Projeto Mulheres Empreendedoras Chevron
Depoimento de Maria das Neves Félix da Silva
Entrevistada por Stela Tredice
Duque de Caxias, 26 de abril de 2012
Realização Museu da Pessoa
Código: MEC_HV003
Transcrito por Ana Paula Corazza Kovacevich
Revisado por Joice Yumi Matsunaga
P/1 – Então eu queria que você começasse dizendo seu nome completo, onde você nasceu e a data do seu nascimento.
R – Meu nome é Maria das Neves Félix da Silva. Nasci no dia 10 de abril de 1960.
P/1 – E onde você nasceu, Maria?
R – Em Pernambuco.
P/1 – Em que cidade?
R – Mas eu morei na roça. Não era cidade, não. Era no interior, no interior da cidade de Pernambuco. E nasci de uma família muito humilde. Era muito filho que minha mãe teve. Minha mãe teve dezenove filhos. Dezenove filhos. E na história criou-se só onze. A gente trabalhava na roça de enxada. Meu pai não deixava a gente estudar. É por isso que hoje eu estou estudando. Voltei a estudar com cinquenta e... quarenta e nove anos eu comecei a estudar, ainda não terminei, mas pretendo terminar um dia. Isso me faz muito falta. Porque ele não deixava a gente estudar. E depois que eu cresci, tomei conta de casa, foi que eu comecei a tomar essa decisão de estudar. E também… e quando eu... Ele também não deixava a gente trabalhar em canto nenhum, só lá no serviço dele mesmo. Aí foi o tempo que eu me casei e tive meus filhos. Aí de lá, eu já estava morando na cidade, morava na cidade. Aí depois os meus filhos com catorze anos, quinze, catorze e treze... Aí me separei…
P/1 – Mas calma. Vamos um pouquinho mais devagarzinho. Voltando um pouquinho lá na sua infância. Eu queria saber o nome dos seus pais.
R – Ah, o nome dos meus pais? Maria José Félix da Silva. O meu pai, Francisco Joaquim da Silva.
P/1 – E o que eles faziam, Maria?
R – Trabalhavam na roça também. Trabalhavam na roça e tinham muitos filhos pra trabalhar na roça pra eles. Entendeu? A gente... Eles não deixavam a gente trabalhar em canto nenhum. E foi o tempo que a gente cresceu e nunca que trabalhou em canto nenhum. Aí eu vim trabalhar depois que eu tomei conta de casa. Aí eu vim trabalhar.
P/1 – E como é que você lembra, assim, dos seus pais? Como é que você lembra do seu pai, da sua mãe? Como é que você descreveria eles?
R – É difícil. Fica muito difícil. Olha, meu pai, ele era bom assim porque ensinava a gente. Porque a gente só pegava naquilo que era da gente, se fosse dos outros, a gente podia ver ouro e deixar lá. Isso aí foi que eu aprendi dele. Entendeu? Mas o que eu queria aprender dele mais era o quê, era pra mim estudar pra ter a experiência dos que vivem assim no mundo, pra gente. Porque, sem estudo, a gente perde muito de conhecer as coisas. Entendeu? E ele, pra isso, não se interessou pra botar a gente pra escola. Botava a gente pra enxada, pra limpar mato, de pequenininha mesmo. Agora o quê, agora não pode por causa que falam que é exploração de menor. Mas, naquele tempo, não existia isso e a gente trabalhava tudo novinho no mato, atrás de garrota, atrás de cabrito, trabalhava na enxada. O menorzinho cuidava dos bichos e os maiores trabalhavam de enxada. Trabalhei bastante. Depois que eu vim pra cidade, eu já era grande. Eu já tinha dezoito anos, já.
P/1 – E na sua infância ali, você falou que você teve, então, mais dezoito irmãos, não é? Era você e mais dezoito.
R – Dezoito irmãos. Eu não tenho... não lembro muito dos mais velhos porque eu sou das mais novinhas. Aí, os mais novos é o quê? É quatro, dos mais novos que eu tenho assim... Com esses sim, da turma da gente que eram os menorzinhos. E os outros era quem criava. Minha mãe tinha os filhos e botava os mais velhos [para] tomar conta. Ela ia trabalhar na roça e aqueles mais velhos iam trabalhar. Minha infância foi essa. Nunca brinquei de boneca, nunca. A gente, por quê?... Não tinha energia na casa da gente. Ia água com aqueles potes de barro na cabeça, com aquelas latas, era a infância da gente. Eu não tive infância.
P/1 – E nenhuma outra brincadeira, assim?
R – Não tinha brincadeira. A brincadeira da gente era correr atrás do que fazer. Eles botavam a gente... A gente não tinha uma boneca. Eles não tinham condição de comprar boneca. Eu nunca tive uma boneca. Hoje eu tenho vontade de brincar de boneca, sempre com meus netos, e vou brincar de boneca. Nunca tive boneca. Vou brincar agora. Minha infância foi essa.
P/1 – E você chegou a ir à escola, então? Nenhum momento...?
R – Nenhuma vez. Que ele falava assim... Naquele tempo, os pais... Tinha pai que não era ignorante, não. Mas tinha uns que eram muito ignorantes. Ele era de um que era ignorante. Falava... Não deixava a gente ir pra escola pra não fazer bilhete pra namorado. Tem nada a ver? E a gente não fez bilhete pra namorado e casou. Interessante, não é isso? Ele falava: “Não vai. Filho de pobre...”, ele falava assim: “Filho de pobre não precisa estudar. Só filho de rico”. Eu acho que o direito que o filho do rico tem, o filho do pobre também tem. Porque, hoje em dia, há muita cobrança no estudo. Quem não tem estudo, pra começar a trabalhar. Entendeu? E a gente sem estudo, minha filha, não é nada. Aí, depois que eu tomei conta de casa, fui estudar. Tenho... Eu conheço bastante coisas. Mesmo assim. Sem estudar, no conhecimento das pessoas, vai conversando, a gente vai aprendendo, porque tem gente que estuda e também não aprende as coisas. A gente vai aprendendo no dia a dia, entendeu?
P/1 – E como é que foi, quando que você saiu lá da sua casa em que você morava com seus pais? E como é que foi? Você foi pra onde?
R – De lá, eu fui... casei e fui pra minha casa, na mesma cidade mesmo.
P/1 – Você casou com quantos anos?
R – Com dezenove anos, me arrependi.
P/1 – Mas como é que foi que você conheceu seu marido? Antes de você se casar.
