Projeto Mulheres Empreendedoras Chevron
Depoimento de Daiane Raposo de Oliveira
Entrevistado por Estela Tredice
Rio de Janeiro 30 de maio de 2012
Realização Museu da Pessoa
Entrevista MEC_HV043
Transcrito por Priscilla Proetti / MW Transcrições (Mariana Wolff)
Revisado por Bruna Ghirardello
P/1 – Então, eu gostaria que você começasse com o seu nome completo, local, e a data de nascimento.
R – Meu nome é Daiane Raposo de Oliveira, eu tenho 19 anos, nasci no dia 23 de abril de 1993, e nasci na maternidade de Madureira, no Rio de Janeiro.
P/1 – E os seus pais? O que eles fazem? Como você descreveria seus pais?
R – Vou começar pela minha mãe. A minha mãe é a Mulher Maravilha, ela é perfeita, pra mim, pelo menos, ela é maranhense, ela veio pra cá aos 19 anos, e veio pra estudar, mas aqui ela não teve muita ajuda, muita influência para que ela realizasse esse sonho, então ela veio pra cá, começou a trabalhar, conheceu meu pai, engravidou, e o sonho dos estudos meio que acabou porque ela teve que começar a trabalhar para sustentar a casa, pra sustentar os filhos. Meu pai é mineiro, ele veio pro Rio também pra trabalhar, ele não estudou muito, então ele foi confeiteiro, já foi cozinheiro, agora ele é dono de bar, meu pai também é mil e uma. A minha relação com a minha mãe é de mil, com o meu pai mais ou menos, porque a gente não tem muito contato, a gente não se fala muito, mas eu também me dou muito bem com ele, é uma pessoa que eu não digo que amo, mas ele sabe que eu amo.
P/1 – E a sua mãe, o que ela faz?
R – A minha mãe atualmente é doméstica e, graças a Deus, ela ta voltando a estudar, está em busca dessa coisa que ela parou lá atrás. Então quando eu vejo a minha mãe estudando eu falo assim: “Nossa, eu não posso parar, se ela depois de ter tido filhos, ter batalhado, está ali, por que eu, tendo problemas, eu não vou?”, então ela me dá muita força pra isso.
P/1 – O que ela está estudando?
R – Ela tá no ensino médio, está concluindo, porque quando ela veio pra cá, ela estava no primeiro ano e não continuou.
P/1 – E você estuda com a sua mãe?
R – Estudo, eu até coloco no Facebook que eu saí do ensino médio, mas o ensino médio não saiu de mim , porque eu faço os trabalhos junto com ela, eu revejo pra ver se ta certo, eu só não gosto de matemática, então quando ela fala que tem trabalho de matemática, eu falo: “Ah, mãe, não dá, não posso”, mas o resto eu faço o possível pra ajudar.
P/1 – E seu pai cozinhou também, ele deve cozinhar super bem.
R – Sim, os doces do meu pai são maravilhosos.
P/1 – Mineiro.
R – É, doce de leite então, é o meu preferido.
P/1 – Está ótimo, e você passou a infância onde? Você falou que nasceu em Madureira...
R – A minha infância eu passei uma parte em Jacarepaguá, que era ali no Pau da Fome, depois a gente morava num sítio que era onde meu pai trabalhava. Aí meus pais se separaram e eu fui morar em Itaboraí, que é fora da capital do Rio, então eu passei dos seis até os nove, dez anos morando lá, depois eu voltei pra Madureira com a minha mãe.
P/1 – E como era Itaboraí? Você falou que era um sítio lá?
R – Não, o sítio era aqui em Jacarepaguá, Itaboraí é meio uma rocinha também, lá é chão de areia, mato, a gente brinca na rua, com o pé preto, a minha infância foi bem, assim, bem vivida, eu posso dizer assim, eu brinquei na rua, brinquei de pique-bandeirinha, conheço as brincadeiras...
P/1 – Você brincou do quê?
R – Pique-bandeirinha.
P/1 – Como é isso?
R – A gente fazia uma linha no meio, dividia certinho, aí tem a linha do meio, tem um espaço e mais pro fundo tem uma outra linha, isso dos dois lados do campo, tipo um campo, e um time tem que atravessar o outro pra pegar a bandeirinha pra poder vencer, então eu brinquei disso, brinquei de queimada, já levei muita bolada no rosto, já fiquei roxa, já quebrei a minha perna, bem moleque , subia em árvore, eu tive gesso nessa perna três vezes porque eu era a única menina de vários meninos, meus primos, eu só tem uma prima, muito mais velha que eu, então eu brincava com eles, e eu não conseguia acompanhar o ritmo, então eu me machucava, sempre chegava roxa, a minha vida foi assim.
P/1 – E você tem irmãos?
R – Eu tenho um irmão de 16 anos, e tenho um irmão mais velho que é só por parte de pai, mas a gente não se conhece. Nossa história foi bem engraçada porque eu encontrei ele no Orkut, perguntei pro meu pai: “Qual o nome dele?”, aí ele me falou, eu fui na lan house, porque eu não tinha computador na época, comecei a procurar, e quando eu vi, eu: “Aah, a cara do meu pai, muito igual”, aí eu conversei com ele, e quando ele viu a minha foto ele também achou que me conhecia porque eu era muito parecida com a filha dele, aí quando eu falei que era irmã dele, ele: “Nossa, que legal”, e hoje a gente tem um contato, a gente se fala, mas pela internet, não pessoalmente. E o meu irmão de 16 anos é nascido e criado comigo.
P/1 – Como é a relação com esse seu irmão?
R – De 16 anos?
P/1 – Isso, como ele se chama?
R – Anderson. A gente não é aqueles irmãos que se abraçam toda hora, que se beijam toda hora, mas eu sei que quando eu precisar ele tá ali, a qualquer momento, se eu ligar: “Não to conseguindo fazer isso”, ele vai reclamar, mas ele vai, ele vai falar: “Ai que menina chata, meu Deus, toda hora me liga”, mas ele vem. Ele não me abraça toda hora, ele não diz que me ama mas, às vezes, num gesto dele eu sei que ele tá dizendo isso, ele vem e me dá um presente, se ele comprar uma bala na rua e lembrar de trazer uma pra eu experimentar, então, nesses gestos que eu sei que ele me ama, e ele também sabe que eu o amo, que eu tento beijar, abraçar ele, e ele não gosta .
