenas em anos, mas na qualidade do cuidado e no calor humano que ele dedicava a cada pequeno paciente.
Hoje, Almerinda Batista completa seus 101 anos de vida. Mais de um século de existência dedicados todos eles à paciência, a Deus e aos filhos. São passados nove anos daquele último encontro com José Soares Filho e Dona Almerinda,gentilmente levada de volta à infância pela idade avançada, já não define mais os projetos e atitudes de outrora. No entanto, ela ainda recorda a melodia dos dias felizes. Lembra de quando era a guardiã da festa, orquestrando cada detalhe de seus aniversários, os enfeites, o bolo, os salgadinhos: contratando os sanfoneiros e músicos, organizando as conversas com os padres de Picos ou Sussuapara, e recebendo cada um de seus convidados com alegria.
É importante destacar que os portões de sua casa estavam sempre abertos neste dia de seu aniversário e em todos os anos para quem quisesse participar de sua festinha realizada com amor e dedicação. Nesta doce infantilidade dos 101 anos, a memória desses dias vibrantes permanece, pintando em seu rosto a felicidade das celebrações que ela mesma criou.
12 DE NOVEMBRO DE 2023
No dia em que Almerinda completou 99 anos em 12 de novembro de 2023, cheguei à sua residência no Saco das Tábuas às 18h. Horas antes, havíamos conversado na sala e ela havia me assegurado que não haveria celebração alguma. Confesso que fiquei surpreso com a notícia, embora não tivesse percebido a seriedade em suas palavras naquele momento. Por essa razão, ao me aproximar da casa naquele horário, fui tomado por uma inesperada consternação diante do cenário desolador: nenhum sinal de convidados, nenhum eco de conversas animadas, nenhuma melodia festiva. O portão estava firmemente trancado com um cadeado, apagando qualquer vestígio da habitual e vibrante comemoração. Nos anos precedentes, a alegria contagiante era uma certeza, impulsionada pela presença calorosa de suas irmãs, primas, sobrinhas, amigos e, em especial, pela música envolvente do cantor e sua aparelhagem sonora. Era o seu desejo constante: proporcionar felicidade aos que a cercavam em seu aniversário.
Naquela data específica, contudo, deparei-me com um silêncio opressor que me deixou perplexo. Algum imprevisto teria ocorrido? Onde estavam os convidados que sempre abrilhantavam a ocasião, a tradicional celebração, a música que embalava os corações, os enfeites coloridos? Aquele isolamento onde se esperava uma festa era simplesmente desolador. Bati no portão e, após uma breve hesitação, alguém o abriu com relutância. Entrei e me dirigi imediatamente para me sentar ao lado de minha mãe. Ela me fitou e perguntou: "Quem é?". Respondi: "Sou eu, mãe, Douglas". Ao me reconhecer, disse: "Ah! É o Douglas".
Então, buscando compreender aquela atmosfera sombria, questionei: "Mãe, onde estão os convidados? E a festa, o sanfoneiro... desapareceram?". Sua resposta veio carregada de resignação: "Não sei, não vai ter nada, só o bolo". Incrédulo diante daquela realidade tão diferente, insisti: "Não pode ser, mãe. A senhora sempre celebrou seu aniversário com uma grande festa. Não haverá absolutamente nada além do bolo?". Com um misto de tristeza e aceitação, ela confirmou: "Só". Ela respondeu num tom extremo de medo de ser ouvida. Havia tristeza e resignação nas palavras e no olhar.
E ali ficou minha mãe, em sua cadeira predileta, aguardando o singelo corte do bolo para depois recolher-se à solidão de seu quarto, carregando o peso da tristeza e da resignação diante de um destino tão cruel.
Depois de ver minha mãe cortar o bolo sozinha, a ausência de suas irmãs, sobrinhas, primas, amigas e da música que sempre ecoava, mas que agora, só o silêncio reinava na sala. Depois, vê-la recolher-se ao seu quarto, tão triste e isolada, caminhando lentamente, se apoiando na bengala, como se fosse um objeto descartado, fez-me as lágrimas brotarem.
Observando a porta fechar-se atrás dela, sentei-me na cadeira que momentos antes aquecera e deixei que corresse uma lágrima. A sala vazia, com o bolo recém-cortado sobre a mesa, era a representação palpável da crueldade e do mal que pairava naquela casa. Na varanda, as conversas banais de seus outros filhos contrastavam dolorosamente com a tristeza da mãe, absortos em seus próprios interesses. O desejo que os movia à conversa na varanda parecia ser unicamente a partilha dos dividendos, saciando a fome da ambição e da ganância que os consumia.
Sentindo-me igualmente isolado e triste, pois minha mãe era a única com quem realmente compartilhava a essência daquele dia, seu aniversário de 99 anos, retirei-me da sala. Saí da casa em busca de Itamá, que me revelou a dolorosa verdade por trás daquele cenário desolador. "A situação em casa havia se tornado insustentável devido ao comportamento agressivo e intolerável da irmã Isabel, que tornava a vida e a paz de Almerinda um fardo pesado demais para suportar. Por isso, julguei necessário me afastar, na vã tentativa de poupar nossa mãe de presenciar os conflitos e desentendimentos." Itamá continuou seu relato, a voz embargada pela tristeza: "Isso que vou te revelar aconteceu em meados de setembro de 2023. Isabel, sem consultar os irmãos, no silêncio do mediocrismo, levou a mãe ao cartório e transferiu todos os poderes dizendo ser a única curatela de mãe. Depois disso, no entanto, ao tentar visitá-la, fui sumariamente impedido de entrar na casa. Um enorme cadeado no portão selava meu acesso, e fui informado de que não poderia mais me avistar com minha própria mãe.E os motivos? "Ele não era filho legítimo de mãe; era um filho adotado."
Desde muito tempo, Itamá sempre dedicou seus cuidados à mãe. Contudo, a irmã, movida por uma ambição desmedida, cobiçou a pensão de Almerinda. Usando de artimanhas e sob o pretexto de levá-la para um passeio, conduziu-a ao cartório na cidade de Monsenhor Hipólito e a persuadiu a outorgar-lhe plenos poderes como sua procuradora. Almerinda, na inocência de seus 99 anos, confiou que estaria em boas mãos, imaginando encontrar paz e serenidade em seu próprio lar, protegida pela filha nos seus últimos anos.
Mas quão terrivelmente enganada ela estava. O interesse mesquinho e a avareza da filha tinham como único alvo os recursos financeiros que agora estavam ao alcance de suas mãos. Assim, munida da procuração, ela obteve o poder de sacar valores, movimentar a conta bancária, cadastrar e renovar senhas, receber qualquer quantia em nome da mãe, emitir e assinar cheques, recibos, ordens de pagamento e realizar transferências, selando o destino de Almerinda em um isolamento forçado e exploratório.
