Dois Oceanos, um Só Destino
Duas travessias
Há histórias que só existem porque, muito antes de nascerem, dois oceanos diferentes foram atravessados.
De um lado, um casal japonês deixava as províncias de Nagano e Tottori rumo a um Brasil que mal conhecia. Do outro lado do mundo, um jovem espanhol chamado José Pérez partia de Valencia rumo à Argentina e depois ao Brasil, enquanto uma menina de seis anos, Antonia Navarro Virués, nascida em Cádiz, cruzava o mesmo oceano com a própria família — também para trabalhar nas fazendas de café do interior paulista. As duas famílias nunca souberam, naquele início do século vinte, que suas travessias um dia se encontrariam num único destino: os netos que ainda estavam por vir.
Do lado japonês, Shoji Akabane, em Irapuru, casou-se com Massue Kato — que, ao se casar, passou a assinar Massue Akabane. Juntos tiveram oito filhos, entre eles Mário Kenji. Do lado espanhol, José Pérez e Antonia Navarro fugiram de madrugada de uma fazenda de café que não lhes pagava o combinado, recomeçaram do zero no mato, enfrentaram prisão injusta, perda e prosperidade, e criaram onze filhos em São Paulo — entre eles Miguel Peres Biruel (a grafia do sobrenome mudou nos cartórios da vida), que teria uma filha chamada Elisabeth. Duas sagas de imigrantes, de lados opostos do planeta, caminhando, sem saber, uma ao encontro da outra.
Elisabeth Peres Biruel é neta de José Pérez e Antonia Navarro Virués (em alguns documentos grafada Virnes) e bisneta, por parte de José, do coronel Juan Pérez, que jamais deixou a Espanha. José chegou ao Brasil aos dezenove anos; Antonia, ainda criança, desembarcou no porto de Santos por volta de 1906. A família mudou-se depois para São Paulo, morou no porão da casa dos avós Navarro no Brás e, aos poucos, reconstruiu a vida até conquistar, com orgulho, um endereço fixo na Casa Verde.
Miguel, um dos onze filhos do casal, casou-se com Dolores Augusta Oliveira —...
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Duas travessias
Há histórias que só existem porque, muito antes de nascerem, dois oceanos diferentes foram atravessados.
De um lado, um casal japonês deixava as províncias de Nagano e Tottori rumo a um Brasil que mal conhecia. Do outro lado do mundo, um jovem espanhol chamado José Pérez partia de Valencia rumo à Argentina e depois ao Brasil, enquanto uma menina de seis anos, Antonia Navarro Virués, nascida em Cádiz, cruzava o mesmo oceano com a própria família — também para trabalhar nas fazendas de café do interior paulista. As duas famílias nunca souberam, naquele início do século vinte, que suas travessias um dia se encontrariam num único destino: os netos que ainda estavam por vir.
Do lado japonês, Shoji Akabane, em Irapuru, casou-se com Massue Kato — que, ao se casar, passou a assinar Massue Akabane. Juntos tiveram oito filhos, entre eles Mário Kenji. Do lado espanhol, José Pérez e Antonia Navarro fugiram de madrugada de uma fazenda de café que não lhes pagava o combinado, recomeçaram do zero no mato, enfrentaram prisão injusta, perda e prosperidade, e criaram onze filhos em São Paulo — entre eles Miguel Peres Biruel (a grafia do sobrenome mudou nos cartórios da vida), que teria uma filha chamada Elisabeth. Duas sagas de imigrantes, de lados opostos do planeta, caminhando, sem saber, uma ao encontro da outra.
Elisabeth Peres Biruel é neta de José Pérez e Antonia Navarro Virués (em alguns documentos grafada Virnes) e bisneta, por parte de José, do coronel Juan Pérez, que jamais deixou a Espanha. José chegou ao Brasil aos dezenove anos; Antonia, ainda criança, desembarcou no porto de Santos por volta de 1906. A família mudou-se depois para São Paulo, morou no porão da casa dos avós Navarro no Brás e, aos poucos, reconstruiu a vida até conquistar, com orgulho, um endereço fixo na Casa Verde.