P/1 – E vocês brincavam juntos?
R – Sim, nós temos só dois anos de diferença, então a gente brincou muito, a minha infância foi com ele, a gente brincava de carrinho, de boneca, de casinha, as brincadeiras que eu mais tenho na cabeça com o meu irmão e meus primos é de fazer a beliche de ônibus, a gente pegava a colher de pau e colocava como pára-choque, tampa de panela era o volante, os lençóis eram as portas, então a gente era bem criativo em relação a isso, era uma das brincadeiras que eu mais brincava com eles.
P/1 – E como era a casa que vocês cresceram? Qual foi a casa da sua infância que foi mais marcante pra você?
R – Mais marcante positiva ou negativamente?
P/1 – Como você quiser.
R – Positivo foi aqui em Jacarepaguá, que apesar de ser muito pequena, eu vivi muita coisa da minha infância ali, eu lembro que eu ganhei um coelhinho e no dia seguinte quando eu cheguei o coelhinho não tava mais lá porque a minha mãe decidiu que não queria o coelhinho e fez meu pai levar embora, eu tinha cachorro, eu tinha vários animaizinhos porque lá era um sítio, então, eu sentia que eles eram meus, eu tinha passarinhos, então tudo o que eu lembro da infância com bichinhos eu lembro de lá, sempre lá, eu lembro que uma cobra passou no meu pé e eu sai gritando, então positivamente foi lá. Negativamente foi quando meus pais se separaram e a gente teve que morar numa quitinete que era muito menor que essa sala aqui, muito pequena, com um banheirinho, então ali foi uma época que eu, sei lá, me senti um pouco impotente, uma fase negativa pra mim.
P/1 – E aí você foi pra escola, como foi o seu primeiro dia de aula, você se lembra?
R – O meu primeiro dia de aula eu não lembro muito, mas a minha mãe falou que eu chorei bastante, sei lá porque, ia ficar longe da minha mãe, longe do meu irmão, aí acho que eu entrei em crise nesse dia. Mas eu lembro quando eu ia pra escola, aqui na Praça Seca, tinha um colégio ali e meu pai era quem levava as crianças do sítio inteiro pro colégio, então eu lembro de quando eu entrava na sala, que a minha mãe me levava e eu comprava Doritos, sempre que eu vejo Doritos eu lembro desse momento da minha vida, eu só gostava de comer Doritos no lanche e a minha mãe comprava pra mim sempre; e quando o meu pai ia me buscar na escola, ele olhava pro banco de trás do carro e falava: “Ih, esqueci de levar uma pessoa em casa”, aí a gente ia junto pra casa, então esses são os momentos, da escola, mais felizes da minha infância.
P/1 – E teve alguma professora que foi marcante pra você nessa época?
R – Teve, mas não nessa época, foi quando eu tava na primeira série, que aí eu já tinha me mudado pra Madureira, aí eu comecei a estudar em Oswaldo Cruz, na Viriato Correia, e nisso teve uma professora que, como a minha mãe não tinha começado a trabalhar e tinha que comprar um livro, a minha mãe não tinha dinheiro, e essa professora comprou o meu livro, então é uma professora que marcou muito a minha vida, porque não tinha dinheiro, não tinha livro, então ela comprou o livro e eu falei assim: “Nossa, que professora legal”, então sempre que eu precisava de alguma coisa ela nem falava com a minha mãe, ela dava o jeito dela e conseguia porque ela sabia que a minha mãe não tinha dinheiro.
P/1 – E nesse momento que você tava indo pra escola, começando a ver as coisas, tinha alguma coisa que você imaginava que você queria ser quando crescesse?
R – Tinha, advogada, porque eu defendia muito as minhas amigas. As vezes tinha problemas comigo eu nem ligava, mas quando eu via que era uma outra pessoa sendo oprimida, sendo maltratada, tendo injustiça, eu ia lá e falava: “Professora, aconteceu isso e isso”, e tinha uma professora, ela falava assim: “Você vai fazer Direito porque você parece advogada, defende todo mundo, você só vem aqui pra reclamar” aí acabou que isso entrou na minha cabeça, eu comecei a pesquisar e vi que eu queria ser advogada, aí com o tempo o sonho mudou, mas lá no fundo eu tenho esse desejo de cursar Direito.
P/1 – E você tinha bastante amigos, amigas, como era?
R – Tinha, sempre fui rodeada de amigos, mas a minha mãe sempre me ensinou a separar, entendeu, ela falava assim: “Cuidado, você pode ter muitos amigos, mas tenha sempre cuidado”, então desde pequena eu aprendi a separar amigos e amigos, tem aqueles amigos que são nossos colegas, que a gente sai com eles, brinca, e tem aqueles amigos que, assim, quando acontecer qualquer coisa eles vão estar aqui com você, então, amigos colegas eu tenho muitos, mas amigos de verdade não, eu sou bem reservada, tenho quatro, os meus melhores amigos e acabou.
P/1 – Você me mostrou uma foto que está você e as suas irmãs.
R – É, as minhas irmãs escolhidas , a Juliana, ela estudou comigo na quarta série, e assim, na quarta série a gente era só: “Oi”, “Oi”, “Empresta a caneta?”, “Empresto”, e aí na quinta série nós fomos pro mesmo colégio, e aí nós nos reaproximamos e viramos melhores amigas. Nisso eu conheci a Joice e a Tamires, e elas duas já eram amigas de infância, e aí depois que a gente se conheceu todos os anos a gente estudava na mesma turma e fomos ficando amigas, amigas, amigas, e aí chegou a oitava séria a gente falou: “Ah, a amizade vai acabar, cada uma vai pra um colégio”, e aí nós escolhemos o mesmo colégio, mas não caímos no colégio que nós escolhemos, uma em outra escola e as três na Praça Seca, só uma que não porque ela preferiu não estudar, tanto que ela até se afastou um pouco, que foi a Tamires, mas as outras duas, nós somos muito grudadas, nos falamos todos os dias. E a Joice acabou se tornando a minha irmã adotiva, minha mãe adotou ela, e ela mora na minha casa comigo, como minha irmã de verdade.
