Deslocações – Lugar, Memória e Identidade Social na Cidade do Porto
Entrevista 2, 23 de janeiro de 2025
Davide Duarte
E - Que idade tem o senhor?
e - Eu ainda não cheguei lá, mas a título, assim, de brincadeira, este ano, ainda não cheguei lá, mas vou ver se lá chego aos 28 anos.
E - O senhor tem 81 anos?
e - Exatamente.
E – Não parece, vou-lhe já dizer que não parece.
e – Meu caro amigo, já cá estou há 18, e quero ver se este ano chega aos 28. Vai passar 10 de uma vez, veja lá.
E - Nasceu no Porto?
e - Eu sou da freguesia de Massarelos, de nascença. Vivi, antes de casar, 30 anos, 29 anos, foi com a idade que eu casei, na Rua da Vitória, não sei se sabe onde é.
E – Sei, sim senhor.
e - Portanto, tem a antiga Cadeia Civil do Porto, na Cordoaria, depois tem aquela rua onde tem uma igreja que eu agora não me lembro o nome, tem a Igreja da Vitória ao fundo, e era por detrás mesmo, da parte de baixo, uma rua que começava na Rua dos Caldeireiros e acabava nas Taipas. Fui nascido e criado aí nessa rua, até aos 29 anos, a idade com que eu casei. Fiquei sem pai quando fui para o Ultramar, quando fui para a tropa, tinha 20 anos. O meu pai faleceu em maio. Eu fui para a tropa em julho. Já tinha um irmão meu, que já faleceu, também já estava na tropa, estava no Ultramar já. E tinha três meninas, três irmãs, e a mais nova tinha seis anos, na altura. A minha mãe ficou viúva com 50 anos, mais ou menos, mas também já faleceu, com 93 anos.
E - Ela trabalhava?
e - Não, não, ela nunca trabalhou. Ela trabalhou quando veio da aldeia, que ela era… Há aqui uma história muito importante. É que ela era de Resende e veio trabalhar naquele tempo, naquela altura, para criada, para as casas. E o meu falecido pai era de Santarém. Quando a minha mãe casou verdadeiramente, pela igreja, eu já andava na escola, na terceira classe.
E - E o seu pai o que é que fazia?
e - O meu pai trabalhava num armazém de ferro na Rua da Almada. Não...
Continuar leituraDeslocações – Lugar, Memória e Identidade Social na Cidade do Porto
Entrevista 2, 23 de janeiro de 2025
Davide Duarte
E - Que idade tem o senhor?
e - Eu ainda não cheguei lá, mas a título, assim, de brincadeira, este ano, ainda não cheguei lá, mas vou ver se lá chego aos 28 anos.
E - O senhor tem 81 anos?
e - Exatamente.
E – Não parece, vou-lhe já dizer que não parece.
e – Meu caro amigo, já cá estou há 18, e quero ver se este ano chega aos 28. Vai passar 10 de uma vez, veja lá.
E - Nasceu no Porto?
e - Eu sou da freguesia de Massarelos, de nascença. Vivi, antes de casar, 30 anos, 29 anos, foi com a idade que eu casei, na Rua da Vitória, não sei se sabe onde é.
E – Sei, sim senhor.
e - Portanto, tem a antiga Cadeia Civil do Porto, na Cordoaria, depois tem aquela rua onde tem uma igreja que eu agora não me lembro o nome, tem a Igreja da Vitória ao fundo, e era por detrás mesmo, da parte de baixo, uma rua que começava na Rua dos Caldeireiros e acabava nas Taipas. Fui nascido e criado aí nessa rua, até aos 29 anos, a idade com que eu casei. Fiquei sem pai quando fui para o Ultramar, quando fui para a tropa, tinha 20 anos. O meu pai faleceu em maio. Eu fui para a tropa em julho. Já tinha um irmão meu, que já faleceu, também já estava na tropa, estava no Ultramar já. E tinha três meninas, três irmãs, e a mais nova tinha seis anos, na altura. A minha mãe ficou viúva com 50 anos, mais ou menos, mas também já faleceu, com 93 anos.
E - Ela trabalhava?
e - Não, não, ela nunca trabalhou. Ela trabalhou quando veio da aldeia, que ela era… Há aqui uma história muito importante. É que ela era de Resende e veio trabalhar naquele tempo, naquela altura, para criada, para as casas. E o meu falecido pai era de Santarém. Quando a minha mãe casou verdadeiramente, pela igreja, eu já andava na escola, na terceira classe.
E - E o seu pai o que é que fazia?
e - O meu pai trabalhava num armazém de ferro na Rua da Almada. Não sabia ler nem escrever. Não conheciam uma letra, ele e a minha mãe. Mas teve sempre uma coisa de bom. Éramos oito, mas três faleceram, ficámos cinco. Três raparigas e dois rapazes. Mas nunca admitiu que nenhum filho saísse naquele tempo da escola, que não tivesse a quarta classe. A minha irmã mais velha foi a única que andou na escola até aos 15 anos. Sem fazer a quarta classe, não saiu, porque ele dizia-nos muitas vezes que, para analfabeto, bastavam ele e a mulher. E, pronto, fui criado ali na Vitória.
E - Nessa altura, devia ser um ambiente interessante.
e - Ai, ai, era um ambiente um bocadinho….
E - Falava-se dos índios da Vitória…
e - Isso era a mesma coisa como o Bairro do Aleixo, tinha muita fama. O Bairro do Aleixo tinha muita fama. E a gente ali na Vitória, aquilo era uma rua de pobres. Vivia-se ali, mas vivia-se bem. Vivia-se melhor do que o que se vive hoje. Eu hoje passo na rua… Agora já não vou lá, já não passo muitas vezes, porque eu ia lá à minha mãe. E tinha lá uma irmã minha. A minha mãe viveu sempre na mesma casa, e eu, de vez em quando… Agora, custa-me lá ir. A minha casa era virada para a rua. Eu entrava na rua pelo lado das Taipas, ela estava sempre ali na janela. O que é que me custa? Entrar lá, a gente tem aquela intuição e olha, não é? E não a vejo… Tenho lá a minha irmã mais velha, mora lá um bocadinho abaixo, mas raramente agora passo lá. E fui ali criado naquela rua. A minha mulher é que é natural da Ribeira.
E - E ela é que tinha ido para o Bairro do Aleixo, a sua esposa?
e - A minha mulher era da Ribeira, morava nas escadas do Barredo, [número] 14. E a gente casou com 29 anos. Vim do Ultramar com 24 feitos. Estive em Angola 26 meses. Vim com 24 feitos e casei aos 29, porque tive que recuperar os três anos e tal de tropa, da minha liberdade. Tive que recuperar o tempo que eu perdi da minha juventude, de jovem solteiro, não é? Não devia nada a ninguém. E, por tal, só casei com 29 anos. Mas eu e a minha mulher, no namoro, na altura, porque a minha mulher na altura foi, como se dizia naquele tempo, virgem à igreja…
E - É mais nova?
e - É mais nova dois anos. Mas, para a gente depois fazermos a nossa vida, ainda andei esse tempo, e depois é que…
E - O senhor, antes de ir para a tropa tinha trabalho, já?
e - Eu trabalhei, eu descontei para a Segurança Social cinquenta anos.