Miguel, um dos onze filhos do casal, casou-se com Dolores Augusta Oliveira — que assinaria Dolores Augusta Biruel, filha de Patrocina e Josapha Oliveira, ambos descendentes de indígenas com português e italiano — e teve cinco filhos, entre eles Elisabeth. Ela carregava consigo, sem talvez se dar conta, a herança de duas famílias que haviam cruzado oceanos diferentes para reconstruir a vida no mesmo país, na mesma cidade — e que, sem saber, estavam prestes a se tornar uma só.
Um retrato sereno
Mário Kenji Akabane é filho de Shoji e Massue, o quarto dos oito irmãos. Chegou a São Paulo em 1971, ainda jovem, trazendo consigo a discrição, o talento manual e a determinação herdados dos pais. Formou-se em Tecnologia pela FATEC, na Praça Coronel Fernando Prestes, no Bom Retiro — no mesmo prédio que abrigara antes a Escola Politécnica da USP. Anos depois cursou Bacharelado em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, complementou a formação com diversas especializações e chegou a iniciar, sem concluir, um mestrado na PUC-SP.
Foi professor de Desenho Industrial numa escola técnica próxima à FATEC — experiência que já revelava traços que o acompanhariam pela vida toda: facilidade para ensinar, precisão, criatividade e o prazer de transformar ideias em projetos concretos. Mais tarde tornou-se engenheiro da Ford, em São Bernardo do Campo, onde construiu uma carreira sólida, marcada por competência técnica e pela capacidade de resolver os desafios que surgiam.
Mário sempre teve uma relação especial com o fazer, o criar e o construir. Tinha grande habilidade para o desenho e uma caligrafia cuidadosa, traços de uma mente que estava constantemente projetando, imaginando possibilidades. As ferramentas exerciam sobre ele um verdadeiro fascínio — não como simples instrumentos de trabalho, mas como possibilidades. Era habilidoso com as mãos, mas antes delas trabalhava sua mente inquieta e criativa, capaz de visualizar aquilo que ainda não existia e de pensar nos caminhos para torná-lo realidade.
Esse espírito empreendedor também esteve presente em sua trajetória: paralelamente à Ford, abriu uma pequena marcenaria com o cunhado e os irmãos Diogo e Roberto.
Mas havia também nele um forte desejo de liberdade, e talvez nenhuma imagem o represente melhor do que a motocicleta. Pilotar significava mais do que se deslocar: era experimentar independência e aventura, o prazer de seguir adiante sem tantas amarras.
Assim conviviam nele o engenheiro e o artesão, o professor e o criador, o homem técnico e o imaginativo, o profissional responsável e o espírito livre — movido pela curiosidade e pela necessidade de criar, de entender como as coisas funcionavam e de imaginar como poderiam funcionar melhor.
De personalidade serena, quieta e observadora, era um homem de poucas palavras e muitos detalhes — o tipo de homem cuja atenção, quando enfim se voltava para alguém, dizia mais do que qualquer discurso.
Um retrato inquieto
Se Mário é o retrato da serenidade, Elisabeth sempre foi seu contraponto: uma mente que nunca se contentou em ficar parada. Curiosa desde cedo, foi essa mesma inquietação — a vontade de saber, de investigar, de ir atrás — que a levaria, ao longo da vida, a transitar por quase todas as áreas do conhecimento que cruzassem seu caminho, e que a faria correr para casa numa tarde de 1988 só para esperar uma campainha tocar.
1982 — Uma voz ao telefone
O Brasil do início dos anos 1980 vivia um tempo de transição. O regime militar, já em seus estertores, cedia terreno a uma abertura política lenta e vigiada, enquanto a economia mergulhava na crise que a história chamaria de "década perdida". Foi nesse cenário que duas famílias de bairro se cruzaram por acaso — como costuma acontecer com os encontros que depois parecem destino.
Elisabeth morava na Vila Amália, zona norte de São Paulo, e era vizinha e amiga inseparável de Paula Bezerra, filha de Dona Carlinda. As duas se visitavam quase todas as noites, e era comum o telefone tocar depois do jantar: do outro lado da linha, um professor de desenho industrial, Mário Kenji, que jamais havia visto Paula pessoalmente. Fora um aluno, o Zé, quem lhe passara o número, convencido de que o professor se apaixonaria pela garota só de ouvir sua voz. Paula atendia por gentileza — estava noiva de Beto, um rapaz ciumento, e não queria confusão.
