Projeto Mulheres Empreendedoras de Trairi
Entrevista de Raimunda Ferreira da Silva Neta (Netinha)
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 04/09/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n.º: MNB_HV002
Revisada por Bruna Oliveira
P/1 - Netinha, para começar, queria que você parasse um pouco e pensasse qual é a sua memória mais antiga.
R - Minha memória mais antiga... De quê? De vir, de... Ai, Jesus! Hoje eu vou forçar, né? A memória. Minha memória mais antiga, eu acho que... Não sei, uns seis, sete anos que eu morava com a minha avó. Saía muito com ela. Acho que é essa. Passava muito tempo com a minha avó. Minha mãe trabalhava e aí ela cuidava de mim. Eu tenho essa memória, bem novinha mesmo. É a mais antiga que eu tenho.
(00:01:15)
P/1 - Tudo certo. Então eu queria que você começasse agora se apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Meu nome é Raimunda Ferreira da Silva, neta. A data de nascimento, 13 de 12 de 81, 1981, nasci em Fortaleza. A maternidade de Fernandes estava... Sim, até a maternidade que a minha mãe conta.
(00:01:44)
P/1 - E a sua mãe morava em Fortaleza?
R - Sim, morava em Fortaleza. Hoje ela mora aqui em Trairí também. Mas a gente sempre mora em Fortaleza. Os pais dela que moravam aqui, no Trairí, né? Por isso é que a gente veio. porque meu avô tava velhinho, aí ela veio cuidar dele, aí trouxe a família toda.
(00:02:05)
P/1 - E me conta como é que era o nome dos seus pais?
R - São vivos ainda. Maria Ferreira da Silva e Francisco Castro da Silva.
P/1 - Como é que você descreveria eles?
R - Como assim? Como pais? Como foram?
P/1 - Como pessoas? Como que eles são? De jeito?
R - Ah, são pessoas boas. Muito boas. São bons pais. Meu pai é um ótimo pai. Minha mãe também. São separados hoje em dia, mas são bons pais. Desde a minha infância só tenho boas memórias deles.
(00:02:41)
P/1 - E o que eles fazem? De trabalho?
R - São aposentados....
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Entrevista de Raimunda Ferreira da Silva Neta (Netinha)
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 04/09/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n.º: MNB_HV002
Revisada por Bruna Oliveira
P/1 - Netinha, para começar, queria que você parasse um pouco e pensasse qual é a sua memória mais antiga.
R - Minha memória mais antiga... De quê? De vir, de... Ai, Jesus! Hoje eu vou forçar, né? A memória. Minha memória mais antiga, eu acho que... Não sei, uns seis, sete anos que eu morava com a minha avó. Saía muito com ela. Acho que é essa. Passava muito tempo com a minha avó. Minha mãe trabalhava e aí ela cuidava de mim. Eu tenho essa memória, bem novinha mesmo. É a mais antiga que eu tenho.
(00:01:15)
P/1 - Tudo certo. Então eu queria que você começasse agora se apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Meu nome é Raimunda Ferreira da Silva, neta. A data de nascimento, 13 de 12 de 81, 1981, nasci em Fortaleza. A maternidade de Fernandes estava... Sim, até a maternidade que a minha mãe conta.
(00:01:44)
P/1 - E a sua mãe morava em Fortaleza?
R - Sim, morava em Fortaleza. Hoje ela mora aqui em Trairí também. Mas a gente sempre mora em Fortaleza. Os pais dela que moravam aqui, no Trairí, né? Por isso é que a gente veio. porque meu avô tava velhinho, aí ela veio cuidar dele, aí trouxe a família toda.
(00:02:05)
P/1 - E me conta como é que era o nome dos seus pais?
R - São vivos ainda. Maria Ferreira da Silva e Francisco Castro da Silva.
P/1 - Como é que você descreveria eles?
R - Como assim? Como pais? Como foram?
P/1 - Como pessoas? Como que eles são? De jeito?
R - Ah, são pessoas boas. Muito boas. São bons pais. Meu pai é um ótimo pai. Minha mãe também. São separados hoje em dia, mas são bons pais. Desde a minha infância só tenho boas memórias deles.
(00:02:41)
P/1 - E o que eles fazem? De trabalho?
R - São aposentados. Trabalham em casa, né? Minha mãe ainda é danada. É aposentada, mas vende umas coisinhas. Ela gosta de fazer bolo, lanche. Essas coisas ela ainda faz, sabe? Mas ela é aposentada. E ele também.
P/1 - E antes?
R - Como é?
P/1 - E antes?
R - Antes meu pai era pedreiro. Pedreiro... Trabalhar com piso. Pedreiro, eu acho, né? Sempre trabalhou como pedreiro e a minha mãe era doméstica. Doméstica, ela trabalhava numa casa de família. Trabalhou muitos anos.
(00:03:24)
P/1 - E como é que era quando ela trabalhava na casa de família? Trabalhava lá em Fortaleza, né?
R - É, em Fortaleza. Quando ela veio pra cá, ela já veio aposentada, né? Lá ela trabalhava. Ela... Eu lembro que a gente era pequena, ela ia trabalhar, nós somos em quatro irmãos. Ela ia trabalhar, eu ficava com a minha avó. E ela sempre foi, sempre foi. Sempre eu conheci minha mãe trabalhando fora, sempre. A vida dela foi essa, trabalhar fora. No final de semana que ela estava em casa com a gente, cuidando dos filhos. Mas ela sempre trabalhou fora.
P/1 - E seu pai também?
R - Meu pai também. Todos os dois.
P/1 - E se te contaram como é que foi o dia do seu nascimento?
R - Ai, ai, eu não tive curiosidade não de perguntar. A mãe sempre fala, assim, alguma coisa, mas não tenho assim a... Nunca parei pra perguntar, né, como foi. Não.
(00:04:30)
P/1 - E seu nome é Neta, né?
R - É.
P/1 - Por que que te chamaram assim?
R - Porque meu nome é o nome da minha avó, das minhas duas avós. Tanto a minha avó, parte de mãe, como a parte de pai. O nome delas era Raimunda Ferreira da Silva. Aí, segundo a minha mãe... Ah, eu tenho essa coisinha pra contar, né? Segundo a minha mãe... Quando foi pra mim nascer, ela teve um probleminha na gravidez, e aí ela fez uma promessa, porque ela não gostava desse nome. Aí quem pagou foi eu. Se a filha dela fosse uma menina, ela colocava Raimunda Ferreira, que é o nome das avós. Aí ficou, Raimunda Ferreira da Silva Neta. Aí minhas tias, parte de pai, começaram a me chamar de netinha, porque achavam Raimunda muito grande. Aí chamava netinha, netinha, e aí ficou até hoje. Poucos me conhecem pelo meu nome, só Netinha. Só na escola, quando eu estudava, é que os colegas de escola conheciam, como Raimundo, na empresa onde eu já trabalhei. Até hoje ainda tem gente que se chama Raimundo, mas eu gosto mesmo é Netinha.
P/1 - E você gosta desse apelido?
R - Gosto, gosto. Gosto mais do apelido do que do nome. Mas hoje em dia já tá tranquilo, mas antes eu era mais... não gostava, né? Não gostava desse nome, mas hoje eu já me adaptei.
(00:05:59)
P/1 - E me conta como que era a relação com seus irmãos, qual é o nome deles? Como que era a relação com seus irmãos durante a infância?
