DE PASTOR A OVELHA
Há vida após a Obra Adventista
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, e não homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Francisco Otaviano
Sumário
Prefácio
Minibiografia
Minha História com a Igreja Adventista do Sétimo Dia — 1975 a 1984
Chamado à Colportagem — 1986
Aluno Industriário no Novo IAE — 1987
Chamado ao Ministério Pastoral — 1988
Aluno do Salt no Velho IAE — 1989
Bacharéu em Teologia — 1992
Primeiro Chamado: São José dos Campos — 1993
Segundo Chamado: Rio de Janeiro — 1994
Demissão e entrega da credencial — 1996
A Década Perdida — 1996 a 2006
Formatura em Letras — 2005
Concurso para Professores PEB II — 2006
Retorno a São José dos Campos — 2023
Considerações finais
ANEXOS
1. Advertências de Ellen G. White quanto a possibilidade de Deus desqualificar e rejeitar o povo do advento
2. O Sistema Pastoral Adventista
3. Quanto ganha um pastor adventista?
APÊNDICES
1. Recibo da Indenização
2. Demonstrativo de pagamento da Indenização
3. Testemunho da secretária da igreja central do último Distrito
Prefácio
A Igreja Adventista do Sétimo Dia defende elevados ideais de vida e conduta, porém, é lamentável e triste ouvir que “a Igreja nunca erra”, que os erros sempre são atribuídos aos membros e ex-obreiros demitidos, mas nunca à Igreja como Instituição.
Este livro foi escrito por um membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia e ex-pastor adventista do sétimo dia, mas expressa o pensamento de vários fiéis e obreiros que não podem ou não querem se manifestar publicamente, por medo de represálias ou por receio de também serem demitidos, perderem o emprego na Obra Adventista e de suas famílias ficarem financeiramente desamparadas. Por essas e por outras razões, nenhum nome...
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Há vida após a Obra Adventista
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, e não homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Francisco Otaviano
Sumário
Prefácio
Minibiografia
Minha História com a Igreja Adventista do Sétimo Dia — 1975 a 1984
Chamado à Colportagem — 1986
Aluno Industriário no Novo IAE — 1987
Chamado ao Ministério Pastoral — 1988
Aluno do Salt no Velho IAE — 1989
Bacharéu em Teologia — 1992
Primeiro Chamado: São José dos Campos — 1993
Segundo Chamado: Rio de Janeiro — 1994
Demissão e entrega da credencial — 1996
A Década Perdida — 1996 a 2006
Formatura em Letras — 2005
Concurso para Professores PEB II — 2006
Retorno a São José dos Campos — 2023
Considerações finais
ANEXOS
1. Advertências de Ellen G. White quanto a possibilidade de Deus desqualificar e rejeitar o povo do advento
2. O Sistema Pastoral Adventista
3. Quanto ganha um pastor adventista?
APÊNDICES
1. Recibo da Indenização
2. Demonstrativo de pagamento da Indenização
3. Testemunho da secretária da igreja central do último Distrito
Prefácio
A Igreja Adventista do Sétimo Dia defende elevados ideais de vida e conduta, porém, é lamentável e triste ouvir que “a Igreja nunca erra”, que os erros sempre são atribuídos aos membros e ex-obreiros demitidos, mas nunca à Igreja como Instituição.
Este livro foi escrito por um membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia e ex-pastor adventista do sétimo dia, mas expressa o pensamento de vários fiéis e obreiros que não podem ou não querem se manifestar publicamente, por medo de represálias ou por receio de também serem demitidos, perderem o emprego na Obra Adventista e de suas famílias ficarem financeiramente desamparadas. Por essas e por outras razões, nenhum nome verdadeiro será citado.
A presente obra aborda elementos da história e da trajetória do autor, desde seu chamamento ao ministério pastoral, no final dos anos 1980, até sua expulsão do corpo ministerial, em 23 de julho de 1996. Apresenta algumas reflexões históricas para o contexto e algumas observações críticas sobre questões internas da Igreja, sem assumir, entretanto, uma postura dissidente.
O objetivo do autor em escrever este livro não foi o de gerar polêmicas e “falar mal da Igreja porque levou um pé no traseiro”. Esta obra não foi escrita “por inveja dos ex-colegas de ministério”, e muito menos porque “você não foi chamado por Deus, se o fosse, nada disso teria acontecido”, ou, “Deus rejeitou o seu ministério como rejeitou o reinado de Saul”, ou, “Você teve a sua chance, agora, se vira”; essas frases ouvidas pelo autor nos anos que sucederam sua exoneração, deixaram de afetá-lo há algum tempo.
O livro pode ser considerado um desabafo pessoal de uma ovelha muda após décadas de silêncio dentro do aprisco, e foi concebido com um duplo propósito: 1. ajudar de alguma forma àqueles que passaram ou passarão pela mesma experiência de demissão da Obra Adventista sem justa causa, ou seja, por política, apadrinhamento, nepotismo, arrogância e injustiça dos administradores ou qualquer outro motivo torpe; 2. para que todos se lembrem de que a vida deve continuar, independente da vontade, dos interesses e dos desígnios dos administradores da Obra Adventista.
Como muitos são chamados e poucos escolhidos, após três anos (que passaram tão rápido quanto o voo de um anjo), seu ministério pastoral chegou precocemente ao fim, em 1996. Desde então, foi arrastado ao ostracismo ministerial, foi esquecido pelos “amigos”, e só o que resta daquele tempo são lembranças... Não ficou rico nem famoso, então, os ex-colegas de ministério daquela época nem se lembram que o autor existe ou que já existiu algum dia (ou fingem que não se lembram dele). Verdadeiramente, agora o autor é para todos um homem invisível, porém, LIVRE.
Minibiografia
Nascido em São João de Meriti, RJ, em 1965, Valnei Nascimento da Silva foi batizado na Igreja Adventista do Sétimo Dia a primeira vez em 1975 e a segunda em 1984. Ingressou no SALT IAE-SP em 1989, graduando-se em 1992, na última turma que se formou naquele Campus. As turmas seguintes passaram a se formar no Campus recém construído em Engenheiro Coelho, famoso Novo IAE, onde também foi aluno industriário pioneiro em 1987.
Serviu por um ano (1993) como obreiro bíblico em São José dos Campos, SP no primeiro semestre, e no bairro Cidade de Deus, em Jacarepaguá, RJ no segundo semestre. Depois dois anos (1994 e 1995) no distrito pastoral de Bangu, na zona Oeste do Rio, e três meses no distrito pastoral de Três Rios, na região Serrana de Petrópolis, onde foi demitido.
Minha História com a Igreja Adventista do Sétimo Dia
1975 a 1984
Por influência da minha mãe, Conceição Victorino do Nascimento, fui batizado a primeira vez na igreja adventista em 1975, com dez anos de idade. Mas eu era muito criança e com o passar do tempo acabei me afastando da igreja.
Em 1984, assisti ao filme Karatê Kid e fiquei bastante empolgado. Entrei em uma academia de Kung Fu, estilo Tai Chi Chuan e treinei durante seis meses. Quando já estava quase ficando bom, irmão Dálton, um ancião da igreja adventista que passei a frequentar em Éden, bairro da Baixada Fluminense, como um oráculo iluminado pela forte luz da verdade, me disse:
Sua força não deve vir dos seus punhos, mas de Deus.
Aquela frase foi um verdadeiro balde de água gelada em minhas pretensões marciais.
No dia 04 de agosto desse ano (1984), por influência do Clube de Desbravadores, o pastor Graciano Gomes Júnior me rebatizou na Igreja Adventista do Sétimo Dia de Éden, na Baixada Fluminense, após nove anos de afastamento dessa denominação. Eu me lembro frequentemente desse tempo e dos irmãos e irmãs da igrejinha de Éden, onde o pastor Graciano me rebatizou. Lembro dos jovens amigos, as primeiras amizades, as primeiras paqueras, os primeiros sermões, os trabalhos missionários de sábado à tarde, os almoços nas casas dos irmãos, as vigílias, as santas ceias etc.
Em 1984 eu tinha 19 anos, era apenas um menino inocente e bobo, que sonhava em ser pastor e batizar os pais e os filhos quando os tivesse. Poucos anos depois, eu realizaria esse meu sonho de ir para o Colégio interno adventista e estudar Teologia, mas mal sabia eu que jamais batizaria meus pais e minhas filhas.
Cresci em plena Guerra Fria e, à medida que os anos foram passando, minha geração foi sendo de certa forma dominada por uma sensação de medo, misturada ao sentimento de impotência, pois vivíamos sob a iminência de uma hecatombe nuclear a qualquer momento. Bastava que um militar nervosinho, ou revoltado, ou descuidado, ou bêbado, ou drogado, ou insatisfeito com o soldo, ou distraído, ou trapalhão como o Mister Bean, apertasse o botão vermelho. Ou então, algum vilão tipo cientista louco, ou psicopata, ou gênio sombrio com uma risada diabólica no fim de suas frases, ou algum inimigo do Batman, ou algum inimigo do 007, ou ainda, algum tipo de Fred Kruger, ou Jason, ou Hannibal Lecter, ou Jigsaw dos Jogos Mortais, ou as bruxas dos contos de fadas, ou as Bruxas de Salém, ou a Bruxa de Blair, ou Voldemort Você Sabe Quem com o ego inflado aparecesse querendo dominar o mundo.
Nas Igrejas Adventistas do Sétimo Dia da Baixada Fluminense, assistíamos a sermões e palestras sobre o iminente fim do mundo e íamos a cultos e vigílias onde estudávamos as profecias dos livros de Daniel e Apocalipse, com o objetivo de entendermos se os acontecimentos preditos neles estavam literalmente se cumprindo em nossos dias e alguns realmente se cumpriram. Estudávamos a escatologia para não cairmos no mesmo erro dos primeiros adventistas mileritas que, sob a liderança de Guilherme Müller, marcaram erroneamente a data da segunda vinda de Jesus Cristo à Terra para 22 de outubro de 1844, o que patentemente não aconteceu. As duas superpotências de então, Estados Unidos (USA) e União Soviética (URSS), com seus dois líderes nada carismáticos (Reagan e Gorbachev) possuíam ogivas nucleares capazes de destruir todos os planetas do nosso sistema solar.
Alguns documentários e filmes contribuíam para alimentar esse clima de tensão. Dois deles foram The Day After (O Dia Seguinte, 1983) e Testament (Herança Nuclear, 1983), que descreviam os horrores e consequências de uma detonação nuclear por uma das partes envolvidas, ou muito provavelmente por ambas. E, também, de certa forma, Planet of the Apes (Planeta dos Macacos, 1968).
Chamado à Colportagem
1986
Em 1985, por influência da minha mãe, comecei a trabalhar como contínuo (office boy) em uma agência de propagandas, a Norton Publicidade S.A. Um dia, precisaram de um boy para levar uma encomenda até a filial da Norton Publicidade em Belo Horizonte. Como não acharam ninguém disponível na hora, é claro, sobrou para mim. Apesar do curto tempo em que fiquei naquela cidade (uma tarde), a organização, a limpeza, a educação do povo e o jeito de interior, me chamaram a atenção e me impressionaram muito positivamente. A experiência germinou em mim o desejo e sonho de um dia viver longe da cidade grande e de finalmente sair da Baixada Fluminense (sonho esse que eu realizaria pouco tempo depois, só que não sabia disso, ainda). Foi a primeira vez que saí do Rio de Janeiro (e que andei de avião), desde então, voltei a morar no Rio, mas sempre com o sonho de ir morar no interior.
No primeiro semestre de 1986, como José na casa de Potifar, devo ter me destacado de alguma forma, porque a secretária e esposa de um dos diretores da Norton precisava de um assistente e me convidou a trabalhar com eles. A empresa me pagou um curso de datilografia e eu estava indo bem na nova função. Entretanto, como o trabalho e as reponsabilidades aumentaram (e muito), mas o salário mínimo continuava o mesmo, passei a trabalhar ali descontente e insatisfeito. Tinha hora para pegar, mas não tinha hora para largar. A marmita pesava e o trem da linha Japeri-Central andava sempre lotado. Era praticamente impossível viajar sentado os cinquenta minutos de Nova Iguaçu, onde estávamos morando, até a estação Central do Brasil, onde eu pegava o metrô até Botafogo, onde ficava a agência da Norton Publicidade, na época.
Consequentemente, embora jovem, eu estava começando a parecer um idoso cansado. Tinha duas horas de almoço e logo arrumei um cantinho escondido para tirar uma soneca depois da marmita, ao invés de ir jogar bola na praia de Botafogo, como eu já havia feito algumas vezes. Eu trabalhava na zona sul do Rio e estudava o segundo ano do Segundo Grau à noite na Baixada Fluminense, mas naquelas condições, devido à distância, ao desgaste físico e aos gastos, parar de estudar foi inevitável.
