Memória dos trabalhadores da Bacia de Campos
Depoimento de Eli Anchieta Alexandre
Entrevistado por Sérgio Ricardo Retroz
Macaé, RJ 17/06/2008
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB410
Transcrito por Jerusa Messina
P – Seu nome, onde nasceu e quando?
R – Eu nasci em Macaé, nome Eli Anchieta Alexandre, 31 de janeiro de 1956.
P – Em Macaé, quando você nasceu, você já ouvia falar da Petrobrás? Um pouco maior, né, do que quando bebê?
R – Não, inclusive eu só tinha visto falar quando eu entrei na Empresa, não sabia o potencial, não sabia o que era direito a Petrobrás só fui saber depois que ingressei na Empresa que eu vim saber o que era a Petrobrás.
P – Mas da onde nasceu a vontade de ingressar na Empresa?
R – Na verdade foi uma coincidência eu ter entrado na Empresa; foi que... eu era motorista de um ônibus, trabalhava na _________ Macaense e lá eu fiquei desempregado, e um colega veio me chamar prá gente fazer inscrição prá Petrobrás; e em 1983; 82 prá 83; aí foi que eu fiz essa inscrição lá e quando eu fui perceber eu já estava fazendo exame médico, já estava na Empresa.
P – E quando você entrou, você foi prá onde?
R – Eu fui trabalhar embarcado, eu fui trabalhar na plataforma em PCH-1 SM-5; daí teve um DTM lá, que é desmontagem, tal, e daí a gente participou daquilo lá; e fiquei um ano e meio, mais ou menos; dois anos; embarcado; aí fui prá Emboacica, em 1985, trabalhar na Área de Suprimento, e estou até hoje.
P – E embarcado você diz que nem ouvia falar muito da Petrobrás, então deve ter sido uma surpresa, né, ir numa plataforma de repente assim?
R – É, nós fomos fazer um curso na Bahia, né? Na época eu entrei de auxiliar de plataforma, aí logo passei pra plataformista e... a gente veio, né, passando por várias coisas... por que na época era bem diferente, a gente fazia todas as atribuições, embarcado; não tinha muito, assim... uma coisa fixa que você...
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Depoimento de Eli Anchieta Alexandre
Entrevistado por Sérgio Ricardo Retroz
Macaé, RJ 17/06/2008
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB410
Transcrito por Jerusa Messina
P – Seu nome, onde nasceu e quando?
R – Eu nasci em Macaé, nome Eli Anchieta Alexandre, 31 de janeiro de 1956.
P – Em Macaé, quando você nasceu, você já ouvia falar da Petrobrás? Um pouco maior, né, do que quando bebê?
R – Não, inclusive eu só tinha visto falar quando eu entrei na Empresa, não sabia o potencial, não sabia o que era direito a Petrobrás só fui saber depois que ingressei na Empresa que eu vim saber o que era a Petrobrás.
P – Mas da onde nasceu a vontade de ingressar na Empresa?
R – Na verdade foi uma coincidência eu ter entrado na Empresa; foi que... eu era motorista de um ônibus, trabalhava na _________ Macaense e lá eu fiquei desempregado, e um colega veio me chamar prá gente fazer inscrição prá Petrobrás; e em 1983; 82 prá 83; aí foi que eu fiz essa inscrição lá e quando eu fui perceber eu já estava fazendo exame médico, já estava na Empresa.
P – E quando você entrou, você foi prá onde?
R – Eu fui trabalhar embarcado, eu fui trabalhar na plataforma em PCH-1 SM-5; daí teve um DTM lá, que é desmontagem, tal, e daí a gente participou daquilo lá; e fiquei um ano e meio, mais ou menos; dois anos; embarcado; aí fui prá Emboacica, em 1985, trabalhar na Área de Suprimento, e estou até hoje.
P – E embarcado você diz que nem ouvia falar muito da Petrobrás, então deve ter sido uma surpresa, né, ir numa plataforma de repente assim?