R – Olha. É... Nesse tempo, a gente morava na roça, aí fomos morar na cidade. Eu nunca nem tinha conhecido, nem sabia, ainda era a minha família ali. Aí minha mãe fez uma casa perto da casa do pai dele e a gente se conheceu. E eu fui, me casei por quê? Me casei, não foi... eu acho que a gente não estava nem preparado ainda pra casar, mas pra sair da casa dos pais. Eu só vivia com a minha mãe nesse tempo. Meus pais eram separados e eu só vivia com ela. Mas era uma prisão muito grande, que a gente não podia conversar com ninguém, não podia ter amigo, não podia ter nada. Aí eu pensava assim, ficava sentada e falava: “Caramba, ser um prisioneiro. Isso é uma prisão”. Aí, o primeiro namorado que apareceu eu peguei e casei. Eu me arrependi. Não me arrependo de ter meus filhos, nunca, não me arrependo. Mas, ter casado com dezenove anos, me arrependo.
P/1 – Por quê?
R – Porque eu acho que eu era muito nova, além de sem experiência. Não tinha experiência. E é uma responsabilidade muito grande tomar conta de casa e depois de filho. Muita responsabilidade. Mas eu assumi minha responsabilidade. Não deu certo meu casamento. Já posso contar essa parte?
P/1 – Do casamento? Pode.
R – Aí não deu certo. Passei ainda dezesseis anos, dezesseis anos com o pai dos meus filhos. Aí não deu certo, vim aqui pro Rio.
P/1 – Você veio sozinha?
R – A primeira vez eu vim com ele. Aí vim pro Rio. Na primeira vez, vim com ele e com meus filhos. Aí ele ficava muito perturbando minha cabeça, porque aqui não prestava. Voltei. Aí, quando cheguei lá, faltou minha paciência de novo. Meu coração só dizia: “Volta pra lá. Volta pra lá”. Peguei, conversei com ele que a gente tinha que se separar. Me separei e peguei vim com meus três filhos. Com meus três filhos, um com quinze, outro com catorze, outro com treze. E vim trabalhar. Tinha as minhas irmãs aqui. Tinha a casa delas. Fiquei na casa delas uns tempos. E arrumei um trabalho, trabalhei e sustentei meus três filhos. Cada um está no seu cantinho, entendeu? Já tem seus filhos. Assumi minha responsabilidade, trabalhei e sustentei eles. E construí a minha casa, não terminei minha casa ainda, mas eu construí minha casa.
P/1 – E como é que foi essa primeira vez que você veio para o Rio, Maria, com ele? Qual foi a sua... O que você sentiu quando você viu o Rio, assim?
R – Olha, a gente vinha de lá com muita emoção. A gente vem, na cabeça da gente, a gente vem pro Rio de Janeiro. Mas quando a gente chega aqui é uma coisa muito, muito, completamente diferente. Por quê? As irmãs que já moram aqui chegam lá tudo contando: “Moro no Rio de Janeiro!”. Aqui não é o Rio. Esse pedaço aqui não é Rio. Aí, quando eu vim no ônibus, passei numa pista aí da Reduc. “Vou me embora pro Rio”. Aí quando minha irmã foi me pegar lá no Rio, lá na rodoviária, eu vi, porque quando eu ando, eu ando observando. Eu vi o ônibus passando pelo mesmo pedaço que eu passei. Aí eu fiquei assim: “Hã, mas eu não vim pra morar no Rio? Como é que eu vou morar aqui em cima na roça?.” Aí vim, vim, quando eu cheguei aqui, não era nada daquilo que a gente vem na ilusão. Cheguei aqui, fui morar numa rua com a lama, quando chovia, a lama no pé. Saía com uma bota, com o pé dentro de um saco, pra pegar o ônibus e depois limpar pra pegar outro. Isso aqui eu... Hoje, quando eu falo lá com minha família, eu falo: “Não vem pra cá com essa ilusão. A gente mora numas ruas. Tem rua que é pior de onde a gente mora aí”, entendeu? A gente fala: “É mesmo?”. Ué, porque eu tenho que falar a verdade, não vou falar mentira. Porque a gente vem com uma ilusão muito grande. Aí eu falei: “Meu Deus do céu, vim morar nesse lugar?!”. Fiquei muito, assim, muito chocada do lugar que eu vim morar a primeira vez. E foi aqui mesmo que eles falaram que era no Rio. Eu falei: “Caramba”. Aí eu peguei e fui embora. Aí não deu certo, voltei de novo. Aí vim pro mesmo lugar. Mas, pelo menos, eu já sabia onde era que eu ia ficar. Aí sei que eu estou até hoje. Aí andei, andei, morei na Avenida São Paulo. Morei na Rua Dois, que aí acho que vocês passaram agora. Morei em Saracuruna, que é lá a minha casa. E agora estou morando aqui que é a casa da minha filha, tô com a minha filha.
P/1 – Quer dizer, então você veio sozinha com os três filhos?
R – A primeira vez vim com o pai
P/1 – Com o pai.
R – Me separei, vim com eles três. E vivi a minha vida, cada um está na sua casinha, já. Entendeu? Agora mesmo, eu estou sozinha e vou levar o resto da minha vida sozinha.
P/1 – E, escuta, e aí você começou a trabalhar nessa época que você veio com seus três filhos? Foi a primeira vez que você trabalhou fora?
R – Antes de eu vir, eu já tinha trabalhado lá. Que eu já tinha me separado dele, aí passei cinco meses lá pra poder vir pra cá.
P/1 – Lá onde?
R – Lá no Norte.
P/1 – Trabalhando como o quê?
R – Numa granja de ovos. Aí a gente trabalhava botando ovos nas bandejas na fábrica de ovos, na granja.
P/1 – Quer dizer, foi seu primeiro trabalho?
R – Foi meu primeiro emprego de carteira assinada.
P/1 – E aqui no Rio, quando você chegou com seus filhos, do que você foi trabalhar?
R – Trabalhar de doméstica. Tomar conta de um senhorzinho bem velhinho. Aí, depois, fui tomar conta de uma... de outras pessoas, de um garoto especial, aí, depois, fui tomar conta de outra garota especial. Passei... em uma passei dois anos e quatro meses e nesse último, que eu saí, passei sete anos e quatro meses.
P/1 – Quer dizer, você se especializou em cuidar de pessoas…
R – É foi o serviço que eu encontrei. Porque eu não tinha leitura pra pegar outro tipo de serviço em firma, essas coisas. Foi a minha... Meu serviço foi isso.
P/1 – E como é que você se sentiu cuidando de outras pessoas?