Mesmo assim, suportei aquela situação por dois anos. Então, decidi dar um basta na música do Magazine (Sou Boy) e pedir demissão da Norton Publicidade S.A.
Eu havia ficado noivo a primeira vez. Comecei a comprar as coisas para o meu casamento e não podia ficar desempregado por muito tempo. Foi aí que, ainda em 1986, decidi ir trabalhar como autônomo na Colportagem como colportor efetivo. Vendi muitos exemplares dos livros Vida de Jesus, de Ellen G. White, Nutrição Orientada e os Remédios da Natureza, de Durval Stockler de Lima, A Cura e a Saúde Pelos Alimentos, do Dr. Ernest Schneider, e vendi também muitas revistas Vida e Saúde e revistas Decisão.
A equipe de colportores efetivos com quem eu iria trabalhar pagava o aluguel de uma casa que ficava em Queimados, município da Baixada Fluminense, longe de Nova Iguaçu, onde eu morava com meus pais e meus irmãos. Comecei a pagar o aluguel e ficava na equipe, às vezes, quase a semana inteira, em campanha, voltando à casa dos meus pais nos fins de semana. Foi a primeira vez que fiquei fora de casa por tanto tempo.
Mais ou menos nessa época, se não me falham as memórias, conheci pessoalmente em um bairro pobre e perigoso da Baixada Fluminense chamado "Bacia", o famoso e amado pastor adventista Roberto Rabelo, uma lenda viva na época. Dez anos depois, em 16 de agosto de 1996, ele morreria em Curitiba, aos 87 anos de idade. Pastor Roberto Rabelo e pastor Graciano Gomes Júnior provavelmente não se conheceram, mas ambos exerceram sobre mim (e sobre outros jovens adventistas da época) forte influência teológica e foram meus modelos de incentivo para ir estudar Teologia no IAE-SP.
No fim de 1986, com a influência desses pastores, embalado e empolgado pelo recente retorno à igreja adventista, senti um forte desejo e uma profunda e sincera vontade de ir estudar Teologia em São Paulo, para servir a Deus através do ministério pastoral adventista do sétimo dia. Mas para isso, seria necessário terminar o noivado, pois a noiva não desejava ir para São Paulo e não desajava que eu fosse. E foi o que fiz, terminando o noivado. Já havia comprado algumas coisas para o casamento e precisei dar ou vender tudo a preço de banana.
Em dezembro de 1986, saí da equipe de colportores efetivos e juntei-me a uma equipe de colportores estudantes, em Guadalupe, no Rio, equipe que depois se mudou e ficou instalada em Campo Grande, zona Oeste, ambos bairros do subúrbio do Rio. Meu objetivo era ganhar dinheiro para ir terminar o Segundo Grau e estudar Teologia no colégio interno adventista.
Aos sábados, nossa equipe de colportores ajudava nos trabalhos espirituais das igrejas adventistas do sétimo dia locais, onde quase sempre algum irmão, irmã ou família nos convidava para almoçar em suas casas, após o término do culto de sábado pela manhã.
Aluno Industriário no Novo IAE
1987
Em 1987, o Novo Instituto Adventista de Ensino ficava na pequena cidade de Arthur Nogueira. Estava sendo construído na Fazenda Lagoa Bonita, onde havia milhares de pés de laranja e quem olhava de fora da fazenda parecia ter doze fontes de água e setenta palmeira. Havia ali dezenas de abacateiros e outras árvores frutíferas, era como uma terra que manava leite e mel. A fazenda Lagoa Bonita foi comprada pela IASD em 16 de setembro de 1983, indicada por Valdir Bartarin, onde situava-se uma humilde igrejinha que hoje é marco e patrimônio histórico da história recente do UNASP- EC [Universidade Adventista de São Paulo, campus Engenheiro Coelho, outrora Novo IAE de Arthur Nogueira], prova viva de uma história de grandes sonhos realizados. Essa singela igrejinha representa o desejo de grandes personalidades na busca por um espaço condizente com a filosofia adventista de educação.
Nas Revistas Adventistas da época, apareciam anúncios convocando jovens a aceitar o desafio de morar, estudar e trabalhar na construção do mais novo internato adventista no interior de São Paulo, o Novo IAE. Eu aceitei o desafio e fui, naquela minha força de jovem, para terminar o Segundo Grau supletivo Madureza, curso que à época era oferecido naquela infante instituição. Eu estava, então, com 22 anos.
Minhas peripécias no Novo IAE dariam um outro capítulo à parte. Os alunos pioneiros começaram a chegar lá entre 1985 e 1987. Em fevereiro de 87, quando cheguei, logo nas primeiras semanas percebi que, ao contrário de outros internatos adventistas, eram os funcionários do Novo IAE que faziam quase tudo na parte religiosa da igreja. Como alunos, éramos cerca de 120 rapazes e 30 moças, mas não tínhamos vez, nem voz para quase nada. Inclusive, houve um funcionário que chegou a dizer: “o Novo IAE era muito bom antes de chegarem os alunos” (ignorando que a razão de ser de toda e qualquer escola é exatamente o aluno).
Políticas à parte, quando cheguei Diretor Geral era o Pr. Walter Boger e Diretor Interno era o Pr. Arthur Dassow. Pr. Milton Reis era um dos administradores e o diretor do Primeiro e Segundo Graus era o Professor Elias Germanowics. Preceptor era o Robson Panaíno e monitor era o Gilberto Damasceno.
No primeiro semestre de 1987, estudei ali o Segundo Grau supletivo Madureza como aluno bolsista integral (que naquela época se chamava aluno industriário). Ao chegar, me enviaram direto para trabalhar no setor da construção, cujo encarregado era o seu Avelino. Durante a semana, eram cinco horas de trabalho na construção, de 7h às 12h, e cinco horas de aulas, de 13h às 18h, mas tinha aluno que "cozinhava galo" e só trabalhava uma ou duas horas no dia. A gente acabava tendo que fazer a nossa tarefa e as tarefas deles no trabalho. Aos domingos, feriados e férias, trabalhávamos dez horas na agricultura, de 7h às 18h, com uma hora de almoço. O chefe da Agricultura era o Ricardo. O sistema era rígido: quem deixasse pé de laranja sem capinar e não terminasse a tarefa dada, ficava devendo horas e teria que pagar essas horas em dinheiro, caso contrário, não receberia histórico escolar nem certificado de conclusão de curso. Os sábados eram livres para descanso e culto de adoração religiosa (com exceção de um sábado por mês, no qual trabalhávamos fazendo rodízio na cozinha ou na vacaria).
Para um jovem da cidade que havia sido garoto de escritório em uma agência de publicidade e que sempre fora franzino, não aguentando nem meio saco de cimento, aquele trabalho rural era um enorme desafio e eu era periodicamente ridicularizado por algum aluno ou funcionário, pois diziam que eu parecia um grilo falante. Embora tenha gostado de trabalhar na vacaria, achava o serviço na construção e na agricultura bastante pesado, mas nunca chupei tanta laranja e tangerina (mexerica, bergamota, poncã) na vida.
Wandir Pires de Araújo, professor no velho IAE de São Paulo, à época, foi pregar para nós em um sábado de manhã na igreja improvisada e nos falou durante o sermão sobre os empecilhos e dificuldades que apareceram na hora da compra da Fazenda Lagoa Bonita, em setembro de 1983, e o testemunho de paciência e fé dado pela comitiva aos vendedores, o que os fez decidir finalizar a venda à Igreja Adventista, pois em vista de todas as adversidades que surgiram na hora de formalizar o negócio, os membros da comitiva não xingavam nem reclamavam de nada. Enquanto ele falava, quase deixou-se ser tomado pela emoção, pois percebemos uma lágrima rolar em seu rosto. A maior necessidade do mundo é a de homens, homens que não se comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu verdadeiro nome; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus. Ellen G. White
Ser pioneiro no Novo IAE foi um privilégio e ao mesmo tempo um grande desafio. Por ter poucos alunos, a comida do refeitório ainda tinha sabor de comida. Não faltavam laranjas, nem vacas e touros enormes. Na cozinha havia uma panela industrial tão grande que era necessário entrarmos dentro dela para lavá-la. Mas o que mais nos marca e nos faz sentir falta do internato são as amizades e os cultos, especialmente os cultos de sexta-feira à noite.
Nas férias de julho 87 decidi ir colportar no Rio, na primeira equipe de colportores estudantes do Novo IAE. Lembro bem que o diretor geral precisou convencer alguns alunos a não irem colportar naquelas férias com a gente, pois se fossem, a mão de obra do colégio ficaria desfalcada naquele intervalo de aulas e o colégio ficaria quase vazio. Já no Rio, ficamos "hospedados" nas futuras instalações do CARJ (Colégio Adventista do Rio de Janeiro), na Travessa Dr. Araújo, Praça da Bandeira, que estava em construção e resolvi doar ali o valor de um saco de cimento como oferta de gratidão a Deus.
No fim daquelas férias de julho, com o dinheiro que ganhei colportando, voltei ao Novo IAE e fiquei como aluno regular (o aluno regular pagava o colégio 100% em dinheiro e não trabalhava no colégio, só estudava. Tinha as férias livres). Mas meu dinheiro foi acabando e passei a aluno semi-semi bolsista. Também não deu. Passei a semi-bolsista. Também não deu. Finalmente, tentei voltar a ser bolsista integral, industriário, mas também não consegui.
Então, decidi ir colportar (embora eu sempre fora um colportor mal sucedido) em Mogi Mirim, cidade próxima a Engenheiro Coelho, onde ficava o colégio. Meu objetivo era terminar o segundo grau por conta própria, concluindo o supletivo Madureza que havia iniciado no primeiro semestre daquele ano no Novo IAE, pois esse curso era por disciplinas independentes que podiam ser eliminadas nos estabelecimentos escolares municipais, estaduais ou particulares que o oferecessem. Eu e outro colega, também ex-aluno, ficamos “hospedados” na antiga Igreja Adventista Central de Mogi Mirim. Fomos muito bem recebidos ali e muito bem tratados por todos. De Mogi Mirim, só tenho boas lembranças.
Ali na cidade, na época, além das indústrias Kutber, Alpargatas e de uma cervejaria (com seu aroma característico), havia também uma faculdade cujos cursos universitários (inclusive o de Letras) duravam só dois anos. Porém, decidi ir para São Paulo capital como aluno bolsista integral para estudar quatro anos de Teologia, conforme o chamado que eu sentia e que me impulsionava naquela época da vida.
O tempo passou e o fim do ano 1987 foi se aproximando. Escrevi uma carta ao Velho IAE de São Paulo capital e solicitei uma ficha de aluno bolsista integral, com o objetivo de ir estudar Teologia, pois na época, o Novo IAE só oferecia Ensino Fundamental e Médio supletivo. Recebi a ficha pelo correio, voltei ao Novo IAE e pedi ao diretor geral, pastor Walter Boger, para assinar a recomendação pastoral, e expliquei-lhe que minha experiência em Mogi Mirim como colportor fora um fracasso financeiro. Então, enviei a solicitação de vaga e a recomendação pastoral assinada via correio ao velho IAE e voltei para casa dos meus pais, em Nova Iguaçu – RJ. Com aquela assinatura e recomendação certamente eu seria aceito no colégio da capital. E realmente fui. A carta contendo a convocação para o Colégio e as instruções chegou pelo correio em Nova Iguaçu, em pouco tempo.
Chamado ao Ministério Pastoral
1988
Cheguei no internato da capital bandeirante em dezembro de 1987. Fiz o caminho inverso: enquanto no Novo IAE pude sentir os desafios e dissabores de ser pioneiro em uma instituição ainda infante, no velho IAE achava que poderia desfrutar o conforto de uma instituição quase centenária. Ledo engano. Quando lá cheguei, nas férias de dezembro de 1987, me mandaram direto para a agricultura, onde trabalhei com o Seu Hugo Bergold e Seu Fumiaki.
Plantei e colhi muito milho naquelas férias, literalmente. Também furei o pé em prego enferrujado (mesmo usando botas) e fui parar no pronto socorro do Hospital Piratininga, que não existe mais, tendo sido um hospital importante, mas foi fechado em 2003, o prédio foi demolido e no local funciona hoje uma faculdade.
Nessa época, eu estava tão pobre que se alguém me pedisse dez centavos eu não tinha. Só usava roupas que eu ganhava do departamento de assistência social adventista Dorcas, do colégio. Eu era tão magro que dava dó, se eu usasse um paletó listrado ele provavelmente teria uma listra só.
