P - Senhor Rufino, então boa tarde obrigada por ter aceito o convite, eu vou pedir para o senhor falar seu nome completo, o local e a data de nascimento? R - Meu nome é Francisco Rufino Pereira mais conhecido por Rufino, eu nasci no Rio Grande do Norte em 1939. Devido a guerra de 1945, Natal era uma das poucas cidades do Brasil onde havia possibilidade de ser atacado pelos alemães. E nessa época embora os alemães já estivessem bastante enfraquecidos, já não tinham mais condições de atacar coisa nenhuma, mas assim mesmo os americanos em Natal faziam o treinamento de guerra. Então as luzes eram uns tomates, eram uma coisinha insignificante e quando soava o alarme a minha mãe nos pegava e jogava debaixo da cama, como se isso resolvesse alguma coisa. Por causa desse medo dela, essa preocupação de ser atacada, embora não tivesse possibilidade, porque quando o Brasil entrou em guerra os alemães, já estavam praticamente derrotados, nós viemos para o sul, para São Paulo, na cidade Cerqueira Cesar, tinha a Estrada de Ferro Sorocabana perto de Ourinhos, perto de Botucatu, Avaré uma cidadezinha pequena e ali eu fiz e terminei o ginásio em 1955 e vim para São Paulo em 1956. P - Vamos voltar um pouquinho senhor Rufino. Em que o pai do senhor trabalhava? Qual era a atividade profissional dele? R - Meu pai era auxiliar técnico, trabalhava na topografia da Estrada de Ferro Sorocabana. Então em 1955, fiz o ginásio naquele tempo era difícil e depois o colegial subdividia em clássico para quem fazia Letras, Direito e científico para quem ia fazer humanas e Magistério, para quem ia ser professor ou qualquer coisa desse tipo. E eu me formei e a família era relativamente grande, eu precisava sair e eu saí então depois que terminei o ginásio e vim para São Paulo. Meu pai me trouxe para São Paulo, chegou num certo ponto, ele perguntou para onde eu queria ir, eu não conhecia São Paulo, nunca tinha saído de Cerqueira Cesar. Ele virou para mim e...
Continuar leituraP - Senhor Rufino, então boa tarde obrigada por ter aceito o convite, eu vou pedir para o senhor falar seu nome completo, o local e a data de nascimento? R - Meu nome é Francisco Rufino Pereira mais conhecido por Rufino, eu nasci no Rio Grande do Norte em 1939. Devido a guerra de 1945, Natal era uma das poucas cidades do Brasil onde havia possibilidade de ser atacado pelos alemães. E nessa época embora os alemães já estivessem bastante enfraquecidos, já não tinham mais condições de atacar coisa nenhuma, mas assim mesmo os americanos em Natal faziam o treinamento de guerra. Então as luzes eram uns tomates, eram uma coisinha insignificante e quando soava o alarme a minha mãe nos pegava e jogava debaixo da cama, como se isso resolvesse alguma coisa. Por causa desse medo dela, essa preocupação de ser atacada, embora não tivesse possibilidade, porque quando o Brasil entrou em guerra os alemães, já estavam praticamente derrotados, nós viemos para o sul, para São Paulo, na cidade Cerqueira Cesar, tinha a Estrada de Ferro Sorocabana perto de Ourinhos, perto de Botucatu, Avaré uma cidadezinha pequena e ali eu fiz e terminei o ginásio em 1955 e vim para São Paulo em 1956. P - Vamos voltar um pouquinho senhor Rufino. Em que o pai do senhor trabalhava? Qual era a atividade profissional dele? R - Meu pai era auxiliar técnico, trabalhava na topografia da Estrada de Ferro Sorocabana. Então em 1955, fiz o ginásio naquele tempo era difícil e depois o colegial subdividia em clássico para quem fazia Letras, Direito e científico para quem ia fazer humanas e Magistério, para quem ia ser professor ou qualquer coisa desse tipo. E eu me formei e a família era relativamente grande, eu precisava sair e eu saí então depois que terminei o ginásio e vim para São Paulo. Meu pai me trouxe para São Paulo, chegou num certo ponto, ele perguntou para onde eu queria ir, eu não conhecia São Paulo, nunca tinha saído de Cerqueira Cesar. Ele virou para mim e falou: “para onde você quer ir”? Eu olhei na placa do ônibus ali perto da Estação Júlio Prestes e falei: “Eu quero ir para Guarulhos.” Eu não sabia onde era Guarulhos. Aí ele falou: “Tá bom, vamos embora para Guarulhos.” Aí peguei o ônibus e anda e anda, naquele tempo os ônibus eram ruins. Da Estação Júlio Prestes que era da Estrada de Ferro Sorocabana a Guarulhos vai parando e nesse ínterim ele procurou o cobrador de ônibus para saber onde tinha uma pensão. Aí ele disse: “É uma pensão onde eu moro, vai sair um rapaz amanhã, eu estou trabalhando a noite e se for o caso ele fica lá.” Aí fiquei nessa pensão na Rua Nilo Peçanha, número 124 A, em Guarulhos. O meu pai perguntou: “O que você precisa?” Eu falei: “Eu não preciso de nada.” Ele tirou 500 cruzeiros do bolso, me deu e também me deu um par de sapato novo e falou: “Voce vai andar bastante para procurar serviço e se não der certo, voce sabe o caminho de volta para casa.” Eu falei: “Ah, não volto para casa eu não volto de jeito nenhum.” P - E quantos anos o senhor tinha nessa época? R - 16 anos. P - E que lembrança o senhor tem assim que mais marcou em São Paulo quando o senhor chegou aqui? R - É que eu não podia sair na rua, porque não tinha documento, eu só tinha Certidão de Nascimento e isso me marcou bastante porque eu não podia sair na rua e com os 500 cruzeiros que ele me deu, eu gastei em pouco tempo com doce e essas coisas. Aqueles doces bonitos que não tinha no interior, então eu vi aqueles doces e comprei, dali a pouco o dinheiro foi ficando pouco, aí eu parei de comer os doces, porque tinha que pagar os ônibus. Fui procurar emprego e disseram: “Lá na Rodovia Presidente Dutra tem uma empresa grande, de vez em quando precisa de gente.” Essa empresa é a Camargo Corrêa. Eu fui lá e falaram: “Não é aqui, é em São Paulo.” Naquele tempo, o escritório da Camargo era na Rua João Brícola, no décimo oitavo andar, aonde era o Banco do Estado de São Paulo, hoje, o Santander. Então ali era o escritório da Camargo Corrêa, um escritório pequeno, numa sala ficava o senhor Sebastião Camargo, o doutor Silvio Brand Corrêa e na outra ficava o Antonio Giuzio, era o diretor financeiro, e o Wilson Camargo que era a pessoa que batia mais contato dentro dessa área de admissão. Eu fui lá fiquei sentado esperando, falei com a mulher e me informaram que era o senhor Wilson que ia admitir, eu fiquei esperando. Cheguei às oito horas da manhã e fiquei esperando, a secretária dele disse: “Ele está ocupado, mas vai te atender.” Ele, bastante ocupado com muita coisa para fazer, saiu para almoçar às duas horas e não me atendeu e eu fiquei sentado, então a moça falou: “Ele saiu apressado, mas volta.” Eu fiquei sem almoço, sem comer nada, e esperando, quando ele voltou lá por umas três ou duas e meia da tarde, entrou para sala dele e eu fiquei esperando. Às oito horas da noite, ele saiu, foi embora e eu fiquei ali ainda, então ela falou: “Hoje, não dá mais o senhor volta amanhã.” E eu: “Sim, senhora.” Fiquei sem comer no dia. No outro dia, às