P/1 – Ah, é? Sua mãe adotou ela?
R – Adotou. Aí eu tenho um irmão e uma irmã .
P/1 – E como que foi isso na vida de vocês, quando ela chegou?
R – Ela já ia lá pra casa sempre, mas era esporádico, aí devido a ela ter uns problemas com a família dela, a minha mãe vendo isso, falou assim: “Dai, então conversa com ela, chama ela pra vir morar aqui já que ela quer mudar de vida, vamos ajudar”, porque na casa dela ela não conseguia dormir, não conseguia fazer as coisas dela pra estar no dia seguinte na escola, no curso, então a minha mãe a chamou e ela está morando com a gente há seis meses. Aí é legal porque eu tenho uma irmã agora que mexe nas minhas coisas, que usa meu creme, minha roupa, aí quando eu chego eu olho pro pé dela: a minha sandália, e essa rosa é dela, sempre assim, uma mexe nas coisas da outra. Tem um irmão que mexe nos meus cremes, meus perfumes, mas roupa nunca teve ninguém, então ver alguém usando as minhas roupas é difícil, complicado.
P/1 – Da sua infância pra quando você entrou na adolescência, o que mudou?
R – Eu sempre fui uma criança muito madura porque eu não era aquela criança que a mãe escondia as coisas que aconteciam, minha mãe sentava comigo e falava: “Olha, tá acontecendo isso, isso”, então eu sempre tive uma mente muito além da minha idade, então quando eu fui crescendo eu só fui descobrindo mais coisas do que eu já sabia, então não senti uma mudança muito drástica, só senti mais responsabilidade em questão... Eu me preocupava com a minha família, mas não tanto, hoje em dia eu me preocupo muito mais, então nessa passagem parece que isso aumentou, hoje em dia eu me sinto responsável pelo que tem na geladeira, pelo que não tem, pelo que tem no armário, pelo que não tem, me preocupo com o alimento da minha família, uma coisa que, antigamente, eu ficava: “Poxa, não tem danone, ok, não tem”, hoje eu me preocupo: “Não tem danone, então vai ter, eu vou comparar o danone”, então isso aumentou. Quando eu tinha sete anos, meus pais já eram separados, então a minha mãe tinha que trabalhar e meu irmão era pequeno, então quem ia ficar com a gente? A minha mãe me ensinou a olhar o relógio, ela falou assim: “Quando o ponteiro estiver no 11 e o outro estiver no outro número tá na hora de se arrumar pra ir pra escola”, então eu ficava toda hora olhando: “Não chegou a hora, não chegou”, aí quando chegava eu botava o meu irmão pro banheiro, dava banho nele, ele botava a roupinha, e aí a minha mãe me ensinou a esquentar a comida, a gente não tinha microondas, então ela me ensinou a esquentar a comida no banho-maria, então eu ligava o fogo, esquentava a comidinha, dava pra ele e a gente ia pra escola juntos. Então a minha vida sempre foi de responsabilidade porque se a minha mãe não contasse comigo ela ia contar com quem? Então eu sempre fiz o possível pra ser a adulta, a adulta mirim .
P/1 – E você achava algum momento pra se divertir?
R – Sempre, porque a gente morava num quintal onde tinham crianças, tinham outras pessoas, minha mãe sempre pedia pra alguém dar uma olhadinha, então tinha aquele momento antes de ir pra escola onde a gente brincava, assistia televisão, eu brincava com o meu irmão, tinha uma amiga que eu ia pra casa dela e a gente brincava juntos, porque ali, como era um quintal, a gente podia sair e ficar ali fora sem perigo nenhum. A gente não ia muito pra rua porque alguém podia passar e tal, mas dentro do quintal a gente brincava, sempre fui criança-adulta, tinha horas e horas, eu amava as minhas bonecas, até hoje quando eu vejo bonecas, eu amo.
P/1 – E quando você saía da sua casa, desse quintal, o que você gostava de fazer?
R – A gente brincava de pesquisadores, a gente ia em busca de aventuras, eu gostava de andar de bicicleta, meu pai sempre que podia ele dava um jeito de mudar a minha bicicleta, ele me dava uma bicicleta nova, aí a gente falava: “Vamos conhecer lugares novos”, aí dava a volta no quarteirão e conhecia um lugar novo, então sempre foi assim, explorar os lugares no meu bairro.
P/1 – E você ia pra festas, bailes?
R – Na minha adolescência? Não, nunca fui de balada, nunca gostei, sempre gostei de dormir a noite.
P/1 – E como foi o primeiro namorado?
R – Então, eu nunca namorei, nunca tive um namorado de verdade que foi lá em casa, apresentei pra minha mãe e tal, não, sempre fiquei com alguém, tinha uns rolos, mas namorar, assim, não.
P/1 – E nesses rolos, que tipo de convivência vocês tiveram? Vocês saiam pra passear?
R – É, normalmente eu gosto muito de ir em shopping, eu gosto de praia, então a gente ia pra praia, pro shopping, essas coisas assim, mais calmas.
P/1– E trabalho, Daiane, como começou? Qual foi o seu primeiro trabalho?
