Núcleo Ubatuba Museu da Pessoa
Entrevista de Aparecida Bernardes Gil (Dona Cidinha)
Entrevistado por Fabíola Lugão C. Viggiano e Telma Homem de Mello, Yve Zolli
Local: Ubatuba São Paulo
Data: 12/01/2024
Código: NUMPE_HV003
Transcrito por Telma Homem de Mello
Revisado por Fabíola Lugão C. Viggiano
Título: Realizadora de Sonhos
Mini bio - Dona Cidinha - .Aparecida Bernardes Gil, nascida em Jambeiro, São Paulo, em 07 de fevereiro de 1940, no carnaval, é uma professora aposentada, cantora e compositora de marchinhas carnavalescas. Após completar sua formação na Escola Normal, lecionou em várias escolas da região do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Casou-se com Luiz de Oliveira em 1966 e teve quatro filhos. Viúva e aposentada, atualmente dedica-se ao hobby de criar amigurumis e participa ativamente do Carnaval em Ubatuba.
Sinopse - Aparecida Bernardes Gil, nascida em Jambeiro, São Paulo, em 07 de fevereiro de 1940, é uma professora aposentada e compositora de marchinhas carnavalescas. Após completar sua formação na Escola Normal, que era seu sonho, lecionou em várias escolas da região do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Casou-se em 1966 e teve quatro filhos. Viúva e aposentada, atualmente dedica-se ao hobby de criar amigurumis e participa ativamente do Carnaval em Ubatuba.
Tags - #Jambeiro, #marchinhadeCarnaval, #professora, # Ubatuba, #brincadeiras, #infância, #Taubaté, #tamancodemadeira, #sonhos, #Boiçucanga ,#Cambori,#magistério, #cartilhaCaminhoSuave, #reencontro, #depressão, #crochê, # trico, # blocoBondeMarchinha #Ubatuba, #museudapessoa, #NUMPE, #Vale do Paraíba
P1 - Estamos em Ubatuba e 12 de janeiro de 2024. Gostaria primeiro, agradecendo por estar nos recebendo aqui na sua casa e dizer que é muito bom conhecê-la um pouco mais enaltecendo a sua pessoa que já é tão querida em nossa cidade.
R - Eu que agradeço, eu que agradeço muito. Nossa, pra mim é um motivo de muita honra, muita mesmo.
P1 -...
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Entrevista de Aparecida Bernardes Gil (Dona Cidinha)
Entrevistado por Fabíola Lugão C. Viggiano e Telma Homem de Mello, Yve Zolli
Local: Ubatuba São Paulo
Data: 12/01/2024
Código: NUMPE_HV003
Transcrito por Telma Homem de Mello
Revisado por Fabíola Lugão C. Viggiano
Título: Realizadora de Sonhos
Mini bio - Dona Cidinha - .Aparecida Bernardes Gil, nascida em Jambeiro, São Paulo, em 07 de fevereiro de 1940, no carnaval, é uma professora aposentada, cantora e compositora de marchinhas carnavalescas. Após completar sua formação na Escola Normal, lecionou em várias escolas da região do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Casou-se com Luiz de Oliveira em 1966 e teve quatro filhos. Viúva e aposentada, atualmente dedica-se ao hobby de criar amigurumis e participa ativamente do Carnaval em Ubatuba.
Sinopse - Aparecida Bernardes Gil, nascida em Jambeiro, São Paulo, em 07 de fevereiro de 1940, é uma professora aposentada e compositora de marchinhas carnavalescas. Após completar sua formação na Escola Normal, que era seu sonho, lecionou em várias escolas da região do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Casou-se em 1966 e teve quatro filhos. Viúva e aposentada, atualmente dedica-se ao hobby de criar amigurumis e participa ativamente do Carnaval em Ubatuba.
Tags - #Jambeiro, #marchinhadeCarnaval, #professora, # Ubatuba, #brincadeiras, #infância, #Taubaté, #tamancodemadeira, #sonhos, #Boiçucanga ,#Cambori,#magistério, #cartilhaCaminhoSuave, #reencontro, #depressão, #crochê, # trico, # blocoBondeMarchinha #Ubatuba, #museudapessoa, #NUMPE, #Vale do Paraíba
P1 - Estamos em Ubatuba e 12 de janeiro de 2024. Gostaria primeiro, agradecendo por estar nos recebendo aqui na sua casa e dizer que é muito bom conhecê-la um pouco mais enaltecendo a sua pessoa que já é tão querida em nossa cidade.
R - Eu que agradeço, eu que agradeço muito. Nossa, pra mim é um motivo de muita honra, muita mesmo.
P1 - Obrigada. Bom, queria começar perguntando o seu nome completo, o local de nascimento e a data.
R - Então, meu nome é Aparecida Bernardes Gil, nasci na cidade de Jambeiro, Estado de São Paulo, uma cidade pequeníssima quando eu nasci e minha infância toda foi lá, até os 11 anos eu morei lá e meus pais são de lá, inclusive meu bisavô foi o fundador da cidade de Jambeiro onde eu nasci.
P1 - Como é que é a composição da sua família?
R - A minha mãe teve dez filhos, eu sou a oitava deles, depois de mim tem mais dois. E todos nasceram em Jambeiro, a família inteira, né? E a minha infância foi lá, muito agradável, muito gostosa, porque cidade pequena é diferente da cidade grande, né? Então a gente tinha muita liberdade, brincava na rua, que nem eu estava falando. Minha mãe sentava na calçada e vinham as crianças da vizinhança toda. A gente brincava de roda, brincava. Era muito gostosa a cidade, muito boa, não tinha perigo de nada. Então, foi uma infância assim que não teve outra igual. Nossa, eu fico muito feliz em relembrar a minha infância.
P1 - Fala um pouquinho mais das brincadeiras da sua infância.
R - Então, a gente brincava de roda, brincava de pegador, brincava de esconde-esconde. Teve uma época que eu juntava as amiguinhas e a gente brincava de fazer bolo de areia. Eu morava em frente à igreja, numa chácara. Nasci numa chácara. Tinha a minha casa e era uma chácara enorme, muito linda, e a igreja bem na frente. Então tinha uma escadaria assim na igreja, e embaixo tinha um pouco de areia e tal. A rua era toda de terra, né, naquele tempo não tinha asfalto nem nada. E a gente, então, juntava aquela areia, fazia bolo, fazia concurso de qual bolo ia ser mais bonito com as crianças. Então as brincadeiras eram muito simples, muito naturais, porque a gente não tinha brinquedos como todo mundo tem hoje, não existia lojas de brinquedos, inclusive nem plástico existia naquela época. A minha única boneca que eu lembro de ter tido, a cabeça dela era de louça e o corpo era de pano, que eu ganhei, ela do meu irmão, que era meu padrinho, que tinha me batizado, ganhei no Natal. Então, essa boneca, pra mim, era tudo que eu tinha. E brincava, fazia fogãozinho de tijolo, punha gravetinho, incendia, punha foguinho. Então, as brincadeiras eram bem simples, mas muito gostosas.
R - Muito criativas. A gente tinha muita criatividade. Sabe?
P1 - De gostar. E esses irmãos, então, você vem da família com nove irmãos?