E - Então começou muito novo.
e - Eu comecei a trabalhar aos 12 anos.
E - Aos 12 anos…
e - E deixei de trabalhar com 63. Porquê? Porque aproveitei naquela altura a reforma de velhice. Ainda apanhei uma lei que havia no tempo de Salazar, que, com 63 anos, reformava-se. E como eu já tinha 50 anos de descontos, tinha direito a um bónus de 3 anos. Aos 63, com os três anos, fez os 65. E fui reformado por limite de idade, mesmo.
E - Começou a trabalhar onde, aos 12 anos?
e - Eu sempre trabalhei na mesma arte, eu e a minha mulher, a fazer livros para ensinar burros.
E - Encadernação?
e - Exato, vê, já percebeu, mas há gente que não chega lá. Há gente que pergunta: “Que arte é essa?”. “Não sabes?”. “Não”.
E - É uma arte do Porto.
e - Trabalhei mais ela na mesma oficina, 30 anos na mesma oficina, os dois.
E - É uma arte muito bonita.
e - Entretanto, meteu-se o 25 de Abril, e eu já tinha o meu filho com um ano, um ano e tal, e a minha filha quase com um ano.
E - E aí estava a viver…
e - Eu casei e fui morar primeiro para o Infante, virado para o rei. E depois começaram a haver as casas no Aleixo, e tal. A minha mulher e a minha falecida sogra, como ainda tinham a casa no Barredo, eram os chamados filhos do Barredo, nós viemos então para o Aleixo, para a terceira torre, para o décimo segunfo andar. E viemos morar para aqui. Portanto, morava lá em baixo, tivemos direito, viemos para aqui, e por acaso nós tivemos um ano sem pagar aluguer e água e luz, e tal, mas pronto.
E - Isto era em 1975?
e - Ora bem, eu morei aqui no Aleixo 46 anos. Eu morei no Aleixo 46 anos. Aqui.
E - Então deve ter sido no início.
e - É, foi logo no princípio, mal as casas começaram a ficar prontas, nós viemos, começámos logo a vir para cá. Eu morei aqui no Aleixo 46 anos. A partir daí, depois de eu morar aqui, pronto, formou-se então uma comissão de moradores.
E - Chegou ainda a viver muito tempo ali no Infante?
e - Ah, ainda cheguei, ainda cheguei, a minha mulher ainda veio de lá [risos]… Os meus filhos nasceram lá em baixo no Infante. Do meu rapaz, ela trabalhava comigo na mesma oficina, já estava no fim do tempo, e começou a sentir qualquer coisa. “Vamos embora”. Chegámos a casa, ao Infante, e tal, ela veio ao talho comprar não sei o quê. Havia uma parteira – naquele tempo havia as parteiras habilidosas –, “Pronto, chama lá a senhora”. Lá veio a senhora da Ribeira. Ela estava a ter o bebé e eu em casa, olhe, nunca mais me esqueço, estava a dar um filme português, a Aldeia da Roupa Branca. É verdade. A minha casa era no terceiro andar, tinha o quarto, depois para o outro lado tinha a sala de jantar, e tal. Eu estava a ver a televisão, o filme. Eu chegava lá: “Então?”. “Está quase”, está assim, está assado, “já lhe apalpei o cabelo”, está assim, está assado, e não sei o quê. E eu fui ver o filme. Acabou o filme era meia-noite [bate na mesa para imitar o bater na porta]. “A maré está a encher”, “a maré está a vazar”. “Oh, minha senhora, nem está a encher, nem está a vazar, nem está nada. Vamos embora!”. Chegámos à rua, apanhámos um táxi, zás, Hospital de Santo António. Diz a senhora: “Pronto, o senhor agora pode ir embora, porque isto agora vai demorar”. Eu vim embora. E é como eu lhe digo, a minha falecida mãe estava na janela à minha espera. Eu entrei na rua, e ela: “Olha, amanhã levantas cedo e vais com a Glorinha” – que era uma senhora que morava na Vitória, que trabalhava no Santo António –; “Vais com ela para cima, que ela vai lá ver, que já lhe disse”. “Está bem”. Levantei-me no noutro dia, que era o primeiro, fui à Vitória, lá venho com a senhora, ainda aí elas entravam pela parte das visitas, os funcionários, iam marcar o ponto. “Espere um bocado, vou marcar o ponto, e vou já ver o que é que se passa, e venho já para baixo”. Passado um bocado, lá veio ela: “Tens lá um rapaz, nasceu às oito menos cinco, com quatro quilos e meio e 57 centímetros de comprido”. E ela queria ter em casa! A senhora deu-lhe para aí nove injeções. E o médico: “Quem foi a senhora que lhe deu as injeções? Você estava sujeita a perder o filho e a morrer. Esta criança era muito grande, comprida, você não sabe o perigo em que se estava a meter”. Quando foi a vez da minha filha, eu ainda morava no Infante, “Não há cá parteiras aqui, não, vamos embora!”, e fomos a pé do Infante até ao Santo António. Mija aqui, mija acolá, e tal, a última mijadela encostou-se à estátua da senhora do tribunal, na Cordoaria. Chegámos, levei-a lá para dentro, passado um bocado veio uma enfermeira e perguntou: “O que é que já tem em casa?”. “Tenho um rapaz”. “Então, olhe, nasceu uma rapariga, pode ir à sua vida e amanhã pode cá vir visitá-la”. Pronto. Do meu rapaz… A minha mulher, eu trabalhava na oficina, mas não tínhamos patrões já, na altura, era isso que eu ia dizer há bocado. Foi no pós-25 de Abril.
E - Os empregados geriam.
e - O patrão tinha falecido, e tal, os herdeiros eram uma filha e uma mulher casada em segundas núpcias, e o marido da filha era major, estava em Angola, e ela veio cá quando o sogro faleceu. E chegou ali, depois do funeral, e tudo, reuniu o povo: “Meus senhores, é assim, a minha esposa não percebe nada disso, e eu muito menos, estão aqui as chaves da casa, se vocês quiserem trabalhar, a gente passa-vos uma procuração, a alguém, e vocês trabalham; senão, fecho a porta”. Mas já não foi a mesma coisa, a partir daí passei um bom bocado, já não foi a mesma coisa, sabe como é. Uns começaram a vir embora, e eu fui um dos últimos a ir embora. Sujeitei-me a vender jornais, nos campos de futebol. A minha mulher foi para as firmas de limpeza. Chegou a trabalhar em quatro ou cinco firmas de limpeza. Levantava-se às cinco e meia da manhã. E eu sujeitei-me a ir vender jornais para os campos de futebol, para a Feira Popular, para o Palácio. Entretanto, apareceu-me uma oficina. Precisavam de uma pessoa, de um encadernador, em Milheirós, na Maia. E eu não tinha carro na altura. E eu fui lá à experiência. “Você quer vir trabalhar?”. “Quero, sim senhora”. “Está dentro do assunto, venha trabalhar”. Levantava-me às cinco da manhã, no Aleixo, para apanhar o 35, na altura, até a Avenida dos Aliados, para depois apanhar o 95, para Milheirós. Chegava ao trabalho às oito menos um quarto, oito menos dez.
