Meu nome é Cristóvam Ambrósio da Silva Filho. Eu nasci em São Sebastião, no dia dois de abril de 1962.
Eu trabalhava distante daqui, no extremo sul de São Sebastião, como auxiliar de topógrafo. Um colega que passou [na Petrobras] – que me conhecia através do futebol – me informou que haveria um concurso para auxiliar de topografia e [perguntou] se eu não tinha interesse. Eu falei: "Realmente eu tenho", "Só que o dia vai ser...", exemplo: “amanhã”. Eu dei baixa no serviço, pelo menos pedi folga. Vim aqui, me inscrevi, fiz o concurso e passei em terceiro lugar. Tinha uma vaga apenas e eu concorri com duas pessoas mais velhas do que eu. Na prova prática eu peguei o primeiro lugar, na parte de saúde física eu peguei o primeiro também. Em função de outros problemas médicos que os dois concorrentes tinham, eu acabei sendo contratado [no] dia dois de setembro de 1985. Sempre estive lotado aqui no Terminal. Embora hoje eu faça parte da gerência do óleo, que fica em São Paulo, sempre mantive a minha base em São Sebastião. Trabalhei em outras áreas, fui supervisor de suporte em obras também. Trabalhava e ficava em hotéis e quando terminava a obra sempre retornava para São Sebastião. Trabalhei inclusive na engenharia.
Quem está lá fora, ainda hoje com toda informação, tem muita dificuldade de entender como é esse mundo aqui, que é uma coisa muito particular. Realmente é um monstro isso aqui. Primeiro, só o fato de estar trabalhando numa empresa como a Petrobras, já é uma satisfação imensa; e toda aquela curiosidade de querer saber tudo, ver tudo. A gente fica extasiado realmente É uma coisa fabulosa. Não tem adjetivos para mensurar, pra dizer o quanto é importante estar aqui dentro. A minha vida foi transformada radicalmente, me deu outras oportunidades de fazer cursos, enfim, de me aprimorar. Até a minha posição hoje [foi] em função disso tudo. É claro que também tem muita coisa minha, de ser curioso, de ser...
Continuar leituraMeu nome é Cristóvam Ambrósio da Silva Filho. Eu nasci em São Sebastião, no dia dois de abril de 1962.
Eu trabalhava distante daqui, no extremo sul de São Sebastião, como auxiliar de topógrafo. Um colega que passou [na Petrobras] – que me conhecia através do futebol – me informou que haveria um concurso para auxiliar de topografia e [perguntou] se eu não tinha interesse. Eu falei: "Realmente eu tenho", "Só que o dia vai ser...", exemplo: “amanhã”. Eu dei baixa no serviço, pelo menos pedi folga. Vim aqui, me inscrevi, fiz o concurso e passei em terceiro lugar. Tinha uma vaga apenas e eu concorri com duas pessoas mais velhas do que eu. Na prova prática eu peguei o primeiro lugar, na parte de saúde física eu peguei o primeiro também. Em função de outros problemas médicos que os dois concorrentes tinham, eu acabei sendo contratado [no] dia dois de setembro de 1985. Sempre estive lotado aqui no Terminal. Embora hoje eu faça parte da gerência do óleo, que fica em São Paulo, sempre mantive a minha base em São Sebastião. Trabalhei em outras áreas, fui supervisor de suporte em obras também. Trabalhava e ficava em hotéis e quando terminava a obra sempre retornava para São Sebastião. Trabalhei inclusive na engenharia.
Quem está lá fora, ainda hoje com toda informação, tem muita dificuldade de entender como é esse mundo aqui, que é uma coisa muito particular. Realmente é um monstro isso aqui. Primeiro, só o fato de estar trabalhando numa empresa como a Petrobras, já é uma satisfação imensa; e toda aquela curiosidade de querer saber tudo, ver tudo. A gente fica extasiado realmente É uma coisa fabulosa. Não tem adjetivos para mensurar, pra dizer o quanto é importante estar aqui dentro. A minha vida foi transformada radicalmente, me deu outras oportunidades de fazer cursos, enfim, de me aprimorar. Até a minha posição hoje [foi] em função disso tudo. É claro que também tem muita coisa minha, de ser curioso, de ser proativo, gostar de ver coisas diferentes. Isso também contribui bastante. [Entrei como] auxiliar de topografia. Meu trabalho era ajudar o topógrafo nos levantamentos de campo, no levantamento de tubulação para obra. Eu comecei trabalhando no patrimônio, que é um setor que cuida de toda parte de imóvel da empresa, da questão de dutos principalmente, externos, ao longo da faixa. [Ou seja], tratar com os vizinhos da faixa, fazer levantamento das propriedades vizinhas, do próprio duto, da faixa de dutos. Aqui dentro a gente trabalha bastante nessas áreas adjacentes ao Terminal. Basicamente isso: fazer levantamento das áreas vizinhas e circunvizinhas às faixas de dutos. Nessa época já existiam os dutos. Na realidade, fazia a atualização do cadastro, vamos dizer assim. Trabalhei bastante nessa parte da topografia de atualização de cadastro, levantamento de campo.
