Projeto Mulheres Empreendedoras de Trairi
Entrevista de Evenizia Silva dos Reis Aguiar
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 28/01/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n. º: MNB_HV005
Revisado por Bruna Oliveira
(00:00:03)
P/1- Uma coisa muito importante. Preciso saber seu nome inteiro.
R - Evenizia Silva dos Reis Aguiar. Está bom. Lá em casa eles me chamam de Dizia.
P/1- Dizia?
R - É. Desde quando eu era pequena.
P/1- E como você prefere ser chamada?
R - Aqui eu prefiro pelo meu nome, que é Evenizia.
P/1- Evenizia, tá bom.
R - Isso. Aí aqui, alguns me chamam de Evenizia e outros me chamam de Nízia. A Netinha que me chama de Nízia. Consequentemente, eles também me chamam.
P/1- Você prefere Evenizia?
R - Evenizia.
P/1- Tá bom. Como que é?
R - Evenizia... Silva dos Reis Aguiar.
P/1- Silva dos Reis Aguiar. Podemos começar?
(00:00:43)
P/1- Então, para começar, eu queria que você começasse apresentando, dizendo seu nome completo e onde você nasceu.
R - Meu nome é Evenizia Silva dos Reis Aguiar. Eu nasci e me criei em Fortaleza, no Barra do Ceará, o nome lá todo mundo conhece como Goiabeiras. Eu nasci e me criei lá, desde quando... porque a minha mãe veio morar lá, veio do interior para morar em Fortaleza e ela encontrou o pai. Aí eu dei.... Desde quando eu me entendo por gente, que eu moro lá, que é bem pertinho mesmo da praia, bem na beira mesmo da praia lá.
(00:01:34)
P/1- E quando que você nasceu?
R - 26 de abril de 1986.
(00:01:39)
P/1- E me conta, como que é o nome dos seus pais?
R - Venceslau Souza dos Reis e Liduína Maria da Silva Reis.
(00:01:46)
P/1- E você sabe como eles se conheceram?
R - Não ser assim bem ao certo, mas eles se conheceram assim em Fortaleza, porque meu pai já era divorciado e a minha mãe veio do interior, né? Eles se conheceram em Fortaleza.
(00:02:03)
P/1- E você estava me contando que sua mãe é remanescente de Quilombolas, né?
R - Isso.
(00:02:08)
P/1- Como é que é a...
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Entrevista de Evenizia Silva dos Reis Aguiar
Entrevistada por Bruna Oliveira
Trairi (CE), 28/01/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n. º: MNB_HV005
Revisado por Bruna Oliveira
(00:00:03)
P/1- Uma coisa muito importante. Preciso saber seu nome inteiro.
R - Evenizia Silva dos Reis Aguiar. Está bom. Lá em casa eles me chamam de Dizia.
P/1- Dizia?
R - É. Desde quando eu era pequena.
P/1- E como você prefere ser chamada?
R - Aqui eu prefiro pelo meu nome, que é Evenizia.
P/1- Evenizia, tá bom.
R - Isso. Aí aqui, alguns me chamam de Evenizia e outros me chamam de Nízia. A Netinha que me chama de Nízia. Consequentemente, eles também me chamam.
P/1- Você prefere Evenizia?
R - Evenizia.
P/1- Tá bom. Como que é?
R - Evenizia... Silva dos Reis Aguiar.
P/1- Silva dos Reis Aguiar. Podemos começar?
(00:00:43)
P/1- Então, para começar, eu queria que você começasse apresentando, dizendo seu nome completo e onde você nasceu.
R - Meu nome é Evenizia Silva dos Reis Aguiar. Eu nasci e me criei em Fortaleza, no Barra do Ceará, o nome lá todo mundo conhece como Goiabeiras. Eu nasci e me criei lá, desde quando... porque a minha mãe veio morar lá, veio do interior para morar em Fortaleza e ela encontrou o pai. Aí eu dei.... Desde quando eu me entendo por gente, que eu moro lá, que é bem pertinho mesmo da praia, bem na beira mesmo da praia lá.
(00:01:34)
P/1- E quando que você nasceu?
R - 26 de abril de 1986.
(00:01:39)
P/1- E me conta, como que é o nome dos seus pais?
R - Venceslau Souza dos Reis e Liduína Maria da Silva Reis.
(00:01:46)
P/1- E você sabe como eles se conheceram?
R - Não ser assim bem ao certo, mas eles se conheceram assim em Fortaleza, porque meu pai já era divorciado e a minha mãe veio do interior, né? Eles se conheceram em Fortaleza.
(00:02:03)
P/1- E você estava me contando que sua mãe é remanescente de Quilombolas, né?
R - Isso.
(00:02:08)
P/1- Como é que é a história dela, você sabe?
R - Elas nasceram, elas eram lá, eram muito humildes mesmo, elas nasceram e se criaram lá no Pacujá, né? Entre o Pacujá e o Mocambo, elas se criaram por lá. Aí minha avó, ela conta que minha avó ia trabalhar de noite, e quando chegava de noite, ela acordava eles, né? Porque eles não tinham comido nada para fazer alguma coisa pra eles comerem, porque ela disse que eles iam dormir com fome, porque não tinham o que comer. Porque lá era muito pobre mesmo, né? Aí... meu tio veio pra cá, pra Fortaleza, e trouxe minha avó e ela veio junto.
(00:02:43)
P/1- E ela era pequena quando ela veio?
R - Não, ela já tinha... ela já era adolescente e já veio grande, já pra cá.
(00:02:50)
P/1- E você chegou a conhecer as suas avós?
R - Só a minha avó. Ela morreu agora recente, vai fazer... agora em março, vai fazer dois anos. Mas a minha avó, ela... a gente conviveu bem com ela, porque, às vezes, quando ela ficou mais que não... Ela sempre quis morar só, mas sempre tinha que ter alguma pessoa. Aí sempre tinha um rodízio de netos. Aí teve um tempo que eu também dormi com ela. Aí quando foi a última neta que dormiu com ela foi eu, porque eu fui a última a casar. E quando eu casei, a minha mãe foi dormir com ela e ela finalizou morando na casa da minha mãe.
(00:03:24)
P/1- E quando você era pequena, assim, a sua mãe e a sua avó contavam histórias do quilombo pra você?
R - Não, assim, porque elas, na verdade, elas nem... Nem comentava muito, a gente sabe que são rimas inocentes a partir de agora que lá eles foram. Porque na verdade... Eu acho que, principalmente o pessoal mais antigo, pelo menos da minha parte, eu acho que eles estão mais assim, retraídos, eles não gostavam muito de conversar sobre esse assunto que, na verdade, eu acho que não fazia parte do cotidiano que eles não faziam, porque quando vem para Fortaleza, já é um cotidiano diferente. Mas aí a minha avó, a mãe falava muito sobre essa parte, que eles passavam muita fome lá, que ela veio morar para cá, ela contava mais essas ‘partezinhas’.
(00:04:09)
P/1- E o seu pai contava de onde ele nasceu?
R - Não, do pai, ele sempre morou lá, na Barra do Ceará, né? Eles sempre moraram por lá. Ele ficou... A mãe dele morreu quando eles eram muito novos, né? Aí o pai dele casou de novo com outra pessoa, né? Com outra mulher, né? Aí, a partir daí ele não contava muitas dessas histórias, não. Quem contou uma história que acha que a família do pai é descendente de indígenas, era uma amiga deles de muito... amiga da mãe dele de muito tempo, que ela ainda viveu e ela contava, que achava que a mãe dele era descendente indígena, que elas apareceram de uma hora para outra, só a mãe dele e a avó dele. De uma hora para outra. É costume que os índios eles expulsem alguns, né? Aí ela acha que eles são descendentes de gente. Mas não tem a história, assim, do começo da família deles, não. A gente não conhece.
(00:05:04)
P/1- E me conta, o que seus pais faziam?
R - Meu pai era eletricista, ele trabalhava. E a minha mãe dona de casa, porque o pai disse que não precisava ela trabalhar, que era para cuidar dos meninos, né? E assim ela fez muito bem, que ela cuidou cinco filhos, uma mulher e dois homens. Aí o pai trabalhava, tinha dia que ele ia, porque como era muito menino, ele ia trabalhar a pé para não gastar o dia da passagem para deixar comida pro menino em casa, né? Porque antigamente era mais difícil, mas graças a Deus eles conseguiram criar bem a gente. Principalmente no bairro onde a gente morava, que era um bairro que teoricamente, que ainda hoje é perigoso, né? E ela conseguiu criar os seus filhos todinhos bem certinhos, que todo tem trabalho, tudo em... tem a sua família.
(00:05:48)
P/1- E nessa escadinha dos irmãos, você está em que...?
