Projeto Vidas Vozes e saberes em um mundo em chamas
Entrevista de Gisele Amorim Cavati
Entrevistado por Lucas Torigoe e Jonas Samaúma
Alto Paraiso de Goiás, 2 de outubro de 2025
Entrevista nº: PCSH_HV1508
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
00:00:28 P/1 - Gi, pergunta difícil pra começar, tá? Qual que é o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor?
R - Gisele Amorim Cavati, eu sou natural de Vitória, no Espírito Santo. Nasci 12/02/1982.
00:00:42 P/1 – Legal. E te falaram como é que foi o dia que você nasceu, alguma coisa assim?
R - O dia que eu nasci?
P1 – Ou a gestação...
R - Foi véspera de carnaval, lua cheia, numa sexta-feira. Eu tenho essas informações porque eu sou uma pessoa razoavelmente animada, e aí eu fui olhar. Não é possível. Eu nasci numa sexta-feira de lua cheia. Mas foi a semana anterior ao carnaval.
00:01:03 P/1 – E de noite?
R – Três e vinte da tarde, exatamente. Foi uma gestação tranquila, desejada pelos meus pais, programada. Eu tenho dois irmãos, uma irmã mais velha e um irmão mais novo. E cesárea. Mas foi tranquilo.
00:01:24 P/1 - E qual que é o nome da sua mãe completa?
R - Eliette Amorim Cavati e meu pai se chama Batista Jhonatas Cavati.
00:01:31 P/1 - Eles te contaram como é que eles se conheceram?
R - Ah, é um rolê de família. Uma prima do primo que... E tem uma história curiosa, que meu pai foi seminarista. E aí, há pouco tempo atrás, sei lá, uns 10 anos atrás, eu falei, pai, mas você ia ser padre? Aí ele falou: não. É que na época ele morava na roça e aí chegou o pessoal da igreja e falou: olha, vai ter uma bolsa de estudo para um filho do Seu Antônio. Que era o meu avô. E aí meu tio não quis ir. E meu avô obrigou meu pai a ir para esse seminário, só que ele não queria ser seminarista. E aí, no meio do seminário, ele conheceu minha mãe. Que aí era um rolê de família, assim, eles eram primos em comum. Tinham primos em comum, eles não...
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Entrevista de Gisele Amorim Cavati
Entrevistado por Lucas Torigoe e Jonas Samaúma
Alto Paraiso de Goiás, 2 de outubro de 2025
Entrevista nº: PCSH_HV1508
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
00:00:28 P/1 - Gi, pergunta difícil pra começar, tá? Qual que é o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor?
R - Gisele Amorim Cavati, eu sou natural de Vitória, no Espírito Santo. Nasci 12/02/1982.
00:00:42 P/1 – Legal. E te falaram como é que foi o dia que você nasceu, alguma coisa assim?
R - O dia que eu nasci?
P1 – Ou a gestação...
R - Foi véspera de carnaval, lua cheia, numa sexta-feira. Eu tenho essas informações porque eu sou uma pessoa razoavelmente animada, e aí eu fui olhar. Não é possível. Eu nasci numa sexta-feira de lua cheia. Mas foi a semana anterior ao carnaval.
00:01:03 P/1 – E de noite?
R – Três e vinte da tarde, exatamente. Foi uma gestação tranquila, desejada pelos meus pais, programada. Eu tenho dois irmãos, uma irmã mais velha e um irmão mais novo. E cesárea. Mas foi tranquilo.
00:01:24 P/1 - E qual que é o nome da sua mãe completa?
R - Eliette Amorim Cavati e meu pai se chama Batista Jhonatas Cavati.
00:01:31 P/1 - Eles te contaram como é que eles se conheceram?
R - Ah, é um rolê de família. Uma prima do primo que... E tem uma história curiosa, que meu pai foi seminarista. E aí, há pouco tempo atrás, sei lá, uns 10 anos atrás, eu falei, pai, mas você ia ser padre? Aí ele falou: não. É que na época ele morava na roça e aí chegou o pessoal da igreja e falou: olha, vai ter uma bolsa de estudo para um filho do Seu Antônio. Que era o meu avô. E aí meu tio não quis ir. E meu avô obrigou meu pai a ir para esse seminário, só que ele não queria ser seminarista. E aí, no meio do seminário, ele conheceu minha mãe. Que aí era um rolê de família, assim, eles eram primos em comum. Tinham primos em comum, eles não são primos, mas tinham primos em comum. E aí se conheceram e ficaram juntos. Estão juntos há 49 anos, cara.
00:02:21 P/1 - Vamos falar um pouquinho mais da família do seu pai, então. Os seus avós, quem são eles, de onde eles vieram? Enfim...
R - Eu conheci só o meu avô por parte de pai. E a família do meu pai, basicamente agricultores. Os meus tios, irmãos dos meus pais, eles eram agricultores, plantavam e vendiam para o Ceasa. Aí meu pai, como foi para a Cidade Grande para fazer o seminário, ele teve a oportunidade de estudo mesmo depois, fora do seminário, ele acabou passando em um concurso do Banco do Estado do Espírito Santo. Então, assim, meus tios eram agricultores, meu avô também, tinha uma pequena fazenda e plantava. E meu pai hoje, ele tem um sítio, só que tem uma pegada mais de preservação ambiental, não tá tanto com pegada de agrotóxico, ele planta alimentos sem agrotóxico e tudo mais. E toda vez que eu vou pra casa dos meus pais, eu sempre pago a bagagem despachada no avião, 23 quilos. E o povo fala: mas o que você está carregando de tão pesado? É feijão, fubá, farinha, tudo que o meu pai planta eu trago pra mim. Isso é bem legal.
00:03:22 P/1 - Vamos voltar para isso depois. Mas os seus avós, por parte de pai, plantavam o que para vender no Ceasa, você sabe?
R - O meu avô, especificamente, eu não lembro, eu era muito pequena quando ele fez a passagem. Mas os meus tios, eu sei que era café, bastante café, milho. Mas na época do meu avô, ele faleceu, eu tinha sete, oito anos, talvez, eu era bem novinha, então não lembro muito.
00:03:46 P/2 - Mas seu pai tinha costume de plantar alguma coisa também?
R - Na época não, porque meu pai trabalhava no banco. Mas quando ele se aposentou, ele começou a movimentar mais a energia ali no sítio, só que plantando orgânicos. Feijão, milho crioulo e café. É bacana porque ele planta café, só que ele não produz em grande escala. Então o café eu não consigo trazer, só tomo lá em casa. Aí ele tem o moinho de pedra, que a gente põe o grão e mói e tal, é bem especial.
00:04:15 P/2 - E tinha algum alimento assim, legumes que na infância você gostava bastante?
R - Cara, eu costumo dizer que meus pais fizeram um bom trabalho porque eu sempre gostei de comer tudo. Comia beterraba, comia jiló. Comia essas coisas que normalmente crianças não gostam. Mas, especialmente, assim, sopa de fruta-pão. Eu lembro que quando fazia lá em casa, nós éramos três crianças. Eram duas panelas grandes, porque a gente comia muito. A gente sempre foi bom de alimentação lá em casa.
00:04:44 P/1 - E como é que é o cheiro dessa sopa?
R - O cheiro? Cara, é tempero. Bastante tempero, assim, bem temperadinho, dá água na boca até.
00:04:54 P/1 - Vamos voltar para sua mãe, então. Como é que é a família dela?
R - Mamãe. Mamãe vem de uma família também… Meus avós ficaram casados por 50 anos, e aí meu avô faleceu quando eles fizeram 50 anos de casados, e aí permaneceu minha avó. E sempre foi uma família muito unida. Então as lembranças que eu tenho assim de Natal, festa de família, aniversário, é mais da parte da minha mãe. Muitos natais com chegada de Papai Noel no carro jogando bala, doce para as crianças. Aí depois de um tempo eu descobri que era meu tio, sabe? Ficava decepcionada. Mas uma família que se reuniu bastante enquanto minha avó esteve viva. E depois acabou dispersando e eu estou há 13 anos fora de lá. E minha avó faleceu quando eu já morava aqui. Então eu não participo muito mais desse movimento de família, mas eles continuam se reunindo.
00:05:46 P/1 - E a família do seu pai e da sua mãe são da mesma região do Espírito Santo?
R - Minha mãe é de Vitória, ela nasceu em Santo Antônio, um bairro de Vitória. E meu pai é do interior do Espírito Santo, é de um distrito de Guarapari. Guarapari é uma região do litoral, porém papai ele vai um pouquinho pra dentro, pro interior, que é Marechal Floriano. É um lugar super pequenininho. Inclusive eu tenho boas lembranças de infância lá, eu fico até arrepiada. Quando a gente ia visitar meus tios, que eram agricultores, era uma região que não tinha energia elétrica, então a gente, a luz era lampião. E quando a gente levava coisas da cidade grande, refrigerante, na época, Guaraná, Coca-Cola, a gente botava pra gelar na nascente do Rio, que era perto da casa do meu tio. Porque não tinha energia elétrica naquela época, e a gente era os primos da cidade grande, então a gente levava essas coisas pra consumir em família lá. E uma das lembranças mais especiais é que na Páscoa não chegava ovo de Páscoa. Então a gente levava os ovos de Páscoa para os nossos primos e minha tia cozinhava ovos de galinha e ela pintava os ovos para cada sobrinho. Isso era muito especial, cara. Porque a gente recebia, cada sobrinho recebia dois ovos, três cozidos e ela tinha pintado à mão e dava para a gente. É uma ótima lembrança.
00:07:08 P/1 - Vocês não comiam esses ovos ou comiam?
R - A gente comia. Não, comia. Era ovo cozido. Mas o especial era receber o ovo de Páscoa, que era o ovo de galinha pintado. Isso era bem legal. Bem bacana.
00:07:19 P/1 - E ela pintava como? Que cor? Como que era?
R - Era colorido, azul, aí tinha as bolinhas, tinha as tirinhas. Era artístico.
00:07:28 P/2 - Isso foi uma coisa dela mesmo ou ela pegou esse costume de outra pessoa?
R - Eu não sei. Minha tia já faleceu também. É isso, eu estou te falando de lembranças de bem criança. Desde o meu nascimento até dez, doze anos, que aí eu fiquei adolescente, parei de participar muito desse rolê de família, do interior. E também os meus tios fizeram a passagem, essa tia fez a passagem. Mas é curioso, porque há pouco tempo atrás, na Páscoa, uma amiga ganhou uma casca de ovo de galinha, preenchida com amendoim e pintadinha. E eu olhei aquilo, eu falei: meu Deus, isso é da minha infância. Ela me deu o ovo que ela tinha ganhado de alguém, sabe? E foi uma lembrança muito afetiva, assim. Essa é uma lembrança especial que eu tenho. Eu acho super bacana.
00:08:17 P/1 - E você tem irmãos, né? Você falou que tem dois irmãos.
R - Eu tenho irmãos. Tenho uma irmã mais velha, que é veterinária, e tem um irmão mais novo, que é biólogo.
00:08:25 P/1 - Qual que é o nome deles, Gi?
R - Minha irmã se chama Graziela Amorim Cavati e meu irmão se chama Vinícius Amorim Cavati.
00:08:32 P/1 - E você consegue puxar da sua cabecinha as primeiras lembrancinhas que você tem de criança? As primeiras sensações?
R - Cara, uma das primeiras lembrancinhas... Eu assim, eu sou aquariana. Então tem histórias que eu não sei se eu criei ou se eu lembrei, porque a cabeça da aquariana, né? Mas eu tenho ótimas lembranças. A gente sempre foi uma família muito unida, viajava bastante, tanto para o interior do Espírito Santo, para a casa dos meus tios, enquanto viajamos Rio, São Paulo. Meus pais botavam três filhos no carro e pegavam estrada. Eu tenho muitas lembranças. Corcovado, Simba Safari em São Paulo, que era um rolê que você entrava de carro e viu os animais, zoológico, shopping, bondinho, tudo isso assim. E minha mãe conta uma história que quando eu era criança eu me perdi num parque de diversões. É curioso que a gente ouve umas histórias de infância e agora adulta que eu fui falar. “Mãe, como que isso aconteceu?” Ela falou: olha, seu pai foi comprar comida e eu achei que você estivesse com ele e ele achou que você estivesse ficado comigo. E eu tenho lembrança desse dia, só que essa é uma das histórias que eu não sei se eu criei ou se eu lembro, porque ela é muito… Eu tinha três aninhos, quatro, mas tenho essa lembrança na minha cabeça desse dia.
00:09:56 P/2 - Na infância, já passou alguma situação que você resgatou algum bicho ou precisou resgatar?
R - Cara, é curioso porque a gente está falando de... Eu tenho 43 anos, né? De 40, 35 anos atrás. Meu pai, ele criava passarinho na época. Eu tenho uma foto que eu tô tomando a água do passarinho. E é até curioso que eu falo, naquela época eu tomava água que o passarinho não bebia. Mas hoje em dia eu só tomo uma cervejinha, nada além disso. Mas resgate de bicho... Meu pai sempre teve essa pegada ambiental, assim, até esse contexto, que a família dele morava na roça, e depois ele começou a plantar orgânicos. Mas de lembrar de resgate. Eu lembro na casa da vizinha uma vez que surgiu uma serpente, tenho a memória de ser uma jiboia com obra, assim, veio com areia, com alguma coisa. Mas nada relacionado a resgate. E confesso que eu tinha medo de alguns bichos, eu tinha receio de alguns bichos. Quando eu vim morar em Alto Paraíso, uma vez apareceu uma aranha armadeira na minha casa. Gente, quase que eu deixei a casa para ela. Real assim. Essa história é até engraçada, porque eu lembro que uma amiga... A mãe de uma amiga estava chegando na cidade e ela falou: Gi, posso levar minha mãe para sua casa para ela tomar um banho? Porque essa amiga tinha uma casa numa fazenda aqui longe. Aí eu falei: pode. Só que apareceu essa aranha. Então eu botei uma panela em cima da aranha, botei uma pedra e desenhei. “Tem um monstro aqui, desenhei uma aranha.” Aí a mãe dela foi ao banheiro fazer xixi, vamos ver o que a Gi escreveu aqui. Ela gritou, “Ana Maria, sua amiga é uma louca. Ela prendeu a aranha na panela e deixou aqui.” Então assim, logo que eu cheguei em Alto Paraíso. Então hoje em dia, eu resgato, é isso, serpente. Às vezes as pessoas chamam a gente para resgate de onça. Mas aí já é um outro protocolo. Mas que rolam chamados, rolam chamados. Mas você vê como que as coisas vão se construindo e a gente vai se transformando também. Então na minha infância eu tenho lembrança de contato com animais, mas não tenho lembrança de resgate especificamente de bichos.
00:12:00 P/2 - Desses contatos, quais são… Ah, são esses que você contou, né?
R - É, já tive contato… É isso, a gente fazia muito rolê em família. Então, eu lembro de ter visto serpente lá no sítio dos meus tios mesmo. Tinha bastante ave, pássaro. Serpente aparecia também. Eu tenho boas lembranças, assim. Eu sempre tive bastante contato com a natureza.
00:12:25 P/2 - Você morava em Vitória?
R - Eu morava em Vitória.
00:12:29 P/2 - Você tinha alguma relação com o mar?
R - Super. Tanto que eu achava que eu não fosse morar longe do mar. E hoje em dia eu estou muito bem assim. Aí é isso, com o passar do tempo… A minha família é extremamente religiosa. Minha mãe bem evangélica, que chega até a ser um pouco redundante, mamãe é evangélica e meu pai é católico. E aqui, eu sou umbandista. Eu entrei pra Umbanda e hoje eu sou umbandista. E eu falei disso porque eu sou filha de Oxum, com Xangô. Então, no aspecto espiritual, hoje eu também entendo o que eu tô fazendo em Alto Paraíso. Que eu estou longe da praia, que antes eu achava que eu fosse ter uma conexão, morar no mar pra sempre, assim, no mar e de mar. E hoje em dia, eu como filha de Oxum com Xangô, tá na casa de papai e mamãe, mamãe e papai, assim, me sinto muito bem aqui. Até porque eu percebo um aspecto de degradação ambiental no litoral, nas praias, muito forte. Isso não me atrai, sabe? É isso, eu vou pra Vitória, tem um lugar, tem um píer de Iemanjá, não sei se vocês conhecem a cidade. Eu vou ver o pôr do sol e as tartarugas marinhas, mas eu vejo tanto lixo, tanta sacola, que eu fico desesperada. E aqui é diferente. Até mesmo porque o turismo em Alto Paraíso já tem uma consciência de preservação ambiental. Não que a gente não veja lixo nas trilhas e tudo mais, mas tem uma consciência de preservação ambiental muito maior e isso me atrai muito mais também.
00:13:57 P/2 - Mas quando você era pequena e você ia ver tartaruga, já tinha esse lixo?
R - Não, hoje em dia há mais. Hoje em dia mais. E a gente fazia muito rolê em família, ia para muitas praias no Espírito Santo, Manguinhos, Bicanga, Carapebus, Jacaraípe, e não tinha tanto lixo.
00:14:13 P/1 - Vocês moravam perto da praia ou não?
R - A gente morava, meus pais moram perto da praia. Fica de carro a três minutos da praia. 500 metros, um quilômetro no máximo. Muito rapidinho.
00:14:24 P/1 - Quando você se deu por conta de gente, vocês moravam aonde?
R - Que eu me dei conta de?
00:14:30 P/1 - Quando você se deu por gente.
R - Ah, que eu me dei por gente. Cara, eu brinco. Que a gente brinca que as pessoas que vêm morar em Alto Paraíso são hippies. Eu falo que eu era bem hippie quando eu cheguei aqui, mas hoje em dia não, perdi o quezinho. Eu morei 30 anos nesta casa com os meus pais.
00:14:47 P/1 – Era casa?
R - Casa. Então assim, eu brinco, eu nunca morei em apartamento, eu nunca tive uma Barbie, eu nunca trabalhei de carteira assinada. Eu brinco. Por isso que eu vim parar em Alto Paraíso. Mas eu morei 30 anos nesta casa. Meus pais construíram quando eu era criança. Eles tinham uma casa, demoliram e construíram. E depois eu morei 30 anos lá e estou há 13 anos em Alto Paraíso. Então eu sempre morei em casa, minha vida inteira. Porque aqui eu moro numa casa também.