E - Que idade é que tinha, mais ou menos, nessa altura?
e - Ai, nessa altura, não sei.
E - Já estava no Aleixo.
e - Nessa altura, tinha para aí trinta e tal anos, já. Tinha trinta e tal anos.
E - Esteve lá muito tempo?
e - Eu estive lá naquela casa quase trinta anos, a trabalhar. Já tinha trinta e tal anos e vim aos sessenta e três. E tinha que levantar-me de manhã a essa hora. E então, aquilo também era uma oficina gráfica, de artes gráficas. Na altura das escolas, naquele mês, julho, agosto, setembro, até à entrada de outubro, tinha que se fazer serão até à meia-noite.
E - Claro.
e - Eu vinha à meia-noite. Apanhava o 7 na Maia, para chegar ao Aleixo à uma hora da manhã. Andei assim uns anos. Mas... endireitámos a nossa vida. Por acaso, foi uma casa que, ordenado sempre certinho, horas extras que a gente fazia sempre certinhas. Subsídio de férias, subsídio de Natal. No primeiro ano em que eu lá estive, que não tinha direito a férias... o patrão chegou à minha beira: “Ouça, Davide, quando é que você quer ir de férias? Sim, você tem direito a férias”. “Eu nunca fui de férias. Eu nunca tive férias”. “Não, você tem direito”. “Olhe, mande-me quando quiser”. E lá vim 15 dias, a receber dinheiro. Andei assim. Depois, pronto, a oficina era boa, trabalhava-se bem, ordenado certinho. A minha mulher também começou a trabalhar nas empresas de limpeza. Vira, vira, endireitámos a vida. Olhe, até hoje.
E - Vamos voltar àquela passagem...
e - Do Aleixo.
E - A passagem do centro histórico, do Infante, para o Aleixo. Lembra-se de como é que esse processo aconteceu?
e - Ora bem, esse processo… Quando a gente veio aqui para o Aleixo, quem tinha direito à casa era a minha falecida sogra. E embora a minha sogra fosse viver comigo, naquela altura, quando eu casei, eu também tive uma vida… Eu criei uma sobrinha da minha mulher, mesmo, criei-a desde os seis anos. Casou na minha casa, fomos nós que fizemos o casamento. E eu, quando aluguei casa, quando casei para vir para a minha casa, eu tinha que trazer a minha sogra. E a minha mulher: “A minha mãe não vai ficar sozinha”. “Pois não”. “Mas ela tem a casa no Barredo”. “Não faz mal”. Eu também não ia dizer que não. Então, a minha sogra veio viver comigo. Mas ficou sempre com a casa no Barredo. Sempre. Sempre, sempre. Nunca abandonou a casa. Quando as torres começaram a ser feitas e ficaram prontas, e quando a Câmara começou a mandar as pessoas do Barredo para cima, eu morava no Infante, mas a minha sogra é que tinha direito à casa, porque estava no Barredo. E eu peguei, então, vim por aí acima, ver o que é que eu ia escolher. Porque ainda havia aquela hipótese de a gente vir logo. Então, escolhi a terceira torre, que era virada para aqui para a Afurada, no décimo segundo andar. No décimo segundo andar. Pronto. Quando eles deram ordem para a gente vir para cá, eu acartei os móveis por aquela escadaria acima, que ainda não havia elevador. Depois de a gente morar aqui, formou-se então uma comissão de moradores.
E - O senhor esteve ligado, na altura?
e - Estive, sim senhor. Uma comissão de moradores.
E - Já era comissão no Aleixo ou ainda era…?
e - Não, não. Comissão de moradores aqui no Aleixo, já.
E - Porque também havia uma do Barredo.
e - Pois, pois. Mas era aqui do Aleixo, nosso. Então, o que é que nós fizemos aqui como comissão? Ainda chegámos a fazer aí umas coisas. Portanto, tínhamos aí rapazes, na altura, que hoje já são pais de filhos, criámos aí uma, estilo dos bombos, como os Mareantes do Rio Douro, criámos aí, que havia aí chavalos que tinham uma habilidade com latas. Eles tocavam. Éramos chamados para ir para aqui e para acolá. Éramos chamados, eu ia com eles, fazia parte da comissão, eu ia com eles. Éramos chamados e eu ia com eles, fazia parte da comissão. E era o Grupo de Latas do Bairro do Aleixo. Foi criado por eles e por nós naquele tempo, comissão de moradores. Entretanto, houve pessoas que faleceram, outras que saíram, e fomos obrigados a mudarmos de comissão para associação. Pronto, daí entrou mais gente.
E - Diga-me uma coisa, antes de irmos aí, que essa parte é muito importante. Portanto, a sua sogra veio consigo, também, e com a sua esposa, e com os seus filhos para aqui, não é?
e - Pois, pois.
E - Mas ela depois manteve lá a casa e regressou, ou…?
e - Não, não, não, não. Ela tinha direito, eles depois no Barredo remodelaram casas para os moradores irem daqui para lá. Quem quisesse. Quem quisesse, foi. Porque é assim: a minha sogra morava à face das escadas, que era só uma sala, naquele tempo, onde tinha cama, cozinha e tudo, e por cima morava outra família. E eles daí fizeram só uma casa. E depois, nem toda a gente daqui teve direito a ir.
E - Já não cabia toda a gente, não é?
e - Pois, não cabia. Mas eles depois começaram a embrulhar, porque, na altura, que isto contaram-me, e dava a impressão que era a realidade, começaram a não querer o povo que estava aqui para lá. Aquela comissão que havia no Barredo, o CRUARB, começaram a querer meter pessoas da equipa deles, lá para baixo. E então daqui foram para aí duas ou três famílias, se tanto, não foi mais.
E – Eu, na altura, fiz uma contagem, penso que não foram mais do que seis.
e - Não, não. E a minha sogra, a minha sogra não foi, porque a minha sogra era das primeiras a ser chamada para ir para lá. A minha falecida sogra, ela era das primeiras a ir. Mas, como ela era da Arrábida, a minha sogra era da Arrábida...