R - É. Dez, dez, né? Uns nasceram e morreram logo pequenos. E a minha mãe teve um filho que morreu com 18 anos, de apendicite, quer dizer, uma doença que hoje não mataria, mas naquele tempo não tinha recurso. E além disso, Jambeiro, não tinha médico, era só um farmacêutico. Então, qualquer doença, qualquer coisa, tinha que levar a criança em Caçapava. E tudo pra gente era difícil. Então, meu irmão, quando foi pra Caçapava, já estava supurada a apendicite dele. Ele morreu com 18 anos. E ele era sombra do meu pai. Trabalhava com meu pai, meu pai tinha sítio, tirava leite da vaca, vendia na Vigor. E meu irmão era companheiro do meu pai. Então, a morte do meu irmão foi uma coisa muito... muito sofrida pros meus pais, né? Sofreram demais mesmo. E depois foi passando, daí não tendo mais o meu irmão, a minha irmã mais velha foi tirar leite no lugar dele, né? E foi assim que a gente viveu. Não faltava nada, a gente tinha muita fruta, era uma chácara que tinha todas as frutas, meu pai gostava muito de plantação, tinha um rio no final da chácara e a gente ia lá tomar banho no rio. Então, é como eu falo pra você, minha infância foi adorável, não tenho o que me queixar. Não tínhamos dinheiro, não tínhamos sapato, eu ia na escola de pezinho no chão, mas todas as crianças de Jambeiro também iam, então não tinha muita diferença. Lá uma ou outra tinha um tamaquinho de madeira, que eu achava tão bonitinho na escola que ela andava no corredor e fazia toque, toque, e eu ficava achando lindo aquele barulhinho que o meu pé não fazia porque era descalço. E assim foi, eu fiz o primário em Jambeiro até o quarto ano. Daí meu pai queria muito que a gente estudasse, claro, em Jambeiro, não tinha condições. Então ele vendeu essa chácara e com o dinheiro dessa chácara que ele vendeu, ele comprou uma casa em Taubaté. E daí quando ele vendeu a chácara, nós mudamos pro sítio, que era um quilômetro de Jambeiro, onde ele tinha vaca, tinha pasto, tinha frutas também, e vivia lá seis meses antes de ir pra Taubaté, até meu pai achar uma casa que comprasse em Taubaté. Quando ele achou a casa, nós fomos. Eu tinha aí 11 anos. Daí fiz preparatório, porque naquele tempo era separado, primário, depois tinha ginásio e depois era escola normal para quem quisesse fazer, ser professora, que era o meu sonho. Eu quis desde criança, eu sonhava em ser professora. E daí fomos para Taubaté. Daí chegando em Taubaté, entrei no colégio de Freira, fiz o ginásio nesse colégio, Nossa Senhora do Bom Conselho, um colégio muito religioso, porque meus pais eram muito religiosos, então não queria pôr eu em um colégio misto, então eu estudei no colégio Bom Conselho. E ali fiz o ginásio. E me formando no ginásio, eu tinha o quê? 14, 15 anos. Daí eu fiz o curso clássico, dois anos de clássico, e daí eu fiz a maior bagunça, daí a gente só se divertia, não estudava, repetia. Então foi os dois anos que eu mais aproveitei a vida, sabe? Não levava nada sério, era aquela adolescência, aquela coisa maravilhosa, gostosa demais. Daí, mas o meu sonho era ser professora, então por que eu estava fazendo clássico? Eu não ficava sem fazer nada, né? Daí entrei num colégio particular também, chamado Escola Normal Dolores Barreto Coelho. E lá eu fiz a escola normal, três anos de escola normal. E em 1960 me formei professora. Daí teve a formatura, teve baile. E nesse meio tempo eu tinha um namorado por quem eu era apaixonada. Apaixonada, apaixonada, apaixonada. Ele foi a paixão da minha vida.
P1 - Primeiro?
R - É, foi. Não, eu tive vários namorados porque todo mundo queria me namorar. Mas eu escolhia quem eu queria. Eu tinha esse poder naquela época.
P1 - Uma fartura.
R - Sim. E daí esse namorado foi realmente o que eu mais gostei, o que mais fui apaixonada e tudo. Mas logo que eu me formei, eu tinha que trabalhar. Porque a gente tinha dificuldade, era só meu pai que trabalhava. E então eu queria ter o meu dinheiro. E nem tudo que eu queria na vida eu tinha. Porque ele não tinha condições de me dar tudo. Inclusive o meu sonho era aprender piano e eu não pude aprender porque não tinha condições. Então eu queria trabalhar. Então acabei de me formar e já comecei a lecionar. Daí peguei uma escola ali na escola perto de Pinda, uma licença de quatro meses, daí acabou. Como Taubaté tinha muita professora, porque naquele tempo não tinha escola normal em Taubaté. Não tinha faculdade em Taubaté, desculpa. Não tinha faculdade. Então, a gente se formava em escola normal e ia ser professora. Depois que eu me formei, um ano depois, é que formaram, fundaram a primeira faculdade de Taubaté, que era de pedagogia. Primeira faculdade de Taubaté. Mas eu não tinha pretensão de fazer faculdade. Eu queria ser professorinha. Era o meu sonho. Eu falava sozinha, eu dava aula sozinha, eu sonhava. Eu quando estava na escola lá em Jambeiro, eu ficava namorando o sapatinho da professora, porque eu ia de pezinho no chão, né? Então, eu olhava e falava assim, "eu vou ser professora e eu vou ter esse sapatinho". E era assim, sabe? E eu sonhava, eu fui muito sonhadora. Não teve ninguém mais sonhadora do que eu no mundo. Sonhava demais. Eu vivi de sonhos. E fui procurando realizar meus sonhos. E Deus foi tão bom que ele realizou quase todos. Então, daí depois comecei, depois de Taubaté, eu fui lecionar em Camburi, que em Taubaté já não tinha mais escola. Então eu ia ter que parar, ia parar de ganhar dinheiro. E agora? Depois que você começa, você não quer parar mais, né? Daí eu fui pra São Sebastião e escolhi a escola de Camburi. É uma escola que fica entre o bairro de Boiçucanga e o bairro de Barra do Say. É um lugarzinho pequeno onde nenhuma professora tinha tido coragem de morar lá. Por quê? Porque lá tinha tido vários casos de lepra. As pessoas tinham leprosos lá, então as professoras... nenhuma professora tinha coragem. A professora que lecionava lá morava em Boiçucanga e ia todos os dias 5km para dar aula em Camburi. E quando eu fui, a escola era para ser minha. Daí eu falei assim, por que que eu não vou morar aqui? Eu achava lindo morar na roça, eu achava lindo ser professora. Todas as histórias que as professoras contavam, para mim, era uma maravilha. Eu era assim, tudo pra mim era bonito naquele tempo, eu não achava ruim nada. Então, eu tinha colegas, elas falavam, você não aguenta, você vai hoje, amanhã você volta. "Não volto. Eu fico". E fui e fiquei três anos nessa escola. E a mulher que dava, que eu morei na casa dela, o filho dela tinha sido leproso. Mas não pegou em mim, não aconteceu nada. E eu, claro, tinha as pessoas da malária, o carro da malária, que ia de vez em quando visitar o bairro, e eu perguntei pra eles, eu vou morar aqui, não tem problema, eles já falaram, não tem problema. Ai que bom, daí fiquei, fiquei o ano de 61, 62 eu voltei e fiquei mais outro ano, 63 voltei e fiquei mais um ano. Por quê? Porque naquele tempo a gente tinha que juntar pontos, tinha um certo número de pontos que você precisava para ingressar no magistério e você ter a sua escola efetiva que ninguém mais tomasse de você. Então, todo ano você entrava na escala e ia escolher a escola, então cada ano você ia num lugar. E Camburi, como ninguém queria, era minha. Então eu ia pra São Sebastião, eu fiquei classificada em primeiro lugar, de 61 para 62, porque a minha escola foi a que mais passou aluno. E daí eu fiquei em primeiro lugar e falei eu não faço frente pra ninguém, ninguém quer Camburi, é pra lá que eu vou. Entendeu? Então foi assim. E depois, em 63, eu voltei pra Taubaté, que era onde meus pais moravam e daí eu não quis mais voltar pra Camburi. Daí fiquei ali no Vale do Paraíba. Aí peguei uma escola ali perto, no sertão, e depois vim para Ubatuba e peguei a escola da Lagoinha e morei aí na casa da minha tia, vim morar com ela, para lecionar aqui em Ubatuba. Daí fiquei conhecendo meu marido, com quem eu casei.