R – Eu me sentia muito bem. Eu fazia aquilo ali não era só pelo dinheiro. Eu fazia porque eu gostava. Porque não adianta você fazer as coisas pelo dinheiro, você tem que trabalhar naquilo que você gosta, entendeu? Eu sempre trabalhei e trabalho, e faço aquilo que eu gosto. Eu gosto de arrumar. Uma coisa que eu não gosto é de passar. Eu faço, mas eu não gosto, não gosto de passar, não. Mas, outras coisas, eu faço e gosto.
P/1 – Quer dizer, você falou pra mim que você chegou ao Rio, que você conseguiu esse trabalho porque você não tinha leitura. Como é que você se virou sem leitura aqui, Maria, no Rio? Como é que foi isso?
R – Ah, eu sou muito observadora. Quando o pessoal me dava o endereço, do ônibus, botava o número tudinho, direitinho. Porque eu já tinha, eu sabia, assim, eu conhecia todas as letras, mas eu não sabia juntar e fazer a palavra. Até hoje eu tenho essa dificuldade. Ler, eu leio melhor. Agora, pra escrever, eu tenho dificuldade. Entendeu? Aí dizia assim: “Ó, pega tal ônibus, tal número”. E outra, a gente tendo boca, a gente não se perde. Aí eu saía perguntando: “Qual é ônibus que vai pra tal lugar?”. Aí as pessoas me falavam e eu ia à luta. Eu ando por todos os lugares, até agora não me perdi ainda não. Mas eu conheço bastante lugar aqui. Ah, também já arrumei uma pessoa muito especial, depois que eu cheguei aqui no Rio. Passeei bastante, conheci vários lugares. Pra mim, foi maravilhoso, e vou levar para o resto da minha vida.
P/1 – Quer dizer, você sente que hoje o Rio é a sua casa?
R – O Rio, agora me acostumei, é aqui que eu estou vivendo. Não sei se eu vou viver aqui pro resto da minha vida. Mas, no momento, eu estou vivendo aqui. Já faz dezessete anos, já.
P/1 – Você falou que você tem três filhos, é isso?
R – Tenho três filhos. Tenho dois meninos e uma menina.
P/1 – E o dia do seu casamento? Você casou pra... meio que sair de casa, mas você se lembra do dia do seu casamento?
R – Lembro. Foi bom porque, na minha cabeça, eu ia viver o resto da minha vida. Eu acho assim, todo mundo que se casa… casa assim: “Vou viver nesse casamento para o resto da minha vida”. Mas é muito... assim, a gente vai com aquilo, mas acontece tanta coisa no momento que não é nada daquilo que a gente pensa. É muito difícil. Entendeu? Viver a dois, ter que ter muita união, muito amor, e muito carinho, muita compreensão, e respeito um pelo outro. Isso aí tem que ter. Se não tiver, acaba. Entendeu? Isso é o que eu estou falando. Naquele tempo, assim, a gente não casava por amor, casava pra sair mais de casa. Eu casei gostando e o amor, pra mim, vinha depois. Mas isso não aconteceu. Aí, por isso que eu acho, eu acho não, eu tenho certeza que não deu certo. Entendeu? E eu acho que tem que ter muita união, muito amor, muito carinho e muita compreensão, se não tiver, não dá certo.
P/1 – E você tem... seus filhos são o quê? Como é que são? Menino, menina? Como é que é?
R – Dois meninos e uma menina. Essa que eu estou tomando conta da menina é da menina. E tenho cinco netos. Tenho quatro netos de sangue e tenho mais um que é adotivo, que é irmão do meu neto. Entendeu? Que ele me pediu: “Vó, você é vó do meu irmão também”. Aí eu falei: “Meu filho, mas eu não posso ser”. Ele falou: “Não, vó, você é vó do meu irmão”. Aí falou com a mãe dele. “Não, meu filho, ela é vó do seu irmão também”. Aí eu tenho cinco netos na história. Uma gracinha ele, entendeu? Adoro ele e ele me adora.
P/1 – E como chamam os seus filhos?
R – Edilson, que é o mais velho, tem trinta anos... acho que é trinta anos. Tem Edmilson, é trinta e um, e trinta, e vinte e nove, que é minha filha. Edilson, Edmilson e Eliana.
P/1 – E o que foi pra você, o que significou pra você ser mãe, o fato de você ser mãe?
R – Ah, muito bom, muito bom. Eu gostei muito. É isso que eu estou te falando, me arrependo de ter casado novinha, mas dos meus três filhos, dos meus três filhos, pra mim é tudo. Entendeu? Porque eu... Os filhos da gente, a família da gente é tudo na vida, não é isso? Pra mim é tudo, pra mim. Meus netos, tudo.
P/1 – E os seus filhos estudaram...?
R – Estudaram, mas desistiram. Eu sempre falo pra eles hoje: “Tem que voltar a estudar”. O mais velho fez o segundo grau e o do meio nem terminou. E a menina, não. A menina foi fundo nos estudos dela. Agora mesmo ela tá sendo... Deixa só eu lembrar um pouquinho. Ela fez faculdade de Administração. Aí ela agora já está no trabalho dela certo, já. Entendeu? Ela foi até o final, mas os meninos desistiram. Mas não foi porque eu não dei força a eles todos. Dei, por causa que eu não queria que eles passassem tudo aquilo que eu passei sem estudo. E, hoje em dia, eu falo pra eles: “Tem que voltar a estudar. Tem que voltar a estudar”. Esse do meio não... não fez o Segundo Grau. Entendeu? Mas, estão trabalhando. Eles, hoje em dia, estão trabalhando por conta própria. Mas eu falo pra eles: “Tem que voltar estudar porque ninguém sabe o dia de amanhã”. Aí ele... não sei se ele vai voltar a estudar.
P/1 – E você voltou a estudar, não é isso, Maria?
R – Eu voltei a estudar. Só não vou... Eu falei: “Eu pretendo fazer o Segundo Grau”.
R – O que você está estudando agora?
P/1 – Ainda estou ainda no comecinho, ainda. Não sei ainda o que é que eu vou... Quando eu terminar, o que que eu vou ser... Como é que chama? A minha função é depois. Não, mas eu estou estudando pra ter conhecimento pras coisas, não é pra depois me formar. Eu queria fazer até o Segundo Grau.
P/1 – E você trabalha atualmente?
R – Trabalho. Trabalho tomando conta da minha neta. Porque minha filha ia arrumar uma pessoa pra casa dela, pra tomar conta da minha neta. E eu já estava lá fazendo as coisas, porque eu trabalhava fora mesmo lá embaixo, como eu estou falando. Aí foi o tempo que ela ganhou nenê e precisava de alguém pra trabalhar pra ela. Aí eu falei assim: “Ó, eu vou trabalhar lá embaixo”. Aí ela falou assim…
P/1 – Por que trabalhar lá embaixo?