Numa dessas noites, foi Elisabeth quem atendeu ao telefone. Ouviu a voz do outro lado e perguntou, curiosa, para a amiga: "ele é japonês?". Paula nem sabia responder — nunca tinha visto o rapaz. Combinaram um encontro na casa de Dona Carlinda, com Elisabeth por perto para que Paula não tivesse problemas com o namorado. Mário apareceu, e o encontro que deveria ser sobre Paula terminou por revelar outra coisa: seu interesse recaiu sobre Elisabeth, ainda que a diferença de idade fosse grande — ela com dezessete anos, ele com vinte e oito. Saíram em trio algumas vezes, conversas soltas de fim de noite. Depois, como acontece na juventude, a vida os separou.
Nos anos seguintes, cada um seguiu seu rumo. Em 1986, Elisabeth trabalhava no banco Itaú, na avenida Angélica, e cursava História na PUC-SP — universidade que, naqueles anos de repressão ainda recente, era símbolo de resistência intelectual. Mário, engenheiro na Ford, vivia o auge de um dos capítulos mais importantes da história operária brasileira no ABC paulista. Foi nesse momento de vida estável que ele deu a Elisabeth um cartão com seu contato. Ela o guardou — mas nunca teve coragem de ligar.
1988 — O reencontro
Seis anos se passaram até que o destino insistisse outra vez. Mário seguia na Ford e, com o cunhado e os irmãos, mantinha a pequena marcenaria. Da bancada sobrava serragem todos os dias, e foi pensando nela que se lembrou de Toninho, irmão mais velho de Paula, que trabalhava no Jóquei Clube de São Paulo: aquele resto de madeira, sem valor na marcenaria, podia interessar aos estábulos do hipódromo. Foi essa lembrança prática que o fez subir na motocicleta numa noite de 1988 e atravessar a cidade inteira — da rua Maracá, no Jabaquara, até a Vila Amália — em busca da casa de Dona Carlinda.
Paula já não morava mais ali; havia se casado, e não com Beto. Dona Carlinda recebeu Mário com alegria e, à pergunta dele sobre Elisabeth, respondeu que a jovem seguia solteira. Naquele exato momento, Elisabeth voltava do shopping com a irmã, Dolores. Ao avistar a moto estacionada, virou-se e disse, com uma certeza que nem ela sabia de onde vinha: "ele vai vir aqui". Correu para casa, se arrumou, passou perfume e batom, e esperou a campainha tocar.
Depois de seis anos, reencontraram-se, e não faltou assunto. Combinaram, para o fim de semana seguinte, uma viagem a Mogi das Cruzes, ao sítio de uma amiga em comum, Neusinha. Foi um fim de semana de conversas e risadas, e foi ali, entre a estrada e o mato da Grande São Paulo, que Mário teve a certeza silenciosa de estar diante do amor de sua vida.
Naquela fase, Elisabeth trabalhava no Jornal Folha de São Paulo e havia trancado o curso de História para se aventurar pela informática, então ainda incipiente no Brasil. Não eram namorados — eram, antes de tudo, bons amigos que conversavam ao telefone com frequência — até que, um dia, ele ligou para ela na redação e a convidou para jantar.
Foram para o bairro da Liberdade, coração da imigração japonesa em São Paulo. Mário escolheu o Taizan, tradicional restaurante fundado em 1970 na Rua Galvão Bueno. Pediu prato após prato para que Elisabeth experimentasse a culinária japonesa pela primeira vez — o mesmo universo de sabores que, sem que ela ainda soubesse, estava prestes a se tornar também o seu. Foi ao sair do restaurante, naquela noite, que veio o primeiro beijo entre os dois: um beijo que selou, sem precisar de palavras, que dali em diante seriam um casal.
Um incentivo decisivo
Foi por essa época que Mário percebeu que Elisabeth havia interrompido a faculdade de História, deixando uma dívida na PUC-SP havia cerca de um ano, e ainda buscava seu caminho profissional. Sem lhe contar nada, foi até a universidade e quitou a dívida. Depois propôs que ela retomasse os estudos e concluísse a graduação — mais do que um gesto financeiro, um gesto de confiança na certeza de que ela poderia seguir em frente.
