Meu nome é Dalton Francisco dos Santos, nasci em Juazeiro, no Estado da Bahia, fronteira com Pernambuco, no dia 26 de agosto de 195
Fiz o curso de Geologia em Brasília, mas o concluí na Bahia, na UFBA. Assim que terminei este curso, fiz o concurso para a Petrobras, em 1977. No dia 26 de janeiro de1978, cheguei a Aracaju, onde estou até hoje. Antes de fazer o curso de Geologia em Brasília, eu morava numa cidade do interior na Bahia. Nasci em Juazeiro e fui criado pela minha mãe, que tinha uma pensão ao longo de um dos maiores afluentes do Rio São Francisco que é o Rio Grande. Quando eu era criança, morei ali. Era próximo a Remanso e Sobradinho, que hoje estão submersos. Em Barreiras, fiz o curso primário. Tinha que ir para Brasília ou Salvador para fazer o segundo grau e depois entrar na faculdade. Na Petrobras, entrei como geólogo estagiário e meu primeiro trabalho foi no acompanhamento de poços de perfuração. Tive muita sorte quando cheguei em Aracaju, no Estado de Sergipe, que é a Bacia de Sergipe - Alagoas. Nós estávamos no auge da exploração de petróleo. Havia muitos poços pioneiros, tanto na plataforma continental quanto no Estado de Sergipe. Em 1981, houve a descoberta do Campo de Pilar, que é um dos maiores campos da Bacia do Campo de Carmópolis. Começamos nesse setor, no acompanhamento de poços, do início da sua perfuração até o seu final, quando se fez a perfilagem do poço.
A perfilagem foi feita por uma empresa americana que detém o monopólio dessa tecnologia, a Schlumberger. Existem várias formações e camadas sedimentares aqui na Bacia. É preciso identificar e definir o topo dessas formações sedimentares para que a Petrobras tenha um arquivo de dados para o processo exploratório que existe na área. É corrido o perfil, o potencial espontâneo, para ver a potencialidade das rochas, ver se é areia ou folheio. É corrido o perfil raios gamas, que também identifica os pacotes de areia, de folheio, de...
Continuar leituraMeu nome é Dalton Francisco dos Santos, nasci em Juazeiro, no Estado da Bahia, fronteira com Pernambuco, no dia 26 de agosto de 195
Fiz o curso de Geologia em Brasília, mas o concluí na Bahia, na UFBA. Assim que terminei este curso, fiz o concurso para a Petrobras, em 1977. No dia 26 de janeiro de1978, cheguei a Aracaju, onde estou até hoje. Antes de fazer o curso de Geologia em Brasília, eu morava numa cidade do interior na Bahia. Nasci em Juazeiro e fui criado pela minha mãe, que tinha uma pensão ao longo de um dos maiores afluentes do Rio São Francisco que é o Rio Grande. Quando eu era criança, morei ali. Era próximo a Remanso e Sobradinho, que hoje estão submersos. Em Barreiras, fiz o curso primário. Tinha que ir para Brasília ou Salvador para fazer o segundo grau e depois entrar na faculdade. Na Petrobras, entrei como geólogo estagiário e meu primeiro trabalho foi no acompanhamento de poços de perfuração. Tive muita sorte quando cheguei em Aracaju, no Estado de Sergipe, que é a Bacia de Sergipe - Alagoas. Nós estávamos no auge da exploração de petróleo. Havia muitos poços pioneiros, tanto na plataforma continental quanto no Estado de Sergipe. Em 1981, houve a descoberta do Campo de Pilar, que é um dos maiores campos da Bacia do Campo de Carmópolis. Começamos nesse setor, no acompanhamento de poços, do início da sua perfuração até o seu final, quando se fez a perfilagem do poço.
A perfilagem foi feita por uma empresa americana que detém o monopólio dessa tecnologia, a Schlumberger. Existem várias formações e camadas sedimentares aqui na Bacia. É preciso identificar e definir o topo dessas formações sedimentares para que a Petrobras tenha um arquivo de dados para o processo exploratório que existe na área. É corrido o perfil, o potencial espontâneo, para ver a potencialidade das rochas, ver se é areia ou folheio. É corrido o perfil raios gamas, que também identifica os pacotes de areia, de folheio, de carbonato. É corrido o perfil elétrico, que vai definir a presença de hidrocarbonetos, principalmente óleo. O óleo tem uma resistividade, é mais resistivo do que a água. Ele dá um pico relativo maior do que água. Ele é identificativo de hidrocarboneto. Também é corrido o perfil de densidade para ver a porosidade das rochas, medir sua porosidade. São medidas indiretas. E também o perfil sônico. O perfil sônico corre no poço para ser calibrado com a sísmica. Depois disso, tem o teste de formação naquela zona de interesse. Este teste é feito para medir a pressão do reservatório, para ver se é depletivo, se é economicamente viável a sua produção. E, às vezes, em poço pioneiro é feita a testemunhagem, onde desce uma ferramenta que tira um testemunho da rocha e se tira as medidas indiretas da porosidade da rocha, da permeabilidade da rocha. A rocha que vai produzir o petróleo precisa ser uma rocha que tenha uma porosidade relativamente boa e também tem que haver permeabilidade.
