Projeto Correios – 350 Anos
Depoimento de L.nilde Maria de Brito Pires Varela (L.)
Entrevistada por Estela Tredice
São Paulo, 19/07/2013
Realização Museu da Pessoa
HVC045_L.nilde Maria de Brito Pires Varela (L.)
Transcrito por Cristiane Costa
MW Transcrições
Observação: a L.nilde não quer ser identificada, nem imagem e nem o nome. Somente sua voz poderá ser usada, sem identificar seu nome
P/1 – Então, eu queria que você começasse falando seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R – Tá.
P/1 – Quando você quiser, L.
R – Tá.
P/1 – Pode ir, tá gravando.
R – Sou L, nasci em Lisboa, em 1987, sempre cria lá, nunca viajei pra viver em outro lugar. O quê que eu posso falar mais de minha pessoa? Antes de vir eu era estudante e quando eu voltar pra lá quero continuar com a mesma profissão, de estudante.
P/1 – O dia em que você nasceu? Você falou o ano e não o dia.
R – Primeiro de fevereiro de 1987.
P/1 – Uhum. E o nome dos seus pais?
R – F. e M.
P/1 – E como seus pais se conheceram, você sabe?
R – Foi em Portugal. Sei que só se conheceram em Portugal; mais não sei.
P/1 – E eles são portugueses mesmo?
R – Não, nasceram em Cabo Verde.
P/1 – Você lembra o ano que eles foram pra Portugal?
R – Não, mas sei que já tem bem mais de 30 anos em Portugal. Bem mais.
P/1 – E você conheceu seus avós?
R – Não, só por foto, só por foto. Não conheço Cabo Verde, não conheço a terra de meus pais, mas quero conhecer.
P/1 – E seus irmãos? Você tem irmãos, irmãs?
R – Tenho. Tenho mais irmãos, um vive fora de Portugal e os outros todos estão em Portugal, todos perto dos meus pais e somos sete, comigo.
P/1 – Como se chamam seus irmãos?
R – É o J. o Z.a M. a J. a R... Acho que eu me esqueci. Ah, e A.
P/1 – E como que era na sua casa? Seus pais gostavam de contar histórias pra vocês quando vocês eram crianças?
R – Sempre tive uma boa infância. Meus pais foram sempre excelente pais, sempre, sempre, sempre. Tudo o que eu precisei, eles estavam lá.
P/1 – O quê que eles fazem, seus pais?
R – De momento estão desempregados mas a minha mãe sempre trabalhou, meu pai também. Momentos trabalharam bem mais tempo numa profissão, que o meu pai foi motorista e a minha mãe foi empregada doméstica.
P/1 – E você se lembra como é que era o bairro na sua infância, onde você morou?
R – Me lembro muito bem, muito bem mesmo. Gostava do bairro, gostava da vizinhança, tenho amigas até hoje, da infância. Depois eu mudei mas construí novas amizades que até hoje são grandes amigas mesmo.
P/1 – Como que era o bairro, assim? Qual que foi o bairro que você cresceu, lá em Lisboa?
R – Eu vivi num bairro social e foi sempre bom. Não grandes condições mas boas condições de morar.
P/1 – E vocês tinham o costume de brincar na rua?
R – Muito, muito. Muito mesmo. Brinquei muito mesmo.
P/1 – Quais as brincadeiras que você gostava?
R – Assim, brincadeira de criança, daqueles tempos que hoje não tem, porque hoje é mais à base de computador e tecnologia. Brinquei muito de bola, andei muito na correria, bicicleta, até hoje ando de patins, brinquei muito mesmo. Muito.
P/1 – E você gostava de boneca, assim?
R – Gostei muito de boneca mas eu gostava mais, assim, de outras brincadeiras que eram mais os jogos com pessoas, não de brinquedos. Tinha, mas não ligava muito.
P/1 – E você tinha amigos?
R – Tinha, muitos, muitos, que até hoje ainda são meus amigos. Muitos.
P/1 – Você brincava com seus irmãos também?
R – Muito, muito. Tenho dois irmãos com pouca diferença de idade mas a gente brincou muito, muito mesmo.
P/1 – Uhum. E como que era na sua casa, assim, vocês tinham costume de fazer festas?