Depois de meses deixando ali (literalmente) meu sangue, suor e lágrimas, fui transferido para trabalhar no almoxarifado, onde trabalhei por cinco anos com o senhor José Stopassoli (descendente de italianos com quem aprendi sábias lições).
Diretor geral do Velho IAE à época era o Pr. Roberto Azevedo e diretor interno o Pr. Manoel Xavier (e mais tarde o Pr. José Maria Barbosa). José Varga era o pastor da igreja. Diretor do Ensino Médio era o Prof. James Daniel.
As férias acabaram e no primeiro semestre de 1988 cheguei a assistir algumas aulas de Contabilidade e de Processamento de Dados, nos primórdios da informática, mas foi só no final de 1988, que finalmente concluí o Segundo Grau, atual Ensino Médio, concluindo por conta própria o supletivo Madureza que havia iniciado no Novo IAE em 1987.
Aluno do Salt no Velho IAE
1989
No primeiro semestre de 1989, com o Segundo Grau já concluído, iniciei o curso teológico. Aluno bolsista integral não tinha direito a férias e passar férias no internato era sofrível, especialmente no inverno, pois o frio na Estrada de Itapecerica da Serra, onde fica o colégio, congelava e a saudade de casa apertava. Eu achava que a vida estava ruim porque eu estava longe da família e no frio, mas hoje vejo que eu era feliz e não sabia.
O velho Instituto Adventista de Ensino acabara de ser "convidado" a vender grande parte do terreno de seu campus ao governo do estado, que precisava construir casas populares. Mais tarde, aquele conjunto habitacional viria a ser conhecido como "Cohab Adventista". Antes da venda, pássaros de toda a variedade de cores e plumagens esvoaçavam entre as árvores e flores, enquanto seu melodioso canto ecoava entre as árvores em doces acordes de louvor a seu Criador, mas agora, acordava-se com o barulho das máquinas, retroescavadeiras e tratores em seu labor.
O campus do IAE de São Paulo era tão grande que tinha aluno que trabalhava na fábrica Superbom, que ficava dentro do Instituto, mas acabou ficando de fora do campus com a venda para o governo, que confinou o colégio a um pedacinho do Céu, dentro do “inferno” que é São Paulo capital.
Minhas peripécias no colégio interno da capital paulista dariam mais um capítulo à parte. Era um ambiente de muitos estudos e muito trabalho: capinei muito no mato e no barranco, plantei e colhi muito milho nas férias. Lavei muitas bandejas, pratos, copos e talheres nos rodízios mensais de sábado, na cozinha do refeitório. Mas também era um ambiente propício para quase todo tipo de travessuras adolescentes e jovens. Desde infantilidades como jogar bombas no banheiro do dormitório masculino, tarde da noite, ou jogar baldes de água fria em quem estivesse dormindo, até coisas mais sérias, como sair do colégio sem autorização, escondidos no porta-malas dos carros dos visitantes, quase tudo era imaginado e sorrateiramente planejado por alguns alunos de ambos os sexos, não importando se eram do Ensino Fundamental, Médio ou Superior, crentes ou não, bolsistas ou pagantes regulares, desde que tivessem tempo livre (poucos tinham) e estivessem ali sem um objetivo (poucos não tinham). Um dia, escondemos um amigo visitante em cima do guarda-roupas, onde ele passou a noite. No almoxarifado, onde trabalhei por cinco anos, abríamos escondidos latas de alimentos e embalávamos mel com as mãos (quem comprou mel no IAE-SP entre 1989 e 1991 tem uma enorme chance de ter ingerido mel “contaminado” por nossas mãos). Comíamos de graça no minimercado e tentávamos burlar as regras do internato, como segurar na mão da namorada ou beijá-la escondido em alguma das alamedas do colégio.
O internato era um ambiente propício para violarmos quase todas as leis e quase todas as Treze Virtudes de Benjamin Franklin, desde que alguma das leis de Murphy não se manifestassem primeiro. E, contraditoriamente ao que era ensinado, também podia ser um ambiente propício à prática de bullying, como naquela vez em que três alunos me prepararam uma arapuca, mas de alguma maneira eu consegui não cair nela.
Uma característica interessante no colégio era a rotatividade. Tinha ano que na volta às aulas eu não reconhecia quase ninguém no dormitório masculino, nem no refeitório: ou os alunos tinham se formado, ou tinham desistido e voltado pra casa, ou tinham sido arrebatados; mas a fila andava e no final das férias novos alunos tinham sido chamados para ocupar o lugar dos que haviam saído.
Outra coisa que notei é que havia ali alunos de vários lugares do Brasil e do mundo, e de vários tipos. Notei uma característica comum a quase todos: eram jovens que sonhavam em sair dali formados e casados, mas principalmente casados. Não citarei nomes, mas alguns alunos estavam tão desesperados que chegavam a dar em cima da namorada dos outros, os famosos “talaricos” de hoje. Alguns outros alunos conseguiram começar a namorar ali e se iludiram, achando que, se saíssem do colégio para se casarem, depois de casados conseguiriam voltar, ficar no externato e terminar os estudos. Mas com o passar do tempo, os cuidados da vida de casados, a chegada de filhos e a preguiça, tornavam o retorno praticamente impossível.
Eu estava finalmente estudando Teologia e namorando, se conseguisse me formar e me casar com a filha de um pastor adventista, meu futuro estaria garantido profissionalmente na Obra Adventista e tudo indicava que seria assim. Mas como demonstram estas minhas memórias, em minha vida nem tudo (ou quase nada) acontece de maneira linear, tudo certinho, perfeitinho e bonitinho como naqueles comerciais de margarina que passavam antigamente. Comecei a namorar a filha de um pastor e planejava me casar com ela após o término do curso de Teologia, mas o namoro não deu certo e acabei terminando o namoro.
Nas férias de verão, de 1990 para 1991, fui colportar com As Belas Histórias da Bíblia em Curitiba, onde tive o privilégio de conhecer pessoalmente o famoso Pr. Enoch de Oliveira.
No segundo semestre de 1991, eu estava no terceiro ano de Teologia. Naquele tempo era necessário os alunos do terceiro ano participarem de uma série de conferências evangelísticas como cumprimento às exigências da ementa do curso. Fui designado para a série de conferências em Anápolis, Goiás, onde conheci a futura mãe das minhas filhas e com a qual me casei em setembro de 1992, dois meses antes da formatura em Teologia.
Estudar Teologia foi incrívelmente maravilhoso. As aulas de Cristologia e Teologia Sistemática eram sempre ricas espiritualmente. Arqueologia era a disciplina que faria a diferença entre os meninos e os homens, como asseverava seu sábio professor, Dr. Siegfried J. Schwantes. O Prof. Orlando Ritter falava para não sermos pastores “comuns”, porque destes, o mundo já estava cheio.
Surpreendentemente, notei que alguns alunos estavam ali mais com o objetivo de se formar para arrumar um emprego do que o de aprender sobre Deus, que é o verdadeiro significado da palavra Teologia. Esses, depois que se formaram, entraram no Campo pastoral mais por profissão do que por vocação, embora insistam em dizer que foram “chamados” por Deus para o ministério pastoral. Foram no Campo pastoral exatamente o que haviam sido no seminário, ou seja, "pastores comuns". Isso é fato. E o triste é constatar que nenhum deles foi demitido, pelo contrário, galgaram cargos mais altos na Obra e Administração Adventista.
Como em muitas outras denominações religiosas, para alguns (e algumas), o apelo financeiro sempre fala mais alto. Política e nepotismo são uma praga, uma desgraça que assola os meios organizacionais e alguns arraiais denominacionais se tornaram verdadeiros cabides de empregos.
Bacharéu em Teologia
1992
Lembro que nessa época tudo que eu tinha na vida cabia dentro de uma caixa de livros da CPB (Casa Publicadora Brasileira) que eu carregava pra lá e pra cá, à procura de uma casa para alugar e começar a comprar os móveis para o meu casamento, pois havia ficado noivo em abril daquele ano 1992.
No primeiro semestre de 1992 eu havia começado a lecionar em escolas do estado de São Paulo como professor eventual e substituto.
A primeira escola onde inaugurei meu magistério se chamava E.E. Abraão de Moraes, depois também lecionei na E.E. Júlia de Castro Carneiro e na E.E. Cidade Santa Júlia, todas em São Paulo, capital. Entrar em sala de aulas pela primeira vez como professor e não como aluno foi sofrível. Com muito sacrifício (e não pouca renúncia), consegui alugar uma casinha de fundos próxima ao IAE-SP (hoje UNASP Campus São Paulo) e comecei a comprar os móveis para o casamento.
Mudei para a nova casa e continuei trabalhando como professor não concursado. Tinha dia em que o meu café da manhã era só leite com Mucilon e o almoço era arroz com molho de tomate pronto, tipo sachê Pomarola ou Fugini (e o jantar também), mas a proximidade do casamento me incentivava a não desistir. O casamento foi agendado para o dia 13 de setembro e a formatura aconteceu dia 13 de dezembro de 1992. Naquele mês, me despedi do Colégio, que foi minha casa por seis anos. Ali deixei meu sangue, suor e lágrimas, literalmente. Desde então, até o dia de hoje, nunca mais retornei ao velho e famoso IAE.
Cheguei ali ainda jovem, quase imberbe, e fiquei seis anos trabalhando sem registro na carteira de trabalho. Do ponto de vista profissional e previdenciário, foi perda de tempo e dinheiro. Mas do ponto de vista intelectual e espiritual, compensou cada calafrio que senti nos seis outonos/invernos que ali passei.
Além disso, estudar Teologia serviu também para fortalecer em mim algumas doutrinas bíblicas que eu já admirava e conhecia, mas superficialmente, como a mortalidade da alma, O Santuário, e a Doutrina do Sábado como dia de guarda (Êxodo 20).
O Primeiro Chamado em São José dos Campos
1993
No início de 1993, finalmente formado em Teologia, eu não tive nenhum chamado oficial para trabalhar como pastor e continuei dando aulas no Estado como professor não concursado. Entrei numa auto-escola para aprender a dirigir.
Agora casado e formado, o pastor do distrito Central de São José dos Campos, interior de São Paulo, convidou-nos a sermos obreiros bíblicos do seu distrito pastoral, salário pago pela IASD Central daquela cidade. Conseguimos alugar uma pequena casa de fundos com seguro-fiança (pois não tínhamos fiador). Arrumamos as poucas coisas que tínhamos, contamos com a ajuda de irmãos da igreja Central que tinham um caminhão e eram donos do restaurante vegetariano ConsCiência, para fazer a mudança de São Paulo para São José dos Campos e nos mudamos.
Naquele tempo, eu gostava de pregar sobre o tema da Justificação Pela Fé e certeza da salvação nas igrejas adventistas daquela cidade, mas encontrava forte resistência por parte da membresia, especialmente da igreja Central de São José.
Sempre gostei de retórica e de locução. Assim que cheguei na cidade, procurei logo uma rádio para tentar evangelizar pelas ondas sonoras e descobri que a igreja Central mantinha um programa em uma das afiliadas da Rede Bandeirantes de Rádio. Fizemos um trabalho evangelístico explicando algumas profecias bíblicas, mas também encontrei forte resistência à aceitação da mensagem por parte dos ouvintes. A cidade era difícil de evangelizar. Era como se as sementes do evangelho estivessem sendo lançadas sobre o terreno pedregoso (Mateus 13:5,6).
Nesta cidade, tive o privilégio de conhecer pessoalmente o famoso pastor e evangelista Alcides Campolongo, com quem quase tive a oportunidade de trabalhar.
Eu era um jovem teólogo recém-formado, cheio de disposição e cheio de teologia saindo da cabeça e dos poros. Alguns diziam que eu "transpirava" evangelismo. A igreja adventista Central pagava um salário mínimo, parte dele com vale-transporte e vale-refeição, para almoçarmos no restaurante vegetariano. Percorríamos aquela enorme cidade a pé dando estudos bíblicos, como o profeta Jonas fazia em Nínive (Jonas 3:3,4).
Minha esposa havia ficado grávida, mas sofreu um aborto espontâneo. Nestas condições, não enxergamos, na época, futuro para nós ali e decidimos ir tentar um chamado na Associação Rio de Janeiro, meu campo de origem e ficarmos perto da minha parentela. Mas o tempo demonstrou que aquela foi mais uma decisão errada.
No segundo semestre, fomos ao presidente da Associação Rio de Janeiro, que naquele tempo ficava à Rua do Matoso, 97, Praça da Bandeira, e explicamos nossa situação. Ele nos enviou ao pastor do distrito de Freguesia, que estava realizando uma série de conferências evangelísticas na comunidade da Cidade de Deus, um bairro da zona Oeste, onde fiquei como obreiro bíblico durante todo o segundo semestre de 1993. Moramos ali, hospedados provisoriamente na casa do irmão Osmar, taxista, membro leigo da igreja, que nos tratava muito bem.