Era muita mais fácil de lidar antigamente do que hoje. O pessoal conhecia bastante. Até porque, eu sou da região, então ficava mais fácil o trato. Até porque houve a mudança da Petrobras e Transpetro. O pessoal conhece muito a Petrobras ainda e não conhece a Transpetro. Elas só enxergam Petrobras. Eu estou trabalhando bastante pra mudar isso, mas no momento a gente ainda encontra muita resistência com relação a isso.
Depois que houve mudanças, foi dividido: a gerência de terminais aquaviários e gerencia de oleodutos terrestres. Eu fiquei na gerência de dutos terrestres, que no caso, meu gerente fica em São Paulo. O Tebar [Terminal Marítimo Almirante Barroso] é uma base porque os oleodutos ficam aqui. Tem que ficar uma pessoa aqui com uma estrutura como a nossa. Eu tenho técnicos que estão hoje na faixa de duto, cuidando da faixa, monitorando. A gente faz monitoramento terrestre e aéreo também. Havia a necessidade de manter um supervisor aqui, por isso eu estou aqui. Eu trabalhei como auxiliar de topografia até 1995. Depois disso eu passei para inspetor de dutos, de 1995 a 2004, 2005 e aí, em seguida, passei pra supervisor. Quer dizer, eu passei até 1995 como inspetor de dutos, em 2005 eu passei para técnico de construção e montagem e em 2007 eu passei para supervisor. Na época que eu comecei como auxiliar de topógrafo, no começo, eu só trabalhei nisso. Depois de um ano, um ano e meio, comecei a trabalhar como auxiliar de dutos, porque o grande volume de trabalho foi diminuindo. Aí eu comecei a dar suporte aos outros. Como eu era do setor de dutos, por essa iniciativa de querer conhecer tudo, eu comecei a trabalhar como apoio para os inspetores de dutos da época. Fui adquirindo conhecimento e fiz um concurso para auxiliar de dutos, pois na época tinha um status melhor na empresa, por conta dos dutos propriamente ditos. Eu passei, mas houve um problema no governo que bloqueou todas as admissões. Em 1995 eu já tinha todas as qualificações e fui promovido para inspetor de dutos, eu não passei nem por auxiliar, fui pra inspetor direto. Eu fiquei mais um período – de 1995 a 2005 – como inspetor e depois fui promovido.
Hoje, cuido de três oleodutos que estão sobre a minha supervisão, além de apoio ao Terminal, emergências e também as obras que carecem de experiência. Hoje na empresa tem duas pessoas mais antigas que têm muita experiência, eu aqui em São Sebastião e o Mendonça lá em Guarulhos. Cuido do oleoduto Osbat [Oleoduto São Sebastião-Cubatão], um deles, que é o mais antigo, que abastece a refinaria de Cubatão. É um duto de 24 polegadas, que tem 120 quilômetros. Esse oleoduto sofreu agora, em 2006, uma grande manutenção em função de históricos de ocorrências, de sinistros. Esse oleoduto, como eu falei, liga São Sebastião à Refinaria de Cubatão, mas o meu trecho de domínio é de São Sebastião à intermediária de Guaratuba, ali em Bertioga. Dos outros dois dutos, um é o oleoduto Osplan [Oleoduto do Planalto]. Na realidade hoje ele é um poliduto. Ele já foi um oleoduto; liga São Sebastião a Paulínia e o meu trecho de domínio é de São Sebastião até o quilômetro 53, lá para frente da estação de Rio Pardo. O Osbat, que é o oleoduto mais importante do Brasil, é um duto de 42 polegadas e opera numa média de cinco mil metros cúbicos por hora, que é um oleoduto que praticamente sozinho garante o abastecimento pelo menos do Estado de São Paulo, tranquilamente. O Osbat sai de São Sebastião e vai até Guararema, que é uma intermediária nossa, que faz parte do terminal terrestre do óleo. De lá ele abastece a Refinaria de Paulínia [Replan] e três refinarias: a Revap [Refinaria Henrique Lage] em São José e também abastece Capuava.