R – Porque é cidade. Que aqui é aqui em cima. Eu falo “aqui em cima”, entendeu? Trabalhar lá na cidade.
P/1 – Na cidade, que você diz, é...?
R – No Rio de Janeiro. Porque aqui a gente mora no interior. Aqui é parte da roça. Aí ela falou: “Se eu vou arrumar uma pessoa, de eu pagar uma pessoa, pago pra senhora”. Aí eu trabalho na casa dela. Eu tomo conta, mas ela me pagando, porque eu preciso também do meu dinheirinho. No caso, aí também ela me ajuda bastante, entendeu? Ela me paga e também me ajuda.
P/1 – E... Bom, e você nessas de voltar a estudar, você começou a frequentar a escola, não é isso?
R – Isso.
P/1 – Onde que você ficou sabendo desse projeto?
R – Foi através da tia Lúcia. Tia Lúcia estava aqui no projeto. Aí, ela é muito amiga da minha filha e é amiga minha também. Aí ela falou: “Neves, tem um curso aqui que apareceu da Oportunidade, você não quer ir não?”. Eu falei: “Ah vou, tia”. Nesse tempo, eu não tinha a nenê ainda. Falei: “Vou. Eu não tô fazendo nada mesmo”. Pelo menos é uma distração.
P/1 – A nenê que você diz é a sua neta?
R – Minha neta. Eu fazia as coisas, mas eu não tinha ela ainda. Aí eu falei assim: “Ah, eu vou”. Aí teve o negócio do Artesanato. Aí depois apareceu o curso de Informática. Aí eu estava no Artesanato e fiz o curso de Informática. Foi muito bom, que eu nem sabia mexer no computador, só sabia desligar e ligar. Mas agora eu já sei mexer, sei entrar na internet, já sei mexer em bastante coisa.
P/1 – Quer dizer, o primeiro que você fez foi de Artesanato?
R – Foi de Artesanato.
P/1 – E como que era esse curso? O que é que você aprendeu?
R – Eu aprendi a fazer bolsa, aprendi a fazer cordão, aprendi a fazer boneca, aprendi a fazer brinco, árvore de Natal. Fizemos até árvore de Natal. Fizemos bastante coisa.
P/1 – Mas de que materiais, assim?
R – De... O colar era de tecido, de malha. Brinco… Não sei nem dizer o materialzinho dos brincos... Não tem essas miçangas? Assim, de miçanga. Boneca de tecido também. Como foi o nome disso? Teve mais coisa, mas, na hora que eu vinha, não dava nem tempo de fazer. Eu vinha com a minha neta, mesmo assim, botava minha neta no braço e vinha. Para o curso de informática também. No horário que era… no dia. Tinha dia que o pai dela já estava em casa, que era no dia que ele não trabalhava. Tinha dia que ele trabalhava de tarde, tinha dia que ele trabalhava de manhã. Aí no dia que ele estava trabalhando de manhã, aí, eu vinha com a minha neta. Aí, no dia que ele trabalhava de tarde, ele ficava. Mas eu terminei o curso.
P/1 – E nesse de Artesanato, você já tinha mexido com alguma coisa de artesanato, assim?
R – Eu sei fazer crochê. Sei fazer cinto. Sei fazer bolsa. Sei fazer faixa de cabelo.
P/1 – Isso você aprendeu depois do curso?
R – Não.
P/1 – Você já sabia?
R – Isso aqui eu já sabia. Eu já sabia, já. Que eu já aprendi lá no Nordeste. Aí eu aprendi a fazer crochê. Crochê não foi aqui, não. Aí eu sei fazer essas coisas.
P/1 – Quem te ensinou a fazer crochê?
R – Foi... Eu fiz um curso lá no norte. Tinha um curso lá, eu peguei fiz, aí aprendi. Aí do curso que a gente aprende, a gente inventa as coisas, outras coisas.
P/1 – Então, quer dizer, esse curso que você fez aqui foi só uma forma de você conhecer outras técnicas?
R – Outras técnicas. É outra técnica. É muito bom que conhece bastante gente. Entendeu? Faz bastante amizade com as pessoas. Isso aí é muito bom pra gente.
P/1 – Bom, como é que foi pra você aprender a fazer essas coisas no curso? Foi complicado? Foi tranquilo?
R – Ah, pra mim, foi tranquilo, porque eu presto muita atenção nas coisas quando eu estou fazendo. Aí eu fico com aquela atividade, assim vendo... Se eu vir, assim, você fazer um bolo que eu nunca fiz, pode ter certeza que amanhã eu vou lá e faço. Aí eu presto muito atenção nas coisas que eu estou fazendo. Aí eu aprendo.
P/1 – E teve algum desafio, assim, que você enfrentou nesses cursos que você fez, tanto de Artesanato, quanto de Informática?
R – Um desafio? O meu desafio é quando eu boto assim... Quando eu penso que eu vou conseguir uma coisa, aí eu consigo. Eu fico com aquela... Agora, eu só não consegui ainda terminar meus estudos, mas eu vou conseguir.
P/1 – E o de Informática? Me conta um pouquinho. Você falou que só sabia ligar e desligar o computador.
R – Aí, o professor maravilhoso. Maior paciência com a gente. Bem novinho ele, tem idade de ser meu filho. Muito atencioso com a gente. Ensina com a maior atenção. Quando ele botou ali pra mim, pegar... Porque eu leio pouco, mas, assim, eu vou lendo e fui fazendo, e fiquei toda feliz quando eu soube ali. Prestar atenção... Quando ele botou ali: “Bote o mouse ali e leia e faça de novo”. No dia que eu fui fazer uma casa, ih, foi muito legal. Ele botou pra gente fazer uma casa, aí falei: “Meu Deus”. Mas eu sou horrível de desenho. Ele falou: “Não, você vai fazer. Não vai tirar logo assim no computador e fazer, que assim é fácil, você vai começar a fazer com o mouse”. Passei o tempo todinho, mas eu consegui fazer a casinha. Aí ele falou assim: “Viu? Você falou não sabia, mas você conseguiu”. Meu desafio foi na casa.
P/1 – Você falou até que você aprendeu até a entrar na internet…
R – Aprendi a entrar na internet. O curso foi muito bom. Entendeu? Porque é o básico, e daí a gente vai aprendendo. Eu já aprendi. Ele falou: “Não, você foi muito bem”. Mesmo que eu não sei ler bastante. Mesmo assim, eu compreendo e faço.
