Nasci no Acre, em Sena Madureira, em 15 de maio de 1923, de um parto muito especial de dez meses, em um dia de lua cheia e de pé. Tive uma infância fabulosa e absolutamente livre no mato, caçando e pescando, e fazendo amizades com meus amigos índios que me ensinaram muito. Meu pai, Dr. Antônio Pinto de Arial, poeta, filósofo e magistrado, foi uma figura crucial, pois foi ele quem me ensinou as primeiras letras, já que não tive escola primária. Ele me incutiu um espírito guerreiro e de coragem, participando de revoluções no Acre. Meu avô materno, um seringueiro muito corajoso, que chegou a cortar o próprio pé devido à picada de uma cobra para se salvar, também reforçou em mim a importância da coragem. Meu pai sempre me dizia para ter coragem, persistência, vontade, estudar muito e fazer só o que meu coração pedisse, o que se tornou o lema da minha vida.
Fui para Manaus fazer o ginásio em um colégio salesiano, onde fui interno por apenas dois meses, pois era muito rebelde e não me adaptei à disciplina. Depois fui para Belém para a faculdade de medicina. Durante a Segunda Guerra Mundial, fui convocado para o "Exército da Borracha" na Amazônia. Atuei no serviço de saúde, fazendo a seleção do pessoal, e foi ali que descobri a Medicina do Trabalho, uma especialidade preventiva que não existia no Brasil. Achei formidável, pois era uma medicina preventiva, não curativa, alinhada à sabedoria chinesa que meu pai tanto elogiava, onde o médico só recebia enquanto a família estivesse saudável. Sempre fui o iniciador das coisas e tenho um entusiasmo enorme por tudo que faço, que é a minha mola.
Por uma questão de audácia política, fui para o Rio de Janeiro e continuei meus estudos na faculdade de medicina, onde tirei o primeiro lugar no vestibular, mesmo com muitas vagas disputadas. Após me formar, comecei minha vida de médico em Mococa, no interior de São Paulo, onde me dediquei a aplicar os conhecimentos de Medicina do...
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Nasci no Acre, em Sena Madureira, em 15 de maio de 1923, de um parto muito especial de dez meses, em um dia de lua cheia e de pé. Tive uma infância fabulosa e absolutamente livre no mato, caçando e pescando, e fazendo amizades com meus amigos índios que me ensinaram muito. Meu pai, Dr. Antônio Pinto de Arial, poeta, filósofo e magistrado, foi uma figura crucial, pois foi ele quem me ensinou as primeiras letras, já que não tive escola primária. Ele me incutiu um espírito guerreiro e de coragem, participando de revoluções no Acre. Meu avô materno, um seringueiro muito corajoso, que chegou a cortar o próprio pé devido à picada de uma cobra para se salvar, também reforçou em mim a importância da coragem. Meu pai sempre me dizia para ter coragem, persistência, vontade, estudar muito e fazer só o que meu coração pedisse, o que se tornou o lema da minha vida.
Fui para Manaus fazer o ginásio em um colégio salesiano, onde fui interno por apenas dois meses, pois era muito rebelde e não me adaptei à disciplina. Depois fui para Belém para a faculdade de medicina. Durante a Segunda Guerra Mundial, fui convocado para o "Exército da Borracha" na Amazônia. Atuei no serviço de saúde, fazendo a seleção do pessoal, e foi ali que descobri a Medicina do Trabalho, uma especialidade preventiva que não existia no Brasil. Achei formidável, pois era uma medicina preventiva, não curativa, alinhada à sabedoria chinesa que meu pai tanto elogiava, onde o médico só recebia enquanto a família estivesse saudável. Sempre fui o iniciador das coisas e tenho um entusiasmo enorme por tudo que faço, que é a minha mola.
Por uma questão de audácia política, fui para o Rio de Janeiro e continuei meus estudos na faculdade de medicina, onde tirei o primeiro lugar no vestibular, mesmo com muitas vagas disputadas. Após me formar, comecei minha vida de médico em Mococa, no interior de São Paulo, onde me dediquei a aplicar os conhecimentos de Medicina do Trabalho que havia visto os americanos fazerem na Amazônia. Fui diretor de um hospital que eu ajudei a construir e formei enfermeiras, dedicando-me a melhorar as condições de vida e higiene dos colonos, muitas vezes sem cobrar por isso.
Retornando ao Rio, acabei indo para o Serviço Especial de Saúde Pública em Niterói, combatendo a epidemia de poliomielite e fundando o Hospital Infantil Getulinho, que existe até hoje. Um dia, o governo americano me mandou para os Estados Unidos para estudar Medicina do Trabalho. Lá, me preparei, e embora não tivesse intenção de voltar, o governo americano me pediu para retornar ao Brasil para iniciar a Medicina do Trabalho no país sob novos critérios, em função da Guerra Fria e da necessidade estratégica de proteger trabalhadores em áreas de produção de matérias-primas essenciais como ferro e cristal de rocha.
O governo americano me deu o primeiro laboratório industrial de saúde do trabalhador no Brasil, em Niterói, onde montei minha equipe. Fui responsável por toda a estrutura do serviço médico de Volta Redonda. A Petrobras, ainda em seus primeiros anos, convidou-me para planejar e implantar todo o seu sistema de saúde, incluindo exames admissionais, periódicos, estudos de locais de trabalho e prevenção de acidentes. Em matéria de Medicina do Trabalho, a Petrobras foi pioneira no Brasil, e seus modelos foram posteriormente imitados por grandes empresas como Vale do Rio Doce e CSN.
A segunda grande realização foi a Petros, por uma necessidade da Petrobras. O sistema de previdência social brasileiro gerava uma "quebra de padrão enorme" na aposentadoria dos empregados da Petrobras, que ganhavam bem na ativa, mas recebiam pouco ao se aposentar. Sou o idealizador e organizador da Petros. Não queria imitar modelos estrangeiros, mas criar algo próprio, adaptado à nossa cultura. Para isso, não comecei nada sem saber o terreno, distribuindo cerca de 30 mil formulários para um inquérito completo, o que me deu um retrato detalhado das realidades familiares e regionais para ajustar taxas e benefícios.
A Petros foi concebida para ser uma instituição independente da Petrobras, uma lição aprendida com a falência da Studebaker nos Estados Unidos, onde o fundo de aposentadoria da empresa faliu junto. Minha ideia foi fazer um sistema de suplementação de aposentadoria, onde empregados e empresa contribuem, sem enfraquecer o sistema nacional. Superei resistências políticas e financeiras com audácia e rigor técnico-matemático, contando com o apoio de um grupo de trabalho multidisciplinar. Nunca aceitei que os empregados da Petrobras tivessem vantagens que a comunidade não tivesse, e por isso me opus à criação de hospitais próprios para a Petrobras, defendendo que o dinheiro fosse usado para melhorar os hospitais da rede pública e privada.
Trabalhei como chefe do serviço médico da Petrobras por 27 anos. Tenho dez livros escritos, incluindo um manual de primeiros socorros da Petrobras que foi publicado por O Globo e Folha de S. Paulo por 20 anos, e um livro chamado “Saúde no Trabalho: uma revolução em andamento”, que se tornou uma cartilha para médicos do trabalho. Não busco dinheiro ou fama, mas sim a satisfação de "ter feito e de ter sido eu que fiz". A Petros é um "legado" para o povo brasileiro, e continuo estudando e escrevendo, inclusive para transmitir minhas histórias aos netos.
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