R - Só tenho um irmão homem, é o Franzmar, que a gente chama ele de Dedé. Aí tem a minha irmã do meio, que é a Raquel, e a mais nova, que é a Isabel. E eu tenho uma irmã também de criação, que a mãe criou ela. Ela é minha prima, mas é minha irmã de criação. Também considero como irmã, né? Simone, que é a mais nova. A convivência da gente era tranquilo. Tinha uns arrega de menino, né? De irmãos, mas foi bem tranquilo. Somos bem unidos, graças a Deus. Somos uma família pequena, mas unida, né? Sou unida com meus irmãos e eles comigo. Eles me respeitam muito, que eu sou a mais velha. Aí é assim. A gente cresceu unidos.
(00:06:57)
P/1 - Você estava contando que seus avós eram de Fortaleza, né?
R - É.
P/1 - E como é que...
R - Não, meus avós...
P/1 - Eles são de Trairi, né?
R - É, da família da minha mãe. Do meu pai não, do meu pai é de Fortaleza.
(00:07:11)
P/1 - E como é que foi conhecer os seus avós assim? Você chegou a conhecer, a ter contato com eles?
R - Sim, a minha avó, por parte de pai, ela que eu falei que eu fui criada sem bem dizer com ela, né? Porque ela ficava comigo pra minha mãe trabalhar. Eu convivi muito com ela. Já a minha avó, parte de mãe, ela faleceu... A minha mãe tinha 15 anos, não conheci. Mas o meu avô, pai da minha mãe, também eu conheci. Foi por causa dele que a gente veio embora pra cá. Ele já era bem velhinho, né? E a minha mãe veio cuidar dele, deixou o trabalho pra vir cuidar dele. E aí eu conheci ele. Só que da parte do meu pai, eu não conheci o meu vô. Só a minha vó. E da minha mãe, só o meu vô.
P/1 - E contavam de onde que eles vieram?
R - Minha vó, minha vó parte de pai, ela é de Capristano de Abreu. Ela contava. De Capristano. Mas eu nunca conheci também a terra dela. E meu vô era daqui mesmo.
(00:08:14)
P/1 - E como é que sua mãe foi lá pra Fortaleza?
R - Você sabe? Acho que ia pra trabalhar, né? Na época, os jovens aqui não tinham muito... Como... Quem queria sobreviver melhor, né? Ia pra Fortaleza pra trabalhar. Aí ela foi pra trabalhar.
P/1 - Era comum?
R - Era comum. Acho que ela foi com uns 16 anos. Logo após a mãe dela falecer, ela foi pra Fortaleza, morar com a minha tia, que é uma tia dela, né? Aí lá trabalhou, conheceu meu pai e por lá ficou.
P/1 - E me conta se tem alguma comida, algum cheiro, alguma festa que lembre essa época da sua infância.
R - Não, não me recordo.
(00:09:09)
P/1 - Tudo bem, não tem problema. Eu queria saber também como que era a casa que você passou a sua infância, se você pudesse descrever pra mim.
R - Eu me lembro de duas casas. Lembro uma que era no quintal da minha avó. Era uma casinha pequena, era um quarto-sala, uma cozinha. Nesse tempo eu acho que só era eu e meu irmão. A mãe só tinha andado as dois. Aí depois teve outra casa que a gente foi. Eu também tenho vaga lembrança de como a gente foi pra lá, né? Mas foi lá que eu passei a maior parte da minha vida, foi nessa casa. Tudo próximo uma da outra, mas... A primeira era no quintal da minha avó e a outra já era um deles mesmo, né? Eles compraram um terreno e começaram a construir essa casa. E onde que ficava? Na Barra do Ceará. Era uma casa grande, essa casa que a gente tinha, que a família era grande, né? Eles começaram a
construir um quarto, aí ficava todo mundo naquele quartinho, depois construíram mais um e assim foi aumentando a casa. E aí, por fim, ficou uma casa grande. Que no final, a minha mãe até dividiu ela no meio. Que era pro meu irmão e pra ela.
P/1 - E essa casa existe até hoje?
R - Não, porque foi vendida. Foi vendida lá.
P/1 - Existe, mas não é mais...
R - É, existe, mas não é mais nossa, né? Nós não tem mais casa lá em Fortaleza, só aqui. Só meu irmão que mora lá, ele tem casa lá.
(00:10:45)
P/1 - E você lembra como que foi esse momento da sua vinda pra cá?
R - Lembro. A minha vinda pra cá, na verdade, eu já vim... Quando eu já vim, eu já tinha duas filhas. É, eu já tinha me casado. Não casei, né? Eu me juntei com uma pessoa lá. Aí eu tive duas filhas com ele. A gente veio embora pra cá. E aí aqui não deu mais certo. A gente se separou.
(00:11:13)
P/1 - Então sua mãe veio primeiro?
R - Foi, não. A gente veio tudo junto.
P/1 - Entendi.
R - Veio tudo junto. Porque na mesma época meu avô tava só, tava doente. Aí a mãe decidiu vir também. Aí eu vim também com ela. Viemos tudo junto. Vendemos as casas e viemos pra cá. E aqui tinha casa pra gente, né? E a gente veio pra cá. Aí daqui foi que nós continuamos. Tá com 22 anos que eu vim embora pra cá.
P/1 - Bastante tempo.
R - Bastante tempo.
(00:12:00)
P/1 – Queria que você me contasse como que era Fortaleza na época da sua infância.
R - Fortaleza era como se fosse o interior. Era. No bairrozinho que eu morava tinha mato, não era rua calçada, não tinha calçamento, não. Eram as casinhas normais. Com o tempo é que foi, né? É que foi virando cidade mesmo, né? Era uma casinha aqui, outra ali. Era desse jeito. E não tinha violência. Todo mundo era livre. Da minha infância, né? Já na adolescência que começou as coisas ruins aparecerem.
P/1 - E na hora da... Nessa época que você era pequena, tinha... Assim, como é que era o dia a dia lá em Fortaleza? Você contou um pouco como era, que era rural, quase rural, né?
R - É, quase rural.
P/1 - Mas como é que era, assim, a noite lá? Como é que era quando anoitecia? Tinha já energia lá?
R - Tinha, já tinha energia. Já tinha energia normal, assim, como uma cidade normal mesmo, tinha energia. televisão preto e branco. Lembro que a televisão da minha mãe era vermelha. Até hoje eu lembro, tenho lembrança dessa televisão. Televisãozinha de tubo desse tamanho. E era assim, normal mesmo.
(00:13:38)
P/1 - E quando você veio para o Trairi, foi uma mudança muito brusca?
R - Foi, para mim foi, porque eu nasci e me criei lá. Eu vim aqui para o Trairi só para passear. Eu não pensava em vir morar aqui. Mas aí, como a minha mãe veio e ela sempre gostou dos filhos tudo perto, né? Aí eu decidi vir também.
(00:14:04)
P/1 - E como é que era na escola? Qual que é a sua primeira lembrança da escola?
R - Minha primeira lembrança da escola... Como assim?
P/1 - Uma que tenha sido marcante.
R - De criança ou já de adolescente?
P/1 - Pode ser de criança ou de adolescente.
R - Nosso colega tudo normal também, não tenho muita lembrança.
(00:14:31)
P/1 - Tinha alguma professora, algum professor? Uma matéria que tenha sido especial?
R - Não, eu lembro só que eu estudava numa escola já de Figueiredo, foi a minha primeira escola lá na Barra do Ceará. Até hoje essa escola ainda existe. A fardinha dela era diferente, era uma saia de prega com uma blusinha quadriculada. Até hoje eu lembro dessa farda da escola.
P/1 - Você gostava disso?
R - Gostava. Sempre fui uma boa aluna. Graças a Deus.
P/1 - E como é que você ia pra escola?
R - Era perto? Era perto, ia a pé. Ia a pé e voltava a pé. Mas uns amigos, né? Inclusive a Evenizia, que tu vai entrevistar ela, era minha colega de escola. A gente morava próximo, lá em Porto Alegre.
