Projeto: Vidas em Cordel
Entrevista de Leonardo Bastião
Entrevistado por Jonas Samaúma
Entrevista nº: PCSH_HV1499
Realização Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1 - Mestre, eu queria pedir para o senhor começar falando um verso seu, qualquer verso.
R – Mas para falar qualquer verso, se eu falo que não lembro, fica até ruim. E fiz muitos versos, mas eu esqueci. Não lembro quase nada. Quando uma pessoa sabe, diz tal verso, assim, assim… Aí, eu vou e me lembro do resto, aí digo.
P1 - O do Juazeiro.
R – Mas se é de começar um verso, aí esquecer. Aí, fica… Perde.
P1 - É verdade.
R - Quando perde um pedaço, que começa, perde tudo.
P1 - O da água de coco.
R - Tudo que o homem estudou para a natureza foi pouco.
Ele não faz um coqueiro e se inventar fica louco,
caçando a encanação que leva a água do chão para botar dentro do coco.
P1 - O do juazeiro?
R - Juazeiro é uma planta que resiste à terra enxuta.
A fruta não vale nada e a madeira é torta e bruta.
Mas a vantagem da sombra e a ruindade da fruta.
P1 – O da saudade?
R - Nunca plantei saudade, mas tem saudade sobrando.
Que a caçamba da saudade passa desacelerando e sem tirar a que eu tenho, despeja a que vai levando.
P1 – Do Juazeiro?
R - Eu disse.
P1 - Já disse Juazeiro, né?
P1 - Mestre, eu queria perguntar assim, como foi, aonde o senhor nasceu, como foi que o senhor se criou assim, as primeiras coisas que você lembra de criança?
R - Eu nasci ali numa casinha da ponte pra lá, trabalhando na roça, uma época muito ruim. E trabalhando na roça e trabalhando na humildade. Eu comecei a trabalhar mesmo, no pesado, com sete anos de idade, no mato, plantando. E todo serviço da roça eu fiz. Meu pai era muito pobre, minha mãe também, não tinha nada. E nós se criamos assim, eram seis pessoas na casa e se criou assim. Um sofrimento danado. Pra você criar seis pessoas com um só trabalhando, para sustentar, que era meu pai, mas trabalhando no alugado. Foi uma vida...
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Entrevista de Leonardo Bastião
Entrevistado por Jonas Samaúma
Entrevista nº: PCSH_HV1499
Realização Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
P1 - Mestre, eu queria pedir para o senhor começar falando um verso seu, qualquer verso.
R – Mas para falar qualquer verso, se eu falo que não lembro, fica até ruim. E fiz muitos versos, mas eu esqueci. Não lembro quase nada. Quando uma pessoa sabe, diz tal verso, assim, assim… Aí, eu vou e me lembro do resto, aí digo.
P1 - O do Juazeiro.
R – Mas se é de começar um verso, aí esquecer. Aí, fica… Perde.
P1 - É verdade.
R - Quando perde um pedaço, que começa, perde tudo.
P1 - O da água de coco.
R - Tudo que o homem estudou para a natureza foi pouco.
Ele não faz um coqueiro e se inventar fica louco,
caçando a encanação que leva a água do chão para botar dentro do coco.
P1 - O do juazeiro?
R - Juazeiro é uma planta que resiste à terra enxuta.
A fruta não vale nada e a madeira é torta e bruta.
Mas a vantagem da sombra e a ruindade da fruta.
P1 – O da saudade?
R - Nunca plantei saudade, mas tem saudade sobrando.
Que a caçamba da saudade passa desacelerando e sem tirar a que eu tenho, despeja a que vai levando.
P1 – Do Juazeiro?
R - Eu disse.
P1 - Já disse Juazeiro, né?
P1 - Mestre, eu queria perguntar assim, como foi, aonde o senhor nasceu, como foi que o senhor se criou assim, as primeiras coisas que você lembra de criança?