Esse incentivo se tornaria uma marca da relação dos dois. Mário pagou seu curso de inglês e reforçava sempre a importância de nunca parar de aprender — mesmo quando, mais tarde, Elisabeth se tornou mãe e passou a conciliar estudos e maternidade. Quando ela decidiu iniciar uma nova faculdade, ele cuidava dos filhos pequenos, preparava o jantar e os colocava para dormir. E, nos anos em que o trabalho a levou a viajar com frequência, era ele quem assumia os cuidados com as crianças, dando-lhe a tranquilidade para crescer profissionalmente. Seu apoio não estava só nas palavras: estava nas atitudes do dia a dia.
Uma casa, um nome
Depois daquele beijo, Mário e Elisabeth nunca mais se separaram. O namoro, que começara quase por acaso entre uma marcenaria e uma redação de jornal, ganhou depressa o peso de uma decisão: em 1989 resolveram morar juntos. Mário alugou uma casa na rua Oiticicas, na Vila Guarani, e ali começaram a construir o primeiro lar do casal.
Era um Brasil em transformação. Depois de vinte e um anos de regime militar, o país havia acabado de eleger seu primeiro presidente pelo voto direto — a primeira eleição popular desde 1960 —, num tempo de esperança vigiada por uma inflação que corroía salários mês a mês. O casal mobiliou a casa aos poucos, peça por peça; Elisabeth, que seguia na Folha de São Paulo, ao lado do tradicional Mappin, foi quem cuidou de comprar os primeiros utensílios de cozinha — a louça, as panelas, os pequenos objetos que transformam um imóvel alugado numa casa de verdade.
Foi em janeiro de 1990, logo depois da posse do novo presidente e das medidas que confiscariam a poupança de milhões de brasileiros da noite para o dia, que Elisabeth engravidou da primeira filha. Nenhum nome parecia certo, até que, numa visita à casa de Neusinha — dona de um comércio de autopeças chamado Kato, na avenida Jabaquara —, o casal conheceu uma menininha doce de quatro anos, sobrinha de Neusinha. Chamava-se Heloísa. Mário e Elisabeth se entreolharam e não precisaram trocar uma palavra: ali estava o nome da primogênita que ainda estava por vir.
A primogênita
Heloísa veio ao mundo em 30 de outubro de 1990, depois de quarenta semanas de espera, num parto cesariana. Nasceu saudável e linda, pesando 3.400 gramas e medindo 51,5 centímetros — números que Mário e Elisabeth guardariam para sempre, como quem guarda a certidão de um milagre miúdo. Com ela chegou também um tipo novo de silêncio à casa da rua Oiticicas: o silêncio atento de quem, pela primeira vez, aprende a ouvir a respiração de outra pessoa dormindo no cômodo ao lado.
Se Shoji e Massue haviam atravessado o oceano para dar aos filhos uma vida que eles próprios não puderam ter, e se José Pérez e Antonia haviam fugido de madrugada para plantar, com as próprias mãos, um futuro diferente para os seus, agora era a vez de Mário e Elisabeth começarem a escrever, com o nascimento de Heloísa, o primeiro capítulo de uma terceira geração — uma menina que carregaria no sangue as duas travessias, os dois oceanos, os dois sobrenomes que um dia pareciam pertencer a mundos que jamais se encontrariam.
Os primeiros anos em família
Quando Heloísa estava com quatro meses, a família mudou-se para um apartamento alugado na Rua Guatatuba, 51, pertencente a uma amiga de Neusinha que vivia no Japão. Ali permaneceram cerca de dois anos e quatro meses. Foi nesse período que nasceu Thomas — e, poucos meses depois, quando ele tinha quatro meses, Mário e Elisabeth compraram o apartamento da família, na Rua Guatapará, 215, cenário de uma etapa especial da infância dos dois irmãos.
Mário continuava na Ford; Elisabeth dedicava-se intensamente aos cuidados e à educação das crianças. Levava-as aos parques, fazia das visitas à biblioteca parte da rotina, e ler histórias antes de dormir era um ritual de todas as noites — um momento de proximidade que, aos poucos, despertava nos dois o interesse pelas palavras e pelo conhecimento.
Os finais de semana tinham seus próprios rituais: muitas vezes, churrasco no Clube da Ford; em outros, o destino era o Recanto Juriti, em São Roque — lugar de significado ainda mais antigo para o casal, pois fora ali que fizeram sua primeira viagem juntos, ainda namorados, em 31 de julho de 1988. Anos depois, voltar ali com os filhos dava um novo significado àquela lembrança. Havia cavalos, cachorrinhos da raça paulistinha, cachoeira, riacho para pescar, piscina natural e boa comida — programas simples, cercados de convivência e natureza.