R - Eu sou a.… tem o mais velho, aí tem o Manoel, a Eveline e depois vem eu. Porque, na verdade, tem... aí depois vem as outras, né? Que são cinco mulheres, que tem o Manoel e fecha com a Maria, mas o resto é tudo com E. Que é a Eveline, a Eveline, a Evelânia, a Edilane e o Edivan. Aí fecha com a Maria. Mas tudinho são, são tudo assim, próximo um do outro. É a diferença de dois anos.
P/1- E como é que era quando era pequeno?
R - Era assim, era um quartinho pequeno, onde a gente botava azeite tudinho assim, né? Porque lá, o pessoal diz que é invadido. Porque a mãe conta que uma pessoa perguntou, lá não tem dono. Se a senhora tem coragem de ir? Ela disse, eu tenho. Aí eles foram, começaram com casa de taipo lá, né? Que a casa era de bairro. Aí foi só um quartinho que ela conseguiu. Aí eu acho que só tinha os três mais novos, os quatro mais novos, né? Mas com o passar do tempo eles conseguiram fazer só um, dois quartos, que era a cozinha e a sala, e a gente dormia nas redes, nas camas, que com o tempo o pai foi aumentando, foi aumentando a casa, mas era bem apertadinho, um monte de menino, né?
(00:07:06)
P/1- E como é que era? Vocês se davam bem, brigavam muito?
R - Eu acho que a gente teoricamente se dava bem, porque tinha os, por exemplo, era muito, mas os mais velhos, né, e os mais novos, cada qual ficava no seu nicho, porque sempre tem os mais velhos e os mais novos, porque quando a gente fica adulto que parece que fica tudo na mesma faixa etária, né? Mas sempre, a gente sempre se dava bem, e a mãe era muito, como é que se diz? Uma mãe raiz, né? Tinha que ser porque a gente tinha que ir para a escola bem direitinho, que ela botava o matricular na escola, ia deixar, ia buscar. Porque não tinha ônibus antigamente, era tudo a pé mesmo, era longe. Mas tinha que todo mundo passar adiante, porque ela dizia que a gente não tinha nada o que fazer, tinha só o que estudar. Então, tinha que tirar nota boa, não tinha esse negócio de ficar de recuperação, não. Porque pra ela tinha que ser bem, e ela não sabia. Ela queria, porque ela não sabia ler e escrever direito. Ela não sabia, mas ela queria que a gente fizesse as tarefas. Mesmo ela sem saber, ela tentava ensinar. Ela queria que a gente aprendesse de todo jeito. Porque ela queria que a gente aprendesse mesmo.
(00:08:12)
P/1- E cê sabe por que você se chama Evenizia?
R - A mãe disse que uma pessoa pediu o pai, né, disse um nome que não sei se era Eunice ou era alguma coisa parecida, só que na hora que o pai foi lá, ele botou Evenizia, Evenizia com Z. Por isso que eu também prefiro ser chamada de Evenizia, né, porque é uma lembrança que eu tenho, porque faz o quê, 15 anos que ele faleceu? Porque ele era doente do coração, né, aí ele faleceu faz 15 anos. Por isso que eu prefiro que me chamem de Evenizia, porque lá em casa, desde quando eu era pequena mesmo, me chamavam de Diza mesmo. Diza, dizia até hoje, aí me chamam. Mas onde eu trabalhava, todo canto, quando eu prefiro, eu prefiro Evenizia mesmo.
(00:08:53)
P/1- Evenizia, me conta como é que você descreveria seu pai e sua mãe.
R - A minha mãe sempre foi uma mãe raiz, ela sempre queria que a gente estivesse bem certinho, né? Eu gostava de ver no final do ano ela... pegava os passarrogales lá perto de casa para comprar a roupa, ela comprava a roupa mesmo que ela passasse o ano todinho pagando essa roupa, ela comprava a roupa para todo mundo, né? Mas ela que escolhia, a gente não podia escolher não. Ela escolhia a roupa, mas mesmo que ela pagasse o ano todo, mas ela tinha esse cuidado de sempre comprar roupa nova para a gente, de sempre ter, ter também o material escolar. O pouquinho que ela podia, ela sempre comprava. Ela gostava muito de festa de ABC, né? Ela queria, era o sonho dela, ela queria que todo mundo fizesse, ela pagava mesmo sem poder, mas a gente fazia a festinha do ABC até enquanto ela podia mandar na gente, que até a festa do nono ano ela ainda conseguia controlar a gente, mas ela sempre, eu acho que até no meu ela até no meu ela mandou até gravar essa fita. Ela mandou gravar. A felicidade dela era ver a gente com aquele vestido, arrumar o que ela podia fazer. Porque eu acho que ela começou mais, porque os outros dois mais velhos, eu não me lembro se ela fez. Mas ela tinha essa vontade porque ela sempre gostava. Ela sempre queria ter o melhor pra gente sempre com ela. E o meu pai, ele sempre trabalhou. Sempre ele trabalhava. Eu me lembro quando ele chegava em casa, tinha os menorzinhos, aí ele tinha aquela blusinha azul, que quem trabalha na construção civil, ele botava uns parafusos e umas moedas dentro e balançava o bolso. Aí os menorzinhos corriam pra cima dele atrás das moedas no bolso, né? Suado do jeito que ele tava, mas eles pegaram e iam correndo tudinho. Sentado ali de trás da casa, eles sentavam e balançavam e iam correndo tudinho pra cima. Essa é a lembrança, que meu pai sempre trabalhou, né? Quando ele casou com a mãe, ele tinha um vício, que era da cachaça, né? Eu não me lembro. Eu não me lembro, mas todo mundo disse que ele bebia muito, mas graças a Deus que a mãe conseguiu, né? Mas eu não me lembro, mas não sei se é por isso que no meu inconsciente eu não consigo beber alguma coisa assim, eu não consigo. Quando a gente vai pra algum canto, é só mais álcool, não. Eu não sei se é o meu inconsciente, mas eu não me lembro dessa parte, mas todo mundo diz que ele bebia muito, mas que, graças a Deus, eu me lembro dele sempre um pai bom, que cuidava da gente, que ajudava a mãe dentro de casa, né? Sempre. Aí tinha umas... de noite ele fazia uma sopa tão gostosa, que às vezes a mãe não queria fazer nada, às vezes ele fazia essa sopa. Até hoje eu me lembro dessa sopa, e quando ele comprava manga, ele botava lá no chão pra nós tudinho. Mas tem essa lembrança boa dele também.
(00:11:38)
P/1- E o que você gostava de comer nessa época?
R - Eu acho que quando a gente, na situação que a gente vivia, a gente não tinha o que escolher, né? Era feijão, arroz e ovo que a gente tinha, um frangozinho, assim, porque graças a Deus que a gente pode escolher, mas antigamente era o que tinha mesmo, né? Que assim, na lembrança mesmo, assim, dizer que tinha uma comida preferida. Antigamente, acho que não tem essa...
P/1- E tem cheiro, assim, ou alguma festa? Você lembra, assim, da sua infância?
R - O cheiro, eu sinto muito o cheiro. Dessa mesma cena do pai, eu ainda me lembro desse cheiro que ele chegava, né? O cheiro forte. Eu me lembro muito bem. E também dessa manga que ele trazia, que era justamente a mesma manga que tem ali no terreno que meu irmão comprou. É o mesmo cheiro. Eu me lembro muito bem. E da comida, às vezes, que a mãe fazia, né? Que é pouco, ela faz agora. Um frango, uma farofa de um frango assado que a gente ia pro interior. Eu também me lembro desse frango assado que ela fazia muito bem.
(00:12:40)
P/1- E você tava contando que quando você era pequena, você ia pra onde sua mãe morou quando era pequena, né?
R - É, a partir dos nove anos a gente ia pra lá.
P/1- Como é que era lá?
R - Lá também sempre foi que a gente ia pra casa da sogra do meu tio, né? Lá, quando a gente chegava, tinha milho, tinha essas coisas que é muito bom, né? Milho, sempre comida, bastante, porque ele sempre gosta, né? Aí a gente começou a ir numa Topic pequena. que era só a família do meu tio. Aí, com o tempo, foi nos ônibus, que era... Aí a mãe também começou a ir. No dia que o meu pai foi, o ônibus deu prego. Os pobres não tinham celular, quase ninguém tinha celular nessa época. Eles passaram dois dias sem conseguir contato. Porque faz muito tempo atrás, ainda não tinham celular, mas eles já faziam isso. Porque quando começou aí, a comunicação ainda era por carta, né? Ficava esperando, de tempo em tempo, carta. Aí, no dia que o meu pai foi, que quase ele não ia, mas quando ele foi, eu fiquei em casa dessa vez e ele foi. Aí, eles ficaram dois dias lá no meio dos matos, porque quando vai, mas pra voltar, volta todo mundo sem dinheiro, né? Principalmente antigamente, que não tinha como se comunicar, eles passaram dois dias sem se comunicar. Não, porque não tinha comunicação, né? Aí ninguém sabia, mas aí depois o meu tio, que era o que tinha mais condição, conseguiu avisar e deu certo. Porque era de... depois de sobrar até Fortaleza é chão pra vir. De ônibus.