(00:15:24)
P/1 - Então vocês se conhecem desde lá?
R - Desde lá. E quando eu vim pra cá, com o tempo já que eu morava aqui, eu encontrei ela por acaso na praça aqui. Aí ela me reconheceu e eu não conhecia mais ela. Aí ela começou a falar comigo, aí eu lembrei da nossa infância, né? Que a gente estudava junto, ia pra escola junto.
P/1 - Vocês tinham uma amizade?
R - Tinha uma amizade, era de infância. O irmão dela, inclusive, acho que era o melhor amigo do meu irmão. Só que a gente tinha perdido o contato, né? Depois que veio embora pra Itaí, a gente perdeu o contato. Aí se reencontramos aqui.
(00:16:02)
P/1 - E que brincadeira que você gostava de fazer quando você era pequena, você lembra?
R - Lembro a brincadeira, eu gostava muito. Brincar de casinha, né? Fazer comidinha de panela, aquelas comidinhas de... De brincadeira mesmo, de criança. Corda, brincar de corda, pular de corda, a barelinha. Eu tive uma infância mesmo de criança mesmo, né? Que hoje em dia as brincadeiras estão diferentes. Aí brinquei muito. De boneca. Brinquei muito mesmo.
P/1 - E você brincava na rua?
R - Sim, na rua. Nessa época a gente podia brincar na rua. Com os vizinhos. Do que aparecesse a brincadeira de esconde-esconde, pega-pega. Na rua eu brincava.
(00:16:51)
P/1 - Você lembra se lá em Fortaleza tinha um costume? Às vezes, as pessoas contam que tinha um costume da família de botar as cadeiras na frente da casa.
R - Sim, a gente botava. Ficava sentada até tarde, conversando. Tudo na paz. Mas eu tinha esse hábito.
P/1 - E você lembra de alguma vez que tenha sido assim, ou de como que era esse momento?
R - Não, assim, a noite, né, a tardezinha pra noite, a gente sentava, ficava conversando, vinha um vizinho, vinha outro e ficava conversando, trazia um café e ficava tomando, compartilhava janta, era assim, tudo na calçada, né, na rua. Os mais pequenos ficavam brincando, correndo de bola e os outros sentados conversando, assim.
P/1 - Em que momento isso acabou?
R - Eu acho que acabou depois que a gente cresce, que começa a trabalhar, chega em casa mais cansado. Aí não tem mais tanto tempo para ficar sentado na calçada. Acho que foi por isso. O cansaço mesmo do dia a dia.
(00:18:04)
P/1 - E me conta, ainda na época da escola, o que você gostava de fazer quando você estava na adolescência?
R - Na escola?
P/1 - Não. Na vida, sim. Como você se divertia nessa época?
R - Na época da adolescência, só com as amigas. Só de conversar, de sair. Eu não andava em festa. Minha mãe não deixava. Ela não deixava eu sair. As amigas que eu tinha era só de sentar na calçada e conversar mesmo.
P/1 - E eram as amigas da escola?
R - As amigas da escola. Amiga da rua. Era assim.
P/1 - E tinha paquera nessa época ou não?
R - Tinha, né? Já tinha, mas também foi tranquila a minha adolescência.
(00:18:50)
P/1 - E nessa época você sonhava em ter alguma profissão específica?
R - Não, eu não sonhava, mas desde os meus 15 anos que eu aprendi a costurar. Eu já tinha uma paixão pela costura. Eu fiz um cursinho, né? Aprendi o básico. Aprendi também com a minha avó. Ela deixava eu mexer na máquina dela. Eu já tinha essa vontade de costurar, né? Mas eu não pensava que eu ia levar isso de profissão pra minha vida. Era só mesmo por brincadeira.
P/1 - E o que você costurava?
R - Com a minha avó, retalho, assim, né? Ela botava uns retalhozinhos, costurava, até fazia uma coxa de cama, essas coisas assim. pedacinho de pano, roupa pra boneca. Eu com 15 anos, eu lembro que eu fazia ainda roupa pra boneca.
(00:19:44)
P/1 - E o que que motivou você a querer fazer esse curso? Como é que foi esse curso?
R - Esse curso, tinha um canto lá em Fortaleza que tinha cursos gratuitos pra quem quisesse e aí eu me interessei, tive vontade de fazer pra me aprimorar mais no curso. Aí eu fui e fiz. Aí... Aprendi muita coisa no curso. Através de lá, eu já consegui um emprego costurando para outra pessoa. E foi assim.
(00:20:20)
P/1 - E esse foi seu primeiro emprego?
R - Foi. Primeiro emprego.
P/1 - E como é que foi esse momento?
R - Foi bom. Eu só ajudava, né? Na verdade, eu nem fui costurar direto. Eu era ajudante da costureira, né? Cortava a ponta de linha, essas coisas. Mas ali ela já me botava na máquina, porque eu já tinha uma noção, né? Ela já me botava na máquina pra mim... Fazendo algumas coisinhas. E eu gostei.
(00:20:48)
P/1 - Você lembra no curso, nessa época que você começou a aprender a costurar? Você já costurava com sua avó, né? Mas quando você começou...
R - É, a minha avó era só mais pra brincadeira.
P/1 - Quando você começou a costurar mesmo no curso, você lembra qual que foi a primeira peça de roupa que você costurou?
R - No curso mesmo, eu lembro de uma camisetinha que eu fiz. Eu tinha ela guardada até hoje ou não, mas eu não sei. Eu acho que eu perdi, eu tinha ela guardada. Uma camisetinha... tecido plano, lilás, a corzinha dela. Aí eu guardava ela, foi a primeira camiseta que eu fiz na coça. Mas eu não... Acho que eu perdi.
P/1 - E você recebeu um salário nessa época?
R - Eu acho que não. Acho que era o salário da época, né? Não lembro quanto que eu recebia, quanto que eu ganhava.
P/1 - Mas você lembra o que você fez?
R - Com esse... Com esse dinheiro? É. Comprava coisas pra mim, né? Coisas que todo jovem gosta. Shampoo, essas coisas de cabelo. Essas coisas que jovem gosta, né? Besteira pra comer, bombom, essas coisas.
P/1 - E... Você comprava pra você?
R - Pra mim, é. Por isso que eu acho que não era salário, né? Talvez era alguma... Alguma gorjeta, né? Que dava. Só que aí eu com 15, isso é com 15 anos, né? Aí com 16 anos eu conheci um rapaz, aí comecei a namorar com ele. Como eu era muito presa, aí eu caí na tentação de fugir com ele. Com 16 anos eu fiz isso, né? Aí a minha mãe no começo achou ruim, né? Foi atrás e aí não queria. Porque eu tinha 16, ele tinha 18. Aí eu sei que até que ela aceitou. Aí comprou lá uma casinha na mesma rua que a gente morava pra gente morar junto. Aí pronto, a gente começou a morar junto. Com 16 anos. Com 17 anos eu tive minha primeira filha.
(00:23:02)
P/1 - Como é que é o nome dela?
R - Da minha primeira filha? Lia. Lia Cassia.
P/1 - E como é que foi se tornar mãe?
R - Foi bom, eu gostei dessa sensação. Apesar de eu ser muito nova. Mas hoje em dia, antes eu achava assim, era um pouco... Foi um pouco cansativo, né? Ser mãe muito nova. Mas hoje em dia eu acho que foi a melhor coisa que eu fiz. Porque minhas filhas já estão todas moças, né? E eu... Eu tô nova, eu acho. E não tenho mais criança.
(00:23:41)
P/1 - E quando você conta que você se decidiu fugir, pra onde vocês foram?