A OMISSÃO PARA UMA MENTIRA CRUEL
A linha que separa a verdade da falsidade nem sempre é nítida. Se, por um lado, a declaração direta de algo que não é verdade configura inequivocamente uma mentira, por outro, a omissão levanta uma questão mais sutil. Podemos considerar a omissão uma forma de mentira? A resposta parece residir na intenção. Se a intenção por trás da omissão for deliberadamente enganar alguém, induzindo-o a uma conclusão falsa através da supressão de informações relevantes, então, nesse contexto específico, a omissão se configura como uma "mentira por omissão". A chave reside no propósito de obscurecer a verdade para obter um determinado resultado na percepção do outro.
Sim, o destino de mãe parecia traçado. Após um período de isolamento forçado, outros filhos seus, movidos pela mesma ambição do dinheiro fácil, começaram a chegar de São Paulo.
Uma nova guerra judicial se iniciara no comando agora de Percival, filho mais novo de Almerinda, mas com a idade aproximada de 50 anos. Na Justiça ganhou a causa e passou a ser o novo curador de Almerinda enquanto Isabel debandava para São Paulo depois de espoliar as contas bancárias da pobre idosa, Mãe.
O primeiro terrível ato cometido por Percival e Josina foi na madrugada do dia 03 de maio de 2024. Para resolver problemas pessoais pendentes em São Paulo e, para manter a sua mãe sob seu poder, resolveu induzi-la a seguir com eles. Mas como faria isso? Mentindo.
Sim, sem necessidade alguma de sair de sua casa, mas para resolver os seus interesses pessoais no sul do país, cometeu um ato desumano e cruel.
"Na penumbra fria da madrugada do dia 03 de maio de 2024, por volta das três horas da manhã, o sossego da casa no povoado Saco das Tábuas, Município de Sussuapara, foi quebrado por passos cautelosos e cochichos calculados. Almerinda, com seus noventa e nove anos de vida e a delicadeza de uma pétala ressecada, dormia um sono leve, povoado por fragmentos de um passado distante. Seus cabelos alvos, finos como fios de seda, repousavam sobre a fronha bordada, testemunhas de quase um século de histórias.
De repente, na madrugada, a porta do quarto se abriu sem ruído. Na penumbra do quarto, dois vultos adentraram silenciosamente como se fossem larápios em busca de valores, mas eles buscavam a sua própria mãe. Com semblantes tensos e olhares desviados dos objetos familiares que decoravam o aposento, aproximaram-se da cama. A luz tênue vinda da janela ao lado iluminava as profundas rugas no rosto adormecido de Almerinda; cada vinco era um registro de suas alegrias e tristezas.
Com movimentos sincronizados, eles a ergueram do leito. O corpo magro de Almerinda ofereceu pouca resistência, como se a própria essência da sua vontade tivesse se dissipado com o avançar dos anos. Seus olhos se abriram lentamente, sem foco, como os de uma criança despertada abruptamente. Ela murmurou algo ininteligível, um som perdido na quietude da noite. "Mãe, precisamos ir", disse um deles, a voz melosa e forçada. "Para onde?", perguntou ela, mais em tom de súplica e com a voz frágil de criança. "Para São Paulo. O médico precisa te examinar." Mentiu a outra, evitando o olhar da mãe por um instante, por temor a se revelar da impudica e vergonhosa atitude. "O médico em São Paulo disse que a senhora pode voltar a enxergar!" — disse ele. Com essa outra mentira, eles garantiam assim o desejo de sua mãe de viajar.
Almerinda não entendeu e ficou pensativa, ainda sentada na cama, refletia: "Mas o médico em Teresina garantiu que não havia mais solução para meus olhos..." São Paulo era um nome distante, sem significado para aquela mente que já vagueava por outras lembranças, em outras épocas. Mãe, levantando a cabeça, disse: "O médico conceituado em Teresina já disse que a cegueira era irreversível. Será que em São Paulo eu volto a enxergar?” Ninguém ouviu. Eles já tinham saído do quarto.
Ela não queria ir. Seu universo se resumia àquela casa, àquele quarto, àquela cama que lhe proporcionava o conforto familiar da rotina. Mas seus protestos eram débeis, quase inaudíveis, como o resmungo de um bebê contrariado.
Enquanto a vestiam com roupas escolhidas às pressas, sem se importar com o frio da madrugada ou com o seu bem-estar, os filhos trocavam olhares rápidos, carregados de uma fria determinação. Estavam com pressa; o carro já parara em frente à casa. Mas a saúde de Almerinda não era a prioridade. A longa viagem, a mudança repentina de ambiente, os possíveis danos à sua frágil condição física eram considerações secundárias.
Na quietude da madrugada, lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto marcado de Almerinda, misturando-se às linhas profundas de sua pele. Uma impotência paralisante a consumia, roubando-lhe a força para enfrentar os fantasmas que a assombravam. O receio pelos seus filhos a silenciava, impedindo qualquer pergunta sobre o despertar abrupto e o destino incerto que a aguardava. Temendo a punição, Almerinda enxugou as lágrimas com um gesto resignado e aguardou, em silêncio obsequioso, as próximas ordens, como uma ovelha conduzida ao matadouro.
Em seu íntimo, contudo, as perguntas fervilhavam. Por que, nos últimos anos, essa sombra de medo pairava constantemente sobre ela? Por que os dias se arrastavam com uma lentidão exasperante? E por que seus outros filhos, antes presentes, haviam desaparecido de sua vida? – Almerinda sentia-se esquecida, à margem da existência, embora percebesse a vida pulsando ao seu redor e o mundo exterior em atividade à sua volta, pois atestava o som do rádio, da televisão, as vozes distantes, o latido ecoante dos cães, o ronco fugaz dos motores que cortam a noite. Sons familiares que, ironicamente, seus olhos já não alcançam.
Os outros filhos, ignorando aquela movimentação furtiva da viagem a São Paulo, dormiam em suas próprias casas, certos de que a mãe estava em seu lar, sob os cuidados dos irmãos. Nenhuma ligação, nenhum aviso prévio, nada indicava que Almerinda já não estava mais em seu lar. O plano fora tramado em segredo, impulsionado por interesses que nada tinham a ver com o bem-estar daquela senhora de quase cem anos, cuja lucidez se esvaía como água entre os dedos, deixando apenas a inocência de uma criança dependente.
No carro que rasgava a escuridão da estrada, Almerinda fitava a paisagem em forma de sombras noturnas que os olhos vazios não enxergavam, sem compreender o que acontecia. A cidade natal, com suas memórias e laços afetivos, ficava para trás, enquanto ela era levada para um destino incerto, uma peça silenciosa em um jogo que não era seu, vítima da ambição daqueles que deveriam protegê-la. Aquela madrugada era testemunha não de uma viagem, mas de um rapto silencioso, onde o valor de uma vida era medido em bens materiais e não em amor.