P/1 – O que você gosta de ver na internet?
R – Ver sapato. Aí eu mexo lá na parte dos sapatos, nas promoções, ih, vejo. Aí minha filha fala: “Mãe, tu tá muito esperta. Tá até mexendo nos sapatos aí, é?”. Falei: “Viu?”. Negócio de roupa, essas coisas, eu já mexo nessa parte aí.
P/1 – Mas você compra pela internet?
R – Eu não sei comprar. Eu só olho e falo pra ela: “Ó, gostei dessa daqui”. Aí ela vai e faz a compra e chega em casa.
P/1 – E aprender, assim... você já usa o teclado também?
R – Já, já, já. Já faço palavrinhas pequenas, já sei fazer. No caso, eu tenho dificuldade de escrever.
P/1 – E você sente que esse curso te ajudou também a desenvolver?
R – Ajudou, ajudou bastante, bastante, bastante mesmo.
P/1 – Em que sentido, assim, você sente que tem ajudado no seu desenvolvimento de estudos?
R – Aí minha filha fez uma pastinha pra mim. Aí eu vou lá, mexo na pastinha de escola. Aí eu pego, puxo lá, se eu quiser estudar Matemática, eu vou lá e estudo um pouquinho. Português, Ciências, isso aí antigamente eu não sabia nada disso. Mas agora pra mim é maravilhoso, entendeu? Isso, pra mim, foi tudo.
P/1 – Esse curso de computador?
R – Ahãm.
P/1 – Tá... Você continua mexendo no computador?
R – Continuo, continuo. Essa semana passada foi que eu não tive tempo de ir um dia. Aí eu falei pra minha filha: “Ih, essa semana não tive tempo...”. A minha filha falou: “Mãe, o computador está aí. Eu passo o dia todinho fora de casa. Você tira um tempo aí e vai lá no computador”. Entendeu? Essa semana passada eu não fui, não. Mas essa semana eu vou mexer.
P/1 – E o que você sente, que esses cursos, tanto de Artesanato quanto de computador, de Informática, o que esses cursos mudaram na sua vida?
R – Bastante. Porque isso aí distrai muito a gente. A gente fica assim com a mente mais aberta. Entendeu? E... Muito bom!
P/1 – Tá. Assim, quando te falaram desses cursos que estavam acontecendo, não é, o que te motivou? Porque você quis vir fazer, você acha? Você lembra?
R – O que motivou? Ó, meu marido tinha falecido. Não é o pai dos meus filhos, não. Outra pessoa. Aí, tinha falecido e eu estava assim com a cabeça muito assim... Eu estava muito triste. E quando apareceu esses cursos aqui, pra mim, foi muito bom. Pelo menos, a gente chega aqui, conversa, se distrai, aprende coisas diferentes, as pessoas... Deixa eu ver... Trocam ideias uns com os outros, o que um sabe o outro não sabe. Pra mim, foi muito bom.
P/1 – Mas você foi casada depois do pai dos seus filhos?
R – Não, eu não casei. Morei, eu fiquei morando, eu convivi treze anos. Foi uma pessoa maravilhosa, essa pessoa que eu falei que eu conheci bastante aqui, vários lugares, e foi muito bom pra mim, entendeu? Eu conheci muita coisa.
P/1 – Vocês viveram juntos, então?
R – Vivemos juntos treze anos.
P/1 – Ele era daqui mesmo?
R – Não, ele morava aqui, mas ele era de São Paulo. Mas ele morava aqui.
P/1 – Ele faleceu bem novo.
R – Ele faleceu só faz quatro anos, que ele faleceu. Mas foi uma pessoa maravilhosa pra mim. Aí eu falo: “Não, agora para, eu quero parar por aqui mesmo”.
P/1 – Como é que esse... Por exemplo, esse curso de Artesanato que você fez, Maria... Você chega a vender algumas peças?
R – Olha, eu não fiz ainda pra vender. Eu faço, mas eu não consigo vender, por quê? Porque eu não tenho tempo de vender. Aí eu até estava falando com uma amiga minha. Eu vou fazer pra ela sair vendendo pra mim. Entendeu? Porque tem que a pessoa fazer e ter outra pessoa pra vender. Entendeu? Eu não tenho tempo de sair vendendo. Mas assim, meus crochês, eu já vendo. Minha filha leva lá para o trabalho dela. Porque ela usa aí as pessoas: “Olha, quem que faz?”. Ela fala: “É minha mãe”. Aí encomenda, aí eu faço.
P/1 – Tá. Quer dizer, é uma coisa que você já sabia fazer, não é?
R – Já sabia fazer.
P/1 – Mas alguma coisa que você aprendeu nesse curso não necessariamente?
R – Não vendi ainda, não.
P/1 – Quer dizer, dentro dessas experiências, desses dois cursos que você fez, tem alguma história legal que você goste de lembrar? Alguma coisa que te aconteceu, que foi marcante?
R – Daqui do curso?
P/1 – Dos dois cursos, de Artesanato e de Informática?
R – Olha, o que me marcou é que o pessoal aqui é muito legal. Entendeu? Ele chama você... A gente vem e ele fica dando a maior força pra gente aprender esses cursos. Porque é uma oportunidade. Porque, por aqui por perto, não tem essas coisas. E, se tiver, é muito caro, e as pessoas não têm o dinheiro pra pagar. Entendeu? E aqui você tem oportunidade, tem que ir à frente. Entendeu? Pra mim, foi tudo. Guiomar, uma pessoa muito legal, entendeu? Dá a maior força à gente. Não falta, ali, quando ela fala que é aquele dia é da gente, a gente não falta, entendeu? Só se tiver acontecido alguma coisa que a gente não puder vir. Mas, a gente é ali direto, fazendo o curso da gente direitinho.
P/1 – Você pretende continuar?
R – Eu pretendo continuar. Eu estava até perguntando a ela quando vai começar que eu boto a netinha no braço e venho.
P/1 – Aí você vai trazer a sua netinha?
R – Vou trazer a minha netinha. Fiz o curso de Informática com ela e fiz o curso de artesanato com ela também.
P/1 – E como é que você fazia com a sua netinha e fazendo o curso?
R – Na Informática? Aqui no braço mesmo. As meninas, ih, as meninas adoram ela. Vai no braço de uma, vai no braço de outra, e ela fica numa boa. No artesanato, a mesma coisa.
P/1 – Quer dizer, você trazia ela e todo mundo ajudava a cuidar.
R – Todo mundo ajuda a cuidar.
P/1 – Você pretende fazer a mesma coisa?