(00:14:16)
P/1- E como que era a Barra do Ceará quando você era pequena?
R - O bairro? A maioria das casas era assim, tudo de... Que eu me lembro, né? Eu me lembro que as casas... Era casa pobrezinha assim mesmo, mas aí aos poucos foi melhorando mais, né? Mas a praia para a escola, eu me lembro que a gente tinha, que eu era pequena, tinha uma subida assim, tipo areia, que a gente ia, aí também é bem pertinho da praia. Eu digo, as professoras antigamente eram corajosas, que elas pegavam um monte de menino. Eu me lembro dessa cena, não sei se é porque eu fiquei com medo, eu me lembro dessa cena, que ela levou um monte de menino para a beira da praia para tomar banho de praia. A professora, eu digo, meu Deus do céu, de hoje em dia ela não sai nem da sala só com o menino, imagina a beira da praia. Aí eu me lembro que ela jogou um balde d'água de mil, acho que até hoje eu não consigo, não aprendi a nadar, eu acho que foi trauma, só pode. Porque eu me lembro dessa cena, pra lembrar é porque alguma coisa aconteceu. Mas lá era assim, apesar, a mãe dizia que quando eu era pequena ela me botou numa bacia assim de... uma bacia de alumínio para banhar em frente à casa. Aí ela me deixou lá. E quando ela pensou que não, vinha um homem correndo atrás do outro. Ela só viu o homem, um pulando por cima de mim, um atrás do outro correndo e só fizeram pular em cima de mim e foram e se embora. A mãe também lembra dessa cena. Mas era bom. Até hoje, onde a gente vive, a gente sempre tem memórias boas. Apesar de dizer que é perigoso, que é isso, mas aonde a gente nasceu, aonde a gente se criou, a gente sempre tem lembranças boas dos nossos vizinhos, né, de tudo lá. Eu acho que a gente sempre tem memória boa de tudo.
(00:15:53)
P/1- E você brincava na rua?
R - A gente brincava com os primos, porque a gente é parede meia com os primos, que são filhos do meu tio. A gente sempre brincava na rua assim, com bola, com essas coisas, mas eu sempre fui... Eu costumo dizer que eu nasci já velha, porque eu nasci e me criei fortaleza. Se eu disser que eu fui para alguma festa dançante, eu vou mentir, porque eu nunca fui, porque eu sempre tive medo. Eu não gostava, assim, de bebedeira, essas coisas. Eu nunca tive medo. Eu nunca fui. Eu acho que as minhas irmãs já foram, mas eu nunca saí de casa, assim, pra uma festa. A única festa que ia era a festa de aniversário de família, era porque era de família que a gente ia. Mas pra, assim, pra se arrumar pra ir pra uma festa, alguma coisa assim, eu nunca fui.
(00:16:33)
P/1- E como é que você ia pra escola? Você falou que você ia a pé, né? Como que era?
Quanto tempo que levava pra chegar na escola?
R - Tinha uma que era mais longe, que era quando a gente era menorzinha, que é onde ela conseguiu vaga. Aí era uma meia hora de distância, né? Que a gente ia a pé pra ir, pra deixar. Mas sempre ia deixar. Que foi a alfabetização que eu estudei lá. Que era mais longe. Mas tem outra que eu acho que uns 20 minutinhos a pé, que onde foi que eu terminei mesmo, que a minha tia... A minha tia ensinou lá... Ensinou, não. Ela trabalhou lá, né? Na cozinha mais de... Quase uns 20 anos que ela trabalhou lá. Ela se aposentou agora, né? Eu acho que era bom que ela trabalhava lá e gostava de comer a sopa. Chega a repetir a sopa. Eu gostava da sopa de lá. Eu me lembro também da sopa dessa escola. Era muito bom lá.
P/1- O que que ia na sopa? Você lembra?
R - Era de frango. Essa que eu gostava era de frango. Quando tinha mingau eu não gostava não. Nunca gostei de mingau. Aí eu não... Mas quando era a sopa assim de frango, o arcanjo de frango, que ficava gostoso, eu comia.
(00:17:33)
P/1- E me conta, sua mãe sabia costurar?
R - Você aprendeu com ela? Não, ela não sabia costurar. Quando, eu não sei se eu via do posto, era da escola com ela. A gente passou em frente a um canto de um pessoal da igreja que ensinava crochê. Aí eu digo, mãe, eu quero aprender. Aí, quando foi no ano seguinte, eu não sei se foi no mesmo ano, ela me colocou lá, né? Ela conseguiu a vaga pra me colocar lá, eu aprendi a fazer crochê lá. Aí lá também tinha o curso de costura, aí eu fiz esse curso de costura, não sei se eu tinha uns 14 anos. Aí eu fiz só o curso de costura, aí depois... Pronto, eu só fiz esse curso, eu trabalhei uma vez, só uma vez, não sei se... Nem foi muito tempo não com costura, só uma vez que eu trabalhei e depois eu fui ser atendente de médico. Lá, eu acho que era na Aldeota, lá na Santos Dumont. Aí eu fui ser atendente. Aí quando eu casei, que eu voltei a costurar de novo, mas foi só o curso, que era o curso básico mesmo. O resto a gente aprende com a vida e com a internet, que hoje em dia ensina muito, né? Quando a gente tá muito na dúvida de um ponto, a gente vai lá. Mas eu aprendi e eu... Comecei a costurar de verdade foi aqui mesmo, em Trairi, lá em Fortaleza. Não, fiz só o curso mesmo. Por isso que eu acho importante essas crianças que a gente bota pra fazer um curso, mesmo que não tenha o diploma, que faça esses cursos, né? Bote, armar isso aí em cima. Porque se não fosse, quando eu me mudei pra cá, porque a gente sabe que o interior é difícil encontrar a vaga de emprego, né? Aí, se não fosse, eu não tinha conseguido, assim, esse sustento que a gente tem hoje.
P/1- E eu queria saber se na escola você tinha uma matéria que você gostava mais?
R - Sempre matemática, eu gostava mais de matemática, era bom que eu me dava bem. Português, eu acho que eu sempre não me identifiquei, mas português, biologia, sempre, matemática, biologia, eu sempre gostava muito.
P/1- E tinha algum professor, professora que era importante ou não?
R - Nessa época eu me lembro muito da professora Estefânia, que ela chegou lá e era muito divertida também, né? Aí tem uma professora... que é assim que eu lembro sempre dela, da Estefânia, o nome dela era Estefânia, sempre me lembro muito bem dela, né, que ela era bem, era rígida, mas também fazia a gente achar graça, e também tinha um professor Paulão, que eu estudei no Liceu do Ceará, que ele também fazia a gente achar graça demais, já no primeiro ano, que era lá no Liceu do Ceará, que era no centro, porque eu queria estudar lá e o meu pai Ele saiu de mansinho, porque as férias para escrever, para fazer a matrícula, era depois. Só que o pai foi, ele já levou, já levou o documento e chegou lá e perguntou se tinha vaga. Ela disse que era só outro dia, mas aí ele convenceu, ele conseguiu me matricular lá. Porque ele sempre, graças a Deus, eu acho assim, que ele sempre foi um bom pai. Apesar do recurso, que era pouco, mas ele sempre queria que a gente estivesse no caminho bom.
(00:20:42)
P/1- E seus pais tinham alguma religião? Vocês seguiam alguma?
R - Assim, todo mundo é católico, né? E sempre, a mãe sempre foi católica, né? E a minha avó disse que o meu pai, eu não vi, mas ele também fazia parte desses terreiros de Umbanda, mas eu não cheguei a presenciar, mas a minha avó dizia, né? Porque, na verdade, depois, quando a gente cresceu mesmo, ele não fazia parte. Ele ia para a igreja mesmo católica quando ele ia e a mãe também.
(00:21:13)
P/1- E vocês iam para alguma festa de santo?
R - Não.
P/1- Não tinha esse costume?
R - Não tinha. Não tinha esse costume. Por isso que eu estou dizendo que, em conta, era minha avó.
(00:21:24)
P/1- E daí, eu queria saber como é que seguiu o seu estudo. Você estudou até que série? Como é que foi?