oito horas, eu estava lá, aí quando foi umas nove e meia, ele chegou, entrou na sala e aí saiu para almoçar do mesmo jeito e eu esperando. Quando foi ali pelas cinco e meia da tarde, ele falou: “Eu vou falar com ele, ele está aí faz tempo.” Eu estou lá dentro e ele falou: “Rapaz, você está desde ontem sem comer?” Eu falei: “Eu não comi nada.” E ele:“Por que você não comeu?” Eu falei: “Estava esperando o senhor, estou precisando trabalhar, sou do interior, sou de Cerqueira Cesar e não tenho parentes aqui.” E ele: “O que você sabe fazer?” Eu falei: “Eu sei pouca coisa, fiz o ginásio, tenho duas mãos fortes graças a Deus, coragem para trabalhar eu tenho também, o senhor pode ter certeza disso.” Aí ele olhou para mim e pensou, pensou, e falou: “O senhor quer dinheiro para almoçar?” Eu falei: “Não senhor, eu não quero não.” Eu não tinha um centavo no bolso. Aí ele falou: “Então, amanhã você vai para Guarulhos, porque eu vou para lá às dez horas e me espera lá na portaria.” Eu falei: “Sim, senhor.” Aí no dia 23 de janeiro, eu fui para Guarulhos só que eu cheguei seis horas com medo de perder, estava escuro ainda, aí o guarda falou: “Sai daqui pivete, aqui você não pode ficar.” Eu falei: “O senhor Wilson falou que era para eu esperar aqui.” E ele: “Ah, senhor Wilson, você não conhece o senhor Wilson coisa nenhuma.” Estava chuviscando e eu fiquei lá na chuva, aí ele chegou num Chevrolet 1951 e perguntou: “Por que você não ficou na guarita?” Eu falei: “O guarda não deixou, ele me chamou de pivete.” Aí ele chamou a atenção do guarda, brigou com o guarda e mandou eu entrar no carro dele. Eu falei: “Não senhor, eu estou molhado, não vou entrar no seu carro, o senhor diz para mim onde eu tenho que ir que eu vou a pé.” Ele falou: “Então você vai por aqui e tal...” Naquele tempo, Guarulhos era uma lagoa, então a gente andava em cima das tábuas para chegar até a oficina. Eu cheguei lá dentro, ele me mandou sentar e aí mandou o Rubens [Rubens Camargo], irmão dele, me admitir e eu entrei na Camargo Corrêa, assim foi que começou. P - E qual era o desafio do senhor inicial? R - Era suprimento, ele me botou no suprimento. Tinha o senhor Deoclécio [Deoclécio Bispo dos Santos] que era uma das pessoas mais respeitadas dentro da Camargo Corrêa pela sua capacidade, sua liderança, seu conhecimento técnico, embora fosse uma pessoa que não tivesse estudo, mas era de uma inteligência que superava com bastante facilidade o banco de escola. Ele via coisas que os outros não conseguiam ver, ele entrava nessa sala que estava tudo normal para nós mas via coisas que a gente não tinha visto. Então ele era uma pessoa dessa personalidade e precisava de umas peças para obra e eu trabalhava no almoxarifado, como eu tinha 16 anos, não podia sair na rua porque tinha medo da Febem [Fundação Estadual do Bem Estar do Menor], então eu ficava dentro. O senhor Wilson falou: “Voce fica aqui dentro.” Aí eu fiquei dormindo na sala do Código Morse, a comunicação com as obras era com o Código Morse e também o rádio, e eu fiquei dormindo lá, porque se as obras precisassem de alguma coisa tinha alguém para atender. Naquele tempo tinha seleção paulista, seleção carioca, seleção mineira e o pessoal todo do almoxarifado de suprimento de Guarulhos ia assistir porque no sábado e domingo ia passar a seleção paulista e a seleção carioca umas coisas desse tipo. Então ninguém quis ficar para carregar um caminhão de peça de oxigênio que precisava sair na segunda feira, porque se não teria problema na obra, e cabo de aço, as máquinas não eram hidráulicas, não exista sistema hidráulico era tudo com guincho e com cabo de aço. Então aquelas rodonas enormes de cabo de aço que tinha que ser colocado em cima do caminhão e o senhor Deoclécio falou: “Eu preciso disso para obra, eu quero isso aqui, você vai ter que dar um jeito.” Ele falava para o chefe lá, o Zeca: “Voce tem que dar um jeito Zeca, põe esse pessoal para trabalhar.” Eu ouvi aquela discussão, e falei para ele: “Seu Zeca, eu não posso sair, se o senhor quiser eu carrego o caminhão.” O Zeca: “Mas como voce vai carregar o caminhão sozinho?” Eu falei: “Pode deixar que eu dou o meu jeito.” Tinha um guinchinho que levantava e empurrava com o pé. Então você levantava na mão os tambores, as coisas e punha em cima do caminhão, empurrava o guinchinho, abaixava e assim eu comecei a carregar o caminhão sozinho. Notei no sábado que na Via Dutra tinha um carro study backer preto com alguém que ficava olhando, pensei comigo: “Será que é ladrão isso aí?” Estava lá o study backer preto olhando eu carregar o caminhão, eu falei: “Será que é ladrão? Vou avisar o guarda, mas não posso deixar isso aqui.” Aí fiquei e terminei, quando foi à tarde de novo o study backer. Mas não avisei nada para o guarda, eu falei: “Ah, deve ser alguém que está por aí.” Quando chegou no domingo, continuei carregando, consegui carregar o caminhão sozinho das sete horas da manhã até as seis e meia da tarde de domingo, o sábado das seis horas da manhã até as sete e meia, estava claro ainda, em janeiro a claridade é maior. Então fiquei até escurecer e consegui carregar o caminhão. No domingo esse study backer de novo, eu pensei: “Aí meu Deus do céu será que vai roubar esse caminhão, eu sozinho aqui o que eu vou dizer para esse povo?” Fui atrás do guarda e ele tinha um cachorro que não deixava a gente se aproximar dele, eu comecei a gritar pelo guarda e dali a pouco ele chegou, eu falei: “Tem aquele study backer lá.” Ele falou: “É bom voce ficar atento.” Eu falei: “Tá bom.” No outro dia, chegou o senhor Deoclécio, o Zeca: “E o caminhão?” Eu falei: “O caminhão está carregado.” E ele:“Como carregado? Como voce fez?” Eu falei: “Não era isso que o senhor tinha dito, que era para carregar, então está aí.” Aí foi conferir os itens e: “Mas por que você não amarrou a lona?” Eu falei: “Eu não sei lonar, e se eu amarrar isso aqui e a lona soltar no meio do caminho, eu não sei lonar.” Aí o senhor Deoclécio estava perto e falou: “Olha voce vai comigo para obra.” Eu falei: “Eu”? Ele falou: “É você.” O Zeca falou: “Não, porque o senhor Wilson recomendou que ele vai estudar.” Ele falou: “Ele vai comigo para obra, vocês aqui arrumam gente, eu preciso de gente que trabalha na obra e esse menino trabalha.” Aí eu fiquei quieto, não disse nem que sim, nem que não. Naquela época, o Jânio Quadros era Governador do Estado de São Paulo e eu tinha feito a inscrição para fazer o científico na Escola Estadual Nossa Senhora da Penha, mas só tinha uma vaga porque era estadual e a diretora virou para mim e falou: “Olha eu tenho uma vaga, mas essa vaga fica reservada para o Jânio Quadros, porque ele de vez em quando manda um bilhetinho, então essa vaga é sua se ele não mandar o bilhete.” Quando fui lá, estava o bilhete do Jânio Quadros pedindo a vaga e eu fiquei de fora, aí eu falei: “Eu vou para obra.” Aí fui lá para região do Pontal do Paranapanema [SP] onde era muito difícil e distante de tudo, fazia muito