R - Eu nasci ali numa casinha da ponte pra lá, trabalhando na roça, uma época muito ruim. E trabalhando na roça e trabalhando na humildade. Eu comecei a trabalhar mesmo, no pesado, com sete anos de idade, no mato, plantando. E todo serviço da roça eu fiz. Meu pai era muito pobre, minha mãe também, não tinha nada. E nós se criamos assim, eram seis pessoas na casa e se criou assim. Um sofrimento danado. Pra você criar seis pessoas com um só trabalhando, para sustentar, que era meu pai, mas trabalhando no alugado. Foi uma vida ruim danada. E assim foi a minha vida, até certos dias. E meu pai era poeta, o meu avô também era poeta. Meus tios também, tem cantor de viola, era poeta. E aí, eu brincando, fazia versos no roçado. Tudo que eu via fazia um verso, tudo que eu via, dava uma poesia. Eu fui fazendo verso. Decora versos. Comecei a fazer versos com oito anos, por aí. Com oito anos, aí com dez anos eu já estava com as cantorias aí. Aí o povo sabia que eu fazia versos, aí inventava tudo para eu dizer verso e até cantar, mesmo sem saber. Foi assim. Nunca deixei de fazer, estou meio parado agora, mas nunca deixei de fazer. Eu fiz muito verso, andei um bocado aí, mas a coisa não deu certo, aí eu achei melhor ficar parado.
P1 - Andava tocando?
R – Não. Recitando pelo cantos. Muitos cantos eu andei por aí. Mas não deu certo, aí eu parei, está com uns dois anos, mais ou menos. Dois anos, mais ou menos. É difícil eu fazer um verso, e quando faço, eu esqueço. Ainda vem gente por aqui, de vez em quando chega um bocado, me recita. Um dia desses veio uma pessoa aqui, um cabra aqui, que recitou mais de cem versos meu. O rapaz, ele sabe mais de cem, e eu não sei nem dez.
P2 - Não anotou, não escreveu?
R - Não, eu não escrevo. Nam mando ninguém escrever. Eu não uso isso aí. Não sei para onde vai, eu não quero usar.
P1 - Você lembra de algum verso do seu avô?
R - Não. Nem lembro do meu avô e nem do meu pai, que eu sou ruim para decorar demais. E nunca gostei de decorar versos de cantador, assim. Eu não gosto de decorar, não, viu! Nem de decorar verso e nem de fazer verso para depois eu dizer a mesma coisa em outro canto.
P2 – Se o senhor puder fazer um verso agora, senhor faria?
R - Agora mesmo é difícil.
P2 – Mas o senhor…
R – Decorar essas coisas dos outros é difícil. Pra mim é. Eu vou arrumar uma cantoria todinha, mas não sai um verso decorado. Porque é rápido demais, não dá pra decorar, não.
P2 - E o povo recitava assim, que horas? Era na hora que estava trabalhando na roça ou era à noite em casa?
R - Era toda hora, todo dia.
P1 - Toda hora do dia falando poesia?
R – Antigamente toda hora, muita gente fazia. Quando encontrava um cabra no meio que sabia fazer versos, a gente fazia. Saia um tico de glosa, que eles chamam. Glosar, faz uma, faz outra. Era assim. Para fazer só mesmo não é bom não.
P1 - Quem que eram os poetas aqui, quando você era criança, adolescente, que você via, esses poetas mais velhos que você lembra?
R – Eu lembro de poucos. Lembro de Zé Catota, Valdo, Ivaldo Batista... Um bocado deles. Das cantorias daquele tempo. Verso é uma coisa que até quem faz verso não sabe como faz. De onde é que vem, como é que é. Eu não gosto de decorar, porque tem cabra que decora e faz falar. Falar que eles chamam aqui… Tem uma cabeça boa, decora uma cantoria todinha. Pode mesmo fazer os versos, que dê umas duas horas, chega num canto assim, que nunca foi, aí despeja aquilo.
P1 – Você lembra de algum verso que você criou na roça?