R - Eu estudei até o ensino fundamental na escola lá perto de casa, depois eu fui pro liceu do centro. Aí o terceiro ano eu terminei mais perto de casa também, porque ficou mais difícil a passagem, porque lá tinha que ir de passagem de ônibus, né? Aí foi uma época também que quando eu terminei, eu fiz o Enem. Aí foi o primeiro ano que surgiu o ProUni, aí surgiu o ProUni. Aí do primeiro ano que surgiu o ProUni eu me inscrevi. Aí eu consegui ir pra fazer totalmente diferente do que eu vivo hoje, mas eu me inscrevi e fui. Era pra fazer Tecnologia, né? Que era Tecnologia Informática. Por que eu me inscrevi? Porque eu me lembro da minha memória também, tinha os tijolinhos, eu quebrava os tijolinhos e começava a criança, né? Dizendo que era computador. Aí eu me inscrevi. Aí... eu consegui essa vaga de técnico, de analista de sistema, que ele chama, mas agora é tecnólogo, né? Mas eu consegui a bolsa do ProUni de 100%. Aí também foi graças ao meu pai que eu consegui, porque... Ele, na hora que eu me inscrevi, eu coloquei o valor da renda dele, mas eu botei um valor, um centavo a mais ou um centavo a menos, aí só precisava de um contador, que era só pra dar o comprovante de renda, né? Aí a gente não tinha, mas ele também conseguiu. Aí eu frequentei, assim. Hoje eu costuro por quê? Porque eu escolhi, né? Mas eu, de vez em quando, eu consigo fazer alguma coisa desse negócio de computador, mas se eu quiser, eu também tenho outra área pra mim. Por quê? Porque meu pai e minha mãe me deram essa oportunidade, porque aonde eu tô hoje, tanto nessa parte da informática, que eu sei que eu também domino, mas essa parte aqui da costura foi eles que me deram, tanto meu pai como minha mãe.
(00:23:28)
P/1- E nessa época da tecnologia, da informação, do sistema, você já trabalhava ou não?
R - Não, não trabalhava. Lá... A gente conseguiu, aí quem pagava, quem pagava as passagens era o meu pai, então eu, porque desde pequena, por exemplo, essas sandalinhas, às vezes, apareceram pra fazer um bordado, eu fazia uns ‘bordadozinhos’ na mão, também aprendi a fazer uns bordado na mão, que é umas blusas que eu antigamente fazia, eu também aprendi a fazer bordado sozinha na mão. porque eu aprendi a fazer o crochê e o bordado foi na mão, só eu aprendendo, aí era onde eu conseguia. Tanto o dinheiro pra passagem, como outra coisa, sempre foi com esse negócio de artesanato.
(00:24:14)
P/1- E o que você gostava de fazer nessa época, assim, pra se divertir?
R - Ficar em casa. Eu nunca gostei assim de sair, não. A diversão era aniversário dos nossos primos, ir pra casa da avó. Quando... Dia de domingo eu gostava muito de fazer, porque lá em casa a única assim, teoricamente, que aprendeu a cozinhar, foi eu, né? Minhas irmãs aprenderam com a... Acho que depois que casaram. Mas assim, pra fazer comida, aí sempre eu gostava. No domingo... Porque a gente se criou todo mundo junto. Aí eu sentia a falta que todo mundo ia. Aí domingo eu dizia, hoje vai ter almoço. Aí eu botava, eu ia avisar que hoje ia ter almoço. Aí os meninos iam almoçar lá em casa. Eu acho que a minha diversão era essa. Eu nunca gostei assim muito de sair, não.
(00:24:57)
P/1- E o que você fazia no almoço quando você cozinhava?
R - Eu gostava muito de fazer feijoada, né? Que eu gostava. Creme de galinha também. Aí, minhas irmãs gostam muito da sopa também, que às vezes eu faço de noite. Às vezes, quando eu vou pra lá, tem uma minha irmã ainda que ainda pergunta se vai ter sopa, porque eu faço sopa também. Elas gostaram muito.
P/1- A sopa do quê?
R - De frango mesmo.
P/1- Tipo canja?
R - É, tipo uma canja que eu faço lá. A minha irmã até outro dia perguntou como é que eu fazia a sopa sem ficar parecendo Maria Isabel. Eu digo, mas é só botar água. Mas é porque eu acho que cada um tem um dom, né? Porque se cada uma delas, cada uma delas tem um jeito diferente, né? Mas cada um tem um dom. Essa dali foi a, eu acho que é a parte que me liga com eles mais, é a parte da comida mesmo.
(00:25:48)
P/1- E me conta como é que você veio parar aqui no Trairi?
R - O irmão do meu marido é casado com a minha prima. Aí eu fui um dia visitar lá, né? Porque essas viagens assim de família, eu gostava de ir, né? Eu não gostava de ir pra outro canto, só com a família mesmo. Aí eu conheci meu marido lá. Lá é o Mirim, que é onde ele morava, né? Meu marido. Ele sempre também morou lá no Mirim. Ele também foi morar em Fortaleza, mas não gostou. Ele sempre foi assim, do meio dos matos mesmo. Ele gostava dos matos mesmo. Aí eu conheci ele lá. A gente namorou um ano, um pouco, um ano. Aí com um ano e seis meses, que a gente já estava namorando, a gente casou. Aí ele já é concursado daqui, né? Que é um concursado de ensino médio. Ele fez o concurso para ser jardineiro aqui. Aí ele fez o concurso para ser jardineiro e já morava aqui sozinho, fazia quatro anos. Porque da casa dele, de onde ele morava, pra cá, é só uma hora de moto. Que é divisa, né? Trairi, humilhação, divisa. Aí ele vinha de moto pra cá, ele passava a semana. Sexta-feira ele ia pra casa da mãe dele, né? Aí foi... Aí a gente casou e veio morar aqui. Mas a casa, até a casa de aluguel, eu não veio ver antes, não. Eu conheci o Trairi quando eu vim morar aqui. Que até a casa foi ele que escolheu. Eu conheci lá na cidade dele, no dia que eu fui visitar. Eu conheci ele lá.
P/1- Por que você foi lá visitar?
R - Porque a minha prima estava morando lá. Porque ela é casada com o irmão dele. E a gente foi visitar. Porque é visita de família, né? Viagem de família. A gente foi visitar. Aí eu fui pra lá.
(00:27:24)
P/1- Conheceu ele e já começou a namorar?
R - Foi. Ele foi lá em casa e a gente começou a namorar. Aí a gente casou. Porque a gente vai fazer 10 anos que a gente se conheceu e vai fazer 9 anos em abril, acho, que a gente casou por aí. Mas já fez 10 anos que a gente se conheceu.
(00:27:45)
P/1- E daí quando você mudou pra cá, que já tinha até a casa alugada, qual que foi a sua primeira impressão quando você chegou aqui?
R - Primeira impressão foi chorar. É porque a gente... Eu vivia numa casa lotada de gente, numa casa onde eu tava sozinha, né? O marido ia trabalhar, passava o dia todo em sol e foi chorar. Mas aí depois eu fui conhecendo as pessoas, aí com o tempo o marido... aí eu conheço mais gente agora que eu casei contigo do que depois que... do que antes, porque antes ele só ia do trabalho pra casa e da casa pro trabalho só. Aí... com... ele fez... e quando a gente se conheceu ele tava terminando a faculdade de... para ser professor de história. Porque quando ele fez o concurso, ele foi pagar na faculdade para ele, aí estava terminando. Quando ele terminou, aí surgiu uma vaga numa escola para ser... para ser substituto de uma professora, que era do Estado, porque nessa época ainda dava. Ele era concursado na prefeitura, mas ainda dava para ele ensinar no Estado. Aí ele ensinou só dois meses. Com o dinheiro desses dois meses, como a gente, teoricamente, já estava... Nosso orçamento já estava tudo ok, aí ele perguntou o que a gente ia fazer com esse dinheiro. porque a gente já tinha comprado um lote lá antes de casar, o que a gente vai fazer? Vai começar a construir lá? Ou vamos fazer outra coisa? Aí, porque lá ainda não tinha água. Eu digo, não, tu compra duas, tu comprou uma máquina pra me fazer conserta em casa? Aí ele olhou pra mim, eu não sabia nem que tu sabia costurar, porque era uma coisa que eu fazia, que eu fiz o curso quando era E ele me conheceu, era atendente de médico, né? Aí eu disse, pois tá certo. Aí ele comprou. Foi com esse dinheiro que naquela época dava. Foi duas máquinas, uma nova e uma usada. Que eu já não tô mais aqui porque a gente já substituiu. Aí a partir dessas duas máquinas que a gente começou com as costuras. A partir desse dinheiro dele.
(00:29:43)
P/1- Como é que foi? Você fazia só conserto aqui pra região?
R - Só conserto. E... Me lembrando do que eu tinha aprendido com a ajuda da internet, eu fiz algumas roupinhas de criança, mas na parte que eu passei um tempo, mas a parte que eu me adaptei mais foi essa parte da confecção, que o pessoal fala hoje, fala facção, mas agora é oficina de costura, que eles trazem o a peça já cortada e eu faço montar e eu entrego pra eles pronto. Por que eu me adaptei? Eu acho que é porque é mais fácil, porque eu monto e entrego pra eles pronto. Eu não preciso botar numa vitrine, eu não preciso tá vendendo, né? Só fez, aí ele me paga e eu entrego. Mas eu ainda faço algumas roupas, algumas roupas de pôr em comenda no final do ano, eu ainda faço. Aqui e acolá pra algumas clientes, porque eu tenho cliente de concerto desde quando eu comecei, eu ainda tenho, né? Eu pego pouca agora porque não tenho tempo. E para você fazer um conserto, você precisa ter tempo. Porque às vezes a pessoa traz uma roupa de um jeito e quer que a gente transforme em outra. Aí a gente precisa desse tempinho. Mas hoje é pouca coisa que eu pego de conserto, porque a da confecção ocupa mais meu tempo.