E - Era nascida na Arrábida?
e - Era, era. E ela não foi porque estava na terra dela. Ela não foi para o Barredo porque estava na terra dela. Porque, se ela quisesse ir, ela era das primeiras. A segunda ou a terceira a ser chamada, que era das mais antigas do Barredo. Mas ela, como era da Arrábida, disse que não saía daqui.
E - Então, e como é que o senhor se envolveu depois na comissão?
e - Depois, formou-se então uma comissão de moradores. Para quê? Para a gente tratar de coisas que eram precisas. O que é que nós fizemos? Em primeiro, começámos por exigir à Câmara os pré-fabricados para a canalha ter escola. Veio muita canalha do Barredo. Batalhámos nisso. Pré-fabricados, aí uns seis ou sete, que eles puseram ali, cada um custou 600, na altura, 600 contos, para a canalha ter escola. Até fazerem a dita escola, que é, não sei se você já passou lá, há lá uma parte que está vedada, que é o terreno, aí é que estavam os pré-fabricados da escola. Depois nós exigimos mesmo para fazerem a escola, mesmo, exigimos mesmo, batalhámos muito na Câmara, muito, e, na altura, também havia, que nos ajudou muito, um presidente da Junta [de Freguesia] aqui, que ele [risos], ele ia à Câmara, ia para lá, batia com o punho em cima de uma mesa, eles até ficavam burros, pá! Sabe, sabe o que é que lhe fizeram aí? Eu não vi, mas disseram que foi verdade. Na altura de umas eleições, para meterem um presidente do PSD, até lhe apontaram uma pistola. Disseram aí. E ele disse que já tem um buraco feito. Então, nós lutámos pela escola, e veio os pré-fabricados, e depois fizeram a escola. E fizeram a escola. Há lá uma parte, quem entra no Aleixo, assim por aqui, tem aquela mercearia, que a gente vai por lá fora, havia a terceira torre naquele lado, que era onde eu morava. E em baixo nós queríamos fazer aí, num largo, onde tem uns campos de futebol, um anfiteatro. E nós tínhamos, na comissão de moradores, tínhamos engenheiros, muito nossos amigos. A gente estava lá, pedia, e eles faziam logo o projeto. Houve projetos feitos na Câmara Municipal de Porto. Estava lá, eu agora não tenho a certeza, mas, naquela altura, parece que havia não sei quantos contos, lá metidos, para fazer essa dita obra. Até hoje, nunca mais fizeram. E o dinheiro desapareceu. Eu sei porquê.
E - Havia um projeto, um centro cívico, naquele meio, onde ficava ali entre a[s Torres] 3, 4 e 5…
e - Pois…
E - Onde depois construíram os campos de futebol, que era todo um espaço de equipamentos, precisamente, que contemplava lojas, contemplava o anfiteatro, contemplava isso tudo.
e - Pois, pois.
E - Chegou a haver projetos.
e - Nós, como comissão de moradores, batalhámos muito. Nós, como comissão de moradores, fomos para a Câmara, porque antigamente as torres tinham os interruptores, as luzes, em cada andar, não é? Mas nem todos nós somos iguais. E o que é que acontecia? Vinham alguns, naquele tempo, com os copos, no lugar de carregar, era a soco, e os interruptores partiam. E nós, então, tivemos que resolver, falámos com os engenheiros, o que é que se podia fazer para evitar aquilo. O que é que se podia fazer, o que não se podia evitar, o projeto, tal e tal. Vamos avançar com isto. Fecha-se os buracos todos, põe-se com a luz com o relógio, cá em baixo, no sítio onde estava o coiso das máquinas, os fios dos elevadores e dos telefones, cá em baixo, com o relógio, acendia, ligava, desligava. Eu fiz muitas vezes isso. Eu fiz muitas vezes isso. E depois, quando os elevadores começaram a funcionar, os elevadores começaram a funcionar, tinha que se escolher, a Câmara veio aí escolher alguém que tomasse conta dos elevadores em cada torre. Eu disse: “Eu não tomo”. “O senhor não tem responsabilidade nenhuma, é só é para eles saberem, quando vierem para fazer manutenção, onde é que está a chave. Você não tem responsabilidade nenhuma”. Porque, para pedir uma manutenção, eles ligam, eles sabem que vão à casa X, e que a chave está lá. Eu tinha a chave da casa das máquinas. Mas aqueles elevadores, sabe como é, nem todos nós somos iguais, como disse há bocadito. E eu tive o cuidado de olhar bem pelos elevadores da Torre 3. E porquê? Eu tinha o trabalho de, vinha ao café, e aparecia às onze e meia, ou meia-noite, e desligava o elevador. Levantava-me de manhã, às cinco e meia, seis menos tal, e ia ligá-lo. Ui! Você não sabe o que eu ouvi, os trabalhos que eu passei, as bocas que eu ouvi. Que tinha a mania que era dono, que ele é que manda, ele é que põe o dispõe, e tal. E eu enchi, enchi, enchi. Uma ocasião falei com o Renato: “Ó pá, eu queria aqui o povo da torre, aqui em baixo, um morador de cada casa, porque eu quero pôr aqui um problema”. Lá se ajeitou maneira, a maioria deles um dia à noite, irem à associação, que já era a associação debaixo da torre onde eu morava, e fazer uma reunião. Eu então disse: “Eu vou-vos pôr um problema, e vocês ou querem ou deixam, ou resolvem. E eu desligo os elevadores, sim senhor, e ligo de manhã. Agora, eu pergunto, vocês estão em casa, são mulheres casadas, têm filhos pequeninos, têm que ir às compras, têm que ir aqui, têm que ir acolá. Os elevadores ficam ligados à noite, eles vêm com os copos, socos nas portas, avariam os elevadores. E depois, como é que vocês vão? A pé? Os filhos ao colo? Eu deixo-os ligados. Se eles aparecerem avariados de noite, problema vosso, eu vou trabalhar, só venho à noite”. Começaram logo: “Tem razão!”. “A mim não me interessa. Eu subo bem, eu subo e desço bem a pé. Subo bem, desço a pé. Agora, eu estou a olhar pela vossa situação. Porque vocês estão aqui, de dia, têm filhos, precisam de ir às compras, se não tiverem elevador… e se o elevador estiver desligado de noite, quem vem à meia noite ou às três da manhã, vem muito bem a pé, que vem da zona. Eu tenho trabalho, eu tenho trabalho, mas quero ver se consigo que isto funcione sempre, para que vocês tenham elevador durante o dia. Agora, se vocês não querem isso, eu deixo ligado. Se eles avariarem de noite, olhe, problema vosso”.
E - Isso foi sempre uma situação problemática.
e - Eu tive, tive… “Ai não, não, não, pronto, então deixe estar, faça isso, faça isso”.