Passei um período no setor de desenvolvimento de campos, onde trabalhei com o Campo de Carmópolis. Foi um trabalho mais específico, onde já existia um campo descoberto e que precisava ser desenvolvido. Trabalhei no Campo de Carmópolis, no Sirilizinho que, na verdade, é um campo só. Carmópolis, Sirilizinho, Riachuelo, que fica na parte sergipana da Bacia, são um campo só. Depois desse período, passei para a exploração, que é o setor onde se estuda uma determinada área, para ver suas possibilidades de dar um poço pioneiro, descobrir campos de óleo ou de gás. Depois disso, passei um período de três ou quatro anos em São Mateus, na Bacia do Espírito Santo, para, enfim, retornar para cá.
Entrei em 1978, mas me considero novo na Petrobras. Retornei a Petrobras no Dia do Índio desse ano, dia 19 de abril de 2004. Estava com meu contrato de trabalho suspenso desde maio de 1995, ano de uma greve política que fizemos logo que o Fernando Henrique Cardoso assumiu, querendo quebrar a espinha dorsal do movimento sindical petroleiro que, naquele momento, era uma das categorias mais organizadas do movimento sindical. O que a Margareth Tatcher fez na Inglaterra, quebrando a espinha dorsal do movimento sindical dos mineiros, o Fernando Henrique tinha que fazer aqui para implantar o projeto neoliberal que, infelizmente, o governo atual ainda mantém. Naquele período, estava em jogo a soberania nacional. O projeto primeiro de Fernando Henrique Cardoso era desmoralizar a categoria petroleira, que era um movimento forte e, em seguida, quebrar o monopólio estatal do petróleo. Fizemos uma greve de 32 dias. Uma greve política, não uma greve por salário. Uma greve contrária ao que, hoje, infelizmente, o governo está fazendo: os leilões das nossas reservas de petróleo. No dia 11 de maio de 1995, recebi um documento que mostrava que o meu contrato de trabalho estava suspenso. Eu e mais 10 companheiros que eram diretores do Sindicato e eram militantes.
Retornei em 19 de abril 2004, depois de muita luta. Naquele período, tivemos mais de 100 trabalhadores e dirigentes sindicais demitidos em nível nacional. Foi uma retaliação muito forte, onde 70% da categoria foi punida. Aqueles que fizeram a greve foram punidos, perderam as férias, o salário do mês da greve, tiveram reflexos nas aposentadorias, no 13º salário. E tiveram reflexo também em sua carreira profissional, porque, hoje, não são mais promovidos. Muitos até já se aposentaram, mas continuam punidos. Sou diretor do Sindipetro desde 1991. Estava afastado da Petrobras desde 1995. Fiquei afastado por quase nove anos, com meu contrato de trabalho suspenso. Nesse período, o José Eduardo Dutra, que hoje é o presidente da Petrobras, mas na época era senador, ajudou a construir a nossa greve. Ele entendia que era importante defender a soberania nacional. Ele foi um dos companheiros que contribuiu com o fortalecimento do nosso movimento. Como ele era senador, fez uma lei de anistia ampla, geral e irrestrita. Hoje, chega o governo do PT junto com a Frente Popular no poder. Esperávamos que este fosse o governo das anistias. O presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, foi o primeiro a ser contra o projeto de anistia. Ele tentou assassinar o próprio filho, que era seu projeto de anistia. Fizemos um acampamento de 14 dias na porta do Edesa, o Acampamento da Lona Preta. A Federação Única dos Petroleiros foi contra o nosso movimento, porque a maioria da direção é de dirigentes governistas que apoiam o governo. A maioria dos nossos sindicatos está apoiando a política do governo. A Federação dizia que a Petrobras e o governo estavam resolvendo o problema dos trabalhadores e os trabalhadores acreditavam, quando não era verdade. Fizemos uma caravana da anistia. Andamos por quase todas as bases da Petrobras, em 2002, para garantir a anistia, já que o presidente da Petrobras era contra o projeto de anistia. A partir de 2002, depois da posse do Lula, é que vimos tudo o que eles poderiam fazer. Usaram os trabalhadores. Em todas as épocas, o Brasil foi o país das anistias, o país onde houve mais anistias. Tivemos sucesso nessa manifestação. Esperávamos que este fosse o governo das anistias. E exatamente esse governo foi contra a anistia dos trabalhadores. Eles tiveram que substituir o projeto de anistia de Dutra, um projeto amplo e irrestrito, e colocaram um projeto com restrição. Foi nesse projeto que retornei.