(00:30:55)
P/1- Evenizia, nessa época que você começou a costurar, tinha alguma peça assim? Eu sei que você fazia mais conserto, mas teve uma peça
R - Um vestidozinho de criança vermelhozinho, que eu ainda me lembro hoje, com o tecido que eu comprei, que tem umas bolinhas, que eu me lembro até hoje, que de vez em quando ainda aparece na memória do, sei lá, até onde apareceu esse vestidozinho, porque sempre aparece, né? Nas lembranças, tem esse vestidozinho de criança que eu fiz, porque eu comecei a fazer mesmo, cortando mesmo, com roupa de criança.
(00:31:31)
P/1- E como é que começou a... a conhecer pessoas que levaram você para as oficinas de costura?
R - A Netinha, como eu já disse, eu conheci a Netinha em Fortaleza, né? Que a gente se criou perto uma da outra, que é morar numa rua e ela morar noutra, né? Aí eu já conheci a ela e ela me indicou, já estava procurando, né? Aí ela indicou. Eu acho que foi a primeira, né? A primeira que foi... Antes daqui eu tava saindo agora, que foi a Dona Marta, que a gente sempre trabalhou junto. Faz o quê? Eu acho que faz uns oito anos que eu costuro, porque com um ano... Antes de completar o ano que a gente tava casada, ele já tinha comprado as máquinas, que foi depois do meio do ano, de 2017, foi. Aí tá com uns oito anos que eu costuro, né? Aí eu comecei com conceito, mas eu passei pouco tempo. Aí já fui com essa parte da confecção mesmo, que foi montar. A primeira peça eu fiquei com tanto medo, porque era uma coisa nova, que eu nunca tinha feito, que eu ia fazer sem ninguém perto pra me ensinar. Ela só me entrega a peça piloto e eu fiz. Eu digo, pô, aí eu vou conseguir. Aí deu certo, até hoje. Hoje a gente já pode até escolher o fornecedor que a gente quer, né? Porque antigamente aqui pra vir pro trairia era só uma ou duas. Hoje não, hoje a gente pode escolher o fornecedor, porque ele sabe da qualidade do nosso serviço.
(00:32:58)
P/1- E aí você consegue negociar melhor também os seus valores.
R - Isso, isso. É isso que a gente tá pretendendo fazer, aumentar mais o lucro. Porque como aumentou muito o valor das linhas, essas coisas, né, da energia, tudo, aí a gente já pode negociar.
(00:33:15)
P/1- E eu queria saber se você trabalhava aqui em Trairi, você trabalhava pra alguém ou você sempre trabalhou por conta própria?
R - Não. Quando eu vim pro Trairi, tinha uma senhora ali que faz bolo, que ela perguntou se eu poderia ajudar a limpar a casa dela. Eu digo, eu posso, eu não estou fazendo nada mesmo, mesmo que eu já tenha trabalhado no consultório médico, não estava precisando do dinheiro, eu não podia ir. Aí eu fiquei com ela, eu acho que foi só uns dois meses, porque daí surgiu essa pessoa, e eu vi que não dava conta de fazer as duas coisas, mas mesmo assim eu fui. O que apareceu, A gente é preparado pra tudo, né? Como eu digo, a mãe e o pai, eles prepararam a gente pra vida. Tanto é que com 14, 15 anos, a mãe tirava a nossa identidade, CPF, título de eleitor, e ela botava em curso. O curso que aparecesse, ela botava. Sendo de graça, ela queria dar oportunidade pra gente. Ela deu a oportunidade que cada um dos filhos dela consegue se vilar com essas oportunidades que ela deu. Ela e o pai.
(00:34:23)
P/1- E nessa época, então... Eu queria entender que como costureira você sempre foi autônoma.
R - Sempre, sempre, sempre, sempre.
(00:34:33)
P/1- E como é que é? Você estava contando um pouco da Netinha, que você reencontrou aqui. Como é que foi esse reencontro?
R - Eu estava na igreja, não sei se era na festa de Santa Paulina ou de São Francisco. Aí eu estava lá assistindo e ela estava lá fazendo a leitura, que ela também participa da igreja. Ela estava fazendo a leitura. Aí eu vi ela a primeira vez. Eu digo, essa dali é a netinha. Aí depois a gente se encontrou no meio mesmo da multidão de outra vez. Eu digo, oi, netinha, é tu? Aí ela não me conheceu. Aí depois que ela foi lembrando, né? Que a mãe dela lembrou da mãe, porque o nosso irmão, a gente, eu, os irmãos dela, ela também, a gente ia pra mesma escola, que era longe, era a escola que era mais longe, a gente ia. Uma família, um dia uma ia deixar, outro dia outra ia buscar, porque nem sempre a nossa irmã podia ir, né? Aí uma confiava na outra pra buscar e deixar os filhos.
P/1- E daí ia um monte de crianças.
R - Isso. Eu me lembro da farda de lá, que era uma sainha vermelha e a blusinha quadrejada, assim, de vermelho também. Dessa parte. E foi a primeira e a última vez que eu fiquei. Eu digo que eu fiquei de recuperação no ABC, eu digo, meu Deus, como é que na alfabetização a gente fica de recuperação, que eu fiquei zangada com a professora, porque a professora não deixou eu ensaiar o primeiro dia da festa do ABC, que a mãe gostava, né, e ela já tinha inscrito para fazer a festa do ABC. Só que a professora disse que eu não ia fazer, aí disse que eu tinha que ficar de recuperação. Eu digo, meu Deus, como é que pode? Aí eu me lembro, eu acho que foi por isso que eu nunca mais fiquei, porque na festa do ABC, uma coisa que a mãe queria, né? Aí a professora disse que não ia fazer, aí quando foi no outro dia, ela deixou ir. Eu não sei se era só implicância, só sei que decidi em diante, eu decidi que eu não queria mais ficar de recuperação. Sempre eu procurava ficar com as notas boas mesmo.
(00:36:21)
P/1- E essa festa do ABC era tipo uma formatura?
R - Isso, tipo uma formatura. Tem ali... Essas lembrancinhas aí de escola, isso ali foi ela que mandou pagar, foi na primeira escola, ela sempre fazia. Mas lembrancinha, ela sempre mandava fazer.
(00:36:37)
P/1- E eu queria saber, daí você começou a costurar aqui, né? E pegar facção, né, para fazer. E daí, em que momento que você e a Engie se encontram?
R - Eu acho que no primeiro edital, logo no final da pandemia, 2020, que era já o final do ano, que eles lançaram o primeiro edital. Aí teve uma irmã da igreja, que elas até se mudaram para outra, porque elas tinham ficado, foi tempo aqui no Trairi, e elas se mudaram. Aí ela veio aqui um dia para trazer umas roupas, perguntando se eu conhecia alguém para adoecer as roupas. Ela veio, né? Aí a gente conversou, foi tempo, aí eu disse, aí ela, quando foi um dia, ela mandou o leakey para mim. Aí ela disse, eu acho que isso aqui é bom pra você, que foi até a irmã Fran. Você entra e vê. Aí já estava o dia todo encansada, né? Aí quando eu deitei na cama, eu digo assim, eu vou olhar pra me ver. Aí quando eu olhei, aí o meu marido também estava do lado, aí a gente foi se escrevendo, né? Porque, desse tempo todinho, ele também é o meu braço direito, porque ele comprou as máquinas, ele aprendeu, na pandemia, ele aprendeu a costurar, mas eu, que ele também costura, né? Porque eu acho que 50% do que eu tenho também foi ele que me ajudou, porque ele costura, ele tira as pontas de linha, porque eu finge que não vejo as pontas de linha e deixa ele, ele bota o botão, ele tira as linhas, mesmo de noite, ele me ajuda muito, né? Aí foi ele que me ajudou também, mas eu... Quando as perguntas iam surgindo, parecia que ia fluindo, né? Eu digo, mô, é desse jeito, é assim, o nome... Que o primeiro foi Costurando Esperança. Porque a gente tem que botar um nome que chame, né, a atenção. Aí o primeiro que eu botei foi Costurando Esperança, né? Porque era a esperança que eu tinha de... Porque eu só tinha duas máquinas, que era uma usada e a outra, né? A esperança que eu tinha de aumentar... Aí que foi, mas na época era o quê? Era 18, se eu muito me engano, não sei se era 18 estados que concorriam, e era só 25 vagas. Aí aqui no Trairi, no primeiro ano, saiu só um projeto, que foi o meu, que foi o primeiro. Aí as aulas eram online, porque eles são de Santa Catarina, se muito me engano, né? Aí tinha uma aula online, a gente prestava conta de tudo, e tudo eu fiz questão. de tirar a nota fiscal, tudo bem direitinho. Eu só ia na loja onde me desse a nota fiscal, porque tudo a gente comprou em Fortaleza, porque aqui não tem loja de máquina, né? Tudo era em Fortaleza. Aí o frete, o que eu conseguisse de graça, eu conseguia, o que não fosse, eu... Tanto foi graças a essa irmã Fran, que até hoje eu agradeço a ela, que foi a parte dela que eu consegui, que foi aqui do Trairi e foi o único que saiu nessa época.