Hoje eu fico um pouco dividido. Antigamente eu trabalhava na manutenção do duto propriamente dito, quando eu era técnico, inspetor. Hoje a gente cuida da parte civil da faixa, [ou seja], manter a integridade da faixa para evitar sinistro. Por exemplo, a gente tem aí muito trabalho de geotecnia, supressão de vegetação e obras civis, quando acontece alguma erosão, enfim, toda a extensão dela. A nossa dificuldade maior é em função da estrada; a estrada está numa situação bem precária. A gente trabalha com carros quatro por quatro. Não é muito longe, mas demora muito pra chegar. Então a dificuldade é um pouco maior hoje. Mas nada que a gente também não supere e não consiga atender.
Antigamente a gente suprimia a vegetação e não tinha que dar nenhuma satisfação. Porque o parque, a questão ambiental, as leis ambientais na realidade foram posteriores à construção da faixa dos dutos. Hoje a gente tem uma licença que é renovada anualmente, e ela nos permite esse trabalho. Todas as vezes a gente tem que antecipar a renovação, pra não ser pego de surpresa. A gente, inclusive, paga por essa licença.
Bom, [entre as principais características, escolho] a beleza. Eu não conheço o Terminal de Manaus, que dizem que é de uma beleza fantástica. Mas a beleza do Terminal aqui é uma coisa espetacular, você vai ver nas fotos. [Além disso], destaco a condição de praticamente suprir metade do país por aqui. Basicamente 45% de todo o produto em média passa por esse Terminal. A terceira característica é o convívio que eu tenho com todo mundo. Sou uma pessoa muito fácil de lidar. Tenho uma facilidade enorme pra conviver com as pessoas, praticamente não tenho nenhum problema de relacionamento. Isso é um fator importante pra se conduzir bem um trabalho, isso é legal Uma quarta coisa que eu poderia citar é que se eu fosse um engenheiro, um advogado, eu não seria tão feliz quanto eu sou nessa profissão e trabalhando nesta empresa. Isso é uma coisa que inclusive me emociona, é realmente uma satisfação muito grande conduzir o trabalho de manutenção, de retorno operacional de um duto. São coisas muito legais que acontecem na minha vida e eu agradeço a Deus, porque eu sou um privilegiado. Nasci na cidade, trabalho na cidade, comparado ao mercado, eu ganho, graças a Deus, bem. Eu acordo todo dia e agradeço a Deus porque eu venho trabalhar no que eu gosto. Isso é uma coisa bacana.
[A região] vai mudar ainda mais com os novos empreendimentos que vêm aí. Não sei nem se eu posso citar nesse momento, agora, até para não criar expectativas. Mas vai ter, isso já é fato, não só na cidade, como no litoral. Todo investimento tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que você gera emprego e movimenta o comércio da cidade. O lado ruim é aquela questão de ocupação desordenada que acaba tendo, especulação. "Ah, vai ter um grande projeto na empresa" e aí o pessoal começa a ligar para os parentes: "Vem pra cá, você está desempregado, então...". Aí acaba realmente criando um transtorno para a cidade. De repente tem aí hoje coisa que antigamente não tinha. Há dez anos a gente não tinha favela em São Sebastião e hoje a gente já tem. Em função do que? O pessoal vem pra cá construir e aí vem o pedreiro de fora, porque tem demanda na região. Esse é um exemplo apenas. Acabam gostando da situação e vão ficando, ficando, vão ocupando a região e criam uma situação não desejada. Eu sou da região, gosto muito da cidade e isso me entristece. Mas tem um lado bom e um lado ruim. Todo empreendimento tem. O que cabe pra a empresa agora é tentar fazer bom uso disso mesmo e aos órgãos públicos, cabe tentar evitar esse tipo de coisa.