00:15:13 P/1 - Você pode contar pra gente como que é essa casa?
R - É uma casa com quintal, dois andares, três quartos. Aí quando eu era criança eu dividia o quarto com a minha irmã. E meu irmão tinha um outro quarto. Depois meu irmão saiu de casa e eu ocupei o quarto que era dele. Aí tem sala, cozinha, copa, quintal, garagem, um jardinzinho na frente.
00:15:35 P/1 - Você lembra muito dessa casa? Pensa nela?
R - Quando eu vou pra casa dos meus pais eu fico lá. Então foi bastante da minha história, assim, 30 anos da minha história tá lá naquela casa.
00:15:49 P/1 - E como é que você desfrutava dessa casa quando você era criança com seus irmãos?
R - No quintal. A gente... Não sei se eu posso falar isso, mas a gente tocava o terror. Porque o quintal tinha muitas plantas e eu sempre fui uma pessoa muito ativa. A diferença entre mim e meu irmão é de um ano e meio. Então a gente é praticamente gêmeo., assim. E é até curioso isso, porque a primeira vez que eu vim para Alto Paraíso, aleatoriamente, vim viajando. Eu atravessando a rua, um rapaz me chamou, falou: moça? Eu falei: oi! Ele falou: cara, você conhece um menino chamado Vinícius? Que tem o apelido de Cabelo, que mora no Espírito Santo? Isso aqui em Alto Paraíso. Aí eu falei: cara, ele é meu irmão. Aí ele falou: vocês se parecem demais. Eu sou amigo dele, lá de Vitória. Era o Felipe, que hoje é meu amigo pessoal aqui. Mas nessa época ele era amigo do meu irmão lá no Espírito Santo. E ele me reconheceu porque ele me achou parecida com meu irmão. Então, assim, eu e meu irmão, a gente tem um ano e meio de diferença, a gente fisicamente se parece bastante. E quando a gente era criança, a gente brincava muito no quintal. Então a gente afastava as plantas, armava uma rede de vôlei e ficava batendo bola. Só que meus pais trabalhando. Aí os vizinhos ligavam pros meus pais pra dedurar a gente, era uma história.
00:16:58 P/1 - E você conhecia o pessoal da vizinhança?
R - Total. Era uma época assim, que a gente… Cresceu na rua. Tanto que meus pais criaram a gente, criaram os filhos dos vizinhos e os filhos dos vizinhos criaram todo mundo também. Porque era muita liberdade, não tinha tanta violência, e era possível. Cara, a gente brincava o dia inteiro na rua, brincava de vôlei na rua também, não era só no quintal. Futebol, subir em árvore. Eu lembro uma vez que eu dei uma serpente até… História de serpente. De borracha, de presente de aniversário para o meu irmão. A gente amarrava uma linha, cara, no pescoço da serpente, botava atrás do carro, esperava a galera voltar da missa e puxava a serpente para assustar o povo, sabe? Então foi uma infância, cara, rodeada de pessoas, de amigos, de primos, de parentes e da vizinhança também.
00:17:49 P/1 - E qual que é o endereço dessa casa?
R - Rua Presidente Rodrigues Alves, número 25, Bairro República, Vitória. O CEP, eu só não sei porque mudou recentemente.
00:17:58 P/1 - E a rua, como você pode descrever essa rua?
R - É uma rua, o bairro dos meus pais é um bairro interessante. Porque antigamente ele era conhecido por números, as ruas. Então era Rua 1, Rua 2, Rua 3. E a Rua 1, ela tinha a quadra de trás e a quadra da frente. A Rua 2, 3, todas as ruas. Então, a Rua 1, se a quadra de cá era aberta, a quadra de lá era fechada por uma pracinha. Então, na rua dos meus pais, a rua da quadra deles, que a de cá é aberta e a de lá era uma pracinha. Então, é um bairro muito arborizado e com pracinhas em todas as ruas. Então, isso facilitava também o movimento da gente brincar, de ter uma área de lazer. E no final da rua tem uma escola, municipal, que também passava bastante adolescente, que brincava com a gente. E tem uma história curiosa. Sabe o irmão do Jorel? Ele era meu vizinho. Então a gente brincou algumas vezes quando criança. E o Jorel, ele estudou comigo na escola, assim, na verdade ele era um ano a mais que eu, então ele estudou com uma amiga. E ele morava na rua de trás, assim. Então isso é uma memória que eu tenho de infância também, que as pessoas brincam, “por pouco você não era a Ana Catarina, do desenho.” Eu falo: por pouco eu não sou. Porque a gente brincava todo mundo junto ali. Então eu tenho essa lembrança, da família inteira, inclusive.
00:19:23 P/1 - E, me conta uma coisa, tem alguma outra história que você lembra bastante desse período nessa casa, nesse bairro, nessa rua, em algum acontecimento?
R - Cara, eu transitava muito entre as brincadeiras, assim, mais com as meninas e transitava com os meninos, que eu sempre tive uma hiperatividade, essa coisa mais moleca, assim. Tem uma história interessante que eu e uma amiga, a gente brincava de escolinha. E aí uma das meninas, que era menor que a gente, ela não sabia escrever, copiar no caderno, a professora passava o dever no quadro e ela não sabia pular para a linha seguinte. A gente que ensinou isso pra ela, não foi a escola, sabe? Então eu tinha uma participação. Agora tem uma história interessante. Toda época de festa junina, a gente fazia uma festa. Isso era muito bacana, porque a gente passava na casa da vizinhança, tanto combinando quem ia levar o que de comida e arrecadando brindes. Então foram anos que a gente tinha a eleição de rei, rainha, príncipe e princesa, que a gente arrecadava os brindes, e fazia festa aberta para a rua e para quem chegasse. Isso era muito bacana. E como era um grupo bem unido na rua, a gente fazia festa de dia das mães, festa de dia dos pais, festa de dia das crianças. E sempre era eu e essa amiga que a gente organizava. E era bacana.
00:20:40 P/1 - Quem que é essa amiga?
R - Nancy. E foi assim, a casa dos meus pais é exatamente ao lado da casa onde eram os pais dela, eles mudaram de lá já tem um tempo. Então, Nancy nasceu em 13 de fevereiro de 80, eu nasci 12 de fevereiro de 82. Então, eu falo que ela é minha primeira amiga da vida, porque desde o dia que eu saí do hospital, eu fui pra casa… É minha amiga de 43 anos, porque a gente cresceu juntas, assim. E ela faz aniversário um dia depois do meu.
00:21:09 P/1 - E você falou que seus pais eram religiosos.
Meus pais são bem religiosos.
00:21:14 P/1 - Você tinha que ir na igreja, seus irmãos também?
R - Tinha. Fiz a primeira comunhão. Frequentei a igreja católica. A minha mãe se tornou evangélica, mas um processo de passagem do meu avô, eu percebo isso. Que mexeu com ela e ela procurou na religião um amparo, assim, na igreja evangélica. Mas eu frequentei bastante a igreja católica. Aí teve uma época que eu e Nancy, a gente gostava de um menininho, que ia bastante para a igreja. E nossas mães, nossos pais ficavam orgulhosos, porque a gente ia pra igreja, cara, sexta, sábado e domingo. Só que a gente ia porque o rapaz estava lá, não era exatamente porque a gente queria ir. Eu frequentei bastante a igreja católica. Só que não era o ambiente que eu me encontrava. E aí minha mãe evangélica, tentava me levar para a igreja dela também. Participei de alguns cultos, e um aspecto que me incomodava era a pessoa chegar e falar: mas e aí, você já aceitou Jesus. Mas cara, tudo isso faz parte da nossa vida, Deus, Jesus. Não quer dizer que eu não sou evangélica, que eu não acredito em Jesus Cristo. Então isso me incomodava. E bairro, e aí eu ia um dia com minha mãe, no dia seguinte não ia. “Mas por que você não foi?” Eu falava: cara, não é o meu rolê. Até que um dia teve uma revelação na igreja da minha mãe, dentro do aspecto dela, e ela falou, minha filha, disseram que você tem uma missão a cumprir na sua vida. Só que eu percebi na fala dela que ela criou uma expectativa que a missão tivesse a ver com a caminhada dela. E eu falei, sim mãe, todos nós temos uma missão e eu adoraria que você entendesse que a minha missão é a minha missão, não é a sua missão. Então são caminhos diferentes. Tanto que hoje eu sou umbandista. Só que esse assunto ainda não chegou na minha família, o fato de eu ser umbandista.
00:22:56 P/2 - E como foi que surgiu na sua vida?
R - A Umbanda? Aqui em Alto Paraíso. Porque Alto Paraíso é uma cidade, embora pequena, tem... Quando eu cheguei aqui tinha um dado interessante do censo, não sei como é que está hoje. Que era a cidade do Brasil com o maior número de seitas registradas em cartório e era a cidade do Brasil com o maior número de evangélicos considerando a população que morava aqui na época. E eu percebo que aqui tem uma tolerância religiosa muito maior. Uma das minhas melhores amigas, ela é nativa de Alto Paraíso e ela é evangélica. E eu falo abertamente com ela sobre Umbanda e sobre tudo mais, sobre espiritualidade, e eu percebo que tem uma tolerância. Então aqui eu já frequentei centro Hare Krishna, centro Budista, e na Umbanda eu senti que era o meu caminho. Só que é curioso, porque eu frequentei o terreiro de Umbanda sete anos, por sete anos, até eu entrar para a corrente e me considerar de fato umbandista. E eu acho que isso tem interferência dos meus pais. Como a minha família sempre foi muito religiosa, eu tinha um receio de falar, ah, eu também tenho uma religião. Só que quando eu vi, eu já tinha um compromisso e eu sentia um caminho de trabalho na caridade. Tanto que muitos dos trabalhos que eu faço em Alto Paraíso são voluntários, além do trabalho da Umbanda, que é a caridade, trabalhar a caridade. Mas aqui tem uma diversidade de possibilidades e quando eu vim morar aqui eu explorei. Mas eu confesso que eu tinha medo. Agora eu lembrei de uma outra história da minha infância. Quando eu era criança, uma menina que trabalhava na casa dos meus pais, ela estava lá ajudando minha mãe com alguma coisa. Minha mãe pediu para ela buscar um copo de água na cozinha e ela não voltava. Quando ela não voltou, minha mãe foi ver o que tinha acontecido e ela tinha incorporado o espírito obsessor. E esse espírito obsessor dizia que ia matar minha mãe. Eu vou te matar, eu vou te matar. Minha mãe catou os três filhos pelo cabelo, foi para o quarto de cima, que era o quarto dela, e não sabendo o que fazer, ligou para o meu tio policial. Então eu tenho essa lembrança de infância também, que isso me assustou muito. Então a primeira vez que eu vi uma pessoa incorporada, cara, eu achei que eu pudesse apanhar. Eu me tremia dos pés à cabeça, eu suava frio, porque eu tenho essa memória de infância. Então isso também me levou a demorar a entender esse meu trabalho dentro da Umbanda, porque tem a ver com incorporação e tudo mais. Mas eu lembro disso, mamãe chamou meu tio policial. Então, pra mim a incorporação sempre estava associada a algo que poderia me agredir, sabe? Me afetar num nível assim físico até, eu fiquei com medo.
00:25:32 P/1 - Como é que terminou essa história?
R - Terminou essa história, ela parou de trabalhar na casa dos meus pais e...
00:25:40 P/1 - Mas o seu tio, o que ele fez?
R - Não, na hora eu acho que ela desincorporou. Eu não lembro ao certo, mas meu tio chegou lá, conversaram, ficou tudo bem com ela e ela parou de trabalhar na casa dos meus pais. Eu era bem pequena, cara. Acho que eu tinha no máximo 7 anos de idade, 7, 8 anos.
00:25:59 P/1 - Agora, como é que vocês curtiram a praia, o mar?
R - A gente curtia demais. Eu sempre gostei de esporte. Então, meu pai era um cara que acordava cedo pra correr na praia. Eu sempre fui com ele. Eu ia desde criança, assim. E a gente todo final de semana estava na praia. Fazia um... Sabe aquelas garrafas, assim, grandes, térmicas? Fazia suco, levava com sanduíche, tomava picolé e passava o dia na praia. E aí a madrinha da minha irmã também, ela tinha uma casa em Jacaraípe, que era no litoral do Espírito Santo, a gente se reunia bastante lá. Então ia a família inteira, fazia churrasco. Na casa de um tio também, que já tinha, era perto da praia, tinha piscina. A gente curtiu bastante o litoral.
00:26:40 P/1 - E você aprendeu a nadar onde?
R - Escola de natação. Eu e meus irmãos, a gente fez escola de natação, que era no bairro também. E eu acho que assim, cara, se tem uma coisa que os pais podem fazer pelos filhos é botar em uma aula de natação. Porque pode salvar a vida, inclusive.
00:26:57 P/1 - Você falou que seu pai trabalhava no banco, mas a sua mãe faz o que?
R - Minha mãe também trabalhava no banco. Os dois eram concursados do Banestes, do Banco do Estado do Espírito Santo. Isso era interessante, porque como eles eram casados e funcionários do banco, o banco facilitava para que eles tirassem férias juntos e na época de férias nossas, férias escolares. Então era nesse momento que eles catavam os filhos e levavam para viajar para algum lugar. A gente viajou bastante, São Paulo, Rio. Chegamos em Florianópolis de carro, cara. Três filhos dentro, na época, a gente era pequeno. E viajamos bastante.
00:27:33 P/1 - E que carro que era que vocês iam?
R - Meu pai tinha um Escort. Mas quando lançou o Escort modelo novo, era esse Escort que na época era um carro confortável. Mas chegamos a viajar de ônibus também e viajamos de avião. Uma vez de avião, quando era criança, assim.
00:27:50 P/1 -
Como era passar esses dias na estrada?
R - Era muito bacana. Eu tenho altas memórias, cara. Porque a família do meu pai, sendo católica, muitas das irmãs e tias do meu pai, elas foram freiras. Isso é curioso. Então, assim, tinha uma tia em São Paulo, uma tia no Rio de Janeiro e uma tia em Juiz de Fora. Elas eram freiras. Essas tias do Rio e São Paulo, elas eram enfermeiras. E aí era assim, o Hospital Paulista, que é o da principal ali, da Avenida Paulista, não? Santa Casa? Santa Catarina. Minha tia era enfermeira no Santa Catarina. Então, ela morava lá e era enfermeira. Todos esses hospitais, tinham um hospital assim, não lembro mais o nome, era o Santa Catarina, o Hospital do Rio. Como elas trabalhavam no hospital, tinha uma ala de hospedagem, que era um hotel cinco estrelas, praticamente, para a família dessas freiras. Então, quando a gente ia para lá, a gente ficava hospedado nesse hospital. E a alimentação, na área de alimentação dos funcionários e das pessoas que moravam. Então, eu tenho bastante essa referência. Tanto Rio e São Paulo. Em Juiz de Fora, minha tia, que era freira, ela era diretora de uma escola enorme. Não lembro o nome da escola, mas era uma rede tipo Salesiano, Dom Bosco, Sacré-Coeur. Então, eu e minha irmã, a gente chegava de férias, cara, eram quadras e quadras e biblioteca. Eu lembro de entrar na biblioteca e ficar louca com os livros. Então, a gente tinha essa possibilidade. Aí, no Hospital Santa Catarina, tem um fato interessante que aconteceu, com a minha cabeça aquariana. Não tinha muita gente que se hospedava por lá durante o ano inteiro, mas eles sempre recebiam a gente. E em um determinado momento, eu e meus irmãos ficamos em um quarto, meus pais em outro, eu fui abrir a torneira do chuveiro e estava bastante enferrujado, e veio uma água de ferrugem. Gente, a minha cabeça, eu achei que fosse sangue, porque eu estava no hospital, naquele ambiente. Eu falei: meu Deus, sangue de algum paciente. Quando eu me dei conta, não, era ferrugem. E aí ficou tudo bem, era só isso. Depois a água correu e não tinha mais ferrugem.
00:30:02 P/1 - Você falou de várias viagens com seus pais e tal. Você acha que seria legal pensar uma ou umas pra contar? Quais foram que mais foram marcantes pra você?
R - Cara, eram viagens de infância, a gente viajava sempre depois do Natal. O Natal sempre era na casa da família da minha mãe, normalmente. Foram viagens especiais, mas eu sinto que as viagens que eu fiz depois, que transformaram a minha vida, depois de grande. Minha mãe tem um momento que ela até falou: você não cansa de viajar? E eu falo: mãe, você que me acostumou assim. Tanto que foi numa dessas viagens que eu cheguei em Alto Paraíso. Mas eu sinto que as viagens foram ótimas lembranças, eu tenho ótimas lembranças afetivas de viagens com a minha família na infância, mas as viagens que eu fiz depois foram que transformaram a minha vida e que me trouxeram para Alto Paraíso.
00:30:54 P/1 - Como é que era você na escola, nas escolas que você passou?
R - Eu sempre gostei muito de estudar. E era um fato interessante, assim, porque eu sempre gostei muito de estudar e eu sempre gostei muito de praticar esportes. E eu gostava muito de aprontar. Então, meus irmãos normalmente demandavam mais atenção dos meus pais para estudo, precisavam de apoio para fazer trabalho e eu não, eu sempre fazia. E eu aprontava bastante. Só que quando eu aprontava, meus pais não tinham onde me regular porque eu tirava notas boas. Então eu sempre gostei muito de estudar, eu sempre fui muito interessada em aprender, em contextos, sabe? N contextos. E gostava de praticar esporte também. Então assim, eu dei uma movimentada na família. Porque eu estudava, eu praticava esporte e eu aprontava. E quando eu aprontava, onde que eles iam me pegar? “Mas você está fazendo isso e aquilo, está tirando nota baixa?” “Não, não estou.” Está deixando de praticar esporte?” “Não, não estou.” Então era... Acho que um pouquinho desafiador para os meus pais.
00:31:58 P/1 - Você aprontava, o que você fazia, por exemplo?