frio. Tinha o acampamento, onde moravam dez, 12 pessoas que eram os operadores de máquina, alguns mecânicos, o pessoal que fazia as obras de arte que eram os bueiros da estrada de ferro, era tudo pego na própria região e o alojamento grande que era de chão batido e dormiam 30, 40 homens. Existia um gerador que funcionava até as dez horas da noite depois desligava e no outro dia ligava às seis horas da manhã e para despertar a turma tinha uma vitrola. Então quando ligava o gerador a vitrola começava a tocar, aí levantava todo mundo. P - Que música tocava? R - Tocava o Ébrio do Vicente Celestino, aquelas coisas. P - Nessa época no Pontal que obra estava sendo feita? R - A obra era na Estrada de Ferro Sorocabana. Tinha dois trechos um que pegava de Pirapozinho [SP] e ia até Terra Nova, e outro de Terra Nova até Rosana [SP], eram as obras que eu ficava. P - Mas o pai do senhor trabalhou como topógrafo, não é? R - Isso foi bem antes. P - Mas não era a Camargo Corrêa? R - Não, não era a Camargo. Eu fiquei lá, depois saiu a obra de Limoeiro [Usina Hidrelétrica de Limoeiro] em 1956, o senhor Deoclécio foi para usina, eu fui na frente com 16 anos tomando conta de 25 homens motoristas, lubrificador, tratorista, operador de máquina. Eu era o tesoureiro e ia com uma pasta com o dinheiro e chegamos ao município de Casa Branca [SP] depois de uma semana. Não tinha estrada, então a gente tinha que passar pela estrada de ferro, mas a estrada de ferro tem uma base de brita e ela fica na parte superior e não conseguiam levantar os escripes [tipo de maquinário]. Quando nós chegamos perto de Manduri [SP] tinha que atravessar a estrada, o operador não viu e no atravessar a estrada, ele arrancou o trilho da estrada de ferro. Ai meu Deus do céu Foi um para um lado, outro para outro com um pano até chegar à estação mais próxima dizendo que tinha sido arrancado o trilho e que precisava mandar arrumar. Aí chegamos na estação e pelo Código Morse comunicaram e seguraram os trens, aí nós passamos com as máquinas e viemos embora para Limoeiro. P - As máquinas eram transportadas pela estrada de ferro? R - Pela estrada de terra, não tinha tratores para transportar os escripes vinham tudo rodando demoramos uma semana e três dias para sair para frente da obra de Rosana até chegar em Limoeiro na divisa com Minas Gerais. P - Onde vocês paravam para descansar? R - A gente ia de jipe na frente e dependendo da cidade, a gente tocava até a hora do almoço. A Camargo Corrêa sempre foi organizada, ela nasceu organizada, o senhor Sebastião Camargo era um homem super organizado na verdadeira expressão da palavra, como funcionava o almoxarifado? Ele punha as peças que eram difíceis dentro de umas caixas, essas caixas a gente colocava uma caixa sobre a outra e ali já ficavam as peças e eram numeradas. E tinha um kardex onde você tinha o controle daquelas peças daquelas caixas. Então na hora de fazer a mudança, ele pegava aquelas caixas e nós numerávamos as caixas punha dentro do escripe e a gente sabia onde estavam as peças se quebrassem no caminho. Se no caminho quebrasse o parafuso da roda, aí você ia lá e falava: “O parafuso da roda está na caixa 27 da máquina seis.” A caixa 27 é a décima sexta caixa de baixo para cima e ficava fácil de se localizar. Então você ia lá pegava e substituía a peça e trocava. Então a Camargo Corrêa era organizada. Naquele tempo, dentre as empresas que tinham, todas elas eram pequenas, a Camargo Corrêa era pequena também, mas já era organizada, muito organizada. Então a gente quebrava as peças e substituía, aí você poderia me perguntar como é que ficava se quebrasse a máquina, deixava? Não, não deixava, consertava, então vinha o mecânico junto, vinha o pessoal junto e fazia o comboio, trazia e vinha embora. Eu vinha com o jipe na frente procurava um hotel, já sabia mais ou menos o horário que chegava, eu ia na frente mandava preparar o almoço para 30, 40, 50 pessoas, às vezes, não tinha num hotel só, não dava para fazer, porque as pensões eram pequenas e normalmente essas pensões ficavam perto da estação da Estrada de Ferro que era onde se concentravam os hotéis. Então às vezes a gente parávamos as máquinas longe, deixávamos um guarda e o pessoal subia em cima de um caminhão e vinha almoçar, aí voltava todo mundo, funcionava as máquinas, abastecia e continuava a viagem. P - Até chegar a outra cidade para pernoitar,? R - Pernoitar a mesma coisa, andava umas três ou quatro horas e na hora que começava a escurecer, nós pegávamos o jipe ia na frente, aí procurava os hotéis dividia o pessoal todo. Aí de manhã, tinha uns que eram mais preguiçosos e não acordavam, era assim: “Tá faltando fulano.” A gente ia atrás, ele tinha passado a noite na farra, tinha aprontado, aí saía, outro pegava as toalhas punham no pescoço por causa da poeira, e o dono do hotel vinha atrás de mim “a minha toalha” aí eu acertava com ele tudo direitinho, pegava as toalhas e vinha embora e assim nós íamos até chegar ao destino. P - Nossa Uma epopéia. Nessa época, o senhor já convivia com o Senhor Sebastião? Com o Sílvio Brand? R - Já. P - Como é que era o relacionamento dos dois juntos? Porque o senhor é uma das poucas pessoas que vai poder falar isso para gente. R - O senhor Sebastião era uma pessoa de uma capacidade de entendimento e de conhecimento incrível. Eu com essa idade que tenho, mais de 70 anos, eu nunca vi uma pessoa conviver com muita gente que ocupava cargos importantes e nunca vi uma pessoa como ele. Ele era uma pessoa que conversava pouco, era objetivo e definia as coisas dentro de instantes, dizia que o problema existente e não resolvido era difícil depois de resolver, se existia problema, resolva, se você deixar para depois esse problema pode se agigantar. Não fique em dúvida, se você tinha dúvida a respeito de algum funcionário, dispense. Para voce ter uma ideia, ele era de uma perfeição tão grande que o Campo de Marte aqui em São Paulo foi a Camargo Corrêa que asfaltou. Na época, os aviões que tinham eram o DC3, esses aviões vinham e quando aterrissavam que batia na pista, o asfalto saia e então fazia o buraco, porque não se tinha tecnologia. Aí o senhor Sebastião chegou lá, levantaram o problema para ele. Aí ele ficou sabendo que existia uma empresa chamada CAVO no Rio de Janeiro que tinha asfaltado toda a cidade do Rio de Janeiro. Era uma das empresas que mais conhecia de asfalto no Brasil, porque o Rio de Janeiro era capital federal, então tinha que ter um asfalto bem feito. Então o senhor Sebastião foi para o Rio de Janeiro para comprar um rolo compressor para poder fazer o Campo de Marte, porque o comandante da base já não queria mais subir em avião e aterrissar, porque podia bater, o pneu dar problema e acontecer algum acidente. O senhor Sebastião foi para o Rio de Janeiro e comprou um rolo compressor só que esse rolo compressor era antigo, muito antigo e só quem sabia operar esse rolo era um funcionário chamado Deoclécio Bispo dos Santos. Ele