R – O meu primeiro trabalho foi com 11 anos, eu falei com a minha mãe, porque ela trabalhava como doméstica, mas ela tinha um bico que era trabalhar como garçonete em festas infantis, de adolescentes, aí eu ficava: “Mãe, me leva pra trabalhar”, e eu sempre fui alta, sempre fui grande, aí eu : “Me leva, me leva, quero ter dinheiro”, aí ela: “Mas você ta muito nova”, e eu: “Mas eu quero, eu preciso”, aí ela: “Você quer mesmo?”, ela acho que eu não ia ter coragem de ir, e eu: “Mãe, eu quero”, aí ela: “Então tá”, aí teve uma festa lá perto de casa que precisava, se eu não me engano, de vinte garçons, aí ela falou com a amiga dela, e ela: “Ah tá pode ir, já que é muita gente, se ela não conseguir trabalhar, tá tranquilo”, aí eu trabalhei super bem, melhor do que muita gente mais velha, aí quando eu peguei meu dinheiro, eu: “Nossa, ganhei dinheiro, ganhei dinheiro” , aí depois eu não quis parar mais, aí sempre que podia a amiga da minha mãe me colocava em festas pequenas, e foi assim que eu comecei a trabalhar. E até hoje eu faço essas festas, porque eu gosto de um dinheirinho extra, mas esse foi o meu primeiro trabalho.
P/1 – O que foi feito com esse dinheiro?
R – O que eu fiz com esse dinheiro? Nessa primeira vez que eu trabalhei eu não tava muito afim de gastar comigo porque eu sabia que a minha mãe tava precisando pagar algumas coisas, então, eu fiz: “Mãe, aqui o dinheiro”, e a minha mãe começou a chorar, e eu: “Mãe, pega, a gente pode fazer isso e isso”, porque eu achava que era muita coisa, aí dei pra minha mãe e mesmo assim ela não gastou, ela guardou, e sempre que eu precisava de um dinheiro ela pegava e me dava, mas eu achava que ela tinha gasto para pagar a conta, entendeu, mas ela não fez isso, ela guardou o dinheiro pra mim mesma.
P/1 – E era muito dinheiro?
R – Não, eram 45 reais, se eu não me engano, a gente trabalhava durante cinco horas e ganhava 45. Aí foi o dinheirinho que eu usava. E aí teve uma vez que eu trabalhei também e fiz assim: “Mãe, eu não to precisando de dinheiro não, mas me dá um real para lan house? E pode ficar com o resto”, aí ela pegava e guardava, aí sempre que eu pedia um dinheirinho pra lan house era o meu próprio dinheiro que ela me dava.
P/1 – Você sempre gostou de lan house? Você frequentava.
R – Sim, porque eu não tinha internet em casa, eu não tinha computador, então eu tinha que dar um jeito de entrar, porque todos os meus amigos entravam no Orkut, na época era Orkut MSN, essas coisas, então eu tinha que ir pra lan house pra poder conseguir.
P/1– E você aprendeu meio que sozinha a mexer no computador?
R – É, eu tinha começado a fazer um curso, com uns 12 anos mais ou menos, mas aí eu não terminei, e não lembro porque eu não terminei, acho que eu não gostei; não terminei, aí depois eu tive que aprender sozinha. Ai sempre que eu tinha oportunidade de mexer no computador eu tentava, pedia pra alguém me explicar, e foi assim que eu aprendi a ligar, desligar, entrar na internet, sair... E hoje eu sou a professora de informática da minha mãe, hoje ela entra em tudo, e quando a gente comprou o computador ela não sabia nem segurar no mouse, eu: “Mãe, é assim”, ela: “Ah, tá”, e eu: “Aperta aqui”, e aí hoje ela mexe, e hoje ela fala assim: “Vem cá, você não vai sair pra eu entrar não? Eu tenho muita coisa pra fazer aí”, aí eu: “Mãe, você é velha”, aí ela: “Sou velha, mas sei mexer no computador, sai daí” , aí a gente tem que sair pra ela entrar.
P/1 – E como você ficou sabendo do projeto do Com.domínio Digital?
R – A Raquel foi lá na escola, é a coordenadora daqui, ela foi apresentar o projeto, aí nisso que ela apresentou, eu tava lá atrás, na cadeira, porque já tava no finalzinho de aula, e quando chega no final de aula a gente não quer ouvir mais ninguém, aí ela entrou, a gente: “Ai, não acredito, mais propaganda de bolsa, ninguém merece”, aí eu tava com o celular, jogando no celular, e do jeito que eu tava eu continuei, ela começou a falar, e eu mexendo no celular, nem aí pra ela, mas no fundo, eu tava ouvindo tudo o que ela tava falando, só não tava mostrando pra ninguém que eu tava prestando atenção, aí ela falou do projeto, da qualificação profissional, não sei o quê, e eu mexendo no celular, aí ela: “Quem vai querer?”, aí eu levantei a mão, e todo mundo: “Ué, você tava ouvindo?”, “Tava” , aí ela: “Quem quiser se inscrever, preenche a ficha”, aí eu preenchi e esqueci. Aí depois quando eu cheguei em casa, eu tava pensando: “Nossa, preciso arrumar alguma coisa pra fazer, daqui a pouco eu tô me formando e não tenho nada, não sei nada, só o ensino médio, vou trabalhar onde?”, aí a minha mãe: “Ah, ligou um curso pra você”, aí eu: “Ah, deve ser aqueles cursos que tem que pagar 300 reais por mês, não tem como”, e ela: “Custa você ir lá ver?”, e eu: “Ah, tá”, aí ela falou assim: “Vai ter uma entrevista”, e eu: “Entrevista para curso?”, aí vim toda arrumada achando que era uma entrevista mesmo, aí quando eu cheguei aqui era uma apresentação do projeto, aí viemos eu e a Juliana, que é a minha melhor amiga, ela recebeu a ligação também, aí ela veio junto comigo, a gente se interessou, preenchemos a ficha, fizemos durante uma semana, gostamos, e aí quando nós chegamos em casa ligamos pra Joice: “Joice, você tem que ir pro curso, é muito legal”, e ela: “Ah, mas eu tenho outro curso”, e a gente: “Tranca o curso e vem pra esse”, a gente fez ela trancar, ela veio pra cá, hoje ela trabalha, as três já estão trabalhando, e aqui eu cresci muito, cresci muito mesmo. E eu não me arrependo de ter levantado a mão e ter feito a inscrição, acho que aquele dia foi o dia que Deus falou assim: “Continua jogando, mas presta atenção no que ela tá falando”, porque quando eu me desligo eu me desligo mesmo, e naquele dia eu não me desliguei, eu ouvi o que ela falou. E aqui eu já tive oportunidade de viajar pra São Paulo, porque, assim, se eu entro em uma coisa eu tenho que me dedicar a aquilo, eu tenho que fazer mesmo, então quando eu entrei aqui eu me dediquei, eu dei o meu melhor aqui dentro, então quando as recompensas vieram, eu: “É, valeu a pena, tudo o que eu fiz, tudo o que eu chorei na hora de entregar produto, entregar trabalho”, porque, como você falou, eu sou muito emotiva, e quando as coisas não saem como eu quero eu me sinto sufocada, eu tenho que fazer de tudo pra dar certo, então eu já chorei muito aqui com as minhas amigas, e elas: “Calma, não fica assim, vai dar certo, vai ficar bonitinho”, e eu: “Eu não quero bonitinho, eu quero lindo” , aí eu viajei pra São Paulo, depois eu conheci algumas pessoas da área que eu quero seguir a faculdade, conheci jornalistas, conheci a Carolina da Chevron, acho ela um super exemplo, acho ela super fofa, conheci pessoas que eu me espelho, tem a minha mãe também que eu me espelho com pessoa e tem pessoas aqui que eu conheci que eu me espelho profissionalmente, a Raquel é uma pessoa que eu falo assim: “Nossa, se eu for metade do que ela é, estou legal, estou bem”.