R - Ah, na época da juventude, saía para o role, chegava em casa… Uma vez, meu pai falou: mas você chega em casa todo dia, seis, sete da manhã, você tá dormindo aonde? Só que eu não estava dormindo, eu estava no rolê. E saía para viajar, sozinha, assim. Por isso que eu falo que as viagens que foram marcantes. A primeira viagem sozinha que eu fiz, eu fui para o Universo Paralelo, 2015. Sozinha. Eu não sabia o que ia acontecer. Foi numa época que eu comecei a transitar no meio do trance, tive experiências, poucas experiências, não muito agradáveis com psicodélicos. Pouco tempo. E aí, depois disso, eu tive síndrome do pânico, crise de pânico. Depois disso, poucas experiências, pouco tempo, eu resolvi ir para o Universo Paralelo. Só que, na época, o Universo Paralelo era um mistério, assim. Hoje em dia, sai excursão e gente do Brasil inteiro. Na época, não ia quase ninguém de Vitória. E uma amiga ia comigo e ela desistiu uma semana antes. E a gente tinha reservado uma excursão no Rio de Janeiro. E ela falou: “Gi, não vou.” E eu falei, e agora? O que eu vou fazer, cara? Vou sozinha? E resolvi me jogar. E eu sinto que essa viagem mudou a minha vida. Porque quando eu cheguei no Universo Paralelo… Nessa época eu já encaretei, eu sou uma pessoa totalmente careta, eu gosto de tomar uma cerveja de vez em quando e só isso. E nessa época eu estava com um pouco de receio ainda e um resquício dessas crises de pânico que eu tinha tido, crise de ansiedade, eu não sei o que foi ao certo, na época. E eu resolvi ir para o Universo Paralelo. E eu cheguei lá e era um mundo completamente diferente assim, do mundo que eu vivia. Só que eu sinto que tinha uma sementinha dentro de mim que o Universo Paralelo despertou em relação à sustentabilidade, em relação a lidar com as pessoas de uma forma mais humana até. E eu lembro que quando eu cheguei no festival, eu percebi que eu estava no festival e depois de dois, três dias eu também era o festival. E eu lembro que naquela época eu estava numa fila, véspera de ano novo, para comprar alguma coisa para comer. E aí eu comentei com uma moça, eu falei: “nossa, mas aqui tem um risoto com camarão ótimo, muito bom e tal.” Ela falou: “ah, mas eu sou vegetariana, eu não como camarão.” Isso me deu um start, assim. Aí eu falei, olha, ela não come carne. E eu tinha essa ideia, quando eu era criança, eu falava, ah, quando eu tiver alguém que possa cozinhar para mim, eu vou me tornar vegetariana. Como uma ideia mais distante. E aí, nessa mesma viagem, um dia eu estava comendo um misto com presunto e queijo e ofereci para uma menina, ela falou: “ah, mas eu não como carne.” Aí eu falei, cara, se essas pessoas vivem sem comer carne, eu também posso ficar sem comer carne. E depois disso eu passei 18 anos vegetariana, quatro deles eu fui vegana e há dois anos eu voltei a comer carne. Isso é um dado interessante, porque o universo paralelo me despertou para bastante coisa, de meditação, de consciência ambiental, de sustentabilidade e de possibilidades, de deixar fluir o que existia dentro de mim. Porque era curioso, desde criança eu ouvia da minha irmã, isso é muito diferente de todo mundo. E eu não conseguia socialmente, eu me adaptava, mas eu não sentia que eu estava encaixada no contexto que eu vivia. Até da comunidade ali, dos amigos de infância. Essa minha amiga Nancy, ela adorava ir para o shopping. Eu ia com ela, ia para shows, ia para festa, mas eu percebia que tinha uma coisa diferente que me movimentava. E no Universo Paralelo, brotou isso dentro de mim.
00:35:28 P/1 - Que cidade que acontece?
R - Na Bahia, em Pratigi. Ele acontece até hoje, eu não sei, não vou te precisar agora a quantos anos acontece, porque eu nunca mais fui. E a música eletrônica, trance, hoje em dia eu não me identifico tanto mais também.
00:35:44 P/1 - O que chamou a atenção primeiro de você para ir para lá era a música?
R - A música. E saber que tinha um festival de cultura alternativa, eu queria entender.
00:35:53 P/2 - O que que despertou a consciência ambiental, além dessa coisa do vegetarianismo?
R - Porque lá, cara, era gente do mundo inteiro e muitas palestras, você conseguia conversar com as pessoas. Sinceramente, é um festival que hoje eu tenho noção que ele causa um impacto terrível para a região, porque é na beira da praia, cara, então deixa… Por mais que eles tentem trazer um contexto de ajuda da comunidade, que eles empregam bastante gente, isso funciona bem, mas o impacto ambiental é irreversível, como é o impacto das queimadas aqui no Cerrado. Ele é irreversível. Existe uma regeneração que acontece, mas voltar a ser como era antes… E hoje em dia eu tenho essa consciência que o Universo Paralelo também traz esse impacto. Só que na época era conversar com pessoas que estavam inseridas em comunidades, pessoas do mundo inteiro. A partir do Universo Paralelo, eu comecei a participar dos, não sei se vocês já ouviram falar, em ENCA, que é o Encontro Nacional de... Você já foi para o ENCA? Talvez eu te conheça, hein, cara, de lá. Real! Do ENCA e do FICA, que é o Festival Internacional de Cultura Alternativa que acontece aqui no Goiás, inclusive. E aí eu comecei a me inserir mais nesse contexto de alimentação orgânica, do vegetarianismo, mas o Universo Paralelo despertou uma sementinha do diferente dentro de mim, do não conformismo com a sociedade, sabe?
00:37:17 P/1 - Você falou 2015, mas seria 2005, é isso?
R - 2005, desculpa. É, 2005.
00:37:23 P/1 - Tá, então 20 anos atrás.
R - 20 anos atrás. Foi o primeiro Universo Paralelo que eu fui.
00:37:27 P/1 - Descreve pra gente, pra quem não conhece, como é que era o dia-a-dia no Universo Paralelo? Como é que vocês começavam o dia?
R - Nessa época, o Universo Paralelo era um festival, aí eu vou chutar pra 3 mil pessoas, tá? Vou chutar pra cima, 5 mil, vai. Hoje em dia o Universo Paralelo recebe, sei lá, 50 mil pessoas. Então é bem diferente. Então, naquela época eram três pistas, uma pista principal, um chillout e uma pista alternativa. Hoje em dia, acho que são entre 8 e 10 pistas. Então, assim, é um outro mundo. Então, naquela época ainda havia uma consciência de paz e amor, de união das pessoas ali, muito maior do que existe hoje em dia. Eu fui para o Universo Paralelo, inclusive, em 2015. O primeiro foi em 2005. Cara, eu me assustei, porque era um mundo extremamente capitalista dentro de um festival que tinha despertado em mim tanta coisa bacana. Mas era isso, dormia em barraca, acordava e ia para a praia, porque estava acampado na beira da praia. E aí, alimentação, comprava o café da manhã. Mas era isso, tudo isso era comprado, mas tinha uma cozinha comunitária que era possível cozinhar. E aí, depois do Universo Paralelo, foi isso, eu comecei a participar dos ENCAs e dos outros festivais de cultura alternativa, que aí já tinha uma pegada menos capitalista, era uma pegada mais de comunidades alternativas se reunindo e falando sobre sustentabilidade, sobre cultura alternativa de uma forma geral.
00:39:06 P/1 - Nesse Universo Paralelo, você tinha uns 20 e poucos anos?
R - Eu tinha 23 anos, 2005, 23.
00:39:13 P/1 - Você já estava na faculdade? Como é que estava?
R - Cara, eu tinha me formado. Eu entrei na faculdade muito cedo. Eu entrei na faculdade com 16 anos, faculdade de Direito. E eu me formei com 21. Eu entrei com 16, logo fiz 17, só que eu me formei com 21. Então eu me formei em Direito em 2003. Eu era muito nova, tinha 21 anos. E aí fui pro Universo Paralelo em 2005. Em 2007, eu fui estudar Educação Física. Aí eu fiz a transição de área, que é a minha área profissional hoje em dia. Cara, eu sinto que eu fiz direito muito influenciada pelas pessoas ao meu redor. Com 16 anos, gente. Com 43 eu posso dizer que eu sei o que eu quero da minha vida. Agora com 16 anos, eu não sabia o que eu queria da minha vida. Então umas amigas iam estudar direito, aí eu fiz vestibular e passei. E acabei estudando. Não me arrependo, eu acho que o conhecimento... Então eu entrei na faculdade muito nova, com 16 anos. Eu não me arrependo de ter estudado direito. Eu acho que o conhecimento, assim, foi incrível. Então, eu entrei na faculdade com 16 anos e eu era muito nova. Só que eu curti, foi uma época da minha vida que eu costumo dizer assim, os grandes amigos que eu tenho da minha vida são da faculdade de Direito. Não que eu não tenha amigos na faculdade de Educação Física, tenho, mas as pessoas com quem eu encontro até hoje, a gente tem grupo, que a gente se fala, são os meus amigos da faculdade de Direito, lá em Vitória, tirando os amigos aqui de Alto Paraíso. Só que eu era muito nova e eu percebi que a legislação brasileira funciona, ela é um dos sistemas jurídicos mais completos do mundo. Mas a aplicação, cara, é outra história. E aquilo foi me decepcionando. Uma época eu resolvi estudar para o concurso da FUNAI. E eu fiquei desesperada, o quanto que a legislação indígena não protegia os indígenas. Então isso me causou um desconforto e eu já tinha intenção de estudar Educação Física. E eu acredito até que se eu não tivesse passado na faculdade de Direito com 16 anos, talvez com 17 já fosse estudar Educação Física. Mas eu não me arrependo. Só que isso foi uma questão da minha família. Porque eu me formei com 21, no ano seguinte teve a prova da OAB, e eu passei na OAB, com 22. E a minha família me pressionou muito para eu advogar. E eu não queria advogar. Isso era uma questão realmente assim, que começou a gerar conflito lá em casa. Porque, “ah, tem uma carreira promissora, jurídica, passou na OAB.” E é isso, não é uma prova tão simples de conseguir passar. E aí um dia eu, cara, eu tava muito indignada com tudo isso, eu não queria trabalhar na área jurídica. Aí eu fui na ordem dos advogados e pedi o cancelamento da minha OAB. Só que antes disso eu me certifiquei que era direito adquirido. Se eu passei uma vez, eu não preciso passar nunca mais nisso. Porque é isso, a gente não sabe o que vai acontecer na vida. Vai que daqui a alguns anos eu precise advogar, então eu posso. Aí eu cancelei a OAB e aí fui estudar Educação Física, que era realmente assim… Tanto que eu ouso dizer que… Obviamente, que na faculdade de Direito eu estudei muito, porque exige bastante. Mas eu estudei mais na faculdade de Educação Física, porque era algo que me movia, eu era apaixonada por tudo aquilo, cara, então, fazia grupo de estudo, eu era apaixonada, eu sou apaixonada por essa área.
00:43:04 P/1 - Mas eu imagino que seja diferente a forma de estudar para Educação Física e para Direito, ou não?
R - Totalmente diferente. Eu, na primeira aula de anatomia que eu tive no primeiro período da Educação Física, cara, eu falei, eu tô lascada, porque eu estava acostumada a ler e interpretar texto e, do nada, eu precisava entender nome de músculo e nome de osso. Uma das minhas notas mais baixas da Faculdade de Educação Física foi a anatomia, porque eu tive bastante dificuldade. Só que eu comecei a estudar por assimilação, usei minha criatividade aquariana. Então assim, crista ilíaca, eu imaginava uma onda, um surfista na crista da onda. E com isso eu comecei a passar dessa forma para a turma também. Então eu fazia grupo de estudo na véspera da prova e ensinava dessa forma. Tipo rádio, mas o rádio todo mundo usa, porque tem antena. Só que eu assimilava todos os nomes de músculo e de osso e eu tentava arrumar uma assimilação para eu entender. Porque até então, cara, minha cabeça funcionava com interpretação de texto, na área jurídica. E na educação física, eu não podia escrever nada, tudo tinha que ter uma referência. O primeiro trabalho que eu entreguei, a professora falou: “você não pode dar sua opinião, você tem que colocar todos os parágrafos de um trabalho, tem que ter a referência bibliográfica.” Então eu fui reconfigurando o cérebro e deu certo no final.
00:44:25 P/1 - Como é que é uma faculdade de Educação Física? O que você estuda de anatomia?
R – Cara, a minha grade, especificamente, foi uma grade que depois mudou. Eu estudei na Estácio, porque a Universidade Federal do Espírito Santo, na época, era só licenciatura. Eu queria ser bacharel em Educação Física, que é a profissão que eu exerço hoje. Eu não dou aula para escola, eu trabalho com esporte e qualidade de vida, saúde e qualidade de vida. Então, eu dou aula de treinamento funcional e sempre trabalhei nessa área. Se eu fosse licenciada, pela UFES eu teria que dar aula em escola e não era a área que eu queria. Essa grade foi bem especial, porque além das matérias básicas que toda grade de educação física tem, eu tive nutrição, farmacologia, então eram matérias muito específicas que me interessavam bastante também. E hoje em dia as grades não tem mais essas matérias, tem só as básicas, que é anatomia, fisiologia, fisiologia do exercício e os esportes. Isso é interessante porque a gente teve os principais esportes a gente teve como matéria de um período. Então vôlei, basquete, futebol, handebol, natação. E tinha prova prática, natação e a gente tinha prova prática de todos os lados. Só que quem nada peito? Borboleta. Peito a gente nada, agora borboleta. Mas o professor considerava a intenção da pessoa para nadar borboleta, para dar a nota na prova.
00:45:43 P/1 - E me conta uma coisa, nessa época de faculdade, das suas duas faculdades, no caso, como é que era a sua vida amorosa, namoro? Você pode contar pra gente?
R - Cara, eu era bastante de rolê. Aí tem dados interessantes e díspares na minha vida. Ao mesmo tempo que eu frequentei o Universo Paralelo, eu pulei 12 anos seguidos na minha vida num trio elétrico, atrás do Chiclete com Banana. Então eu era... Namorar mesmo em si, eu não fui de namorar muito. Mas eu aproveitei, eu ficava com bastante gente, aproveitava, curtia nessas festas, assim. E aí, foi isso. Só que na época eu me relacionava com homens, hoje eu sou uma mulher lésbica, homossexual, e tenho uma namorada, que foi quem me trouxe aqui, inclusive.
P2 – Como foi que você se descobriu?
R - Cara, eu vou te falar que foi um longo processo. Porque eu não sei se pelo contexto familiar ou pelo contexto... Eu demorei muito tempo para me entender como uma pessoa homossexual. E eu sinto que a maior barreira foi o meu próprio preconceito comigo mesma. Eu sempre tive muitos amigos e amigas homossexuais, mas comigo era difícil, assim. Eu lembro que minha mãe tinha uma tia, tia Shirley. Tia Shirley eu acho ótima. Que a tia Shirley, ela é sapatão. E eu lembro de infância, que a gente ia para a casa da tia Shirley e ela era casada com uma mulher e elas tinham adotado um menino ou a companheira dela tinha um filho. E aquilo existia na minha cabeça. Até um dia que eu falei, cara, mas a tia Shirley é casada com essa mulher, ela não é amiga. Porque na minha família falava que era amiga. E a tia Shirley, ela tem a idade da minha mãe, e até hoje ela é casada com uma mulher, uma outra, não é a mesma. E eu vejo, às vezes ela posta em Instagram, Facebook, “ah, porque a minha amiga.” Só que eu nunca mais encontrei com a Tia Shirley, porque eu tenho vontade de falar: “Tia Shirley, é a sua companheira, cara, de vida, é sua esposa.” E foi a partir da sua história de vida que eu consegui construir a minha história de vida, graças à Tia Shirley. Mas foram muitos anos, um longo processo. Quando eu vim para Alto Paraíso… E em Vitória eu já tinha ficado com uma menina, a gente ficou, deu uns beijinhos e tal, mas nada que tenha me despertado o interesse além disso. Mas quando eu vim para Alto Paraíso, de fato eu comecei a me interessar por mulheres, e aí na época eu até fazia terapia. Não, eu fazia terapia com uma pessoa, porque eu faço terapia com outra agora. E ele falou: “Gisele, socialmente aqui em Alto Paraíso, as pessoas sabem que você se relaciona com mulheres. Então assim, você está fora do armário, só que falta você sair do armário embutido, esse que está em cima da sua cabeça, o tempo todo dentro dela, que é a sua família.” Que até então eu não tinha contado para minha família que eu me relacionava com mulheres. E aí, na pandemia, aquele contexto de distanciamento social, todo mundo mais isolado e tal. Eu não estava me relacionando com ninguém na época, mas eu senti a necessidade de compartilhar com minha família. E aí eu fiz uma constelação familiar, até na época, que é uma das terapias alternativas que tem aqui em Alto. E aí deu essa questão para eu trabalhar principalmente com minha mãe, sabe? E aí a pessoa que fez essa constelação familiar, ela falou: “cara, escreve uma carta pra sua mãe. Mesmo que você não entregue, mesmo que você queime essa carta, entregue, manda pra sua mãe. Ou queima, rasga e tal. Mas escreve essa mensagem pra sua mãe.” Quando eu escrevi, eu falei, cara, isso é minha história, isso é quem eu sou. Resolvi mandar pra minha mãe pelo WhatsApp. Deixa eu só tomar um gole de água, porque essa história vai longe. Resolvi mandar pra minha mãe pelo WhatsApp. Só que nessa época eu já tinha contado pros meus irmãos, que eu me relacionava com mulheres, na época da eleição. Não sei se a gente pode falar de política, mas enfim. Minha irmã ia votar no Bolsonaro e eu virei pra ela e falei: “cara, seu presidente quer que eu morra.” E o meu irmão não, o meu irmão já é mais, anti-bolsonarista e eu tenho mais afinidade e estilo de vida com ele. Então, contei, na época da primeira eleição, quando o Bolsonaro se candidatou a presidente, contei para eles. E quando eu resolvi contar para minha mãe, eu peguei esse texto, escrevi e mandei para o WhatsApp. Peguei a mensagem e mandei para o meu irmão, mandei para a minha irmã e falei: “galera, larguei essa mensagem para a mamãe hoje.” Aí meu irmão falou: “meu Deus, hoje eu estou num pé de guerra com a mamãe, precisava da sua ajuda para poder amenizar a situação que está rolando comigo e com ela.” Aí eu falei: “Vinícius, já foi.” Ai Graziela me responde, “nossa, mamãe acordou mal-humoradíssima hoje, você escolheu um péssimo dia para mandar essa mensagem para ela.” Falei: “galera, já foi.” Aí, beleza, mandei essa mensagem.