já era um funcionário antigo da CAVO, tinha 12 anos de empresa e, naquele tempo, existia a estabilidade, então a pessoa com dez anos era estável na empresa. Se a empresa quisesse mandar ele embora tinha que pagar o tempo em dobro. Então se ele tivesse dez anos tinha que pagar a indenização de 20 anos. O senhor Deoclécio era um desses homens e veio para São Paulo operou o rolo, ensinou o pessoal como fazia, mas o rapaz que ele ensinou e os outros ficaram doentes e aí parou, não deu continuidade. Aí o senhor Sebastião falou: “E agora?” Voltou para o Rio de Janeiro, aí pediu para o diretor da CAVO que emprestasse o funcionário para voltar e treinar. Aí o senhor Deoclécio veio para São Paulo e fez o asfalto, compactou tudo direitinho e aí o comandante da base aérea de Campo de Marte chamou o senhor Sebastião para experimentar a pista: “Você vai comigo, porque eu já estou cansado de subir e passar...” O senhor Sebastião falou: “E aí Deoclécio?” E ele:“Pode subir senhor Sebastião.” Ele subiu, aí o DC3 subiu, deu a volta em cima e bateu no chão, aí ele acelerou de novo e o avião subiu, aí ele deu outra volta, bateu e subiu de novo, aí quando o comandante desceu, desceu todo contente, abraçou o senhor Sebastião: “Parabéns pela pista, muito bonita.” Aí eles saíram e o senhor Sebastião olhou para o senhor Deoclécio e falou: “Você espera aí que eu preciso conversar com você.” Aí ele esperou e depois veio o senhor Sebastião, virou para ele e falou: “Você vai trabalhar comigo.” O Deoclécio falou: “Não posso, eu sou estável e depois ninguém me põe na rua, vai ter que me pagar em dobro.” A CAVO era uma empresa inglesa, então era multinacional. Ele falou: “Não, voce vem comigo e se eu for para frente voce vai comigo.” Aí o senhor Deoclécio pensou e veio para Camargo Corrêa. Então a seriedade, a clareza e a lealdade dele era tamanha que ele mandou fazer uma casa para o senhor Deoclécio na Rua Sóror Angélica, aqui em São Paulo, que é uma das travessas da Avenida Voluntários da Pátria, ali na esquina tem uma casa, tinha uma garagem assim. Mandou fazer uma casa para ele e quem projetou a casa foi um dos engenheiros da Camargo Corrêa, o doutor Amaral [Miguel Ângelo do Amaral Mello]. Ele mandou o doutor Amaral projetar a casa e aí nasceu uma amizade que durou muitos anos. Então esse aí é o senhor Sebastião, depois disso em Jupiá [Usina Hidrelétrica Engenheiro Sousa Dias, entre MS e SP], nós estávamos fechando o Rio Paraná e, na época, o pessoal da região com certa ignorância que era peculiar porque não havia os meios de comunicação que existem hoje, diziam: “O Rio Paraná, Deus fez e o homem não seca.” E nós precisávamos fechar o Rio Paraná para fazer a represa Jupiá e tinha os caminhões e à medida que o rio ia estreitando você ia aumentando o volume das pedras. Então começava com pedras pequenas e ia aumentando o volume das pedras à medida que o rio ia fechando, aumentava a velocidade e você precisava pôr matacões quase do tamanho do caminhão, os caminhões R20 eram os Ford Estrada da época. O senhor Sebastião foi fechar o rio e estava o diretor da CESP [Companhia Energética de São Paulo], o doutor José Dias, que era amigo dele e dizia para o senhor Deoclécio: “O caminhão vai cair.” O senhor Sebastião muito preocupado com todas as coisas que ele tinha, ele não abria mão disso, podia estar na frente quem fosse, ele se preocupava e não queria que nada acontecesse com suas coisas, com seus bens. Aí o senhor Sebastião puxava o engenheiro e perguntava: “O caminhão vai cair?” E o engenheiro:“Não, senhor Sebastião por enquanto não, mas existe a possibilidade.” E ele: “Mas não pode cair, não pode.” Aí o Doutor José Dias virava para ele de novo e falava: “Vai cair o caminhão.” Isso foi aborrecendo o senhor Sebastião e ele foi apertando o pessoal da Camargo Corrêa para não deixar o caminhão cair, aí veio um engenheiro e falou para ele: “Senhor Sebastião, se cair nós tiramos.” Aí o senhor Sebastião tomou um fôlego, virou para o senhor José Dias e falou: “Se cair, nós tiramos.” Aí virou aquela coisa de confraternização de preocupação de fechar o rio, mas num ambiente mais gostoso, mais saudável e conseguimos fechar o rio. E realmente caiu um caminhão que depois foi retirado foi feito uma ensecadeira por baixo e foi retirado o caminhão, porque a pedra era muito grande e enroscou na caçamba e quando basculou a pedra saiu junto com o caminhão. Caiu o caminhão, mas tirou e depois ficou tudo tranqüilo. Depois ele ficava lá no código Morse, perguntando se tinham tirado o caminhão: “Ah, tirou.” “Ah, que bom.” Depois ele queria ver o caminhão. P - Ele acompanhava pessoalmente? R - Acompanhava. P - A gente está falando de que época mais ou menos senhor Rufino? R - Isso aí foi no fim da década de 60. P - O senhor Sebastião devia ter quantos anos mais ou menos? R - Ah devia ter uns 50 anos. P - Como é que era o senhor Sebastião nessa época? R - O senhor Sebastião era agradável com seus amigos, era um homem de pouca conversa, sério, respeitava todo mundo, mas quando ficava bravo não adiantava... Para se ter uma ideia em outras obras, ele chegou um dia na obra e encontrou parafuso, sucata, prego no chão e tudo novo sem uso e aquilo foi deixando ele irritado. À medida que ele andava, encontrava aquilo, aí chegou num certo ponto, ele começou a catar e falou para o engenheiro chefe da obra: “Abre a mão.” E pôs em cima da mão dele. Aí virou para ele porque nós estávamos todos juntos, virou para ele e falou: “Você está sendo pago para cuidar do que é meu.” A partir desse dia você não encontrava mais nada no chão. Então os desperdícios não é o que foram eliminados, porque não tem como você eliminar, mas foram extremamente minimizados. Então era um homem assim, fazia essas coisas. Em Tucuruí [PA] quando nós chegamos, a obra era difícil, precisava mandar gente boa para fazer a obra, uma obra muito grande, uma obra de engenharia, de técnicos altamente capacitados, experientes. Então precisava levar essas pessoas para obra e permanecer na obra, não era ir na obra e voltar final de semana, não tinha como. Tinha que permanecer na obra. Eu era o responsável pela vila residencial onde tinham as escolas, onde tinha o hospital, a segurança, a manutenção das vilas e administração das vilas que eram seis mil casas divididas em três Vilas Temporária um, Temporária dois e a Vila Permanente e supermercados. O custo da refeição, no início era muito caro, porque tudo se comprava em Tucuruí, então para vir de São Paulo era muito difícil, porque tinha que vir a Belém [PA] de balsa. Então o pessoal da região mantinha um certo estoque e dava para nos atender, mas eles abusavam no preço. Aí o que aconteceu? O senhor Sebastião chegou para mim e falou: “O custo da refeição está muito alto.” Eu falei: “De fato está, senhor Sebastião.” E ele:“E o que você está fazendo?” Eu falei: “Nós vamos ter que montar algum sistema aí de abastecimento.” Tinha no projeto de Tucuruí, a montagem de um supermercado, só