Imigrantes: crônicas de vida (IMG)
Da morte de Allende à esperança no Brasil
História de Fernando Javier Aracena Perez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em 23/06/2001
P/1: Por favor, diga seu nome, local e data de nascimento.
R: Meu nome é Fernando Javier Aracena Perez, nasci em Santiago do Chile em 1960.
P/1: Por que você veio para o Brasil?
R: Bom, na época em que meu pai decidiu mudar para o Brasil, era quando se ouvia falar muito do Milagre Econômico, era uma época em que a situação econômica no Chile estava um pouco difícil, depois do final do governo Allende, e a gente ouvia que se ganhava dinheiro mais fácil aqui. Não viemos por problemas políticos.
P/1:Em que ano vieram?
R: Isso foi em 1975.
P/1: Então você estava lá durante a morte do Allende.
R: Sim, estava lá. Na época eu tinha 14, 15 anos.
P/1: Você se lembra de alguma coisa dessa situação chilena?
R: O que lembro é que um pouco antes do golpe de Estado é que a situação estava muito bagunçada. Você tinha dificuldade em arrumar comida e a sua vida se resumia a freqüentar fila para tudo. Nós não éramos de nenhum partido de esquerda, então tudo para nós era mais difícil de arrumar. Então pra comprar pão, tinha fila, pra arrumar comida, tinha fila. Para você arrumar comida além da média determinada pelo o governo, você tinha que sair da cidade para comprar carne, para comprar queijo, porque isso aí era racionado. A não ser que você fizesse parte de alguns grupos políticos de apoio ao governo. Nós fazíamos parte da classe média.
P/1: Mas a política, né, vocês não faziam parte de jeito nenhum.
R: Não, não, parte política não. Meu pai dava aula na universidade técnica do Estado, mas participação política ele não tinha. Ele dava aula de Engenharia elétrica. Ele tinha um contato com os universitários.
P/1: E quando realmente o golpe em 73, você se lembra?
R:...
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Da morte de Allende à esperança no Brasil
História de Fernando Javier Aracena Perez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em 23/06/2001
P/1: Por favor, diga seu nome, local e data de nascimento.
R: Meu nome é Fernando Javier Aracena Perez, nasci em Santiago do Chile em 1960.
P/1: Por que você veio para o Brasil?
R: Bom, na época em que meu pai decidiu mudar para o Brasil, era quando se ouvia falar muito do Milagre Econômico, era uma época em que a situação econômica no Chile estava um pouco difícil, depois do final do governo Allende, e a gente ouvia que se ganhava dinheiro mais fácil aqui. Não viemos por problemas políticos.
P/1:Em que ano vieram?
R: Isso foi em 1975.
P/1: Então você estava lá durante a morte do Allende.
R: Sim, estava lá. Na época eu tinha 14, 15 anos.
P/1: Você se lembra de alguma coisa dessa situação chilena?
R: O que lembro é que um pouco antes do golpe de Estado é que a situação estava muito bagunçada. Você tinha dificuldade em arrumar comida e a sua vida se resumia a freqüentar fila para tudo. Nós não éramos de nenhum partido de esquerda, então tudo para nós era mais difícil de arrumar. Então pra comprar pão, tinha fila, pra arrumar comida, tinha fila. Para você arrumar comida além da média determinada pelo o governo, você tinha que sair da cidade para comprar carne, para comprar queijo, porque isso aí era racionado. A não ser que você fizesse parte de alguns grupos políticos de apoio ao governo. Nós fazíamos parte da classe média.
P/1: Mas a política, né, vocês não faziam parte de jeito nenhum.
R: Não, não, parte política não. Meu pai dava aula na universidade técnica do Estado, mas participação política ele não tinha. Ele dava aula de Engenharia elétrica. Ele tinha um contato com os universitários.
P/1: E quando realmente o golpe em 73, você se lembra?
R: Lembro que teve o golpe, mas não lembro muita coisa. Me lembro mais do que eu fazia antes do golpe, e nos dias do golpe, como mandaram ficar em casa... eu realmente não lembro muito dessa época. Não vi nada extraordinário... depois a gente ficou sabendo... Não deu pra perceber nada, aqueles presos políticos no estádio... Não, nada.