00:50:44 P/1 - Desculpa, você lembra mais ou menos que horas você mandou? De manhã, sei lá. Ou não interessa, você que sabe.
R - Tentando lembrar. Não lembro. Quando eu mandei pro meu pai eu lembro o horário, mamãe eu não lembro não. Não, mamãe eu não lembro. E aí, mamãe demorou um pouco a responder, aí falou alguma coisa no sentido, “ah, minha filha, eu quero que você seja feliz e que Deus te abençoe.” Alguma coisa assim. E depois minha irmã falou que ela foi perguntar, mas essas mulheres… Porque minha irmã falou que sabia. Essas mulheres com quem sua irmã se relaciona são boas pessoas? Ela se interessou nesse sentido. E aí, resolvi contar para as minhas amigas de infância, para essa, para a Nancy e para outra amiga de infância. E cara, eu me senti um pouco sendo julgada por uma delas. Porque ela falou: “ah, mas você sempre ficava com os caras, mas será que você é Bi?” Aí ela falou: “surgiu o seu nome na conversa de família em casa, mamãe chorou, se emocionou, mas será que você fingia que você gostava de homem ou você não gostava?” E eu senti um tom de preconceito. E aí eu falei com ela, eu falei: “Nancy, eu, cara, passei a vida inteira fingindo ser quem eu não era ou querendo agradar os outros por conta de pessoas que têm um preconceito velado e que acham engraçado, muitas vezes, coisas que me doem.” Porque desde criança eu sentia que eu não tinha o álibi social e familiar para me relacionar com mulheres. Por exemplo, eu tenho lembranças de que em determinado momento da minha infância eu queria ser menino, mas eu sou uma mulher cis, tenho certeza disso. Só que naquela época eu percebo que tinha uma intenção de me relacionar com mulheres, que eu não identificava, e que de repente ser menino me dava o álibi, sabe? Porque eu não acho que eu sou uma pessoa que tenha tendência a transicionar, nada disso. Eu sou uma mulher, amo ser mulher, só que naquela época eu sentia isso. Então, me veio essa lembrança e quando essa amiga falou dessa forma comigo, eu falei, cara, não posso mais, eu preciso dar voz pra quem eu sou cada vez mais. E eu falei pra ela, porque ela falou meio que rindo, meio que brincando, ah, mas será que você fingia? E eu falei, não cara, eu sou sapatão, eu sou mulher lésbica. E pra mim é muito difícil lidar com o preconceito velado das pessoas, que acham engraçado aquilo que dói na gente, dói uma vida inteira, que eu não conseguia expressar isso. E a partir dessa conversa eu senti a necessidade de compartilhar com meu pai, porque até então eu falava, não, vou contar pra minha mãe, tá tudo resolvido. E senti a necessidade de contar pro meu pai, mandei uma mensagem para ele, era na hora do almoço. Mandei para o meu irmão e para a minha irmã, que eram meus compartes ali na estação. E aí meu irmão falou: “nossa, eu estou em casa.” Que ele mora no interior do Espírito Santo. “Mas vou ficar atento, quando ele falar alguma coisa, você me fala que eu mando mensagem para ele". Aí minha irmã ficava, “e aí, ele te respondeu?” Eu falei: “Graziela, meu celular não marca a mensagem no WhatsApp.” Eu falei: “cara, não sei.” Ela falou: “Gisele, eu estou no quarto, no segundo andar, desde de manhã, porque eu não tive coragem de descer, porque eu não sei qual vai ser a reação dele ainda.” Eu falei: “cara, você precisa me ajudar, você tem que descer e falar com ele para olhar o celular.” E aí, meu irmão começou, “Papai te respondeu?” “Não, Vinícius, não falou comigo.” Ele, “cara, eu estou nervosa.” Eu falei: “não, quem está nervosa sou eu. Você só vai ser o grupo de apoio. Então fica tranquilo aí, porque quem está nervosa sou eu.” Aí, no final das contas, chegou uma amiga lá em casa e eu comecei a conversar com ela. E aí, quando eu peguei o celular de volta, tinha várias ligações perdidas do meu pai. E aí ele falou essas coisas. “Ah, minha filha, eu quero que você seja feliz e tal.” Só que até então, eu não tinha apresentado nenhuma namorada para a minha família. E agora tem quatro meses, vai fazer cinco meses agora em outubro, que eu estou namorando com a Duda. E há pouco tempo atrás, quando a gente começou a namorar, isso para mim não é mais uma questão, que eu me relaciono com mulheres. Minto, tem um momento anterior que foi importante. Uma vez, indo para a casa do meu irmão, ele mora em Alegre, interior do Espírito Santo. Eu, meu pai e minha mãe, eu resolvi entrar nesse assunto. Porque quando eu vim morar em Goiás, quando eu chegava em Vitória, minha mãe sempre falava: “e aí minha filha, você arrumou um fazendeiro? Como é que tá?” A partir do momento que eu me assumi lésbica, nunca mais me perguntou se eu tinha arrumado um fazendeiro. Aí eu aproveitei uma oportunidade, que eles não tinham pra onde correr, literalmente, porque a gente estava dentro do carro, indo pra casa do meu irmão. Resolvi entrar nesse assunto. Falei: “e aí mãe? Cara, você nunca mais me perguntou se eu estou com alguém desde que eu disse pra vocês que eu me relaciono com mulheres.” Ela, “ah, mas é porque não sei o que. E aí?” Ela tentou jogar uma brincadeira que não colou, porque isso é um assunto sério. O preconceito velado é um assunto tão sério quanto o preconceito escancarado. “Ah, mas e aí, você arrumou um fazendeiro?” Aí eu falei: “mãe, não cria ilusão. Não crie ilusão que eu vou me relacionar com homem, porque eu não vou. Eu nasci dessa forma e sou assim desde criança.” Ela, “ah, eu penso diferente, eu não tenho essa lembrança.” Eu falei: “porque você não vive o que eu vivi na minha pele. Mas eu tenho lembranças de infância, de ter sofrido preconceitos velados, de perceber conversas em relação à nossa família com a Tia Shirley. Tia Shirley é super aceita na família. Ela, a amiga dela…” Que é referida como amiga. E eu falei: “cara, isso levou muito tempo até que eu conseguisse assumir a minha sexualidade. E a gente precisa falar sobre isso.” Aí ela falou: “minha filha, eu te respeito.” Aí eu falei: “mãe, sinceramente, eu morando em Goiás, vocês moram no Espírito Santo, o respeito é massa, ajuda. Mas o respeito pra mim não faz diferença, porque vocês não convivem comigo no dia a dia. O que faz diferença é a participação. Então eu quero que vocês se interessem pela minha vida. Que vocês queiram saber se eu estou com alguém, se eu estou feliz, se é um bom relacionamento. Porque respeito, beleza, mas a gente está distante, cara. Então não vai fazer diferença. Agora vocês se interessarem pela minha vida, a participarem, querendo saber. Vai fazer diferença.” Nesse momento, um silêncio no carro, dava para eu escutar o óleo passando no motor, um constrangimento. E eles não tinham para onde correr. A mamãe fingiu que estava dormindo, o papai continuou dirigindo e tal. Mas ficou isso, não ficou climão depois, ficou tudo bem e tal. Só que a primeira namorada que eu apresentei para a minha família, foi agora, foi a Duda. Grupo de WhatsApp, porque eles moram em Espírito Santo e eu moro aqui. Esses tempos atrás, eu falei: “galera, ó…” No Grupo da Família. O Grupo da Família que eu participo é só o grupo eu, meu pai, minha mãe, meus irmãos e minha cunhada. Porque o grupo grande, bolsonarista, eles não deixam entrar. E assim, toda vez que eu estou em Vitória, alguém fala do grupo grande da família, minha mãe corta o assunto e me tira do lugar. Eu acho que ela nem quer que eu entre, porque ela sabe o que eu vou causar. Aí, recentemente, agora, quando eu comecei a namorar com a Duda, eu falei: “galera, ó, estou namorando a Duda, ela é bióloga, professora da escola do lado da minha casa, a gente está super feliz, e não sei o que...” Mandei foto nossa juntas. Gente, silêncio no grupo. Aí, meu irmão, “ah, Gi, que massa!” Ele já sabia, inclusive. Que massa, que não sei o que. A minha cunhada, “ah, que legal!” Meus pais e minha irmã, nada. Aí, um dia depois, minha irmã falou: “ah, quero que você seja feliz, que Deus te abençoe.” Vem sempre com esse discurso religioso. Minha irmã falou alguma coisa nesse sentido também, meu pai não falou nada. E quando meu pai resolveu falar, que foi uns três dias depois, e eu fiquei bastante sentida, ele falou: “minha filha, o temor a Deus é o princípio da sabedoria, eu quero que você considere isso e seja feliz.” E cara, aquilo me bateu muito mal. E eu levei uns dias pra responder, pra não ser reativa. Eu tento segurar a onda pra responder de uma forma educada. Eu falei: “pai, o que a gente está falando não é sobre temor, é sobre amor. E a partir do momento que a gente fala sobre amor, Deus é amor. Então não tem como eu ter medo disso que eu estou vivendo. E eu estou feliz, e eu gostaria que vocês entendessem isso, porque essa conversa a gente teve há anos, lá atrás, naquela volta da casa de Vinícius. Então, é sobre isso.” Então assim, não se pergunta, não se fala, mas eu continuo falando, mandando foto e dizendo, estou na casa da Duda. Fizemos o café da manhã, a festa de todo mundo junto, mas não tem muito. E agora eu vou visitar meus pais em dezembro, aí eu vou sozinha. Mas eu vou trazer esse contexto, inserir essa ideia. Porque eu sinto que parte do preconceito, aí eu vou falar de um preconceito, eu nunca sofri um preconceito de ser agredida, até porque eu moro em Alto Paraíso, que é uma comunidade que aceita bem a diversidade de uma forma geral. Mas parte do preconceito, eu vou falar da minha família, eu acredito que seja pela falta de costume também. Porque não foi um assunto que foi inserido muitas vezes. Quando eu morava em Vitória, eu nunca tinha me relacionado com mulheres. Então, assim, eu tento trazer. E eu indo pra Vitória agora em dezembro, eu vou trazer. Olha, estava com a Duda, olha a Duda, fizemos isso com a Duda e tal. Porque eu acho que é importante eles participarem e saberem, porque isso faz parte de quem eu sou. Só que é curioso assim, porque minha terapeuta hoje em dia, eu falo isso para ela, eu falo, cara, minha família não me conhece muito, eles imaginam o que eu faço aqui, dando aula com os voluntariados que eu participo, só que eles não sabem de fato quem eu sou, eles não sabem. Só que ela me trouxe a outra perspectiva e falou, Gisele, você também não sabe mais quem são seus pais, seus pais estão envelhecendo, o tempo está passando e eles estão precisando lidar com limitações hoje em dia, em N níveis, tanto físicas, e aí aparece uma questão ou outra. Mas até com essa modernidade da sociedade, e você também não está acompanhando. Então são dois polos que convergem para o mesmo ponto, que vocês precisam se encontrar e conviver. E é isso.
01:01:05 P/1 - E eles vieram para cá algumas vezes?
R - Nunca vieram.
01:01:09 P/1 - Já convidou?
R - Cara, eu estou aqui há 13 anos, já convidei. Inicialmente, houveram muitas situações de família. Os meus pais dão muito apoio para as pessoas que estão com questões de saúde na família. Então, teve a questão da doença da minha avó. Minha avó descobriu um câncer e depois foi um processo até ela fazer a passagem, longo. E depois eu tenho a irmã do meu pai, uma das minhas tias, essa não é freira. Ela faz hemodiálise, então meu pai apoia. Tem um irmão do meu pai transplantado. Tem um apoio ali, mas eu… Inicialmente eu acho que eles tinham um receio de vir pra cá e entender como que era a minha vida alternativa. E hoje em dia eu nem me considero tão alternativa quanto antes, quando eu cheguei aqui. Mas hoje em dia eles sabem que eu estou bem estabilizada profissionalmente, com família aqui em Alto Paraíso, comunidade e tudo mais. Mas nunca vieram. Não sei se tem o receio de achar que é uma comunidade, sei lá, muito isolada. É até curioso que uma vez eu passei na avenida, tinha um turista falando com um amigo dele assim, “irmão, é roça, pensa numa roça, Alto Paraíso é roça.” E eu nem acho que é, tem super um Q moderno assim, muita gente do mundo inteiro. Eu dou aula de treinamento funcional, eu já tive uma turma aqui de 10 alunos, 7 eram estrangeiros. Então isso traz um giro cultural bacana pra cidade também. Mas nunca vieram. Hoje em dia eu estou mais tranquila com essa ideia. Às vezes eu fico meio cabreira assim, mas sinto saudade, compro uma passagem e vou lá visitá-los.
P2 – E você, como você veio pra cá?