O crescimento foi acelerado. Naturalmente isso causa transtornos e violência, isso é em todos os lugares, haja vista em Macaé. Por exemplo, Caraguatatuba, que vai ter a base de gás, antes da base de gás já era a cidade mais violenta do Estado de São Paulo e se eu não me engano, do Brasil. Isso é ruim. Com relação à modernização, existem profissões que foram simplesmente banidas. Hoje por exemplo, você opera o duto remotamente. Uma estação como a do Rio Pardo é possível operar do Rio de Janeiro, como opera Guaratuba, como opera o próprio terminal, que é operado por lá. Existem as pessoas aqui pra fazer os alinhamentos básicos, mas dá para operar um terminal desse tamanho remotamente, sem ninguém aqui. Isso é um ganho incrível. A gente tem o Osbat, por exemplo, não sei se tem alguém no Osbat lá. Hoje se opera um duto tranqüilamente do Rio de Janeiro, isso é um ganho fantástico, fabuloso para a empresa. Por outro lado, tira o profissional. Por isso que essa molecada hoje mexe no computador com bastante facilidade. Porque hoje a tecnologia chegou e eu, que sou um pouco mais antigo, não tenho essa habilidade toda no computador como tem uma criança, [como] a minha filha, por exemplo, que já nasceu com o computador do lado. E isso é realmente um ganho fantástico para a empresa, para a sua economia. Ela investiu pesado e o retorno é grande. Na minha função não [mudou muito] porque ela praticamente é braçal. É claro que hoje ninguém se perde mais no mato, porque tem GPS [Sistema de Posicionamento Global]. Nós ganhamos qualidade com relação à formação técnica. Mesmo não pondo muito a mão na massa, o pessoal acaba fazendo os dois. Tem conhecimento técnico bastante, de ponta, aliado à manutenção. Só que às vezes você tem que fazer mesmo. Quando tem um vazamento, por exemplo, o gerente tem que ir lá e meter a mão na massa. Você tem que ser ágil, o troço está ali e você tem que resolver. A minha atividade em relação à tecnologia não mudou muita coisa não, só melhorou.
Eu acho que a [grande mudança] foi a consciência ambiental. Não só em nível de Tebar, mas a questão nacional, na empresa. Eu acho que isso foi uma coisa marcante. Eu participei de muitos vazamentos grandes, o maior foi aquele na Baía de Guanabara e houve uma mudança fabulosa em relação a isso. Eu, particularmente, troquei um duto de 32 quilômetros do Osbat, que era muito crítico e é o duto mais velho que nós temos aqui hoje. Justamente melhorando a qualidade do aço, melhorando a espessura, revestimento, tudo isso pra evitar esses sinistros. Eu acho que a questão ambiental na empresa foi, no cenário nacional, um ganho fabuloso. Tem um grupo, que é o GEC - Grupo Especial de Combate, que [atua] quando tem os grandes vazamentos. Em cada unidade tem “um cabeça”. Aqui, o SMS [Saúde, Meio Ambiente e Segurança] cuida disso. Tem um engenheiro que trabalha hoje no Rio de Janeiro, chamado Jéferson Faria Viana – ele inclusive foi um dos que me promoveu, uma pessoa que sempre gostou muito de trabalhar comigo – ele era membro desse grupo de trabalho de combate e emergência e onde ele estava ele me chamava. Ele me chamou para o Sul e me chamou para a Baía de Guanabara. O gerente aqui até não queria me liberar, mas ele via lá de outra maneira e conseguia. Fiquei 29 dias na Baía de Guanabara – na verdade não fiquei na Baía de Guanabara, fiquei na Ilha de Paquetá. Mas [quando] eu cheguei lá, eu chorei: meio metro de óleo até chegar à areia. E nós conseguimos limpar a Ilha de Paquetá. Foi uma coisa, assim, dolorosa, mas a gente conseguiu o objetivo realmente. Além disso, a quantidade: nós tiramos toneladas de lixo que já estavam antes. Acabamos limpando realmente a Ilha de Paquetá. Foi uma experiência triste, mas boa de uma certa forma para a minha formação profissional, para experiência de vida e para a própria empresa. Foi uma experiência dolorosa, mas bacana.