R – Na roça e em casa, me lembro de muitos versos. Um cabra chegou lá um dia, pra gravar, um jumento amarrado, e uma carroça lá e um cachorro. Só era o que eu tinha. Aí o cabra chegou lá e disse: ó Leonardo, tu nasceste na rua ou foi na roça? Eu digo: se você chegar num rancho da Mão Grossa, e encontrar um vira-lata, um jegue e uma carroça, não precisa perguntar se o cabra nasceu na roça. Um jumento numa roça faz tudo que precisar. É tanto que ele fugindo, o dono vai procurar. Se achar, perde a viagem, pior é se não achar. Essa resposta eu dava quando perguntava. Porque o cabra chega, quando vê essas coisas, uma casinha, e o cabra pergunta se________. A resposta é desse jeito. E outros que eu fiz assim, andando assim e olhando para a minha sombra. Eu disse: a sombra que me acompanha não é a que me socorre. Se eu andar, ela anda, e se eu correr, ela corre. E é mais feliz do que eu, nem adoece, nem morre. Aí… Se eu nasci numa casinha, numa pobreza danada, minha mãe não tinha nada e meu pai também não tinha. Lutou a vida todinha, morreu e não conseguiu. E o suor que ele instruiu, ficou naquele lugar. Que a sorte nunca foi lá e nem a pobreza saiu. Aí, eu vinha pela rua, debaixo de um pontilhão, tinha um menino chorando. Aí, eu começo as histórias de gente morando debaixo da ponte, é uns caras que vinham e se arrancharam lá, mas não tinha costume com isso. Tinha um menino chorando. Eu olhei assim, um menino chorando debaixo da ponte. Cheguei lá era um homem, uma mulher e um menino. Um menino pequeno. Aí, isso dá um verso. Vi um menino chorando debaixo de um pontilhão, fui saber da decisão, era um pessoal morando. E uma criança mamando sem achar leite no peito e ainda estava sujeito a morar debaixo da ponte. E eu só vejo o que eu vi ontem, porque não posso dar jeito. Tem muitos versos que eu fiz.
P1 – Já fez verso para namorar?
R – Namorar, não. Eu fiz um verso uma vez… Só fiz um, porque eu nunca gostei de fazer verso de roedeira. Nunca gostei disso, não. Mas fiz um assim, roendo, por uma pessoa. Eu fiz um verso e disse: a mulher que eu mais queria, toda noite eu esperava, e toda vez que ela tratava, se desculpava e não ia. No vão que a cachaça faz, eu perdi tudo na vida. E até dá fé que a bebida é coisa do satanás. E jurei pra Deus, nunca mais vou inventar de beber. E já hoje eu posso dizer que estou livre em qualquer canto, que é a força do Espírito Santo não deixo de agradecer. Esses versos, assim. Aí, estava mata um dia, aí ia caçar, aí vinha um preá correndo no mato, na beira, assim. Um preá correndo e um gato atrás. Eu fiquei olhando. O gato pega, mas não pega. Entrou debaixo da mata, na beira. Aí, quando entrou, o gato ainda ficou pelejando, pelejando, mas não tinha mais jeito. Aí, eu disse: parece até ser mentira que eu vi um preá no mato correndo na frente de um gato e entrar numa mata livre. E dá dó do gato não tira, quando a caçada é perdida. E no meio daquela corrida, eu fiz a minha piada, que não serve pra nada, mas ainda serve uma vida. Esses versos assim, que eu dizia. Quem não sabe ler, mas na roça, no mato, vivendo no mato, ele vê muita coisa e faz versos assim, dessas coisas. Eu disse: peguei uma coruja na intenção de matar ela. Olhei a beleza dela e soltei ela para produzir. Na hora deu para eu sentir que a decisão foi honesta. Matar os bichos não presta. Que além de ser malvadeza, está destruindo a beleza que Deus deixou na floresta.
P1 - Você já fez algum para pássaro? Para algum pássaro?
R – Já também. Um dia eu fui caçar na serra, não achei nada, não tinha nada. Mas tinha muito carcaça de bicho que já tinha morrido na seca. Aí eu disse: fui para a serra caçar, não achei nada. Onde tinha mocó, não tem nenhum. Eu vi dois papo-seco e uma mãe e uma cobra coragem rodeada. Quando foi, eu pisava numa ossada e desisti de caçar para não ver osso. Meu cachorro latino, fino e grosso, eu fui olhar para saber, dizendo o fim, era ele acuado com sangue, carregando um filhote no pescoço. Coisa que o cabra vê e é aquela realidade. De morte mesmo, eu nunca fiz um verso. Mas pode ver que os versos que eu faço e de besteira, mas eu começo e termino. E quando o cabra me dá um mote, eu posso fazer um verso. Mas já não acho bom, porque no verso já tem um pedaço feito. O mote é uma ajuda. Ajuda porque tem um pedaço feito e mostra o caminho do verso. Os meus versos é tudo solto, assim. Doidice.