P/1 – Me conta um pouquinho o que você viu no curso. O que você aprendeu, qual era o conteúdo?
R – Aqui a gente aprendia muito na área de DPS, desenvolvimento social e pessoal, a gente aprendia a se conhecer, então eu conheci muita coisa de mim que eu não sabia, e consegui trabalhar algumas coisas negativas que eu tinha, eu era muito ansiosa, eu era muito possessiva, então eu aprendi a dominar isso, a minha ansiedade tá um pouquinho mais baixa, eu sei que eu tenho que ouvir a outra pessoa, eu não ouvia, se eu dava a minha idéia e a pessoa não aceitava, eu fala: “Então tá, ok, vamos continuar fazendo aqui o que eu tava falando”, eu era assim, agora eu escuto, eu sei que a idéia do outro pode ser melhor que a minha, então eu entendi isso, e o CRT, contexto de relações de trabalho, como me dirigir ao meu chefe, como fazer uma entrevista; eu tinha passado na entrevista da C&A, aí eu trabalhei lá durante um tempo, era temporário, foram 28 dias, e aí o rapaz que era o meu líder, que lá tem líderes, quando eu cheguei, ele falou: “Ah, você tem que arrumar isso aqui”, aí eu: “Ah, arrumar isso aqui? Tá bom”, aí eu comecei a arrumar, aí depois quando ele voltou, ele falou: “Você já tinha trabalhado antes?”, eu: “Não, esse é o meu primeiro emprego de carteira assinada”, aí ele: “Caraca, tem certeza? Você nunca trabalhou mesmo?”, aí ele: “Parece que você já trabalhou em algum lugar, você faz tudo tão certo”, e aí quando eu fui embora, foram só 28 dias, mas ele se ligou tanto a mim que, eu saí dia 31, era Réveillon, ele olhou pra mim, me abraçou, chorou e falou assim: “Eu quero que você volte”, mas acabou que eu vi que comércio não era a minha área, eu não queria trabalhar em loja, aí esperei um pouco, e o dinheiro que eu ganhei nesse trabalho eu viajei com a minha mãe pra conhecer a minha avó, e aí quando eu voltei eu tive a proposta pra trabalhar aqui, aí eu falei: “Nossa, que máximo, vou trabalhar aqui nos educadores”, e foi isso, passei por uma entrevista, seleção, concorri com colegas, concorri com as minhas duas melhores amigas, que é a Joice que é a minha irmã e a Juliana, foi engraçado até, e foi isso.
P/1 – E o que você faz hoje em dia?
R – Eu sou apoio administrativo, eu ajudo a Cristina com o que ela precisa, o Lincoln, a Miriam que é de TIC, Tecnologia da informação, dou apoio aos jovens no que eles precisam, às vezes, eles não falam diretamente com eles, vem e me pedem, perguntam essas coisas, atendo os telefonemas, anoto os recados.
P/1 – E você compartilha as suas experiências com esses novos alunos?
R – Compartilho. Teve uma época que tinha um produto que eles tinham que entregar, aí a Cristina Inhaúma falou assim: “Nossa, o trabalho da Dai foi um dos melhores daqui”, pra quê que ela foi falar isso? Veio todo mundo em cima de mim: “Como foi? Me conta”, e aí eu tive que passar pra eles o que eu já tinha: “Gente, vocês vão ficar nervosos, mas é o primeiro trabalho”, aí eu explico pra eles como é, quando eles estão naquele momento, assim, que estao estourando, eu dou um jeito de ajudar eles, porque eu já estive naquela situação, então eu sei que na hora de se apresentar pra uma pessoa importante é muito difícil, a Carolina esteve aqui no dia da apresentação, e eles ficaram nervosos por causa disso, então a gente teve que conversar com eles pra eles se acalmarem, entendeu, eu passo tudo o que eu sei pra eles.
P/1 – E quando você fala produto, o que é exatamente?
R – Posso falar dessa cortina que tá aqui atrás? É um produto. Essa cortina se chama pango, cada quadradinho desse é um jovem, cada jovem desenhou um quadradinho desse, então esse é um produto que eles tem que apresentar, a gente dá um tempo, vamos supor que sejam três semanas, aí ele tem que estar pronto, então eles fazem e entregam e tem que apresentar, aí perguntam pra cada um deles: “Por que você fez isso no seu pango?”, aí eles contam a história do pango deles. E quando eu fiz o meu pango, ele era rosa, porque eu amo rosa, e fiz várias mãos, fiz uma mão de criança, uma mão de adolescente e uma mão de adulto, e aí em cada uma dessas mãos eu coloquei os meus sonhos conforme a minha idade, então na primeira mão eu queria ser professora e médica, na segunda mão eu queria ser cantora, e na outra eu já decidi que eu quer ser jornalista, então como eu fui crescendo, as mãos também, aí elas abriam e tinha um paninho que elas abriam e ficavam mostrando o sonho dentro.