O Segundo Chamado no Rio de Janeiro
1994
No início do ano, fui enviado pelo presidente do Campo à capelania da Escola Adventista de Campo Grande, zona Oeste do Rio, onde encontramos um apartamento para morarmos e fizemos a mudança. Mas quando fui me apresentar na escola para trabalhar, a diretora da escola não quis me aceitar, alegando que não me conhecia e que para eu trabalhar ali teria que sair alguém. Voltei ao presidente da Associação e expliquei o que aconteceu. Então, fui enviado à capelania da Escola Adventista de Fonseca, Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara, que eu atravessava todos os dias de ônibus pela ponte Rio-Niterói. Fiquei alguns dias trabalhando ali como capelão da escola e nesse ínterim, o pastor do distrito de Bangu, que era meu vizinho, foi transferido para São Paulo. Então, recebi o chamado para ocupar o seu lugar como pastor distrital do distrito de Bangu.
O distrito pastoral que eu assumiria tinha quatro igrejas e dois grupos organizados, dentre eles Bangu, Catiri (Jd. Bangu), Santíssimo, Senador Camará e Vila Kenedy. Eu teria status de obreiro, com credencial de ministro de culto licenciado. Era a chance que eu queria e da qual precisava. Se passasse no período de experiência de cinco anos (estágio probatório), evoluiria ao status de ministro de culto credenciado (ordenado) e poderia realizar batismos e santa ceia. Mas confesso que não estava preparado para assumir tamanha responsabilidade sozinho. Se eu tivesse entrado como pastor auxiliar provavelmente teria recebido conselhos e orientações úteis de um pastor mais experiente que eu, o que não aconteceu.
Eu ainda não tinha carro, andava a pé para cima e para baixo, visitando, pregando e dando estudos bíblicos naqueles enormes bairros da Zona Oeste do Rio, como fazia o profeta Jonas na grande cidade de Nínive. Naquele calor carioca eu suava tanto que minha testa ficava brilhando mais do que o rosto de Moisés quando desceu do Monte Sinai.
Em 1994, havia entrado em vigor o Plano Real. Nossa situação financeira foi melhorando de tal maneira que deu para comprar, pouco depois, um Monza 1989.
Há três coisas que um homem deveria fazer na sua vida: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Já escrevi e publiquei vários livros, plantei árvores, mas gerar um(a) filho(a), acompanhar sua gestação e vê-lo(a) chegar ao mundo é uma experiência inexplicável. No dia 18 de março, nasceu nossa primeira filha, Vanessa, e comprovei essa experiência.
Quase no fim daquele ano, se não me falham as memórias, uma das oito igrejas do meu distrito pastoral convidou o pastor distrital anterior (que havia sido transferido para São Paulo e que havia sido meu vizinho, a quem substituí no distrito) para realizar um batismo na recém-inaugurada igreja do Jd. Bangu (Catiri), mas por algum motivo, provavelmente falta de confirmação, ele não compareceu. Era um domingo à noite e a igreja estava lotada. Pedi ao Quarteto Majestade, da igreja de Santíssimo, para cantar todo o seu repertório até que eu retornasse. Peguei um irmão de carro e fui atrás de pastores dos distritos vizinhos que eram ordenados a batizar (pois eu era pastor aspirante ao ministério, não autorizado a realizar batismos). Não os achando, tentei contato com pastores administradores da Associação para pedir autorização para realizar o batismo, mas não consegui, pois naquele tempo ainda não havia internet e celulares eram caríssimos, ainda não havia as facilidades de comunicação que há hoje. Então, voltei e disse aos líderes da igreja local presentes que não deixaria os candidatos voltarem para casa sem o batismo. E assim, naquela noite, batizei as sete almas sem autorização da Corporação adventista.
No dia seguinte, na sede da Associação Rio de Janeiro da IASD, fui severamente repreendido pelo presidente do Campo. Eu me lembro como se fosse hoje o que ele me disse: “Não estou com vontade nem de orar com você.” Isso tudo porque batizei sete al as sem autorização dele. Ele não me demitiu naquele dia, mas senti que fiquei “queimado” (mal visto) naquele Campo, por ter realizado a cerimônia batismal sem a autorização da Administração geral da igreja.
Dia 11 de setembro desse ano, estávamos em um quarto do Hospital Adventista Silvestre, no alto do corcovado, ao sopé do Cristo Redentor. Minha esposa estava deitada na cama se recuperando da cesariana feita pelo nascimento de nossa filha caçula, Luciana. A Vanessa estava com um ano e meio e mal sabia falar. Eu trocava a calça plástica e a fralda dela toda hora, pois naquele tempo, fraldas descartáveis eram uma fortuna e um luxo que nós (ainda) não tínhamos. Ela gostava de se sentar no chão do hospital, o que me deixava deveras angustiado. A Luciana nasceu, mas teve que ir pro CETIN (Centro de Tratamento Intensivo Infantil) porque não estava reagindo como o esperado, o que nos deixou deveras preocupados. A mãe delas não podia, mas eu ia lá no CETIN toda hora com a Vanessa e ficava olhando a Duda pelo vidro, como naqueles filmes, e orava por ela. Depois de dois dias em observação, graças a Deus ela foi liberada e hoje, vários anos depois, virou uma adulta forte e saudável.
Demissão e entrega da credencial
1996
Depois de dois anos no distrito de Bangu, em 1996, fomos transferidos para o distrito de Três Rios, cidade próxima a Petrópolis. Alugamos um apartamento de três quartos, dois banheiros, sala grande e sacada, e voltamos a desfrutar do privilégio de morar no interior. A vida finalmente parecia querer começar a dar sinais de que sorriria para nós. Estávamos bem financeiramente e morando onde queríamos. Adorávamos morar na Mesopotâmia fluminense: cidade pequena e de clima agradável, onde se encontravam os rios Paraíba do Sul, Piabanha e Paraibuna; próxima a fontes de águas minerais e muito apropriada à educação e criação de filhos.
Meu segundo distrito pastoral, geograficamente, era enorme, uma extensão territorial de 150 quilômetros. Eu pastoreava membros nas cidades de Três Rios, Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Miguel Pereira, Levi Gasparian e Porto Velho do Cunha. Nessa cidade de Porto Velho do Cunha, que fica lá no Território Regional de Carmo, divisa com Minas Gerais, havia um simpático vilarejo onde eu ia visitar e ministrar a Santa Ceia aos membros, que também faziam parte do meu distrito pastoral. Esse pequeno município está localizado às margens do rio Paraiba do Sul e tem como atrativo principal a pesca esportiva, que também é uma importante atividade econômica da localidade. Iniciei um programa evangelístico na rádio local de Três Rios, onde morávamos e onde ficava a igreja adventista central e sede do meu distrito pastoral. Fizemos vários programas nessa rádio. Espero que um dia as sementes lançadas ali pelas ondas de rádio venham a germinar e que não tenham caído sobre as pedras, mas sobre a boa terra (Mateus 13:4-8).
Aconteceu que o ano de 1996 era ano de eleições municipais. Em uma das igrejas que eu pastoreava, havia um irmão que sairia candidato e, se não me falham as memórias, queria usar os púlpitos das igrejas do meu distrito para promover sua campanha política. Eu me posicionei radicalmente contra. Foi um bafafá danado no distrito. Resumindo, o que eu não sabia na época (mas fiquei sabendo depois), era que o tal irmão político era apoiado por pessoas influentes da Corporação Adventista do Rio de Janeiro, à época.
O assunto chegou aos ouvidos dos administradores da IASD, com sede no Rio de Janeiro, aos quais eu era subordinado, os quais me chamaram novamente para uma reunião. Dessa vez, a reunião foi no IPAE (Instituto Petropolitano Adventista de Ensino), conhecido internato adventista de Petrópolis. Durante a conversa, na reunião, não aguentei a pressão e, tomado pela emoção, acabei me exaltando e batendo boca com o presidente do Campo. Depois dessa discussão, falaram que iriam estudar o meu caso e que era para eu aguardar o resultado em casa. A situação ficou dramática. Alguns irmãos da igreja central do meu distrito (Três Rios), sabendo do ocorrido, fretaram um ônibus e foram à sede da Associação da IASD, no Rio, para me apoiar, me defender e tentar interceder por mim, junto aos administradores da Associação, mas retornaram completamente desanimados. Seus apelos foram totalmente inócuos, pois a Associação viu nesse ato uma atitude do pastor do distrito, no caso, o pastor Valnei, de colocar a igreja local contra a Associação, o que era uma total inverdade.
Alguns dias depois, o presidente do Campo, com quem eu tinha batido boca no IPAE, junto com o pastor responsável pelo departamento de jovens da Associação, foram ao nosso apartamento alugado, em Três Rios, e nos disseram que a Mesa Administrativa da Associação tinha votado a minha transferência para a área da Educação. Fiquei transtornado e sem rumo, pois todas as minhas experiências anteriores na Educação haviam sido sofríveis.
Eu e minha esposa tínhamos duas bebês para cuidar e ficar desempregado àquela altura seria um pesadelo. Para o meu desespero, porém, foi justamente isso o que aconteceu. Alguns dias depois, o pastor ministerial da Associação me falou, in off, que não concordava com aquilo, que queria ter ido junto com o presidente ao nosso apartamento e que estava muito triste com a minha demissão, mas também não fez nada para me ajudar. Se queria ter ido, por que então não foi?
A honestidade de um homem deveria valer mais do que o seu Q.I., mas neste mundo é justamente o oposto (quanto maior o Q.I., mais valorizado é...). Para construir uma carreira, é preciso muito tempo. Para destruir, só é preciso um momento. Eu me senti rejeitado pela minha própria igreja.
Foi no dia 23 de julho de 1996 que a ASSOCIAÇÃO RIO DE JANEIRO DA IASD me entregou para assinar a declaração/recibo do valor líquido de R$ 2.097,21, “como liberalidade e auxílio da mesma para minha instalação e readaptação em outra atividade”. Naquele dia morreu o Pastor Valnei Nascimento da Silva e nasceu um pai de família desempregado.
Mas para “um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interiror”, até que cheguei longe na Obra Adventista. Eu não tinha parentes na Obra, não tinha amigos para me referendar, não tinha vínculos políticos e não era puxa-saco, mesmo assim, ainda consegui me formar e ser pastor de 1993 a 1996, fora os administradores injustos e a inveja dos haters. Diante de toda essa carga negativa contrária pesando em cima de mim, sozinho, me considero muito vitorioso por ter chegado tão longe. Eu fui um humilde e solitário plâncton contra um mar infestado de tubarões-baleia.... e mesmo assim, sobrevivi.
Eu e minha esposa havíamos planejado ficar morando ali na cidade de Três Rios por cinco anos, mas só pudemos ficar três meses. “Expulsos” do "paraíso", fomos para Goiás, terra da mãe das minhas filhas e, em nossa inocência, tentamos um reingresso no ministério pastoral, ali na Associação Brasil Central da IASD, em Goiânia. Achávamos que se fôssemos para outro Campo ou Associação de outro estado seria possível um reingresso no ministério pastoral. Ledo engano. Quando chegamos lá, cumpriu-se o ditado: quando um homem vai a algum lugar o seu passado já chegou primeiro. Constatamos que já estávamos “queimados” antes mesmo de chegarmos lá. Mal sabia eu que nunca mais retornaria ao ministério pastoral adventista (há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada, a oportunidade perdida. Provérbio chinês).
Foi um período muito difícil. As pessoas passaram a fugir de mim como se eu tivesse adquirido lepra ou AIDS. Desapareceram, como las cucarachas fazem quando se acende uma luz.
Tive que começar tudo de novo do zero, só que agora com esposa e duas filhas, uma praticamente bebê.
Precisamos vender o Monza. Juntamos o dinheiro da venda com os R$ 2.097,21 que a Associação Rio de Janeiro da IASD nos pagou de indenização pela demissão e demos de entrada em uma casa popular da Caixa Econômica Federal, em Goiânia, em um contrato de gaveta, no bairro Jardim Guanabara III. Desempregado, cheguei a dar aulas como professor eventual em duas escolas de Goiânia para tentar pagar as prestações da casa, que eram de R$ 225,00 mensais, e cheguei até a ser empregado de um dos meus alunos do Ensino Médio noturno, que trabalhava durante o dia com pintura de casas e apartamentos. Distribuía panfletos no centro de Goiânia, fazia bicos, mas não conseguia pagar as prestações da casa, que foram se acumulando a cada mês.