A preocupação com a educação apareceu cedo. Heloísa começou a frequentar a escola aos dois anos e meio, para atividades lúdicas e socialização, e já demonstrava facilidade impressionante para aprender: sabia contar, reconhecia os números e tinha um vocabulário que chamava atenção pela pouca idade. Thomas seguiu o mesmo caminho pouco depois; desde pequeno adorava desenhar e tinha habilidade com as mãos — algo que lembrava o talento do pai — e era uma criança gentil, traço que se destacava no jeito de se relacionar com as pessoas.
Os dois estudaram na Escola Tia Tere, cuja proposta incorporava princípios da Seicho-No-Ie; as professoras, entre elas tia Antônia e Tieko, são lembradas com carinho até hoje.
A rotina tinha seus pequenos gestos: Mário, ao voltar do trabalho no fim da tarde, passava pelo mercado e trazia frutas e alguma coisa gostosa para os filhos — um gesto simples, mas também uma forma silenciosa de dizer que, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, eles estavam em seus pensamentos no caminho de casa.
Assim, a infância de Heloísa e Thomas foi sendo construída não pelos grandes acontecimentos, mas pela repetição desses pequenos rituais: as histórias antes de dormir, os livros da biblioteca, as brincadeiras nos parques, a escola, as frutas trazidas pelo pai, os churrascos de fim de semana, os animais do Recanto Juriti, a pescaria no riacho. Para Mário e Elisabeth, educar era, antes de tudo, estar presentes.
A educação como escolha e compromisso
Quando Heloísa completou cinco anos, deixou a Tia Tere e ingressou no Colégio CETEC, no Jabaquara. Thomas permaneceu por mais algum tempo na antiga escola, mas Elisabeth decidiu matriculá-lo no CETEC aos três anos — e os irmãos voltaram a estudar juntos.
A infância dos dois foi marcada por uma rotina intensa: além da escola, ambos estudavam inglês, praticavam natação e tinham contato com música; Heloísa fazia balé, Thomas jogava futebol. Para Elisabeth, cada atividade tinha um propósito — o esporte ensinava disciplina e perseverança, a música estimulava a sensibilidade, o inglês ampliava possibilidades para o futuro. Por trás dessa agenda havia uma mãe que organizava horários, compromissos e cursos, enquanto Mário mantinha sua intensa rotina na Ford.
Com o tempo, as diferenças de personalidade entre os irmãos ficaram mais evidentes. Heloísa, com a mesma inquietude da mãe, curiosa e aberta a mudanças, deixou o CETEC ao chegar ao Ensino Médio e ingressou no Colégio Etapa, na Rua Vergueiro. Thomas tinha outra relação com as mudanças: preferia permanecer no ambiente que já conhecia, e a ideia de trocar de escola não o agradou de início. Elisabeth, porém, insistiu — convicta de que, se uma oportunidade fora oferecida a um filho, o outro deveria ter acesso a ela também. Essa preocupação com a igualdade de oportunidades — não tratá-los como iguais em personalidade, mas garantir que partissem da mesma base de possibilidades — tornou-se um princípio importante na criação dos dois.
Viagens em família
Para Mário e Elisabeth, viajar era também uma forma de educar, ampliar horizontes e construir memórias. Nos Estados Unidos conheceram a Disney — experiência marcante para as crianças — e viveram a atmosfera de Nova York, caminhando pelo Central Park e visitando o Museum of Natural History. Conheceram também o Chile, Valparaíso e Viña del Mar, foram a Buenos Aires e percorreram Minas Gerais e Paraná. Mas foi Santa Catarina que conquistou um espaço à parte na história da família.
Ao longo dos anos, percorreram grande parte do litoral catarinense, e Ibiraquera, em Imbituba, tornou-se um dos lugares mais importantes para todos. A região reúne mar, lagoa, dunas e Mata Atlântica, próxima à Praia do Luz e à Praia do Rosa; a Lagoa de Ibiraquera, de águas mais tranquilas, contrasta com o mar aberto e os ventos que atraem os esportes náuticos. A identificação foi tão grande que Mário e Elisabeth chegaram a comprar dois lotes à beira da praia — talvez porque, para alguém que sempre teve sede de liberdade, estradas e viagens, possuir um pedaço de terra diante do mar significasse mais do que investimento: espaço, natureza, horizonte.