R - Como que eu vim, cara? Eu vim depois do Universo Paralelo, eu comecei a me inserir num contexto de comunidades alternativas. E aí, na época, eu tinha trancado a faculdade, deixa eu pensar, eu tinha me formado em Direito, cancelada a OAB, estava fazendo Educação Física e tinha trancado a Faculdade de Educação Física, me sentindo muito pressionada a advogar, pela minha família, ou fazer um concurso, todo mundo ao meu redor em Vitória, uma tia ou outra que me apoiava, assim, nos meus planos de vida. Mas eu me senti muito pressionada. E aí eu tranquei a Faculdade de Educação Física para estudar para o concurso jurídico, na época. E aí, eu lembro que eu tinha uma grana guardada, não era muito dinheiro. E eu estava pensando em participar de um festival internacional de comunidades alternativas que ia acontecer aqui na Flor de Ouro, que era o FICA, nessa época. Fui conversar com um amigo da época e ele falou: “Gi, viaja não, cara, faz uma iniciação de Diksha. Não sei se vocês conhecem Diksha? É como se fosse um reiki. A gente se conhece, cara! É como se fosse um reiki, mas é voltado para conexão com o divino. O reiki, por exemplo, você está com dor no joelho, a pessoa aplica o reiki no seu joelho, beleza. A Diksha é mais conexão com o divino. Ele falou, faz essa iniciação de Diksha que mudou a minha vida. E aí eu resolvi fazer essa iniciação da Diksha. Na época não era um rolê barato, peguei a grana que eu tinha, que não era muito dinheiro, fui fazer essa iniciação da Diksha. E aí quando eu terminei essa iniciação… Quando eu comecei essa iniciação da Diksha, quando eu terminei, na época não tinha nem WhatsApp, estou falando de 2010. Eu recebi um e-mail, no mailing Diksha Brasil, no mailing, que um cara falava, “vai ter uma iniciação de Diksha no FICA da Flor de Ouro, se alguém puder, iniciado, puder vir me ajudar, é só pagar a passagem, hospedagem e alimentação está garantida.” Eu lembro que na época eu entrei no site da Gol e comprei uma passagem por R$69,90 de Vitória para Brasília. Eu paguei em dez vezes ainda, porque estava sem grana. E vim para Flor de Ouro. E fiquei lá. Vim para ficar 11 dias, acabei ficando 33, naquela época. Viajando de carona com os amigos, a gente juntava e fazia comida junto. Gastando pouco. Voltei para Vitória, minha sobrinha ia nascer na época e ela nasceu. Eu tinha uma proposta de trabalho mais na área jurídica em Brasília. Voltei para Brasília, vi que não era nada do que eu estava imaginando. Quando eu me dei conta, eu estava em Alto Paraíso, eu não conhecia ninguém até na época. Falei, cara, não tem nem para onde ir, o que eu vou fazer? E aí eu encontrei na rua com uma das meninas que eu tinha conhecido no Fica e ela falou: “não, vamos lá pra casa e fica lá em casa e tal.” E fui ficando em Alto Paraíso, 2010 isso. E aí chegou dezembro, novembro, dezembro, muita chuva. Na época a gente tinha baixa temporada muito bem marcada, que era época de chuva, não tinha muito turismo. Hoje em dia o turismo acontece o ano inteiro. Na época de novembro, dezembro, a cidade estava vazia, muita chuva. Na época chovia muito mais continuamente. E aí eu comecei a procurar emprego. Fui a alguns lugares, cara, e falei, meu, eu preciso pelo menos ter uma grana que eu receba e gaste, para me alimentar, para ficar em algum lugar e tal. E aí eu passei em uma pousada, que na época o gerente, ele é dono de uma pizzaria aqui na cidade. Ele era gerente nessa pousada, e ele falou: “mas o que você faz aqui? O que você faz da vida e tal?” Aí eu falei: “cara, me formei em Direito, já tive a carteira da OAB, estudei Educação Física, tranquei a faculdade.” E ele, de uma forma muito educada e sã, ele falou: “Gisele, essa cidade, neste momento, não é para você, porque está chovendo muito, baixa temporada, você não vai conseguir trabalho em pousada, em restaurante, porque ninguém está funcionando de uma forma muito movimentada. Por que você não decide primeiro o que você quer da sua vida e depois você volta para Alto Paraíso?” Eu conto isso pra ele hoje em dia, ele fica horrorizado, porque ele não lembra. E ele fala: “meu Deus, eu te mandei embora.” E eu falo: “Genésio, você, cara, você me deu uma clareza.” Porque ele tava certo, eu fui embora. E naquele momento eu decidi aceitar que eu realmente não queria seguir uma carreira dentro do direito. Porque existe uma perspectiva dentro do direito de concurso, estabilidade, mas, cara, não era o que eu queria. E aí eu voltei para Vitória, e destranquei a Faculdade de Educação Física. Faltavam dois anos e meio para eu me formar. Eu lembro... Não, faltavam dois anos para eu me formar. E eu lembro que, como eu gostava bastante de estudar, eu tinha uma ótima relação com a coordenadora do curso e com os professores também. E a coordenadora do curso, na época, ela me ajudou a puxar, encaixar a minha grade com matéria de manhã e à noite. Então, eu consegui me formar em Educação Física com um ano e meio. Ao invés de dois anos que faltavam, eu consegui com um ano e meio. E aí foi na época que eu já estava inserida no contexto dos ENVAs e dos FICAs da vida, e fui participar de um Rainbow, que é o encontro mundial de comunidades alternativas. E aí eu lembro dessa época, que existe uma magia dentro da vida, do acreditar que as coisas acontecem. E aí eu lembro que eu fui para o Rainbow, no Caparaó, que era no Espírito Santo, era perto de onde eu morava. E aí as aulas iam começar, e era o último período da Faculdade de Educação Física, eu tinha que apresentar o TCC. Fui falar com a coordenadora, eu falei: “Alice, eu estou fisicamente aqui, mas nesse momento eu estou participando de um encontro mundial de cultura alternativa e eu vou ficar um mês lá, cara.” E como eu estudava bastante, puxava o ritmo com a turma de Educação Física, as pessoas me respeitavam muito, a coordenação do curso, os professores, e eles entendiam, porque eu era a única vegetariana da faculdade, enfim, meditava, praticava yoga, essas coisas assim. E ela falou: “Gisele, beleza. Ela até brincou, “eu adoraria ir com você, mas eu não posso largar a coordenação do curso. Vai, só que você vai ter problema com um professor, que foi recém-contratado pela faculdade, ele não conhece a galera aqui, então ele vai encrencar com as suas faltas. Então não sei como é que a gente vai fazer, porque ele vai lançar no sistema, e aí se você faltou, você faltou, não tem o que fazer.” Eu falei, beleza. Cara, me joguei para esse encontro. Lembro que fiquei 33 dias. E foi interessante porque quando eu fui fazer meu TCC, eu precisava traduzir muitos textos. E eu passei 33 dias on speaking english, falando só inglês. Então, quando eu fui traduzir os textos, o inglês estava muito fluente na minha cabeça. Aí, beleza, voltei do Cararaó, fui para a faculdade. E eu parei um pouquinho, porque quando eu voltei do Rainbow, eu levei 12 estrangeiros para casa dos meus pais, gente. Hippies lá do encontro. E a maioria deles nem falava português. Então tinha duas turcas, uma polonesa, dois argentinos e uma americana. Eu levei para casa dos meus pais e ficaram lá. Acampados, hospedados, dormindo no quintal, nos quartos, no corredor e tudo mais. E aí, quando eu voltei para a faculdade, primeira aula desse professor português, ele falou: “Gisele, você já teve todas as faltas que você podia nesse semestre. A próxima vez que você faltar, eu te reprovo.” E ele estava certo. Aí eu falei, beleza, tranquilo. Semana seguinte, ele lançou um material no sistema da faculdade, e eu não conseguia acessar esse material. Aí eu fui na Alice, coordenadora do curso, e falei: “Alice, não estou conseguindo acessar o material da aula do Nuno, o que eu faço?” Aí ela falou: “nossa, essa matéria sumiu do seu sistema e eu vou ter que reinserir. E quando eu reinserir, suas faltas vão zerar.” E minhas faltas... A magia aconteceu, gente! E minhas faltas zeraram. No último dia de aula, eu fui contar isso para ele, porque até então, ele queria me reprovar, mas a gente acabou ficando amigo no final do período. Eu falei: “Nuno, lembra?” Ele falou: “mas e aí?” Eu falei: “cara, sumiu, as faltas zeraram. Até faltei uma ou outra aula depois, mas era uma matéria que super me interessava. E aí eu passei de ano e me formei. Essa história foi interessante. Aí me formei em Educação Física, na época, eu trabalhava numa academia em Vitória. E era curioso, porque era uma academia de bairro de classe média ali, vamos dizer, que as pessoas eram muito distantes, sabe? E eu sempre gostei, eu nunca tive uma turma de Spine. Eu tinha lá a Cláudia, a Poliana, o João, o Marcos, as pessoas. Eu sempre relacionei pessoalmente, tive relações pessoais, e não no contexto de considerar que era um grupo. E nessa academia, as pessoas tinham uma relação mais distante, sabe? E eu comecei, chegava lá, abraçava todo mundo, beijava, conversava, contava histórias no meu estilo de vida e tudo mais. E eles queriam me contratar. Só que eu ia me formar, isso era no último período. Eu ia me formar e queria ir para o Rainbow Mundial na Guatemala, gente. De caravana, juntar com os hippies, galera de BR e ir para o Rainbow Mundial na Guatemala. Aí um dia o Théo, que era o coordenador da academia, falou: “Gisele, a gente está querendo te contratar.” Eu falei: meu, eu não quero ficar aqui. E se eu falar que eu quero viajar com uma galera de caravana para a Guatemala, eles vão me achar mais louca do que já me acham. Aí eu falei, Théo, eu vou me formar e estou querendo fazer um curso de yoga fora daqui. Eu inventei história, cara. Querendo fazer um curso de yoga fora daqui, então assim, nesse momento eu não quero ser contratada pela academia. E eu não queria falar a verdade, porque era uma coisa muito pessoal minha. Aí ele falou: “não, cara, vamos conversar com o Carlos, o dono da academia, porque ele paga esse curso de yoga pra você, você volta pra dar aula de yoga aqui na academia. Aí eu falei: “bora lá, vamos conversar com o Carlos, porque se ele quiser pagar o curso, pelo menos eu vou fazer um curso, vou ganhar um curso de yoga, que era um curso super caro, na época, e volto e vejo o que acontece. Fomos conversar com o Carlos, aí ele falou: “olha, essas coisas muito alternativas não dão certo não. Escuta o que eu estou te falando, já tive um professor assim, nada disso deu certo, então não vou pagar esse curso para você não, se você quiser ir fazer beleza, mas isso não dá certo. Escuta o que eu estou te falando, esses movimentos de meditação, alternatividade não dão certo, tudo mais.” Achei ótimo, falei beleza, vou-me embora para Guatemala. E aí foi curioso cara, porque no meu último dia na academia, eu dava aula de spinning e eu comecei a perceber que os alunos da aula de spinning ficavam, no final, todo mundo para me abraçar. Fazia uma fila de 20 pessoas para me dar um abraço na hora de ir embora. E eu achei massa, porque eram pessoas que até então eram bem distantes, sabe? E aí, no último dia de aula na academia, eu estava dando a aula de spinning, as pessoas da academia, os alunos e funcionários, eles entraram com um cartazinho pra mim, com uma menininha meditando no meio, uma frase de autoajuda, foi muito fofinha, assim. Gritando, “fica Gisele, fica Gisele, fica Gisele.” E pedindo pra eu ficar. E aí fizeram uma festinha, eu lembro que na época é isso, eu não comia carne, então era tipo um monte de coxinha, kibe, eu não comia nada disso. Mas o cuidado, a expressão de afeto, foi muito bacana. E aí eu fui conversar com o Carlos no último dia, falar: “Carlos, agradeço super a oportunidade que você me deu, cara, de trabalho e tudo mais, vou viajar.” Aí ele falou: “nossa Gisele, eu quero te pedir desculpas. Porque naquela época que a gente conversou, que você propôs de fazer o curso de yoga, eu não te conhecia. E eu não sabia a sua forma de trabalhar e de lidar com as pessoas. Então eu quero te pedir desculpas pela forma como me posicionei naquela época. E eu quero te dizer, qualquer momento que você voltar para Vitória, a academia está aberta para te receber, para você trabalhar com a gente, fazer parte da equipe.” E aí, fui-me embora para o ENCA, no Piauí. Nesse dia… Não, o ENCA era no Maranhão. Eu tinha comprado uma passagem para Teresina, no Piauí, porque era a cidade mais perto. Teresina era mais perto dessa cidade interior do Maranhão, que eu não lembro o nome agora. O ENCA durava ali 7, 8 dias. Eu ia chegar no quarto dia. Só que, cara, meu voo tinha algumas escalas, cheguei em Teresina, fim de tarde, quando eu cheguei no guichê da rodoviária, eu falei: “ó, preciso ir pra cidade do quilômetro tal no Maranhão.” A pessoa do guichê falou: ó, o ônibus está lotado, só tem outra amanhã de manhã, seis horas, sete horas da manhã.” Aí, cara, eu dormi num hotel de beira de estrada, assim, um hotel terrível, terrível. Banheiro fora, não sei nem se era um hotel de fato, assim, mas eu me hospedei lá. E aí, no dia seguinte, eu lembro que eu cheguei 6h52, eu olhei o termômetro, estava marcando 42 graus em Teresina, para comprar a passagem. A pessoa do guichê fala: “o ônibus está cheio, o próximo só sai meio-dia.” Eu falei, caramba, velho, tô presa nesse lugar. Beleza, fiz check-out lá no hotel, fiquei esperando, comprei a passagem do ônibus meio-dia e falei com o motorista do ônibus, falei: “moço, preciso parar no quilômetro, sei lá, quilômetro X da estrada tal, ali no Maranhão. Ele falou: “a gente vai passar lá depois de onze da noite, se pá, meia-noite para a madrugada, não vou te deixar lá não. Vou te levar pra cidade seguinte, você dorme lá e no dia seguinte você pega uma carona e volta.” Cara, fui eu dormir em mais um hotel sinistro, não sei qual dos dois foi pior, assim. Mas é isso, viajando com pouca grana e tudo mais. Dormi no hotel e no dia seguinte consegui uma carona. E era curioso, porque quando rolavam esses encontros de cultura alternativa, eles movimentavam muito a comunidade local, comunidades do interior. Aí um cara falou: “não, eu te levo de moto.” Só que nessa viagem eu estava super carregada de bagagem. E esse ENCA era num lugar que tinha muita areia para chegar. Gente, o cara patinou com aquela moto e ele tinha que levar o peso da moto, o peso dele, o meu peso e da bagagem. E ele patinando, mas ele me deixou no ENCA. Só que eu que ia chegar no meio do ENCA, cheguei no penúltimo dia. E aí eu não consegui participar do encontro, de uma forma geral. E a galera falou: “não, cara…” Ia sair uma turma de caravana para a Guatemala e eles falaram: “não, vamos com a gente, com a turminha que era mais dos meus amigos e tal, para o FICA, em Goiás, em Alto Paraíso, na Flor de Ouro. Só que a minha pretensão de dar uma mini volta no mundo aí, ir para Guatemala, era dar Guatemala, voltar para o Brasil, aqui, América do Sul, ali pra baixo, e parar aqui em Goiás, aqui em Alto Paraíso, pra ficar. Seria o meu último lugar, porque era um lugar que eu queria ficar. No meu, eu levei três dias pra chegar no ENCA, no quarto dia, saí de caravana com o povo para cá, era uma excursão, o ônibus estava lotado, um monte de hippie rasta. Eu era uma pessoa a mais no ônibus, eu lembro que eu estava sentada entre a cadeira do Beto e da Larissa, porque não tinha lugar para mim. O ônibus foi parado na estrada pela polícia, a polícia não entrou para conferir nada, bagagem, nada, aquela magia que acontece. No meu quarto dia de viagem, cheguei em Alto Paraíso. Eu que queria ir para Guatemala, não fui. E estou aqui há 13 anos. E nunca fui para a Guatemala e fiquei aqui. E aí, na época, eu estava viajando. Cara, me deu um pulinho e eu falei, vou ficar. Mas eu não sabia nem que tinha academia de exercício físico aqui na cidade. Aí, me falaram… Só que eu viajava de chinelo. Peguei um tênis emprestado com uma menina que eu conheci, fui para a academia, conversar com o dono da academia. Aí, na época, foi onde a gente se conheceu, inclusive, lá no Paulão. Aí, na época, o Paulão falou: “você dá aula de quê?” Aí, eu falei: “do que você precisa?” Porque, na época, eu queria morar aqui. Ele falou: “ginástica localizada.” Gente, eu tinha horror à ginástica localizada. E ele falou: “você dá aula?” Eu falei: “dou, claro que dou. Dou aula de ginástica localizada com a condição de eu poder dar aula de boxe.” Eu treinei boxe. Em Vitória, eu tinha treinado nove anos de boxe. E aí, ele falou: “boxe?” Aí eu falei: “boxe, se você topar que eu dou aula de boxe, eu dou aula de ginástica localizada.” Ele falou: “tá bom!” Não botou muita fé não, mas falou tá bom. Aí ele ainda falou assim, “mas eu conheço seu tipo.” Porque na época eu era muito mais alternative. Você vai querer viajar, você não vai ficar em Alto Paraíso, você vai querer viajar. Agora, se você quiser ficar aqui, você não vai ter muito aluno não, porque as coisas em Alto Paraíso só funcionam quando são moda. E você vai ser moda, as pessoas vão treinar com você e depois você não vai ter mais aluno.” Aí eu falei, Paulão… Hoje em dia ele é meu amigo, a gente fala sobre isso, inclusive. Falei: “Paulão, você não me conhece e eu estou assumindo um compromisso com você. Então, a partir do momento que eu assumir um compromisso com você, eu não vou, de um dia para o outro, falar que estou indo embora. Caso aconteça, eu vou te avisar. E sobre ter aluno ou não, vamos conversar sobre isso depois.” Aí eu dei aula na academia do Paulão quatro anos e meio, com lista de espera. Essa é a onda que eu tiro com ele. Eu falo: “é, Paulão, você queria me mandar embora, né?” E aí dei aula na academia dele quatro anos e meio e depois eu decidi montar um estúdio de treinamento funcional, com um amigo que veio pra cá, a gente teve uma sociedade. Só que veio a pandemia e aí ele decidiu ir embora e aí eu continuei dando aula de treinamento funcional, que é o que eu faço hoje.
01:21:06 P/1 - No mesmo lugar, não, né?
R - Não, no mesmo lugar não. Antigamente a gente alugava, tinha um espaço que era nosso, hoje em dia eu alugo uma sala pelos horários que eu dou aula. Mas aí...
01:21:17 P/2 - Eu queria só perguntar, o boxe, qual foi que você sentiu uma coisa que você aprendeu de vida com o boxe?
R - O boxe. Disciplina. Muita disciplina, assim. Eu sou uma pessoa hiperativa, então eu tenho muita energia. Quando eu treinava boxe em Vitória, eu fazia quatro treinos seguidos, de quatro às oito da noite. Então, tinha umas meninas que treinavam também, mas era basicamente os meninos. Eles iam passando pelo treino e eu ia treinando com eles, assim. Eu gostava de treinar com os meninos porque eu podia bater, assim, sem machucar e tudo mais. E treinar mais pesado, assim. Mas disciplina, cara. Tanto que quando eu vim dar aula em Alto Paraíso, aí eu dei aula de boxe aqui, acho que três anos. Cidade pequena. Sempre tem uma treta de uma pessoa com a outra. E eu falei, gente, qual é a minha responsabilidade em cima disso? Porque eu estou ensinando a pessoa a meter porrada. Vidi Popó e Wanderlei Silva agora, essa semana. Aí, se você quiser machucar alguém, você vai machucar alguém. E aí eu falei, cara, como que eu vou fazer? Eu tenho uma pegada de catarse com exercício físico muito forte. Eu falei, vou pegar mais a parte técnica. E eu falava, eu tinha alunos e alunas, e eu falava, brigou, tá fora, cara. Tá fora. Eu preciso ter uma responsabilidade em cima disso que eu estou ensinando para vocês. E aí eu era muito chata nesse contexto mesmo. Brigou, tá fora. Começava com história, eu falava, cara… Aí teve uma vez que uma aluna veio me dizer que tinha descoberto uma traição do marido dela, que ela queria bater nos dois e que ela ia sair do treino. E eu falei, beleza. E você está convidado a se retirar. De fato, ela falou que ia sair. E você está convidado a voltar no momento que você estiver mais tranquila. E ela voltou depois. E ela falou isso, ela falou: “Gi, como que foi importante pra mim essa dosagem, cara.” Porque se você domina uma técnica de luta, cara, você tem que ter muita disciplina, porque uma hora de cabeça quente pode dar ruim, velho. Pode dar ruim. Então eu tinha muito essa consciência com os meus alunos e alunas pra não deixar passar do limite, ainda mais numa cidade pequena. E era curioso, porque eu falava muito assim, o boxe, particularmente na minha vida, me ensinou que não era sobre bater, também era sobre aprender a apanhar, porque a vida te bate o tempo todo e como você lida com isso, sabe? E aí, no final da aula, às vezes, eu botava a galera com a mão na cabeça, mandava soltar o ar e dava umas provocadas assim, sabendo a dosagem ali, nas costelas e tal. E aí, fazia isso, volta e meia, eu tinha uma aluna, Larissa, que ela era muito grande assim. Então Larissa eu soltava um pouquinho mais a mão porque eu sabia como dosar. Um belo dia, Larissa chega na academia e me fala, estou grávida. E na aula anterior eu tinha... “Larissa, pelo amor de Deus!” Até hoje… O filho dela nasceu, foi tudo bem com a gravidez. Hoje ele tem o quê? 9, 10 anos. Mas até hoje a gente fala dessa história. Só que ela descobriu que tava grávida, tipo, depois de três meses, três e pouco. Até hoje a gente fala disso, cara. E isso me traumatizou um pouco, confesso, assim. Tanto que hoje em dia, a galera… Eu falo, gente, se tiver suspeita de gravidez, me conta, porque tem todo um direcionamento. Mas eu não dou mais a aula de boxe.
01:24:58 P/1 - Mas só uma, desculpa te interromper, mas naquela história que você contou, a sua aluna descia a porrada no casal?
R - Ah, não. Não, no final das contas, ela segurou onda. Nem sei o que que deu, mas ficou tudo bem. Não recebia essa fofoca da cidade. Não, mas não aconteceu nada não.
P2 – Chegaria.
R – Chegaria, mas não.
01:25:13 P/1 - Mas ela voltou e falou...
R - Depois voltou e ficou tudo bem. Não sei se ela voltou, não lembro de detalhes assim.
01:25:18 P/1 - Eu digo, ela voltou para a sua aula.
R - Voltou para a minha aula. E disse que já estava mais calma, que tinha resolvido, não sei se separou ou se... não sei o que aconteceu.