R – É, nós fomos fazer um curso na Bahia, né? Na época eu entrei de auxiliar de plataforma, aí logo passei pra plataformista e... a gente veio, né, passando por várias coisas... por que na época era bem diferente, a gente fazia todas as atribuições, embarcado; não tinha muito, assim... uma coisa fixa que você fazia; você fazia várias atribuições, entendeu? Hoje não... que você não pode fazer isso, não pode fazer aquilo; antigamente você fazia tudo, né? Era ali pra ajudar, pra fazer alguma coisa em bem da Empresa, a gente tava ali fazendo e era dessa maneira que era feito antigamente. Inclusive hoje eu tenho essa coisa que eu acho que as pessoas estão muito presas a isso, a “ser minha função ou não ser.” Eu acho que nós teríamos que nos dedicar mais à Empresa, que eu acho que eu tô vendo hoje as pessoas muito desligadas disso, entendeu? Então eu tenho essa mágoa aí, que eu acho que nós teríamos que dar mais da gente pra Empresa.
P – Naquele período o que você fazia, embarcado? Qual era a atividade lá dentro?
R – Na Petrobrás, né? Que eu fui embarcado na Petrobrás... Eu trabalhei de auxiliar de plataforma e depois trabalhei de plataformista... até operar guindaste, embarcado, eu operei. Eu tinha na época, acho que 26, 27 anos. Eu fiquei como líder da equipe _______________ de carga; a gente acionava de madrugada o pessoal, a gente descarregava rebocador, e tinha que descer na cesta, ia lá, do rebocador, tirar material; pegava o pessoal prá receber baretinha na bentonita; todos os produtos que iam prá plataforma, nós que recebíamos.
P – Rebocador o que é?
R – É aqueles barcos grandes que levam materiais prá plataforma.
P – E depois veio prá Área de Suprimentos...
R – Depois vim prá Área de Suprimento e...
P – Quando você entrou lá, o que você começou a fazer, ali na área de suprimentos?
R – Eu entrei recebendo materiais, conferindo, dando entrada em materiais no estoque, retirando... esse tipo de coisa.
P – Eram materiais diferentes dos que usam hoje?
R – Mais ou menos... mudou bastante, assim, alguma coisa; alguns materiais mudaram, né? E outros continuam ainda sendo utilizados; na maioria ainda continua.
P – E como era a equipe, era grande?
R – Não, era muito pequena a equipe. Eu lembro bem, que na época a gente vinha na combi prá cá, prá Emboacica, a gente trabalhava aqui; aí depois, alguns anos passados, hoje vem um ônibus... aí... hoje tem uma porção de ônibus, deve ter umas dez linhas de ônibus hoje, que vem prá cá prá trazer só funcionário da Petrobrás, né? Antigamente vinha na combi...
P – E como era aqui o parque... cê trabalhava nesse parque?
R – Trabalhava aqui onde nós estamos, aqui; nesse prédio aqui, né? É... aqui era estaleiro de tubos; tinha às vezes empilhadeiras, ficavam agarradas aqui; guindaste... carretas... A gente tinha que tá rebocando, puxando com outra carreta, tirando com empilhadeira, uma rebocando a outra; aqui era muito barro, tudo no barro, né? Muita lama, essas coisas... A gente ficava aqui até de madrugada... trabalhando...
P – Agarrada, cê diz, é na lama?
R – Na lama, é...
P – E prá tirar isso?
R – Aí rebocava com outro. Então empurrava, e tal, e dava um recurso, né?
P – Cê lembra alguma história daquele período? Com os amigos, alguma coisa... que você viveu, assim, e te marcou naquele período?
R – É, assim... nesse período que eu trabalho, eu fiquei oito anos trabalhando, na Área de Alienação, que é a sucata. E... a gente... tem uma formação; e a formação que os meus pais me deram foi, acima de tudo, ter honestidade, né? E sabe que tem coisas, assim... pessoas que acham que dinheiro compra tudo. Aí... o cara tentou me comprar uma vez e eu... falei com ele: se ele tentasse outra vez, que ele não entraria na área mais... que eu ia entregar ele prá segurança e tal... E, a observação disso aí, é que na época eu não tinha uma bicicleta pra andar e ele me ofereceu um carro, outras coisas, e a gente com a honestidade da gente, ou que a gente aprendeu, né, a gente consegue passar por essas coisas aí com muita facilidade.