Em outra temporada, a família passou cerca de trinta dias no litoral norte catarinense, na Praia da Barra, a uns 36 quilômetros de Joinville — dias prolongados que transformavam as viagens em verdadeiros capítulos da história familiar.
A Disney, Nova York, Buenos Aires, Santiago, Valparaíso, Viña del Mar, Minas Gerais, Paraná e tantos quilômetros de litoral catarinense formaram uma espécie de mapa afetivo da família. Mas Ibiraquera parece ter ocupado nele um lugar diferente: não apenas um destino de férias, mas um lugar para o qual todos sempre desejavam voltar.
O amor nas pequenas coisas
Não era uma família perfeita — talvez nenhuma seja. Houve desafios, diferenças, cansaço, dificuldades e imperfeições próprias de qualquer história construída ao longo de tantos anos. Mas o amor, o compromisso e o desejo de cuidar uns dos outros foram marcas constantes dessa jornada.
Mário demonstrava muito de seu afeto através das experiências que proporcionava aos filhos, e tinha prazer especial em levá-los ao bairro da Liberdade, aproximando-os da cultura e da culinária japonesa. Essa influência estava presente também dentro de casa: tofu, missoshiru, algas marinhas, furikake, arroz japonês e anchova grelhada apareciam com frequência à mesa e se tornaram sabores familiares para as crianças desde cedo. Havia algo de Mário em cada um desses hábitos — no cuidado de escolher os alimentos, no prazer de apresentar um sabor aos filhos, na satisfação de vê-los compartilhar aquilo de que ele próprio gostava.
Talvez sejam justamente essas pequenas cenas do cotidiano — uma tigela de missoshiru, o cheiro da anchova grelhada, o furikake espalhado sobre o arroz, os passeios pela Liberdade — que melhor revelem quem somos dentro de uma família. Não foi uma história de perfeição, mas de presença: houve escolhas certas e outras que talvez hoje fossem feitas de outro modo, houve alegrias, dificuldades e aprendizados — mas existiu um fio condutor que permaneceu do início ao fim: o compromisso com a família.
Heloísa Virnes Akabane — a herdeira das palavras
A primogênita de Mário e Elisabeth cresceu com a mesma inquietação intelectual da mãe, mas encontrou seu próprio idioma para expressá-la: o das palavras, dos signos, dos sentidos escondidos por trás da linguagem. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo e, ainda na graduação, participou de iniciação científica sobre "o estado de exceção como regra na modernidade" e de um projeto ligado ao PIBID, voltado à gestão de registros escolares no ensino fundamental.
Foi no cruzamento entre Direito e linguagem que encontrou seu verdadeiro campo. Em 2020 defendeu, na Faculdade de Direito da USP, a dissertação de mestrado "Direito e Narratividade: a Semiótica de Bernard Jackson", orientada pelo professor Ari Marcelo Solon — um mergulho na semiótica jurídica, o estudo de como o Direito também é, antes de tudo, uma forma de narrar e dar sentido ao mundo. Chegou a apresentar trabalhos sobre a análise estrutural dos Arcanos Maiores do Tarô de Marselha, prova de uma curiosidade sem fronteiras entre o acadêmico e o simbólico.
Entre 2020 e 2023 cursou doutorado em Linguística no programa PHILéPOL da Université Paris Cité, na França — repetindo, sem talvez perceber, o movimento inverso das travessias que haviam trazido seus bisavós ao Brasil décadas antes. Hoje integra o corpo editorial internacional do International Journal for the Semiotics of Law, ao lado de pesquisadores de Ottawa, Coimbra e Hong Kong: a menina que herdara o nome de uma desconhecida de quatro anos, na casa de Neusinha, tornou-se ela própria uma voz respeitada no diálogo entre o Direito, a linguagem e o mundo.
Thomas Kenji Akabane — o herdeiro da terra
Se Heloísa seguiu o caminho das palavras, Thomas seguiu o caminho da terra — literalmente. Formou-se em Geologia pela USP em 2016, concluiu o mestrado em 2019 e o doutorado em Geociências (Geoquímica e Geotectônica) em 2024, pelo Instituto de Geociências da mesma universidade.