A Década Perdida
1996 a 2006
Em 1997, passei no vestibular da Universidade Federal de Goiás para o curso de Letras e comecei a pensar que as coisas poderiam melhorar se eu fizesse um curso de licenciatura em outra faculdade, mas os funcionários da UFG entraram em greve e perdi o semestre.
Em 1998, meu pai havia adquirido recentemente um ponto de táxi em um supermercado no Rio e me convidou a trabalhar com ele como taxista. Com as prestações da casa de Goiânia atrasando a cada mês, a CEF passou a nos ameaçar de despejo. Então, movidos pelas circunstâncias, deixamos a casa aos cuidados de uma pessoa, parente da minha esposa, que se mudou para a casa e se comprometeu a pagar as prestações à CEF, e nós, mudamos mais uma vez para o Rio. Eu havia pagado para fazer a parte elétrica, muro caprichado e portão de ferro, mas não conseguindo pagar as prestações tivemos que nos mudar. Interessante como a história se repete.
Comecei a trabalhar no táxi, no Rio. Eu tinha que madrugar para chegar cedo no ponto e dar mais corridas, especialmente porque nos dias de maior movimento, que era aos sábados, como adventista eu não trabalhava. Tinha que fazer frente às despesas familiares, pagar um aluguel caro, uma conta de água alta e ainda devolvia o dízimo. E ainda tinha o combustível e a manutenção da Brasília 1980, que meu pai havia comprado para eu trabalhar e que vivia dando problemas.
A pessoa que se comprometeu a pagar as prestações da casa de Goiânia não cumpriu a palavra. Consequentemente, a Caixa levou a casa a leilão. Mais uma vez, desperdiçamos tempo, dinheiro e energia nervosa.
Perdemos o carro, a casa, o dinheiro e tudo o que havíamos adquirido até ali, menos um último átimo de esperança. O pensamento de ter que recomeçar do zero, era particularmente desanimador. As necessidades familiares urgiam. Eu achava que era infeliz porque estava desempregado, sem dinheiro e perdera tudo, mas hoje vejo que, apesar de tudo, eu era feliz e não sabia.
Formatura em Letras
2006
No ano 2000, minha esposa pediu o divórcio, voltou para Goiânia e levou minhas filhas junto com ela. Passei num concurso público para servente de uma escola da prefeitura e e fui morar na cidade de Limeira, interior de São Paulo, onde morei por seis anos. Em 2002, finalmente consegui realizar o sonho de trazer minhas duas filhas para morar comigo e consegui naquela cidade iniciar minha primeira graduação em licenciatura, me formando em Letras em 2005 e fui o orador da turma. Durante o curso não fui um aluno genial. Fiz minha parte como pude, enfrentando vários tipos de dificuldades externas e internas: salário baixo e mensalidades altas, dinheiro para o passe do ônibus (que nunca vinha na hora), dinheiro das xerox, fila para usar a impressora da faculdade (porque eu não tinha), falta de livros na biblioteca da faculdade (porque eu também não tinha). Trabalho, estágio, faculdade, escola, igreja, aulas de música das filhas, pediatra, dentista, oftalmologista, farmácias, postos de saúde, supermercados. Lavar sem máquina, passar sem ferro, cozinhar sem dom, arrumar sem tempo. Desde então, meu cabelo começou a diminuir e meu colesterol começou a aumentar, e não pararam mais. Quase desisti, mas veni vidi vici (Veni, vidi, vici é uma expressão em latim que significa em português "Vim, vi e venci").
Ainda em Limeira, no fim desse ano 2005, chegou minha classificação para escolher vaga no concurso de professor PEB II do Estado de São Paulo. Escolhi vaga na cidade de Capivari, pois eu achava que daria para ir e voltar diariamente de Limeira até lá, mas depois descobri que era muito longe e que teríamos que fazer mais uma mudança. E fizemos.
Concurso para Professores PEB II
2006
Quando fomos à cidade procurar casa para alugar, procuramos o pastor distrital da igreja adventista local, que nos recebeu e tratou muito bem. Ele nos enviou a uma Imobiliária, cujos donos pertenciam a uma família que também eram membros da igreja adventista local. E lá fomos nós, cheios de ingênua esperança, achando que pelo menos desta vez as coisas seriam menos complicadas, já que lidaríamos com “irmãos”, membros da nossa própria igreja. Ledo engano. Acabamos tendo que ficar duas semanas dormindo em um hotel, cujos carpetes me causaram alergia tal, que fui parar na Santa Casa de Misericórdia de Capivari, por conta de rinite alérgica, sinusite e bronquite.
Em uma outra imobiliária, que não era de donos adventistas, consegui alugar um apartamento e, com ajuda de amigos de Limeira, finalmente alugamos um caminhão pequeno e fizemos a mudança.
Ali em Capivari, dia 13 de fevereiro de 2006, iniciei no serviço público estadual como professor efetivo, na E.E. Laura Cagliato Pacheco e nossa situação financeira parecia que melhoraria um pouco. Porém, poucos meses depois, a sala de aulas quase acabou comigo. Graças à metodologia do senhor Paulo Freire, patrono dessa caótica Educação brasileira atual e do sistema socioconstrutivista, a pedagogia do oprimido, pedagogia do amor, que trata o aluno como um coitadinho. Nessas condições, fui forçado a entrar em licença saúde naquele mesmo ano, permanecendo afastado das salas de aulas até 2010, quando fui readaptado e precisei passar por muitas perícias médicas levando atestados médicos para provar que realmente estava mentalmente doente e incapaz de dar aulas, mas tive várias licenças médicas negadas pelos peritos que me atendiam no Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME), em São Paulo, capital.
Continuei a descuidar da saúde e acabei entrando em estado depressivo. Comecei a procurar ajuda profissional e comecei a me tratar na psicologia e psiquiatria por TAG (transtorno da ansiedade generalizada), síndrome do pânico e depressão.
Retorno a São José dos Campos
2023
No primeiro semestre de 1993, havia morado casado na Av. dos Astronautas, 1.281, bairro Jardim Uirá. Tinha uma quadra ao lado e eu pulava a grade da quadra para correr lá dentro, às 7h da manhã. Foi a segunda casa em que moramos após o casamento.
Depois de 30 anos, de passar por várias casas em várias cidades, acabei retornando a São José dos Campos de onde, eu acho hoje, nunca deveria ter saído. Juntando algumas economias e a venda de um carro usado, consegui comprar um apartamento de dois quartos na região sul da cidade e desde então, a vida continua pois, verdadeiramente, no final de tudo, há vida após a Obra Adventista.
“Ao analisar e julgar os sofrimentos alheios, muitos manifestam uma tendência reducionista e um tanto insensível. Como, no fim, tudo parece ter servido a um propósito proveitoso, eles suavizam e diminuem o significado das duras experiências pelas quais os outros passaram.
José se tornou governador do Egito e perdoou seus irmãos.
Ainda assim, ele foi enfático em lhes dizer: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida”. Cf. Gênesis 50:20
Em outras palavras, o fato de ter se tornado governador da maior nação do mundo não fez José se esquecer do que seus irmãos lhe fizeram e do extremo sofrimento que isso lhe causou. José, também, jamais afirmou que o erro de seus irmãos refletia a vontade de Deus, mas, sim, que Deus transformou em bênção aquela situação injusta.
Certamente, Deus tinha meios melhores para cumprir os mesmos propósitos.
Depois de cinco anos vivendo na Austrália, Ellen G. White escreveu uma dura carta a Ole A. Olsen, o presidente que a exilou, e lhe dirigiu as seguintes palavras:
O Senhor não estava dirigindo nossa saída da América. Ele não revelou que era Sua vontade que eu deixasse Battle Creek. O Senhor não planejou isso, mas permitiu que agissem segundo vossa própria imaginação. O Senhor desejava que W. C. White, sua mãe e seus obreiros permanecessem na América. Nós éramos necessários no centro da Obra, e tivesse vossa percepção espiritual discernido a verdadeira situação, nunca teríeis consentido com as medidas tomadas. Mas o Senhor lê os corações de todos. Havia tanta disposição para que partíssemos que o Senhor permitiu que esse evento tivesse lugar. Aqueles que estavam cansados com os testemunhos dados foram deixados sem as pessoas que os transmitiam. Nossa separação de Battle Creek foi para deixar os homens cumprirem sua própria vontade e maneira, que julgavam superior à maneira do Senhor. (...) O resultado está perante vós. Tivessem permanecido do lado certo, tal decisão não teria sido tomada neste tempo. O Senhor teria trabalhado pela Austrália por outros meios, e uma forte influência teria sido mantida em Battle Creek, o grande coração da Obra.
Carta a O. A. Olsen, 1896. Disponível em:
https://m.egwwritings.org/en/book/428.7806#7836
Em agosto de 1900, Ellen G. White se despediu da Austrália com o senso de dever cumprido. Ao regressar aos EUA, apesar de já estar com 72 anos de idade, ela foi um instrumento decisivo para a reorganização da igreja nas assembleias de 1901 e 1903.
Muitas pessoas estranham o fato de, em seu testamento, Ellen G. White não ter deixado nada diretamente para a igreja que ajudou a fundar e à qual serviu até sua morte. Em vez disso, ela buscou proteger seu patrimônio literário e sua família, além de prover auxílio a causas que, possivelmente, ela via como menos assistidas, como a do evangelismo aos negros americanos. Documento traduzido disponível em http://www.centrowhite.org.br/ellen-g-white/testamento-de-ellen-g-white-09021912/
Alguns usam isso para tentar desaboná-la como profetisa, uma vez que ela mesma havia recomendado que os membros incluíssem a igreja em seu testamento e evitassem uma longa lista de beneficiários. Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, Vol. 4 (Tatuí - SP: Casa Publicadora Brasileira), pp. 476-485
No documento, contudo, ela repartiu suas posses pessoais e até mesmo parte de lucros futuros de alguns de seus escritos para seus filhos, noras, netos e etc. Ela também nomeou cinco depositários de sua confiança a fim de administrarem seu patrimônio literário. Quatro deles eram membros da comissão diretiva da Associação Geral, incluindo seu próprio presidente, o pastor Arthur G. Daniells.
Não temos informações oficiais sobre os motivos que levaram Ellen G. White a agir dessa forma. Contudo, qualquer pessoa que, como ela, já foi perseguido, retaliado e sentiu o calor das chamas da tirania por falar a verdade, provavelmente terá uma pista sobre suas possíveis razões.
Ao nomear depositários para os seus escritos, em vez de simplesmente transferi-los para a igreja, ela os estava exaltando e, também, protegendo. O acervo receberia um tratamento especial, o que facilitaria sua publicação e distribuição.
Mais do que isso, ele ficaria protegido caso alguém, mesmo que fosse da liderança da igreja, quisesse silenciá-lo.
Ellen G. White confiava totalmente em Deus e em Sua direção final da obra adventista. Seu testamento demonstrou, no entanto, que ela tinha ressalvas quanto a se confiar cegamente nos líderes humanos. Se isto for verdadeiro, não seria exagero dizer que, apesar de sua profunda gratidão a Deus e segurança de que Ele tinha tudo em Suas mãos, a mensageira do Senhor morreu com um lamento no coração por não ter visto fechada a porta de acesso ao autoritarismo na igreja.
Seja como for, uma coisa é certa: para Ellen G. White, Deus, a igreja e os homens colocados na liderança não são a mesma coisa, por mais que a atitude de muitos líderes queira dizer o contrário.”
Pr. Tomaz Amaral de Jesus, Antes que seja tarde, págs. 150 a 156.
Considerações finais
Foi no dia 23 de julho de 1996 que os “ungidos do Senhor” me obrigaram a assinar um pedido de demissão, entregar minha credencial de Ministro Licenciado e ir para a Educação, ou procurar outro emprego. Naquele dia, morreu um pastor adventista do sétimo dia e nasceu um pai de família desempregado. Nos dias, meses e anos seguintes, tentei reingresso em outros campos do Brasil e até na nova Associação Rio Sul, no bairro Campo Grande, zona Oeste do Rio, que foi criada pouco tempo depois, mas todas as portas se fecharam para mim e minha família. Vendo que não tinha jeito, humildemente, voltei ao presidente que me demitiu e disse que aceitaria trabalhar na Educação, se ele me concedesse nova oportunidade. Ele me mandou ao departamental de Educação, que me disse que entraria em contato em breve, estou aguardando até hoje...
Este ano, 2026, fará trinta anos que tudo isso aconteceu.
Por mais que eu seja tentado a “dar nomes aos bois”, não cairei nessa tentação, quem tiver interesse em saber os nomes dos responsáveis pela minha exoneração da Obra Adventista, é só pesquisar quem foram os administradores na Presidência e Secretaria da Associação Rio de Janeiro de 1992 a 2002, na Rua do Matoso, 97, Pça. da Bandeira.