E – Mas, regressando a esses tempos da comissão, o que é que mais recorda?
e - Aí era associação, já…
E - E a passagem de comissão para associação?
e - Acho que, segundo a lei, o Renato deve saber, depois veio uma lei, uma lei qualquer, teve que se fazer uma reconstrução como associação. Deixou-se a comissão para ser associação. Ainda há coisa de uns dias tivemos que assinar, tinha que vir assinar o relatório de tudo para mandar, lá para a segurança social, e tal. Fomos obrigados mesmo a mudar para associação de moradores.
E - Continua a fazer parte da associação também?
e - Continuo a fazer parte na mesma.
E - Mas quando passou de comissão para associação?
e - Continuei na mesma. Tive esse trabalho com os meus elevadores, tive esse trabalho, mas consegui convencê-los. Eu hoje chegava, era uma risota que eu, de verão, vinha de trabalhar, ia até ao café, à beira-rio, ia para cima, onze e meia, meia noite. Estavam as mulheres, não sei se você viu, quem entra para lá da mercearia tem aquela parte larga, que era a cabine. Estava ali muita gente sentada, de verão. Eu vinha pelo passeio fora e ouvia: “Vamos embora, vamos embora, vamos embora, vem aí o senhor Davide, senão vamos a pé”. As galinhas entravam no galinheiro. Mas as outras torres, moradores, toda a gente: “Eu não percebo, na terceira torre há sempre elevadores. O elevador não falha”. Eu trabalhei na oficina, mas hoje ainda faço serviço de empregado de mesa. Ainda sirvo casamentos ao fim de semana. Ainda sirvo muitos casamentos. Ainda passo, entre, às vezes, sexta e sábado e domingo, ainda trabalho à volta de quarenta e tal horas. E eu muitas vezes vinha dos serviços, às vezes, um corte de corrente, às vezes a luz ia abaixo. Não falha. Às vezes vinha de trabalhar ao sábado, à meia-noite ou à meia-hora, ou qualquer coisa. “Ó senhor Davide, não há elevador”. Passaram aqui no Aleixo para aí cinco empresas. Era a Ludgero, era a Efacec, era a Schindler, agora parece que era a Schmitt, a última. Eram quatro ou cinco empresas. Mas todos eles, quando tomavam conta, vinham, chamavam-me: “Senhor Davide, é assim, se às vezes ele parar, você vem cá em cima, tem aqui o botão, desliga e liga outra vez e ele vai memorizar ao primeiro andar e está a funcionar”. Quantas vezes: “Ó senhor Davide, não há elevador, está parado no seis ou no sete”. “Então esperai que eu já venho”. Tinha que subir a casa, ao décimo segundo, buscar a chave, vinha para baixo, abria a porta onde estava a casa das máquinas, desligava, ligava. Vamos embora. “Já há elevador, já há elevador! O serviço já ligou, já há elevador”. E andei assim muitos anos a tratar dele.
E - Para além do seu trabalho na comissão e depois na associação, como é que era assim a vida de todos os dias? O senhor Davide também trabalhava...
e - Pois, a minha vida era aquilo que lhe dizia. Eu trabalhava, saía de manhã e chegava à noite.
E - Mas continuava a falar com os seus vizinhos…
e - Pois, mas eu raramente… ninguém me via, praticamente, às vezes, porque eu trabalhava em Milheirós, agora, eu pegava às oito horas. Quando fazia serão até às oito, chegava a casa às oito e meia, nove, já tinha carro, depois. Quando fazia até à meia-noite, raramente me viam.
E - Também vinha à sua vida, ia lá em baixo ao cafezito...
e - Quando saia às oito, ia. Quando trabalhava até à meia-noite...
E - Como é que era, nos primeiros tempos, como é que se recorda do dia-a-dia, do ambiente?
e - O ambiente, eu digo-lhe uma coisa, nunca tive que dizer do ambiente do Aleixo. É certo que, pronto, há de tudo em todo lado. Há de tudo em todo lado, mas nunca tive mais do que isto para dizer de ninguém. Inclusive, eu às vezes vinha e parava o carro, iam lá à minha casa: “Senhor Davide, você deixou o vidro do carro aberto”. Nunca me faltou nada. Nunca me tiraram nada. Nunca tive problema nenhum, mesmo. Eu sei que havia muita gente que vivia do negócio que vive, cada qual é quem é, mas nunca tive nenhum problema. Nunca.
E - E esse trabalho com a rapaziada das latas? Participou em mais algumas...
e - Não, não, não... Depois isso começou a acabar. A única coisa que eles depois tiveram, já eram outros novos, foi que nos ofereceram uma viagem a Lisboa, àquela coisa que fizeram novo, que tinha lá de tudo, lá dentro…
E - A Expo?
e - A Expo. Tinha lá de tudo. Então eles mandaram um ofício qualquer, para miúdos de risco irem visitar a Expo. Tinha que ir alguém com eles. Empurraram o Davide com eles. Fomos de camionete, transporte gratuito, comer e beber lá. Eu acho-lhes piada, eles, numa ocasião, o grupo das latas, foram atuar a um pavilhão ali para Gaia. E foi, na altura, no aniversário qualquer de uma escola, não sei o quê. E aquilo era uma escola de meninos queques. Eles foram lá atuar, e tal, e depois esses miúdos tinham um lanche que as pessoas lhes davam. Aos meus também lhes deram alguma coisa. Mas sabe como é que é, os miúdos queques abriram aquilo, e tal, deixavam. E eles... Pá! Miúdos que, muitas vezes, pouco comiam em casa, havia aí muita miséria. E eles... Pá!... Então, ofereceram-nos essa viagem à Expo, e lá fomos. Aquilo, para entrar, estava uma pilha de gente para entrar, meu Deus. Eu falei: “Meu Deus, como é que eu vou fazer?”. E havia lá uma entrada que era para deficientes, e tal. “Ó menino, é isto assim, assim, assim, tenho aqui uma série de crianças de risco”. “Venha por aqui, entrem por aqui”. Andaram a passear, a ver tudo, visitar tudo, comer e beber à grande e à francesa. Isto foi uma oferta, não sei de quem foi. Quanto ao resto, olhe, é o que eu lhe digo. Era o Bairro do Aleixo, que digo uma coisa, ainda hoje tenho saudades e gostava muito do Aleixo. Independentemente de...
E - O que é que gostava assim mais?
e - Olhe, gostava do sítio onde eu morava. Eu moro no Bairro da Mouteira. Tenho um tipo 3, que era como a minha casa no Aleixo. É igual, é a mesma coisa. Só tem uma diferença do Aleixo, que a minha cozinha era para aí deste comprimento [faz um gesto descrevendo uma distância], e aquelas são mais pequenas, não é? Mas a casa é igual. É um tipo 3 com os três quartos, e tal. É igualzinho. É a mesma coisa. Eu moro no terceiro, eu também tinha pedido para o Aleixo, porque infelizmente tenho uma mulher doente, é diabética, e tem insuficiência cardíaca. Tenho artrose nos ossos. E hoje custa-lhe muito andar. Ela nem vem à rua sozinha. Tenho que vir sempre com ela, eu é que faço as compras, faço tudo, faço a comida em casa, faço tudo.
