Rádio, meu eterno companheiro. Recebi de meu pai quando eu era apenas uma criança, e tinha de escondê-lo pois temia que meus amigos o quebrassem. Ouvi diversas músicas naquele rádio. Apaixonei-me ao ouvir Cartola, Elis Regina e Tom Jobim. Aos 20 anos, já tinha abandonado a favela onde morava, fiz faculdade, aprendi a tocar violão e piano, e estudei em Londres, Milão e Boston, sempre carregando meu amado companheiro. Escutei, dancei e cantei, conheci diversos amigos, publiquei obras. A fama me visitou e me deixou. Aprendi que tudo é passageiro, o sucesso, amor, família, tudo, com exceção de poucas coisas, como meu amigo rádio. Hoje, encontro-me no final da vida, dois meses para completar 78 anos de existência. A música mudou, as pessoas mudaram, o mundo mudou, mas continuo com meu velho amigo rádio, tão fadigado quanto eu, raramente emite qualquer som, creio que seu fim, assim como o meu, está próximo. Até a vida deixaremos juntos, eu e meu querido e eterno companheiro.