P1 - Você tem algum verso sobre a poesia, sobre ser poeta?
R - Tenho um bocado de versos assim. Porque para o cabra se lembrar assim… Fiz um verso com 10 anos de idade, que até estava anotado ali no grupo, para fazer outra coisa. Nesse tempo eu glosava, como eu disse, fazia um verso, rabiscava sem viola e fazia cantoria também. Mas eu não ia gravar o que eu fazia. Com 10 anos eu já sabia o que era verso e rima, e me criei pisando em cima da terra da poesia, fiz glosa e fiz cantoria, glosei pouco e cantei ruim. Porque esse lugar é assim, para fazer versos adoidados, basta ser batizado na matriz ________.
P1 - O Zé de Cazuza, ele estava comentando que até eu queria ver se é isso mesmo. Que falaram que São José do Egito é o berço da poesia, Itapetim é o ventre. Como é que é isso? Você já ouviu isso?
R - Isso é eles que inventaram aí. Mas os versos eu não sei não. Eu não fiz isso aí.
P1 - Mas aqui tinha muito poeta, em Itapetim?
R - É. Chama o ventre da poesia. Itapetim, São José é a capital. E os poetas que cantaram em São José, tudo nasceu aqui.
P1 - Quem são os poetas daqui de Itapetim que você admira, que você gosta de escutar?
R – Os que eu admirava… Esses que têm agora são bons. Mas eu admirava daqui, Jô, Patriota, Lourival, que é daqui. Esses assim. E tudo já morreram. Dimas, eu não conheci Dimas. Dimas e Otacílio, também não conheci. Só Lourival, que ele cantava aqui na rua quase todas as semanas. Mas todo poeta eu admiro. Se o cabra não fizer bom, mas a vontade é de fazer bom. A vontade é de fazer bom. Quando o cabra só de se sentar, mas um cabra bem... que tem muita fama, bem sabido, é uma coragem da moléstia. Não tenho, não. Eu não tenho coragem de ir num ambiente de 100 pessoas, não tenho coragem de subir num palco para conversar no microfone. Não tenho essa… Eu fui criado mesmo no mato. Eu sou mesmo do mato. Aí, eu fui chamado para a Fátima Bernardes. Me chamaram para um bocado de canto, não tive coragem. Mas começou a pandemia, aí parou isso. Mas fui chamado, convidado. Falou: vem aqui. Diz que trazia um avião. “Não, eu não ando de avião, não.” Não gosto de avião, não. Eu não dou uma galinha num avião, negócio ruim. “Mas tem carro, a gente entra num carro e vem trazer você na hora que você quiser, nós vem te trazer.” Digo: não, não vou não, não gosto de viajar não. Não gosto de viajar não, eu só andei por aqui mesmo. Mas fui chamado lá para a Fátima Bernardes.
P1 - E como foi essa história do seu livro? Saiu um livro seu, não foi?
R - Foi um livro meu. Foi um cabra de Passos que fez. Ficou olhando os versos, olhando os versos. E disse: não, rapaz, olha aqui, texto maneiro desse cabra. _______ Paraíba. Aí, fez o livro. Eu nem sabia que ele estava fazendo. Aí fez o livro, vieram trazer aqui. Eu nunca vi esse homem. Ele nunca veio aqui. Ele morreu e eu não conhecia ele. Ele fez 900 livros e mandou. Foi um estouro danado, vendeu. Demorou um pouquinho, modo a pandemia, mas acabou-se tudo. O povo pede para fazer mais. Mas não vou mais fazer isso, não. Na internet tem versos que dá para fazer dois livros. Mas para tirar isso, vai dar um trabalho da moléstia. E os mesmos versos que estão no livro eu não quero botar, porque se tem para fazer outras coisas sem ser repetido. Mas fazer não, já estou muito velho.
P1 -Você fez algum verso sobre a velhice?
R - Faço e esqueço. Sou um cabra esquecido. De toda qualidade eu fiz versos, toda qualidade eu fiz, mas esqueço.
P1 - E tem alguma história que aconteceu contigo, alguma coisa, assim, diferente, que aí você transformou em verso?