R – Tenho. Tivemos costume de fazer festas de aniversário, até hoje ainda a gente janta juntos, chama os outros irmãos que não moram mais com a gente, porque, antes de eu vir pr’aqui, deixei também de viver com meus pais, vivia já com meu namorado. Então, a gente combinava e ia jantar na casa da minha mãe. Mas, mesmo não tendo jantares, o fim de semana é na casa da minha mãe.
P/1 – E você tinha algum sonho, assim, quando você era criança “ah, quando eu crescer eu quero ser...”, qualquer coisa?
R – Toda criança tem um sonho. Então, eu já tive um monte de sonho, em ser advogada, ser médica mas, depois, isso tudo acaba por mudar com o crescimento. Hoje penso, assim, em ter um curso profissional, pensei muito em ser hospedeira, que aqui fala aeromoça. Pensava mas pela vida que eu quero, hoje já tem uma igreja, eu sigo Igreja. Então, penso que com essa profissão eu não vou ter tempo; também penso em Administração, já comecei um curso assim e antes de vir eu era estudante de técnico bancário, estava tirando um curso de técnico bancário. Mas, quem sabe, quando eu sair, eu vou terminar o curso.
P/1 – Vai, sim. E, L., vamo voltar um pouquinho lá no seu período de escola, né, quando você era criança. Você se lembra do seu primeiro dia de escola, como que foi?
R – Lembro muito bem como que foi o primeiro dia de escola. Eu lembro que foi um irmão, o Zé, que foi comigo no primeiro dia; lembro, assim, dos cadernos, vagamente não bem, mas ficou aquela coisa dos primeiros cadernos, as primeiras canetas, da primeira mochila e dos colegas também, nunca esqueci.
P/1 – Como que você ia pra escola? Era pertinho?
R – Era perto, eu ia sempre com os colegas. Nos primeiros dias, assim, meus irmãos me levavam mas o primeiro ano, o primeiro ano da escola eu ia com os meus irmãos, porque quando eu entrei na escola, no primeiro ano, dois irmãos meus estava terminando o quarto ano, aqui não sei qual é, estavam indo para o Fundamental. Terminaram o Primário; para o Fundamental. Eu encontrei ainda eles na Escola Primária e a gente ia com os restantes vizinhos.
P/1 – E como que era, assim, você tinha bastante amigos na escola?
R – Bastante amigos. Quando a gente é criança, não tem, assim, nada que possa dar errado, né, a gente só pensa em brincar. Se tem um pequeno conflito -que a gente não fala em conflito- são briguinhas de criança, passa. Então, não tem como e, depois, são os mesmos vizinhos que eram no bairro e toda a gente se dava bem, então não tinha como a gente se dar bem, sendo criança, né?
P/1 – E você gostava das aulas mesmo?
R – Da aula, eu gostava da professora, lembro bem o nome dela, Gabriela, professora Elza, eram excelentes professoras, não tenho do que me queixar da minha infância. Não tenho.
P/1 – E tinha alguma festa, assim, específica, como tem aqui, nas escolas Festa Junina? Quais festas?
R – Tem festa. Aqui é festa junina mas lá são santos populares. A gente faz festa de santos populares, a gente dança, são músicas folclóricas, é igual aqui. Tem coisas que tem diferenças mas tem muita coisa em comum.
P/1 – E teve alguma festa, alguma história no seu período escolar, que tenha sido marcante pra você?
R – Não. Eu acho que tudo acaba por ser marcante. Tudo, porque foi tudo bom, enquanto a gente é criança, não tem nada que a gente possa reclamar, no meu caso. Mas, eu gostei imenso, muito mesmo, daquilo que eu vivi e dava tudo hoje pra voltar a ser criança.
P/1 – E na sua casa, assim, seu pai, junto com você e os seus irmãos, eles passavam, assim, as coisas da cultura de Cabo Verde? Contavam...
R – Passa, tanto que a gente cresce com essa cultura. Cresci com a cultura portuguesa mas, também, cresci com a cultura de Cabo Verde, tanto que eu falo a língua deles, eu conheço os pratos típicos de Cabo Verde e sei fazer alguns, não sou tão profissional como a minha mãe e a minha irmã, mas conheço, tem muitos que eu gosto.
P/1 – Então, na sua casa vocês só falavam cabo-verdiano?