Sua pesquisa mergulha no passado climático do planeta: usando técnicas como palinologia (estudo de pólen fóssil) e microcarvão, investiga como a vegetação amazônica e os regimes de incêndio responderam a oscilações climáticas ao longo de milênios — um trabalho que ajuda a entender como a floresta pode reagir às mudanças climáticas atuais. Sua pesquisa de doutorado, orientada pelos professores Paulo Eduardo de Oliveira e Cristiano Mazur Chiessi, contou com financiamento da FAPESP e o levou a colaborar com o laboratório de Environnements et Paléoenvironnements Océaniques et Continentaux da Université de Bordeaux — assim como a irmã, também ele cruzou o oceano atrás de conhecimento. Hoje segue como pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Geociências da USP, com trabalhos sobre a dinâmica da vegetação neotropical e os pontos de inflexão climática da Amazônia já citados mais de cem vezes por outros pesquisadores.
Novos caminhos, o mesmo vínculo
O tempo passou. Mário e Elisabeth se aposentaram, e a fase marcada pela rotina intensa de trabalho, escolas, cursos e filhos pequenos foi, aos poucos, dando lugar a um novo tempo. Heloísa e Thomas cresceram, construíram suas vidas, casaram-se e trouxeram para a família Ana e Theo — que chegaram não apenas para acompanhar suas histórias, mas para somar à história de todos.
É essa mesma inquietação — a que fez Elisabeth atender ao telefone em 1982 só para perguntar "ele é japonês?" — que acompanharia, décadas depois, quase todas as áreas do conhecimento por onde ela passou. Formou-se bacharel em História pela PUC-SP em 1990, o mesmo ano em que nasceu Heloísa, com licenciatura também em Geografia. Tornou-se Bacharel em Biblioteconomia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo em 2004 e, em 2008, concluiu o Mestrado em Ensino em Ciências da Saúde pela UNIFESP, abrindo caminho para uma carreira dedicada à educação na área da saúde. Especializou-se em Design Educacional pelo SENAC-SP em 2016 e, mostrando que a curiosidade também sabia acompanhar seu tempo, fez um MBA em Design de Produto Digital pela TERA em 2023. Hoje é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Radiologia da UNIFESP — mais um capítulo de uma trajetória que nunca soube ficar parada.
Ao longo do caminho, foi bibliotecária da BIREME/OPAS/OMS, trabalhou como professora, bibliotecária e designer instrucional na Organização Pan-Americana da Saúde e hoje é mentora de Metodologia Científica na Faculdade Paulista de Ciências da Saúde e em cursos de especialização da UNIFESP — os mesmos cursos de Medicina Esportiva, Nutrologia, Psicologia do Esporte, Traumatologia e Enfermagem em que segue dando aulas. Desde 2015 colabora com o Comitê Científico da Associação Portuguesa de Documentação e Informação em Saúde, em Lisboa, e já publicou artigos sobre temas tão diversos quanto saúde indígena, espondilite anquilosante, dietas de emergência e saúde da mulher — um mosaico de interesses que só uma curiosidade genuína poderia sustentar.
Hoje, Mário e Elisabeth vivem em Cotia, enquanto os filhos constroem suas vidas longe do Brasil, entre Paris e Bremen. A distância é grande, mas talvez seja também a expressão mais concreta daquilo que os dois desejaram oferecer desde o princípio: condições para que Heloísa e Thomas pudessem crescer, conhecer o mundo e ter liberdade para construir suas próprias histórias. Durante a infância, os pais fazem de tudo para que os filhos criem raízes fortes; depois descobrem que essas mesmas raízes precisam ser suficientemente seguras para permitir que eles criem asas.
Cotia, Paris e Bremen são hoje pontos diferentes de um mesmo mapa afetivo. A família já não compartilha diariamente a mesma casa ou a mesma mesa, mas permanece ligada por algo que a distância não desfaz.
Porque uma família não termina quando os filhos saem de casa. Ela apenas muda de forma — e aquela história que começou com Mário e Elisabeth continua viajando pelo mundo, sendo transformada e enriquecida por cada pessoa que chega, por cada escolha feita e por cada novo caminho percorrido.
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