P1 - Com que idade?
R - Eu tinha 26 anos nessa época, 26. E daí nessa época que eu já estava casada, esperando a Ana Lúcia já, e daí eu ia ter a escolha de escola para se tornar efetiva. Daí com os pontos que eu tinha, eu entrei na escala, fui pra São Paulo e consegui escolher a terceira escola, que tinha três só que o Ubatuba. E eu grávida dela falava, meu Deus, se eu não conseguir uma escola e o Ubatuba, eu vou ter que dar aula no caminho de São Luís. Como é que eu faço com uma criança pequena, nova, o que eu vou fazer lá? Mas eu estava sujeita a tudo, porque a minha carreira pra mim era tudo. E daí, graças a Deus de tanta reza, porque eu rezo muito, eu rezo demais. Daí, a terceira escola foi minha, que foi no Altimira Silva Mirachelli, que fica no Itaguá. Então, eu ingressei ali. No ano seguinte, eu me removi pro doutor Estêvão da Silva, e ali eu fiquei 20 anos, até me aposentar. Me aposentei com 48 anos, criança ainda praticamente para se aposentar, né? Mas como professora, trabalho há 25 anos só, e eu trabalhei 27 pagando as licenças, tudo que tinha faltado, tinha que pagar tudo para poder me aposentar. Tinha que ter um certo número de aulas para se aposentar. E daí com 27 anos de magistério, de substituição e tudo, de escola, de tudo, eu consegui me aposentar com 48 anos. Fui professora no Esteves, dei aula praticamente só para a primeira série, alfabetizava, amava alfabetizar. Minha cartilha preferida naquele tempo foi o Caminho Suave, que eu bato palmas para ela, todo mundo critica, mas eu não. Eu achei a cartilha maravilhosa e com essa cartilha a minha filha aprendeu a ler sozinha em casa porque ela via eu preparando aula, ficava perto de mim e com a imagem das coisas da Ana Lúcia quando entrou na escola eu já sabia ler pela cartilha. Então trabalhei com isso e fui muito feliz, fui realizada. Então meu sonho foi realizado. Então, claro que eu tinha paixões. Qual era meu outro sonho? Cantar. Gosto de cantar. Adorava cantar. Eu ajudava minha mãe a varrer a casa, arrumava a cozinha cantando. Eu levantava cantando. Então, meu sonho era cantar um dia em público. Mas imagina se eu ia pensar numa coisa dessa, né? Inclusive, Celi Campello foi minha colega de classe. Quando eu fiz o clássico, ela foi minha colega de clássico. Então, e ela, naquela época, ela ficou famosa com o Estúpido Cupido, tudo da minha época, né? Nós tínhamos praticamente a mesma idade. Eu era, acho que, um ano mais velho que ela. E daí, meu Deus, e ela cantava, eu falava, ai, que maravilha! Não tinha inveja, nunca tinha inveja de ninguém. Mas eu queria ser cantora. Mas era um sonho que eu achava meio impossível, né? Pois não foi. Não foi. Daí, bom, depois de tanto tempo, casei, tive quatro filhos e tudo, me aposentei. E daí, quando foi um dia, tinha esse concurso de marchinhas na praça e as crianças já estavam se apresentando. Mãe, você gosta tanto de cantar, mãe. Vamos, mãe, vamos cantar. Falei, você é louca, você acha que eu tenho coragem de subir no coreto e cantar? É sonho meu, mas é impossível, eu não tenho coragem de fazer isso. Ah mãe, vamos, vamos. E não é que eu fiz uma marchinha? Eu compus a marchinha, letra, música e cantei. Foi a primeira vez que eu cantei. Daí eu cheguei lá no palco, né? A Heloísa, professora, ela era uma das juradas, né? Daí eu falei assim, "gente, olha, eu queria falar para vocês que eu fui muito sonhadora da minha vida. E um dos meus sonhos era cantar. Meu Deus! E hoje eu estou aqui para cantar. Eu não estou nem acreditando. Mas olha, eu quero deixar um recadinho para vocês. Não deixe de sonhar. Ai, como é bom sonhar. E nunca perca a esperança de realizar o seu sonho, mesmo que ele se realize depois dos 70." Eu tinha 71 anos. E o nome da música que eu fiz e cantei era Depois dos 70.
P1 - Como é que é a música?
R - Quer que eu cante? Como é? Ai, eu não consigo. Não, não, não. Não, peraí, peraí. É que eu fiz seis marchinhas e faz tanto tempo. Ana, ajuda eu. Ah,
"diz o dito popular, a vida começa aos 40,
mas tudo vai se acabando quando se chega aos 70.
70 correr não dá, 70 beber faz mal.
O que eu posso fazer, vou fazer, é brincar no carnaval.
70 correr não dá, 70 beber faz mal.
O que eu posso fazer, vou fazer, é brincar no carnaval.
Só uma coisa não acaba, a ilusão de sonhar.
E este sonho tão lindo, hoje eu vim realizar.
E este sonho tão lindo, hoje eu vim realizar."
Essa foi a primeira música que eu cantei no festival de Marchinha e ela ficou classificada em terceiro lugar dentro das 30 que cantaram na praça, fiquei em terceiro lugar. Então eu falei, gente do céu, o que mais eu quero da vida? Nada. Tudo, tudo, tudo Deus me concedeu, tudo foi realizado.
Mas daí, continuando a vida e tal, aquela coisa, eu tinha aquele sonho de reviver aquele namorado que eu fui apaixonada. Impossível, né? Tinha passado 42 anos. 42 anos. Meu Deus, como eu queria ver o meu sonho. Ai, que vontade de ver ele, como será que ele está? Daí, quando foi um dia, a minha prima fez o aniversário da minha tia lá num condomínio de Pinda chamado Condomínio das Palmeiras. E eu sabia, eu sabia por intermédio da tia dele que ele morava num condomínio perto de Pinda. Eu jamais eu saberia o qual, é cheio de condomínios de Taubaté a Pinda. Daí eu fui no aniversário e já fiquei sonhando, porque eu era sonhadora. Daí fiquei, meu Deus, já pensou se eu chego lá? E é lá que ele mora? Eu não vou aguentar. Aí eu vou ter um enfarto. Meu Deus. Daí, chegando lá, né, nós paramos na guarita pra dizer os nomes das pessoas que iam no aniversário. Daí eu falei assim pra Ana, Ana, pergunta-se aqui que o Wilson mora. Ela perguntou, falou, É! Não. Não. Não. Não, não, não é possível, não é possível. Já começou a tremedeira, né? Daí chegamos na casa da minha prima, eu falei pra minha prima, é aqui nesse condomínio que mora a pessoa que eu fui apaixonada na vida. Eu quero ver! Não, não seja por isso! Ligou pra guarita, pediu o telefone dele, ligou, é o senhor Wilson? É! Eu tremia perto dela. Daí, ele veio, eu falei alô, ele alô, , eu falei, "eu sou a Cidinha", "ô meu anjo, como vai?" "Eu sou a Cidinha Gil, você lembra de mim?" "Como poderia esquecer?" Menina do céu, aquilo lá foi a coisa mais emocionante que me aconteceu na vida. Depois de 42 anos. Não é possível, né? Pensa bem. Daí a minha prima pegou o telefone e falou assim "Vem aqui, tá sendo a festa da minha mãe minha mãe tá fazendo 85 anos", que é minha tia, né? Vem aqui. Explicou como é que ia. E nós esperando ele chegar. Menina. Daí todo mundo queria ver quem era ele. Daí todo mundo lá na porta da casa passava um carro. Não, não era. Eu conheci ele pelo narizinho, sabe? Ele tem um narizinho bonitinho. Fazia 42 anos que eu não via mais, sabe? Quer dizer, não sabe que jeito que eu ia encontrar ele e ele me encontrar. Meu Deus, vai ser um choque, né? Daí, passava um carro. Ai, não era, não era, não era. Daqui a pouco passou o carro. É. Conheci pelo perfil. Parou o carro, desceu. Cidinha! E me abraçou. Menino de céu. Não faz ideia. Foi mais um sonho realizado.