que esse supermercado devia ser de terceiros, e a Camargo não queria porque era muita nota, muita coisa, podia ficar alguma coisa sem pagar e depois envolveria o nome da empresa. E não podia passar em nome de terceiros porque ele não queria, então era um drama e eu falei com ele: “Nós temos que montar um supermercado.” Ele disse: “Mas tem que ser terceirizado?” Eu falei: “Mas enquanto não for a gente tem que tentar.” Ele falou: “Tudo bem.” Aí montamos, ele mandou o dinheiro, mas só que esse dinheiro que ele mandou era difícil porque tínhamos que manter o estoque, vendíamos a prazo pros empregados para descontar na folha de pagamento, mas quando eles chegavam, não tinham nada, chegavam sem dinheiro, então não tinha como comprar, tínhamos que vender fiado no supermercado. Aí foi vendendo fiado e o dinheiro acabou, tinha um estoque, não recebia e precisava repor o estoque daquilo que tinha vendido e era duro, passamos uma série de dificuldades com isso. Mas montamos o supermercado, depois deu tudo certo e ele chegou para mim: “Olha, eu vou trazer pessoal experiente, um pessoal capaz, as famílias vêm para cá, o que eles têm de melhor possivelmente trarão que é a sua família, seus filhos e você vai ser o responsável por isso.” Olhava para mim e apontando o dedo dizia: “Não quero que nenhuma família saia daqui com filho drogado, não quero, não quero” E eu: “Sim, senhor.” E ele: “Faça o que for preciso fazer, do jeito que vierem para cá que retornem quando a obra terminar.” Eu pensei: “Nossa Senhora” E ele:“O que você precisa?” Eu falei: “Se o senhor está dizendo, o senhor já me deu ordem, acabou.” Ele falou: “Está aqui o número do telefone da minha casa e da portaria da minha casa, esse telefone pouquíssimas pessoas têm, se você precisar, me liga.” Graças a Deus eu nunca precisei ligar, eu saí de lá e nunca teve problema, as seis mil casas, quase 40 mil pessoas. Deu trabalho, trabalhamos dia e noite sem parar e aparecia um ou outro casinho nos alojamentos, mas a gente já pegava logo no início. Mas nas vilas desde os mais humildes até os mais importantes, os seus filhos que vieram retornaram às suas origens do jeito que chegaram, sem droga. P - Maravilha. Vamos retomar um pouquinho a carreira do senhor, o senhor estava falando que chegava a usina de Limoeiro com 16 anos. Qual era o grande desafio de Limoeiro? R - Em Limoeiro, o desafio era fazer barragem que já havia estourado umas duas vezes, então existia um engenheiro chamado José Augusto que era o responsável pela CHERP, naquele tempo não era CESP, cada rio existia uma empresa que fazia as construções, e a do Rio Pardo era CHERP Companhia Hidrelétrica do Rio Pardo, e assim eram todas, do Tietê, do Paranapanema. O senhor Sebastião era um homem super inteligente, de uma vivacidade e ele gostava de fazer o melhor, a questão de cobrança de preço isso era outra coisa, nós tínhamos que ser os melhores, ele não aceitava que não fossemos os melhores, então recursos, tudo era para sermos os melhores e para fazer a usina de Limoeiro, a gente não sabia fazer barragem, a gente tinha feito uma barragenzinha numa refinaria de petróleo em São José dos Campos, na região do Vale [do Paraíba]. E ele tinha uma máquina chamada Cedarapids era pneu com compactação, cada compactação daquela dava 30 toneladas. Como o desafio era fazer a barragem, o senhor Sebastião mandou chamar junto com o professor Mendes da Rocha [Paulo de Menezes Mendes da Rocha], eu não me lembro mais do nome, o professor Casagrande, um engenheiro português [professor Arthur Casagrande], que era a maior autoridade em barragens do mundo. Era para ensinar a gente a fazer barragem de terra, aí ele veio ensinou e nós fizemos a barragem de terra de Limoeiro. Era um grande desafio, porque o túnel que foi feito era relativamente pequeno, não existiam dados hidrológicos, na época, que dissessem qual era a vazão do rio. Era só chegar num lugar, e a gente perguntava: “Como é que parava?” Os moradores antigos falavam: “Ah, a água chegou aqui.” Um outro falava: “A água chegou ali.” Então não existia registro, e por essas informações foi feito o túnel. Só que apareceu uma tal de “enchente das goiabas”, como eles chamavam, porque o Rio Pardo corre num cânion, e passou, entupiu o túnel e passou por cima de tudo, aí depois que a Camargo foi para fazer a barragem e veio então o Casagrande, esse engenheiro português uma das maiores autoridades em barragem do mundo para nos ensinar a fazer barragem. P - Qual era o seu trabalho em Limoeiro? R - Isso aí era interessante, porque eu quando fiz o ginásio, eu tive um professor excelente de Ciências formado pela USP [Universidade de São Paulo] e ele deu umas aulas de atrito, dizia que não existia superfície plana, e aquilo me pegou de tal forma que eu fiquei super admirado e gravei. Ele ensinou a fazer uma graxa para superfície, porque a superfície quando em contato com as outras, ela não se desgasta, se desgasta, mas um pouco menos. E citou, inclusive, o problema da roda do trem, a têmpera da roda do trem que roda sobre o trilho com o atrito e não desgasta, e aquilo foi me marcando. Eu fui para obra, trabalhar no suprimento fui fazer os mapas de combustíveis e lubrificantes, era o custo na época de combustíveis e lubrificantes. E em Euclides da Cunha Paulista [SP] tinha uma rampa muito forte pras máquinas descerem e usava muito o freio, o pessoal pisava muito no freio e aquecia, não dava tempo de lubrificar e fundiam os rolamentos, porque descia toda a subida no freio, não podia descer o escripe porque fazia buraco na pista, então tinha que ser no freio mesmo. E aquilo esquentava de tal forma que os rolamentos quebravam, aí mandaram buscar, trouxeram os rolamentos, eram importados, vieram dez rolamentos, trocaram os dez e as máquinas paradas, depois quebraram os dez rolamentos e tiveram que pedir mais, e demorou. Eu cheguei para o senhor Deoclécio e falei: “Eu sei fazer graxa.” E ele: “Vai para lá, você não sabe nada, vai cuidar do seu serviço.” Eu “pus o rabo entre as pernas” [abaixei a cabeça] e fui embora e as máquinas continuaram paradas. Chegou a noite, eu falei: “Eu sei fazer graxa.” E ele: “Some daqui.” Chegou na terceira vez quando quebrou já não tinha mais rolamento porque era importado, aí veio uma remessa, eu falei: “Eu sei fazer graxa.” Ele falou: “Mas será o possível, esse cara está insistindo, o que você vai fazer?” Eu falei: “Eu preciso de pó de chumbo, pó de cobre, litargírio, uma porção de coisas que eu tinha aprendido no ginásio, óleo mineral puro, e então eu faço a graxa e o senhor põe. E ele: “Ah, mas por que você acha que isso dá certo?” E eu:“Porque resíduo disso aqui é lubrificante, então mesmo que queime isso aqui continua lubrificando e dá tempo do senhor fazer nova lubrificação.” Aí ele pensou bem e falou: “Tá bom, vê o que você precisa, pega o jipe e vai para São Paulo.” Como eu tinha trabalhado em Guarulhos, aí ele me arrumou um motorista, eu vim para São Paulo, comprei