R – A mesma coisa. Falei pra ela: “Quando tiver, pode ligar pra mim, que eu estou aí”. E ela está aí. Tá vendo? Agora mesmo ela tá lá no braço das meninas.
P/1 – Bom assim.
R – É.
P/1 – E, Maria, me diz uma coisa: o que você acha que hoje, pra você, são as coisas mais importantes que tem?
R – Olha, as coisas mais importantes que tem são meus filhos e meus netos... É tudo pra mim. Sem eles, eu acho que eu fico muito vazia no mundo. Não pode. Entendeu? Eles dão muito alegria pra mim. Me dão força pra eu ir levando até quando Deus quiser.
P/1 – E você tem algum sonho, assim? Quais são seus sonhos?
R – Meu sonho? Olha, antigamente eu tinha bastante sonhos, mas, agora, eu acho que meu sonho agora é menor. Eu quero sonhar hoje e conseguir fazer amanhã, mas a vida não é assim. Porque tem vezes que a gente faz tanto sonho, tanto sonho, que acontece coisas que a gente fala assim: “Caraca, fiz tanto sonho e nem consegui aquilo que a gente quer”. Eu acho que é melhor a gente sonhar hoje e esperar acontecer amanhã. Porque teve um tempo que eu fiz tanto sonho, tanto sonho. Olha, o sonhos mais que eu tive, assim, a minha... que eu pensava muito era ter a minha casa. Mas Deus foi tão bom, tão bom pra mim, que eu consegui. Não tô nela hoje, mas sei que qualquer coisa que acontecer, eu sei que eu tenho a minha casa. Entendeu? Mas Deus é tão bom, tão bom, que eu trabalhei e consegui minha casa. Não terminei ainda, mas eu vou terminar... mas eu consegui.
P/1 – E você sente que, quando você veio pra cá com seus filhos, você enfrentou muita dificuldade sozinha?
R – Muita, muita dificuldade. Entendeu? Morei em quintal de irmã pra poder construir minha casa. Depois foi que eu vim construir minha casa. Morei de aluguel. Saí, não deu certo. Aí fui morar de aluguel e construí minha casa. Muita dificuldade, muita, muita. Mas eu consegui. Só é ter força e não desistir daquilo que você quer.
P/1 – Quer dizer, tudo que você construiu, foi com o seu trabalho…
R – Com o meu trabalho.
P/1 – Cuidando das pessoas.
R – Cuidando das pessoas. Trabalhei na casa de família e consegui, entendeu?
P/1 – Você sempre trabalhou cuidando de pessoas?
R – De cuidar das pessoas. E eu cuidava das pessoas e ainda fazia as coisas. Não era só cuidar das pessoas, não. Fazia o serviço da casa também.
P/1 – Cozinhava?
R – Cozinhava, só não passava. Na primeira casa... Ah, tomei conta de um senhorzinho também. Primeira... Trabalhei na casa de uns senhores também, bem velhinhos. Aí, depois, cozinhava, passava e arrumava. Aí, depois, arrumei outra que eu passava, cozinhava, lavava, e arrumava e tomava conta dessa menina especial. Mas, pra mim, foi tudo maravilhoso. Tudo que eu fiz foi por causa que eu gostava. Entendeu? E por causa que eu tinha que ganhar o dinheiro pra sobreviver. Entendeu? Porque tudo a gente trabalha pra sobreviver. Mas tudo que eu fiz foi porque eu gostava.
P/1 – E você tinha que dormir no emprego?
R – Tinha que dormir no emprego. Nunca tive uma sorte de trabalhar num emprego e vir todos os dias. Todos que eu trabalhei pra dormir.
P/1 – E os seus filhos? Ficavam com quem?
R – Ficavam em casa, sozinhos. Ele tirou... Arrumei uns vizinhos muito bons onde eu morava, numa avenida. É, tinha uma senhora que é o mesmo que ser minha mãe. Olhava eles, eles olhavam ela. Ali, tinha o maior cuidado, ainda hoje ela fala neles. Muito bom. Entendeu? Aí, mas, também, nunca fizeram nada de errado, dormiam sozinhos, passavam a semana sozinhos. Eu só chegava no final de semana. Mas foi tudo, tudo deu certo, Deus ajudou muito.
P/1 – E eles cozinhavam, tudo?
R – Cozinhavam, que eles eram grandes já. Eles mesmos cozinhavam.
P/1 – Quer dizer, então seus sonhos hoje são sonhos...?
R – É sonho pra mim, sonhar hoje e acontecer daqui a três, quatro dias. Não quero sonho muito longo mais não.
P/1 – E com esses cursos que você fez... Você pretende um dia, talvez, trabalhar com alguma dessas coisas que você aprendeu aqui nos cursos?
R – Pode ser. Trabalhar assim em casa mesmo. Entendeu? Ou senão, ensinar aquilo que eu sei. Eu posso até chegar a ensinar as pessoas, aquelas pessoas que não podem. “Ah, eu não posso pagar um curso.” Se eu sei, eu posso ir lá e ensinar. Uma coisa que eu quero aprender ainda é tricô. Tricô eu não sei, tenho a maior vontade. Já comprei a agulha. Tentei fazer em casa, mas eu não consegui. Mas eu tenho vontade ainda. Eu tenho força ainda de aprender o tricô. E se eu souber assim: “Ah, tem alguém que quer aprender”. Eu vou lá e ensino, porque é muito bom a pessoa aprender as coisas. E aqueles que não têm, sonham de aprender, e não tem oportunidade. Entendeu?
P/1 – Você acha que, de alguma forma, esses dois cursos, o fato de você estar aqui com essas pessoas, de alguma forma, mudou um pouco a sua vida?
R – Mudou. Porque é isso que eu tô te falando, a gente tem muito conhecimento das coisas. Aprende muito com as outras pessoas. Entendeu? Porque cada pessoa é diferente. E a gente vai aprendendo um pouco com cada um.
P/1 – Você fez amizades aqui?
R – Fiz bastante amizade. Bastante amizade. Tenho bastante amigas.
P/1 – Vocês se encontram ainda?
R – Olha, a gente se... Um dia desses eu encontrei uma amiga aí na rua, falei: “Ih, cara, como é? Nunca mais te vi”. Ela falou: “É”. É que cada um vai pra seu lado fazer suas obrigações, aí fica difícil de encontrar.
P/1 – Tá ótimo. Tem alguma coisa que eu não te perguntei? Que você gostaria de comentar, compartilhar com a gente sobre essas experiências dos cursos que você fez? Ou alguma experiência da sua vida.