P1 - Ficou sem chão...
R - Fiquei sem chão. Daí ele foi, ficou no aniversário da minha tia e tudo. E depois dali a gente começou a ligar. Fiquei um ano só falando com ele por telefone. Daí, eu cheguei pra ele. Tá, daí quando ele falou assim, no telefone. "Vem aqui em casa." "Não, imagine a sua mulher", eu tô viúvo. Foi melhor que encomenda, né? E daí, nossa, toda noite depois da novela ele ligava, deitava na rede e ficava no telefone. Então foi assim, aquela felicidade, aquela paixão renovada. Então a minha vida foi assim, etapas, que nem eu falei pra você. A infância foi maravilhosa, a adolescência foi maravilhosa e depois de toda essa coisa, de todo, claro que teve sofrimentos também, ninguém vive sem sofrer muitos problemas, muitos sofrimentos, na vida de casado, nada nada a ver com a minha vida. Normal. E depois Deus me deu esse presente de novo.
P1 - Encheu o coração.
R - Daí fiquei anos assim, indo pra Pinda, eles vinham aqui e tudo. Quando foi um dia, eu estava com a mala pronta pra ir pra Taubaté, né, ele me esperava na rodoviária, e de lá eu ia com ele pra Pinda, na casa dele. E daí chegou um dia, eu ia viajar no dia seguinte já com passagem comprada de ônibus, o filho dele me liga aqui. Daí ele liga, eu falei assim, ele falou assim, "olha eu tô ligando pra falar que o meu pai, meu pai tava lá no Tendas e ele caiu, teve um AVC". Ai, você vê a vida, né? É a vida. Surpresas boas e surpresas ruins. A vida é assim. Mas eu... o tempo que eu vivi valeu tanto a pena que se eu tivesse vivido um dia, já teria valido a pena. Daí começaram os problemas, ele com limitações, mas mesmo assim continuamos juntos muito tempo. Quando foi em 2015, 2016, os filhos deles começaram a intervir no nosso relacionamento, achando que eu estava com ele por causa dos dinheiros dele, não era, eu nunca tive ambição, a pretensão de nada. Estou tão feliz com o que eu tenho, com o quem eu sou, vivo tão bem, não me falta nada, sabe? Então eu nunca tive essa pretensão de dinheiro, de nada, de nada. E daí foram dificultando a situação, foram dificultando a situação, até que chegou um dia eu desisti. Foi triste. Fiquei com depressão, fiquei doente, fiquei na psiquiatra. Foi muito difícil, muito. Sofri muito. Mas chegou um dia que eu fui lá, meu filho sempre me levava lá, e os empregados me trataram muito mal a mando do filho que era para eu não querer mais ir lá, eu fui aguentando, eu fui aguentando, eu fui aguentando, chegou uma hora eu falei, "chega, não quero mais isso pra mim." Não sei se ele já morreu, não sei se ele está vivo, não sei, e não quero saber. Daí depois eu fui me recuperando daquela doença, daquele sofrimento, daquilo tudo, fui recuperando e fui ficando bem, e fui ficando bem e hoje eu sou ótima. Eu tô feliz da vida de ser sozinha, de ser eu comigo mesma, eu tô de bem com a vida, eu gosto de dormir, eu gosto da vida, eu gosto de tudo. Não preciso de ninguém pra me completar, eu sou completa. Tô falando de boca cheia. Meus filhos sabem disso. E assim, estou aqui hoje, conversando com vocês.
P1 - Todos os outros. E a retomando. Então, Dona Cidinha, me conta mais dessa musicalidade sua.
R - A musicalidade, né? Pois é, eu cantava naquele tempo, naquele tempo era rádio, o que a gente tinha, né? Não tinha televisão na minha casa, nem nada. E pouca gente em Taubaté tinha televisão. Quando alguém comprava televisão, a gente sabia, né? Era pouca gente, né, naquele tempo. Então tinha rádio. Mas assim, começava uma música, eu já pegava o caderninho, o lápis e ficava perto do rádio. E já tomava nota. Então, músicas de Cauby Peixoto, Dalma de Oliveira, ngela Maria, Ivon Curi, cantores daquela época. Eu sabia de todas. Músicas antigas eu sabia, hoje eu não sei nenhuma. Mas antigamente eu sabia de todas. Daí eu escrevia. E tem outra coisa. Nos domingos da gente, lá em Taubaté no tempo dos anos dourados, a distração da gente no domingo era ir ao cinema. Porque ninguém tinha televisão. Então todo domingo ia aquela turma e a gente saia. Sentava os estudantes tudo no mesmo lugar. Meu pai ficava brabo, não queria que eu sentasse lá. Porque era folia, mas era, pelo amor de Deus, era tudo de gente da minha idade, né? Então, era aquela coisa gostosa. Você passava o domingo inteiro esperando a hora do cinema. E passava filmes românticos demais. Música de filme maravilhosa. Todo filme que passava, depois eu queria aprender aquela música. Eu aprendia a música em inglês, eu cantava. Eu cantava muito, cantava demais da conta. E carnaval, então. Carnaval, todas as marchinhas eu sabia de cor. Porque eu tomava nota ali com lápis, não tinha esferográfica, naquele tempo era lápis. E daí eu tomava nota das marchinhas e depois eu cantava. Então, todo ano tinha aquela seleção de músicas novas, marchinhas novas de carnaval. Eu sabia todas as músicas, todas. E daí, com esse incentivo de marchinha de carnaval, eu sempre gostei de carnaval e tudo, né? Apesar de ter nascido na quarta feira de cinza, eu gostava demais de carnaval. E daí eu comecei a... Me animei quando eu cantei essa primeira música na praça, né? Acabou o carnaval, eu já fiz outra. Mas vinha assim a inspiração, vinha... Eu na praia trabalhando, porque eu trabalho com o meu filho no Esquibanana, trabalhei 26 anos de caixa no Esquibanana do Tenório. 26, tem? É. Parei agora na pandemia, agora quem tá no meu lugar é Maria Luísa. Eu não aguento mais também. É gostoso? É. Adorava, mas é cansativo e eu não quero mais isso pra mim. Passou também a outra fase gostosa que passou, porque lá eu me remoçava, todo mundo passava, conversava comigo, tirava foto comigo. Então eu tava num trabalho gostoso, sabe, na praia, praia do Tenório, aquela praia linda, né? Então, eu nem sentia canseira. Trabalhava lá das nove às seis ou sete da noite. Todos os dias. Mês de janeiro, todos os dias que é temporada. Mas os outros meses, até abril, só final de semana, né? E eu trabalhava lá. E essa música, “Depois dos Setenta”, eu fiz lá na praia. E depois veio outra, veio outra. Quer ver? “Depois dos 70”, eu fiz a música “A Aposentada”, eu fiz “Jovem Coração”, eu fiz “Vamos Remar”. Você remava com a gente?
P1 - Sim, sim.
R - Eu fiz uma música “Vamos Remar”.
P1 - Nós cantamos essa música no mar.