Em 1996 eu tinha 31 anos de idade. Naquele tempo eu sentia muito medo dos administradores do Campo, aqueles indivíduos realmente me assustavam, especialmente o presidente. Não era um medo do que eles pudessem fazer comigo fisicamente, mas do que, com o ilimitado poder que possuíam, pudessem fazer com a minha carreira e com a minha família. Infelizmente, o tempo demonstrou que meus temores realmente se confirmariam..
Hoje, 30 anos depois, com a chegada e expansão da internet, ao ver esses “ungidos do Senhor” nas redes sociais recapitulando orgulhosamente suas longas e “bem-sucedidas" carreiras na administração da Obra Adventista, fico imaginando quanta gente esses indivíduos “chamados por Deus” devem ter prejudicado em seus 35, 40, 50 anos de carreira à frente da administração adventista, até serem jubilados e se aposentarem. Imagino quantas carreiras interrompidas, quantas famílias desfeitas, quantos sonhos frustrados, quantos ministérios destruídos por eles agindo, segundo eles, em nome de Jesus.
Naquela época, o que eu sentia por esses fariseus modernos era medo. Depois, com a demissão sem justa causa, vendo o que fizeram com minha carreira e minha família, passei a sentir raiva. Mas o tempo passou, o mundo deu voltas e hoje, vendo em suas redes sociais que estão velhos, obesos e doentes, só o que sinto por eles é pena. Todos eles são iguais. E todos se merecem. Ao puxarem meu tapete no início da minha carreira, esses indivíduos “chamados por Deus”, segundo eles, me traumatizaram o suficiente para o resto desta minha vida e para a próxima vida inteira.
Uma das coisas que mais me entristeceu em toda essa triste experiência, pior do que ser abandonado, rejeitado e chutado como um cachorro velho pela igreja que amei, foi ter que encarar o olhar de piedade daqueles que me conheceram quando eu era pastor adventista e agora, me viam como um membro leigo comum, pegando ônibus para ir trabalhar em um emprego comum, vestindo roupas comuns, ganhando salário mínimo, pagando aluguel e ainda com filhos pequenos. Aquele seu olhar jamais esquecerei...
Há muito tempo aprendi que tudo o que desejamos para os outros, costuma voltar para nós (e às vezes volta em dobro), então, termino estas tristes, mas sinceras, considerações com as palavras do Mestre: Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus. Cf. Mateus 5:44
E, apesar de saber que o que fizeram comigo, minha carreira e minha família é imperdoável, eu os perdoo. Mas quero distância de todos eles, nesta vida e na próxima.
Que o Todo Poderoso tenha piedade de Sua Igreja e de seu povo sincero, e que as últimas profecias se cumpram em nossa geração.
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ANEXOS
1. Advertências de Ellen G. White quanto a possibilidade de Deus desqualificar e rejeitar o povo do advento
“O Senhor Jesus sempre terá um povo escolhido para servi-Lo. Quando o povo judeu rejeitou a Cristo, o príncipe da vida, ele tomou deles o reino de Deus e o deu aos gentios. Deus continuará a trabalhar nesse princípio com todos os ramos de Sua obra. Quando uma igreja se mostra infiel à palavra do Senhor, seja qual for sua posição, por mais alta e sagrada que seja sua vocação, o Senhor não pode mais trabalhar com eles. Outros são então escolhidos para suportar responsabilidades importantes. Mas se estes, por sua vez, não purificam sua vida de toda ação errada; se eles não estabelecerem puros e santos princípios em todas as suas fronteiras, o Senhor os afligirá gravemente humilhando-os e, a menos que se arrependam, os removerá de seu lugar a fim de lhes censurar.” Ellen G. White. Manuscript Releases, Vol. 14 (Nºs 1081-1135), p. 102.
“Por não haverem cumprido o propósito de Deus, os filhos de Israel foram abandonados e o convite divino foi estendido a outros povos. Se estes também se provarem infiéis, não serão da mesma maneira rejeitados?” Ellen G. White. Parábolas de Jesus (Tatuí - SP: Casa Publicadora Brasileira), pp. 303-304.
“Nas balanças do santuário há de ser pesada a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ela será julgada pelos privilégios e vantagens que tem desfrutado. Se sua experiência espiritual não corresponde às vantagens que, a preço infinito, Cristo lhe concedeu; se as bênçãos que lhe foram conferidas não a habilitarem para fazer a obra que lhe foi confiada, sobre ela será pronunciada a sentença: ‘Achada em falta’. Pela luz que lhe foi concedida, pelas oportunidades dadas, será ela julgada.” Ellen G. White. Testemunhos Seletos, Vol. 3 (Tatuí - SP: Casa Publicadora Brasileira), p. 251.
“Deus empregará instrumentos cuja origem o homem será incapaz de discernir; os anjos farão uma obra que os homens poderiam haver tido a bênção de realizar, não houvessem eles negligenciado atender aos reclamos de Deus.” Ellen G. White. Mensagens Escolhidas, Vol. 1 (Tatuí - SP: Casa Publicadora Brasileira), p. 118.
2. O Sistema Pastoral Adventista
A estrutura da igreja adventista é a mesma do governo brasileiro: presidente, senadores, governadores, prefeitos, subprefeitos e o povo, no caso, o adventista. A diferença é que no adventismo não existe democracia, essa pirâmide organizacional controla cada canto, do Oiapoque ao Chuí, cada igreja e a mente de cada membro, de cada fé. O pastor adventista é apenas um cavalo que puxa a carruagem, lutando para um dia ser aquele cavalo especial que vai estar na frente da fileira, obedecendo o laço do condutor, ao invés de ficar a vida inteira atrás comendo poeira, carregando todo o peso e a sujeira dos outros cavalos que estão na dianteira, mas no final, todos eles continuarão sendo os cavalos e não aquele que segura as rédeas ou que usa a chibata.
As chibatadas que um pastor adventista recebe, não são no formato de ataques de violência física ou nem mesmo de agressões diretas, o sistema Adventista sufoca os pastores com as cordas das metas de batismo e dízimo.
Quando se trabalha com pastores, é como se esses fossem gerentes de determinadas lojas. É mais ou menos assim que funciona: quando um pastor adventista assume o distrito, no primeiro Concílio já começam as cobranças. Em média, um pastor participa de pelo menos de três a quatro concílios por ano, a Organização determina esses concílios em períodos próximos a a meses que correspondem a arrancadas evangelísticas. Por exemplo, primeiro Concílio acontece em fevereiro, logo teremos março e abril, que são meses em que o evangelismo tem que ser muito forte, principalmente no mês de abril, que é o evangelismo da Semana Santa. O próximo Concílio será no meio do ano, que é uma prévia para a Missão Calebe, que é em junho, e o próximo Concílio é o Concílio do mês de outubro ou setembro, dependendo do Campo, porque em outubro e novembro é a arrancada final para que se alcancem os alvos, tanto do Campo quanto o alvo do distrito.
O pastor adventista vive constantemente pensando em alvo. A Organização é cruel e desumana, os presidentes cobram e os Evangelistas também, constantemente você recebe ligação para que você seja desafiado a alcançar um melhor percentual do que foi o ano passado. Eles criam uma ideia de que você tem que competir com você mesmo, ou seja, se você alcançou em determinado período 100 batismos, é necessário que você alcance pelo menos 130 ou 150, nunca para menos, sempre para mais.
A Organização trabalha de tal forma que deixa o pastor quase louco, há pastores doentes no ministério, que não têm tempo para a família, nem para a esposa, tão pouco para os filhos, pastores que sofrem, que vivem no nível de estresse muito alto. Eles avançam batizando tudo e todos, se puderem batizar pessoas sem o mínimo preparo possível, eles o fazem.
Anualmente, os concílios de pastores adventistas acontecem em todas as regiões do Brasil para motivar pastores a alcançar objetivos e sim, dobrar a meta.
A cada ano a performance e o sucesso de um pastor adventista não é medida com base na saúde da igreja ou dos membros, a Igreja não quer saber se você, seu cônjuge e seus filhos estão bem, depois que as águas se mexem, o que importa é quando as águas vão se mexer novamente.
Os irmãos são vítimas também do sistema e vendo a empolgação do pastor são levados a batizar qualquer um, principalmente sem nenhum requisito ou regra. Isso é muito comum na União Norte e na União Nordeste, onde pastores são obrigados, forçados, pressionados por seus presidentes em sua maioria presidentes egoístas, tiranos, que só querem saber de alcançar um nível máximo para que na União ele seja campeão.
Se fosse possível contar relatos de pastores que se desanimam e muitos que choram em oração, devido a pressão ser muito grande sobre eles...
Não há como o pastor estipular um alvo, porque esse alvo é estipulado pelo presidente do Campo. O presidente te chama, põe o teu alvo ali e você não pode reclamar e nem questionar, você tem que aceitar sorrindo e se comprometer diante dele e diante dos colegas, que você vai alcançar cada alvo. É colocado um telão nos concílios e você é chamado à frente para dizer o seu alvo ou mesmo para testemunhar, se for o caso do pastor que está batizando bem, para dizer como ele está fazendo para alcançar um número excelente de batismos.
Isso é uma covardia tremenda, porque o cristianismo nunca se mediu por quantidade. Embora na história da Igreja Primitiva haja momentos em que houve um número significativo de batismos, a igreja tem que trabalhar de tal forma que alcance pessoas genuinamente convertidas e não forçadas. O pastor com esse alvo de 300, 400, 500 batismos por ano, passa então a fazer loucuras, faz séries evangelísticas praticamente todo mês, tira do suado salário que recebe da Organização, muitas vezes para comprar brindes.
Às vezes ele tem que submeter a pedir aos irmãos ou ir para as lojas com Ofício da Igreja pedir brindes para colocar no evangelismo. Muitas vezes esse evangelismo são trocas: a pessoa recebe uma Bíblia, é batizada e nunca mais aparece na igreja. Muitas vezes crianças entram no tanque batismal movidas por um pirulito e muitas delas, às vezes, se batizam para ganhar o kit missionário, que é uma Bíblia e alguns livros, crianças de 8, 9, 10, 11 anos são mergulhadas no tanque batismal, com o máximo cuidado para que nenhum dado se perca na ficha, para o pastor e o evangelista saiam bem na foto e tenham um número significativo de batismos.
Essa é a Organização Adventista. Essa é a realidade que muitos membros desconhecem. Se eu tivesse que dar um conselho para os pastores que ainda estão no na ativa, seria: não sacrifique sua saúde e a saúde da sua família. Não faça loucuras, caia fora enquanto você é jovem e tem força para fazer uma outra faculdade enquanto você tem condição de alcançar um outro emprego, digno, em que sua família terá a sua companhia e onde você não sofrerá de estresse, depressão ou qualquer outra doença gerada pela imposição e a cobrança maldita e maligna de pastores presidentes de Campo e Evangelistas.
O adventismo conseguiu convencer o membro de que o dízimo é ponte para a salvação. Conseguiu convencer a dona de casa de que o dízimo está na lei e o pai de família que luta para levar o pão de cada dia para casa de que, se não devolver o dízimo, ele vai perder a salvação, porque o que a Organização mais precisa é de gente dentro do tanque batismal.
Na Igreja Adventista, os primeiros quatro anos de um pastor aspirante são os mais importantes, porque a Igreja só irá ordenar ao ministério pastoral e autorizar a ministrar batismos, santas ceias e etc., se ele for bem avaliado, e para isso, a meta continua sendo o batismo. O destino de um pastor adventista aspirante, está diretamente nas mãos de outras pessoas. Desde cedo ele aprende que no sistema adventista, ele precisa aprender a “beijar o anel dos superiores” desde cedo, prática essa que nunca vai acabar.
Quando um estudante de Teologia se forma, ele é chamado chamado pelo presidente do Campo e entra na Obra para trabalhar como “pastor aspirante”, ou, “aquele que aspira ser ordenado e tornar-se um pastor ordenado”, que é o pastor que atua em qualquer lugar do mundo, que tem uma credencial de pastor ordenado e que pode realizar batismos, santas ceias e casamentos.
Independente de onde ele estiver, de férias ou durante o período de trabalho, ele pode realizar essa tarefa, no entanto, para que ele seja ordenado, o processo é um verdadeiro suplício. Nos primeiros quatro anos, ele precisa demonstrar ser um grande evangelista, isso indica que ele tem que alcançar os alvos propostos pela Associação ou Missão na qual ele serve.