P – Outra coisa, que cê viveu naquele período, que cê lembre?
R – O que eu acho é que, naquela época, nós tínhamos mais liberdade pra trabalhar... Hoje, um exemplo que eu dou, é que nós podíamos tomar decisões, e a gente tomava, e a gente conseguia fazer acontecer nossas tarefas; e hoje a gente depende muito de... um exemplo que eu dou é o técnico de segurança, todas as firmas têm técnico de segurança, aí o cara diz que isso não pode ser feito por procedimentos, aquilo não pode ser feito, impactando os serviços, né, as tarefas da empresa. Isso aí é uma coisa que eu acho que é uma coisa que tem que ser revista, muito... procedimentos que estão escritos aí prá não impactar o trabalho da empresa.
P – E qual é a sua rotina de trabalho hoje, o que você faz aqui?
R – Hoje eu tô trabalhando no turno. A gente recebe material...
P – O que é turno?
R – ...e a escala nossa é o seguinte: a gente trabalha dois dias de meia-noite às oito, dois dias de oito às 16 e dois dias de 16 à zero hora; e folgamos quatro dias. E a gente recebe materiais, despacha... dá entrada, esse tipo de coisa assim.
P – E como é a equipe agora? – porque agora é grande, né, você disse.
R – É uma equipe... hoje no turno são seis Petrobrás; seis contratados, auxiliares; dois digitadores; ahn... guindasteiro; dois empilhadeiras; e um carreteiro.
P – Como é essa coisa dos contratados? Porque quando você começou eram mais concursados, assim como você, contratados pela Petrobrás, né? E quando começaram a entrar essas pessoas de outras empresas, como foi o relacionamento?
R – Nenhuma dificuldade. É... o contratado é um funcionário terceirizado que trabalha conosco ajudando, normalmente, nos serviços gerais; essas coisas; ajudando nas tarefas que nós sozinhos não temos condições de executar.
P – E o que mais te marcou em todos esses anos aqui na Empresa? De toda essa experiência – porque são quase 25 anos de Empresa, né? – o que você lembra de forte, de desafiante, nesse período todo?
R – Tem muita coisa que a gente lembra, né? Mas, uma das coisas que eu acho que marcou mais... deixa eu ver o que é que foi, tanta coisa... (risos) agora eu fiquei perdido, um pouco...
P – Vocês faziam brincadeiras na equipe, assim, que você lembre?
R – Eu sou uma pessoa que não sou muito de brincar não... Eu brinco, assim, mas eu sou um pouco sério às vezes, viu? Mas... tem alguns colegas que brincam, então... Mas eu não gosto muito não, de brincar na hora do serviço.
P – O que é ser petroleiro prá você?
R – Prá mim... eu adoro. Acho que hoje eu sou uma pessoa realizada; a Empresa é uma coisa muito importante na minha vida; eu tenho, assim, uma honra muito grande de trabalhar na Petrobrás. É uma coisa que significa, pra mim, muito; minha família e a Empresa são as coisas que estão mais importantes na minha vida hoje, entendeu? E quando eu entrei na Empresa, meus filhos – eu tenho quatro filhos, sendo três meus e um que eu crio, que hoje tá com oito anos; e meu filho mais velho hoje tá com 28 anos, já está também trabalhando na Empresa; tá há quatro anos na Empresa...
P – Onde é que ele trabalha aqui?
R – Ele trabalha embarcando.
P – E como tem sido prá ele essa experiência?
R – Ele tá se adaptando bem; ele gosta, é muito esforçado; a gente tem procurado fazer o melhor possível lá; que eu tenho procurado orientá-lo, na medida do possível, a gente conversa muito; e... se dedicar, que a Empresa quer o melhor dele, né? Que eu acho que é muito importante. Mas ele tá gostando muito da Empresa também.