Naquela mesma fatídica madrugada, por volta das três da manhã, enquanto Almerinda era retirada de sua cama, o destino tecia uma ironia cruel. Em sua casa, ali na Rua Velha em Picos, sua irmã, Rosa Batista, partia deste mundo. Uma coincidência sombria, ou talvez a providência divina atuando em mistério, poupando-a de uma dor que talvez seu coração fragilizado não suportasse. Ela jamais saberia da partida de sua querida irmã, levada para longe no exato momento em que a morte lhe roubava um dos laços mais profundos de sua longa existência.
Considerando a situação de uma pessoa idosa de 99 anos sendo retirada da cama no meio da noite para uma viagem forçada de longa duração, as opções carregam forte conotação negativa. A ação é descrita com palavras que denotam crueldade, desumanidade, insensibilidade, desrespeito e abuso. Dada a vulnerabilidade da idade avançada e a imposição da situação, a conduta configura maus-tratos e potencialmente outros crimes previstos no Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03) e no Código Penal. Maus-tratos (Art. 99 do Estatuto do Idoso): Expor a perigo a integridade e a saúde física ou psíquica do idoso, submetendo-o a condições desumanas ou degradantes, ou privando-o de cuidados indispensáveis. Pena: Detenção de 2 (dois) meses a 1 (um) ano e multa.
CRUEL: Enfatiza a falta de compaixão e o sofrimento infligido à mãe.
DESUMANO: Destaca a ausência de consideração pela fragilidade e necessidades da idosa.
INSENSÍVEL: Aponta para a falta de percepção ou preocupação com o bem-estar da mãe.
DESRESPEITOSO: Salienta a violação da dignidade e do direito de descanso da mãe.
VIOLENTO: Embora não haja agressão física direta, a ação pode ser vista como uma violência psicológica e emocional.
ABUSIVO: Descreve a exploração da vulnerabilidade da mãe para impor a vontade do filho.
INESCRUPULOSO: Sugere a falta de princípios morais na conduta do filho.
No entanto, apesar de acionado o Ministério Público, nenhuma providência foi tomada, deixando o restante da família impotente diante da cruel manobra de Percival e Josina. Pelos crimes praticados, segundo o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03) e o Código Penal. Maus-tratos (Art. 99 do Estatuto do Idoso): Tal ato, pelas suas características, desqualifica-os e os distanciam da verdadeira essência de filhos, que, na sua classificação mais legítima, sem dúvida que se trata de VERGONHA.
A AUDIÊNCIA
Enquanto isso, Itamá continuava na batalha judicial. Foi marcada audiência para o dia 21 de maio de 2024. Todos esperavam reverter a situação, uma decisão final, mas isso não aconteceu. Naquela data, várias pessoas se reuniram em oração por Almerinda, uma manifestação grandiosa de solidariedade e união.
Cinco minutos antes do horário marcado para o início da audiência por videoconferência, chegaram os dois empurrando, apressadamente, a cadeira de rodas e estavam tão apressados e nervosos que sequer cumprimentaram os presentes.
A cena causou forte comoção e abalo. Levantei-me imediatamente e fui até ela. Não era a mesma Almerinda de dois meses atrás. Estava pálida e apática, com um olhar distante, como se sua mente não estivesse ali presente. Nada parecia despertar seu interesse, mesmo com a presença dos filhos. Concluímos espontaneamente, naquele instante, que ela estava sob o efeito de alguma droga ou medicação que a deixava impassível, silenciosa, com o olhar vago e indiferente a tudo e a todos. Seu emagrecimento era visível; estava muito pálida e magra. Os comentários depois da audiência eram unânimes; ela estava sob efeito de medicação muito forte. Isso, com certeza, é maus-tratos contra uma idosa.
Seus cabelos, brancos como a neve, e as rugas em seu rosto pareciam contar inúmeras histórias. Muitas dessas histórias procurei registrar em vídeos e textos, sempre lembrando da presença de seu esposo, Alberto de Deus Nunes.
Ao vê-la ali sentada na audiência, com uma expressão triste e calma, seus olhos, que antes brilhavam, agora carregavam a tristeza de quem já vivenciou muitas coisas e perdeu muito. Aos 99 anos, vivia ora sozinha, ora na companhia de alguns de seus filhos em uma grande casa que construiu no Povoado Saco das Tabuas, em Sussuapara. Ali, o tempo parecia ter parado.
Mãe tinha tudo e, ao mesmo tempo, não tinha o essencial: o verdadeiro amor dos filhos. Talvez um ou dois lhe dessem aquilo que ela mais queria e precisava: afeição, carinho, amor, dedicação... Nos últimos dois meses, ela não recebeu o que tanto necessitava.
Calada, silenciosa, quieta como um objeto inanimado, seus pensamentos voavam sem rumo definido. Somente Deus conhecia os caminhos que ela percorria, uma jornada compreendida apenas por ela, por ser mãe. Abnegada, dedicou a vida a cada um de seus filhos, pois para ela eles eram a personificação do amor materno, aquela que protege e nutre desde a concepção. Deus, o Senhor da Vida, havia presenteado seus filhos com esse anjo de amor e gratidão, que agora se via envolvido em um pesadelo jurídico inimaginável. O que se passava em sua mente? Ela se sentia como uma ré, aguardando a execução de uma pena?
A mãe, sempre pronta a aconselhar e resolver problemas, estava ali para ser julgada. Que delito teria cometido?
Lembro da história do Rei Salomão que meu pai contava, uma narrativa que ensinava que a justiça sempre prevalece e que a sabedoria reside não apenas nos livros, mas também na experiência e na pureza de um coração. Os detalhes da história vieram à minha mente, e nas palavras de meu velho pai, a cena do tribunal de Salomão se apresentou: o rei de Israel, diante de duas mulheres que disputavam a maternidade de uma criança, sugeriu dividir o menino ao meio. Essa proposta revelou os verdadeiros sentimentos de cada uma em relação à criança. Com essa estratégia, Salomão discerniu a falsa mãe, aquela que concordou com a divisão, enquanto a verdadeira mãe, ajoelhada, implorou para que a criança fosse poupada e entregue aos cuidados da outra mulher. Essa abordagem da justiça é considerada por muitos como um exemplo clássico de um juiz imparcial que demonstra sabedoria ao tomar uma decisão.
A decisão do juiz foi clara. Itamá ficaria com a manutenção das contas do banco e Percival e Josina, com os cuidados, alimentação, banho, limpeza da casa etc. Percebia-se, claramente, que não era isso que os dois queriam; almejavam o acesso a contas bancárias, ao dinheiro fácil. Devendo os outros filhos de Dona Almerinda ter total e livre acesso à casa, sem impedimentos. Mas a promessa inicial de amparo e proteção revelou-se falsa. As contas já estavam zeradas. O carro que ela se servia para visitar as irmãs fora vendido por um preço irrisório, muito abaixo do real valor, sem a sua autorização. E, mais, éramos ameaçados na entrega das compras e mercadorias de consumo que eram levadas semanalmente. E quando o faziam, seus olhares apressados não conseguiam perceber a angústia que se escondia nos olhos de minha mãe ao assistir aos xingamentos e às agressões...