R - É? Não diga. Então, essa eu cantei outras também do seu Benedito, cantei de uma mulher lá de outra cidade que pediu pra eu cantar a música dela, então eu cantei de outras pessoas. Bem como chegou em... cantava duas por carnaval, duas, numa quinta e uma sexta. E todas elas, menos a Aposentada, todas elas ficaram entre as dez, porque no primeiro dia são 30, e classificava 10. E eu ficava entre os 10 em todas as músicas, só aposentada que eu não fiquei entre os 10. A única música. E foi assim, daí eu cantava lá, quer dizer, e depois o Julinho me convidou pra cantar no grupo Cantamar, que é esse grupo folclórico, né, que canta, a Maria Luiza canta, a Cláudia toca, canta também, o Julinho que é o marido da Cláudia e daí eu entrei também e canto até hoje. Tem a festa do camarão, a gente vai cantar lá na Almada, tem a festa Caiçarada, eu vou cantar lá no Pescadores, festa de São Pedro, a gente canta lá na festa de São Pedro e tô assim por enquanto ainda, sabe? Até quando eu puder, até quando eu puder. No carnaval eu não quero mais. No carnaval eu não quero mais. Eu já falei que eu não quero mais. No bonde eu vou. No bonde eu vou, porque no bonde tem três marchinhas minhas que cantam no bloco do bonde. Então na hora da marchinha minha eu canto lá também. Todo mundo canta junto, mas eu também canto. Agora, subir no palco na praça sozinha e cantar de novo eu não quero mais. Achei que já deu. Eu já estou satisfeita.
P1 - E essas é a músicas do Bonde Machinha, como é que ela é?
R - Então, uma delas é a depois dos 70, outra é o Carnaval antigamente. Só Alegria. Essa também é bonitinha.
P1 - Ah, dá uma palhinha.
R - Eu não consigo. Eu não consigo. Claro. "O Carnaval antigamente era festa de alegria, hoje infelizmente virou motivo de orgia. O Carnaval antigamente era festa de alegria, hoje infelizmente virou motivo de orgia. Mas aqui em Ubatuba, na pracinha da cidade, o carnaval é só alegria, prá gente de toda idade. Vamos cantar, vamos pular, vamos sorrir, hoje é dia de carnaval. Nossa vida tem que ser alegre, isto sim é que é legal. Essa é uma delas, né? Essa canta no bonde também. Ai, ai, meu Deus do céu.
P1 - A relação da senhora com seus pais, pra ser uma pessoa tão positiva, tão otimista, até onde houve influência deles? eles tinham essa pegada musical?
R - Não, minha mãe era muito brava, ela detestava carnaval enquanto eu adorava, ela não deixava eu ir para o carnaval, todo carnaval eu tinha que chorar, eu ia com os olhos inchados, mas eu ia. Mas assim, ela foi muito rígida comigo, muito brava, eu não tinha liberdade nenhuma com ela como meus filhos têm comigo. Não tinha. Era de beijar a mão, a benção a pai, a benção a mãe, era assim naquela época. Ela nunca facilitou nada pra mim no sentido da distração, da diversão. Nem no cinema, que era a coisa que eu mais gostava de ir, eu tinha que chorar pra ela deixar eu ir. Então foi muito difícil a minha vida com relação a ela. Eu falo, ela que me perdoa, ela tá no céu, que eu sei. E claro que depois que passou essa fase da adolescência, que a gente quer fazer tudo. Mas ela talvez até não tivesse tanta culpa de ter sido assim. Por quê? Porque ela vinha de uma família muito antiga, claro, ela de 1800 e não sei o quê, minha avó nasceu em 1800, então a vida dela foi mais rígida, então foi assim, porque vai ficando assim, que nem eu falei, nossa como tá o mundo agora? O meu foi diferente, o dela também foi diferente. E como nós viemos de uma cidade pequena pra morar em Taubaté que era uma cidade grande, não era tão grande como é hoje, mas era. Maior que Jambeiro, que Jambeiro era uma coisa. Ela tinha muito medo de eu me perder. Sabe o que é se perder naquele tempo? Ela tinha muito medo de eu me perder. Por quê? Porque o meu pai, tudo que acontecia ele pôs a culpa nela. O meu irmão morreu a culpado por minha mãe. Se uma filha se perdesse, a culpada ia ser minha mãe. E se perdesse, mandava embora. Assim. Então, eu fui uma pessoa seríssima, embora fosse alegre e tudo, e todo mundo olhava, nossa, era um... Menina, eu tinha um juízo, eu casei virgem, com 26 anos. Tá? Naquele tempo era assim. Namoro e tudo, não era como é hoje. Você ia no cinema, no primeiro dia você não segurava na mão, no outro você já ia assim, segurava na mão. Beijar na boca? Nossa senhora, demorava muito. E às vezes depois que você beijava na boca, o namoro acabava. Era muito difícil a minha época. E mesmo assim, eu tirei o positivo daquela coisa, vamos dizer. Eu cheguei a pular a janela pra ir no carnaval, porque minha mãe não queria deixar e eu não aguentava ficar sem ir. Aquilo era tão forte dentro de mim, que eu queria tanto ir. Ela dormia, eu trancava a porta, eu dormia no quarto da frente, eu pulava a janelinha. Outro dia eu vinha, empurrava a janela e eu queria ir no banheiro, mas não podia, eu fazia xixi no vaso. A gente não conhece as histórias da outra. Não, você perguntou a relação, eu estou contando que era assim, muito difícil. Muito difícil. Não tive a minha mãe assim como uma amiga. Ela era a mãe em cima. Eu lá embaixo.
P2 - E com o seu pai era melhor?
R - Meu pai era melhor, meu pai era mais, mais assim, aberto. Eu pedia pra ela não deixar, eu pedia pra ele deixar. Daí eu falava assim, o pai deixou. O pai manda mais que a mãe, né? O pai deixou, eu vou. Ela ficava louca da vida. Então, não foi fácil a minha vida com a minha mãe. Adolescência, todo... Daí depois que eu fiquei adulta, claro, né? Mas assim, fui sempre muito vigiada, fui sempre muito assim, policiada, muito... Nossa senhora! Mas foi muito bom, sabe? Porque naquele tempo, se você se perdesse, na cidade, ninguém mais andava com você. Eu fiz o clássico e na nossa classe tinha uma moça que era da vida, sabe? O nome dela era Gleides, até o nome, né? Gleides. E ela estudava com a gente. E quando um professor faltava na aula, eles mandavam a gente sair pra rua. Era a escola do... quando eu fiz o clássico, que eu fui colega da Celi Campelo, foi no Monteiro Lobato. Não tinha professor, não veio, mandava a gente sair, a gente ia, tomava sorvete, e depois voltava pra próxima aula. Era bem assim... o colégio era bem democrático, né? Bem à vontade. E quando a gente ia sair na rua, ninguém queria sair com a Gleides. Junto com ela. Ninguém andava. Então a gente se escondia no banheiro, até ela sair sozinha. Ela saía sozinha. Depois a gente ia, tinha sempre um grupinho de três, um grupinho. Sempre a gente tem a amiguinha mais próxima, né? Mas a Gleides ninguém saía com ela. Por quê? Porque ela era falada. Se falasse dela, iam falar de você. Menina, foi um tempo difícil o meu. Mas eu segui a regra, direitinho.
P1 - E quatro filhos?
R - Quatro filhos. Maravilhosos, por sinal. Não tenho o que falar, os quatro filhos meus caíram do céu. De paraquedas. Eu agradeço muito. Nossa, gostam demais de mim, se preocupam comigo, são carinhosos, são honestos, trabalhadores. Sabe, aquela honestidade que a gente ensinou todos eles têm. Então, eu só tenho a agradecer pra Deus esses filhos. O que valeu do meu casamento foram meus quatro filhos.
P1 - E o lazer da Dona Cidinha hoje?
R - Hoje? O meu lazer é fazer amigurumi. Eu faço amigurumi, faço uma festa e pega meu Santo Antônio, Ana. Então, isso aqui é uma coisinha que eu fiz, é um camelo. Eu já fiz vários. Eu já fiz vaquinha, já fiz burrinho, já fiz leão, já fiz girafa, já fiz sapo. Por sinal, que eu tenho um sapo aqui.
P1 - Não precisa não.
R - Um sapo.
P1 - O que que despertou na senhora para começar a fazer?