01:25:25 P/2 - E além do boxe, você tinha outra paixão assim na educação física?
R - Cara, eu, na época da escola, de criança, o meu apelido era poliesportiva. Então eu sempre pratiquei muitos esportes. Sempre pratiquei muitos, assim. Isso... Eu joguei vôlei bastante tempo, em Vitória, cheguei a ser federada, com a Federação Capixaba e tudo mais, assim. O vôlei sempre foi o meu esporte favorito. Uma das frustrações da minha vida foi ser uma pessoa de 1,69 e não ter despontado na carreira de atleta. Mas eu gosto muito de esporte, todos os esportes.
01:26:05 P/1 - Você tem ídolos no esporte?
R - Ídolos no esporte... Cara, tem uma história curiosa de uma pessoa que eu admiro bastante. Sabe o Zé Roberto Guimarães, que é o técnico da seleção de vôlei? Ele treina até hoje na seleção. Quando eu era criança, minha irmã tinha um Q de tirar foto e pegar autógrafo de pessoas famosas. E aí, num determinado momento, em 1992, eu tinha 10 anos, a gente foi para a porta do hotel onde a seleção masculina de vôlei comandada pelo Zé Roberto estava. E eu era muito pequenininha, com 9 ou 10 anos de idade. E era isso, seleção campeã olímpica e tudo mais. O porteiro do hotel ficou com pena que eu estava sendo prensada e me botou para dentro, para o saguão do hotel, ali em baixo. E aí, veio o Zé Roberto. Zé Roberto veio, falei, tira uma foto, me dá um autógrafo. E ele falou: “eu estou com muita pressa, eu tenho uma reserva num restaurante, tem um táxi me esperando.” E eu virei pra ele e falei: “cara, o tempo que você levou pra me falar isso, você podia ter tirado a foto e me dado autógrafo.” 1992, ele virou pra mim e falou: “nossa menina, um dia você ainda vai ser uma boa advogada. E eu ouso dizer que foi praga dele que eu estudei direito na minha vida. Eu falo isso, eu falo, cara... E é interessante porque eu tenho um amigo da Faculdade de Educação Física, que ele trabalha com vôlei da seleção hoje em dia. E ele é amigo do Zé Roberto. Esses tempos atrás ele veio me visitar e falou: “Gi, eu vou contar a história pro Zé Roberto.” Porque ele não sabe. Tipo, é bem interessante. Que aí eu estudei direito, entrei na área jurídica e depois fui fazer Educação Física. Mas eu tenho muitos ídolos, assim. Cara, eu acho que pra gente da nossa geração, Ayrton Senna, assim, é imbatível. Lembro do dia que o Ayrton Senna morreu, a música da vitória ainda me arrepia. Mas a Marta, do futebol, pra mim é uma pessoa que faz muita diferença na vida, assim, por toda a representatividade que ela tem, por tudo que ela é, por ser muito melhor do que Neymar e todos esses caras que estão jogando. Então, acho que a Marta é uma pessoa que eu posso dizer que ela me representa, assim.
01:28:13 P/1 - E aqui em Alto Paraíso, me fala um pouquinho dos seus alunos, dos seus companheiros de trabalho na educação física, nesse trabalho todo com o corpo, o que te marca mais, quem te marcou mais até hoje?
R - Quando eu saí da área jurídica para a educação física, o meu objetivo era trabalhar com saúde e qualidade de vida. Nunca, até na época que eu dava aula na academia, quando as pessoas me procuravam, eu quero ficar sarada, mulheres frutas. Eu nem sabia o que era isso. Eu falava, cara, não é o objetivo. Porque a partir do momento que você tem uma disciplina de prática de atividade física e de uma alimentação minimamente regular, o resultado vem, independente do que você quer. Se é ganhar massa muscular, se é perder gordura corporal. Então a minha pegada sempre foi muito essa, eu sempre deixei isso muito claro. Como eu moro aqui há muitos anos, as pessoas já me conhecem. Então, hoje em dia, eu tenho uma estabilidade pelo fato das pessoas conhecerem e confiarem no meu trabalho. Isso é muito bacana. Minha primeira aluna de personal, ela treina comigo até hoje. É uma mulher que ela tem, se eu não me engano, ela tem setenta e poucos anos. Eu dou aula de treinamento funcional para grupos, mas para ela eu monto um treino diferente, ela faz na hora do grupo ali, porque ela já treina comigo há muitos anos e sabe como fazer ali, sabe? Então isso é muito massa também, ver esse... Eu sinto que tem uma... Diante dessa minha pegada profissional, de trabalhar com saúde e qualidade de vida, tem um agradecimento das pessoas em relação a isso. E é bacana porque eu percebo isso todos os dias. Sempre tem alguém que me fala, cara, esses dias uma aluna falou, meu, você muda a minha vida todos os dias. Isso é muito gratificante, sabe? E eu falei pra ela, pra mim, nessa transição que eu fiz de profissão, é principalmente sobre isso. Obviamente, eu preciso de dinheiro para sobreviver. Deixei de achar que eu não precisava de dinheiro, naquela época eu era hippie. Preciso de dinheiro para sobreviver, mas é principalmente sobre isso, para proporcionar saúde e qualidade de vida para as pessoas, sabe? Então isso para mim faz muita diferença. E aí hoje em dia eu dou aula num estúdio, eu tenho turmas regulares, presenciais, segundas, terças e sextas, durante a manhã. E online segunda e quarta de manhã também. À tarde, normalmente, eu não trabalho. Só que eu também, hoje, eu monto séries de musculação na academia do Paulo, que é esse rapaz que dizia que eu ia embora, mas não fui, que é meu amigo. Eu monto séries lá. E aí, paralelo a esse trabalho profissional, que eu sou remunerada, eu também sou brigadista. Em 2017, a gente teve uma situação de fogo aqui na Chapada, que foi uma das piores que a gente já teve no Brasil. Não sei se vocês chegaram a acompanhar na época e tudo mais. E ali em 2017, a gente se mobilizou como sociedade civil para organizar as brigadas voluntárias para ajudar no combate. Porque é isso, os órgãos federais, CMBI, IBAMA, eles têm brigadistas, mas dependendo da situação do incêndio, não dá conta. E naquela época não dava conta. Então, a gente se mobilizou enquanto sociedade civil mesmo, cara. Era uma pessoa, ah, eu posso fazer um lanche e levar para os brigadistas. E a gente foi se organizando mais ou menos num QG. E naquela época, um amigo de São Paulo, ele falou: “Gi, tô vendo tudo isso.” Hoje em dia eu não uso muito mais redes sociais, mas na época eu postei alguma coisa no Instagram. E ele falou: “cara, como que eu posso ajudar?” Aí eu mandei a minha conta pra ele, na época não tinha nem pix, isso foi em 2017. Mandei a minha conta pra ele, que mandou pra um amigo, que mandou pra outro amigo. Isso viralizou. Cara, na época eu nem lembro mais quanto que eu recebi. Recebi, talvez, 30 mil reais na minha conta, em coisa de 7, 8 dias. Porque era uma situação, cara, era cena de terror, cena de guerra em Alto Paraíso. A cidade estava cinza, era fuligem, avião passando pra combate o tempo todo, carro passando e tal. E aí, essa grana que eu recebi na minha conta, naquela época, ajudou a dar suporte para aquela operação que ajudou, de fato, a salvar a Chapada dos Veadeiros. Porque poderia ter queimado a Vila de São Jorge, a comunidade do Morro da Baleia. Foi uma situação que a gente foi ao limite mesmo, sabe? E naquele ano a gente estruturou a Rede Contra Fogo, que foi uma brigada que eu participei até o ano passado aqui na cidade. E essa situação do fogo ajudou a organizar também a Brigada da Vila de São Jorge, que já existia, que é a brigada que eu participo hoje como brigadista voluntária. E aí, eu sempre digo assim, em 2017, a gente não sabia o que estava fazendo. Mas a gente fez com muita responsabilidade e com muito amor. Porque, cara, a gente saía pra apagar fogo de calça jeans e com tapete de carro. Porque era fogo pegando tudo quanto é lugar. O Jardim de Maytrea, o fogo pulou. Vocês passaram por lá? O fogo pulou, o asfalto, era dos dois lados, queimando o Parque Nacional. Nossa, eu nem lembro mais quanto que queimou, porque são muitos números na cabeça. Mas isso foi uma época que o Temer, que era presidente do Brasil na época, assinou a expansão do Parque Nacional. E aí houve uma retaliação por conta das pessoas que tiveram as terras atingidas por expansão do parque. Era fogo para tudo quanto é lado. E a gente foi se estruturando. Só que a partir disso também, a gente começou a se especializar, se qualificar para os combates. Então é isso, hoje... Naquela época a gente tinha muita responsabilidade com as nossas próprias vidas e amor pela causa. Hoje a gente tem qualificação também, então a gente sabe como agir. Só que são situações que é o que eu particularmente costumo dizer. Se eu tivesse filhos, eu não sei se eu seria brigadista. Porque a gente se coloca em risco a todo tempo, assim. Eu lembro até uma vez que eu participei de uma live com a galera do IPAM. E aí, no meio da live, eu não sabia nem que minha mãe usava Instagram, aparece lá. Eliete Amorim Cavati ficou online. Na hora que a pessoa que estava me entrevistando falou, qual foi a pior situação que você passou no incêndio? Aí eu falei: “Anny, eu posso não responder isso agora, porque minha mãe acabou de ficar online, e tipo, é uma situação… As pessoas imaginam, qualquer pessoa que nunca tenha participado de um combate a um incêndio, seja no Cerrado, no Pantanal, só consegue imaginar, não sabe de fato o que é. E existe muita responsabilidade, mas o risco de vida é real, ele existe. Porque é muita fumaça, é muito fogo. A gente usa um equipamento que é com gasolina. E até as pessoas falam, mas, cara, você leva um equipamento com gasolina, que é o tubo soprador, que você liga como se fosse uma roçadeira. Então precisa de gasolina e óleo dois tempos. E ele ajuda muito, ele faz o papel de seis pessoas com um abafador, por exemplo. Então a gente precisa desse equipamento. Só que, cara, é gasolina no fogo. E a gente corre risco, a gente sobe montanhas assim… Teve situação, cara, que eu tentava alcançar a árvore deitada e chegava na árvore, depois botava o pé na base da árvore para me apoiar, para alcançar a próxima, com 20, 23 quilos nas costas. Então, assim, são situações que levam a gente ao limite de desgaste físico e emocional, mas vale sempre a pena. Vale sempre a pena. Porque é isso, a gente é a própria natureza, eu costumo falar isso. Teve uma situação que estava eu e um amigo, que é esse, o Guilherme que eu te falei até. Um pouco mais à frente da equipe que a gente estava, do esquadrão, e a gente estava com um soprador que faz muito barulho. Aí eu falei: “Gui, vamos desligar o equipamento pra esperar pra reagrupar com a galera.” E na hora eu vi uma árvore começando a queimar. E eu falei com ele, “não, cara, mas vamos salvar essa árvore antes. E era... Isso me arrepia, assim. Porque era uma árvore. Mas de uma em uma árvore a gente salva tudo isso, cara. Então faz diferença. Quantos anos tem aquela árvore? Sei lá, 200 anos? 50, 100 anos? Então, é isso. Aquela situação foi muito especial pra mim. Porque eu falei pra ele, cara, vamos salvar aquela árvore. E pra aquela árvore era tudo. E a gente salvou aquela árvore e tantas outras. Mas é um trabalho que demanda bastante. Demanda bastante. Fisicamente, emocionalmente. Porque no dia seguinte, eu costumo dizer, a gente vira praticamente zumbi. Porque você não consegue nem dormir, nem ficar acordada. E nem comer e nem ficar sem comer, porque é muita adrenalina e é muito desgaste físico. Às vezes você anda, cara, 12 horas com o equipamento nas costas. E aí é isso, é um trabalho voluntário, então eu tenho meu trabalho regular. Quantas vezes eu cheguei do fogo 5 horas da manhã, 7 horas da manhã eu estava dando aula. Hoje em dia eu não faço mais isso. 43 anos, fisiologicamente as coisas estão mudando. Até porque eu estou com um volume de trabalho maior. Porque pegou um período de pandemia ali que o volume de trabalho estava menor. Mas é o limite. E vale a pena? Vale a pena todas as vezes.
01:37:43 P/2 - Como foi que você entrou na brigada?
R - Foi nessa situação de 2017, que começou a pegar fogo, cara. Eu lembro que na época eu parei de trabalhar, eu trabalhava só na academia, não tinha o estúdio ainda. E uma aluna minha falou, tá tudo bem que você não está dando aula. Você está fazendo o que a gente não consegue fazer. E isso é bacana de perceber esse movimento da comunidade também. Porque para você combater, você tem que ter qualificação, você tem que ter um condicionamento físico e você tem que ter um bom psicológico. Porque é isso, a gente lida com situações de perigo de vida mesmo. E eu lembro uma vez que eu estava vestida de brigadista e fui tomar um açaí, numa lanchonete aqui em Alto Paraíso, e a menina falou: “cara, eu pago o seu lanche.” E eu fiquei constrangida, “não, não precisa.” E ela falou: “eu não tenho como participar disso, deixa eu te ajudar.” E eu percebi que pra ela era importante participar, e eu falei: “beleza, você pode me ajudar.” Então hoje em dia eu já lido de uma forma diferente também. Às vezes é isso, a gente vai pra um combate, tem que comprar pilha pra lanterna, eu estou no supermercado, a galera se mobiliza na fila pra pagar o que tiver que pagar. Isso é bacana. A gente chega de um combate, nove horas da manhã, vai para a padaria, a galera se mobiliza pra pagar o nosso lanche. Isso é brigada voluntária.
01:38:55 P/2 - Você poderia falar um pouquinho da sua relação com o vento, esse trabalho com o vento, com a fumaça?
R - Com o vento e fumaça. Cara, a gente não sai pra um combate hoje em dia, qualificado e com bastante experiência, sem uma estratégia. Então, existem três níveis de ocorrências de incêndio. Nível 1, municipal. A gente se organiza aqui. Nível 2, estadual. Já tem o apoio das esferas estaduais que vêm brigadistas do estado de Goiás para cá, para ajudar a gente. Nível 3, é federal. Quando um incêndio é considerado nível 3, a gente forma, é estabelecido um posto de comando de onde saem todos os comandos e informações daquele combate. Então, toda vez que a gente sai para o combate, tem uma estratégia de combate. Tem um esquadrão, a gente manda a informação do esquadrão que está montado, o equipamento que a gente vai usar, a gente preenche um relatório de ocorrência de incidentes, então é tudo organizado. Então é isso, quando a gente vai para um combate, a gente muitas vezes avalia o vento. Só que imprevistos acontecem. Muitas vezes você está combatendo com equipamento com gasolina e o vento vira. Então o fogo que estava queimando para lá, ele queima em cima de você. Então numa situação de combate, você nunca vai sozinha ou sozinho. O ideal é que você saia no esquadrão, no mínimo 5 ou 6 pessoas. E dentro desse esquadrão, tem uma pessoa que cuida de você e que você cuida da pessoa. A gente chama o canga, que no meu caso é o Guilherme. Então a gente sempre está de olho. Quantas situações, às vezes você está no meio do mato, cara, o cipó te prende, alguém tem que puxar. Aconteceu isso há uns dois anos atrás. O cara ficou preso e o fogo vindo, você não tem para onde ir, você tem que sair. Aqui na nossa região, graças a Deus e a responsabilidade com que a gente trabalha e também sorte, porque tem que contar com ela. A gente não teve acidente com óbito. Mas já teve em outros lugares do Brasil. De brigadista, cara, essa bota é sola de borracha, derretendo, o fogo fica colado e não consegue sair, você não consegue tirar o fogo chegando. Sabe? Então, assim, tem a responsabilidade e tem toda a avaliação do terreno, de acesso, como que funciona. Na época que a gente ainda não usava esses aplicativos de monitoramento de estrada e wikiloc, cara, quantas vezes a gente fez trilha pra apagar fogo, a gente achava o fogo e não conseguia sair. Já aconteceu, teve uma vez que a gente ficou três horas e meia tentando sair de um fogo ali indo pro moinho, inclusive, e bateria do rádio acabando, um dos meninos, que era muito ligeiro, ele subia na árvore, gritava, o cara que ia fazer o nosso resgate buzinava, e a gente foi se comunicando assim, mas era meio que um labirinto. Então são situações que a gente passa assim, que são inimagináveis. E é isso, prioridade dentro de uma situação de combate é se tem residências ou instalações para animais por perto e nascentes. Então teve situação, cara, uma vez, excepcionalmente eu e o Guilherme, que é esse meu parceiro, que é o meu canga nos combates. Estava rolando um incêndio em São João da Aliança. E era a galera de um condomínio. E eles falaram: “cara, o fogo está chegando, fogo está chegando.” Normalmente não se sai em duas pessoas. Fomos nós em duas pessoas, eu e o Guilherme. A gente chegou lá, ele foi encher o equipamento que a gente usa, a bomba costal. E eu falei: “Gui, vamos embora.” Ele falou: “não, eu estou enchendo.” “Não dá tempo.” O fogo estava a quatro metros da casa da mulher. E vem muito rápido, porque está tudo seco nessa época. Então, é isso, a gente salvou a casa de uma pessoa. Então isso acontece. Teve uma outra situação em Colinas, que a gente apagou o fogo perto do muro de uma casa que tinha uns cachorros dentro e depois a gente descobriu que a família saiu com a criança, porque tinha um recém-nascido. Então são situações que a gente passa que são bem marcantes, sabe?
01:43:20 P/1 - Não deu tempo de tirar os cachorros.