P/1 – Que lindo. E os trabalhos em grupo, como eram? Teve algum trabalho específico que foi marcante?
R – O mais marcante foi o de comunicação, porque eu quero fazer jornalismo, mas eu quero fazer produção de TV, quero produzir programas na TV, então eu fiz um programa de TV, foi o meu produto que eu falei assim: “Nossa, nesse eu me superei” , foi lindo, aí tivemos os câmeras, tivemos aquele negócio que segurava o microfone, tivemos o diretor, tivemos tudo, era realmente um programa de TV ao vivo sendo gravado, e foi lindo, tinha gente que não falava aqui no curso, que tinha vergonha, e quando vieram pra mi, eu falei: “Meu Deus, como eu vou fazer com essa pessoa? Ela não fala, ela tem vergonha”, aí eu era a líder do grupo e quando eu via pessoas lá na frente falando, brincando, eu: “Não acredito que essa pessoa ta fazendo isso”, gente que tinha vergonha de ler um texto, chegou lá, decorou um texto e falou, a eu falava assim: “Gente, não decora, fala o que vocês quiserem, divirtam-se”, então eu acho que essa coisa de falar o que quiser e divirta-se fez a pessoa mostrar quem ela era. Então, foi linda a apresentação, foi um dos produtos que me marcaram.
P/1 – E qual era o seu papel?
R – Nós fizemos, assim, todo mundo tinha que ser tudo, então teve uma hora que eu fui câmera, teve uma hora que eu era diretora, até que no final eu fui a repórter. No início quem entrava era eu e a minha irmã, e era como se eu tivesse passando a minha função pra ela, então na hora, lá, era como se eu tivesse ensinando ela a ser uma produtora, então foi bem legal, aí ela olhava pra mim, errava, aí ela falava assim: “Então pessoal, se pegar fogo, as luzes se acenderão”, aí eu acendia a luz pra ela, então foi bem legal , foi uma coisa que a gente não tinha muitos recursos de TV, mas a gente reciclou, pegamos caixas de papelão para fazer câmera, pegamos folhas velhas pra fazer fichinhas dos repórteres, foi muito legal, esse foi projeto que mais me marcou.
P/1 – E na área da informática propriamente dita o que você viu no curso, o que foi interessante? Porque você falou que gostava muito de ir nas lan houses.
R – Eu gostava de ir na lan house porque eu gostava da parte de internet , mas a parte de mexer nos pacotes eu não dominava muito, então quando eu entrei aqui eu aprendi isso, eu aprendi a mexer no Word, a formatar um texto, eu já tinha uma noção antes mas eu não formatava muito bem, eu aprendi a formatar direitinho, aprendi a fazer planilha no Excel, eu nem sabia o que era isso antes de entrar aqui, eu achava que isso já vinha pronto, mas não, a gente tem como fazer, tem lugares que já mandam pronto, aqui por exemplo, já mandam pra gente prontinha, é só botar os dados, mas quando eu preciso criar uma eu sei criar uma planilha, o nosso educador na minha época era o Eli, então ele me ensinou isso perfeitamente bem, eu sei formatar uma planilha, eu sei mexer no power point, não sou, assim, uma profissional formada, mas eu sei fazer.
P/1 – E você acha que todos esses conteúdos que você viu, eles podem te dar mais oportunidades no mercado de trabalho? Profissionalmente você se sente mais capaz?
R – Aqui eu sempre fui muito confiante em mim mesma, mas eu tinha medo de entregar currículo e ir pra uma entrevista, eu pensava: “Gente, como eu vou fazer? Como é isso?”, eu não tinha idéia do que fazer em uma entrevista, e aí a minha primeira entrevista foi no centro da cidade, que eu achava que iam me chamar numa salinha e tal, a gente ia conversar, aí não, ele fizeram na frente de todo mundo, aí foram umas meninas primeiro, aí as meninas ficavam assim: “É...então...”, e eu: “Nossa, não fizeram Com.domínio Digital” , e tinham outras meninas que eram daqui também e fizeram a entrevista, aí ele: “Qual o seu nome?”, ai, por exemplo: “Gabriela da Silva”, “Quantos anos?”, tava tudo no currículo da gente, mas ele tava fazendo as mesmas perguntas que estavam ali, ele lia e perguntava, aí tinha umas meninas que ficaram com uma cara meio assim: “Aff, ele sabe o que tá escrito, tá me perguntando por quê?”, e a gente sabia que ele tava perguntando pra contestar ali, pra ver se era verdade o que tava escrito, e aí eu só não passei nessa entrevista porque eu era menor de idade, e aí ele falou que sempre que tivesse uma oportunidade eles iam me ligar, tanto que me ligaram depois, mas aí eu já estava trabalhando.
P/1 – E a sua família, Daiane, como a sua mãe recebeu quando você entrou pro Com.domínio Digital?
R – Foi a minha mãe que incentivou porque foi ela que recebeu a ligação, ela falou: “Vai, vai, não custa”, aí quando eu cheguei em casa eu falei do curso ela falou: “Nossa, parece ser bom mesmo”, aí depois que ela começou a ver que realmente era bom, ela se interessava, ela vinha aqui as vezes, ela ligava pra saber o que tava acontecendo. Até teve uma época que eu queria sair do curso, não queria mais fazer porque eu tava me sentindo cansada, porque eu estudava de manhã, fazia aqui a tarde e fazia pré-vestibular a noite, então eu acordava seis horas da manhã, chegava em casa 11 e ia dormir meia-noite, pra fazer tudo de novo no outro dia, então eu me sentia exausta, aí eu falava: “Eu quero desistir mãe, não quero mais ir”, e a minha mãe: “Não, vamos continuar, chegou até aqui”, aí quando eu acabei ela falou assim: “Viu, doeu? Foi rápido, doeu naquela hora, mas tem que batalhar, tem que insistir ” então a minha mãe gostou muito de eu estar aqui, quando eu recebi a proposta da viagem, a minha mãe: “Sério? Meu Deus, a minha filha vai andar de avião” , ela ficou toda boba, chorou, falou que ficou orgulhosa, meu irmão não falou, mas ele demonstrou.