R - Mulher, a gente foi pra cá, pra Canã. É porque os pais dele eram daqui do Canaã. Ele morava lá com os tios, né? Aí eles eram daqui do Canaã. Aí a gente veio embora pra cá. Na verdade, eu não fugi. Eu vim pra uma festa. Aqui, né? No Canaã. Só que eu não disse a mãe, né? Foi fugido, né? Aí, dessa festa eu fiquei. Aí depois eu liguei pra ela só pra dizer que eu não ia mais voltar. Só que eu voltei, né? Eu voltei. Aí a gente ficou lá um tempo. Aí quando a gente veio embora aqui pro Trairine, aí eu tive a minha primeira filha, com 17 anos, e já em seguida eu tive a segunda, com 18. Que é a Carlinha. Que é a Carla. Aí, agora quando eu engravidei dela, meu chão caiu porque a Lia tinha só quatro meses e eu engravidei da minha segunda filha. Aí eu perdi o chão, né? Porque eu era muito nova e duas crianças. Mas aí a minha mãe sempre me apoiou, né? Sempre me ajudou. Eu não tenho o que dizer nada dela. Aí eu tive ela com 18. É tanto que quando elas eram pequenas, pareciam gêmeas. Porque eram bem pertinho uma da outra. E aí quando eu vim embora aqui pro Trairi, ele já tinha uma... A Carlinha tinha quatro anos e a Lia tinha cinco. Aí a gente veio embora aqui pro Trairi. Aí quando a gente chegou aqui no Trairi, a gente já passou um ano, um ano junto, eu com o pai delas, que eu morei com ele sete anos. Aí não deu mais certo. Tinha muito ciúme, essas coisas que eu não gosto nem de contar também. Aí eu sei que a gente se deixou, se separou. Foi um momento difícil pra mim, né? Porque eu tava com duas filhas pequenas, mas como eu falei, minha mãe sempre me apoiou, sempre me ajudou. Aí deu certo.
(00:25:54)
P/1 - E nessa época que você teve suas filhas, você trabalhava?
R - Não, aí eu parei. Eu trabalhava costurando, aí eu parei de costurar porque não tinha condição de eu cuidar delas e trabalhar, né? Não tinha condições. Eu vim trabalhar de novo, a minha filha mais nova tinha sete anos. Já que não traí aí, já que eu voltei a trabalhar.
P/1 - Como costureira?
R - Não, aí aqui no Trairi eu fui trabalhar numa fábrica de coco, na Adel Coco, que tem aqui no Trairí. É uma fábrica grande, aí eu trabalhei lá sete anos. A minha conta sempre é sete. Trabalhei sete anos nessa fábrica. Aí quando eu saí de lá, foi que eu comecei a trabalhar costurando de novo. Aí eu retornei até hoje.
P/1 - Quanto tempo faz isso?
R - Que eu tô costurando, acho que já tá com uns 15, 16 anos, que eu fiquei assim direto, né?
(00:27:00)
P/1 - E você chegou a terminar o ensino médio?
R - Terminei, não, terminei aqui no Sérgio. Eu concluí o fundamental, né, em Fortaleza, quando eu era muito nova ainda. Aí, quando eu vim embora, eu já tava no ensino médio, tava no segundo ano. Aí eu não continuei, né? Aí eu concluí aqui, no Céjia. Que é uma... Tipo uma escola, né? Pra adolescente que abandonou a escola. Adolescente não, adultos. Jovens e adultos.
(00:27:34)
P/1 - Nessa época que você estava falando que você se tornou mãe e que foi um pouco difícil, por ser nova, eu queria que você contasse o que foram as dificuldades dessa época? O que era difícil?
R - Acho que é a maturidade mesmo, de você não saber, minha mãe trabalhar. Minha mãe me ajudava, mas ela trabalhava e eu é que tinha que cuidar. O pai delas também trabalhava e eu ficava só pra cuidar delas. E eu muito novinha, né? Porque uma menina de 16 anos é uma criança, né? Pra cuidar de filhas só. Assim, só não, né? Porque eu morava com o pai delas e com a minha mãe. Mas, assim, é difícil. Difícil mesmo.
P/1 - E você teve outros filhos depois?
R - Tive. Aí quando eu vim embora pra cá, que a gente separou, eu não era casada com ele, né? Não cheguei a casar na igreja nem se viu. A gente separou. Ele arranjou outra pessoa e eu arranjei outra. Depois que a gente separou, né? Aí essa pessoa que eu arranjei, que a gente tá até hoje, que é o Isaías. Quando eu conheci eles, a minha filha mais nova tinha quatro e a mais velha tinha cinco, né? Aí ele meio que foi assim um pai pra elas, né? Elas só não chamam ele de pai, mas consideram como um pai, porque ele que me ajudou a criar elas. Porque o pai delas mesmo não... Depois que separou ele e seguiu o rumo dele, não quis mais contato, né? Aí ele que assumiu. Ele era novo também. Ele é dois anos mais novo do que eu, mais mesmo assim. Ele assumiu até hoje.
(00:29:23)
P/1 - Como é que vocês se conheceram?
R - A gente se conheceu numa festa, numa festa que ele, na verdade, ele nem imaginava, né? Eu nem passava pela minha cabeça também de eu conhecer assim uma pessoa, né? Aí eu fui pra uma festinha celeste, que na época chamava o Celeste, né? Aqui perto. Aí lá ele tava entre... Eu tinha muito amigo, muito primo, né? Ele tava no meio lá e a gente ficou lá e começamos a conversar e desse conversado a gente ficou, né? Nessa noite. Aí depois... Eu pensava que ia ser só aquilo ali, não levei pra frente, né? Aí passou uns tempos, aí depois a gente foi conversando, que ele morava próximo, né? A gente ficou conversando, conversando até que deu certo. Aí com pouco tempo a gente já tava morando junto.
(00:30:15)
P/1 - E daí você teve seus outros filhos?
R - Só um. Ele só tem um filho com ele, que é o Levi. Aí a gente passou dois anos, acho que uns três anos juntos, né? Porque eu tinha as meninas pequenas. Aí ele não tinha filho, né? Lógico que ele queria um filho dele, né? Aí... Até que aconteceu, eu engravidei do Levi. Aí eu tenho o Levi, o meu filho mais novo, ele tem 18 anos. Completou 18 anos no segundo fevereiro, dia 1º de setembro.
P/1 - E como é que foi se tornar mãe depois, um pouco mais velha?
R - Depois, né? Um pouco mais velha. Aí já foi melhor, né? A experiência já foi melhor. Porque eu já sabia mais ou menos, já tinha... Já era, assim, mais madura, né? Aí eu acho que já tinha mais certeza do que eu queria, né?
(00:31:09)
P/1 - Me conta um pouco agora sobre a parte da costura. Quando você voltou a costurar, como é que foi se estabelecer aqui como costureira no Trairi?