as coisas e voltei para fazer a graxa. Aí ele pôs nas máquinas e as máquinas desciam. Aí eu fiquei 20 anos na lubrificação, fiz Economia, porque ele mandou fazer, fiz a Escola de Comércio em São José do Rio Pardo, depois teve o vestibular em Ribeirão Preto, de 64 pessoas que prestaram exame, quatro passaram e eu fui um deles. Aí fiz Economia, mas fiquei na lubrificação, porque eu tinha feito essa graxa. P - Quem incentivou o senhor a estudar? R - O senhor Deoclécio e o senhor Sebastião, ele falou: “Você vai estudar.” Aí pagaram parte da faculdade. P - Deixa eu retomar uma pergunta que eu acho que ficou pendente e aquele study backer preto de Guarulhos, quem era? R - O study backer era do senhor Deoclécio, ele queria ver se realmente estava carregando o caminhão, se o caminhão ia sair na segunda feira. Então para ele não tinha feriado, dia santo, domingo não tinha nada. Eu aprendi a trabalhar com ele também dessa mesma forma, eu trabalhei na Camargo Corrêa e ficava à disposição dela 24 horas por dia e não fazia questão, era um prazer não é que ninguém mandava. Eu levantava às quatro horas da manhã e ia para obra, levantava às duas não tinha sono e ia para obra, dava uma volta e vinha para casa e assim ele fazia também, o study backer era dele, e ele ficava olhando, por isso que ele chegou no outro dia e me levou para obra. Para se ter uma ideia da dignidade tanto dele quanto do senhor Sebastião, naquela época, o sistema único de saúde sempre foi uma porcaria, imagina há 40 anos, era pior ainda porque o que existia era o IAPI [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários.], IAPC [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários] , IAPTEC [Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas], IAPB [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários], os institutos, então era instituto de aposentadoria dos comerciários, dos transportadores, dos bancários e etc. E nessas obras, a gente ficava doente, então o senhor Deoclécio falava com o senhor Sebastião e mandava para São Paulo, era tratado e nunca cobrou nada de ninguém, nunca. Então você tinha muito orgulho de trabalhar na Camargo Corrêa, porque a Camargo Corrêa nunca pagou um salário atrasado enquanto eu trabalhei nela, eu nunca recebi atrasado. Ela nunca deixou de pagar os seus fornecedores, e “ai” daquele que deixasse de pagar uma promissória, uma nota fiscal por relaxo ou por lapso ou por descuido, seja o que fosse, não podia deixar de ser pago as duplicatas da Camargo Corrêa, era rua: “Ah, mas acontece em toda empresa.” “Na minha empresa, eu não quero que aconteça”, ele dizia. P - O senhor sabe de algum caso que tenha atrasado? R - Aconteceu uma vez em Limoeiro, atrasou uma duplicata e o chefe do escritório era um sujeito antigo, um sujeito muito bom, muito capaz, mas a nota foi direto para o Banco, para cobrança e não foi paga. Chegou ao ouvido do senhor Antonio Giuzio que era o tesoureiro, meio violento até certo ponto, era bravo e ele passou a mão no telefone e ligou lá para Limoeiro e falou para o chefe: “Você é burro.” E o homem tirava o telefone, eu estava junto com ele, eu ouvia os gritos: “Você é burro, tem dinheiro por que não paga? O que está acontecendo? Por que você não paga? Vai pagar agora.” E essa foi uma das causas, ele era um dos mais antigos e passou isso pros outros funcionários e foram passando de um para outro, de que não podia atrasar. Como o senhor Sebastião exigia isso, essa correção de dignidade, de respeito, se ele comprava mercadoria tinha que pagar e se tinha dinheiro por que não pagava? E isso aí era muito bom para nós, uma empresa que ficou conceituada no Brasil inteiro por isso, o que se comprava, pagava. Os empregados da Camargo chegavam naquele dia recebiam o pagamento, então você chegava numa loja em Três Lagoas [MS] para comprar alguma coisa e todo mundo queria vender para quem trabalhava na Camargo Corrêa porque sabia que recebia e se não pagasse era só avisar o escritório que mandava descontar no pagamento. Se a senhora comprasse uma coisa e trabalhasse na Camargo Corrêa e não pagasse, se alguém fosse avisar a Camargo que a senhora não tinha pago, era descontado no seu pagamento e se a senhora achasse ruim devolvia o dinheiro para senhora e dispensava. Então obrigava os funcionários da empresa a serem corretos, então é muito difícil encontrar um empregado antigo da empresa que não valorize, que não goste da empresa, porque o senhor Sebastião queria assim. P - Qual foi a primeira vez que o senhor encontrou o senhor Sebastião? R - A primeira vez foi lá na cabaceira, da Estrada de Ferro Sorocabana, era um acampamento que tinham 40 pessoas num alojamento e o senhor Sebastião chegou um dia para inspecionar a obra para ver como é que estava. Ele tinha também uma empresa, que ele fundou em Rosana [SP], chamada Camargo Corrêa Ribeiro [Imobiliária e Colonizadora Camargo Corrêa Ribeiro S/A]. Eu ficava junto com o senhor Deoclécio, ele chegou e cumprimentou o senhor Deoclécio, depois foi jantar, comeu uma leitoa. Tinha uma cozinheira chamada Lurdes, uma baiana, ela fazia uma leitoa à pururuca que ele se deliciava e ficava conversando. Se conversava muita coisa a respeito. Nada para ele era impossível, se você não fizesse era porque não queria fazer, se não dava de um jeito, dava de outro, mas nada era impossível. “Ah, não dá para fazer”, não usasse esse termo para ele. E sim: “Vamos ter dificuldade, mas vamos fazer isso, vamos fazer aquilo.” Uma vez em Limoeiro, quando teve o problema do rio transbordar, tinha uma escavadeira fazendo a limpeza. Estávamos eu, o senhor Deoclécio e ele, eu quieto, não falava nada, quando ele perguntava alguma coisa, respondia, esse era o papo que eu tinha com ele, ele perguntava sempre e eu “sim senhor, não senhor”, com todo o respeito que ele merecia. E começou a formar um tempo muito forte de nuvens pesadas e tinha uma escavadeira lá em baixo trabalhando, aí ele chamou o senhor Deoclécio e falou: “Deoclécio tira a escavadeira daí.” “Mas senhor Sebastião trazer as escavadeiras para cá?” Ele virou e falou: “É para tirar Deoclécio, você não sabe o que tem lá em cima.” Aí o senhor Deoclécio olhou para ele e falou: “O senhor tem razão.” Porque a nuvem era muito pesada e como o rio era num canion, poderia acontecer alguma coisa e levar a escavadeira dele. Então ele via essas coisas. P - Ele gostava de maquinário? De tecnologia? R - Gostava. Quando ele comprou as máquinas para fazer a terraplanagem de Jupiá, nós tínhamos umas máquinas velhas que eram as DW20 e o que era máquina DW20? Era uma máquina com quatro pneus, duas rodas na frente e duas atrás. Então era uma máquina para lugares relativamente planos, não eram máquinas para lugares alagados, porque ela patinava. As máquinas de duas rodas, você girava de um lado, girava de outro e ela saía. Então essas DW20 eram máquinas de alta produção, mas em lugares sem barro, sem nada e as máquinas foram ficando velhas. Aí ele