(00:39:34)
P/1- E qual foi a sensação de ter sido contemplada?
R - Assim, eu não acreditei. Meu Deus, eu não acreditei realmente que eu tinha ganhado, porque eu fiz assim.
P/1- Você estava contando como foi a sensação de ter sido contemplada no primeiro editado.
R - Eu acho que foi uma sensação assim, eu não acreditei, né? Primeiramente, eu achei inacreditável, porque era pouca vaga, no primeiro ano era só 25, 25 projetos, né? E só o meu projeto ter sido contemplado aqui do Ceará, se fosse nem só do Trairi, mas aqui do Ceará foi só o meu projeto, né? Eu fiquei tão feliz que eu acho que eu só acreditei mesmo no dia que eu tava lá comprando a máquina, né? Porque eu botei pra comprar a máquina, Aí, mas eu achei, foi uma sensação assim que inacreditável, que eu não acreditava, né? Mas foi tão bom esse incentivo, né? Esse incentivo que eles têm de acreditar na gente, porque eles não conheciam, era uma coisa que era online, era uma coisa que estava no final da pandemia, era uma coisa que eles não iam poder vir até aqui para ver, ter certeza do que a gente estava fazendo com o dinheiro, né? Eu achei inacreditável, mas graças a Deus que Eu consegui, né? Porque eu acreditei no momento que eu acessei o link, que eu acreditei, né? Foi tão bom. Foi uma coisa que ajudou muito a gente, graças a Deus. Porque quando eu comecei era só aqui. Aí depois que a gente fez esse quartizinho aí. Mas era só nessa sala mesmo.
(00:41:11)
P/1- E me conta como é que foi? Primeiro você fez as aulas ou primeiro você comprou a máquina?
R - Não, assim... eles liberam o incentivo, né? E ao mesmo tempo que eles vão liberando o incentivo, você vai fazendo as aulas, né? Que é pra saber administrar o dinheiro, pra saber tudo sobre caixa, né? Tudo que você precisa saber dessa parte, a gente vai fazer durante um mês ou dois meses. Eu não me lembro se no primeiro ano foi um mês ou foi dois. Só sei que a gente fez tudo online, tudo. Aí tinha... Primeiro ano eu achei muito bom, porque tinha Tinha uma pessoa que era responsável por você, que ligava pra você, chamava de vídeo, conversava se você tinha algum problema, alguma dificuldade, queria alguma coisa. Sempre tinha essa monitoria, né? Que elas faziam, foi muito bom.
(00:42:04)
P/1- E daí, qual que foi o sentimento quando você comprou as máquinas, quando elas chegaram aqui?
R – Ah, de realização, né? O sentimento de que eu consegui, né? Naquele momento que o meu marido, mesmo não sabendo que eu estava construindo e acreditou em mim, foi um momento de certeza de que o que eu estava fazendo, eu estava indo no caminho certo, né? que as máquinas estavam aqui, eu consigo tirar uma boa parte, eu acho que hoje 50% ou um pouquinho mais do nosso renda é dessas máquinas, né, hoje em dia.
(00:42:38)
P/1- E daí me conta como é que foi a inscrição para os próximos editais e convencer as outras mulheres, porque eu fiquei sabendo que você foi uma percursora que indicou várias mulheres.
R - Foi assim, porque tinha dado certo pra mim, né? Eu aprendi o curso, foi alguém passando esse curso de graça, né? Quando eu fiz esse curso, quando criança, quando 14, 15 anos. Porque não dessa oportunidade para outras pessoas, né? Aí eu já tinha mais conhecimento com a Netinho, também através da Netinho eu conheci a Michelle, né? Que foi a segunda ganhadora do ano seguinte, né? Porque eu me inscrevi de novo, mas eu também indiquei, eu digo, meninas, vocês fazem, vocês não tenham medo, é uma coisa que... O não você não já tem? Então, se você conseguir bem. Se você não conseguir, você não vai gastar nada pra se escrever. Você se escreve que dá certo. Aí quando... E eu sempre fico atenta, assim, nessas questões de editar. Aí quando a gente se escreveu, que foi no finalzinho de novembro, não sei se nesse ano era em novembro ainda, No finalzinho de novembro, quando saiu o resultado em dezembro, que eu liguei pra Netinha, porque eu fui a primeira que veio, que ela saiu. Que eu liguei pra Netinha, ela também não acreditou. Que eu liguei pra Netinha e pra Michelle, pra Bisaquinha. Porque eu sempre ficava presta na atenção que elas tinham sido contempladas nesse ano. Aí eu liguei pra elas, mas eu gosto de incentivar, né? Aí tem uma vizinha minha que quando eu me mudei pra cá, ela tinha uma bebê de colo que ela costurou aqui mais eu, agora ela tá mais longe. Aí ela disse, pois é bom tu vir morar aqui mesmo, que é bom que eu costuro mais tu. Aí eu digo pra ela que a gente tem esse contrato pra vida toda, ela pode trabalhar onde ela quiser, mas ela sempre vai voltar pra cá, ela acha graça, né? Que é a Regélia aqui. Aí eu sempre chamo ela para se inscrever. Vamos rejeitar ela para se inscrever. Uma mulher que eu vejo, que é empreendedora, que eu vou, eu sempre indico de fazer. Se inscreve, quer no mês de outubro, quer no mês de novembro, preste atenção. Porque uma coisa que foi boa para mim, eu não posso ficar só para mim, né? Eu posso muito bem divulgar. Aí eu fiquei muito feliz quando as meninas conseguiram. Porque a partir daí, eu vi que elas conseguiram.
(00:44:50)
P/1- E que melhorias que você fez com os outros editais que você ganhou? O que foi melhorando?
R - Pronto. Com o primeiro edital, eu consegui... Eu consegui comprar essa máquina e consegui comprar tecido, que eu também fiz algumas roupas por encomenda, que eu comprei tecido, comprei mais linha, né? E a gente começou lá a construir o outro quartinho, porque a gente já tinha comprado o lote. Aí eu comecei com... Vamos começar a construir um quartinho maior. Aí a gente começou a construir lá. Aí, no segundo ano, quem ganhou foi as meninas. Aí eu ganhei de novo no terceiro ano. Que pulou um ano, aí eu ganhei de novo. Foi eu e a netinha. Nesse tempo, foi eu e a netinha que a gente ganhou de novo. Aí... As máquinas antigas que tinha, aí eu troquei, eu vendi elas, porque ela já estava começando a dar defeito. E a outra eu ainda tenho, só que ela está em Fortaleza. Porque a minha irmã saiu do trabalho ano passado, aí eu disse, não, eu vou trazer uma máquina que ela está quase que parada lá em casa, e tu vai aprendendo a costurar também. Aí ela já está começando a pegar pacote também para fazer assim. Ela é minha outra irmã, que minha outra irmã já trabalha também, mas à noite ela ajuda ela. Porque ela tem três meninas em casa e não tem, mas como ela trabalha fora, tem que ser em casa mesmo. Mas aí já tá lá, eu mandei a máquina pra lá. Meu irmão veio aqui, a gente desmontou a máquina e mandou. Aí ela já tá costurando lá. Aí no terceiro ano, aí eu ganhei nesse terceiro ano. Aí no ano seguinte, Teve a Anisa lá em cima, que essa daí é a Anisa mesmo, que ela também trabalha costurando. E a Neta, que é a Neta também. Aí eu digo, Neta, vamos, faz. E a Anisa, vem que eu ensino vocês. Aí eu chamei elas e eu mesma fiz o projeto pra elas. A gente tirou uma tarde, né? Elas me explicando o que elas queriam e eu escrevendo. Aí eu dizendo, assim é melhor, assim não é. Aí quando foi a surpresa que as duas que eu ajudei a fazer também ganhou. E teve nesse ano que foi três, nesse ano foi três, porque no terceiro ano foi eu e a Netinha, só duas, aí nesse outro foi três aqui do Trairi já. Aí teve a Jeane também, mas a Jeane eu só mandei o link. Jeane faz também, que dá certo. Ela também acreditou e fez. Aí nesse ano foi três.
(00:47:11)
P/1- E todo ano vai aumentando a... Vão aumentando as mulheres que você vai ajudando, né?
R - Isso, isso.
P/1- Influenciando.