R – É. Assim, eu, como sou a última filha, todas nós falamos o Crioulo, que é a língua de Cabo Verde. Mas, na escola, é o Português; em casa é o Crioulo. Mas, nessa nova geração, que é os meus sobrinhos, todos falam Português. Agora, quando crescerem, se optarem por falar outras línguas...
P/1 – Voltando ali, também, na sua infância, como que era? Moravam vocês, moravam seus pais e seus irmãos. Quem morava na mesma casa?
R – Todos. Todos moravam na mesma casa, só que foram crescendo e cada um comprou suas casas ou optaram pelas famílias deles e o trabalho, a mulher e o filho, construir as suas famílias.
P/1 – E como que era o cotidiano na sua infância, assim?
R – Bom, gostoso. Era gostoso, assim, não me lembro de todas as coisas mas são coisas boas. Algo que sempre gostei de falar... De falar, perdão, de fazer, foi andar de patins. Então, é uma das coisas que eu trouxe comigo, de 16 anos até agora, uma das coisas que eu mais gosto, assim, é andar de patins, gosto muito mesmo. Mas tem o meu hobby, também gosto de passear com as amigas, conversar sobre nós, sobre a minha vida pessoal. Passear, divertir, ir na praia, cinema. É.
P/1 – Você gostava de ir em festas? Como que era?
R – Festas. Gostava mas já gostei mais de festas, chegou um tempo que eu cansei. Cansei de festa.
P/1 – E como patinadora você chegou a fazer algum campeonato?
R – Nada profissional. Nada profissional, nada mesmo.
P/1 – Bom, e depois, assim, o quê que você sente nessa fase da sua vida, adolescência, começo de juventude, o que você sente que mudou em relação a sua infância, assim?
R – Não sei o que mudou da minha infância.
P/1 – Em relação à infância, assim?
R – Não, não.
P/1 – Não teve nada, assim, ruim?
R – Não.
P/1 – E, bom, ainda no período escolar, o quê que você estudou a seguir?
R – É, assim, tive oportunidade de fazer vários cursos mas não quis. Começava e não terminava. Tenho, assim, as bases do assistente administrativo, trabalhei, também, em lojas, já estive num curso de técnico bancário, que foi o último. Trabalhei bem cedo, com os 14 anos já tava na limpeza de rua mas não vejo, assim, nada que ocorra e que eu possa falar. De momento não está na minha memória.
P/1 – Então, qual foi o seu primeiro trabalho mesmo?
R – O meu primeiro trabalho foi na limpeza de jardins e praias, que era mesmo pra jovens, que quando se encontrassem de férias da escola, ocupassem o tempo. Então, a Câmara Municipal disponibilizava emprego pros jovens, a gente se inscrevia a acabava por fazer esse trabalho.
P/1 – E você recebia por isso?
R – Recebia.
P/1 – E o quê que você fez com o seu primeiro salário, você se lembra?
R – Lembro. Era compras. Compras porque os meus pais não tinham, assim, grandes condições. Por quê que a gente trabalha? Pra poder ter aquilo que os nossos pais não podem dar. Então, fui aproveitar para fazer compras.
P/1 – O quê que você comprou, você lembra?
R – Comprei tênis, assim, quando a gente começa com... A gente sai da Primária e vai pra Escola que já a gente chama Preparatória, começa a ver novas pessoas, uma escola bem maior e vê colegas com uns tênis, assim, bons, e umas roupas... E a gente começa conversando com relação a roupas e a loja de roupas. Então, a gente começa a colocar na cabeça que também quer. Os meus pais não podiam me dar. Davam, mas não o que eu queria, então, não vi problema nenhum em começar a trabalhar, e também ajudar os meus pais, claro, né, porque eu cresci com o exemplo dos meus irmãos, que trabalham e ajudam em casa. O meu primeiro salário foi assim, foi comprar o que eu queria mas também tinha que ajudar a minha mãe, e que hoje não me arrependo.
P/1 – E que outras experiências profissionais você teve lá?
R – Trabalhei no McDonald’s; trabalhei na Pizza Hut; trabalhei um mês na limpeza, não grupo de limpeza, só que não era aquilo que eu queria então eu saí; trabalhei na loja de sapatos; trabalhei na loja de mala. Só.