E - Quando é que passou para a Mouteira?
e - Ora bem, dá-me impressão que já estou na Mouteira há sete anos. Há sete anos.
E - Houve aquele período em que, primeiro, foi o anúncio da demolição das torres; demoliram a cinco e depois demoliram a quatro. Depois, o senhor Davide ainda ficou lá uns anos.
e - Demoliram a quarta eu ainda lá estava, que a quarta até ficou metade direita e o resto quase que batia na terceira torre. Demoliram essa. Eu tinha pedido…
E - Isso é um aspeto importante.
e - Eu tinha pedido para ir para o Bairro da Mouteira, está a perceber? E porquê?
E - Mas deram-lhe as possibilidades?
e - Eu escolhi para o terceiro andar. E porquê? Ora, com licença, eu já lhe mostro, quer ver? Porque eu tinha a casa neste estado [mostra fotografia], pode carregar para ficar maior.
E - Humidade. No décimo segundo andar.
e - O décimo segundo. Eu tinha a minha casa nesse estado. Como vê, eu tinha que andar a pôr plástico no teto porque chovia, a água... E eu então tive que ir à junta de freguesia primeiro.
E - Porque nunca houve, assim, também…
e - Pois, porque isto que você vê aqui, da casa estar assim, eu estou a falar da minha, onde eu morava, tem razão de ser. Porque, desde que eu morei lá, a Câmara nunca pregou um prego naquela torre. Nunca. Em torre nenhuma. Não fez nada em torre nenhuma. Nada. Nunca fez nada. Ora, você está a ver... Uma torre virada para o rio, virada para o mar, com treze andares a levarem com os invernos todos ali... É lógico. Tem a sua lógica. Eu chegava a casa e tinha que andar a pôr estas coisas. Então, eu fui à junta, pedi ação social. E depois eu fiz uma carta, até foi o Renato, fiz uma carta bem feita por causa da minha esposa, tem insuficiência cardíaca, relatório médico, e tal, e tal. E mandei para a Câmara, para a ação social, porque não conseguia estar ali a viver com a minha mulher naquelas condições. Pronto, aquilo passou-se um tempo. E uma ocasião, onde eu vinha não sei de onde, cheguei a casa, até vi uma vizinha que morava à minha beira, que já faleceu, também, diz a minha mulher: “Olha, ligaram da Câmara a dizer para tu estares lá no dia tal”. “Oh, estás a brincar! Estás a brincar!”. E diz essa moça: “Senhor Davide, é verdade, que eu ouvi no telefone”. Uma quinta-feira para eu lá estar às três da tarde. Eu disse à minha filha, mas ela morava já na Mouteira, e ela disse: “Ó pai, vou contigo”.
E - A sua filha morava lá.
E - É, eu moro pegado a ela, agora. Ela mora no terceiro direito, fui eu que escolhi. A minha mulher era para ficar em baixo, eu era para ficar em baixo. Mas, como a minha mulher é muito doente, infelizmente, e a minha filha está mais ou menos inserida na medicina, ela percebe um bocadinho disso, e eu pedi para vir para o lado dela. É que assim a minha filha trata da mãe porta com porta. Para mim é uma mais-valia. Independentemente de ser terceiro andar, para mim é uma mais-valia, que é. A minha filha está ali, está a sempre a olhar pela mãe.
E - A sua filha ainda viveu…
e - A minha filha casou, fui eu que fui para a Câmara com o vereador, que ele até era vereador das Águas do Porto, foi há alguns anos, ele é do Partido Comunista.
E - O Rui Sá.
e - O Rui Sá, pois. Eu fui lá com ela, já a minha filha andava grávida, eu fui lá com ela, fui falar com ele, e diz ele, até diz assim: “Ó Senhor Davide, você não diga que a sua filha vai ter aqui a criança”. “Ó senhor doutor, o que eu preciso… a minha filha não a pode ter lá em casa. Eu preciso de uma casa para ela”. E andou, andou, andou, até que consegui um desdobramento para ela, aqui para a Mouteira. Entretanto, a coisa passou-se. Eu fui à Câmara, fui lá com a minha filha, e a doutora que me atendeu, da ação social, disse: “Pronto, senhor Davide, tem aqui a chave, você vai para o [Bairro do] Cerco do Porto”. Dei-te um salto da cadeira, e diz a minha filha assim: “Ó doutora, você não mate o meu pai do coração”. E diz ela: “Não, pegue lá a chave, só vai para onde escolheu, para o Bairro da Mouteira, no terceiro [andar]. Pegue lá a chave”. Vim para aqui, para a Mouteira, já há sete anos e qualquer coisa, vai há sete anos que saí do Aleixo, ainda eles, ainda não tinha ido tudo abaixo, nem tinha saído tudo. E eu, como já estava inserido assim no assunto, dizia ao povo muitas vezes, ao que ficou lá: “Vocês preparem-se, vão pedindo para sair, que ainda há casas aqui à beira de vago, vão pedindo, vão falando, porque senão, quando tal, vocês são obrigados a sair”. “Não, não, a gente só sai daqui para daqui a dez anos ou mais”. Há aí um moço que trabalha por conta própria, que disse muitas vezes: “Nem penses, a gente só vai sair do Aleixo daqui a uns dez anos”. “Não queres ir por mim, eu estou dentro do assunto, e sei o que se passa, e vocês não”. Quando tal veio a ordem, zás, foram não sei para onde. Houve uma moradora do Aleixo que até levou advogados para a Domus Social, não queria ir para tão longe. “Vocês têm esta casa e esta, escolhe; quer, quer, não quer, deixe ficar”.
E - Como é que se recorda desse período? Entre o início da demolição…
e - Foi um período muito complicado, foi, porque as pessoas, sabe como é, as pessoas não queriam sair daqui. As pessoas não queriam sair daqui, eu vi gente, quando foi abaixo a quinta torre, eu vi gente a chorar ali na rua. Eu não posso admitir, eles diziam assim e assado, mas eu boto as culpas muito a esse senhor em que votaram. Eu não falo com ele, ele até se deu ao luxo de ir de barco para o meio do rio, beber espumante e ver a torre ir abaixo, sabe? Ele é que foi o culpado, porque nós tínhamos, nós, na associação, na comissão de moradores, comissão e associação, tínhamos o projeto todo do terreno, do terreno Aleixo, o projeto todo, e aquele terreno do Aleixo tinha quinze mil metros quadrados, que eles avaliaram quinze mil metros quadrados, que tinha o valor de quinze milhões de euros. Só quando este Rui Moreira entrou para a Câmara, passado um tempo, foi ver os dossiês, e tudo, o terreno do Aleixo não tinha quinze mil metros quadrados, tinha doze mil metros quadrados, e porquê? Porque a escola não estava, e eles englobaram a escola, e tudo, e aquele terreno da escola não tinha nada a ver com o terreno do Aleixo, sabe? Olhe, para mim eles fizeram isso com o benefício de alguém, e não sei se não, não vou falar de cor, mas houve grandes benefícios, houve muitos benefícios naquele terreno, porque eu considero, e digo uma coisa, é um terreno muito acessível. Iam construir ao cabo de um ano. Já lá vão sete anos, quase, não vejo nada a ser feito, a única coisa que eu vejo é erva a crescer e eles a fazerem lá campismo. Mas pronto.