Descobriu-se depois, que na viagem a São Paulo, Percival trouxe a sua mulher para, ao que parece, "ajudá-los nos cuidados com mãe", mas a sua mulher não se ocupava com os afazeres da casa, ocupava-se durante horas com o celular e não desejava a nossa presença quando dos dias de entrega das "compras".
Em seu íntimo, mãe ainda nutria uma chama de esperança. Ela sonhava em recuperar sua liberdade, em voltar a ter controle sobre sua vida e em desmascarar a ganância e a crueldade de seus filhos. Mas como escapar da prisão invisível que a cercava?
No fundo de sua alma, sua maior necessidade era de carinho, de um colo e de palavras de conforto. Seu sono, perturbado no meio da madrugada, era a própria tortura que recebia.
A BARREIRA DA CRUELDADE
Os olhos da experiência, que já viram mais de um século de histórias, agora veem o mundo de forma diferente. Mãe de mais de cem anos, que um dia correu e dançou, hoje sente o peso do tempo em cada osso. Seus passos, antes firmes, tornaram-se incertos, e as pernas, outrora fortes, tremem de fraqueza. A visão, antes aguçada, agora se perde em sombras, e cada movimento é um desafio.
A preocupação é real e palpável. Deixar a senhora caminhar sozinha é um risco, um medo constante de uma queda que pode trazer consequências sérias. A segurança dela é a prioridade, e a ideia de um passo em falso, de um tombo inesperado, é angustiante.
Nesse contexto, a cadeira de rodas surge não como uma limitação, mas como um refúgio, uma forma de garantir sua locomoção com dignidade e segurança. Nela, ela pode continuar a se mover, a participar do ambiente ao seu redor, sem o temor constante da queda. É uma ferramenta que oferece autonomia dentro das suas possibilidades, permitindo que ela desfrute da vida com mais tranquilidade e menos riscos. A locomoção assistida se torna um ato de cuidado e amor, assegurando que seus dias sejam vividos com o máximo de conforto e proteção.
A pesada corrente da desobediência jurídica manifestava-se de forma cruel e explícita: o portão da residência permanecia trancado com um cadeado, vinte e quatro horas por dia. Essa barreira física, símbolo de uma prisão particular, impedia que os outros filhos sequer pudessem cruzar o limiar para visitar a própria mãe. Isolada do calor humano e da realidade do mundo exterior, ela vivia em um regime de cárcere privado imposto pela ambição desmedida. Movidos por uma ganância corrosiva, seus algozes a segregavam, manipulando seus bens com um desprezo absoluto por seus desejos e direitos. A casa, que deveria ser um refúgio de afeto e segurança, transformara-se em uma cela sombria, onde a vontade da matriarca era subjugada pela cupidez daqueles que deveriam protegê-la.
O segundo terrível ato cometido por Percival e Josina aconteceu alguns dias depois, quando chegamos à sua casa e esbarramos no portão trancado. Chamamos durante quinze ou vinte minutos até o Percival se aproximar do portão trazendo mãe na cadeira de rodas. O sol naquele momento era abrasador e castigava a pele e toldava o raciocínio de qualquer um que permanecesse sob ele. A cara do Percival não era de bons amigos. Empurrava a cadeira de rodas como se empurrasse não a sua mãe, mas um objeto inanimado, tal a violência. O calor era opressor, um bafo quente que distorcia a paisagem e tornava a respiração difícil. O sol, no zênite de sua fúria, desabava seus raios impiedosos sobre todos, mas principalmente sobre aquela senhora vulnerável, exposta sem qualquer sombra ou proteção. Era inconcebível para qualquer mente sã abandonar uma pessoa idosa, presa a uma cadeira de rodas, sob a tortura daquele calor causticante. Contudo, ele o fez, revelando uma insensibilidade aterradora.
Aproximamo-nos da barreira metálica, a voz embargada pela indignação e pela urgência. Então eu pedi, não ordenei: "Por favor, abra o portão!” A resposta ecoou carregada de escárnio, um deboche cruel que feria como um golpe: "Não estão vendo a mãe de vocês aí?”
Sua ironia cortante acompanhava um gesto displicente em direção à idosa: "Falem com ela!”A visão da mãe, alheia ao sofrimento imposto, acirrou nosso desespero: "Tire-a do sol, veja como ela está incomodada, seu rosto está vermelho, ela mal consegue manter os olhos abertos!”A barganha macabra veio em seguida, desprovida de qualquer resquício de humanidade: "Falem o que vocês têm para falar e eu a tirarei do sol. Não tenho o dia todo para perder com vocês."
Naquele instante, a suspeita sombria ganhou contornos de certeza. O olhar vago da mãe, sua lentidão nos movimentos e a sonolência evidente sugeriam uma intervenção química nefasta. Era estarrecedor cogitar que o "governador da casa", no auge de sua perversidade, pudesse estar subjugando a própria mãe com substâncias entorpecentes, silenciando qualquer vestígio de resistência ou queixa. Aquele sol inclemente não era a única tortura a que ela estava sendo submetida.
Diante da sua intransigência, da muralha de ferro e da constatação da manipulação cruel, a decisão de recuar foi amarga, mas necessária. Permanecer ali significava prolongar a agonia da mãe sob o sol escaldante, sem a garantia de qualquer contato real ou melhora em sua situação. A retirada era um ato de impotência diante daquele muro de ganância, uma tentativa desesperançosa de permitir que ela retornasse ao isolamento forçado de seu quarto, talvez o único lugar onde encontraria algum alívio, ainda que na penumbra da inconsciência induzida.
Levamos o relato angustiante ao advogado, depositando nele a esperança de uma intervenção legal que pudesse romper aquele ciclo de abuso e negligência. No entanto, o tempo passava e a justiça parecia hesitante, paralisada diante da complexidade da situação ou da astúcia dos algozes. Nenhuma solução palpável emergia, e a sensação de impotência e frustração se intensificava a cada dia, enquanto a mãe permanecia prisioneira da ganância e da desobediência à lei.
UMA REALIDADE DOLOROSA
Itamá solicitou o meu auxilio para a entrega de mantimentos essenciais, adquiridos em supermercados para a nossa mãe. Esta organização das compras e entregas foi estabelecida pelo Ministério Público, definindo que Itamá e Benedito seriam os responsáveis por realizar as compras semanalmente e levá-las até a residência materna. A justificativa para essa decisão era que apenas Itamá e Benedito possuíam acesso ao cartão bancário de mãe no Banco do Brasil.
