Sul-Sul
Trabalhando no Programa Nacional de DST/Aids, por exigência da Embaixada do Brasil no Senegal, em 2005, fui designada a representar o país em uma Conferência organizada pela Social Aspects of HIV/AIDS Research Alliance (SAHARA) em Dacar.
A presença do Brasil era bastante requisitada pelo papel que desempenhava no controle da epidemia. O Banco Mundial fez projeções de que, até o ano 2000, o país teria 1,2 milhões de pessoas vivendo com HIV/Aids, mas o país conseguiu reduzir esse número para menos da metade, enquanto a África do Sul, com características epidemiológicas semelhantes, duplicou o número de casos projetados. Além disso, o Brasil estava tornando-se um grande player no cenário internacional pelo seu posicionamento frente aos monopólios da indústria farmacêutica e frente à questão das patentes de medicamentos.
Por razões culturais e escolhas políticas no Brasil, o mote da estratégia de prevenção governamental, nunca foi adotar a diminuição de parceiros, mas a política de Redução de danos: sexo seguro com o uso de preservativos e troca de seringas. No continente africano, sabia que a realidade era bastante distinta. A temática do evento, chamava atenção, pois, além de incomum, era relativamente inovadora: “Aspectos sociais da epidemia”. O Brasil apesar de ser de referência internacional no campo da Aids, nunca tinha organizado um seminário dessa natureza. Embarquei rumo à Dacar cheia de expectativa. Sabia de antemão que os franceses, colonizadores do Senegal, só conseguiram cristianizar cerca de 7% da população do país, sendo os 93% restantes, muçulmanos.
A chegada no aeroporto, às altas horas da noite, foi um contratempo inesperado. A rodoviária de qualquer cidade de interior do Brasil, provavelmente era maior e mais iluminada. Desci em direção à calçada e fiquei procurando visualmente um funcionário da embaixada que deveria estar me esperando. O tempo passava e nada de alguém aparecer. Na...
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Sul-Sul
Trabalhando no Programa Nacional de DST/Aids, por exigência da Embaixada do Brasil no Senegal, em 2005, fui designada a representar o país em uma Conferência organizada pela Social Aspects of HIV/AIDS Research Alliance (SAHARA) em Dacar.
A presença do Brasil era bastante requisitada pelo papel que desempenhava no controle da epidemia. O Banco Mundial fez projeções de que, até o ano 2000, o país teria 1,2 milhões de pessoas vivendo com HIV/Aids, mas o país conseguiu reduzir esse número para menos da metade, enquanto a África do Sul, com características epidemiológicas semelhantes, duplicou o número de casos projetados. Além disso, o Brasil estava tornando-se um grande player no cenário internacional pelo seu posicionamento frente aos monopólios da indústria farmacêutica e frente à questão das patentes de medicamentos.
Por razões culturais e escolhas políticas no Brasil, o mote da estratégia de prevenção governamental, nunca foi adotar a diminuição de parceiros, mas a política de Redução de danos: sexo seguro com o uso de preservativos e troca de seringas. No continente africano, sabia que a realidade era bastante distinta. A temática do evento, chamava atenção, pois, além de incomum, era relativamente inovadora: “Aspectos sociais da epidemia”. O Brasil apesar de ser de referência internacional no campo da Aids, nunca tinha organizado um seminário dessa natureza. Embarquei rumo à Dacar cheia de expectativa. Sabia de antemão que os franceses, colonizadores do Senegal, só conseguiram cristianizar cerca de 7% da população do país, sendo os 93% restantes, muçulmanos.
A chegada no aeroporto, às altas horas da noite, foi um contratempo inesperado. A rodoviária de qualquer cidade de interior do Brasil, provavelmente era maior e mais iluminada. Desci em direção à calçada e fiquei procurando visualmente um funcionário da embaixada que deveria estar me esperando. O tempo passava e nada de alguém aparecer. Na rua, em uma algazarra ruidosa, via-se vários homens, com mais de 1,90m de altura, pretos como a noite, tendo nas mãos cartazes, feitos de caixas de papelão, onde lia-se o nome da Conferência pintada à mão. Eu pensei: eu é que não vou me arriscar nessa empreitada. Procurei um policial, que me explicou que aqueles homens eram motoristas de taxi. Apesar de temerosa de ser assaltada, sequestrada ou estuprada, pois nessa hora, o racismo nosso de cada dia dá as caras, embarquei rumo ao hotel onde ficaria hospedada.