P – Então agora você é um pai de um embarcado, né? E como é a sensação, de ter um filho que vai prá lá, ficar 14 dias embarcado?
R – É muito gratificante pra mim, como eu falei, ter meu filho na empresa que eu trabalho e... hoje a pessoa trabalhar numa empresa igual a Petrobrás é uma honra muito grande; acho que a maioria dos brasileiros gostaria de tá numa empresa igual a Petrobrás, no porte da Petrobrás hoje, né?
P – O que você achou dessa iniciativa, de colher depoimentos dos trabalhadores prá compor a história da Bacia de Campos?
R – Eu achei muito interessante; eu acho que é uma coisa que... ter detalhes e coisas que podem ser até aproveitados prá melhorar muita coisa na vida dos funcionários.
P – Tem alguma coisa que você gostaria de dizer, que pelas perguntas eu não consegui tirar? (risos)
R – Eu gostaria de dizer que eu tenho muita satisfação de estar nessa Empresa; só que é isso o que eu acho: eu acho que essa parte de segurança, acho que isso aí a gente teria que fazer uma revisão nessas normas, nesses procedimentos; que eu tenho percebido que tem muitos procedimentos aí, que hoje está sendo interpretados pelas empresas que nos prestam serviço, que tão aproveitando certas brechas para não fazer certas missões – solicitações que a gente faz de trabalho – amparados por muitas normas que existem aí. Isso aí já aconteceu comigo, assim, várias vezes; e é uma reclamação que eu tenho, uma coisa que eu gostaria muito que fosse feito o mais breve possível, isso aí, que é uma coisa que eu tenho sentido que tem atrapalhado bastante nosso trabalho.
P – É por que é uma coisa recente, né, esse contato com essas prestadoras de serviços?
R – Não... sempre existiu; só que hoje, acho que, com esse negócio de SMS, que é muito viável, tem um lado positivo , mas tem que ver o que as pessoas trazem, o que a gente traz de proveito e o que não traz , entendeu? Porque tem muita coisa que é bom; e outras coisas, as pessoas se aproveitam das brechas prá... entendeu? Um exemplo, de um detalhe, que eu vou te dar: eu solicitei uma movimentação de um material de dentro dum equipamento; teria que arrastar esse material, colocar uma cinta, puxar esse material, pra pegar com a empilhadeira. O operador não pode fazer a operação por que nós mesmos arranjamos uma norma que “não poderia arrastar material”; mas esse arrastar que a gente fala, é arrastar num trecho grande, pelo meio da rua; mas puxar um pouco, para facilitar a pega, isso aí é outra coisa, entendeu? As pessoas dentro disso aí, aproveitam prá num trabalhar; e a Empresa paga a esses equipamentos prá trabalhar, prá fazer o melhor possível para a Empresa; está sendo pago ali 24 horas; se houvesse algum risco, nós que temos bastante experiência aí, seriamos os primeiros a não deixar que fosse feita a movimentação, entendeu?
P – Nos anos 80 se respeitava mais as normas, cê acha?
R – Eu acho que as coisas eram feitas com mais determinação; nós fazíamos as coisas pensando na Empresa, né? E nós determinávamos o que poderia ser feito; a última palavra, éramos nós que éramos responsáveis que íamos responder pelas conseqüências do trabalho; se desse certo ou errado, “eu estou comandando a operação”, não chegaria um inspetor de segurança da firma contratada e dizer que eu não poderia fazer a operação; que, a maioria, são técnicos de segurança recém formados, que vêm sem experiência para a área; a gente procura passar pra eles o conhecimento, a experiência da gente. Mas nisso aí, eles não vieram com o intuito de fazer com que não aconteça o acidente. As empresas – no meu ponto de vista - colocam os técnicos na área, e eles protegendo sempre a empresa deles. Então, a Petrobrás tá pagando um cara, que o cara tá fazendo com que as coisas não aconteçam, entendeu? E a gente fica impotente perante essas coisas.
P – Entendi. Muito obrigado, viu, Eli?
FINAL DA ENTREVISTA
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