comprou as máquinas 631 e achava que nós poderíamos ter alguma dificuldade de operar e tinham operadores muito bons, formados dentro desse critério de respeito, de fazer as coisas direito, de operar de não judiar das máquinas. Aí ele mandou trazer um pessoal dos Estados Unidos para ensinar operar e o pessoal que aprendeu com os nossos aqui. Mas se ter uma idéia, antigamente as máquinas eram todas a cabo, não existia sistema hidráulico. Então esses cabos consistiam de uma roldana na lâmina em baixo, você puxava e aqueles cabos enrolavam e suspendia a lâmina e os escripes também. Então subia a parte traseira do escripes, puxava com outra alavanca empurrava o taipá para frente, jogava a terra fora e ia embora. O operador, às vezes, era meio safado, estava cansado, e grudava naquilo ali e puxava, aquilo esquentava e ia até arrebentar, parava a máquina e aquilo pegava fogo e não tinha como você trocar, tinha que esperar esfriar. Chegou um tempo o senhor Deoclécio, chamou eles lá e falou: “A partir de hoje, o operador que quebrar o cabo, ajuda a trocar na hora, se quebrou o cabo e não ajudar, venha ao escritório e peça a conta ou então eu mando embora...” Diminuiu em 50, 60% a quebra dos cabos e os operadores tinham que ser bons para nivelar os tratores com os guinchos de cabo. Então tinha hora que subia demais, outra hora descia de menos, o ideal era que se controlasse, ia devagarzinho no alto, sobe e desce e assim ele fez. As máquinas antigas, tinham motores auxiliares, os tratores, não tinham motor na partida, então tinha um motor auxiliar do lado dos D7, D8 que eram motores a gasolina, tinha que funcionar os motores a gasolina para funcionar o motor grande. Se não funcionasse, você chegava lá dava a partida e funcionava o motor grande. Então era muito complexo, o pessoal precisava saber muita coisa. Daí à medida que foi o processo foi evoluindo e hoje você pega uma máquina enorme como essas de mineração você dá a partida, aperta o botão e sai funcionando. P - Tinha algum fornecedor que era preferido? Principal fornecedor de maquinário e essas coisas? R - Ele só comprava máquina Carterpillar, porque era fácil de peça, se diversificasse muito, tinha que ter várias reposições. Então a Camargo Corrêa durante o tempo que eu trabalhei nela, trabalhei com muito respeito, com muita alegria. Eu fiquei uma vez, 12 anos sem tirar férias, não é porque eu não queria tirar férias é porque existia uma pessoa para cada função, então se você saísse, aquele serviço deixava de ser feito, tinha que tirar outro e o outro ficava descoberto. Então tinha uma pessoa para cada função, então você trabalhava com alegria, trabalhava com prazer, porque a empresa era boa. Você recebia o salário em dia, via os exemplos de alguém que ficava doente e vinha para São Paulo. Era uma empresa maravilhosa, a Camargo Corrêa não foi feita no grito é uma empresa que foi feita com trabalho, com dedicação, com respeito aos seus funcionários, aos terceiros, aos seus fornecedores, aos seus clientes. Ela sempre foi uma empresa que respeitou a todos. Ganhou dinheiro, tinha que ganhar dinheiro, não se podia fazer nada de graça, porque depois da obra pronta, você nem nela passa mais, eles fecham a cancela e não deixam você passar, talvez nem o senhor Sebastião entrasse. Então você quase morria de trabalhar na obra e depois não podia entrar, então é complexa a situação. Então é uma empresa que fez, o senhor Sebastião sempre procurou diversificar, já existia, na época, a empreiteira de Cumbica, a Reago, então ele sempre procurou diversificar e montar um império. É difícil, é muito trabalho, é muita dedicação, é muita noite de sono perdida, porque você está aqui e a máquina está trabalhando. Você mora no alojamento, mora na vila, as máquinas trabalhando, ela para de funcionar, você acorda, a máquina parou, o que aconteceu? Então você fica dia e noite ligado. P - Além dessa mobilização toda com os funcionários o que movia o senhor Sebastião a montar esse império? A querer mais? R - É de cada pessoa. Ele tinha isso como princípio, como método, ele não aceitava desperdício, a luz tinha que ser apagada, saía apagava a luz. E ele fez esse império, muito difícil. Às vezes, ele falava: “Eu gostaria de estar na obra com vocês.” Antes dele crescer, antes de ser gigante, dizia: “Eu tenho que ficar na porta dos bancos, na porta dos banqueiros atrás de dinheiro.” Ele dizia: “Eu gostaria de ficar mais aqui, mas não posso, precisa de dinheiro para poder tocar.” Você fazer um império é dificílimo, para você manter como estão mantendo hoje é mais ainda. Hoje, a Camargo Corrêa cresce, todo dia ela tem crescido, daquela época para cá ela cresceu bastante também. Então os acionistas souberam tocar, souberam administrar. E continua crescendo. É uma empresa que sempre respeitou todo mundo. Essa obra de Tucuruí [PA] a respeito das famílias, lá também não podia ter prostituição, porque era uma comunidade fechada, o pessoal ia trabalhar e ele dizia: “Quando o pessoal for trabalhar, tem que estar pensando só no trabalho dele Rufino, ele não pode estar pensando que a casa dele está suja, que o quintal está sujo, que o filho não tem escola, que não tem coisa para comer, ele não pode pensar em nada disso e vocês tem que cuidar disso.” Então quando ele desce para obra, ele desce tranquilo porque atrás dele tem uma estrutura cuidando para que ele trabalhe e trabalhe bem. E o senhor Sebastião falava: “Você entendeu Rufino?” E eu: “Entendi, sim senhor. E assim era. P - Em sua opinião por que ele tinha tanto cuidado com o funcionário? Com a família dos funcionários? R - Porque eu acho que ele, quando jovem, deve ter sentido algumas dificuldades que ele passou e superou. Naquela época, os burros de carrocinha, davam volta e às vezes sumiam. Porque tinha o burro na frente e a carroça atrás, a carroça era basculante, então você enchia e depois ela descarregava, aí o burrinho seguia na frente e ia aquela fileira de burro seguindo, quando chegava lá na frente o burro cismava, era mais inteligente, de burro era só o nome, ele cortava a frente dos outros e passava vazio, quando o feitor ia descarregar estava vazio, aí dava umas bordoadas nele, ele voltava, entrava novamente na fila, descarregava e de vez em quando outro burro fazia a mesma coisa. E quando chegava na hora do almoço, aí tirava as carrocinhas e deixava o burro solto para descansar um pouco. Depois, das carrocinhas faltavam três, quatro e ia procurar aonde estava? Estavam debaixo das asas do avião, na sombra, aí ia lá, dava umas bordoadas neles, e eles vinham pras carrocinhas. Então o ser humano é isso, isso é difícil de entender e ele entendia bem, então não ficava dúvida, as coisas com ele eram certas e não deixava ninguém em dúvida. P - Por que o senhor fez faculdade? Como é que o senhor conseguia trabalhar tanto assim e fazer faculdade ao mesmo tempo? R - Quando chegava, na época das obras de Limoeiro, Euclides da Cunha e Graminha [Usina Hidrelétrica