Em contrapartida, o portão da casa de Mãe continuava trancado, impedindo o acesso dos filhos; Os dois, Percival e Josina, não teriam mais acesso às finanças, mas assumiriam o compromisso de cuidar diretamente da mãe em casa, oferecendo-lhe carinho, amor e, principalmente, preparo das refeições, higiene pessoal, e atenção constante – algo de que ela realmente necessitava, dada a sua idade e condição.
No entanto, a fragilidade desse acordo logo se revelou. A prova de que o interesse dos dois "curadores" não era o bem-estar da mãe, mas as finanças. Seus verdadeiros interesses ocultos manifestaram-se de forma agressiva. Fomos ameaçados, xingados, advertidos e insultados, como se fôssemos estranhos invasores.
Essa hostilidade persistiu durante as três ou quatro semanas em que realizamos as entregas. Em nenhum momento revidamos às provocações. Nossa decisão de não reagir baseava-se em dois pontos cruciais: primeiro, priorizar a presença junto à nossa mãe, para não tumultuar o ambiente, mantendo a calma apesar das ofensas; segundo, garantir a rapidez na entrega dos suprimentos.
Apesar dessa postura pacífica, em diversas ocasiões fomos alvo de agressão física. Diante dessa situação, decidimos deixar os mantimentos no portão da residência, evitando qualquer contato direto com eles.
Em outra ocasião, a situação de ódio e rancor era tão intensa que apenas o motorista realizou a entrega. Claramente, eles não se importavam com a presença da mãe, uma idosa de 99 anos.
Essa sequência de eventos, que parece saída de um conto de fadas sombrio ou de um roteiro cinematográfico perturbador. Mas é um roteiro de pura realidade.
Um dia, de forma inesperada, Percival e sua mulher desapareceram. Uma vizinha comunicou a Itamá que ambos haviam embarcado para São Paulo, abandonando a própria mãe à sua sorte. Josina, contudo, ficou na casa por não possuir condições financeiras para as passagens.
Diante desse abandono, Itamá e Benedito assumiram a responsabilidade pela casa. E pasmem: a mudança de comportamento de Josina era assustadoramente visível. Seu tom de voz antes agressivo e raivoso, agora era suave como o de um anjo descido do céu. No entanto, sua filha viria de carro buscá-la, pois elapretendia levar alguns objetos que não foi possível identificar quais eram. E assim aconteceu. Dias depois, sua carona chegou e, dois ou três dias depois, as duas se foram.
Itamá decidiu contratar uma pessoa para auxiliar nos cuidados, como cozinheira, e para a manutenção do lar, mas antes que pudesse fazer isso, algo inacreditável aconteceu.
ENFIM PAZ. PAZ? NÃO!
Tudo parecia encaminhar-se para a normalidade, para um ambiente de paz, harmonia, bem-estar e aconchego. Contudo, essa tranquilidade foi efêmera. Alguns dias depois desses acontecimentos, em uma reviravolta inacreditável, Benedito, sem consultar outros irmãos, pede que ela, Josina, aquela que antes esbravejava contra ele, retornasse à casa para cuidar da mãe... A mesma que havia desprezado, chutado, atirado pedras, tijolos, xingado e maltratado a todos.
Quando afirmo que essa história se assemelha a um enredo de filme confuso e mal escrito, que o espectador jamais conseguiria entender, faço-o com plena convicção: não é ficção, é a crua realidade!
Mal Josina chegou, as desavenças entre ela e Benedito recomeçaram. De forma surpreendente, poucos dias depois, Josina compareceu à Delegacia de Polícia e registrou um Boletim de Ocorrência sob a Lei Maria da Penha.
O resultado desse conflito foi que Benedito foi obrigado a sair da casa e se alojou em um imóvel que a mãe mantinha alugado na Rua Velha, em Picos, onde permaneceu. Na mesma semana, Benedito dirigiu-se ao Banco do Brasil e cancelou o cartão bancário da mãe que estava em posse de Itamá.
Durante dois meses, Benedito realizou saques, transferências e compras, cujas reais finalidades ficaram desconhecidas.
Em um determinado dia, viajou para São Paulo com a promessa de retornar na semana seguinte, segundo o que dissera um primo morador nas proximidades. No entanto, Itamá agiu rapidamente: entregou a casa alugada, quitando o aluguel, realizou a mudança e transferiu novamente a senha e a titularidade da conta para o Ministério Público, que agora é o responsável pelos saques necessários para a manutenção de Almerinda Batista de Moura.
Tudo acabou? Volta a reinar a paz no lar de minha mãe? Aparentemente, não. Mas nem de longe. Lembrando que Josina tomou conta da casa em parceria com Itamá e os dois se combinam hoje em tudo. Porém, há uma gritante diferença de personalidade. Josina é agressiva. Parece carregar o ódio na alma, que chega à flor da pele. Enraivece-se por tudo e por nada. Questões ínfimas são motivos para agressões e palavrões anunciados aos quatro ventos, enquanto Itamá finge não perceber, aparentemente para não a confrontar.
No dia 27 de abril, um domingo tranquilo, dediquei a tarde para visitar minha querida mãe. Nesses encontros preciosos, sempre aproveito a oportunidade para explorar as memórias de sua juventude e dos anos de vida conjugal, seja em Picos, no Piauí, seja nas cidades de Jaú e São Paulo. Sua memória lúcida é um tesouro que desejo preservar nas páginas deste livro que venho escrevendo com carinho desde 2023.
Enquanto eu me esforçava para capturar suas lembranças, Josina, relaxada displicentemente no sofá em frente, lançava sorrisos debochados a cada pergunta que eu fazia. Era como se zombasse da minha surdez, uma condição que me acompanha com a perda completa da audição em ambos os ouvidos há alguns anos. Suas risadas, além de tudo, criavam uma barreira sonora que tornava a voz de minha mãe quase inaudível, o que me levou a repreendê-la com firmeza.
Minha repreensão teve um efeito surpreendente e aterrador. Foi como se o próprio Diabo surgisse diante dela e empunhando um tridente ameaçador vociferando gritos e impropérios aos quatro ventos, xingando e desafiando tudo e todos ao seu redor. Seu comportamento era inacreditável, chocante.
Em um gesto de bravura e exasperação, minha mãe, apesar de seus cem anos de vida, pegou um chinelo e o brandiu na direção de Josina, ordenando que se afastasse, que saísse de perto dela imediatamente. Quando, finalmente, Josina se retirou para a cozinha, aproveitei o momento para perguntar à minha mãe, com o coração apertado: "Mãe, a senhora tem paz aqui em sua casa?" "Não!" respondeu ela, com a voz embargada."Não?" insisti, buscando entender a profundidade de sua aflição. "Por que, mãe?
Minha mãe olhou na direção da cozinha, certificando-se de que ela não estava por perto, e respondeu com tristeza: "Não!" "Não". Ela deu leves pancadinhas na perna, um sinal de que precisava que eu falasse mais baixo. "Das brigalhadas dela. Não, não, não." - Sua cabeça balançava negativamente enquanto continuava: - "Já mandei ela ir embora, mas ela não vai."