No dia seguinte dirigi-me ao local do evento, o luxuoso, o Le Méridien também conhecido como King Fahd Palace Hotel Dakar "King Fahd" refere-se ao rei da Arábia Saudita, que foi responsável pela criação do Hotel que é considerado um dos mais prestigiados da África Ocidental. A conferência era essencialmente africana, com cerca de 100 participantes, então, além de mim, alguns poucos europeus. Não bastasse o estranhamento inicial, pela exuberância dos trajes e dos turbantes ultra coloridos, circulavam pela recepção diversas autoridades, sheiks e o presidente do Senegal e sua esposa.
A conferência coincidiu com o Ramadan Mubarak. Esse evento, o mais importante da comunidade muçulmana ocorre anualmente no mês em que Allah teria revelado o Alcorão, o livro sagrado. Entre outras coisas, o Ramadã exige dos fiéis, além das tradicionais orações, que durante os trinta dias do mês, se faça jejum entre o nascer e o pôr do sol.
Já no primeiro dia do evento, ao anoitecer, foi servido, nos jardins do hotel, uma espécie de brunch. Depois de mais de doze horas de jejum, os participantes esqueciam a “etiqueta” e lançavam-se, arrebatadamente, sobre as mesas onde havia fartura de comes e bebes.
No banheiro feminino, mais surpresas: as mulheres escovavam os dentes com um toquinho de madeira e o chão parecia um brejo, de tão molhado. A escova, fiquei sabendo depois, era feita de miswak, um graveto derivado de uma árvore da mostarda, sendo um hábito corriqueiro e ancestral de se escovar os dentes. Quanto a água no chão, era resultante de uma prática recomendada durante o Ramadã. Após feitas as necessidades, mãos e partes íntimas deveriam ser lavadas, em uma espécie de ritual de purificação.
Mal sabia eu que o mais surreal viria depois. O tema principal da Conferência era “Inovação no acesso à prevenção, tratamento e cuidados em HIV/Aids”. No entanto, quando foram feitas as primeiras apresentações de trabalhos, um assombro: a constatação que no continente africano não havia eufemismo nos tais "aspectos sociais da Aids". Trabalhos, abordando o impacto da epidemia no sistema eleitoral ou no sistema de ensino, por exemplo, pura e simplesmente, relatavam que havia grande dificuldade de repor professores e candidatos em eleições legislativas, em função da mortalidade, provocada pela epidemia.
Os números da Aids no continente africano, só corroboravam estas tristes estatísticas. Muito havia para ser feito, inclusive porque em muitos países a poligamia era permitida, o que tornava a prevenção da Aids uma questão ainda mais complexa. Paradoxalmente, no Senegal, havia uma baixa prevalência do HIV, pois como as normas culturais e religiosas desencorajavam o sexo fora do casamento limitando o número de parceiros, a probabilidade de contato com o vírus também se limitava.
Levei na bagagem uma apresentação em Power point, mas humildemente, resolvi, deixá-la de lado. Estava preparada para apresentar as “maravilhas” da política antiaids brasileira: direitos humanos, direitos sexuais e reprodutivos, troca de seringas, distribuição gratuita dos medicamentos antirretrovirais. Apesar das realidades serem muito singulares, um interesse na cooperação era imediato: a possibilidade de doação e envio de medicamentos fabricados no país.
O Brasil que já vinha prestando assistência técnica e transferência de tecnologia oferecendo treinamento à profissionais de saúde, estratégias para compra de medicamentos e técnicas de negociação para a redução de seus preços dos laboratórios privados; estratégias para construção de infraestrutura para distribuição e estoque de insumos laboratoriais, e assessoria para produção de medicamentos antirretrovirais para o tratamento dos pacientes com HIV/AIDS, especialmente para os países de língua portuguesa, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe.
A esses países juntar-se-iam Namíbia, Zimbábue, Quênia, Botsuana, Burkina Faso, entre outros. Mas esse já é outro capítulo, chamado de “Cooperação Sul-Sul” na história da participação do Brasil na luta contra a Aids.
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