R - Ah, uma história que eu fiz e que eu me lembro de dois versos, mais ou menos, da casinha de meu pai quando caiu. Uma casinha caiu e eu ainda me lembro de dois versos, por aí. Vou fazer um verso. Essa casa que eu nasci nela, dei os meus primeiros passos, quem sofreu para fazer ela, me carregava nos braços. Hoje, sem mãe e sem pai, que a casa depois que caiu, vira passado e se encerra, e cada torrão daqueles tem lágrimas dos olhos deles que misturou com a terra. Chorei quando vi caindo o que pai fez com trabalho, até porque tinha sido o meu primeiro agasalho. Foi ali onde eu nasci, onde eu chorei e sorri. Meus pais choravam também, tantos sonhos desmoronados e tanto suor derramado, sem servir mais para ninguém. Aquela casa pequena onde eu vivi minha infância, caiu apagando a cena e matando a minha esperança. Aqueles cacos de telhas virou morada de abelhas, marimbondos e inchume.
Perdi o verso, olha o que eu digo. Perdendo a memória…
P1 - Pode repetir?
R - Aquela casa pequena onde eu vivi minha infância, caiu apagando a cena e matando a minha esperança. Aqueles cacos de telhas virou morada de abelhas, marimbondos e inchume. E aquelas terras mexidas, são testemunhas de vida que se acabou por ali.
E ainda vai para frente uns dois ou três, eu esqueci. E na vida, assim, eu fiz um bocado de verso comigo mesmo. Um verso desse. Eu não estando preparado para uma coisa, é difícil.
P2 - Já falou um monte de coisas.
R - Ninguém queira ser mais do que ninguém. Se tiver um começo de riqueza, que a fatura que sobra em sua mesa está faltando para um povo que não tem. Pense mais em Jesus e faça o bem que a mudança da vida a morte faz. E pra que serve os seus bens materiais, se a cova só cabe mesmo a gente e nesse mundo nós somos diferentes, mas debaixo da terra são todos iguais. O pouco que Deus me deu, pra mim foi suficiente, que eu olhei pra trás e vi gente muito pior do que eu. Gente que adoeceu, ficou cego e alejado. E foi bom eu ter reparado para não me queixar da sorte. Que meu futuro é a morte, e daqui só leva o pecado.
P1 – O senhor chegou a casar?
R – Casei. Teve ainda cinco, quatro filhos e morreu um. Criou duas fêmeas e um menino. Mora aqui, dois. E uma morreu com 57 anos. Aí, com 50... Cinco meses depois que a minha filha morreu, a minha mulher morreu. Ficou impressionada e só andava chorando com o terço na mão. Aí, morreu também. Aí, eu fiquei aí. Ainda passei um ano lá na casa do meu filho. Passei um ano lá, mas o meu negócio, eu sou um cabra que gosta de estar onde eu quiser, num sabe? Estou aqui, aí daqui a pouco, se eu quiser, eu vou lá para o sítio. Chega lá, ninguém está mandando em mim. Se eu disser: vou para São José, vou para uma cidade aí. Pego um carro, uma moto, que eu não ando mais nisso, mas pego. Aí vou. Sem ninguém está pegando no meu pé. Eu sou um velho meio enjoado, sabe? Pra estar em casa de filho, a Nora não é... A Nora não é que nem o filho, entende? Aí, eu não quero. Passei um ano lá e ele achou muito ruim quando eu vim pra cá. Mas vem aqui todo dia, todo dia ele vem aqui. Aí, já faz uns sete anos que estou aqui. Sozinho aqui. Chega alguém, tem aquele banco da delegacia ali, me sento ali, um pouco mais chega gente, um pouco mais tem vinte pessoas, vinte cinco, eu já vou sair.
P1 - Você fez algum verso sobre esse casamento, sobre a família?
R - Não, não fiz, porque eu fui muito feliz de casamento. Nesse tempo, eu vivia trabalhando demais. E poesia é o tempo que o cabra está…. Se concentrar em uma coisa. “Hoje eu vou fazer dez versos.” E saí em mente da rua. Saí da rua, e tum! Ficar por lá. Aí a mente melhora, num sabe? E rua é barulho, não tem nada. E rua… Eu só admiro as coisas da natureza. Eu só sou focado em coisas que Deus fez. Tudo que Deus fez para mim é uma coisa, uma beleza. Essas coisas que fizeram por aí, é muito estudo, muita sabedoria, mas… Eu acho bom olhar uma árvore, um passarinho, um animal. Ver a árvore florir, botar fruto. Aí, nesses cantos, assim, eu tenho uma energia muito boa. Fico muito bem quando tem essas coisas. Admiro tudo.