P/1: O assassinato do Allende, nada?
R: Não, a gente ouviu falar que tinham bombardeado o Palácio da Moeda, mas não vimos.
P/1: Em 75, quando vieram para o Brasil, encontraram uma situação melhor aqui?
R: Naquela época posso te falar que sim. Estava muito melhor do que hoje. Meu pai demorou um pouco mas arrumou emprego, ele tinha vindo antes uma vez depois voltou, depois veio de novo pra cá, e ele começou a trabalhar no Metrô de São Paulo como... não foi bem como engenheiro. Foi como um técnico mais graduado. E na época, com o que a gente ganhava dava pra viver razoavelmente bem.
P/1: Quantos irmãos vieram?
R: Viemos todos. Na época nós éramos em cinco filhos. Viemos seis. Eu, o Geraldo, Maurício, o Juan e a Tereza. E depois nasceu um irmão aqui.
P/1: Vieram de avião?
R: Não, viemos de ônibus. Ficamos alguns dias em Buenos Aires, depois viemos pra cá.
P/1: Por que vieram pela Argentina?
R: É obrigatório passar para vir pra cá, ou você vai pelo Peru ou pela Argentina, que o Chile não tem fronteira com o Brasil. Pelo Peru o caminho é mais difícil mais longo.
P/1: O que vocês fizeram com a casa, com tudo o que ficou lá?
R: As coisas estão lá ainda. A casa está lá, minha mãe está morando lá no Chile. Ela veio, ficou viúva e voltou faz dois anos pro Chile, casou novamente e está lá.
P/1: E os filhos todos ficaram?
R: Todos estão aqui.
P/1: Quais foram as suas primeiras impressões sobre o Brasil?
R: Olha, quem não mora aqui acha que vai chegar numa selva. Essa a impressão que se tinha lá na época. Então, você chega aqui e vê assim uma cidade enorme, indústrias, é bem diferente do que você esperava. E o mais freqüente nessa época sobre o Brasil era isso aí. Se achava que ia chegar aqui e encontrar índios. Até hoje, em alguns lugares, se tem essa impressão. Mas como eu, praticamente, morei sempre em São Paulo, achei um contraste muito grande, uma cidade enorme e muita gente.
P/1: E comparando com Santiago, o que você acha?
R: Mais bagunçado. A educação é diferente. No Chile você tem uma educação mais formal, e... tudo bem, tem a pobreza, mas você não tem tanto contraste quanto aqui. A classe média lá ainda é o grupo predominante da população em termos econômicos. E você tem uma certa educação e isso é prezado. Aqui... uma coisa me surpreendi é que o pessoal abaixa assim e assoa o nariz na rua e tudo bem. Isso é uma coisa que no início chamava muito a atenção. Depois você vai se acostumando. Vai ficando anestesiado, é terrível. O povo é menos educado que no Chile. Lá se preza a educação.
P/1: Onde vocês foram morar aqui?
R: Olha, ficamos um período na.... tinha um setor de imigração num prédio na Visconde de Parnaíba. Ficamos um período lá, depois fomos morar no centro, na rua Santo Amaro, onde meu pai alugou um apartamento, e depois fomos morar no Jabaquara.
P/1: Como era esse centro de imigração? R: Era um centro para imigrantes europeus, basicamente. O pessoal já vinha mais ou menos encaminhado. Era um edifício antigo, onde você tinha, digamos, um apartamento, onde ficava a família. Tinha um refeitório coletivo... P/1: Você se lembra do nome?
R: Não lembro, fica perto de onde fica o Leite Paulista. O nome não me lembro. No Brás.
P/1: Fale ainda da sua primeira casa.
R: Era na Rua Santo Amaro, na Bela Vista. Era apartamento alugado
P/1: Como era o bairro na época?