Nós tivemos uma ruptura no Osbat em 1988, foi um deslocamento de massa. O Osbat é um oleoduto atípico, porque ele passa na encosta da Serra do Mar. E a gente tem alguns programas de monitoramento de encostas. Tem inclinômetro, pesômetro, corner reflector, que pega imagens de satélite pra ver a movimentação de massa e tal. Em 1988 teve um grande acidente, houve uma chuva forte que deslocou a massa, torceu o duto e ele acabou rompendo: foi óleo para o mar, [uma] catástrofe ambiental na região. Depois, em 1994, teve também uma outra, aí foi um erro de uma contratada ao fazer furo DHP, que é o dreno horizontal profundo, justamente pra conter a encosta. Ela pegou o duto, na realidade pegou um matacão, que é uma rocha solta. [Aliás], pegou um matacão não, eles imaginaram que era um matacão e trocaram a boca. Tirou a boca e colocou uma boca de diamante pra romper a rocha e na realidade estava rompendo o duto. Depois nós tivemos uma trinca na solda longitudinal. Eu não lembro a data agora, acho que foi 1996 ou 1997. Por conta da trinca longitudinal do duto, em função de defeito, [houve] acúmulo de H2S [gás sulfídrico], moléculas de hidrogênio que se acumulam e de repente elas explodem lá e acabam causando esse fenômeno de trinca e rompimento. Ela vai trincando, trincando e chega num momento de limite máximo de escoamento do duto, aí ela rompe. Depois disso teve agora em 2004, recentemente, a mesma situação de 1997. Não me lembro agora a data, mas foi a mesma situação, foi trinca na solda longitudinal, em função disso que eu acabei de citar. Isso foi uma coisa meio particular porque ela não rompeu de uma vez. Ela trabalhou como mola. Quando tinha pressão, ela abria e vazava. Tirava a pressão, ela diminuía. Aí teve uma dificuldade grande de detectar isso por operação, pelos sensores. Só se descobriu quando chegou no rio. Engraçado que foi até uma coisa bacana quando foi deflagrado o vazamento e o pessoal passou e viu o óleo lá. Nós chegamos com a equipe do lado da praia, antes de entrar na praia, na ponte da rodovia. Claro, deu transtorno para a empresa, que acabou sendo multada, mas não chegou na praia.
A gente tem um treinamento para esse tipo de situação. O SMS dá treinamento para a gente, recicla. Normalmente quando o primeiro combate é durante o dia, somos nós, durante o horário normal de trabalho. Primeiro somos nós, depois a gente deflagra a emergência e vem outras pessoas nos ajudarem. "Deu vazamento", aí sai uma equipe pra reconhecimento e uma equipe já vai para o Cempol, que é o nosso Centro Modelo de Prevenção Controle e Combate à Poluição por Óleo no Mar. Pegamos o material junto com eles, o que dá pra ser rápido, por exemplo, barreira absorvente, que é rápido para o povo colocar, a gente já vai dando. O pesado vem de caminhão. E quem está lá reconhecendo já deflagrou: "Realmente é vazamento. Providencia...", aí já passa as coordenadas, os equipamentos necessários, enfim. [Sempre] se sai com GPS. Já se passam todas as informações para facilitar a chegada da equipe de combate. A gente tem que passar bem claro. Outra coisa é não se apavorar. Não adianta, vazou, você tem que estar sempre controlado e manter a calma. Porque aí vem a comunidade, todo mundo quer saber como aconteceu. Não chegou ali na praia, mas os barraqueiros dizem que não venderam por conta da Petrobras. Inclusive tem ação judicial até hoje por conta disso. O pessoal lá das barracas se sentiu prejudicado e entrou com uma ação. Eu sou preposto da empresa nesses assuntos aí. Tem que ir lá junto com o juiz fazer todo o trabalho. Sou o representante da empresa. Há uma outra coisa bacana em duto também: antigamente a gente usava água para limpar o duto e depois a gente drenava a água. Hoje a gente usa o nitrogênio, que é um gás muito perigoso, mas ele é um gás que inertiza toda a parte da linha através do PIG, que é um instrumento que vai dentro da linha e atrás vai o gás, o nitrogênio, e vai um selo. Depois, na hora que você tira, chega na refinaria, bloqueiam-se os dutos e se drena o gás pressurizado. Você pode cortar tranqüilamente o duto que não ocorre contaminação do meio ambiente, como se fosse a água, por exemplo. E o nitrogênio você libera para a atmosfera. Você só não pode estar confinado, pois aí ele é um gás letal.
Na realidade nós estamos respirando nitrogênio agora, não puro, mas ele faz parte da nossa vida.