NO DIA DAS MÃES
Tenho experimentado fortes dores abdominais, que se intensificaram há um mês, mais ou menos, chegando a um ponto próximo ao desmaio, tamanha a dor. Adicionalmente aos meus problemas de saúde pré-existentes – catarata avançada, ectrópio e glaucoma (afetando ambos os olhos) – e também à audição prejudicada. Isso tem impactado significativamente minha vida social, levando-me a permanecer mais tempo em casa.
Após consultas médicas, realizei diversos exames, incluindo ultrassonografia e análises sanguíneas. Subsequentemente, iniciei o tratamento com os medicamentos prescritos, o que resultou em um alívio considerável das dores. O repouso recomendado pelo médico tem se mostrado um desafio. Consequentemente, a frequência de minhas visitas à casa de minha mãe tem diminuído.
Comuniquei a Itamá a minha impossibilidade de visitar a nossa mãe, mas lamentava demais. No entanto, imaginando que a sua felicidade em receber mensagens de paz e luz no lar de outros filhos, fiquei resignado e o dia transcorreu normalmente, até que por volta das 14 horas, Itamá mandou uma mensagem que me deixou em choque. O que deveria ser um momento de celebração e gratidão filial se transformou em angústia para uma mãe, idosa de 100 anos de idade. Em vez de receber carinho e reconhecimento de seu filho Américo, residente em São Paulo, ela foi alvo de insultos proferidos em tom áspero e grosseiro durante um telefonema.
A situação foi presenciada indiretamente pelo outro filho a quem os insultos eram dirigidos, Itamá, que estava ao lado da mãe enquanto ela atendia a ligação. Itamá ouviu claramente os impropérios direcionados a ele pelo irmão. Diante da agressividade das palavras, Itamá permaneceu em silêncio, paralisado pela dor e pela tristeza da mãe. Uma lágrima solitária escorreu de seu rosto enquanto a mãe, embora demonstrasse uma postura impassível, ansiava por encerrar a ligação, tamanho o sofrimento causado pelas palavras carregadas de rancor, ódio e desprezo de seu filho Américo.
O ar na sala parecia carregado quando mãe, enfim, baixou o telefone e olhou para Itamá com olhos marejados. Américo, acabava de destilar palavras ácidas contra o irmão que ouvira toda a conversa. Cada frase era um dardo envenenado, mirando certeiro na autoestima e no respeito de Itamá. A fala de Américo no telefone, desrespeitosa e fria, ignorando a fragilidade da mãe ali presente, testemunha silenciosa daquele doloroso embate fraternal.
Foi esse o Dia das Mães de minha mãe que nenhuma mãe merecia. Deus por testemunha desses fatos sombrios em sua vida. A mensagem recebida por mim, relatando esse episódio chocante, expõe a dolorosa inversão de valores em um dia dedicado ao amor materno.
UMA VISITA INESPERADA
Em 11 de julho de 2025, uma situação alarmante perturbou a já frágil rotina de minha mãe, Almerinda, uma senhora de 101 anos que vive em Picos, que mudou-se para uma casa alugada no Bairro Canto da Várzea em busca de melhor sossego e conforto. Longe de quem lhe faz mal, ela se viu novamente alvo de uma artimanha cruel.
Naquela manhã, um homem se apresentou à sua porta como "Dr. Ai ria", dizendo que fora enviado pelo filho dela que naquele momento se encontrava no trabalho. No entanto, essa era uma abominável mentira, como foi constatado depois. Com essa fachada, ele conseguiu permissão para entrar na casa e, sem rodeios, dirigiu-se à idosa para "entrevistá-la". A mentira se desfez rapidamente quando ele, já dentro da residência, revelou sua verdadeira identidade: um advogado de nome José que, a mando de Benedito, ali estava para sondar as condições de vida de Almerinda.
Depois disso, começou a destilar suas afiadas perguntas à pobre idosa, Almerinda, como "A senhora está passando fome?", "A senhora está bem?" e "Está precisando de alguma coisa?", "Eles cuidam direitinho da senhora?
No entanto, a verdadeira intenção por trás da visita logo se tornou clara. De acordo com o advogado, Benedito, "preocupado" com Almerinda, estava tentando ter acesso à movimentação da conta de Almerinda, mesmo morando a 2500 quilômetros, em São Paulo. Essa manobra, altamente suspeita, levou a gerência do banco em São Paulo a bloquear as contas de Almerinda, impedindo que ela recebesse qualquer valor, pois considerou a ação como uma tentativa de golpe.
É importante ressaltar a distância entre Benedito, que mora tão longe, e Almerinda, o que torna essa tentativa de transferência ainda mais questionável. Minha mãe, em sua vulnerabilidade, foi alvo de uma tentativa de fraude que, felizmente, foi barrada pela desconfiança do próprio banco.
Itamá, alvo das mentiras deste advogado, foi avisado de que o mesmo ainda se encontrava na casa e para lá se dirigiu e o confrontou, ordenando que se retirasse da casa ou a polícia seria avisada.
O advogado apressadamente deu meia volta e partiu.
A NOVA VIA CRUCIS DE ALMERINDA
No dia 17 de outubro de 2025, pela manhã, recebi uma mensagem que me gelou: Mãe havia sido internada.
A mensagem, um áudio de Itamá enviada por volta das sete horas da manhã, dava notícia da internação de Mãe. O seu estado de saúde sempre nos deixa com o coração na mão, na expectativa de saber se seriam 'notícias boas ou ruins'.
Demorei um pouco para criar coragem e ouvir o áudio. Nele, Itamá informava sobre a internação, que na verdade só se concretizaria efetivamente horas depois. O percurso de Mãe pelo sistema de saúde foi longo: Itamá a acompanhou durante todo o dia 16 de outubro, buscando médicos e exames, correndo primeiramente na UPA de Picos, depois no Hospital Regional (onde os médicos suspeitaram de um AVC) e, por fim, no Hospital Dr. Oscar, no centro da cidade. Foi para lá que ela foi transferida com suspeita de pneumonia e onde permanece internada até este momento, às 18h00 do dia 17/10/25, com previsão de alta para amanhã ou domingo. Durante todo esse período, Itamá esteve incansável ao lado de Mãe, providenciando receitas e medicamentos.
O inacreditável, no entanto, foi o que ocorreu paralelamente a todo esse acontecimento. Enquanto Itamá cuidava com carinho e zelo de Almerinda, atendendo a todas as suas necessidades,verificando vagas no Hospital de Dr. Oscar e retornando apressadamente ao Hospital Regional, para não deixá-la sozinha, no meio desse desespero total, pois já não bastava o sofrimento de Almerinda, sendo transportada de momento para outro e igualmente as preocupações de Itamá, que, como filho dedicado, recebe uma ligação da advogada comunicando a ele que o Juiz havia concedido, naquele momento, uma liminar em que concedia a Benedito, que reside em São Paulo, o curador de Mãe, mas apenas para a "gestão do dinheiro dela". Ora, porque ele deixaria São Paulo se já havia, há décadas, um curador de Dona Almerinda, que era justamente Itamá?