R - Eu desde os 12 anos eu faço crochê. Crochê, tipo assim, toalhinha, coisinhas assim, miudinhas, né? Coisinhas assim miudinhas com agulha fina. E sempre gostei muito de fazer crochê. Mas quando chegou agora, eu faço tricô, faço blusa, faço meia, faço luva, faço tudo. Daí, quando chegou a pandemia, eu, com a eleição, com esse negócio de política, eu fiquei... Esse é o Santo Antônio. uma bíblia no lado, debaixo do braço, e o menino Jesus. Já fiz Santa Terezinha, fiz Rosa Mística, fiz a Nossa Senhora das Graças, fiz Jesus, fiz a Sagrada Família para todos os meus filhos no Natal passado. Então, isto aqui é o que me segura e o que me deixa feliz hoje. Por quê? Porque eu saía muito para a rua, ia ver loja, adorava entrar em loja, ver mobília, ver tudo. (Ana... Margarete, vem falar pra ela) Então, daí... Eu já, eu não estou saindo mais na rua, assim, de medo de cair. Tenho um pouco mais... Não é dificuldade, eu ando, eu ando bem e tudo, mas eu tenho medo de acontecer, eu morro de medo de cair e me quebrar. E daí ficar sofrendo e dar trabalho para os outros. Então, eu saio, quando sai a Cláudia vai comigo, quando vai atravessar a rua ela segura a minha mão, mas eu posso andar sozinha, eu posso até ir sozinha. Mas eu deixei de ir, sabe, depois da pandemia eu me acostumei a ficar em casa. Daí a Cláudia um dia falou "mãe, eu trouxe um desafio para você, você vai aprender a fazer amigurumi". Eu falei, "ah, eu não quero aprender mais nada, tudo que eu já sei já tá bom demais." "Não se vai fazer, que você vai fazer". Daí ela começou a mandar vídeos pra mim, as aulas ali, você copia, você faz. E eu fiz a primeira coisa, assim, peguei e não dá mais. Desde a pandemia eu tô fazendo amigurumi, que se eu fosse pegar todos que eu já fiz e já dei, dava pra abrir uma loja.
P1 - Ele não tem boca, né?
R - Quem?
P1 - O amigurumi. Ele não faz... Eu vi no Santo Antônio, ele não tem...
R - Não, é assim, eu copio direitinho o que ela fala. Agora... Não, o Santo Antônio não tem. Não tem. A... A bonequinha, eu fiz uma bonequinha pra Ana agora no Natal. Tem boquinha e tem Santos. O Santos não... eles não põe. Eles põem assim, os olhos assim pra baixo. Essa é assim. É desse jeito, assim. Então, eu faço como é mandado fazer. Quer dizer que a boca tá rindo, mas você não enxerga. E daí eu me acostumei a fazer isso, e é o que me move hoje, sabe? Eu levanto e fico pensando, o que eu vou fazer hoje? Então eu acabo uma coisa, a Cláudia já manda receita de outra. Eu acho que se tornou até... não é nem hobby, já é uma necessidade. Se eu não tiver isso pra fazer, eu não sei o que eu faço. Leio também, gosto muito de ler. Leio livros bons, tudo. Eu compro os livros que os padres aí receitam, indicam, né? E compro, leio muito, gosto de ler. Acabei de ler um livro ontem, é a Melhor Idade, uma maravilha, dando dicas pra gente viver bem a melhor idade. Então eu tenho muita coisa assim que me ajuda, sabe, me ajuda. E faço consultas periodicamente, tô cuidando da minha saúde sempre. Então é tudo isso que eu acho que me deixa assim. Agora, essa alegria, essa coisa, isso já é de nascença. Não foi ninguém que deu pra mim, eu já nasci assim. Eu não tinha nem muito motivo pra ser assim, mas eu sou. É natureza mesmo.
P1 - É uma pessoa de muitos interesses, não é?
R - É. E, inclusive, imagina, cheguei até a remar no mar. Quando eu ia de pensar que ia ficar de pé numa trancha, né? Eu remava. Tinha mais de 70 já, quase, né? É, então, e eu remava. Aí, aquela foto ali, né? É lá na praia, eu fiquei. Aí.
P3 - São seus companheiros de remada.
R - Aí, lembra, lembra? A Telma também fazia aula com a gente, né Telma?
P2 - Fazia. Segura um pouquinho pra mostrar na foto. Aí. Um pouquinho mais pra cima.
R - Ai, que lindo, né?
P1 - É energia, gente!
R - É isso, e agora a gente vai vivendo até quando Deus quiser, né? E espero que seja bastante, mas assim, com saúde, né? A gente estando com saúde, querendo, alegria de viver. A vida é maravilhosa, a vida é muito boa. E viajo bastante também, sabe? Quando meu filho me puxa pra viajar, nossa senhora, quanta viagem eu já fiz. Eu já fui em Roma três vezes, já fui na Grécia duas vezes, já fui na Disney duas vezes, já fui em todas as cidades da Europa mais de duas vezes, e agora, o ano passado, eu fui na Terra Santa pela segunda vez. Viagem maravilhosa, meu Deus! Andei por todos os lugares onde Jesus andou. Maravilhosa, maravilhosa! Subi escada, desci escada, eu não sei como é que eu aguentei. Eu estava até com medo de ir. Mas daí eu falei com a minha médica, perguntei, né? Ela disse, não, vai sim, você vai aguentar. E cheguei lá e aguentei. Mas chegava o fim do dia, eu estava morta, porque essas viagens são uma maratona. Você não tem descanso. Você anda cedo, aí anda até tarde. E assim, e agora já estou com uma viagem também, já para esse ano. A gente vai para Portugal e para Marrocos. Eu tenho muita vontade de conhecer Marrocos. Então, até o meu filho quase comprou uma viagem para a Itália de novo, para a França, para a Lourdes, para a Fátima, para tudo. Eu falei, não, não quero mais. Eu acho que a viagem da Terra Santa não tem o que superar. Essa é a... é o ápice. Viajou na Terra Santa, não precisa mais viajar. Assim com a religião que eu digo, né? Porque essa outra ia ser também uma peregrinação. E essa pra Terra Santa foi uma peregrinação. Um padre rezando no ônibus, missa todo dia. Foi maravilhosa a viagem, maravilhosa, muito emocionante, sabe? Coisa assim que eu gosto. E meu filho também, ele se converteu, e eu estou muito feliz que ele se converteu. Ele estava afastado da religião, ele se converteu, hoje ele vai à missa todos os domingos. Ele casou no civil e na igreja, sabe? Depois dessa viagem da Terra Santa, ele não podia comungar porque morava com ela e não era casado. Daí o padre falou pra ele, e ele começou a... "Ai, mas eu quero ir pro céu, eu quero ir pro céu". Então, casou. Era a coisa mais impossível de acontecer. Aí outro sonho meu também foi realizado. Que era ver esse menino casado, esse menino convertido. E eu tô vendo. Então, menina, eu não tenho mais o que pedir pra Deus. Não tenho. Não tenho. Só quero que ele conserve tudo isso.
P1 - Maravilha.
R - Então eu posso dizer que eu sou uma pessoa feliz. Tive muito sofrimento no casamento. Bastante sofrimento. Bastante desilusão. Nossa senhora, e como. Mas olha, eu não me arrependo de nada que eu fiz. Só os filhos que eu tive valeram a pena tudo isso. É isso. Né? Então, puxa vida. É só gratidão, gratidão, gratidão.
P1 - Maravilha. Eu acho que a gente pode estar encerrando, né? Mas alguma coisa...
P2 - Mais alguma coisa que a senhora gostaria de contar, alguma passagem...
P1- em relação a Ubatuba, a nossa cidade, como foi recebida, como reconhecimento de professoras. Imagino que deva ter uma quantidade infindável de alunos que passaram pela educação Caminho de Saber.