E - Para os moradores, para as pessoas que estavam lá, foi…
e - Houve muita gente a chorar, você não imagina, aquilo foi como, foi quase a mesma coisa como você pegar numa faca e espetar no coração de uma pessoa, sabe? Não tem assunto. Para quê? Será que o pobre não tinha direito a viver num sítio privilegiado? Não tem. Pelos vistos, não tinha. Para quê? Para o terreno agora estar abandonado? Para o terreno agora estar ali, tinham que construir, iam construir quando? Quando? Eu digo-lhe uma coisa, não me saem 100 milhões de euros, senão eu até construía ali uns bons apartamentos, porque tem umas vistas formidáveis, pá. Para quê? Tirar o povo dali, povo que nasceu ali, gente que nasceu ali, gente, os meus filhos nasceram ali, pá. E quem diz os meus, diz milhares de pessoas que moraram lá, nasceram naquele bairro. Cada qual é quem é, só se mete nas coisas quem quer. Eu criei lá dois filhos e criei mais dois que não são meus, mas criei mais dois, e um ainda está em minha casa.
E - Agora estão a viver ali todos.
e - Da minha família, estou a viver eu e a minha mulher.
E - A sua vizinha, que é a sua filha…
e - A minha filha, que está pegada, está ao lado.
E - O seu outro filho também vive lá? O seu filho também vive lá?
e - O meu filho, que não é meu, mas que fui eu que o criei. A minha filha mora ao lado, tem a casa dela, e o meu filho também tem, nas Fontainhas. Agora, criei dois que não são meus, mas criei da mesma maneira, desde a idade de meses. A rapariga já tem uma menina, mas mora ali para lá à beira do Campo 24 de Agosto, e ele é que mora comigo, mas ele também tem uma filha, já tinha de um namoro que ele teve, mas ele ainda está comigo, o rapaz, que ele não quer sair da casa, porque está bem, pronto.
E - Há duas coisas interessantes, importantes, já estamos a falar há algum tempo, vamo-nos aproximando do fim da nossa conversa – se houver alguma clarificação, também mais à frente voltamos a falar –, mas uma é falarmos um pouco sobre a sua vida agora, neste novo local, como é que tem sido a sua vida nestes últimos anos, como é que são, também, as relações de vizinhança, diferenças, também, que vê relativamente ao que era a sua vida no Bairro do Aleixo, isso por um lado; e, por outro lado, também falarmos da sua vida associativa que, apesar de tudo, ainda vai continuando, ainda continua a ter essa relação com a associação.
e - Ora bem, eu onde moro não tenho nada que dizer dos vizinhos, nada, nada, mesmo nada. São pessoas impecáveis, pessoas educadas, mesmo. Eu também nunca fui mal-educado com ninguém, inclusive a minha filha até é gestora do prédio, é gestora de entrada. O meu genro é eletricista, e, às vezes: “Diz ao teu marido que falta aqui uma lâmpada, aqui nas escadas”. Em casa de ferreiro, espeto de pau… Mas ele trabalha por conta própria e às vezes chega muito tarde. A vizinhança não tenho o mínimo que se aponte.
E - Estão lá, no seu prédio, ou perto, outros moradores que também foram dali [do Aleixo]?
e - Está lá, à minha beira, estão lá três famílias, são três famílias. Está lá o moço que era taxista no Aleixo. É, são três famílias que vieram do Aleixo que moram lá, comigo quatro.
E - Continua a conviver com eles?
e - Continuo a conviver, não há problema nenhum.
E - E com os que já lá viviam, de outros sítios? Tudo tranquilo também?
e - Tudo. É bom dia, boa tarde, está tudo bem, e tal. Aliás, eu no Aleixo também não via, pelo menos, sabe como é, quando mora muita gente, às vezes havia uma discussão, um barulho, e tal, mas pronto, isso era normal, isso era natural. Olhe, só tenho saudades do Aleixo sabe quando? Na noite de São João. Na noite de São João, você sabe, o interior das torres, aquela parte larga.
E - Os cinco apartamentos.
e - O São João era maravilha, pá. Assar sardinhas, ficava aquele cheiro por lá acima, e eles: “Davide, vá abrir a porta!”. Eu tinha o porta-chaves do terraço, abria a porta, mas era um cheiro, era um convívio, toda a gente a comer cá fora, na galeria, sardinhas, eu tinha lá uma mesa grande, e eu e o meu filho… e ia lá muita gente comer sardinhas. Aqui, tive que vir assar para a rua. O meu neto: “Vai assar sardinhas, ‘vô?”. “Vou assar sardinhas e venho com elas para cima, não estamos no Aleixo” [risos]. Mas era um convívio maravilhoso, toda a gente a assar sardinhas na galeria. Havia aqueles tais, que eram mais agressivos, e tal, mas pronto, é como tudo em todo o lado. Mas nunca… morei lá quarenta e tal anos, nunca tive o mínimo de problema com ninguém, nunca, nunca tive o mínimo de problema com ninguém, mesmo com ninguém. Também tinha uma coisa de bom lá, que agora… era o estender roupa nas galerias, a gente tinha as cordas e eram as famílias ali, uns tinham umas cordas, outros tinham outras, de um lado e do outro, nunca havia aquele problema. Nunca tive complicação nenhuma com ninguém, nem lá, nem aqui onde moro. Nunca tive.
E - E uma coisa interessante, realmente, uma vez que estamos aqui a fazer este trabalho também sobre a associação, sobre os cinquenta anos da associação, é que, mesmo sem bairro, continua a haver associação, que é uma coisa engraçada, e o senhor Davide manteve-se aqui sempre ligado.
e - Eu mantive.