A relação do Sindicato com a Petrobras mudou. Hoje existe uma relação de parceria da maioria dos sindicatos, inclusive da Federação Única Petroleira. Essa coisa já vem de cima, da CUT. Tanto é que a Federação Única Petroleira foi a favor da reforma da previdência, é a favor das reformas sindical, trabalhista, da reforma universitária, como a CUT é. Nos outros governos, estávamos juntos defendendo os trabalhadores. Hoje, infelizmente, quem tem feito uma luta como sempre fizemos, que manteve o ritmo da luta, é o Sindipetro de Sergipe-Alagoas e o Sindipetro do Pará, Amazonas, Maranhão, Macapá. A maioria dos nossos sindicatos são os que estão atrelados com essa política. Tanto é que, todo ano, nossas campanhas salariais são fracassadas. Não temos um calendário de luta. Os nossos congressos viraram uma festa. O último congresso que fizemos em Fortaleza foi num hotel cinco estrelas. Tinha mais gerente no nosso congresso do que militantes. A situação piorou. Hoje, ao invés de estarmos cobrando melhorias para os trabalhadores, a preocupação do presidente da Petrobras é com os seus acionistas, como se a Petrobras fosse uma coisa que não tivesse um compromisso social com o povo brasileiro. A carta do presidente da Petrobras dizia sobre preocupação. Tinha uma história bonita da luta das mulheres, mas a essência de seu documento era a preocupação com os acionistas. Temos o que na realidade da Petrobras? Temos trabalhadores antigos. Eu sou um antigo. Um antigo novo Não temos 30 mil trabalhadores. Tínhamos 62 mil trabalhadores e este quadro foi sendo reduzido, num processo normal que tem a ver com a política de privatização, com a política neoliberal de destruição da Empresa. A Petrobras ficou 10 anos sem contratar, mas agora começou a ter concurso para substituir os quadros que se aposentaram normalmente, uma reposição de quadros. A Petrobras é uma empresa que forma os seus excelentes técnicos. É uma empresa de fornecimento de mão-de-obra para a indústria do petróleo. Tanto é que detém a liderança na perfuração de água profunda. Os trabalhadores da Petrobras não chegam a 40 mil. O número de trabalhadores terceirizados é de mais de 120 mil. No Campo de Carmópolis, há pouco tempo, os trabalhadores terceirizados não tinham acesso ao restaurante da Petrobras. Foi preciso uma luta muito grande para que os trabalhadores ou especializados freqüentassem o mesmo restaurante.
Tem muita história que marca a vida de um petroleiro, como as histórias do movimento sindical. Vou contar uma história de um companheiro. Nós o chamávamos de Toyota, porque ele tremia para caramba. Ele só resolvia seu problema tomando “uma”. E muita gente critica o movimento sindical, principalmente o chefe: “Olha, não se meta com sindicalista que vocês vão ter problema. Vocês não poderão ser chefes, não terá curso para vocês.” Os caras chamam os sindicalistas de doidos. Esta é uma história triste que teve um final feliz, porque o Roberto Toyota foi curado do seu alcoolismo andando com os sindicalistas. Roberto Toyota já estava quase em fase terminal e, hoje, é diretor do nosso Sindicato. Seu grande trabalho, hoje, é curar “bebum”
Acho uma idéia excelente. O Projeto Memória anterior foi feito sob uma determinada ótica. Espero que o projeto atual seja sob a ótica dos trabalhadores. São os trabalhadores que constróem essa Empresa, que constróem o Brasil, que criam seus próprios filhos. Os trabalhadores geram empregos e, por isso, precisam ser bem remunerados. Essa é a causa do desemprego, porque os trabalhadores estão perdendo seus direitos. Só se resolve o problema do desemprego se remunerar bem os trabalhadores que geram emprego para outros trabalhadores. Nós, na Petrobras, criamos algo muito interessante. Os trabalhadores perderam o medo de expressar o que pensam. Isso está muito valorizado na Petrobras e precisa ser ainda mais valorizado. Não podemos ter medo de expressar o que pensamos. As diferenças são importantes para crescer em qualquer sentido, principalmente da política. A política é uma ferramenta de transformação, apesar de estarem querendo desmoralizá-la, justamente porque ela pode construir um mundo de iguais. É aí que vejo a importância desse Projeto. Colocar a fala dos trabalhadores, apresentar os trabalhadores colocando suas idéias, sem medo nenhum, com coragem. Acho que a contribuição do Projeto Memória, com esse enfoque, trará uma grande transformação, não só dentro da Petrobras, mas em nível nacional. Em nome dos trabalhadores de Sergipe - Alagoas e dos demais petroleiros, agradeço a iniciativa de vocês.
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