R - Eles não tiraram, mas a gente apagou o fogo antes de chegar nos cachorros. Eu lembro que nesse quintal tinha altos pés de caju também, não era nem cajuzinho, cajuzão, a gente comeu bastante caju. Porque é isso. E eu costumo dizer assim, quando a gente sai para um combate, a gente normalmente sai para controlar o fogo. Quando é um incêndio de nível 3, que é uma situação já mais grave, que tem apoio de helicópteros, aeronaves. A gente tem... uma equipe rende a outra equipe. Mas eu costumo dizer que são situações que a gente sempre sai ganhando. E o Cerrado sempre sai ganhando também. Porque o fogo no Cerrado, as pessoas falam, qual o impacto disso nos animais? Porque eu faço resgate de animais silvestres também aqui na cidade. O fogo no Cerrado, ele normalmente corre em linha. Então, dificilmente a gente encontra animais de grande porte queimados, como por exemplo, você vê onça no Pantanal, essas histórias que chegam para a imprensa. Só que aqui a gente vê muitos animais que rastejam, que são serpentes, e ninhos de aves, que às vezes estão em árvores baixas. Só que o fogo no cerrado, embora ele não seja um fogo que circunda, encurrala os animais, ele é um fogo que se espalha muito rápido. Então, gente, coisa de minutos o fogo acende de uma forma que toma uma proporção que precisa de apoio de helicóptero com água para apagar. E a gente passou para essa situação aqui há uns anos atrás, eu não sei quantos anos, três, quatro talvez, teve um fogo na estação de água da cidade. Cara, eu vi uma fagulha assim ó, voando uma estrada, o fogo estava do lado de lá. Quando ele bateu, vum, espalhou. E é uma situação de loucura, que você olha e fala, meu Deus, o que a gente vai fazer? Teve uma outra situação no sertão, que é pro lado do Moinho. É porque eu não lembro mais o nome das pessoas, das famílias, que são muitas ocorrências. Mas um amigo da brigada, na época, ele falou, Gi, vamos lá só fazer um rescaldo. O rescaldo é você voltar para um lugar onde o combate já foi feito e verificar se tem possibilidade de reignição, que é o fogo reacender. Quando a gente chegou lá, eu lembro que eu não tinha nem almoçado, eu fiz um lanche assim, eu não estava pronta para um combate. Cara, o fogo tinha reacendido e estava chegando na casa dessa família, estava chegando em uma área de mata ciliar que nunca tinha queimado, e a gente estava em três pessoas. Eu lembro que a gente se espalhou, um amigo que faz umas coberturas fotográficas de foto e imagem, ele subiu um drone e aí eu falei, eu tô contando que o Diby tá me vendo. Porque era uma situação de extrema urgência de fogo e de extremo desgaste físico e emocional. Cara, eu lembro assim, que teve uma hora que eu não conseguia mais. Só que, o que eu costumo dizer, num combate ao incêndio, eu particularmente não sei qual é o limite, porque você sempre vai um pouquinho mais. Isso até é uma ideia perigosa de você pensar. Porque naquele dia talvez eu estivesse chegando no meu limite, só que não teve limite. Porque enquanto esses dois amigos estavam cobrindo a casa da mulher, eu estava na beira da mata. Chegou uma hora que eu joguei o equipamento e o cara que estava fotografando falou: “mas o que aconteceu?” Eu não lembro o que ele falou, ele falou alguma coisa assim... “Você caiu?” “Não, cara, eu cansei, eu não aguento mais, eu estou cansada, eu estou cansada. E pra subir cercas, eu estava rolando por baixo das cercas. E eu lembro que nesse dia, no final, tava eu e esse amigo, teve um outro amigo que tava em combate, a gente tava no chão, os dois sentados, terminando de apagar o fogo, sentados. Porque era uma situação assim de desgaste, de ter chegado perto do limite. Eu acho que não foi o limite porque a gente chegou até lá, sabe? E aí, até esse amigo que estava fazendo a cobertura ali, ele falou: “puxa, eu não peguei esse diálogo de vocês.” E ele perdeu essa filmagem, assim, que ele falou, cara... E é o que eu falo, assim, qualquer pessoa que imagine o que acontece dentro de um combate a um incêndio, no Cerrado, no Pantanal, só imagina, cara. Tanto que até é curioso, porque, de uma forma geral, o fogo assusta. Então, às vezes, a pessoa me manda a mensagem, “Gi, tem muito fogo muito perto.” Isso é muito relativo, cara, muito fogo muito perto. O muito fogo, para mim, eu só combati fogo no cerrado, de extensões quilométricas. É diferente do cara que combateu no Pantanal ou na Amazônia com uma árvore de 30 metros queimando. Então, até eu que sou uma brigadista, já com, relativamente com anos de experiência, muito fogo, comparado com um cara que está na Amazônia é diferente. Então, isso é curioso, que a gente fala, calma, mantenha a calma, manda a localização, a hora da informação, porque às vezes a pessoa tá sem sinal de celular. A gente já fez aquele combate, a informação chega horas depois, a gente volta pro lugar, já foi apagado o incêndio e... Mas a gente tenta dar uma ponderada nesses incêndios sociais que acontecem também, porque a galera se inflama muito. E isso. E aí com o combate aos incêndios aqui no Cerrado, o Guilherme, que é uma pessoa que tem um projeto de resgate de serpentes aqui na Chapada, começou a colar com a gente nos combates aos incêndios. É alguns anos depois que a rede de contra-fogo se estruturou e tudo mais. E aí um dia ele falou: “Gi, vamos comigo num resgate de cobra?” Falei: “vamos!” Aí fui um, dois, três, quatro resgates. Um belo dia ele falou: “olha, eu estou indo viajar, se pintar algum resgate quem faz é você. Falei, como assim cara? E de fato pintou um resgate, uma jararaca. Me deu um baile, me deu um baile, mas eu resgatei. E com isso comecei a participar desses resgates com o Guilherme, o projeto dele. O nome do projeto é Cobra Boa e Cobra Viva. A gente resgata uma média de, sei lá, 150 serpentes por ano, sabe? Até porque, hoje em dia, ele faz um lindo trabalho de educação ambiental e a gente acaba ensinando as pessoas a também fazerem os resgates. Porque muitas vezes não é uma serpente peçonhenta. Então é, sei lá, uma dormideira, que é uma cobra totalmente inofensiva. Então as pessoas já conseguem identificar e tirar da casa e levar para uma região de cerrado. Então isso é muito interessante. Só que com os resgates de serpente, a gente também começou a estruturar melhor os resgates de animais silvestres. Então a gente já fez resgate de lobo-guará, de arara, de tucano, de enfim...
P2 - De lobo-guará?
R - Lobo-guará.
01:50:23 P/2 - Como foi essa?
R - Cara, essa história assim, um dia, um domingo à tarde, foi recentemente assim. Eu estava tomando um café à tarde e uma pessoa me ligou. Cara, tem um lobo guará atropelado perto da minha casa, que era para a região da GDM. Falei, Gui, vamos lá. Chegamos lá, a gente descobriu que ele estava muito doente, muito machucado. E chamamos… Hoje em dia, eu e o Gui, a gente fez isso anos e aqui em Alto Paraíso, sem apoio. Ou a gente tirava do nosso próprio bolso para mandar esses animais para Brasília, na época a parceria era com o Hospital Veterinário da UNB, ou algumas pessoas da comunidade também ajudavam a gente a financiar esse transporte dos animais para Brasília ou a gente pagava, alguém pagava para ajudar. Hoje em dia, a Secretaria de Meio Ambiente daqui, do município, tem uma pessoa dentro dela que ajuda muito a gente, a Michelle, que ela é correria tanto quanto a gente. E eu reconheço muito o trabalho dela, até muito mais do que o trabalho da Secretaria de Meio Ambiente, porque tem toda a politicagem envolvida no município e tudo mais, mas ela pessoalmente ajuda muito. Aí, nesse dia do lobo-guará, eu fui com o Gui, a Michelle chegou com um companheiro dela na sequência. E aí a gente traçando estratégia, cara. Como que. você transporta um lobo-guará? Ele estava muito machucado, ele estava com o rosto totalmente ferido, assim, sabe? E debilitado, deitado. Quando a gente conseguiu, eu consegui com um amigo, uma carretinha de cavalo? E aí quando a gente traçou uma estratégia inicial, que era tirar o Lobo Guará do lugar que ele tinha sido mordido pelos cachorros, eu e o Mozart, que era um amigo, o companheiro da Michelle, a gente foi buscar uma carretinha de transporte de cavalo, a gente ia tentar amarrar o lobo-guará, o lobo-guará fugiu, cara. E aí, ele é um bicho muito ágil. Fomos nós, cara... Não, isso foi loucura. Porque fomos nós para o meio do cerrado, correndo atrás do lobo-guará. Uma hora ele entrou numa estrada que tinha uma casa, que tinha uns cachorros soltos, possivelmente os cachorros que mataram... Que mataram, não. Que morderam ele. Aí Michele pegou o carro, foi para cima dos cachorros, enquanto a gente espantava o Lobo-guará para o mato, ele sumiu no cerrado. E aí botamos os grupos da cidade, e no dia seguinte me ligaram. Falaram: “Gi, esse lobo-guará foi visto nessa G.O.” Nessa GEO aqui que chega de Brasília para Alto Paraíso. “Quase foi atropelado.” E aí a gente foi fazer o resgate. Achamos o lobo-guará. Como tem a Secretaria de Meio Ambiente envolvida, a gente pediu o apoio da polícia para fechar o trânsito. Conseguimos pegar esse lobo-guará numa ação assim de correria e ousadia. Um dos meninos, a gente tem o equipamento, foi pra frente do lobo e soou ele com o cambão, jogou pro chão, a gente amarrou, botamos no carro e mandamos pra Brasília. Aí foi um animal que levou um tempo pra se recuperar e tudo mais. Só que volta e meia tem animais que precisam de resgate. Uma vez uma menina me mandou uma mensagem querendo o resgate de uma onça. Eu falei: “olha, eu fico bastante lisonjeada, mas a gente não tem condições aqui.” Naquela época não tinha condições de resgatar uma onça. Hoje, com essa estrutura envolvendo Secretaria de Meio Ambiente e apoio muitas vezes da SEMAD e outras pessoas mais experientes, se tiver que resgatar, a gente consegue resgatar. Até a veterinária da prefeitura também, de repente seda, enfim. Mas são muitos animais, isso é muito bacana, cara. Isso é uma parada que também me move. Além de... É isso, de às vezes salvar uma árvore no incêndio e ver que aquilo significou bastante para o cerrado. Olhar nos olhos do animal e devolvê-lo para a natureza. E ver que aquilo foi tudo para a vida dele. Isso é muito bacana, cara. Isso é muito bacana. Isso faz uma diferença tremenda, assim. Isso é uma coisa que me dá gosto de fazer. Além de combater os incêndios. Esse projeto também de resgate de animais silvestres e serpentes.
01:54:44 P/1 - Você, então, tanto resgata quando ele vai ser retornado à natureza, ou vocês fazem esse trabalho?
R - A gente, assim, ó... serpentes, aparece na casa de uma família que se desespera e chama a gente. Então a gente tira do local e solta numa área de natureza que tenha serpentes da mesma espécie para favorecer a reprodução delas mesmo. Cascavel, jararaca, assim, que o pessoal fala, pô, mas é serpente peçonhenta. Mas ela tem um papel na natureza. Até porque é curioso isso. O ímpeto inicial de uma serpente peçonhenta é fugir. A gente tem várias situações e experiências que elas tentam fugir. Se ela se sente ameaçada, ela vai tentar se proteger. Ela não vai atacar, ela vai tentar se proteger. Só que a gente tem todo um cuidado para lidar. Então é isso, apareceu uma cascavel na casa de uma amiga. Ela liga, a gente vai lá e resgata e solta em uma área que tenha cascavel também. Só que a gente tem o cuidado de não soltar as serpentes da mesma espécie só no mesmo lugar para também não super popular aquela região. Aí muitas vezes resgatamos uma serpente machucada, a gente manda para Brasília para o hospital de fauna e traz de volta e depois solta no cerrado.
01:55:59 P/1 - Esse lobo, outros animais silvestres que não serpente, vocês fizeram isso?
R - Cara, esse lobo acabou indo a óbito. A gente não conseguiu soltá-lo. Ele acabou indo a óbito. É uma história até que eu chorei por causa do lobo, mas ele foi a óbito. Mas a maior parte dos animais a gente consegue soltar. Isso é até uma situação que as pessoas perguntam muito, sabe? Qual é o impacto de participar de um incêndio florestal na sua vida? Cara, realmente é muito impactante, só que o bem que a gente faz e o positivo, o reverso do incêndio é muito maior. Então é isso, a gente perde alguns animais, mas a quantidade de animais que a gente já salvou e já resgatou é muito maior, é infinitamente maior. Tem situações específicas que mexem com a gente? Tem situações específicas que mexem com a gente. Mas de uma forma geral, o impacto positivo desse trabalho que a gente faz voluntário é muito maior. Então isso acho que continua movendo a gente, sabe?
01:56:58 P/1 - Você poderia contar um caso de um animal que você devolveu? Você falou de olhar no olhinho dele, né? Como é que foi?
Cara, a gente tem vídeos, se você quiser eu posso te mandar uns vídeos depois. É porque são muitos, são muitas solturas.
01:57:12 P/1 - Mas tem alguma que vem à sua mente agora?
R - Deixa eu pensar. São tantas, cara. Teve uma jiboia uma vez que eu resgatei na casa da minha vizinha. Eu tenho um vídeo disso também. Que quando eu fui soltá-la, nossa, ela começou a subir na árvore. Porque a jibóia normalmente ela... porque a gente também manuseia, se ela não for peçonhenta, para soltar e tudo mais. E aí as jibóias normalmente tentam procurar os galhos. E essa jibóia, ela subiu tão retinha na vertical assim, mas são muitos resgates e muitas solturas. Então não tem nem como te dizer porque todos os momentos são especiais, sabe? São muito especiais, cara.
01:57:57 P/1 - Teve algum animal que você sentiu que, de alguma forma, você criou alguma relação com ele?
R - Não. Não, eu acho que é uma relação com o objetivo principal desse projeto, que é ajudar na preservação dos animais mesmo. E algumas pessoas até questionam assim: “ah, vocês não resgatam animais domésticos.” Não, a gente não resgata, tem quem faz isso aqui no Alto Paraíso e faz muito bem, inclusive. E o animal doméstico, você resgata, cria uma questão, cara. Você resgatou uma gatinha que pariu cinco, um cachorro que pariu seis, você tem onze filhotes mais as mães. E o animal silvestre, a gente simplesmente favorece o movimento dele mesmo na natureza, porque a gente pega, tira da casa da pessoa e solta na natureza e se precisar, manda para o basílio e depois solta de novo. Não tem situação que a gente crie... Vínculo afetivo, a gente cria com todos, porque eles são todos muito lindos e é muito massa ter esse contato. Mas o vínculo de querer ficar, não. Porque o objetivo do projeto é justamente isso, é devolver o animal para a natureza.
01:58:59 P/1 - Eu digo nem de querer ficar, mas assim, por exemplo, você contou essa história do lobo-guará, é uma coisa que você foi impactada?
R - Fui impactada pelo lobo-guará. É porque o lobo-guará é um animal muito especial. Eu, particularmente, nunca vi um lobo-guará saudável aqui no Cerrado. O primeiro lobo-guará que eu vi foi esse, que estava muito machucado e veio a óbito. E aí a gente recebeu um chamado de um outro lobo-guará logo na sequência, a gente entrou em crise até. Que era em São João da Aliança, e o apoio que chegaria antes, ele vinha de Planaltina e não nosso. Então a gente não saiu daqui porque a galera ia resgatar antes. Esse animal veio a óbito também. E o resgate não foi efetuado de uma forma muito, digamos, cuidadosa. Era um animal que tinha sido atropelado, possivelmente ele já estava com perfuração de órgãos e tudo mais, mas a gente tem todo um cuidado pra resgatar um bicho, a gente não sai arrastando ele no asfalto e tudo mais. Mas é que são muitas histórias, cara, e aí assim, eu não consigo nem... Sabe quando perde na cabeça de tanta coisa que é?
02:00:02 P/1 - Agora eu fiquei com uma curiosidade, você falou dos resgates, mas vocês tentam fazer resgate durante incêndio, quando você está apagando ou não?
R - Não, no incêndio pode ser que aconteça, tá? Teve uma situação específica, eu tenho esses vídeos, se você quiser eu te mando depois. No incêndio indo para São Bento, Cachoeira Fazenda São Bento ali, que eu resgatei duas cobrinhas de vidro e elas estavam, cara, indo a óbito mesmo. Estavam totalmente desidratadas e na hora eu hidratei, ela bebeu água na minha mão, cara, a gente ficou ali um tempo cuidando e depois soltou, na natureza. Nesse dia a gente resgatou um pássaro também, eu também tenho esse vídeo. Mas, de uma forma geral, quando a gente encontra serpentes, por exemplo, nos incêndios, elas já estão mortas. E é muito difícil. Nunca encontrei um veado, um lobo-guará, um tamanduá, um tucano, uma aranha. É muito difícil. O impacto realmente do fogo do cerrado nos animais é mais os que rastejam nos ovos de pássaros e aves.
02:01:03 P/1 - E como é que você criou a decisão de ajudar nas brigadas? Como é que surgiu isso?
R - Cara, isso simplesmente aconteceu. Acho que foi um ímpeto mesmo de ajudar. Naquele momento, em 2017, foi caos total, calamidade pública, assim, aqui em Alto Paraíso, sabe? E quando eu vi, eu já estava dentro. E é isso. Quando eu vi, eu já estava no incêndio. Já estava lá, de calça jeans e tapete de carro. Quando eu vi, eu já estava na brigada. E quando eu vi, eu já... Quando eu vi, eu já estava aqui com vocês. É tipo isso. Sabe? As coisas acontecem assim. Eu não sei. Será que é a missão que minha mãe falou que eu tinha para cumprir na vida? Jamais saberemos. Mas é isso. É um movimento que acontece, sabe? É um movimento que acontece. Eu gosto de ajudar. Tanto que o trabalho que eu faço também dentro da Umbanda é de caridade. A Umbanda é caridade. Então, as pessoas mais próximas até falam: “Gisele, você tem que parar com esse voluntariado.” Eu falo: “não, hoje eu só tenho 16 voluntariados, trabalho na Umbanda e meu trabalho profissional. Porque eu gosto de fato, eu gosto de participar, eu gosto de ajudar nessa movimentação assim.
02:02:11 P/2 - Eu ia falar para você contar um pouco dessa relação com o fogo, como é lidar com fogo?
