Criança tem cada imaginação, não sei por que, mas parece que quando a gente é criança tudo leva ao mundo da imaginação. Lembro-me, devia ter uns quatro ou cinco anos. Interior da Bahia. Sabe aquela cidadezinha pequenina? Bem, mas o lugarejo onde eu morava ficava distante, entre serras e para chegar à cidade precisava transpor a serra. Mas ir a cidade era só para os mais velhos ou os pais que iam para a feira, toda sexta-feira.
Eu sempre ficava com meus irmãos mais velhos e um mais novo que eu. As pessoas mais velhas gostavam de contar histórias: da Bíblia, de assombração, lendas... Lobisomem, Mula-Sem-Cabeça e a Pisadeira eram as que mais me amedrontavam. Era tanto medo, que eu estivesse só em algum lugar lá por volta das seis horas da tarde, já começava a tremer e rezar. Hora da Ave Maria tinha de rezar para afugentar as assombrações.
Certa vez sexta-feira, ficamos com medo de esperar minha mãe em casa e fomos para a casa de minha avó que ficava mais distante. Choveu nesse dia e após a chuva, já noite tínhamos que voltar para casa. Viemos os quatro – minha irmã mais velha carregava o meu irmão caçula e eu e outro irmão do meio de mãos dadas. Alguém ousava soltar? Perto de uma encruzilhada, onde diziam enterrar as crianças pagãs, ficamos em uma indecisão cruel: seguir em frente significava atalho para minha casa, porém, não havia casas: era só cerca (bem alta para mim) de roça de um lado e do outro. Outro caminho era uma distâncias três vezes maior e passaríamos por mais duas encruzilhadas. Depois de uma breve e tremedeira conversa decidimos seguir em frente mas, correndo. E eu, em particular de olhos fechados. Acontece que nesse caminho, havia muitas pedras. Então, caíamos e seguíamos. Quase no final alguém gritou: - Olha lá é um bicho de olhos enormes, e agora?.
Eu chorava e não sabia que abria o olho ou se ficava ali esperando o bicho me atacar de olhos fechados. Então, minha irmã deu o comando: -...
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Criança tem cada imaginação, não sei por que, mas parece que quando a gente é criança tudo leva ao mundo da imaginação. Lembro-me, devia ter uns quatro ou cinco anos. Interior da Bahia. Sabe aquela cidadezinha pequenina? Bem, mas o lugarejo onde eu morava ficava distante, entre serras e para chegar à cidade precisava transpor a serra. Mas ir a cidade era só para os mais velhos ou os pais que iam para a feira, toda sexta-feira.
Eu sempre ficava com meus irmãos mais velhos e um mais novo que eu. As pessoas mais velhas gostavam de contar histórias: da Bíblia, de assombração, lendas... Lobisomem, Mula-Sem-Cabeça e a Pisadeira eram as que mais me amedrontavam. Era tanto medo, que eu estivesse só em algum lugar lá por volta das seis horas da tarde, já começava a tremer e rezar. Hora da Ave Maria tinha de rezar para afugentar as assombrações.
Certa vez sexta-feira, ficamos com medo de esperar minha mãe em casa e fomos para a casa de minha avó que ficava mais distante. Choveu nesse dia e após a chuva, já noite tínhamos que voltar para casa. Viemos os quatro – minha irmã mais velha carregava o meu irmão caçula e eu e outro irmão do meio de mãos dadas. Alguém ousava soltar? Perto de uma encruzilhada, onde diziam enterrar as crianças pagãs, ficamos em uma indecisão cruel: seguir em frente significava atalho para minha casa, porém, não havia casas: era só cerca (bem alta para mim) de roça de um lado e do outro. Outro caminho era uma distâncias três vezes maior e passaríamos por mais duas encruzilhadas. Depois de uma breve e tremedeira conversa decidimos seguir em frente mas, correndo. E eu, em particular de olhos fechados. Acontece que nesse caminho, havia muitas pedras. Então, caíamos e seguíamos. Quase no final alguém gritou: - Olha lá é um bicho de olhos enormes, e agora?.
Eu chorava e não sabia que abria o olho ou se ficava ali esperando o bicho me atacar de olhos fechados. Então, minha irmã deu o comando: - "Não tem jeito, vamos passar correndo e gritando e seja lá o que Deus quiser'. Dito e feito. Ao vencer-mos o caminho, esbarramos em minha mãe que já vinha desesperada ao ouvir nossos gritos. Ninguém dormiu naquela noite. Na manhã seguinte, cheios de coragem pela luz do sol e pela presença de nossa mãe, fomos ver os rastos do tal bicho que quase nos engolira e qual não foi a nossa surpresa: o tal tenebroso monstro era só um galho de árvore molhado e caído no chão. Criança tem cada imaginação
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