R - Quando eu voltei a costurar, eu voltei a costurar para outra pessoa, não era para mim, certo? Eu fui trabalhar numa confecção. Eu saí da fábrica, aí eu estava em casa, aí essa pessoa montou uma confecção, aí sabia que eu costurava, né? Aí perguntou se eu queria trabalhar lá. Aí eu disse que queria, aí eu fui. Era um rapaz que me montou uma confecção. Igual essa minha confecção que eu tenho hoje, ele tinha a dele, né? Tinha cinco costureiras. Aí eu fiquei lá acho que uns quatro anos também, costurando pra ele. Aí eu costurava pra ele e aí eu consegui comprar minhas máquinas. Comprei uma máquina. Outra máquina. Entre esse tempo, eu ganhei uma máquina doméstica. Eu fiz um curso e ganhei uma máquina. Aí, quando eu trabalhava lá nessa confecção, eu comprei outra máquina. Aí, o que eu fazia? Aí, o que eu fazia? Eu trabalhava pra ele durante o dia e trazia peça pra casa pra trabalhar à noite. Pra eu poder pagar a minha máquina. E assim, eu consegui pagar a minha máquina. Aí ele fechou lá, aí eu fiquei sem trabalhar, mas aí eu tinha ficado com uma máquina, né? E também conhecida. Aí outras colegas que trabalhavam comigo, junto com ele, me indicaram, né? Pessoas que traziam peças de Fortaleza pra cá, pra trabalhar. Aí nessa eu fui, peguei, né? Fui fazendo teste, teste, e aí consegui. Consegui fornecedor. Aí, eu só tinha uma máquina. Peguei uma máquina emprestada com uma amiga minha, outra máquina, porque só uma não dava conta. E comecei a trabalhar, né? Trabalhar em casa, cuidando da casa e cuidando das costuras, né? E aí, até eu me inscrever no projeto da Angie, né? Mulheres do nosso bairro. E fui contemplada, aí eu consegui comprar duas máquinas pra mim. Duas máquinas novas. Foi uma alegria grande, muito grande. E aí eu aumentei mais um pouquinho. Já consegui botar uma pessoa para trabalhar comigo. Hoje em dia já tenho duas meninas que trabalham junto comigo. Já gerei emprego. E assim eu estou até hoje.
(00:33:47)
P/1 - Qual que foi a sensação quando você... O que você sentiu quando você comprou a sua primeira máquina?
R - Uma alegria grande. Porque eu imaginava assim que eu nunca ia conseguir, porque máquina é cara, máquina é de custo. E aí a primeira que eu comprei foi, como eu te falei, sacrifício, trabalhando a nojo para me pagar essa máquina. Aí as outras já que eu ganhei, o projeto que eu ganhei já foi mais, melhor ainda, que eu não precisei gastar.
(00:34:20)
P/1 - E me conta, nessa época, como que era Trairi para costureira? Tinha bastante costureira?
R - Não, tinha não. Não, o mercado para costureira é pouco aqui, nessa época que eu costurava, né? Hoje em dia já tem mais, já tem algumas aqui no trairi mesmo. Tem outra região aqui do trairi que já tem mais costureira, mas aqui trairi e sede são poucas. Mas já tem bastante.
(00:34:49)
P/1 - E por que você decidiu voltar pra costura?
R - Porque eu gosto, eu me identifico com a costura. Eu tava dizendo, né? Tem gente que trabalha porque precisa, porque tem que ganhar dinheiro, mas não gosta do que faz, né? Eu gosto do que eu faço. É uma coisa que eu gosto. Me faz bem. É tanto que, às vezes, as meninas saem cinco horas, né? Quando eu não tenho compromisso à noite, que eu sou da igreja, sou bastante da igreja, né? Aí, quando eu não tenho compromisso à noite na igreja, eu fico costurando. Às vezes, eu esqueço da hora. Dá dez horas, eu na máquina. E aí, esqueço do mundo mesmo, à noite, costurando. Porque eu gosto mesmo.
(00:35:32)
P/1 - E tem alguma peça que você tenha costurado que seja especial para você?
R - Não. É porque assim, as peças que eu faço, eu trabalho pra outra pessoa. Tipo, eu faço... Deixa eu ver como é que eu posso dizer.
P/1 – Uma encomenda.
R - Tem uma fábrica em Fortaleza, eles trazem tipo 100 peças para eu fazer por semana, já trazem tudo cortadinho, short, vestido, cropes, atrás tudo cortadinho. Aí eu só tenho o trabalho de fazer, confeccionar aquelas peças. Eu não corto e costuro, não. Aqui e lá eu corto. A minha filha, às vezes, pede, mãe, faz um short pra mim. Aí eu vou lá e faço, mas eu não costumo fazer, sabe? Até queria mais, fazer mais, mas eu não costumo fazer assim.
P/1 - Mas de alguma que você fez pra sua filha, você gostou de ter feito?
R - Sim, gostei. Eu gosto, mas eu não faço muito. Não sei por quê. Porque não tem tempo. É, o tempo também é. Então, às vezes, as pessoas me procuram. A Netinho faz isso assim pra mim. Aí, às vezes, o meu tempo não dá, porque quando a gente corta e costura já leva mais tempo, né? Diferente de você pegar tudo cortadinho e só costurar. Aí eu me identifiquei com a costura, não com o corte.
(00:36:59)
P/1 - Uma coisa que eu queria saber, antes da gente ir pro Mulheres do Nosso Bairro, foi que você estava contando um pouco de você ter gerado empregos. Eu queria entender como é que foi esse momento para você de chamar outras pessoas, elas já sabiam o ofício da costura, você teve que ensinar a elas, como é que foi esse momento de gerar outros empregos?
R - Essa menina que tá comigo há mais tempo, ela tinha uma noção, né? Ela já tinha uma noção de como costurar, porque ela já tinha feito um curso, aí desse curso ela foi trabalhar com a Anísia, a Ivanísia, vou falar muito da Ivanísia aqui. Aí ela, por ser longe a casa da Ivaniza, ela não deixou de ir, né? Ela mora mais perto aqui da minha. Aí eu convidei ela. Perguntei se ela não queria vir trabalhar comigo. Ela disse que vinha. Aí ela veio e ficou. Porque ela também precisava e eu também tava precisando. Eu queria aumentar a minha produção, né? De peças. Aí ela veio e ela ficou. Ela passou acho que um ano, dois anos comigo trabalhando. Aí abriu aqui em Traíma a Del Rio, que é uma fábrica de calcinha, né? Moda feminina. Aí ela foi pra Del Rio assinar a carteira, porque foi uma febre quando essa fábrica chegou aqui. Aí me abandonou, né? Foi pra lá. Aí foi, ela passou um ano lá. Aí saiu de novo de lá. Aí eu fui, captei ela de novo. Aí quando ela saiu, eu perguntei se ela não queria voltar pra cá. Ela disse que ia, e ela voltou. Só que aí, nessa época que ela foi pra Del Rio, eu arranjei outra, né? Arranjei outra pessoa. Ficou também há um tempo. Aí saiu, aí ela voltou pra trabalhar comigo, a Helena. Aí tá até hoje.
P/1 - E como que é o nome da primeira?
R - Helena.
P/1 - Helena. E a outra?
R - A outra é Elisângela. A outra ela é esposa do meu primo, que também eles vieram morar aqui. Eles moravam em Fortaleza e eles vieram morar aqui há pouco tempo. Aí ela... Ela costurava, né? E aqui ela tava parada. Perdeu pra trabalhar. Aí eu fui... Chamei ela também pra... Ela tá com pouco tempo. Só tá com um mês só que ela tá comigo. Mas também ela tá gostando, diz ela, né? Tá gostando. Já foi pra ajudar ela também. Aí eu peguei mais peças, né? Pra poder dar conta pras três. E aí tão assim.
(00:39:46)
P/1 - E me conta como que começou essa história, desde o começo do Mulheres do Nosso Bairro chegar na sua história. Como é que foi esse momento?
R - Como assim?
P/1 - Como que você ouviu falar nisso?