R - Cara, essa relação com o fogo, ela é até dicotômica, a gente costuma dizer, porque o fogo fascina, hipnotiza, ele gera muita adrenalina. Então, quanto mais você combate, mais você quer combater, ao mesmo tempo que você quer que não pegue fogo no Cerrado. Então começa a temporada de incêndio. A gente quer que pegue fogo? Não! Mas quando pega fogo, a gente já está pronto esperando pelo fogo. Então acontece isso. E é muito fascinante, é muita adrenalina. Uma dificuldade numa situação de combate. Muitas vezes a gente não tem acesso ao fogo. Mesmo com aplicativos e tudo mais assim. Cara, já teve situação de subir e descer oito montanhas dentro do Parque Nacional para tentar achar o fogo. Eu lembro que a gente subia a montanha e falava, não, na próxima a gente vai achar. E descia montanha, subia montanha. Cara, subir e descer oito montanhas. Nesse dia a gente achou o fogo, achou o incêndio e combatemos. Mas teve uma situação que a gente andou de sete horas da noite até, sei lá, chegamos no outro dia de manhã. Quando a gente estava caminhando, já tinha uma equipe de 9 pessoas, 40 minutos antes da gente. Quando a gente viu as lanternas dessa equipe subindo, a gente falou, cara, se a gente chega lá, eles já vão ter combatido. Então vamos dar a volta na Serra das Cobras, vamos ver se tem um fogo por baixo, que não tinha, e saímos do outro lado no outro dia de manhã. Essa situação de não ter contato com fogo dificulta bastante, porque a gente carrega um equipamento pesado. E o fator adrenalina ajuda muito a voltar, porque você está na pilha, é um gás assim. Então você vai, faz uma trilha de 4 horas, acessa o fogo, combate e você tem uma trilha de 4 horas para voltar. Então, o fator adrenalina ajuda. Quando a gente não acessa o fogo, aí que lasca, porque você não tem o fator adrenalina e é uma canseira lascada da muléstia para chegar de volta. Aí esperar resgate e tudo mais.
02:04:24 P/1 - E a sua relação mudou, que você tinha com fogo antes?
R - Não, total. Total. Total, assim. E é o que eu costumo dizer, a gente precisa ter muito respeito a isso que acontece, porque o fogo é um elemento muito forte. Da mesma forma que lidar com animais silvestres requer muito respeito também. Então eu posso até traçar um paralelo a isso. Ainda hoje eu estava conversando com uma amiga sobre os resgates. Ela falou: “mas você não tem medo?” Eu falei: “cara, primeiro eu tenho respeito e depois eu tenho conhecimento.” Então eu sei que se é uma serpente peçonhenta, eu vou lhe dar de uma forma, se não é eu vou lhe dar de outra. E o fogo é a mesma coisa, primeiro o respeito e depois o conhecimento, para saber qual vai ser a estratégia de combate, com quem que você vai entrar, quem é a sua equipe, como que você vai coordenar essa equipe, se vai ter baixa ou não, porque às vezes a pessoa pode passar mal, pode se machucar, acontece, sabe? Então são muitos fatores que a experiência realmente faz diferença, assim, na hora de um combate afetivo. Mas mudou bastante, assim. Só que é isso. Ontem mesmo, tinha um vizinho botando fogo lá perto da minha casa. Se fosse, há uns 10 anos atrás, e eu... Não… Era pouco fogo. Perigoso, nessa época? Perigoso. Mas estava razoavelmente controlado ali. Esses dias eu estava indo com a Duda, que é minha namorada, a gente estava indo tomar um banho de rio. Cara, vi fogo começando. Na verdade, um carro pegou fogo e queimou o cerrado. As pessoas combateram. Esse fogo reacendeu na hora que eu passei. Na hora, eu já pego um galho e vou, porque eu sei o que fazer. Aí a Duda se desesperou, falou: “cara, você tá de chinelo e...” Aí eu ponderei também para não assustá-la. Ajudei ali a ver como estava a situação e pedi ajuda para a galera que tinha equipamento de combate. Não estava muito, um risco muito grande, senão eu teria vindo em casa para me equipar e ido para o combate. Mas é isso, hoje em dia eu consigo entrar, se eu tiver de chinelo short, para olhar como está uma situação e avaliar o risco do fogo se espalhar muito rápido ou não, para pedir ajuda, entendeu?
02:06:35 P/1 - Podemos entrar nas últimas perguntas, então? Pode ser?
P/2 - É, pode ser. Mas eu... Você falou desse... Eu queria que você contasse, assim, uma história do começo ao final de um combate, assim, sabe? De uma que foi bem desafiadora, assim.
R - Vou entrar num tema que talvez não tenha tempo para falar sobre isso. Eu, como mulher, eu lido muito com machismo dentro das brigadas. Inclusive isso que fez com que eu me desvinculasse da Brigada de Alto Paraíso e hoje apoiasse a Brigada de São Jorge. E teve uma situação específica que eu fui para um combate, a gente indo para Cavalcante, subimos montanha, cara, eu saí com o esquadrão liderando a equipe. Chegamos lá, a primeira pergunta: quem é o líder do esquadrão? E eu era a líder daquele esquadrão, a pessoa que estava liderando o esquadrão. E aí foi curioso, porque no final do combate só a minha equipe e duas pessoas de uma outra equipe, a gente conseguiu ir até o final e controlar aquele incêndio. Todos aqueles outros homens que estavam na situação, não aguentaram, não deram conta de continuar o combate e se retraíram, entendeu? Então tem diversas situações assim, diversas situações de lidar com o machismo, lidar com o preconceito das pessoas. Eu já ouvi, “ah, mas mulher não tem que apagar fogo.” Não, cara! E a gente tem ótimas brigadistas hoje, a gente consegue formar uma equipe só de mulheres para ir para o combate e seguimos lidando com o machismo e misoginia dentro das brigadas. E sendo apoiadas por pessoas que pensam diferente e estão junto com a gente.
02:08:21 P/1 - E qual que é a relação… Você está em uma brigada voluntária?
R - Brigada voluntária.
02:08:26 P/1 - E qual que é a relação com os corpos de bombeiros?
R - Cara, a nossa relação assim… Brigada voluntária é isso, são pessoas que se voluntariam para ir. E aí, junto com as brigadas voluntárias, ou melhor, a gente que está junto com eles, tem o ICMBio, as brigadas do ICMBio, brigada do IBAMA e o Corpo de Bombeiros. Recentemente, aqui a gente tem a base do Corpo de Bombeiros, que ajuda bastante, principalmente em situações de ocorrência, às vezes acidente, incêndio em instalações. Uma das situações de maior estresse que eu passei aqui na vida, na minha vida de brigadista, foi no dia que pegou fogo no Lótus. O Lótus é um lugar de hospedagem que tem acampamento e tudo mais. Era um prédio em Alto Paraíso, uma casa de dois andares, pegando fogo. Cara, isso daí não tinha o Corpo de Bombeiros na época, o Corpo de Bombeiros para chegar aqui já teria queimado tudo. Eu fui a primeira pessoa da brigada voluntária que chegou lá. E a polícia não sabia o que fazer. E aí eu falei: “cara, isola a área e vamos combater.” Isso realmente foi uma situação assim bem grave, que naquela época, se a gente tivesse o corpo de bombeiros aqui, teria resolvido bastante. Foi estresse total, assim. Porque quando você chega numa situação de ocorrência, é isso. Quando a gente se qualifica, a gente entende que é uma operação de combate. Se tem uma pessoa liderando, aquela liderança é a voz de comando. Se eu saio para um combate hoje com você liderando, qualquer informação que você me der eu não vou questionar. E nesse dia, primeira recomendação que eu falei, tira a botijão de gás e geladeira. E toda hora que eu passava, eu esbarrava na geladeira, cara. Eu falava, gente, se pedir uma vez, tem que ser uma vez. E era uma situação, assim, que o fogo poderia se espalhar para o bairro, para as casas ao redor, sabe? Mas aí a gente juntou todo mundo e, enfim, conseguimos fazer esse combate. Mas a edificação foi, realmente, foi demolida e foi reconstruída depois.
02:10:21 P/1 - E qual que é a diferença entre você estar num incêndio na mata e um incêndio dentro de uma casa?
R - A nossa qualificação é para apagar fogo no Cerrado, não é para apagar fogo em residência, imóvel, não. A gente fez naquela situação porque tava pegando fogo. E é isso, é gente da comunidade, então a gente acaba fazendo pra ajudar mesmo. Mas foi limite de estresse, assim. Foi nem desgaste físico, emocional, limite de estresse, porque podia pegar fogo no bairro, fogo espalhar na cidade naquela época, sabe?
02:10:55 P/1 - Mas digamos assim, tecnicamente, os cuidados são diferentes, eu imgino.
R - Desligar a energia elétrica, saber se pode jogar água ou não, rezar um tanto e fazer o que pode, com cuidado, isolar a área. Principalmente desligar a parte elétrica para poder jogar água e ver se alguma coisa não ia desmoronar. Foi uma situação de estresse, de socorro Deus, porque era para os bombeiros, essa era para os bombeiros. Só que o tempo de deslocamento deles de Planaltina para cá, que era a base mais próxima, não dava tempo deles chegarem.
02:11:31 P/1 - Bem, agora você está com a roupa inteira, pode falar para mim do que é feita, como ela funciona?
R - Cara, é isso, é material, eu não vou saber te dizer exatamente, talvez tenha especificações aqui atrás, mas é um material que protege a gente bastante do fogo. Essa bota a gente consegue pisar em lugares com alta temperatura, ela é possível andar em chamas vulcânicas também, sabe? Então protege bastante. E é o que eu falo, a gente, com o EPI, o pessoal fala: “ah, mas é uma roupa muito quente.” Sem ela, a gente não consegue chegar perto do fogo. E isso aqui, a gente pode passar horas e horas e horas combatendo. Aí, além da gandola, da calça e do coturno, a gente usa uma joelheira também, porque a gente sobe e desce montanhas. E, às vezes, cai, bate o joelho. Eu tenho um cinto tático, que eu coloco rádio de comunicação e dois cantis. O óculos de proteção e a bala clava. Então, basicamente, esse é o equipamento, além da lanterna, quando a gente sai para um combate que vai levar mais tempo ou à noite.
02:12:41 P/1 - E essa ombreira aqui?
R - Aqui a gente põe a gandola. Só põe por baixo aqui. E aí tem apito também, porque está na outra gandola, que eu tenho mais de uma em casa.
02:12:51 P/1 - E essa lista é pra sinalizar quando for de noite?
R - Sinalizar, sinalizar. Eu até tenho, “Gisele Cavati”, com o meu tipo sanguíneo, só que eu recém entrei pra essa brigada, então eu tenho que mandar costurar aqui.
02:13:04 P/1 - E como é que você financia, como é que vocês financiam a brigada nesse sentido?
R - É com doações. Brigada Voluntária existe por conta de doações. E isso é muito importante. Uma vez eu participei de um festival de cinema em São Paulo com um filme sobre a Brigada, sobre os incêndios aqui na Chapada. E aí, final do filme, sala lotada e a galera falando, tá, mas a gente tá muito longe, a gente não pode ajudar. Eu falei, pelo contrário, vocês podem ajudar. Eu já fui uma dessas pessoas que estava morando numa cidade capital e achava que não podia ajudar. Cara, se interessar, divulgar o que acontece, principalmente no Cerrado, porque assim, existe toda uma divulgação, está pegando fogo no Pantanal, na Amazônia, e o Cerrado também está pegando fogo. O Cerrado hoje, ele é considerado um bioma extinto, que é isso, ele nunca mais vai voltar a ser o que ele era antes. Uma área que queimou, sei lá, na semana passada, ela nunca mais vai voltar a ser. O poder de resiliência, de reestruturação do cerrado, ele é altíssimo. Ele volta, ele rebrota, mas voltar a ser o que era antes, nunca mais. E as pessoas se interessarem e participarem e apoiarem, principalmente as brigadas voluntárias, faz muita diferença. Até ontem a gente tinha um incêndio de grande proporção, que eu não sei se gerou o nível 3, mas estava em Vias D, em Cavalcante. E lá em Cavalcante tem a Brivac também. Aqui em Alto Paraiso tem a Rede Contrafogo, em São Jorge a Brigada de São Jorge, em Cavalcante a Brivac. São as três brigadas mais ativas aqui na Chapada dos Veadeiros. A Brivac não tinha equipamento suficiente, nem condições de comprar gasolina, alimentação, para ajudar a estruturar aquela operação. Então, foi uma divulgação em massa. É importante que as pessoas se interessem e saibam que, sim, elas podem fazer a diferença de longe, que é apoiando os brigadas. E aí entra até numa questão que a gente estava falando. Muitas vezes existe uma forma de reconhecimento, que as pessoas falam: “ah, vocês são super heroínas, super heróis, estão ajudando a salvar o cerrado.” Mas é o que eu costumo dizer, sem essa mobilização social a gente não consegue fazer, porque a gente depende de apoio financeiro das pessoas que doam. Naquela ocasião de 2017, que eu recebi uma boa quantia de dinheiro na minha conta, eu tinha recebido transferências de R$2.000,00 e transferências de R$2,00. E é curioso observar que muitas vezes uma pessoa que transferiu R$2.000,00 não fez nem diferença para ela. Mas pra uma família que transferiu dois reais que passa perrengue, fez bastante diferença. Então, esse movimento todo da comunidade que faz com que a gente possa, que a gente tenha condições de combate. Então, não tem esse... eu não acho que exista essa perspectiva de, “ah, eu sou uma super heroína.” Cara, a gente faz junto. Porque sem uma pessoa que doa R$2,00 para comprar uma garrafinha de água quando eu estou no combate, faz tanta diferença quanto eu. Só que a diferença na prática é que eu tenho condições físicas e emocionais e estou qualificada hoje para estar ativamente no combate ao incêndio. Mas todo mundo faz a diferença junto. Isso que é massa de perceber. Essa movimentação da comunidade, essa movimentação social, que é o conjunto que faz diferença. E é dessa forma que a gente está ajudando a salvar o meio ambiente aqui no Brasil, diante de tantos incêndios de grandes proporções que existem.
02:16:54 P/1 - E indo agora sim para as últimas perguntas. Como que você está percebendo o futuro aqui dessa região, do Cerrado em geral, com relação a incidências de chuva, incidências de incêndios? Como é que você tem percebido se tem alguma mudança?
R - Mudou muito! Mudou muito. Eu estou aqui há 13 anos, naquela época chovia muito mais e a gente também tinha incêndios bianuais. Se um ano pegava fogo, no ano seguinte não tinha combustível suficiente para queimar. Então era incêndio de grandes proporções. Ano sim, ano não, ano sim, ano não. Desde 2017 isso mudou. Eu lembro que na época a gente fez uma reunião com o chefe do parque, na época era o Fernando Tatagiba, ele falou, a forma de combustão do fogo está diferente. Porque muitas vezes tem um mato verde que não era para queimar, ele falava: “cara, essa combustão está secando o mato e queimando adiante. E não era para acontecer.” Então, assim, é fato que tem um impacto de tudo isso, nisso tudo que acontece. E aí, entrando num aspecto, assim, de como lidar, eu prefiro não pensar como que vai ser. O Cerrado vai ser de fato assim, vai se regenerar em algum momento para as futuras gerações? Cara, não sei, mas a gente continua fazendo o nosso papel de formiguinha. E é o que eu falo, quanto mais fogo tiver, mais combates a gente vai fazer. Mais energia a gente tem para colocar nisso tudo, sabe? Porque pensar num contexto assim, não sei se a gente vai existir daqui a 10, 20 anos. Sinceramente, eu não sei. Mas a gente vai continuar fazendo enquanto a gente pode. Num trabalho de formiguinha mesmo, às vezes por uma árvore, por uma cobra, por um animal e fazendo a diferença.
02:18:45 P/1 - E você tem algum plano para o futuro, para o seu futuro, algum sonho a cumprir? O que você acha disso?
R - Plano para o futuro? Comprar uma terrinha na beira de um rio, ficar bem de boinha, com toda o manejo integrado do fogo ali, uma queima ao redor para o fogo não chegar no lugar. Mas ficar de boa assim. E eu sinto assim, que quando as pessoas falam: “você mora em Alto Paraíso?” Eu falo: “não, gente, eu vivo.” Porque estar nesse lugar proporciona viver mesmo, desfrutar da vida, sabe? É isso, na hora do almoço tomar um banho de rio ou sentar para tomar um café na casa do Wilson. Então, isso faz bastante diferença. Então, eu costumo dizer que eu vivo. E, de fato, eu vivo, eu desfruto de todos os meus dias, sabe? Eu tenho uma rotina de trabalho que hoje eu consegui me encaixar para trabalhar de manhã. Então, tem dia, gente, que seis e meia, sete horas eu estou na cama. Tipo, vou lá ver um filme, ler um livro e desfrutar de tudo isso, de fato, dessa vida no paraíso.
02:19:44 P/1 - E como é que foi contar um pouquinho dessa história hoje aqui?
R - Cara, foi interessante, assim, porque eu não esperava essa retrospectiva da minha vida inicial. E eu me arrepiei, me emocionei algumas vezes, eu dei uma seguradinha, mas foi bem interessante, recordar de algumas coisas, assim, que tinham... estavam adormecidas na minha memória, foi... eu agradeço a oportunidade.
02:20:04 P/1 – Imagina, a gente que agradece. Obrigado.
R - Na época da seca, todos os incêndios são criminosos, absolutamente todos. Só que a diferença é que alguns são dolosos, com a intenção de colocar fogo e outros são culposos, são sem querer. Às vezes uma faísca de solda, às vezes uma pessoa que está em casa, juntou umas folhas e resolveu queimar e perde o controle do fogo. Mas na época da seca, absolutamente todos os incêndios são criminosos. E aí quando começa a temporada de chuva, que vem os raios, muitas vezes pega fogo por conta do raio e na sequência lógica da natureza, seria cair a chuva e apagar aquele fogo. Só que hoje em dia, com o absurdo que está, com o meio ambiente com clima, então muitas vezes cai o raio, pega o fogo e não vem a chuva e a gente entra pro combate. Mas na época da seca, sem chuva, todos os incêndios são criminosos, absolutamente todos.
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