P/1 – O seu último trabalho foi numa loja de mala?
R – Sapato.
P/1 – E você sempre morou em Lisboa?
R – Sempre morei em Lisboa, sempre morei em Lisboa.
P/1 – E como é que você veio pro Brasil? O quê que te trouxe pro Brasil? Se você quiser falar.
R – Não, prefiro não.
P/1 – Tá bem, tudo bem. Bom, me conta um pouquinho, você costuma escrever cartas?
R – É, assim, a minha história com as cartas não começa quando eu vim para o Brasil. A minha história com as cartas começou desde os meus 11 anos, que eu tive uma pessoa também da família, que estava ausente e a gente trocava as cartas, recebia as cartas, até hoje tem cartas. Também já tive amigos que mandaram pra mim cartas, só que com mais frequência, foi agora, aqui no Brasil, nesses últimos dois anos.
P/1 – Tá. E pra quem que você gosta de escrever? De quem que você gosta de receber cartas?
R – Assim, quanto mais a gente escreve, mais carta a gente recebe. Então, tenho amigas que me escrevem bastante; a minha família; o meu namorado, são eles; os meus primos. É muito bom receber carta porque é a situação onde é cortado, a gente fica sem usar as tecnologias, como telefone, a internet, pra nós... Enquanto a carta, antes, era muito usada, depois, com a vinda de internet, parou um pouco. Pra mim parou um pouco. Quando eu vim para o Brasil, foi aquilo que, como é que eu posso explicar, a gente ficou inibido de usar o telefone e a internet. Então, é a carta que nos conforta com palavras boas. Depois, é, hoje em dia quem para e tem paciência pra escrever carta são aquelas pessoas que mais amor tem pela gente. Pra mim é esse o valor das cartas, tem muito valor, muito valor mesmo.
P/1 – E nessas correspondências, além da carta escrita, que mais que vocês troca, assim?
R – Postais, como aniversário, Natal, ou postais de amizade, sem uma data específica, sem uma data especial. E eu tenho esses postais, que pé um mimo que a gente recebe e que vale muito enquanto... Há pessoas que pensam que um postal não tem significado, ou uma carta. Mas hoje eu vejo o significado das cartas e é algo que eu quero continuar lá fora, quero muito, muito mesmo.
P/1 – E, L., em média quantas cartas você escreve por semana?
R – Depende, porque assim, agora eu tenho estado com respostas, porque a iniciativa vem de quem a gente gosta lá fora e de quem a gente precisa aqui dentro e sente falta mas, de início, era pros meus pais e pras amigas mais próximas. Depois, a gente recebeu cartas das pessoas que estavam lá fora e que sentem a nossa falta, que é amigas, amigos. Mas, por semana, assim, agora, com os dois anos que eu estou aqui, dependendo das cartas que eu vou recebendo e vou respondendo, mas por semana eu chego a escrever seis cartas, oito cartas, que é o que eu recebo. Tento fazer o possível, faço o possível pra não atrasar a resposta, porque também é bom, quanto mais rápido eu envio, mais rápido eu recebo.
P/1 – Em que momento do dia você consegue escrever essas cartas?
R – Depois do trabalho, depois do serviço, consigo. E tem cartas que eu fico pensando, essa semana tenho cartas para enviar, então, eu começo a escrever, assim, na hora do almoço, termino depois do serviço e se tiver uma outra carta que também tem que enviar, eu escrevo, porque escrevo muito rápido. Muito rápido mesmo.
P/1 – E você gosta de mandar desenhos?
R – Mando desenhos e depois, assim, o material que a gente tem aqui é como se fosse reciclado. Tem coisas que a gente reaproveita e faz postais, coloco nos envelopes, é muito bom, assim como stickers. Lá fora eu tinha stickers e usava mais no tempo da escola mas hoje eu uso nas cartas, pra colocar nas folhas, para fazer postais.
P/1 – E vocês tem esse material aqui, à disposição ou vocês tem que comprar, como é que é pra fazer?
R – As folhas brancas tem quem nos dá, os stickers a gente recebe do Sedex ou por envelope e, depois, assim, tem folhas que a gente vai arranjando, tem coisas que a escola depois pode não usar mais, folhas, flores artificiais, já utilizei desse material pra fazer postais.
P/1 – E a sua família pode te mandar encomendas?