No dia 23 de outubro de 2025 desembarcou em Picos o Benedito que veio para cuidar de Mãe.
No dia 29 de outubro recebi a notícia de que o Benedito, recém-chegado de São Paulo, invadiu a casa de mãe no Saco das Tábuas e se alojou. Acobertado pela decisão do juiz que não reconheceu o trabalho grandioso de Itamá, no atendimento médico e de suas necessidades; ao repassar a curatela ao Benedito, este interrompeu o atendimento do médico e da fisioterapeuta, o que pode acarretar os problemas de saúde de minha mãe.
No dia 07 de novembro de 2025, a notícia de nova internação de mãe no Hospital do Dr. Oscar em Picos. A sua idade avançada requer cuidados redobrados e atenção constante, mas o Benedito não pensa assim. Hoje, dia 07, nova investida. Entrou com uma ação na Justiça alegando que o Itamá está mantendo a sua mãe em cárcere privado. Naturalmente que isso não passa de uma alegação mentirosa. Já estive visitando a mãe juntamente com os meus filhos, noras e a minha neta, e a nossa entrada na casa da mãe estava liberada, não somente para mim, mas para outras pessoas também.
A cada toque do celular, surgem novas mensagens que nos surpreendem e nos espantam, pela dúvida do conteúdo da mensagem.
Todos os dias estão acontecendo novos fatos na dramática e lamentável situação que envolve a minha mãe. Ontem, 08 de novembro de 2025, por volta das 17h45, fiz uma visita à minha mãe que se encontrava internada no Hospital do Dr. Oscar. Ao entrar no quarto, constatei que ela estava desacompanhada; estava só no quarto. Estava dormindo ou cochilando e falava enquanto dormia. "Mãe?" disse eu. Ela abriu os olhos dizendo: "Alberto?" "Não, mãe, sou eu, Douglas". "Ah! É voce. "Estava sonhando com Alberto!" - "Sonhando com pai?" Perguntei. - "Era seu pai. Ele estava igual quando conheci... nem me lembrava mais, mas com aquele mesmo terno!" - "Ele disse alguma coisa?" - "Só disse que eu tivesse paciência, só isso!". Por incrível que pareça, meus problemas de audição não impediram que eu a ouvisse. Compreendi claramente o que ela dizia.
Dois ou três minutos após a minha entrada no quarto, entrou o Benedito conversando animadamente no celular e permaneceu outros dois ou três minutos e saiu sem dizer palavra.
Hoje, 09 de novembro de 2025, Benedito comemorou a chegada de um caminhão de mudança na casa do Bairro Canto da Várzea. Nesse mesmo dia, o Itamá foi visitar a mãe e foi impedido de entrar no hospital. A direção do hospital não pode impedir que um filho visite sua própria mãe internada, pois o direito à visitação de familiares é amplamente garantido pela legislação brasileira e pelos princípios de humanização do cuidado em saúde. Se a mãe for idosa, o direito é ainda mais reforçado. O Artigo 16 do Estatuto do Idoso (Lei nª 741/2003) assegura ao idoso internado ou em observação o direito à visita familiar.
No dia seguinte Itamá avisou-me que a mãe recebeu alta hospitalar. Desconfia-se, evidentemente, que a Direção do hospital apressou a dar alta para livrar o hospital de possível ação da Justiça devido ao impedimento da visita dos irmãos à paciente.
A "Via Crucis" de mãe continua. Almerinda está carregando uma cruz pesadíssima. Assim como o Pai acudiu e sustentou na dor da Via Sacra de Jesus, peço que também sustente e dê forças para minha mãe.
A rotina de mãe, ao acordar, é um retrato pungente da sua total dependência: troca de fraldas, meticulosa limpeza e asseio, troca de roupa, banho, o preparo cuidadoso do mingau. O panorama familiar não oferece consolo. Benedito é descrito como um homem grosseiro, cuja atitude apenas intensifica o drama. E a nora ainda mais problemática: uma "não me toques", cheia de pretensões pessoais.
O que dizer de uma nora que jamais nutriu qualquer tipo de proximidade com a sogra, sempre mantendo Almerinda a uma calculada distância? Como conceber que essa mesma mulher abandona São Paulo, sua rede social (filhos, amigos, parentes) e se desloca para o interior profundo do Piauí, em Picos, no remoto povoado de Sussuapara, Saco das Tábuas, com seus pouco mais 110 moradores aproximadamente, sob a alegação de "cuidar de uma idosa de 101 anos...?" Ela personifica o choque cultural e o esnobismo. Claramente não veio para isolar-se, mas integrar-se com o objeto do seu interesse, (o pecúlio). A comunidade Saco das Tábuas, acostumada à rotina e aos seus, vê a chegada da nora como algo exótico e suspeito. Por que a "doutora" ou "delegada" troca a cidade grande pela poeira do Saco das Tábuas? Os moradores não são ingênuos: eles leem a história não dita. É uma armadura de credibilidade que usa para disfarçar a sua verdadeira intenção.
A resposta é tão clara quanto indignante. Não há, neste movimento, qualquer traço de bondade genuína, carinho ou interesse altruísta. O que move esta "mudança" é o intuito mesquinho e o sujo jogo de interesse; a ambição fala mais alto que a humanidade.
Hoje é 12 de novembro de 2025. Não são nada boas as notícias que recebo. Itamá mandou-me mensagens que desagradam enormemente a qualquer um que queira visitar a aniversariante. Sim, porque hoje, minha mãe está de aniversário, completando 101 anos de vida e a casa permanece fechada para os familiares, visitantes, parentes, amigos, filhos. Uma demonstração arrepiante da condição humana. Já lá estiveram várias pessoas desavisadas, que inutilmente bateram na casa, mas não foram atendidas.
Hoje, 21 de Dezembro de 2025, o desejo de Itamá era o meu desejo, visitar mãe, mas ele sabia que os portões nãos seriam abertos. Sugeri chamar uma guarnição da polícia militar. (A minha mãe sofre neste momento de prisão domiciliar pelo outro irmão, ela que é idosa, não tem forças para afugentá-lo). "Eu gostaria muito de poder passar o Natal com mãe, mas de uma forma normal, tranquila, sem precisar de uma força policial pra poder vê-la." Continuou ele: "Ele pode ser o "curador" neste momento, mas a vida de minha mãe não lhe pertence... Ela tem outros filhos e familiares que também querem vê-la"
Triste enredo é este, onde um filho é brutalmente impedido de ver sua mãe em pleno Natal, o símbolo máximo da paz, da família e da união. Onde a celebração é trocada pelo luto da separação forçada.