R - Então, essa é a parte da minha profissão. Eu logo que cheguei aqui, eu fui morar com a minha tia, antes de casar. E daí eu peguei substituição na praia da Lagoinha, aquela escola ali que tem na beirada. Era uma sala só, hoje é uma escola grande. E daí teve muita gente com raiva porque eu vim de outra cidade, para entrar na escala e pegar a frente delas, porque eu tinha... Me formava em escola normal e me formei em primeiro lugar. A nota maior foi a minha. E daí, com essa nota do diploma, eu fiquei escalada, bem escalada na escala para escolher a escola. E passei na frente de muitas ubatubenses. E elas ficam muito loucas na vida, então tinha assim uma rivalidade muito forte. Mas, pô, você pode morar onde você quiser. Eu morava lá e vim aqui. Daí eu estando aqui, né? Bom, daí depois que eu ingressei no Esteves, eu era a professora mais nova. Então as outras eram todas mais idosas, mais tempo de escola, tudo, né? Então quando chegava no fim do ano, no começo do ano, que era pra você escolher a classe que você ia querer, era pela escala. Mais velha, mais isso, mais aquilo. Eu era a última, porque eu era a mais nova. Aí, era gostoso, eu era a mais nova. Daí eu falei, eu falei uma vez, assim, pro diretor, Rafael. Eu falei, “Rafael, eu quero tal classe”. Ele disse, “você não tem direito de falar nada. A última coisa que sobrar é sua.” Eu fui muito humilhada também. Sabe, não foi só glória, não. Fui muito humilhada também, na vida. E daí eu fiquei quieta. Então, aí, todo mundo escolheu, todo mundo escolheu, e me deu a primeira série. Eu gostei tanto da primeira série, mas tanto, que depois eu não quis mais. E as professoras, ninguém queria pegar a primeira série, porque a primeira série você tem que ter jeito. É difícil você ensinar em alfabeto e certo. Eu pegava aluno, filho de pescador, filho de analfabeto, que nunca tinha visto um lápis. Eu tinha que ajudar a segurar no lápis, a virar a página do caderno. Eu marcava aqui que você vai escrever agora. Eu ia de carteira em carteira fazendo isso. Porque os alunos eram aquelas pessoas, crianças humildes, e eu amava essa classe. Amava. E daí aqueles que não conseguiam seguir a classe, porque tem sempre os mais com dificuldade, com certeza, ainda mais tendo pais, não tinha como ajudar o filho, né? Então, o que eu fazia? Eu pulo numa fila, aqueles pais adiantados, e os outros, eles vinham na mesa, e eu recuperava um por um na mesa, até acompanhar a classe, chegavam no fim do ano todos passados os dias. Não é como hoje que passa sem saber, chega no terceiro ano e sabe nem ler. Eles ficavam de pé, com o livro, fazia festa no primeiro livro, para entregar o primeiro livro, e quando eles sabiam ler, eles tinham que ler com entonação, obedecendo vírgula, pontos, exclamação e interrogação. Então, eu disse agora nós vamos ler. Aquilo pra mim era uma felicidade tão grande, porque começou comigo sem saber segurar no lápis. E agora eu mandava ficar de pé, pegava o livro e lia. Eu olhava aquilo e me deliciava. E aquilo era a minha... que coisa louca, que prazer imenso. Então, primeira série é a classe que mais dá prazer pro professor. As outras é continuação. Mas a primeira foi você que ensinou desde o A. Entendeu? Então eles liam com aquela entonação. Eu vejo hoje os gente que vai lá na missa ler, que não sabe ler direito, eu fico louca da vida. Porque eu era tão rigorosa, que tinha que obedecer, vírgula uma paradinha. Ponto para mais. Pergunta, muda a voz. Exclamação, você está admirando. Mas você vai falar do mesmo jeito com a mesma voz? Não pode. Tudo isso é ensinado. Daí, a diretora... peguei vários anos na classe mais humilde, mais pobre, que era a classe que eu gostava. Daí a Triona diretora, nossa, poxa, eu dou uma classe boa para a Elenice. A Elenice também era uma ótima professora, todos eles eram bons. Mas eu estou falando de mim. Daí ela dava a classe boa para os outros, para mim era a classe fraca, mas eu fazia todo mundo passar ela viu. Poxa, a Cidinha, a classe dela é fraca, todo mundo passa. Vou dar a classe forte para ela. Daí, resolveu me dar a classe forte. Passei a noite sem dormir. Porque eu queria aquela classe. Eu gostava. Eu gostava daquilo, do desafio. Essa desafio! Daí ela me deu uma classe forte, menina. Filho de juiz, filho de professor, filho de dentista. A classe linda, aquelas crianças, tudo lindo, aquele pessoal que eu não conhecia, né? Eu falava, vai, meninas, notem como eu trabalhei. Porque as meninas, as crianças eram muito espertas. Não eram aquelas que eu estava acostumada, que... Não. Depois daí, ela nunca mais me deu a classe fraca. Começou só dar a classe forte. Daí, os pais, sabendo de como eu era, já ia fazer a matrícula e já falava, classe da Cidinha. Classe da Cidinha. Eu cheguei um ano que eu tinha 42 crianças na minha classe. Não cabia carteira porque a escola do Esteves era muito pequena, era uma escola mais antiga e as salas são muito pequenas, né? Então, 40, teve que pôr um banquinho, uma mesinha, pra dois alunos porque não cabia os 42.
P1 - Sem auxiliar? Só você.
R - Que auxiliar? Só eu. E ali mantinha disciplina o dia inteiro. Enquanto eu tava com um na mesa, porque eu chamava um por um pra ler perto de mim. Não era geral, meu primeiro dia era. A aula, ensinando aquela coisa, cartaz, carimbo, tudo bonitinho do Caminho Suave. E daí no outro dia eles estudavam em cadeirinha ali na mesa. Se não soubessem ler, não passava de lição, não mudavam. E assim foi. Daí até me aposentar, eu peguei essa classe forte, que daí me acostumei com a classe forte também. Então eu fui me adaptando, sabe? Eu sofria, mas me adaptava. Eu acho que assim, eu tinha muita força, sabe? Muita garra pra tudo, e era a coisa que eu fazia. Eu amava ser professora. Desde criança sonhava. E sabe, uma curiosidade, né? Que eu até me levei essa noite pra falar. Eu quando era na escola de Jambeiro, pequenininha, eu tô voltando, e lá eu encontrei, que bom que eu conheço. E daí eu gostava, eu queria muito apagar a lousa, eu achava a coisa mais gostosa do mundo apagar a lousa. E como eu era pequetita, e sentava na primeira carteira, a professora nunca me mandava apagar a lousa. Chamava, o Zé Lino, até o nome do menino me lembra, Zé Lino apagar a lousa. O Zé Lino ia, o Zé Lino era um puta meninão assim, e ele apagava a lousa, eu baixinha, apagava a lousa, eu mando o senhor apagar a lua. E eu ficava olhando. Mas um dia eu vou ser professora e eu vou apagar a lousa. Daí eu queria apagar a lousa. Eu queria ser professora e apagar a lousa. Daí eu pensei, o que será que a professora manda o aluno apagar a lousa? Não tem uma coisa melhor do mundo do que apagar a lousa. Olha que gostoso o apagador, eu achava lindo aquilo. Era muito bobinha na época. Daí eu achava lindo aquilo. Eu pensei, mas um dia eu vou apagar. Daí quando eu fiquei professora já, né, daí eu falei assim, ah, por que a professora não gostava de pagar? Porque o pó cai tudo em cima dela. Desde pequenininha, acho que a vocação da gente, a gente nasce com ela. E também naquele tempo, mulher ou ia ser professora ou ia ser dona de casa. Não tinha outra profissão. Hoje não, hoje a mulher escolhe. Nossa, quanta profissão. Naquele meu tempo não tinha. Toda mulher que queria trabalhar era professora. Tinha que ser professora. A não ser que fosse um concurso público, alguma coisa, mas não tinha essas profissões que nem tem hoje, nem toda mulher faz. Então a gente já crescia naquela vontade de ser professora, porque queria ser independente. Eu fui independente sempre, desde que comecei a trabalhar, nunca mais dependi de ninguém, do marido, de ninguém. Sempre fui independente.