R – Pode. A gente aqui, além de receber as cartas, tem o carinho que a gente encontra também no Sedex. É significante pra nós, porque, mesmo que a gente não esteja lá fora, a gente ainda usa certas coisas aqui dentro e é com isso que a família, como não pode estar conosco, nos ajuda nesses meios que é o que eles podem, que a casa permite. A gente aqui recebe pijama, recebe uns cremes, uns brincos, uns anéis, umas pulseiras, entre outras coisas, assim, que agora não me ocorrem na cabeça.
P/1 – Vem lá de Portugal mesmo?
R – Tem quem me envia de Portugal e tem que me envia daqui, do Brasil. Mas, não é que um não tenha, os dois têm significado, mas, quando vem de lá, são coisas que a gente tem o hábito. Como, por exemplo, comida, tem comidas que aguentam no Sedex, não estragam e a gente pode matar a saudade.
P/1 – Ah, é que tipo de comida eles te mandam?
R – Assim, tem biscoitos que a gente come lá; tem cereais que pode ter aqui mas não é a mesma coisa, são coisas diferentes, mais, assim, que eu esteja lembrando agora, é o biscoito. Biscoito, é.
P/1 – Eu sei que tem uma forma de você, a partir daqui se corresponder com pessoas que você nem conhece, pelo menos foi o que a Taila me falou. Parece que tem um serviço aqui, enfim, que você tem endereço de pessoas e que você pode começar a se corresponder. Você chegou a fazer isso, assim?
R – Não.
P/1 – Você se corresponde mais com a sua família, com seus amigos?
R – Com a minha família, meus amigos.
P/1 – E tem ou teve alguma carta que tenha sido mais marcante, assim, pra você?
R – Todas acabam por ser marcantes mas quando é a nossa família é aquilo que mais marca, é um momento difícil mas que nos confortam com palavras boas. Quando vem do amor, tudo é significante. E todas as cartas têm amor, todas as cartas têm, assim, um carinho, força e não tem, assim, o que reclamar das minhas cartas. E o apoio, muito. Muitas das vezes eu fico pensando nas cartas que a minha mãe manda, que ela sempre fala, em todas as cartas ou quase todas, ela fala “se o caminho de mar fosse a pé, eu já tinha ido”. Então, é uma coisa que sempre ficou na minha cabeça, sempre ficou na minha memória e sempre agradecendo a Deus que, enquanto nos foi cortado muitos benefícios, a carta é aquilo que não se corta. É muito bom.
P/1 – E você conhece receber visitas, assim?
R – Já tive visitas da minha família, que foi minha irmã, meu namorado e tem uma amiga que vem visitar constantemente.
P/1 – Quer dizer, você pode pensar que as cartas te trazem um pouco essas pessoas, principalmente de Portugal?
R – É. Vamos sabendo, assim, as notícias de casa, das minhas amigas, do país. Assim, são essas notícias e, pra além das notícias, a gente recebe sempre muito amor e muito carinho, por isso que a gente fica sempre ansiosa com o enviar uma carta e o receber uma carta. É muito gostoso mesmo.
P/1 – E quando você recebe a carta, o quê que você sente?
R – É uma felicidade enorme. É enorme. Porque a gente sabe que primeiramente vai encontrar amor, independentemente da notícia, né? Porque tem pessoas que acabam por receber más noticias nas cartas mas, mesmo tendo uma má notícia, sempre vem um apoio, aquela lembrança de aquela pessoa não se esqueceu de nós e é isso.
P/1 – E você falou dos cartões postais, que são cartões postais de datas, aqueles cartões que...
R – Assim, já recebi de aniversário, de Natal. Já recebi mesmo por carinho, mimo e das coisas que eu gosto, assim, as minhas amigas, o meu namorado, a minha família, sabem que eu gosto de mimo, de carinho. Então, eles mandam, assim, um postal sem que haja uma data específica.
P/1 – E o seu namorado, vocês se correspondem frequentemente?
R – Sim, agora não, porque ele está trabalhando, mas a gente se corresponde. Ele consegue corresponder comigo, ultimamente eu que não consigo, mas ele consegue.
P/1 – E como é que é o seu dia a dia aqui? Você trabalha, né?