R: Ah, naquela época.... esse foi o meu primeiro emprego, me enganei aqui, eu trabalhava perto de casa, como office-boy, e estudava à noite. Tinha as damas da noite, né... mas... era relativamente tranqüilo, você podia sair à noite e não via nenhum problema. Eu voltava tarde da escola, e...
P/1: Onde você foi office-boy?
R: Na Iobs - Informações Objetivas, próxima à Praça da Bandeira.
P/1: Você teve muita dificuldade com o idioma?
R: A maior foi pra estudar mesmo. Na escola. Porque não pega tudo. Pra conversar com as pessoas, em geral, não é tanto problema. Em termos de discriminação não senti nada...
P/1: Não pensavam que vocês fossem fugitivos do regime do Chile?
R: Não... E mesmo quando pensavam eu explicava porque a gente estava aqui. O pessoal só falava quando queria encher o saco, em geral, só na brincadeira.
P/1: Como você foi parar na Medicina? Era uma vocação?
R: Não, eu gostava de biologia, de biologia marinha tem a ver com o corpo, com o funcionamento do organismo, aí acabei fazendo a opção pra Medicina.
P/1: Em que faculdade você fez?
R: Fiz na USP. Entrei na faculdade, acabei meu colegial em final de 77, na metade do ano de 78 entrei na PUC de Campinas. Fiz meio ano de faculdade lá, depois fiz o intensivão no Objetivo, uma propaganda (risos), e em 79 entrei na USP.
P/1: Depois onde você foi trabalhar?
R: Então, acabei a faculdade e fiz a residência pra Ortopedia traumatologia, e naquela época você tem os empregos comuns de qualquer residente. Tem plantão, emprego em hospital público, e depois de acabar a residência acabei montando uma clínica com alguns colegas. Estou com uma clínica na Casa Verde, e atualmente estou trabalhando no Hospital da Cruz Azul. Que a gente formou um grupo de ortopedistas que dá atendimento na Cruz Azul, o pessoal da Polícia Militar. Digamos que é a família militar, esposas, dependentes ou aposentados da Polícia Militar.
P/1: Você voltou ao Chile?
R: Voltei faz 12 anos. Uma vez só. Voltei quando o meu filho estava começando a andar. Fui com a família, fiquei pouco mais de uma semana.
P/1: Como você achou Santiago?
R: Mudou bastante, né. Porque antes tinha muitas casas, tinha muitos prédios baixos, então agora tem muitos edifícios, mesmo porque o Chile tem muito terremoto, então não se dava muito valor a fazer edifícios. Agora, acho que com a tecnologia, eles já estão construindo mais edifícios . Os temblores chilenos. Isso, los temblores, los temblores (riso) .
P/1: Santiago é muito perto da montanha, né?
R: Sim, perto da montanha, mas isso é uma coisa que deve ter mudado muito, porque quando eu era pequeno, esquiar em Farellones, Portijo, centros de esqui na época, era mais para a classe média alta. Depois, dizem que abriram outro centro de esqui que se popularizou mais. Mas quando eu morava lá era um esporte de elite. A gente chegava a ir às pistas de esqui, mas os equipamentos você tinha que comprar, não tinha a facilidade de hoje que você aluga. E os hotéis são mais baratos.
P/1: É Valparaiso?
R: É uma região portuária, eu ia lá, mas mais de passagem. A gente freqüentava uma praia mas não era a de Viña de Mar, era mais ao norte, meu pai tinha comprado um terreno e queria um dia construir uma casa.
P/1: Mas o Pacífico é muito gelado, né?
R: Bom, a última fez que fui pro Chile foi em janeiro, quando meu filho estava com um ano, tanto que ele começou a andar lá, e eu não consegui tomar banho de mar. Fiquei só uns cinco minutos, começou a me gelar as pernas.
P/1: Você acostumou com o nosso mar que é quente, né?
R: É. (risos) Isso é você.
P/1: E como os seus irmãos se adaptaram aqui?