P/1 – Me conta um pouquinho dessa viagem, o que você foi fazer? Como você ganhou essa viagem?
R – Como eu ganhei é meio complicado de explicar porque eu não sei como eu ganhei . A Raquel me falou que ela tinha conversado com os educadores e precisava de uma pessoa pra ir nessa viagem, aí ela ligou pra eles e eles indicaram o meu nome, nisso ela me ligou pra perguntar, e eu liguei pra minha mãe pra ver se ela ia deixar, aí a minha mãe: “Tá brincando. É claro, vai”, aí eu fui. A gente foi pra chamar voluntários, porque aqui no projeto a gente busca incentivar muito o ensino superior, então assim, eu quero fazer jornalismo, eles vão trazer jornalistas para conversarem comigo, então quando tem um jornalista aqui eu faço milhares de perguntas, milhares, porque eu quero entender mesmo o que eu vou fazer lá na frente, porque se a gente chega e lê no Google, tá lá escrito: “Jornalista é uma pessoa que entrevista”, não é só isso, tem mais coisa, então sempre que vem alguém da área fica melhor da gente saber: “É isso mesmo que eu quero?”, aí eles explicam pra gente quais são os conflitos, o que a gente enfrenta todo dia, então nós fomos pra tentar conseguir voluntários das profissões pra explicar aqui pros jovens o que era. Aí eu tive que fazer uma apresentação na Barra contar um pouco da minha história, de quem eu era, e depois eu tive que ir pra São Paulo fazer a mesma coisa, e deu certo, vieram algumas pessoas pra conversar com os jovens, aí tem uns que ouvindo um pouco da profissão desistem e vão pra outra coisa, tem os que falam: “Não, é isso mesmo que eu quero, vou continuar”, então eu fui buscar voluntários.
P/1 – E como é que você se sentiu andando de avião?
R – Foi assim, quando eu entrei... Eu fui com a minha coordenadora Raquel Veiga e a coordenadora Mazé, e essa Mazé, cada passo que eu dava era uma foto, e eu ficava com vergonha porque não tinha muita intimidade com ela, mas depois eu fui entendendo que ela era assim mesmo, que ela era simpática pra caramba, aí toda vez que eu andava ela tirava uma foto, ela: “Dai, faz não sei o que pra foto. Daí, anda na direção do avião”, aí quando eu entrei eu falei: “Gente, que enorme, lá de baixo não parece isso tudo, aí eu entrei, sentei e a Raquel me explicava tudo o que ia acontecer, aí ela: “Olha, você pode sentir um pouco de enjôo, mas você tá tão empolgada que você nem vai sentir enjôo”, realmente não senti enjôo, eu tava tão empolgada... Quando o avião levantou eu: “Que legal”, aí ficava olhando, assim, a cidade diminuindo, diminuindo, aí quando a gente chegou lá em cima já, eu falei assim: “Nossa, parece até que eu to vendo o mar só que de cabeça pra baixo”, é lindo quando você passa pelas nuvens, ai fiquei encantada, aí eu fiquei com vontade de dar essa experiência pra minha mãe, pra outras pessoas que eu conheço, tanto que a gente viajou em janeiro e a minha mãe: “Acho que eu vou de ônibus”, e eu: “Não mãe, a gente vai de avião”, aí a minha mãe teve a primeira viagem dela de avião, aí ficou a minha mãe: “Nossa, incrível, é lindo, é lindo”, é uma coisa que eu nunca vou esquecer, a sensação da minha primeira vez andando de avião, eu achei que ia demorar uns 30 anos pra que isso acontecesse, não, não demorou, foi aos 18 anos.
P/1 – E aí lá em São Paulo em si, qual foi a sua impressão ao chegar na cidade, falar com os jornalistas de lá?
R – Eu não falei com jornalistas, eu falei com engenheiros, administradores, contadores... E chegando lá, a primeira coisa que eu falei foi: “Nossa, que cidade gigantesca”, e o trânsito de lá, fiquei assim... Nunca mais eu vou reclamar do trânsito do Rio, aí nós fomos na Avenida Paulista, e eu: “Olha como as pessoas são lindas”, porque lá é tão geladinho, as pessoas se vestem tão bem , aqui no Rio todo mundo anda de biquíni, não tem graça, não tem roupa, aí eu liguei pra minha amiga: “Só tem gente bonita, tô com vergonha” , e a Raquel ria, porque tudo o que eu fazia eu ligava pra contar pra elas, pra contar pra minha mãe, porque eu queria que elas vivessem aquele momento comigo, tirei fotos, e o que foi mais marcante pra mim eu acho que foi a volta, porque nós fizemos confusão com os aeroportos, Congonhas e o outro é Guarulhos, só sei que eu ia pro mais longe, aí tava um engarrafamento, tudo parado, a gente não sabia se ia dar tempo de eu embarcar, chegamos lá, a gente desceu do carro literalmente correndo, aí a gente chegou: “Dá tempo?”, “Se você chegasse cinco minutinhos depois não dava mais”, aí eu fui, e na volta eu voltei sozinha, e eu: “Nossa, to andando de avião sozinha, que lindo” , foi uma das viagens que eu acho que eu nunca vou esquecer, eu guardo tudo, até o ticket do avião .
P/1 – E Daiane, quais foram as principais motivações que fizeram você participar do projeto?