P1 - Na época, que você estava trabalhando tinha 20 anos, né?
R - Com 21 anos eu já fui selecionada. Com 20, 21 anos eu comecei.
P1 - E você achou que houve um etarismo, uma discriminação por você ser mais jovem na hora da escolha das classes?
R - Sim, claro que houve. Por que essa discriminação? Por quê? Porque o mais novo não tem prática. Você vem até hoje para entrar no emprego, às vezes, eles exigem que a pessoa tenha prática. Como é que a pessoa vai ter prática se ela não praticar? Se ela nunca trabalhou, ela vai entrar num emprego, ela quer que ela empregue. Não tem prática, não entra. Meu Deus, mas ela vai adquirir a prática trabalhando. Foi o que aconteceu comigo. Claro que quando eu comecei a lecionar em escolas assim, nossa senhora, eu falava, ai, meu Deus, como eu vou fazer isso na escola? Devagarinho você vai... Depois você fica tão prática, você fala, meu Deus como é fácil, mas com a prática daí você vai adquirindo isso e com toda a profissão, né? Então como eu era nova, eles acharam que eu não tinha prática, eu não sabia depois a diretora foi vendo, né? A Bessy, você conheceu a Bessy?
P1 - De nome, sim
R - ela foi uma professora também que trabalhou aí no Esteves, né? e ela dava aula pegada da minha classe. E eu um dia dando aula, ela ficou escutando a minha aula, sabe? Ela escutou a minha aula, foi lá na diretoria, falou assim, "Trione, a Cidinha é a melhor professora de primeira série, por que você não dá a minha classe pra ela?" E a Trione e a Bessy, ela trabalhava com crianças que tinham feito pré. Quer dizer, já entrou na... já com coordenação motora, porque eu não, nos primeiros dias, eu fazia coordenação motora, primeira semana, pra aprender a manejar o lápis, então, tudo, esse preparatório, eu fazia antes de começar a alfabetização. E daí ela começou a escutar minha aula, ela gostou tanto que ela foi falar com a diretora, "olha minha classe tinha, que estar com a Cidinha e não comigo." E era a época que eles achavam que eu não tenha prática. Mas logo que eu comecei eu já peguei. Porque não é um bicho de sete cabeças. Primeiro ano você deu, no segundo já é mais fácil. Não é? Quem sabe? Não sei. Não sei. Mas tinha sim. Tinha. Tanto que esse diretor falou assim, você não tem direito a nada. Você não escolhe nada, é o que sobrar. Mas que humilhação. Mas depois ele viu, a professora que não tinha prática, depois teve. Graças a Deus, né?
P1 - É, abriu muitos caminhos.
R - É, e hoje eu encontro os meus alunos na rua, mas que coisa gostosa. Eu tenho uma aluna, uma única, ela mora aqui. Conhece o Adão, aquele da saúde? Adão, que anda nas casas. Ela é mulher dele, Rosemeri. Ela mora ali adiante. Menina, ela me ama tanto, tanto, tanto, que eu nunca vi uma coisa assim. Dia do professor, é a única que lembra que é dia do professor que eu fui professora. Ela diz que ela amava, ela amava eu. Eu me lembro dela pequenininha. Ela vem aqui no meu aniversário e traz presente. Eu nunca vi com esse (?), sabe? E às vezes eu encontro com os alunos e eles falam: "oi professora." Daí eu falo assim, "como é seu nome?" "Fulano", ele fala o nome e eu lembro dele quando penso. Do jeito que ele era. Outro dia teve um encontro no Esteves, de professores, de alunos, foi assim, os antigos andaram... Você não estudou no Esteves?
P1 - Não.
R - Então, daí a Ana foi, elas estudaram lá, tudo, e daí... Daí chegou lá, eu fiquei olhando, assim, desse nome, desse lugar, daí eu cheguei e falei assim, quem é você?... Eleno. Eu tive um aluno chamado Eleno, "fui eu". Moço, já grande, pai de filho e tudo. Mas com aquela carinha que ele tinha, sabe? Porque ele ficava o ano inteiro comigo, né? O dia inteiro comigo, porque eu era uma professora ali, a tarde inteira. Então eu gravava. E hoje eu vejo eles, assim, já de cabelo branco também, né? E, e... Então eu falo, nossa! Ele fala o nome, eu lembro dele até o lugar que ele sentava na escola.
P1 - E teve algum professor que foi marcante?
R - Na minha vida? Eu tive uma amiga muito querida mesmo, que gostava demais de mim, eu gostava demais dela, foi a Flora, que morreu recentemente. E a gente deu aula, por exemplo, vamos dizer, deu aula ontem. Quando foi hoje, eu fui remanejada uma vez do Esteves, pro Capitão Deolindo, porque o Esteves ia reformar o Esteves, então eles mandaram cada professora para um lugar. Depois eu voltei de novo para o Esteves. E daí eu fui, eu e a Flora fomos para o Capitão Deolindo. E ela dava aula para primeira série também, tanto que ela foi alfabetizadora da Maria Luiza, ela numa classe e eu na outra, cada vez na hora do cafezinho a gente estava ali batendo papo, a gente saía no corredor conversava, quando escutava "pec, pec", que a gente corria, cada uma pra sua classe, era muito gostoso. Mas ela era minha amiga, amiga, amiga, amiga, amiga, ela me amava, eu gostava demais dela. Ela era dona do Horres Hotel, que hoje é o Candeias. Ela que construiu aquele hotel. Todo sacrifício da vida dela. E ela adorava meus filhos, eu gostava demais dela. E ela foi para uma reunião de hoteleiros em São Sebastião, ela e o marido. Ela amava aquele marido dela, Pepe, baixinho, ela era espanhola. Amava o Pepe, ela só falava no Pepe, até enjoava a gente. E um não vivia sem o outro. E ela foi numa reunião em São Sebastião com ele, e na volta houve um acidente, que eles caíram naquela barrancada ali da... do Perequê-Mirim, mais ou menos ali uma curva, ela caiu e eu cheguei lá no Esteves, eu disse cadê a Flora, cadê a Flora, quando eu fiquei sabendo. Menina do céu! E eu não aguentava mais, mas eu chorava. Fiquei muito mal, porque foi muito brusco, eu estava com ela no dia antes, e no outro dia ela morreu. Então isso foi uma coisa que me marcou muito na minha carreira de professora. Uma coisa muito forte. E daí eu não aguentava mais ficar lá, porque eu olhava na classe dela e não estava lá. Daí eu chamei a diretora, que na época era a Eufrida, eu falei, "Eufrida, pelo amor de Deus, me deixa voltar pro Esteves. Eu não vou conseguir trabalhar mais aqui." Eu só chorava, eu não conseguia trabalhar. Daí ela falou com uma outra professora, outra professora trocou comigo, e foi assim. Essa foi uma coisa bem marcante que aconteceu, muito triste, que foi muito dura prá mim, sabe? Mas no resto, foi tudo gostoso.
P1 - Muitas histórias bacanas, né?
R - Não sei, você achou bacana? (risos)
P1 - Nossa, muitas emoções! Então, é isso, d. Cidinha, mais uma vez, muito obrigada.
R - Nossa, eu que agradeço de coração pra vocês. Eu tô me sentindo tão honrada, tão honrada.
P1 - É, merecedora, não é?
R - Não, nem tanto, nem tanto assim. Mas, que bom, fiquei muito feliz mesmo. Se vocês estão contentes, eu tô muito mais. Eu fico feliz de poder fazer isso com vocês. Nossa, que coisa gratificante. Muito obrigada. Muito obrigada. Muito obrigada. (emocionada).
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