Todo ano ele passa por uma avaliação da Igreja, onde líderes, anciãos e líderes de Departamento são convidados para que avaliem o pastor, falando seus pontos positivos e os pontos a melhorar, e há uma pergunta muito significativa, que é: Qual é o seu recado para a Associação? Muitos irmãos agem de maneira traiçoeira, anciãos covardes e cruéis inventam na resposta um monte de falhas, falam mal do pastor e o coitado, que trabalha noite e dia pregando todos os dias de culto, visitando, batizando, fazendo evangelismo e mesmo assim, é insuficiente para boa parte de líderes dessa Empresa.
Quando completam quatro anos, se o pastor aspirante obteve avaliações positivas, sendo avaliado pelos líderes todo ano e também pela Comissão Diretiva do Campo, então, é proposta e recomendada a sua ordenação ao ministério. Ao ser recomendada a sua ordenação, esse pastor é visitado pelo Pastor Ministerial (o pastor dos pastores, uma espécie de encarregado), da Associação ou da Missão na qual ele serve, juntamente com o Ministerial da União. São feitas algumas perguntas para a esposa do aspirante.
Uma vez feita essa visita, então, o segundo processo, agora, é uma prova oral e teórica. Dependendo da subserviência desse obreiro, da sua humildade, dos seus dons, da sua forma de servir ao presidente e aos departamentais, então, eles suavizam as perguntas teológicas, mas se todavia aqueles que são mais ou menos insubordinados, como eles mesmos falam, então, eles passam por uma sabatina muito mais pesada, com perguntas dificílimas que são apresentadas na prova oral. E só depois de uma prova escrita a Comissão se reúne e recomenda à União a ordenação desse obreiro.
Todo esse processo é feito com o auxílio da igreja local para confirmar, então, o chamado do pastor. É feita uma avaliação geral com a liderança do distrito onde ele serve e se essa liderança não recomendar nessa avaliação, então, é estendido o período de quatro para cinco anos ou no máximo seis. Se no período de 4 a 6 anos ele não obtiver nessas avaliações condições de ser ordenado, então, ele é demitido e descartado da Organização e do ministério.
Observem que um pastor que vendeu tudo que tinha, colportou vários anos, sofreu, fez evangelismo no terceiro ano e quando chega no quarto ou no quinto ou no sexto ano, ele não obtém da Igreja super exigente uma aprovação. Então, esse frustrado, derrotado, deprimido pai de família, é demitido do ministério sem misericórdia.
Agora, o mais curioso é que: como prova para a ordenação a igreja local do distrito no qual ele serve, faz parte e participa do processo o avaliando, para que ele seja ordenado ou não, mas quando é para demissão, nenhum irmão é chamado. Isso é uma injustiça. São incontáveis os casos de pastores adventistas e obreiros que, de uma forma ou de outra, sofreram abusos de ordem profissional, pessoal e principalmente eclesiástica dentro da igreja adventista do sétimo dia, e os casos se multiplicam a cada ano que passa.
https://youtu.be/3HGzaZEX4SI?si=tXh9e67ZzFR_6qnI
(Acesso em 01/02/2026)
3. Quanto ganha um pastor adventista?
Quando leio as informações e números que aparecerão a seguir, entendo por que parentes e amigos ficaram com tanta inveja e torceram tanto para que eu fosse demitido, e por que a Obra fez de tudo para realizar esse sonho deles.
O salário e os auxílios dos pastores no Brasil estão determinados no livro de Praxes.
Como você considera a possibilidade dos deputados federais determinarem os seus próprios salários? Pois saiba que determinar o próprio salário não é privilégio dos deputados. Os administradores da Corporação Adventista também votaram regras determinando seus próprios salários e uma lista enorme de auxílios. Veja a seguir quanto ganha um pastor adventista em salário e auxílios.
VARIÁVEIS DETERMINANTES
O salário e auxílios de um pastor adventista dependem de vários fatores: lugar onde vive, quantidade e idade dos filhos, cargo que ocupa na Organização, tempo de experiência, qualidade de relacionamento com seus superiores e outras variáveis.
Este capítulo tem o objetivo de revelar aos membros da igreja adventista quanto a organização paga para um pastor. Ao final deste capítulo você poderá fazer uma análise de custo/benefício, ou seja, quanto estamos pagando, o que deveríamos estar recebendo e o que estamos recebendo de fato.
SALÁRIO BASE
O salário base de um pastor adventista, também conhecido como “teto”, é um referencial para toda a Divisão Sul Americana. Em 2025 está fixado entre R$ 5.000,00 e R$ 7.000,00. Um pastor aspirante começa recebendo 69% do teto. No seu segundo ano de trabalho passa para 75% do teto. O salário máximo de um pastor aspirante é 93% do teto. Um pastor ordenado pode ganhar até 100% do teto. Vamos considerar que o salário de um pastor é o teto, ou seja, R$ 5.000,00.
De acordo com o livro de praxes, os administradores ganham um pouco mais que o teto. A tabela seguinte mostra os percentuais do teto desses administradores:
Cargo % do Teto
PRESIDENTE DE DIVISÃO _______________________115%
TESOUREIRO DE DIVISÃO _______________________112%
PRESIDENTE DE UNIÃO _________________________112%
TESOUREIRO DE UNIÃO _________________________108%
DEPARTAMENTAIS DE UNIÃO___________________105%
PRESIDENTE DE ASSOCIAÇÃO___________________108%
TESOUREIRO DE ASSOCIAÇÃO___________________104%
DIRETOR COLÉGIO SUPERIOR____________________110%
DIRETOR DE CASA PUBLICADORA_______________110%
DIRETOR MÉDICO (HOSPITAIS)__________________175%
DIRETOR DE FÁBRICA DE ALIMENTOS__________111%
DIRETOR VOZ DA PROFECIA_____________________108%
A Bíblia não propõe isonomia salarial para os pastores, mas afirma que os presbíteros dedicados que se dedicam de forma incansável em ministrar o evangelho e ensinar a Palavra de Deus devem receber mais.
"Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o grão. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário" I Timóteo 5:17 e 18.
A Bíblia não especifica que um administrador, presidente de União ou tesoureiro deva ganhar mais simplesmente porque tem um cargo hierarquicamente mais elevado. Por que então os administradores ganham mais do que os pastores distritais? Não são os distritais que se "afadigam na palavra e no ensino" cuidando de 4, 6, 10, 20, 30, 40 igrejas? O livro "O Desejado de Todas as Nações" apresenta a história de um administrador que achava que o seu salário deveria ser maior que os outros, afinal de contas, ele era mais culto que os seus companheiros e tinha habilidades administrativas que os outros não tinham.
"Tinha em elevada estima as próprias aptidões e considerava seus irmãos como muito inferiores a si, no discernimento e na capacidade". Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 686 (leia mais sobre este personagem no capítulo 76 do Desejado de Todas as Nações).
Mas na verdade um pastor ou administrador não ganha apenas R$ 5.000,00. Há uma lista considerável de benefícios que mencionaremos a seguir. Os benefícios abaixo são concedidos com mais liberalidade aos pastores administradores, mas os distritais têm, teoricamente, os mesmos direitos.
BENEFÍCIOS MENSAIS
1. AUXÍLIO DE ALUGUEL
Os pastores moram em excelentes casas e apartamentos alugados pela Organização. O valor dos aluguéis varia muito dependendo da região. Não é difícil encontrarmos pastores morando em residências cujo aluguel é superior ao teto da obra (R$ 5.000,00). A Organização desconta de cada um deles 10% do salário referente ao aluguel residencial. Como eles recebem um desconto em folha de R$ 500,00 para o item aluguel, e a média de aluguel residencial nas grandes cidades gira em torno de R$ 4.000,00, podemos afirmar que nossos pastores têm um acréscimo em sua renda de, em média, R$ 3.500,00 referente a aluguel residencial. Este benefício está especificado no item Y 20 05 do Livro de Regulamentos Eclesiástico-Administrativos da DSA. (Praxes)
2. COMPENSAÇÃO DE IR SOBRE ALUGUEL
Como o valor do aluguel vem na folha de pagamento, aparecendo registrado em seu contracheque, isto poderá significar fazer o pastor pagar mais imposto de renda. Caso isto aconteça, o Livro de Praxes da DSA, no item Y 20 12 S obriga os tesoureiros dos Campos e Instituições a reembolsarem aos seus obreiros a diferença do imposto de renda pago a mais por conta do auxílio aluguel. No Brasil, o IR é calculado em função do salário anual através de uma tabela progressiva fornecida pela Receita Federal. O IR pode chegar a 27,5%. Estimamos que o reembolso de IR devido ao auxílio aluguel pode chegar a R$ 900,00. Isso é uma estimativa. Esse valor pode ser maior ou menor.
3. AJUDA DE QUILOMETRAGEM
Os pastores têm um auxílio chamado “Quilometragem” (item Y 30 20 S do Livro de Praxes). De acordo com o parágrafo 4 deste item, o auxílio de quilometragem tem o objetivo de cobrir os custos de depreciação (desvalorização) do veículo (Y 30 20 S 4 a), “custo do combustível, óleo, pneus e despesas menores de manutenção” (Y 30 20 S 4 b) e “seguro obrigatório” (Y 30 20 S 4 d). A maioria dos Campos paga R$ 2.000,00 por mês para o pastor se deslocar até a igreja e visitar os membros. Sem dúvida esse é um acréscimo importante em seus proventos, aumentando-os em R$ 2.000,00 referente a quilometragem. Há muitas ovelhas no rebanho que não ganham isso por mês. Com esse valor e com um carro que faz 10 quilômetros por litro de gasolina, o pastor poderá percorrer mais de 4.000 quilômetros por mês, se for com etanol, 5.000.
4. SEGURO DE VEÍCULOS
A Corporação adventista reembolsa 100% das despesas de seguro dos automóveis dos pastores. (Praxe Y 30 25 S). Um carro de R$ 200.000 (um grande número de nossos pastores possui automóveis nesta faixa) exigiria um desembolso mensal de aproximadamente R$ 300,00 numa seguradora comum. Nossos pastores não pagam nada. Alguns Campos cobram uma parcela simbólica. Em caso de sinistro a franquia é baixíssima. Dessa forma, podemos afirmar que cada pastor recebe um ganho extra em seus salários de, em média, R$ 300,00 pelo seguro de seu automóvel.
5. ASSISTÊNCIA MÉDICA
Os itens Y 20 15 e Y 20 16 do livro de Praxes especificam as possíveis formas de auxílio com Assistência Médica. O obreiro pode ser beneficiado com o reembolso de 75% do tratamento médico, odontológico ou oftalmológico, ou com o reembolso de 75% de um plano de assistência médica. Uma família com cinco pessoas pagaria aproximadamente R$ 4.000,00 a R$ 5.000,00 por mês por um plano de saúde razoável. O obreiro ou pastor teria 75% de reembolso. Isso gera um ganho extra de, em média, R$ 3.750,00 referente ao auxílio saúde. Obs: Mesmo optando pelo reembolso do plano de assistência médica, o pastor terá reembolso de 75% sobre os tratamentos médicos e odontológicos que o plano não cobrir.
6. PLANO DE PREVIDÊNCIA
A Organização tem seu próprio fundo de previdência (IAJA - Instituto Adventista de Jubilação e Assistência). De acordo com o livro de Praxes (ZZ 30 05 - Art. 48), cada obreiro contribui com 2,5% de seu salário bruto (aproximadamente R$ 130,00) e a patrocinadora (Associação/Missão) contribui com um valor correspondente a 4,5% do FPE (teto). Ao final da jornada, o pastor aposenta-se pelo INPS e recebe uma complementação chamada “Aposentadoria pela Obra”. Uma pessoa comum, que desejar a mesma cobertura, deverá procurar no mercado um plano de previdência privada. O preço de mercado para quem quiser uma aposentadoria com valor semelhante ao de um pastor custa em média R$ 1.000,00. Assim, podemos afirmar que nossos pastores têm uma fonte extra de renda indireta que é a diferença entre um plano de previdência comum e o da Obra. Este ganho fica em torno de R$ 700,00 a R$ 900,00 referente auxílio aposentadoria.
7. AJUDA PARA AULAS DE MÚSICA
Os pastores e familiares que desejarem estudar música terão um auxílio de 50% (Y 20 34). Tendo por base a família acima, suponhamos que dos cinco membros, três estudem música. As mensalidades variam de conservatório para conservatório. No UNASP-SP, por exemplo, a média é de R$ 700,00 mensais por aluno. Cada obreiro e seus dependentes pagam apenas a metade. Vamos imaginar três alunos de uma mesma família, num local onde a mensalidade musical seja de R$ 500,00 (um pouco mais barata que no UNASP-SP). O ganho extra indireto é de R$ 750,00 em média pelo auxílio musical.