R - Ah, do Mulheres do Nosso Bairro? Na verdade eu nem tinha ouvido falar, né? A Evenizia ganhou a primeira edição do Mulheres do Nosso Bairro. Ela foi contemplada, foi só ela. Depois que ela foi contemplada, a Netinha, eu ganhei. Tudo foi me contar como é que tinha sido. Não deu tempo de eu te falar para tu fazer tua inscrição porque ela também já se inscreveu no último dia. Parece que ela já se descobriu no último dia. E aí não deu tempo. Aí ela ganhou, beleza. Aí quando foi no ano seguinte, que teve a segunda edição, aí ela mandou pra mim, né? O link pra gente se inscrever e tudo. Aí eu já me inscrevi. Aí eu ganhei. Da primeira vez que eu coloquei, eu ganhei. Aí ela... Aí dessa vez ela não ganhou. Eu ganhei, ela não ganhou. Ganhou eu e a Michelle, outra colega da gente. Também trabalha junto. Aí... Foi através daí que eu conheci, né? Esse projeto da Engie. Eu ganhei duas vezes com esse projeto. Aí eu ganhei um ano, aí outro ano eu não ganhei. Acho que eu ganhei dois mil e... Nós estamos em 2025, né? Eu ganhei 2024 e 2022. Se eu não me falho a memória, que a minha memória tá fraca. Aí, através desse projeto da Engie, mudou muita coisa, né? Consegui comprar minhas máquinas, mais máquinas, consegui...
P/1 - Eu vou fazer uma pergunta, daí a gente retoma o que você estava contando.
R - Certo.
P/1 - Você estava contando... O que mudou na sua vida a partir do projeto da Engie, do Mulheres do Nosso Bairro? Queria que você falasse um pouco. O que você enxerga que mudou? Como era antes a sua confecção e como ficou depois?
R - Antes, como eu só tinha uma máquina e era emprestada, Trabalhava mais pouco, porque eu não tinha condição de pegar muito, né? E nem de contratar ninguém, de chamar ninguém pra me ajudar, porque não dava, né? E aí, depois da Engie, aí eu consegui comprar minhas máquinas, né? Materiais, né? Que eu precisava, né? Tesoura, linha, abastecer um pouco, né? Das coisas que eu fazia. E aí, depois desse projeto que eu consegui chamar outra pessoa pra me ajudar, né? Trabalhar comigo. Também eu consegui construir um quarto, um ateliê, mas ainda não tá terminado, né? Mas já tá bem adiantado, também através do projeto, né? Eu tô fazendo o meu espacozinho. Porque por enquanto eu tô na casa da minha irmã, né? Com as minhas máquinas lá, porque aqui era muito apertado. Chegou a ficar apertado, né? No começo dava, que era só eu, né? Conseguia me virar. E quando coloquei mais uma pessoa já ficou mais apertado, né? Aí já precisava de um espaço maior. Aí esse recurso da ANGIE me serviu pra isso. Comprar máquinas e construir o espaço, né?
P/1 - Deixa eu só... O latido tá atrapalhando?
R - Não. Tá.
(00:43:35)
P/1 - E eu queria saber da parte assim... Eu queria saber da parte que vocês também receberam algumas aulas sobre empreendedorismo. Como é que foi essa formação para você?
R - Foi muito bom, muito boa mesmo as aulas que eles dão. tipo a capacitação que eles dão pra gente. Apesar de ser pouco tempo, né? Porque é um tempo pouco pra muita gente, né? Apesar de ser pouco tempo, foi muito assim, é esclarecedor, ajuda muita gente de como... Essa questão de precificação, de trabalho mesmo, muito bom, muito bom as aulas de empreendedorismo.
(00:44:26)
P/1 - E não são mulheres só do Trairi?
R - Não, são do mundo todo, porque tem gente de todo canto que a gente imagina.
P/1 - E você chegou a conhecê-las?
R - Não, só pelo grupo mesmo, né? De conversar assim, mas eu não cheguei a conversar com nenhuma, criar intimidade com nenhuma, não.
P/1 - Mas eu fico pensando que é interessante saber que tem outras mulheres ao redor do Brasil fazendo coisas parecidas.
R - Tem umas que a gente fica assim, meu Deus, o negócio a gente fica bem pequenininha na frente de... Tem muitas mulheres, muitos tipos de trabalho. É muito bom, muito bom mesmo a gente estar sendo um grupo desse.
00:45:11
P/1 - E como é que foi o seu sentimento quando você foi, você inscreveu o projeto e foi contemplada?
R - Ah, eu quase morro, quase caio para trás. Muito alegre, muito alegre mesmo. Eu não imaginava. A gente se inscreve, quer ganhar e quando ganha a gente não acredita que ganha, né? Engraçado. Eu, nesse dia, no dia que saiu o resultado, eu não olhei. Aí a Vanessa que olhou e ligou pra mim, né, tia, tu foi sorteada e tal. Aí eu fui olhar, meu nome tava lá, não acreditava. Aí fiquei, só acreditei mesmo quando o dia caiu na conta. Aí eu acreditei, porque você ganhar assim, né, uma contemplação dessa é difícil. Aí foi que eu acreditei, mas eu fiquei muito emocionada mesmo.
00:45:56
P/1 - E daí a primeira coisa que você fez foi comprar a máquina?
R - Foi a primeira coisa. Passou assim um mês. Aí eu demorei um pouquinho porque a gente tem que ir pra Fortaleza, né? Aí eu fui pra Fortaleza junto com a Michelle, a gente foi um dia de compras. Vamos comprar nossas máquinas, trouxemos juntas. Mas foi uma alegria, a primeira vez que eu ganhei.
(00:46:19)
P/1 - E hoje em dia o projeto aqui tem muitas mulheres que foram contemporâneas. Algumas mulheres que foram contemporâneas?
R - É, daqui do Trairi eu acho que só cinco. Cinco mulheres. Que eu conheço. Na verdade foram só cinco mesmo. Porque quando a gente vê a lista a gente sabe qual cidade, né? Aí do Trairi são cinco.
(00:46:42)
P/1 - E me conta, se você pudesse resumir essa experiência que você teve, tanto da capacitação que deram, quanto esse momento de ser contemplada com o prêmio, se você pudesse resumir todo esse processo num sentimento ou numa palavra, que palavra seria essa?
R - Gratidão. A única palavra que eu tenho é gratidão. Gratidão, primeiramente, a Deus e a Angie, por patrocinar esses momentos para essas mulheres.
(00:47:16)
P/1 - E o que você acha que te faz... Vou mudar a pergunta. Eu queria saber... Se teve uma mudança na maneira que você enxerga o seu trabalho depois dessa capacitação?
R - Sim, teve uma mudança, porque eu não vejo mais como antes eu trabalhava. Tipo, pra ajudar, né? Um extra, né? Hoje não, hoje é meu trabalho mesmo, né? Da onde eu tiro a minha parte do sustento da casa, porque não é só o meu marido, né? A gente tem que dividir as despesas. Da onde eu tiro a minha parte, é um trabalho mesmo. Não é só um extra, né? É um trabalho mesmo.
(00:48:12)
P/1 - Muito legal isso. E como que... Você se descreveria como uma mulher empreendedora, então, hoje?
R - É, creio que sim. Acho que sim. Me descrevo como uma mulher empreendedora. Porque através de mim, através do pouco que eu tenho, que não é muito, já consigo ajudar outras pessoas, né? Tipo, mais duas mulheres, né? Duas famílias.
(00:48:44)
P/1 - E eu queria saber um pouco, você contou que você gosta muito de ir para a igreja, eu queria saber um pouco da sua relação com a fé.
R - A minha relação com a fé é tudo, né? Eu faço parte do conselho da minha comunidade, né? Comunidade aqui que eu moro, que é a Vila São José. Então, eu faço parte desse conselho. O conselho é um grupo de cinco pessoas que ficam à frente da igreja, né? E eu sou uma delas. E assim, minha vida é a igreja pra casa. É a igreja pra casa. Meu marido também, a gente, né? frequentam junto, são muito... Em questão de religião, a gente é bem participativo, né? Meus filhos já não são muitos, né? Quando eu era pequena, eu levava, né? Mas depois que crescem, eles já têm uma, né? Dependência, eles vão... de acordo mais eu e ele a gente é bem frequente na igreja.
P/1 - E desde sempre você teve essa relação?