Quando veio o pessoal do Canadá fazer uma passagem do PIG instrumentado, o pessoal queria descer o Rio Pardo de caiaque, porque lá tem cachoeiras lindas e maravilhosas. O Mister Tim, que era o gringo que fazia parte do grupo, saiu e eu falei "Ah, é ali, eu vou". Só que já estava escurecendo. Bom, teve uma turma que saiu na frente e eu e o Mister Tim fomos atrás do pessoal de caiaque. Nós falamos: "Vamos pegar essa bifurcação do rio". Só que depois começou a escurecer e a gente não conseguiu mais voltar pelo rio porque tinha queda dágua. A gente passou uma noite inteira... Os outros voltaram – no dia seguinte a gente ficou sabendo que tinham voltado – e eu e o Mister Tim ficamos lá a noite inteira, chovia, [estávamos] debaixo de uma árvore. Não tinha mais como andar no meio da mata ou dentro do rio, a gente ia se matar lá. Essa foi uma passagem hilária, depois eu ouvi todo aquele: "Lost, se perdendo no meio da mata", "Logo você que tem muita experiência". Eu falei: "Mas eu não ia arriscar de jeito nenhum retornar naquela situação, até porque já estava chovendo e a gente podia pegar uma tromba dágua". A gente teve que sair da margem, porque se começou a chover e você está indo numa direção e de repente vem uma tromba dágua... Aí a gente foi para um lugar alto para ficar debaixo de uma árvore até aguardar o clarear do dia e poder sair da mata. Na realidade não estava perdido, mas aí [vem] o folclore, já viu. Todo mundo fala que a gente se perdeu. Mas foi legal.
Minha participação [no sindicato] é, assim: confesso que eu não sou muito... É importante estar sindicalizado até, mas eu não muito atuante não. E não concordo com a grande maioria das coisas que o sindicato faz. Também eu não entro em conflito. Se eu achar que uma causa é justa, eu entro; se eu não achar eu não entro. Por exemplo, tem gente que por nada entra. Eu não. Você tem que ser inteligente e saber o que é bom e o que é ruim. Tem momento que não é bom você entrar. Já entrei, assim, acho que por duas vezes durante esse meu período de empresa. Mas, assim, ficar ali na portaria meia hora, uma hora, até umas duas horas...
Eu diria que pra mim é uma alegria muito grande ser petroleiro, embora eu não goste muito de dizer. O pessoal gosta de dizer que quem trabalha aqui é rico (riso). Mas realmente ser petroleiro é uma alegria muito grande. Eu convivo aqui com um pessoal de altíssimo nível técnico, inteligente. É um aprendizado todo dia. Eu acho que eu definiria dessa maneira: a alegria de estar aqui dentro da empresa, do Terminal, desse contexto. Eu digo que a empresa é como se fosse o corpo humano: a gente tem as artérias que são os dutos, o coração que é a bomba e as veias que são os ramais que estão espalhados pelo país para a distribuição de energia nos postos e o cérebro lá no Rio de Janeiro (riso).
Nós fizemos um trabalho aqui que foi pioneiro em 2001, por conta de uma erosão no duto. A gente precisou fazer duplas calhas, que são duas meias cana soldadas em dutos de 42 polegadas em curva, que é uma dificuldade extrema. Naturalmente é um reparo provisório e aí nós solicitamos um apoio do Cenpes [Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello] para que fizesse um procedimento e isso se tornasse definitivo. Hoje é definitivo e a gente ganha muito com isso. A empresa ganha muito. Inclusive, tem um engenheiro do Rio de Janeiro, do Cenpes, chamado Marcelo Pisa, que é fantástico. Eu aprendi muito com ele. Ele desenvolveu [isso] com Rogério Marques. Foi um trabalho maravilhoso e hoje a empresa tem uma economia fabulosa por conta desse procedimento, porque você não pára o duto pra isso. Pelo contrário, para fazer essa manutenção o duto tem que operar numa vazão determinada lá pela norma. Isso foi um ganho fantástico para a empresa, foi muito bom. Uma coisa que era provisória virou definitiva. Eu me sinto orgulhoso de ter participado desse trabalho. E fui o primeiro a fazer, isso é uma coisa bacana.
É fantástico, porque é uma iniciativa importante para que não se tenha a perda de todo esse acervo que foi a empresa desde o seu início. É muito importante mesmo. Até como eu estava comentando, eu tenho um projeto de fazer o Museu dos Dutos aqui em São Sebastião, juntamente com a comunicação. Eles fariam do Terminal e eu faria a memória dos dutos através do Museu. Isso é bacana, isso a gente não pode perder. A história da empresa não pode ser esquecida, é muito importante. Obrigada
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