Hoje é 1º de janeiro de 2026. Não vi minha mãe. Não pude tocá-la, sentir seu abraço, seu calor. Não pude desejar a ela pessoalmente o tradicional 'Feliz Ano Novo'. Elevo meu pensamento a Deus e tudo entrego a Ele e aos Seus mensageiros.
No encerramento deste livro, que parece inconclusivo e me preenche de grande emoção, quando as circunstâncias do momento nos impedem de nos ver. É como encerrar um capítulo com a certeza de que o livro está longe do fim.
Permito-me sentir a tristeza da ausência física, mãe, pois ela é o reflexo do afeto que nos une. Retenho a sua força e a sua bondade, mãe até que aconteça o nosso próximo reencontro, pela vontade de Deus e pelo merecimento nosso.
Não desejo retaliações ou desforras, nem guardo rancor, apenas dor que penetra a alma, pois trata-se de minha mãe, a protagonista deste drama. Com isso, conservo o pensamento limpo, dirigindo a Deus a súplica do perdão. A revolta é inerente ao homem quando as injustiças acontecem e quando não podemos impedi-las. Faço o que se encontra ao meu alcance: este livro. No final, Deus saberá como proceder sem castigar. Deus não castiga nenhum de seus filhos; cada um provoca em si mesmo a dor de seus próprios atos. Deus Seja Louvado!
O HEROÍSMO, A GRATIDÃO, O AMOR
O que é ser um herói? Certamente é aquele que surge de repente para salvar alguém de uma enchente ou de um incêndio e cuja ação é registrada e glorificada por câmeras e manchetes.
Mas o que dizer do herói anônimo, aquele que, durante anos, devota sua vida aos cuidados de uma mãe, sendo a beleza desse ato justamente na gratidão inegociável que o move, o amor. Esta mãe, que talvez não seja legítima pelo vínculo de sangue, mas é absoluta pelo vínculo do coração, lembra que esse herói foi resgatado há 48 anos de um orfanato e levado como filho para ser carinhosamente criado desde o primeiro instante. Certamente, todo filho deve zelar e cuidar de sua mãe; no entanto, nem sempre isso acontece.
Afinal, a maternidade verdadeira não se resume ao ato de dar à luz. Mãe é a que cria, que nutre, que se sacrifica, e não aquela que apenas põe no mundo.
"Mãe é mãe", mas nem todo indivíduo gerado de uma mãe é filho no que espera ter, pois nem sempre age com respeito, o carinho e a proteção que sua mãe merece. Mas o real significado reside na dedicação. Mãe é aquela que investiu seu tempo, sua energia e todo o seu amor durante cada ano de vida e de crescimento de seu filho. E é nesse ciclo de amor que a história se inverte e se completa. Quando a mãe já não suporta mais sequer caminhar pela cozinha, pela sala, pelo quarto, esgotada pela idade ou pela doença, é nesse filho que ela encontra seu verdadeiro pilar e seu guardião.
Quantos empregos perdidos para permanecer ao seu lado! O trabalho árduo é mantido por uma única causa: sua mãe. Poucos, ou quase ninguém, percebe esse esforço; não se vê o bem desse herói. Mas ele existe e continuará na luta frenética de suavizar os dias tormentosos de sua mãe querida.
Esse filho é o herói porque ama a sua mãe com todas as suas forças, com a serenidade da retribuição e com a vontade inabalável de vê-la em paz, com saúde, na felicidade – um desejo que arde como um fogo sagrado. Ele não apenas cuida; ele glorifica e protege a história dela, honrando cada renúncia que ela fez no passado. É o ato supremo de retribuir o bem com a própria vida, dedicando-se à vida que Deus lhe concedeu e que aquela mãe sustentou com tanto carinho e resiliência, provando que o amor construído é, muitas vezes, mais forte que o destino biológico.
POSFÁCIO
A tarefa que me dediquei a escrever sobre a minha mãe foi de hesitações fora do comum! Falar de minha mãe foi uma experiência única, mas não agradável no seu conteúdo final... Relacionar os seus dias de felicidade e de paz com os momentos de medo que ela sentia e ainda sente de seus próprios filhos é triste, amargo.
Ao escrever tocando em temas tão sensíveis como o abandono disfarçado de conforto, o desleixo, as negligências são, em todos os sentidos, repulsivos! Da mesma forma como foram as lembranças de meu pai ao escrever o livro O Vale das Falenas, pois fui levado a recordar de momento a momento a sua face, suas palavras, seus anseios, sua voz, seus olhos, seus ensinamentos... Com a minha mãe, as lágrimas brotaram espontaneamente a cada momento, cada linha, cada página, cada título. Minha pobre mãe. As rugas que emolduram seu sorriso, cada uma delas uma história, parecem invisíveis aos olhos daqueles que deveriam decifrá-las com carinho.
Mãe observa o movimento da casa... o entra e sai dos filhos absortos em seus próprios mundos, e um suspiro escapa de seus lábios finos. Não anseia por luxos ou extravagâncias, mas sim por um olhar que a veja além do benefício financeiro, um abraço que aqueça a alma e uma palavra que reconheça a beleza de sua jornada. Seu coração, outrora um farol de amor incondicional, clama por um reconhecimento que transcenda o interesse material.
"Mãe, esquecem-se, os seus filhos, que a vitalidade é um tesouro cheio de um amor inestimável, viva de sabedoria e afeto que se esvai a cada dia de negligência emocional."
Que a sua história, mãe, marcada pela dor e pela esperança, nos inspire a sermos mais humanos e a valorizarmos os laços que nos unem, para que nenhum idoso seja abandonado à própria sorte em meio à ingratidão e ao egoísmo.
Fechei o livro! Suas páginas, carregadas de memórias e dores, narram uma tragédia familiar que parece ter chegado ao seu ponto final. A página virada, traz consigo a sensação de um ciclo encerrado, de um drama que, enfim, repousa. Mas só Deus conhece o final dessa história!
NOTA FINAL
"A presente obra é a expressão fidedigna da verdade, fundamentada em acontecimentos que vivenciei pessoalmente e outros fatos documentados. Os episódios aqui narrados, que detalham a recepção que tive na residência de minha mãe ao realizar as entregas de mantimentos, o trágico desfecho da madrugada do dia 03 de maio de 2024; a sua exposição ao sol inclemente do meio-dia e outras tantas torturas físicas, psicológicas e maus-tratos a que ela foi submetida, são todas factuais. Portanto, prevendo possíveis contestações, informo que todos os fatos são passíveis de comprovação. Mesmo que as dúvidas partam dos próprios autores das hostilidades mencionadas, há um conjunto probatório robusto, incluindo fotografias, Boletins de Ocorrências, documentos, vídeos e depoimentos testemunhais que atestam a veracidade do que é exposto".
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