P1 - Qual uma árvore que você fez um verso sobre árvores?
R - Fiz um bocado de árvores. Fiz um dia, sai daqui… Esse tempo eu andava com uma moto. É porque eu levei um acidente pequeno, mas eu deixei de andar. Peguei a moto e dei para o meu filho. Tinha outra, deixei tudo para lá. Não guardei. Eu nunca mais pego nisso. Faz uns cinco anos. Mas cheguei lá no sítio, que eu ia de madrugada, eu vi uns bichinhos lá. Aí tinha uma coruja em cima da porteira. Uma coruja. O povo diz que coruja é feia. Mas eu não achei ela feia. Ficou parada e eu fiquei olhando para ela um pouquinho. Digo: vou fazer um verso com essa coruja. Esse verso o povo gostou muito. Eu disse: hoje eu vi uma coruja… Não, eu disse: Ontem eu vi uma coruja em cima de uma cancela, passei uns 30 segundos olhando a feiura dela. E quando me olhei no espelho, era mais feio do que ela. Não é feia, né? Povo estava achando o troço feio, se si olhar, “não.” Essas conversinhas. Eu fiz com passarinho. Um bocado de verso.
P1 – Fala do de passarinho?
R - Eu fiz tudo. De verso eu fiz tudo. Na internet tem tantos versos meus jogados, que dá para fazer dois livros. E eu não sei mais. Não escrevi e nem gravei.
P1 – Sobre o Sertão, o Senhor já fez um sobre o Sertão?
R - Sobre o quê?
P1 - O Sertão.
R - Não
P1 - E sobre os cantados, sobre a viola?
R - Fiz como o diabo, mas isso aí esqueci. Não foi gravado. Naquele tempo que eu fazia, não tinha nem rádio. Estou querendo me lembrar e não me lembro. Perdido.
P1 - Do trabalho mesmo, como agricultor da enxada, tem alguma verso sobre esse trabalho que você tinha?
R – Fiz também.
O diabo, sem força, cavando o chão, plantando milho, feijão, jerimum, maxixe e quiabo.
Minha escola, foi o cabo de uma enxada jacaré.
Foi, não foi, cortava o pé.
Mas não tinha outra saída.
E sem morrer, perdi a vida e somente agora deixei.
A vida foi perdida, só envolvido nisso. Eu fiz muito, é porque eu estou esquecido.
P1 - Sobre o mato, você lembra de mais algum? Sobre andar no mato? Que você fez andando no mato?
R - Me lembro, não. Eu fiz um verso no ano de 1970. Eu fiz um verso que estava lá muito ruim, uma época ruim, não tinha nada, uma seca danada aqui. E eu peguei uma espingarda e saí para ver se matava um preá, um punaré, para misturar o feijão. Aí, quando eu cheguei, antes do dia amanhecer, toda loca que eu chegava, tinha um gato, e cobra. Primeiro que eu. Sai cedinho, estava com muito fome também. Aí eu saía com o outro serrote, a mesma coisa. Não tem jeito, não. Disse: em 70 eu saí caçando. Toda boca de loca já tinha um gato à mesma caça esperando. E eu saí lamentando, só tem punaré e rato. E se quiser andar no mato, tem que ser na noite, para se livrar da espingarda, menos da boca do gato.
É uma coisa... Vem na mente assim, mas passa por longe… Quero me lembrar do que eu fiz com aquela serra por lá, mas…
P1 - A sombra que me acompanha não é a que me socorre. Se eu andar, ela anda. Se eu correr, ela corre. Mas ela é mais feliz do que eu.
R - É mais feliz do que eu. Não adoece e nem morre
P1 - Ouvindo esse mestre, eu amanheço e depois eu tardo. Ele é rápido como um raio, ligeiro como um guepardo. Cheguei em Itapetim pra conhecer o mestre Leonardo. O mestre Leonardo, ele canta como um cancão, a sua própria poesia é o despertar de uma canção que honra conhecer aqui e ir embora. E levar a saudade embora do mestre Leonardo Bastião.
Ah, tá realmente...
Recolher
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