R – Agora não estou lembrada, não.
P/1 – Alguma coisa que eu não te perguntei que você acharia…
R – Não estou lembrando agora, não.
P/1 – Tudo bem. E, Maria, como é que foi aqui essa experiência de contar a sua história pra gente?
R – Ah, pra mim, achei muito legal porque tem coisa que passa no mundo que as pessoas nem sabem. Aí o pessoal fala assim: “Ah, isso aconteceu com fulano”. Aí as pessoas ficam assim: “Ah, a minha história é igualzinha àquela daquela pessoa ali, ó”. Porque não só tem eu. Não só tem eu que os pais não deixaram estudar. Tem várias pessoas. Mesmo lá onde eu estudo, as senhoras e os senhores, tudo, estão estudando hoje porque os pais não deixaram. Não teve essa oportunidade. E tinha escola do governo pra estudar. Eles não deixavam por causa disso. Entendeu? E tem muita história parecida com a outra. Entendeu? Eu acho que não só tem a minha, não. Tem mais história, as pessoas têm bastante história parecida.
P/1 – Você falou muito do seu pai, que não deixava você estudar. E a sua mãe?
R – Minha mãe também, a mesma coisa. Porque, antigamente, o que o pai, o que o marido falava, a mulher tinha que aceitar. Hoje em dia, não. Hoje em dia, é diferente. Ah, o marido falou alguma coisa, a mulher acha que não é certo, vai pra ele e fala: “Não é certo”. E, antigamente, não. A mulher era escrava do marido. Ele tinha a mulher pra quê? Pra ser a mãe dos teus filhos, pra ser a mulher dele e a escrava dele. O que ele falasse, era a palavra dele e pronto e acabou. Era isso o que acontecia com a minha mãe, o que o meu pai falava... ali era a palavra dele, a palavra dela ali não valia. Mas, mesmo assim, depois que ele saiu de casa, ela poderia dizer assim: “Não, agora somos só eu e vocês, vocês podem voltar pra escola”. Mas isso ela nunca botou a gente pra escola, porque pra ela também, ela dizia que escola pra ela não interessava, nem pra gente. Mas, naquele tempo dela, mas agora é uma cobrança muito grande. Ela, mesmo hoje em dia, não sabe nem escrever o nome dela. Entendeu? E eu tenho irmã que não sabe escrever o nome dela, porque ela não teve tempo de ir pra escola depois, depois não se interessou e hoje em dia não sabe. Entendeu? Até falei pra ela. Falei: “Cara, volta pra escola, nem pra você aprender assinar o seu nome”. Porque ela já tá com sessenta e seis anos. “Vai mesmo, você aprende o seu nome, aí”. Ela fala: “Mas eu não tenho cabeça mais”, não sei o quê... Entendeu? Aí fica difícil. Mas eu tenho irmã que nem sabe escrever o nome dela ainda e vai morrer sem saber. Porque os pais da gente não deixou. Minha mãe é nessa parte também, que ela não deixava, não tinha força, assim, aquela voz ativa. “Ah, você não quer deixar as crianças irem pra escola, não? Hoje em dia, pra você não vai servir, mas pra eles, lá na frente, vai servir”. Ela não tinha essa voz. Entendeu? Era a voz dele pronto e acabou. Aí, até hoje, eu falo assim: “Caramba”. Eu fico até... tem dias que eu fico até revoltada com isso, porque eu não fui estudar por causa que ele não deixou. Aí, hoje, eu quero terminar meu estudo. Aí aparece um trabalho, aparece qualquer coisa, aí aquilo ali ainda atrapalha, mas eu vou terminar.
P/1 – E você lembra da sensação que você teve quando você, por exemplo, conseguiu escrever seu nome?
R – Na escola? Ih, fiquei toda feliz, por causa que eu escrevi e conheci as letrinhas. Porque eu nem conhecia as letrinhas, quando eu comecei escrever, a conhecer as letrinhas, falei: “Ih, já tô conhecendo”. Aí a professora falou assim: “Junta uma letrinha com a outra”. Aí eu fazia, mas eu não conseguia. Aí eu falei: “Um dia eu vou conseguir, um dia eu vou conseguir”. Aí meu marido falou assim: “Olha, só é você prestar atenção nas palavras, vai juntando letrinha com letrinha que você vai conseguir”. Aí ele foi me ensinando, esse meu marido que faleceu. Aí ele foi me ensinando e eu fui conseguindo, conseguindo, e já lia bastante palavras quando ele faleceu. Aí eu voltei pra escola de novo.
P/1 – Quer dizer, foi seu segundo marido que te ensinou?
R – Meu segundo marido. Entendeu? Eu aprendi antes dele. Conhecia todas as letras, mas palavrinha eu não sabia juntar. Aí ele me ensinou a juntar as palavrinhas…
P/1 – Quer dizer, de onde você acha que vem esse seu gosto por estudar mesmo sem você ter recebido nenhum estímulo?
R – É a minha força de vontade. Eu fico ali... Eu tenho que conseguir, eu tenho que fazer, eu tenho que ir pra escola, aí… É eu mesmo.
P/1 – E você passou isso para os seus filhos?
R – Passei isso para os meus filhos. Entendeu? Eu botei eles na escola de pequenininho. Aí, quando eles ficaram... Desistiram na quinta série. Aí quando eu cheguei aqui pro Rio, ele ainda estudou. Depois, o mais velho fez o curso que faz dentro de um ano o Segundo Grau. Aí ele pegou e fez, mas o do meio desistiu. Ele falou que gostava de Matemática, mas não gostava de Português. Porque português tinha que escrever e eles não gostavam de escrever. A minha filha não, eu nunca falei assim: “Vai pra escola”. Não, ela ia direto. Sempre ela gostou. Aí, sei que ela terminou, no ano que passou, ela terminou a faculdade. Agora, sempre eu falo para o meu filho: “Volta a estudar, volta a estudar, porque depois vai ser uma cobrança ainda grande pra vocês”. Eu não, já estou com cinquenta e dois anos, minha cobrança agora acho que não vai ter mais não, entendeu? Eu quero aprender pra ter conhecimento das coisas. Isso é porque eu estou aprendendo, pra ter conhecimento. Mas, pra mim, formar, acho que não vai ser mais importante.
P/1 – E por que você acha que é tão importante as pessoas estudarem pra ter conhecimento?