R - Sim, eu lembro que quando eu era pequena minha mãe sempre, todo domingo a minha mãe levava a igreja pra missa, né? Todo domingo a gente ia pra missa. Ela arrastava os quatro pequenininhos, botava dentro do ônibus e ia pra igreja. Eu lembro que todo domingo a gente ia pra missa. E aí daí eu levei pra minha vida.
(00:50:09)
P/1 - E você é devota de algum santo?
R - Devota, não, mas eu gosto muito de Nossa Senhora, Nossa Senhora Fátima.
P/1 - Qual que é a igreja que tem aqui?
R - São José. Igreja de São José. Capela de São José.
P/1 - É aquela que a gente passou na frente?
R - É, uma aqui que está toda rodeada de... Estão fazendo uma praça na frente, essa dali mesmo.
(00:50:37)
P/1 - Eu queria... O que é o seu dia a dia? O que você gosta de fazer no seu dia a dia?
R - O que eu gosto?
P/1 - Vamos dividir. Primeiro o que você faz e depois o que você gosta de fazer no momento de lazer.
R - Meu dia a dia é uma correria. Minha vida é uma correria. De manhã, acordo. Primeiro, o meu marido acorda cedo, faz o café, toma o café, vai trabalhar. A minha filha também vai trabalhar, mais velha. O meu filho também vai pra escola, sai tudo cedinho. Seis horas, eles já estão todos os três saindo. E aí, eu fico deitada um pouquinho, até umas seis e meia. Aí, acordo, tomo o café, dou uma arrumadinha na cozinha. Sete e meia, as meninas chegam. Aí, vou lá abrir. Aí fico costurando até umas 10 horas da manhã. 10 horas da manhã volto pra casa pra fazer o almoço, né? Aí vou fazer o almoço, vou dar uma arrumada na casa. Aí quando é meu dia, chega o meu marido e a minha filha pra almoçar. A minha outra filha, que é casada, também vem pra cá porque ela tem um filho autista especial, né? Aí, onde ela mora é longe da escola, ela vem pra cá, daqui ela ir pra escola, né? Aí, almoça aqui com a gente e passa a tarde aqui comigo. Aí, depois do almoço, organizo as coisas e volto pra costura. Aí, aqui eu fico até dar o tempo que eu puder. Quando eu tenho um compromisso pra sair cinco horas, eu fecho, né? As meninas saem cinco horas, aí eu fecho e venho pra casa. Quando não, eu fico lá até mais tarde. É assim.
P/2 - E... Posso perguntar uma coisa? O sol tá te incomodando?
R - Não. Nada.
P/1 - Não? Peraí, só um... Eu vi você fazendo assim.
R - Não. É porque esse meu braço aqui tá meio que doido.
(00:52:50)
P/1 - É, o que você gosta de fazer nos seus momentos de lazer?
R - Nos momentos de lazer, né? É como eu falei, eu sou mais assim da igreja pra casa. No momento de lazer, um domingo eu vou pra praia. Gosto de ir pra praia, pra lagoa. A minha diversão é essa. E aí eu participo de um movimento, Encontro de Casais com Cristo, que é o ECC. Aí também eu tenho muitos momentos com esse povo, com esse grupo de casais, que a gente sai como casais.
(00:53:24)
P/1 - E o que vocês fazem?
R - Quando sai assim? É um almoço. Na verdade, a gente tem uma reunião de 15 em 15 dias e a gente tem uma reunião à noite. O meu círculo são cinco casais. Aí, de 15 em 15 dias, a gente se reúne na casa de uma pessoa, de um casal. Aí lá a gente vai estudar a bíblia, estudar os estudos que tem próprio para esse encontro. Aí depois desse estudo aí a gente vai lanchar, cada um leva uma coisa, a gente compartilha, conversa até tarde aí. E aí vai. Quinze, quinze dias a gente tem esse encontro.
(00:54:04)
P/1 - E você gosta?
R - Gosto, gosto muito. Às vezes a gente tem encontro na igreja matriz, que é todos os casais que vão se reunir para a missa, tipo a missa da família, e vai todos os casais junto. É muito bonito, é um movimento muito bom. Aí o meu lazo se resume a isso, é uma praia, uma lagoa. Às vezes, nas férias, eu gosto de ir para Fortaleza, meu irmão mora em Fortaleza, eu às vezes vou no final de semana, passar um final de semana lá. com o meu filho e a minha filha, porque o meu marido não gosta. Ele não gosta de ir pra Fortaleza. Aí eu vou com eles dois, né? A gente vai, passa o final de semana e volta. É assim.
(00:54:50)
P/1 - Tem alguma memória de Fortaleza que você lembra com carinho, que tenha sido marcante pra você?
R - Minha infância e minha adolescência foi lá, né? Então, eu gosto de ir lá, sabe? Apesar de na época da minha infância era diferente de hoje, né? Hoje eu já não gosto de ir pra ficar muito, passar muito tempo, né? Passa um final de semana e volto, porque eu já não gosto, já me sinto sufocada lá. Porque o interior é mais aberto, né? A gente é mais livre. Lá não, é tudo fechado, as portas com grade, não pode sair na rua, não pode sentar na calçada mais. E aí, foi isso.
(00:55:38)
P/1 - E aqui ainda existe esse costume de sentar na porta ou não?
R - Existe, quem tem tempo. Mas é raro também, hoje em dia é raro, né?
P/1 - E tem algum costume que é da sua infância que você vê que as outras famílias também têm até hoje? De como te sentar... Não, assim, um costume, uma coisa que seja daqui do trairi, que seja muito marcante, assim, que você fala, essa pessoa é daqui.
R - Daqui do trairi? Não, não lembro não, não vem na memória não.
(00:56:18)
P/1 - Tudo bem. E você estava me contando das suas filhas que trabalham, né? Aí eu fiquei curiosa, se nenhuma quis aprender a costurar com você.
R - Não. Engraçado, tem uma que trabalha costurando, que é a Nadel Rio, né? Que é a minha filha mais velha, trabalha lá costurando. Mas ela nunca quis trabalhar assim comigo, né? A outra, a mais nova, a Carlinha, ela sabe costurar, mas também ela não gosta, não se identificou. Eu ensinei ela, mas ela não se identificou. Já a outra trabalha na fábrica, Del Rio, também costurando lá.
(00:56:56)
P/1 - E as duas você que ensinou?
R - Não, a que trabalha na fábrica eu não ensinei, ela nunca quis. E aí decidiu ir trabalhar, aprendeu lá na fábrica, porque lá eles ensinam. Primeiro ela trabalhou quando ela Estudava, quando ela saiu do ensino médio, ela foi um jovem aprendiz, né? Ela trabalhou numa fábrica de costura, lá em Fortaleza, um ano e meio. Aí, quando ela veio pra cá, e eu sempre costurei, mas ela nunca quis, nunca... Aí eu me admirei quando ela quis ir trabalhar na fábrica, né? Aí foi pra fábrica.
(00:57:32)
P/1 - E eu tenho uma curiosidade também que eu queria saber. Quando montam confecções aqui, essas confecções, elas são aliadas ou elas acabam prejudicando o seu trabalho? Como é que é a relação? Quando contratam... Por exemplo, você estava contando que uma das suas funcionárias foi trabalhar e você acabou perdendo ela. Mas aí como é que é essa relação? Tem trabalho pra todo mundo?
R - Tem. É assim... A pessoa vai pra onde quer, pra onde gosta, né? Tipo, quando essa fábrica chegou aqui, muita gente, muitas pessoas que sabiam costurar, até quem não sabia, né? Se voltou pra lá. Por quê? Porque lá assina carteira, né? Uma coisa a mais. Certinha, né? Aí, as pessoas passaram o tempo e viram que não era bom, né? Bom é ficar trabalhando a si mesmo, né? Tipo a avulse, né? O horário é mais flexível, né? Você pode dar uma saidinha e na empresa você sabe que não pode, né? Mas eu acho que não tem concorrência, não. Pra isso, não.