R: Olha, meu segundo irmão é engenheiro, estudou na Fei, casou com uma cearense e está morando em Fortaleza. É engenheiro da Petrobrás. O terceiro se formou em técnica eletrônica e trabalha com microcomputadores. Tem uma loja no shopping na região sul. O outro casou, descasou e está por aí. Minha irmã se casou, mora em Diadema e é do lar e tem dois filhos. O último, que é o Luiz Paulo, que nasceu aqui, o único estrangeiro na família (risos), é músico.
P/1: Seu pai faleceu há muito tempo?
R: Morreu há 12 anos, no ano em que casei. Foi assassinado durante um assalto num posto de gasolina. Ele estava guardando o carro, assaltaram o posto e... E acho que isso é uma das coisas mais graves que tem no Brasil. Não é a violência só em si. Mas a falta de castigo.
P/1: O assassino não foi punido?
R: Não... até agora. Esse é um problema que tem dois lados. Um, é a pobreza, que realmente aumentou muito. E outro é a falta de castigo, que é muito mais sério que a pobreza.
P/1: E foi depois disso que sua mãe foi embora?
R: Não, ela estava no Chile naquela época passeando. Ela teve que voltar pra cá, pra enterro, velório, ficou mais uns tempos....
P/1: Como você conheceu sua esposa?
R: Eu estava no primeiro ano da faculdade e precisava de dinheiro. Tinha uma amigo que corrigia provas no cursinho e me levou junto. Pra corrigir provas de cursinho de vestibular no Anglo. E ela também corrigia provas também. Eu fazia Medicina e ela fazia faculdade de Enfermagem.
P/1: Ela é enfermeira, exerce?
R: Exerce, ela atualmente trabalha em pesquisa de medicamentos no Instituto do Coração.
P/1: Quantos filhos vocês têm?
R: Dois. O Lucas, com 12, e a Erika, com dez.
P/1: Sua esposa é japonesa, né, e como a família dela aceitou você que não é? Você não teve dificuldade?
R: Não, se bem que os pais dela não falam muito português. Acho que quem ficava mais com medo era ela, do que a família em si. Mesmo porque os pais dela são agricultores. Ela ficava com medo de os pais não aceitarem, ficava envergonhada. Mas aceitaram.
P/1: Agora me explica o seu biotipo. Você é um chileno de olho azul.
R:Verde. Não sei explicar, sei que da parte do meu pai tinha uma tia com olhos verdes. Nossa descendência é espanhola, predominante no Chile. A tribo de índios predominantes no Chile, na região sul, são os araucanos.
P/1: O Chile acho que é o país com menos descendência indígena, né?
R: Em comparação com o Peru e Bolívia sim, porque lá a maioria da população é ou indígena ou miscigenada. Uma outra coisa, que nós estamos falando em população racial é que uma outra coisa que se via muito pouco no Chile, eu via muito pouco, eu vi acho que umas duas vezes na minha vida, são negros. Isso é muito raro. Mesmo porque, na época da colonização, quando levavam os negros, eles não se adaptavam ao clima frio. Eu lembro que estranhei. Tem os negros nossos, o pessoal de pele mais morena, que a gente chama de negro. Mas não são da raça negra.
P/1: Você conserva costumes chilenos, comidas?
R: Não, eu, como cheguei muito novo aqui, os costumes chilenos são poucos.
P/1: E tradições?
R: São de festas, tradições religiosas, isso aí.... não tenho muito. O que tenho mesmo é a formação básica moral, que é uma coisa que você já chega formado.
P/1: Até porque você se casou com uma japonesa...
R: Mas é uma japonesa que não come muito peixe também. (risos) Eu como mais peixe do que ela. Aliás no Chile uma comida boa e barata é peixe. Mas aqui é difícil, porque o peixe é muito caro, proporcionalmente. Peixes e frutos do mar você vê uma grande variedade lá. Aqui tem bem menos.
P/1: A cultura de vocês não se choca às vezes?
R: De vez em quando. Oriental é meio cabeça dura (risos) que nem português. Pro oriental falta às vezes um pouco de jogo de cintura. São coisas que às vezes você consegue resolver dando um jeitinho e... (risos)
P/1: Tá certo, muito obrigada pela entrevista.
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