8. AJUDA POR FILHOS
Também conhecida como “Cota Pais”, o “Salário Família” da Corporação é bem mais generoso do que o “salário família” no Brasil. O salário família no Brasil é bem irrisório, algo em torno de R$ 30,00 por filho. Os autônomos não têm esse direito. Embora nossos pastores sejam autônomos (seus contratos de trabalho não são regidos pela CLT, têm que pagar o carnê do INSS), o livro de Praxes (item Y 20 45 S) assegura-lhes o direito de receber 13 vezes por ano uma ajuda equivalente entre 4,62 e 6,46% do FPE (teto) dependendo da idade do filho. Para cada filho com menos de 9 anos o pastor recebe R$ 4.449,56 por ano e para cada filho com mais de 9 anos e menos de 18 anos o pastor recebe R$ 6.221,68 por ano. Assim, um pastor com 3 filhos aumenta sua renda em aproximadamente R$ 1.333,54 pela “Cota Pais”.
9. IPTU E CONDOMÍNIO
O livro de praxes (item Y 20 10 7) determina que os obreiros e pastores recebam integralmente o reembolso de taxas de condomínio de seus apartamentos e também o reembolso do IPTU. O IPTU é uma taxa anual que corresponde a 1% do valor do imóvel. Considere um imóvel no valor de R$ 400.000,00. O morador deverá pagar um IPTU de R$ 4.000,00 por ano, ou R$ 333,333 por mês. A taxa de condomínio pode ser estimada em R$ 960,36. Recebendo mais esses auxílios, o pastor terá o seu salário mensal aumentado em mais R$ 1.300,00.
10. BOLSAS EDUCACIONAIS
Esee é um auxílio extremamente importante e significativo (Y 20 30). Ganham esse benefício os filhos até 19 anos ou 26 anos se forem universitários. Se os filhos ainda são pequenos e estudam em uma escola particular secular de ensino médio, o auxílio é de apenas 50%. Se os filhos já forem adolescentes, e quiserem ir para os nossos internatos o auxílio sobe para 75%.
Se o filho é universitário e mora com os pais, 75% da matrícula e mensalidades são reembolsadas. Mas, se o filho for universitário e morar em outra cidade, mesmo que estude numa faculdade gratuita federal ou estadual, o pastor ganhará um auxílio em dinheiro igual a 75% do estipêndio da faculdade adventista. Estima-se algo em torno de R$ 3.850,00. Esse é o valor que o filho universitário receberá para bancar seus gastos com república (moradia de estudantes), livros, alimentação e outras despesas.
É difícil calcular o ganho extra que esse auxílio educação significa para nossos pastores, pois dependerá do número de estudantes que tiver em sua família. Mas vamos imaginar uma situação muito comum: um pastor tem o filho mais velho em uma Universidade Federal, o segundo filho cursando o segundo grau no UNASP-HT e o filho mais novo no primeiro grau.
Auxílio para o Filho mais Velho = R$ 3.841,46 (Auxílio mesmo com Universidade Gratuita)
Auxílio para o Segundo Filho = R$ 1.646,34 (Reembolso de 75% sobre a mensalidade de R$ 1.234,76)
Auxílio para o Filho mais Novo = R$ 823,17 (Reembolso de 50% sobre a mensalidade de R$ 411,59)
Total R$ 6.310,97. Na verdade esse é um valor aproximado que pode variar. Vamos considerar os R$ 6.310,97 de ganho extra dos auxílio educação.
Alguns pastores ganham cursos de Inglês, Informática, Mestrado e Doutorado, mas não vamos considerar esses benefícios aqui.
Na simulação acima podemos afirmar que um pastor adventista ganha um bom salário mensal. Vejamos o total:
Salário Básico R$ 5.000,00
Aluguel Residencial R$ 3.500,00
Quilometragem R$ 2.000,00
Seguro Automóvel R$ 300,00
Plano de Saúde R$ 2.500,00
Previdência Privada R$ 800,00
Auxílio Musical R$ 700,00
Cota Pais R$ 1.000,00
IPTU + Condomínio R$ 1.300,00
Auxílio Educação R$ 5.000,00
Total Geral Estimado: R$ 22.000,00 (arredondado)
AUXÍLIOS ANUAIS E ESPORÁDICOS
Além dos auxílios mensais, existe uma série de auxílios anuais e esporádicos. Vamos mencionar apenas alguns:
SEGURO DE VIDA E CONTRA ACIDENTES
O item Y 25 05 do livro de praxes obriga as instituições denominacionais a fazerem o seguro de vida dos seus pastores, esposas e filhos dependentes contra acidentes de viagem e morte acidental. Em 1998, época em que o livro de praxes foi revisado, os valores deste seguro eram os seguintes: Para obreiros e pastores da Divisão (valor mínimo: US$ 75.000,00 e valor máximo: US$ 150.000,00). Para os demais obreiros que não são da Divisão (valor mínimo: US$ 50.000,00 e valor máximo: US$ 75.000,00). Cônjuge do obreiro (valor mínimo: US$ 15.000,00 e valor máximo: US$ 20.000,00). Filhos dependentes do obreiro (valor mínimo: US$ 5.000,00 e valor máximo: US$ 10.000,00)
DESPESAS ODONTOLÓGICAS
De acordo com o item Y 20 17 S as despesas odontológicas dele e da família estão cobertas, obedecendo aos seguintes critérios:
Aparelhos Ortodônticos - 75% de auxílio.
Tratamentos Dentários - 50% de auxílio.
Auxílios concedidos para, no máximo, sobre R$ 11.112,79 de despesas por ano.
OUTROS BENEFÍCIOS
Tratamentos em Centros de Vida Saudável e Clínicas - 75% de auxílio (Y 20 17 S).
Despesas Oftalmológicas (incluindo Óculos e Lentes de Contato) - 75% de auxílio. (Y 20 16 S)
Próteses e Aparelhos Ortopédicos - 75% de auxílio.
(Y 20 16 S)
Despesas com Livros, Revistas e Equipamentos: 50% de auxílio (Y 20 55 S).
Direitos Autorais - Dependendo do tipo de livro pode chegar a 10% do preço (FP 45 10)
MUDANÇA DE RESIDÊNCIA
Corporação Adventista paga todos os custos de mudança quando um pastor é transferido de uma localidade para outra. Veja como funciona:
Os obreiros têm direito de transportar 2.725 quilos + 335 quilos por filho. Se sua mudança não alcançar este peso estipulado pela Praxe, o pastor receberá em dinheiro um prêmio de US$ 0,75 por quilo não transportado (item Y 20 29 S 3).
Na época da mudança, o pastor tem direito a três diárias completas em um bom hotel no local de origem com toda a família e mais dez diárias em um bom hotel com sua família no local de destino.
Se houver um acidente a mobília estará totalmente segurada sem nenhum custo para o pastor.
Para despesas incidentais como a quebra ou extravio de qualquer objeto, o pastor recebe 40% do teto mais 4% por dois filhos. Uma família de quatro pessoas receberá R$ 2.400,00, mesmo que não quebre ou avarie qualquer peça em sua mudança.
Se um pastor se mudar para o exterior, poderá deixar sua mudança no Brasil e receber US$ 2.00 por quilo que teria direito de levar. (2.725 quilos + 335 quilos por filho).
DESPESAS FÚNEBRES
Se, infelizmente, falecer um parente direto (filho, filha, esposa), o pastor terá um auxílio de 75% sobre as despesas fúnebres até um máximo de R$ 18.521,32 (2,5 FPE) (item Y 20 40). Com certeza, este é o único auxílio que ninguém deseja receber! Se falecer um dos pais do pastor ou um dos pais de sua esposa ou ainda um de seus filhos, ele terá direito a um auxílio de 50% das passagens da viagem (ida e volta) para duas pessoas. Esse é um auxílio pouco desejável, mas que nenhum de nós teríamos ao trabalhar para uma empresa comum.
CONCÍLIOS
Os concílios geralmente são realizados em locais turísticos. Um exemplo foi um Concílio da Conferência Geral, realizado em um luxuoso hotel na cidade de Foz do Iguaçu. Muito dinheiro é gasto nessas ocasiões, neste caso específico para uma delegação de 400 pessoas. A Revista Adventista de Maio/1999 publicou uma notícia relacionada com o concílio de pastores da Associação Paulista Central. Esse concílio foi realizado num hotel fazenda de luxo, na cidade de Atibaia. O mesmo hotel em que estavam hospedados os jogadores do Corinthians. Na referida revista, pastores adventistas posam para uma foto ao lado do jogador Marcelinho Carioca que foi presenteado com um livro do Pr. Bullón.
CONCLUINDO
Os pastores administradores são os que mais consomem verbas. Viajam muito, geralmente de avião. Hospedam-se sempre nos melhores hotéis. Os tesoureiros são os homens fortes da Organização. Eles têm o poder de decisão, quase que absoluto, no destino das verbas.
Alguns auxílios podem ser “negados” ou “vetados” pelo Tesoureiro. Por exemplo: Dificilmente o pastor distrital, na cidade nordestina de “Mata Cachorro”, conseguirá receber aqueles R$ 3.841,46 para manter um filho numa Universidade Federal em outra cidade. Já um Departamental de União, nunca terá um pedido desses negado. Alguns pastores têm filhos estudando no exterior graças a esse auxílio.
Pontos fracos desse sistema:
1) Um sistema de remuneração desse tipo abre um enorme espaço para a corrupção. Já que 60% a 75% do salário vem em forma de “auxílios”, a tentação para falsificar relatórios é grande. Basta uma nota de despesa falsa para garantir um aumento extra no salário. Essa situação é agravada pela falta de transparência nas contas das Associações, Uniões e Divisões. Os membros da igreja não têm condições de saber quanto e como o dízimo arrecadado nas igrejas foi gasto pela Organização. As auditorias acontecem de cima para baixo (Veja o próximo subtítulo sobre Auditorias).
2) O desperdício é grande. “Já que grande parte de meu salário vem em forma de aluguel residencial, assistência médica sem limites, vou morar no melhor apartamento que puder, vou muitas vezes ao médico e ao dentista e sempre escolho os melhores. Sempre me hospedarei no melhor hotel que puder”, e assim por diante.
"O Senhor pede abnegação em Seu serviço, e essa obrigação cabe aos médicos, assim como aos ministros. Temos perante nós uma obra intensiva, que requer meios, e devemos convocar
ao serviço jovens que trabalhem como ministros e médicos, não por amor dos salários mais elevados, mas por causa das grandes necessidades da causa de Deus." Ellen G. White - Carta 330, 1906 - Citada em Mensagens Escolhidas. Vol. II, pág. 199.
3) O ingresso dos novatos - teologandos recém formados - não se baseia numa avaliação íntegra, imparcial e justa. O tráfico de influência é enorme. Os filhos dos pastores com altos cargos na Organização têm seu futuro garantido. Os que não têm “Q.I.” (Quem Indique), sofrerão muito para vencer o nepotismo.
4) Política. O jogo do poder é grande. Um aluno de Teologia que se indispuser contra um professor ou diretor do Seminário ficará “queimado”. Na época do "chamado" as suas audácias serão lembradas. O outro lado da moeda: que professor ou diretor tratará mal um teologando filho, sobrinho ou neto de um grande poderoso da Divisão Sul Americana? Seria um suicídio denominacional.
5) Mais política: o jogo do poder rateará cargos e comissões entre correligionários amigos, e massacrará os inimigos partidários. Um candidato a presidente de Campo, dará um tapinha nas costas de um distrital que almeja “subir”, prometendo-lhe ascensão, caso tenha sua militância para ajudá-lo a se eleger. (Isso é uma realidade. As Trienais, Quadrienais, Quinquenais, são verdadeiros palcos de fantoches. As decisões são combinadas atrás dos bastidores e homologadas pelos delegados- fantoches).
6) Aumentando os benefícios fica muito mais fácil convencer os membros da igreja de que o pastor ganha pouco, apenas R$ 3.841,46. Claro! Este é o valor líquido que lhe chega às mãos. Mas, a relação de benefícios e auxílios é desconhecida da maioria dos membros contribuintes.
7) Com muitos auxílios e benefícios, mas com pouco dinheiro, o pastor fica “amarrado” à Corporação. Mesmo se discordar do sistema e fizer planos para sair, ele não consegue fazer o “pé de meia” e acaba comprometido com esse sistema que lhe dá uma gama enorme de auxílios. Como a concessão de auxílios vem da administração da Corporação (Associação/Missão), numa questão que envolva interesses dos membros da igreja e dos líderes da Corporação, o pastor sempre apoiará a liderança da Corporação.
https://pt.scribd.com/document/687299480/Quanto-Ganha-Um-Pastor-Adventista
(Acesso em 01/02/2026)
"Se existe um Céu onde os fariseus passarão a eternidade, eu prefiro passar a eternidade no inferno."
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