R - Isso, aí agora, né, nos últimos dias já são 100 vagas. Começou com 25, agora já são 100 vagas, mas abrange o número maior de estado, de municípios, porque de primeiro tinha só um, agora são mais municípios aqui do Ceará que concorrem, né.
(00:47:40)
P/1- E quando você faz as aulas, né, e esses encontros online, vocês conhecem as mulheres do...
R - A gente faz aula só online, porque como são muito distantes, nunca teve essa oportunidade da gente se conhecer pessoalmente. As que moram em estado diferente, mas eu já vi que tem algumas que ganham o Edital, que moram mais perto, que elas se encontram. Porque algumas delas são de associação. Quando a gente assiste a online a gente vê que algumas já se conhecem, já se viram, mas o geral mesmo a gente não se conhece porque são estados diferentes. Tem gente da Bahia, tem gente de Santa Catarina, são várias mulheres, são várias Por exemplo, teve no primeiro ano que ganharam, que eu achei tão interessante, porque meu marido só ganha em costura, eu digo, não. Teve um que ganhou fazendo lacinho, tinha outro que fazia um baldinho de reciclagem, né? Que ela fazia tipo um baldinho de reciclagem. Não, isso aqui, amor, não é só para costura, é para mulheres empreendedoras. E se a gente botar no projeto e ele acreditar no nosso projeto, é importante que a gente seja empreendedora.
(00:48:51)
P/1- Eu queria saber, pensando se você pudesse resumir em uma palavra o que mudou na sua vida depois desses projetos. Se você pudesse resumir o que esses projetos significam na sua vida em uma frase.
R - Uma vitória. Porque eu acho que se na pandemia não fosse, a gente praticamente tinha parado. Porque foi no finalzinho da pandemia, né? A gente praticamente tinha parado. Como é que a gente ia investir em alguma coisa na pandemia? A gente tava investindo. Porque se não fosse isso, acho que a gente não tava no pé que a gente tá hoje, né? Porque graças a esse incentivo. Incentivou muito, né? E eu, toda oportunidade que eu tiver, eu tô indicando, eu tô explicando. Teve gente que eu digo várias vezes, aí eu digo, não, este é o último ano que eu te digo. Aí ele começa a rir, né, que eu mandei ele escrever, a mulher dele. Aí, quando eu ligo o pai e escreveu, já tinha passado a editar. Eu digo, só no próximo ano agora. Mas, é importante a gente nunca desistir, porque assim como a gente quer uma coisa boa pra gente, é o que a gente quer pros outros. E a gente não indica porque a gente vai querer algo em que troca. A gente quer a pessoa vencendo também, né? Uma pessoa que às vezes a gente vê que consegue uma vitória, a gente tem que ficar feliz junto com ela. E essa foi a nossa vitória, de a gente conseguir, a gente já tá terminando lá, assim, já tá na parte do reboco, terminando lá a outra casa que é um pouquinho maior. Por que eu não investi nessa casa? Porque a gente, como a gente tá lá, essa casa aqui a gente vai investir mais na frente, que é pra alugar, né? Os pessoal até perguntam, e essa casa é de vocês mesmo? Eu digo, é nosso mesmo. E vai comprar? Não, a gente já comprou, porque a gente tá investindo, né? A gente não quer acabar com tudo, a gente vai investindo.
(00:50:49)
E eu queria que você compasse um pouco como é o seu dia a dia de trabalho. Eu sei que você emprega outras mulheres, trabalha com outras mulheres também aqui. Como é que é essa dinâmica?
R - Por exemplo, de manhã o marido sai pra trabalhar, depois chega, aí a gente trabalha, cada um fica numa máquina, só que agora eu tô com uma, porque eu tive que parar um dia. Porque como eu só ganho quando trabalho, porque é uma coisa, porque isso aí é só quando eu trabalho, aí eu parei uns dois meses pra fazer a cirurgia que eu precisei parar, que eu tirei as pedras dos rins, e também teve a cirurgia da mãe que eu tive que acompanhar ela, aí agora é só com uma pessoa. Mas chega de manhã, a gente já sabe o que vai fazer, porque a gente separa tudo bem direitinho, essas peças, e cada um vai montando. Aí no final da semana, que a gente já tem finalizado todinho o pacote, a gente entrega pra pessoa vir buscar. Mas é o nosso dia-a-dia é esse. Chega de manhãzinha cedo, já começa, aí meio-dia, como mora perto, vai almoçar, né, e depois a gente continua. Aí de tarde volta de novo, né. Aí, como é mulher, a gente entende que tem que levar um filho na escola, que o filho fica doente e assim. Porque se não for assim, se a gente não souber entender o outro, a gente não consegue nada. Aí, quando a gente pergunta, e esse trabalho, vai impactar os seus vizinhos? Como? Assim. Porque aqui, meu vizinho ali, vizinho da igreja, não tem uma mercearia. Se eu comprar alguma coisa lá, eu não estou incentivando a ele. É melhor eu comprar ele do que ele lá no centro. É um incentivo, né? A minha vizinha, às vezes, quando precisa, se ela vem dar uma diária, um dinheiro que eu tô ajudando ela, isso tá impactando o meu município, aonde a gente tá morando. Esse é o impacto. A gente não precisa mudar o mundo, a gente transformar os poucos.
(00:52:40)
P/1- E o seu marido continua te ajudando?
R - Ele ajuda a noite, ele costura bem. Às vezes, ele costura até bem, aí quando eu finjo que não vejo a linha para eu tirar, ele bota o botão, ele me ajuda bem, graças a Deus.
(00:52:54)
P/1- E esse tipo de facção que você faz, quanto tempo você termina?
R - Esse de 100 peças tem que terminar em uma semana. Quando tem mais gente, a gente faz até mais de um pacote por semana, né? Mas esse, por exemplo, quando eu estou praticamente só, Porque aí é uma semana que a gente faz e tem que entregar as 100 peças, às vezes, é 100, às vezes é 200, depende do modelo.
P/1- E dá tempo?
R - Dá tempo. Dá tempo, às vezes, a gente trabalha um pouco até mais tarde, mas dá tempo.
(00:53:24)
P/1- Quantas peças mais ou menos você costura por dia?
R - É porque não é por peça, é por operação, né? Porque no final, a gente finaliza as 100, mas a gente vai montando aos poucos, né? Porque tem cor, essas coisas, não é por dia, porque a gente... O final que é o que importa. Aí num dia a gente separa todinho, aí faz a reta, faz overloque. Se precisar cortar uma coisa, fazer um víeis, é por operação que a gente trabalha.
P/1 - É como se fosse uma linha de produção.
R - Isso, exatamente. Porque se a gente não trabalhar com linha de produção, se for por peça, aí a gente não consegue. Não consegue, porque a gente vai só trocando as cores e fazendo.
(00:54:04)
P/1- Muito interessante. E eu queria saber o que você faz no seu tempo livre, quando você tem tempo livre.
R - Nós vamos para a igreja, aí a gente vai para a casa ou do pai dele, que o pai dele ficou vivo e agora também está com dois anos. E para a casa da minha mãe, aí quando vem visita, a gente vai para as praias aqui perto, porque tem muita praia aqui perto. E é assim, mas há mais um tempo livre mesmo que a gente encontra, que a gente tira mesmo para ir para a igreja, porque teve até um final de semana agora que a gente ficou, está com dois, final de semana que a gente ficou responsável para servir 80 jovens, porque foi encontro do EJC, porque aí a gente ficou responsável, era uma equipe, que a nossa equipe também já tinha jovens trabalhando, que também é puxada a gente trabalhar com jovens, como eu já estou acostumada a ser tia, que eu já sou tia, todo mundo chama de tia, eu digo, pois tá certo, pois vamos lavar os pratos, porque a nossa missão era servir e lavar os pratos, né? Mas é muito bom, aí foi de sexta, sábado e domingo, três dias, e é muito bom. Assim, eu queria ter a oportunidade, por exemplo, no primeiro edital, eu consegui ensinar algumas meninas que vieram, porque eu dei essa oportunidade, ensinei de graça. Aí tem umas que já trabalham na fábrica de costura, que aprenderam comigo. Teve uma que fez o curso comigo, que comprou até uma das minhas máquinas mais antigas. Ela comprou e já está costurando em casa e costura também na fábrica. Eu queria ter mais oportunidade, assim, futuramente, de ter esse espaço. Tanto para me ensinar costura, como bordado, porque eu acho muito interessante pra não se perder o crochê, né? Eu ainda digo que antes de eu morrer, eu ainda vou aprender a fazer renda de birro. Porque é uma coisa que é daqui do Trairi, não é lá de Fortaleza, né? Aí eu ainda quero aprender. A minha vizinha até, porque a minha vizinha aqui, ela trabalha com renda de birro. Tem algumas que já fazem também, né? Que já são da tradição mesmo aqui do Trairi, mas eu ainda quero aprender. Mas eu queria também ter essa oportunidade de ter, porque era um ‘espaçozinho’ que me encantou. Quando eu, como criança, vendo aquelas meninas tudo aprendendo a fazer crochê, se eu não tivesse tido aquele encanto e a mãe tivesse acreditado, talvez eu não estivesse hoje aqui. E eu queria, um dia, ter essa oportunidade de abrir as portas de um local onde eu possa ensinar e ter outras pessoas que ensinem também essas crianças. Tanto nessa parte da tecnologia, também, que é importante, que eu também acho que é uma coisa que eu tenho na minha cabeça, que se não for para a criança, seria para essas pessoas, por exemplo, a dona Raimunda aqui, que não sabe mexer no celular. A gente ter essa oportunidade de abrir as portas para ensinar uma pessoa, simplesmente uma pessoa de 60 anos que não sabe abrir um aplicativo de um banco, eu queria ter essa oportunidade também de ensinar. Era isso que eu penso mais na frente, ter uma dessas linhas para mim. Depois que a gente já estiver aposentada e conseguir ajudar alguém, eu queria ajudar mais.