E – É do tempo da dona Rosa [Teixeira, “Rosa do Aleixo”] também?
e - Sou, sou. Era a presidente, foi receber a medalha ao Presidente da República. Ela também era daquelas que era de gancho, para os moradores ela batia o pé pelo bairro, em benefício do bairro. Deus me livre! Ela batia o pé e de que maneira. Tanto é que ela foi receber a medalha, daquelas mulheres que o Presidente condecorava. Era um espetáculo, era, como presidente da associação de moradores, era um espetáculo. Depois, o Renato já fazia parte, depois parece que agora está um bocadinho debilitado, e tal, e o Renato continuou. E eu disse, quando viemos para aqui: “Ó Renato, eu já não moro no Aleixo. Se você acha que eu… se quiser que eu continue, eu, para mim, não me interessa, eu, desde o momento que seja precisa alguma coisa, estou pronto, estou disponível, desde o momento que possa…”. “Isso não tem nada a ver, o Bairro do Aleixo é a Associação de Moradores de Aleixo, ponto final, o bairro acabou, mas você continua na Aleixo”. Pronto, e estou aqui na mesma, na associação, quando é preciso qualquer coisa, quando tem que se fazer qualquer coisa, faz-se. Estamos aqui na mesma, até ver. Agora vamos ver até quando, não sei. Não sei, é dar avanço, e um gajo já começa a perder a paciência, sabe, já são 82 anos. E ele sabe como é. Eu ainda me sinto com capacidades para desenvolver a minha atividade. Eu trabalho, como lhe disse, ainda faço as minhas coisas, faço as minhas coisas em casa, infelizmente a mulher não pode, tenho que fazer todos os dias comida para sete, até vou trabalhar ao fim-de-semana, e tal, também se ganha algum, não é? Ainda a semana passada fui atender os funcionários da McDonald's, alguns chegavam à meia noite para comer, daqueles que estavam mais longe, ainda eram para aí trezentos e tal.
E - Era um jantar da McDonald's?
e - Jantar da McDonald's de Natal. Foi na semana passada. Ainda trabalho, ó pá, eu podendo, não é que… A minha filha e o meu filho: “Julgas que és novo!”. Enquanto eu puder… O meu filho mais novo é: “Deixai-o andar, enquanto que ele puder, deixai-o andar”.
E - E aqui, quanto à associação, uma última questão para acabarmos: o que acha que a associação ainda pode fazer?
e - A associação tem feito um trabalho exemplar e, digo-lhe já, temos aí um homem à altura, que não sei se haveria outro igual, de certeza que não há. Nem parecido. Temos aí um senhor à altura, que se dispõe a gerir a associação, que igual nem parecido talvez haja.
E - O senhor Davide conheceu-o em miúdo.
e - O Renato é uma pessoa que também zela muito pelos interesses, que sempre zelou, já no Aleixo, sempre ajudou as pessoas que iam lá pedir isto e aquilo, ele estava sempre pronto, sempre disponível, desde o momento que possa. E também tenho que lhe dar o valor, que ele qualquer coisa que as pessoas precisem, ele está sempre pronto, disponível, só se não puder, em último recurso, mas, de resto, não tenho nada que dizer, nada, mesmo.
E - Agora torna-se difícil envolver outras pessoas…
e - Torna-se difícil porque há pessoas que não se querem meter assim nestas coisas, porque, não sei, ou com receio de alguma coisa, ou com medo, não sei, mas…
E - Também o facto de não existir o bairro…
e - Pois, pois.
E - As pessoas estão espalhadas.
e - Pois, pois. Já há pessoas que, há aqui um colega que também faz parte, mora aqui na Pasteleira Nova. Eu moro na Mouteira, e há mais dois ou três também que moram aqui em baixo, nos prédios, agora houve alguns que foram para longe, e que não podem vir, em… Eu estou aqui, enquanto ele quiser, enquanto eu estiver disponível, quando eu não estiver disponível, e quando ele não quiser, olhe!
E - Já agora, uma última notazinha, não sei se depois a Leonor quer acrescentar alguma coisa, mas uma última notazinha: o terreno, lá está, continua, continua lá…
e - Continua a erva a crescer.
E - O que é que acha que se podia fazer ali? Acha que se podia fazer alguma coisa? Acha que a associação devia ter alguma ideia para…
e - Não tem hipótese, a associação não tem hipótese nenhuma, porque eles não nos dão ouvidos, se eles nunca deram em algumas coisas que a gente queria, agora muito menos. Eles não dão hipótese, tomáramos nós ter hipótese de fazer ali alguma coisa para a gente. Tomara a associação ter hipótese, eles empurraram-nos logo de lá para fora, para vir para aqui, empurraram-nos logo de lá para fora. Por conseguinte, a associação não tem hipótese de ter ali nada, mesmo nada.
E - Agora já existe um projeto para ali.
e - Existe, existe, agora, segundo aquilo que o projeto que havia, não sei o quê, iam fazer não sei quantos apartamentos, com não sei quantos andares, e tal, já lá vão sete anos e eu não vejo nada, já lá vão sete anos e eu não vejo nada. A única coisa que eu vejo é eles a irem lá de vez em quando cortar a relva, só, mais nada, mas não vejo nada e é triste. Eu às vezes passo lá de carro e ponho-me a olhar, e fico desiludido, fico triste, mesmo. Fico mesmo triste, pá. Eu morava aqui tão bem. Eu estou bem, estou bem, não tenho nada que dizer, não tenho nada a apontar, nada, nada. Mas, às vezes, a gente encontra-se, ou na entrada da merceariazita, ou qualquer coisa, que saudades do nosso Aleixinho. E então hoje, as vizinhas também vão lá ao pão de vez em quando: “Ó senhor Davide, vá ligar o elevador!” [risos]. “Eu vou buscar a chave e já vou!”. “Vá ligar o elevador, que está parado no sete!”. Que saudades, saudades, mesmo. Mas a gente não manda, há quem manda mais que nós. Mas ele entendeu que havia de tirar o povo dali, aquele senhor, que é para não dizer outra coisa, para não ser malcriado, entendeu que havia de tirar o povo dali e empurrou-nos de lá para fora. E eu arranquei, eu também tinha mesmo que sair, mediante as condições que a minha casa tinha, quantas vezes eu, em casa, mais a minha mulher, a chover, e eu ia buscar plástico. Passei trabalhinhos, mesmo, pá! Tinha a miúda que eu criei, ela dormia lá no quarto dela, quantas vezes eu tinha que ir lá pôr o plástico colado com fita-cola e virado para a parede, para a água escorrer assim para a parede. E chegou a ver o teto da casa de banho? Eu tinha um teto da casa de banho que metia medo, eu tinha um teto da casa de banho que metia medo às pessoas. E eu andava sempre atrapalhado, chove… Quanto ao resto, olhe, meu caro senhor, não tenho nada a apontar aonde moro, dou-me bem com toda a gente, toda a gente me cumprimenta e eu também, não tenho problema nenhum. Na associação, estou disponível, sei que tenho plena confiança, e de que maneira, no Renato, não tenho que me preocupar com nada, sei quem está, sei como ele é, sei do que ele é capaz, não tenho que andar a ir pelas frinchas das portas a ver o que é que se passa, não preciso. Tenho plena confiança nele, e de que maneira, não preciso de estar preocupado com isso, sei que ele que faz as coisas em prol da associação e tudo o que ele faz e que ele pede é em prol da associação e das crianças que temos aqui. É isso que ele faz.
E – Muito obrigado mais uma vez, foi uma conversa muito importante para nós, muito obrigado.
Recolher