R – Trabalho, faço uma atividade extra, que é de dança, eu já estive na escola mas no momento parei. Mas, o trabalho tem muito, sempre.
P/1 – O quê que você faz aqui, de trabalho?
R – Apoio. Faço faxina (interrupção).
P/1 – Pode falar.
R – Assim como tem postais, a gente recebe no Natal, desejando um Feliz Natal, embora não estejamos com a família, que isso pra nós conta muito, mesmo que a gente não esteja com a família, mas a família lembrou de nós e de nos mandar aquilo que eles podem e que nós, também, podemos receber. Depois, também tem aqueles postais que eu recebo, de amizade, sem uma data específica, assim, como o dia dos namorados lá, em Portugal, é uma data e aqui é outra data, é significativo receber, mesmo não comemorando a data aqui, mas fica no nosso coração o que vem de lá. E, depois, tem postais que a gente gosta de receber e que depois ficam marcados, como estes, que são das minhas amigas que não se esqueceram da minha existência. E mais ainda, também, são as fotografias que a gente recebe, como é o meu caso, que tenho sobrinhos que chegaram depois de eu estar aqui e fico feliz por vê-los, poder vê-los e poder receber a carta daqueles que cresceram, porque tem uns que eu deixei e que já escreviam, já estavam na escola e agora já têm melhor entendimento e escrevem palavras que eu fico até estupefata, porque pra nós as crianças nunca crescem, como os meus pais também comigo, eu nunca cresço, serei sempre a mais nova, a bebê da família. Então, receber carta deles é muito bom e numa das cartas, assim, do meu sobrinho, ele fala que sente muito a minha falta e que tem muitas saudades minhas e ele sabe que eu peço sempre pra eles estudar. Uma coisa boa é que eles escrevem que passaram de ano, pra mim é muito bom (emocionada) porque eu sei a situação que eu me encontro e quando eu estou nessas situações, o que eu tenho que pedir é que eles estudem e tenham exemplo, como eu. Obrigada, pra mim isso é muito significativo, muito. E saber que, mesmo que eu esteja aqui, eles podem fazer os meus pais e os pais deles (emocionada).
P/1 – Quer parar um pouquinho? A gente para L...
R – Não. Depois, também tem aqui cartas, postais, do meu namorado apoiando, enquanto tem situações aqui um pouco tristes, que eu nem vou falar, mas eu me sinto privilegiada em ter os postais do meu namorado, que é sempre com muito carinho, com muito amor, muito apoio. Acho que é isso, né? E as fotografias dos meus meninos, as minhas amigas que não se esquecem de mim.
P/1 – Quantos sobrinhos você tem?
R – Oito. Nove,
P/1 – E esse sobrinho que é mais velho, como ele se chama?
R – É o Bruno.
P/1 – Que escreveu pra você? Que sente saudades?
R – É. Ele sempre muito carinho e eu me lembro do primeiro dia que eu falei com a minha família, aqui, que eles ligaram pra aqui e eu pude conversar com ele, é muito gostoso. Mas, também, é na distância que a gente vê até que ponto o amor vai, porque o amor verdadeiro não termina nem com a distância, com nada. Como é muito amor, mesmo, pela minha família é nessas palavras.
P/1 – Você pôde, então, falar com teu sobrinho mesmo, no telefone?
R – Pude, exatamente. A Casa permitia isso e eu consegui falar com ele, foi muito bom mesmo.
P/1 – E hoje você acompanha o crescimento dele?
R – Mesmo que por carta mas eu acompanho. E hoje eu dou muito, mas muito valor nas cartas. Muito. É como eu falei, que a gente é inibida de usar telefone, computador mas a carta a gente não... E é carta, né, a gente quando escreve se expressa e quando a gente recebe a gente consegue sentir. Eu consigo sentir, assim, nas cartas, palavras que eles me enviam, carinho, eu consigo sentir.
P/1 – Que bonito. E, L., você já foi casada ou é casada? Tem filhos?
R – Não tenho filhos.
P/1 – E hoje, assim, pra você, quais são as coisas mais importantes na sua vida?
R – Uma coisa que eu aprendi aqui é que liberdade tem preço e família tem muito mais valor do que aquilo que a gente imagina e que quem nos ama merecem ser amados.
P/1 – Uhum.
FINAL DA ENTREVISTA
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