P/1- E ajudar assim como te ajudaram.
R - Isso, porque eu tive essa oportunidade, se eu não tivesse tido.
(00:57:11)
P/1- E eu queria saber, você tinha contado que você participa dos encontros de casais, como é que é?
R - Quando eu cheguei aqui no Trairi também, tá com 8 anos, são casais que a gente foi chamado, que teoricamente a gente não pode contar tudo que acontece lá, que a gente não pode contar. Mas a gente é um exemplo, desde esse dia que tudo que aconteceu lá, a gente e convive com cinco casais, que somos casais amigos, né? Que a gente se encontra de 15 em 15 dias. Na verdade, hoje a gente até tem um encontro com eles. Aí são pessoas diferentes. Tanto a gente que é mais rica, mas todos são do mesmo lugar. A gente sempre vai um pra casa do outro. Hoje, na verdade, era pra ser aqui. Como eu não vou ter tempo hábil, aí vai ser na casa de outra pessoa. Mas sempre vai circulando, sempre vai ser na casa de outra pessoa. Aí somos casais que a gente convive, que a gente sempre tão se encontrando, sempre tão, sempre se encontrando.
(00:58:14)
P/1- E você tava contando que você gosta, quando vem gente aqui visita, né? Você gosta de ir nas praias. Que praia que você gosta de ir aqui?
R - Tem as praias das Flecheiras, né? Que a gente vai, mas a gente vai mesmo, é nem nas Flecheiras, é mais numa voltazinha que a gente diz que é a praia da volta, né? Que lá a gente pode ficar mais à vontade, aí a gente vai mais lá. Aí tem Asalmésica, que é um pouquinho longe, mas também é bom que não é uma praia, é um tipo um açude assim, que é Asalmésica, que vem gente até de Fortaleza pra lá, mas eles vêm pra Paraipaba, né? Mas é do Trairi, que a gente vai por aqui. Essa sim é a diversão que a gente tem.
(00:58:51)
P/1- E você tem sonhos?
R - Sonhos?
P/1- Você estava contando um pouco agora, né? Que você tem vontade de ensinar, mas pra além disso, sonhos pessoais?
R - Se a gente conseguir, que a gente tenha vontade de ter um filho, mas é tudo na mão de Deus. Eu não posso dizer que eu sou uma mulher que quero porque quero. Não. Eu digo nas minhas orações, se for a vontade de Deus, e se for por bem da minha família, a gente quer um filho, senão a gente fica na mão de Deus. Porque eu acho que é mais dolorido pra gente estar se cobrando uma coisa que talvez não seja pra gente. Eu não gosto de me impor sofrimento, porque vai ser uma cobrança minha. Tanto é que eu digo que eu sou muito abençoada, porque tem casal que casa e a família inteira. Quando é que vem o filho? Quando é que não vem? E a nossa família? Tanto a minha como a deles são tão tranquilas que elas não têm esse negócio de cobrança, né? Porque a gente tem cobrança, mas eu acho que se for, eu acho que é um sonho a ser realizado, mas se não for... O marido até disse, não sei se ele disse brincando ou se é verdade, que depois que a gente terminar a casa e estiver maior, a gente adota um menino. Ele disse desse jeito. Eu digo, é tão fácil. Acho que é mais fácil conseguir ter um menino do que adotar um, porque a fila de espera é grande. Mas, para mim... tem os meus sobrinhos, tem... Aí ele até disse, então quando a gente tiver, quando a gente se aposentar, a gente vende tudo e vai morar no asilo. Dá só um livro lá, morar em asilo, se tu quiser ir morar só. A gente trabalha, trabalha e depois que constrói, revende tudo. Mas eu acho que ele só fala mesmo brincando. Mas é assim mesmo.
P/1- E como que é o nome do seu marido?
R - Francisco.
(01:00:41)
P/1- E me conta, o que que é importante pra você hoje?
R - A família. A igreja, que a gente participa. E eu acho muito importante esse elo também que a gente tem com a comunidade. Porque eu não moro aqui. Não, a minha família não é daqui. Eu preciso, quando a gente viaja, é mais de um, dois, três dias. E a minha vizinha, eu deixo a minha chave com ela. Ela vem dar comida pro meu cachorro, pro gato. De vez em quando a gente bota uma galinha ali, porque deixa separado, se for pra assistir a uma visita, já tem uma galinha ali. E ela vem dar comida, tranquilo. Eu acho que a gente ainda consegue sair daqueles vizinhos. Se faltar um quilo de açúcar, a gente vai lá. Eu acho muito importante essa convivência que tem entre os vizinhos. Eu acho que é a família que a gente conseguiu, porque a gente não tinha família de sangue aqui, mas a gente tem uma família comunidade.
(01:01:35)
P/1- E você estava contando que o seu sogro conta histórias muito engraçadas. Tem alguma que você lembra de cabeça?
R - O meu sogro, a minha sogra contava que quando eles eram pequenos, porque a minha sogra era um pouquinho mais velha do que ele, aí ele sempre foi criado e ajeitado e parece que a mãe dele chegou lá pra dar ele pra mãe da minha sogra. Aí pra ele não gostar de ir lá, ela deu um casco na cabeça dele que ele começou a chorar e não quis ficar lá. Anos depois, eles se casaram. Depois que ela ficou viúva, né? Ela casou com ele. Aí ela teve que querer ou não cuidar dele. Depois, eles passaram mais de 40 anos casados, que o meu marido quando... É, mais de 40 anos, porque minha sogra estava com dois anos que faleceu e a filha deles mais velha tem 43. Minha sogra vai fazer dois anos que faleceu. Ela faleceu aqui em casa, porque lá era muito ruim, né? Aí ela, não sei lá, de mama que apareceu de repente e a gente não conseguiu há tempo, né? Aí ela faleceu aqui em casa.
(01:02:39)
P/1- E me conta se tem alguma coisa que eu não te perguntei que você queria contar.
R - Não sei, acho que não. Não sei.
(01:02:50)
P/1- E tem alguma mensagem que você queira deixar, principalmente para outras mulheres?
R - Outras mulheres? Eu acho que é agarrar as oportunidades. A gente nunca tem que achar um não, a gente sempre tem que... tentar agarrar todas as oportunidades. Se for só ir ali na esquina, conversar com alguém que alguém lhe chame, você vai. Você não tem que ter medo de se jogar, porque se a gente tiver medo de se jogar, a gente não sai de canto nenhum. Se eu tivesse medo de ter saído de Fortaleza, porque eu vinha para um canto desconhecido, um canto onde eu não conhecia ninguém, só o meu marido, se eu tivesse tido medo de largar tudo, porque eu era muito apegada aos meus irmãos, à minha vida em si, e eu ter largado tudo para começar de novo, A gente não tem que ter medo de começar de novo, a gente tem que agarrar todas as oportunidades.
(01:03:43)
P/1- E como é que foi contar um pouco dessa história hoje para o Museu da Pessoa? O que você achou?
R - É bom a gente conversar, porque às vezes a gente só escuta, a gente não fala. É bom conversar, é bom falar, é bom a gente se expressar, relembrar coisas que talvez estejam guardadas e você precisa relembrar, é importante.
(01:04:04)
P/1- Evenizia, eu agradeço muito em meu nome, em nome do Saulo, do Museu da Pessoa. Muito obrigada.
R - De nada também. Também queria agradecer... a minha mãe e a meu pai em memória, né? Porque se não fossem eles ter criado a gente como criou, do jeito que criaram, a gente não estaria hoje aqui. Porque eu devo tudo que eu tenho a essa criação, né? A esse amor. Porque eu digo que antigamente eles não tinham esse amor, eles criavam. Mas eles tinham esse amor de criar a gente. Eu agradeço a minha mãe e meu pai por tudo que fizeram.
(01:04:38)
P/1- Que bonito! Muito obrigada!
R - De nada. Obrigada.
[Fim da Entrevista]
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