R – Uma que eu não queria... Eu quero repetir a força da minha mãe, mas não quero repetir a história da minha mãe, não quero parar, eu queria terminar os estudos, começar a trabalhar e fazer faculdade, ou começar a fazer faculdade trabalhando, ou depois, dar um tempinho e começar a faculdade, então eu olhava pro meu currículo... Uma vez eu até tentei fazer um currículo e pensei: “Não tem nada no meu currículo, como é que uma pessoa vai me contratar se não tem um curso, não tem um...?”, Então, quando eu ouvi falar sobre o curso: “A gente dá capacitação”, eu falei: “É isso que eu tenho que fazer”, eu tenho que aprender e aí quando chegar lá fora e for disputar com alguém que tenha cursos, as pessoas possam dizer: “Ah, mas ela também tem isso, vamos dar uma chance”, eu tinha muito medo de chegar lá sem nada, então eu vim pra cá pra, digamos, me revestir.
P/1 – Revestir do quê?
R – Revestir de conhecimento porque eu sempre fui curiosa, então eu sempre procurava as coisas, mas eu não tinha noções do mundo do trabalho, minha mãe é doméstica, meu pai é confeiteiro, cozinheiro, então não tinha muita gente da minha família que tinha faculdade, que tenha instrução para alguma coisa.
P/1 – E você sente que você tá sendo uma inspiração pro seu irmão e pras outras pessoas?
R – Sim, o meu irmão, antigamente, ele nem falava muito em fazer faculdade, ele falava assim: “Vou fazer prova pra militar e tá bom”, aí eu: “Anderson, não é assim, prova para militar? Só isso? Vamos estudar, vamos fazer faculdade”, aí agora o discurso já mudou; “Ah, vou fazer uma faculdade de educação física”, aí eu: “Você vai fazer faculdade?”, aí ele: “To pensando ainda” , então eu já vi que o discurso dele mudou em relação a isso, agora ele quer fazer curso, quer se envolver mais.
P/1 – Então hoje você está trabalhando e fazendo cursinho?
R – Faço cursinho a noite.
P/1 – E você tá se preparando pro vestibular?
R – Sim, só que agora eu não to fazendo mais vestibular, tô procurando estudar em casa, eu chamo a minha irmã, a gente dá uma lida, estuda um pouco, ela me ajuda em matemática porque eu não sei muito, então...
P/1 – E aí você pretende mesmo ser jornalista?
R – Sim, jornalista. Eu tinha até passado na lista de espera para uma universidade federal, mas como eu viajei, eu fiquei sem internet onde eu tava e quando eu voltei o meu computador pifou, então eu perdi a vaga por não ter... Mas, assim, na hora eu fiquei: “Não acredito, na área que eu queria, numa universidade federal”, mas aí eu pensei: “Se eu consegui agora sem esperar, eu vou tentar de novo e vou conseguir”, então esse ano eu to com foco mesmo pra conseguir.
P/1 – E hoje, Daiane, quais são as coisas mais importantes pra você?
R – Na minha vida profissional?
P/1 – Qualquer que seja.
R – Na minha vida profissional é absorver muito conhecimento, eu quero de todas as formas adquirir muito conhecimento, porque essa é uma coisa que ninguém pode tirar nunca de mim, então tudo que eu puder conhecer, tudo que eu puder ouvir das pessoas, eu to fazendo esse exercício: ouvir e aprender. E, assim, na minha vida emocional é a minha família. Eu acho que a minha família sempre foi o mais importante na minha vida, e acho que isso não vai mudar tão cedo, acho que só quando eu tiver a minha família, minha mesmo, de verdade, a minha casa, aí a minha mãe... Acho que nem assim entra como segundo plano, ela continua junto ali, tendo a mesma importância sempre, meu irmão também.
P/1 – E seus sonhos? Você tem um sonho, ou vários sonhos, qual é?
R – Meu sonho é poder viajar o mundo sendo jornalista, entrevistando... Assim, eu não quero ser a jornalista que pega o microfone: “Ah, legal”, eu quero ser aquela que fica atrás da câmera, que ajude a montar todo aquele espetáculo, que apesar de ninguém ver, eu sei que é uma coisa enorme que acontece ali atrás, então eu quero fazer parte daquilo, não quero estar na frente, quero estar atrás ajudando, movimentando, sendo importante ali. Eu espero viajar o mundo fazendo isso.
P/1 – Que bacana. Tem alguma coisa que eu não tenha perguntado que você gostaria de falar?
R – Tem, tem uma coisa sim, que é a forma de avaliação daqui, que a gente não tem prova, não tem notas, mas tem uma coisa que me marcou aqui dentro, que foi o SMA, que é sistema de monitoramento do aluno, de aprendizado, e nisso eles tem vários itens, vários, e eles vão pontuando aqueles itens que eles observam, mas você também tem que pontuar os seus itens, então eu achava que eu tinha uma auto-estima super elevada, mas respondendo aquele SMA eu só colocava nota baixa, então quando eu ia ver junto com eles o meu SMA, tinha coisas que eu botava dois, e eles: “Não, é quatro”, então aquilo me fez prestar mais atenção em quem eu sou e valorizar aquilo que eu tenho, muitas coisas eu tinha eu não valoriza por achar que não era importante, e agora eu sei que é importante, que é necessário, e a minha auto-estima agora tá lá em cima sempre.
P/1 – E como foi pra você contar a sua história aqui pra gente?
R – Ontem eu fiquei assim: “Meu Deus, o que eu vou falar? Será que eu tento que ensaiar alguma coisa?”, eu até conversei com a minha mãe, conversei com a minha irmã, e elas: “Não, de repente nem seja isso, fala o que vier no seu coração, na sua mente”, e aí chegando aqui, conhecendo vocês, eu pensei: “Nossa, eles são simpáticos pra caramba”, que bom, vou ficar a vontade, e realmente, fiquei a vontade, eu tava me sentindo muito importante lá atrás, depois eu comecei a não me sentir tão importante porque eu fiquei com medo, mas eu amei a experiência.
P/1 – Que bom, eu fico muito feliz, também foi um prazer conversar com você. E obrigada.
R – Obrigada você.
[Fim da Entrevista]
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