R – Olha, pro trabalho, pra conviver com as pessoas, pra saber os direitos que têm, porque as pessoas que não estudam e não conversam com as outras pessoas, não têm contato, eles não sabem o direito que eles têm. Eu não tenho estudo. Meu estudo é pequenininho, mas eu sei o direito que eu tenho porque eu converso muito com as outras pessoas, as outras pessoas que entendem. Entendeu? Eu converso bastante. Eu sei os meus direitos que eu tenho, de trabalho, as horas que eu tenho que trabalhar, os dias que eu tenho que trabalhar. Em feriado, se você trabalha, você tem que ganhar dois. Entendeu? Patrão nenhum pode obrigar você a trabalhar dia de feriado. Essas coisas. Eu não tenho estudo, mas eu sei que eu tenho esses direitos. Eu tenho direito de férias. Tenho tudo isso. E tem gente que não estudou e não tem estudo, mesmo assim, ele não conversa com as pessoas e não sabe os direitos que ele tem.
P/1 – Quer dizer, você aprendeu os seus direitos conversando com as pessoas.
R – Convivendo com as pessoas. Eu sei os direitos que eu tenho.
P/1 – Quer dizer, sempre na sua vida profissional, então, você sempre procurou se informar…
R – Depois que eu tomei conta de casa porque, enquanto eu vivia na minha mãe, eu sabia os direitos que eu tinha. Aí, depois que eu tomei conta de casa, fui conversando com as pessoas e as pessoas foram me explicando, e eu fui aprendendo.
P/1 – Os seus patrões?
R – Não, meu patrão, não. As pessoas mesmo que eu ia conversando, entendeu? E depois porque, quando eu comecei a trabalhar, eu já sabia todos os direitos que eu tinha, patrão nenhum ia passar a perna em mim, não. Porque eu já sabia meus direitos. Entendeu? Eu tenho meus direitos, do quê? Do INSS, o patrão paga metade e tem a metade da gente. Tudo isso eu sei.
P/1 – Quer dizer, o que eu percebo é que, você sempre foi atrás das coisas, Maria?
R – Fui atrás das minhas coisas, do meu conhecimento.
P/1 – Ah, muito legal. Então, basicamente é isso.
R – É?!
P/1 – Tem alguma coisa a mais que você gostaria de falar.
R – Acho que, agora mesmo, não.
P/1 – Não tem assim. Mas muito legal. É isso que eu queria conversar com você.
R – Aí, eu queria muito que meu pai, naquele tempo, que aconteceu isso com a gente... Porque não só foi comigo só, não, com todos os meus irmãos. Aí eu fico pensando: “Caramba, a gente não brincou de boneca, não teve...”. Eu não sei o que foi adolescente, eu não sei o que foi viver criança. Não sei, porque eu fui trabalhar. Não sei.
P/1 – Nem a adolescência.
R – Nem a adolescência. Quando eu vi, não sabia, não conhecia dinheiro. Meu pai não era assim, dizia assim: “Ah, eu vou ensinar vocês o que é dinheiro”. Ele era pobre, mas, mesmo assim, ele pegava nos dinheirinhos dele. Eu acho, assim, a gente tem que ensinar a criança. “Ó aqui, isso aqui é tanto, isso aqui é tanto”. Pra poder, quando crescer, ele já saber. Eu tinha treze anos e eu nem conhecia o que era dinheiro. Com treze anos. Isso, hoje em dia, uma criança de três anos já sabe o que é dinheiro. Entendeu? Os pais da gente não deixou a gente saber isso…
P/1 – Era só trabalhar mesmo.
R – Só trabalhar na roça mesmo. Eu trabalhei até meus dezenove anos na roça. Com dezenove anos, eu ia fazer, acho que, dezenove anos eu vim pra cidade. Mas, mesmo assim, ia da cidade pra roça ainda cuidar das plantações, depois acabou.
P/1 – Hoje você nem…
R – Hoje não quero não. Trabalhei muito de enxada. Deus me livre. Cruz credo. É muito ruim. Mas tem que alguém trabalhar pra dar de comida à gente. Como é que gente ia comer, as plantações sem ter alguém pra plantar? A maioria das pessoas... Mas, hoje em dia, já é diferente, já tem trator, já tem ali um monte de coisas. E a gente ali era no braço mesmo, na enxada. Fazia farinha, farinha de mandioca. Essas coisas.
P/1 – E cuidava da casa.
R – Cuidava da casa. Aí, depois que eu tomei conta de casa, não trabalhei nisso mais não, entendeu? Depois que eu fui… que eu me casei, aí eu não fui mais trabalhar nessa parte, não. Ficava só tomando conta de casa mesmo. Aí criei meus filhos até essa idade sem trabalhar na casa dos outros. Aí, depois que eu me separei, que eu fui trabalhar. “Ah, mas é bom. Mesmo assim, é melhor, pelo menos você tem seu dinheiro.”
P/1 – Então tá bom.
R – Não sei se vai ser alguma coisa aproveitada.
P/1 – Claro que vai ser muita coisa aproveitada.
R – Por isso que eu estou falando, a Vivian… Quando ela mostrou aquele dia, tinha um vídeo parecido com o meu. Que ela não estudou, na casa dela não tinha energia, que na casa dela só tinha chaminé. Tudo isso eu vivi, essa parte aí. E eu acho que tem várias pessoas por aí assim.
P/1 – E que agora... Você transformou a sua vida, não é?
R – Diferente. Minha mãe, por minha mãe, eu estava lá perto dela. E eu falava pra ela: “Mãe, se eu fosse um homem, eu tinha saído de casa logo cedo”. Eu ia viver a minha vida muito novinha. Mas menina é diferente. Aí ela falou assim: “Por isso que Deus não fez você homem, fez você mulher”. Mas, mesmo assim, quando eu fui dona do meu nariz, eu decidi a minha vida, fui viver a minha vida. Não gosto de ficar parada, não. Aí, hoje em dia, eu estou com a minha filha, estou morando com ela. Aí me chamaram pra morar na casa dela e estou lá morando com ela, cuidando da minha neta.
P/1 – E você sente prazer em estudar?
R – Sinto prazer em estudar. Enquanto tiver isso aqui na Guiomar, eu vou voltar de novo, trago ela no braço e venho.
P/1 – Tá joia.
R – Pode ser qualquer curso que ela disser assim que: “Tem curso aqui, ó”. Pode botar no lugar aí, na ficha aí, que eu já estou vindo. Que é muito bom. Isso é muito bom pra cabeça da gente. Muito, muito, muito bom.
P/1 – Tá bom. Maria, muito obrigada! Foi um prazer conversar com você.
R – Obrigada também.
P/1 – É isso.
R – Vamos ver o que vai aproveitar aí da gente.
P/1 – Ah, mas vai aproveitar muita coisa, pode ter certeza.
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