(00:58:50)
P/1 - Você acabou de me contar que você é avó. Como é que foi se tornar avó?
R - Foi a melhor coisa da minha vida. Até hoje. Amo meu neto. Foi muito bom. Quando eu me tornei avó eu tinha 38 anos. Como eu fui mãe cedo, minhas filhas jovens... A minha filha teve o primeiro filho com 20 anos. Ela foi diferente de mim. Ela é a mais nova. A mais velha tem 27 anos, mas também só namora, não casou ainda. Aí ela namorava esse rapaz já há uns cinco anos. Eles namoravam desde a escola que eles namoravam e até que ela saiu grávida dele. Era um rapaz muito bom também, meu gênio, eu gosto muito dele. E aí, um certo dia, eu vi ela, ela trabalhava na fábrica de coco. Aí ela passando mal, vomitando e tal, com vergonha de falar, até que ela falou que estava grávida. Aí eu fiquei muito alegre. Muito mesmo. Quando nasceu, a benção. Meu neto é autista. A gente descobriu... Na verdade, eu descobri desde quando ele era bebê que eu já percebi que ele não era uma criança normal, igual às outras. Percebi que ele chorava muito, não dormia. E eu sempre falando, esse menino tem alguma coisa. E as pessoas dizem, não, é porque é muito novinho, deixa completar um ano, dois anos. E aí ele completou dois anos e nunca falou. Até hoje ele tem cinco anos e ele não fala. Ele é autista não-verbal. E aí com dois anos a gente descobriu. Levemos o pneu, foi feito avaliações e avaliações até descobrir o autismo dele. Aí é uma luta. Aí já sou eu que ajudo ela. Aí ela trabalhava e deixou de trabalhar porque eu ficava, né? Ela trabalhava e eu ficava com ele. Ela trabalhou ainda três anos. Mas aí eu não tive mais condição de ficar com ele. Eu trabalhar e ficar com ele, né? Porque ele dava muito trabalho. Aí ela teve que sair do emprego dela pra se dedicar a cuidar dele.
(01:01:07)
P/1 - Qual é o nome dele?
R - Bernardo. coisa mais linda do mundo. Aí tá ele, foi pra escola, ele estuda à tarde, né? Ele vai pra escola, aí passa um pouquinho lá, ela já manda buscar ele, porque dá sono, ele não interage muito com as outras crianças, vai mesmo só por aí.
(01:01:30)
P/1 - A gente tá encaminhando pro final. Eu queria saber se... o que que é mais importante pra você hoje? Na sua vida?
R - Na minha vida, a minha família tá sempre em primeiro lugar. Meus pais, meus filhos, meu marido. E meu trabalho. Se resume a essas duas coisas.
(01:01:55)
P/1 - E você tem sonhos?
R - Tenho muitos. Tenho um sonho de eu poder ajudar meus pais, né? Ajudar assim, que eles não... Não passem assim, por uma velhice sofrida, né? Que eu vejo tantos velhinhos sofrendo, né? Abandonados pelos filhos. Que eu tenha condições de ajudar eles, né? Que quando eles estiverem precisando menos de mim, Eu tenho uma condição financeira que eu não preciso trabalhar pra ajudar isso, porque pra ajudar isso eu também não posso estar trabalhando, né? Então eu tenho esse sonho de um dia ser uma empresária mesmo. E poder ajudar meus pais, meus filhos, né? É assim.
P/1 - E tem sonhos assim, além de ajudar as outras pessoas, sonhos assim de pessoais?
R - Pessoalmente, eu já tive muitos sonhos, né? Eu já tive sonho de ter uma casa boa, ter carro, essas coisas. Hoje em dia isso aí pra mim não me define. O que me define é que eu tenha o que comer todo dia, né? Que eu tenha o que comer, o que eu gosto de comer. E o resto a gente vai se adaptando. Quando eu puder comprar uma coisa melhor, eu compro. Quando eu não puder, também não. Entendeu? Mas o que eu quero mesmo é poder comer o que eu quero, dar o que comer para os meus filhos, o que eles querem, sabe? Sem estar pedindo a ninguém, sem estar... É isso. Mas sonhos luxuosos, sinceramente, eu não tenho. Tenho da minha confecção, né? De um dia montar, terminar, deixar toda prontinha. E é assim.
P/1 - E o que falta?
R - Falta mesmo só... construção, terminar de construir o meu cantinho, que hoje em dia eu já vejo que já tá pequeno, sabe? Porque eu quero... É assim, construir um galpão pra mim, comprar mais máquinas, porque se eu tivesse mais, eu já contratava mais pessoas, né? Porque trabalho não falta.
(01:04:14)
P/1 - Eu tô indo para as duas últimas perguntas. A primeira delas é se tem alguma coisa que eu não perguntei que você queira contar da sua vida.
R - Acho que ela perguntou tudo, né? Não sei. Acho que já falei do meu neto, falei dos meus filhos. Meu filho tá terminando o ensino médio, tá com sonho de fazer faculdade pra fisioterapia. Ele faz, ele estuda numa escola profissionalizante. E aí ele tá cursando administração, tá até estagiando a administração, só que ele não quer. Ele quer fazer fisioterapia. Aí também eu tô muito alegre, né? Por ele estar, ser um jovem hoje em dia, que hoje em dia é difícil, né? Encontrar um jovem que gosta de estudar e que queira, né? Seguir na profissão. Aí ele disse, não mãe, eu quero ser fisioterapeuta pra cuidar da senhora. Muito bom, né? As minhas duas filhas, eu queria que elas tivessem pensado em fazer faculdade, porque hoje em dia a faculdade não é mais pra rico, né? É pra quem quer estudar. Porque o governo tá aí pra ajudar de todo jeito. Então elas nunca quiseram, nenhuma das duas quiseram. Então eu depositei minha confiança nele, né? E ele parece que quer. E eu acho que é só isso.
P/2 - É. Pode ligar. Já liga, não.
P/1 - Mas o que será que aconteceu? Ah, eu acho que ele deve ter mexido, né?
R - Pronto. Pode continuar.
(01:06:00)
P/1 - Tá. Só mais duas perguntas. Eu queria saber se você tem uma mensagem para passar para outras mulheres que também, assim como você, se tornaram empreendedoras, donas dos seus próprios negócios.
R - É que elas não desistam, você mulher que tem essa vontade não desista e que dificuldades vêm, mas também vêm dias bons. que você não desista e coloque sempre Deus à frente, né? Sempre dobre seus joelhos para orar, pedir a Deus pelas coisas boas que você quer, que você almeja, que você consegue. E o problema é não desistir, né? Você não desistir.
(01:06:46)
P/1 - Netinha, como que foi contar a sua história hoje para o Museu da Pessoa? O que você achou?
R - Foi tranquilo. Eu achei que fosse mais difícil, né? Mas foi bem tranquilo. Apesar da minha timidez, né? De eu falar baixo. Porque eu sou assim mesmo. Quem me conhece sabe, né? Como é que eu sou. Mas foi bem tranquilo. Foi uma experiência nova. Porque eu nunca imaginei que eu ia, né? Ia me indicar, eu ia ser convidada pra esse momento. Eu não sei como é. Mas eu gostei muito.
(01:07:20)
P/1 - Então, em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, em nome do Saulo, do Gabriel, a gente agradece hoje por poder registrar a sua história de vida.
R - Obrigada. Eu é que agradeço por esse momento.
[Fim da Entrevista]
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