de Caconde, conhecida como Graminha / SP] não tinha peça, peça era só em Ribeirão Preto. Tudo que precisava para obra era de Ribeirão Preto, lá ficava oxigênio, a Carterpillar, as peças dos caminhões. Então eu ficava em Ribeirão Preto fazendo essas compras, de vez em quando eles se lembravam de mim lá, aí me mandavam voltar. Mas para eu fazer isso, para entregar essas peças para chegar na hora do jeito que eles queriam, o doutor Antonio Giuzio que era o engenheiro mecânico, pedia de manhã, eu passava na Carterpillar comprava essa peça, punha no ônibus e mandava entregar na obra. Para o motorista do ônibus, eu dava uma parte do meu salário para que ele chegasse lá e fosse entregar na obra. Então a peça era pedida de manhã e a tarde estava na obra, mas só que isso eu não contei para ninguém, aí de vez em quando, ele mandava alguém me substituir e as peças não chegavam. Aí perguntavam para mim “E aí? Eu peço e não chega. Você vai lá e a peça chega no mesmo dia?” Eu falava: “Eu não sei.” O Lazinho, era o cara que me substituía, ele dizia: “Vai para lá, ele compara peça e não chega a peça aqui? O que está acontecendo?” Eu falava: “Não sei.” Aí eu ficava lá na obra uns dois, três dias e mandavam de volta para lá [em Ribeirão Preto]. Mas eu pagava com meu salário, o motorista da empresa de ônibus, chamado Herculano. Eu dava uma parte do meu salário para ele entregar a peça, eu ficava numa pensão e assim consegui fazer faculdade. Aí depois me chamaram para ser gerente administrativo de Jupiá, mas não aceitei, o senhor Deoclécio não deixou, fiquei como lubrificador por 20 anos. É assim a vida. P - Você foi para Jupiá, depois Ilha Solteira [Usina Hidrelétrica Ilha Solteira – SP] e depois para Tucuruí? R - Não, de Ilha Solteira eu fui para Água Vermelha [Usina Hidrelétrica de Água - abrange os municípios de Indiaporã-SP, Ouroeste-SP e Iturama-MG]. Eu fui um dos primeiros a chegar em Água Vermelha, tinha uma cidade em Minas Gerais que chamava Iturama, era a cidade mais próxima e, naquela época, eu fui como chefe de vila, saí da lubrificação em Ilha Solteira, e fui como chefe de vila. Eu tomava conta das vilas de Fernandópolis [SP]. Nessa época, o Laudo Natel [Governador de São Paulo entre 1966-67 e 1971-75], para desenvolver, espalhou um núcleo nas cidades de Indiaporã, Ouroeste, Guarani d’Oeste e Fernandópolis e lá em Minas Gerais, na cidade de Iturama, que também o governo de Minas queria. Então eu tomava conta dessas vilas todas, e como fui um dos primeiros a chegar, a gente morava em Iturama, mas para sair de Água Vermelha para Iturama tinha 27 colchetes, então saíamos para almoçar, quando chegávamos lá já estava na hora de voltar. O colchete é uma porteirinha de arame que divide uma fazenda da outra, então a gente descia e subia, aí nós compramos umas bolas de mortadela e punha no pão, numa árvore. Em Água Vermelha [Usina Hidrelétrica Água Vermelha ou Usina Hidrelétrica José Ermirio de Moraes entre Iturama/MG e Ouroeste/SP], ainda existiam os móveis na casa do Ademar [Adhemar Pereira de Barros, foi prefeito da capital e governador de São Paulo entre os anos de 1947 a 1966], a gente não podia entrar na casa, a piscina interna foi aterrada, a decoração de cada janela que se abria era uma parte da Cachoeira dos Índios, tinham molduras pretas em volta da janela, era como uns quadros ao vivo. Em Iturama, o prefeito queria que a gente fizesse as casas onde era a zona de prostituição. Nós tínhamos que tirar a zona de prostituição do local para poder fazer as casas, tivemos que fazer a negociação com as mulheres, íamos para lá e discutíamos: “Não, mas eu não quero, porque não vai ficar bom.” E nós: “Vai ficar bom, nós vamos fazer direitinho.” “Ah, mas o pessoal não vai lá.” “Vai do mesmo jeito.” E assim foi, no fim nós conseguimos tirá-las e fazer as 100 casas que o Laudo Natel havia prometido para o Governo de Minas Gerais. Em Tucuruí, também tinha o problema com uma área de prostituição chamada Escorre Água porque ficava numa baixada, à medida que a obra foi crescendo nós chagamos a ter 17 mil alojados. Era muito grande, então a necessidade fisiológica dos homens da obra era imensa, não dava, era briga toda hora. Então o que a Camargo Corrêa e a Eletronorte [Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A] fizeram? Fizeram um lugar no Quilômetro 4, lá ficou chamado de quatro, então foram feitas as casas, foi feito tudo direitinho para elas [da área de prostituição] para o pessoal ir para lá. Uma vez por semana, ia um médico fazer exame para ver como é que estava, dava remédio, um serviço exaustivo, fazia todo sistema de prevenção das mulheres. Os médicos da empresa iam lá fazer exames, faziam aquelas filas e as que estavam doentes faziam exame de sangue, dava remédio, ensinava a se higienizar, porque às vezes eram pessoas jovens e não se higienizavam direito, saía um, entrava outro e virava aquela coisa. Então a assistente social ensinava direitinho. Mas era muito difícil, quando nós chegamos, o pessoal em Tucuruí não sabia comer com garfo, comiam com a mão. Nós fomos distribuir os copos de aço inox para poder tomar água porque era um calor imenso, eles carregaram os copos tudo, porque achava que no dia seguinte não ia ter copo. Eu chegava nos alojamentos pegava uns copos, mas os outros levavam, os garfos... Eles ficavam com medo de não ter garfos, eles dobravam os garfos, faziam tipo de uma presilha e enfiavam no bolso. Então cada um tinha seu garfo, achavam que não ia ter garfo só que alguns perdiam e chegava na hora e não tinha. Então até você educar esse pessoal a devolver a bandeja era muito difícil, mas é uma empresa boa, eu me sinto feliz de ter trabalhado nela, me sinto bastante feliz, até hoje eu faço algum serviço para ela com orgulho. P - Com relação a essa questão da saúde em Tucuruí, como que é lidar com as doenças tropicais? R - As doenças tropicais existiam, na época, a equipe da Sucam [Superintendência de Campanhas de Saúde Pública] fez a dedetização de toda a região. Se enganava, o pessoal que achava que a Amazônia era plana. Não é plana. O acampamento de Tucuruí é cheio de altos e baixos porque as árvores nos pés da serras, crescem mais, então como ela cresce mais, ela se iguala quando chega em cima. Na hora de desmatar você vê que ela não é plana, então o acampamento era cheio de altos e baixos. As doenças tropicais eram tratadas dessa forma, tinha problema de leptospirose, porque para fazer um acampamento daquele tamanho, tinha trabalhadores de subempreiteiras de todos os tipos e eles comiam com marmitex e jogavam resto de comida em qualquer lugar. Então o que acontecia? Foram aparecendo verdadeiros criadouros de ratos, aí foi contratado um sujeito chamado Renato Ratão que era um cara especialista em rato. Ele fazia as iscas, mas o rato é inteligente, ele come a isca e depois avisa os outros, ele morre e os outros não comem mais. Então você joga a isca, come um ou dois e depois os outros não comem mais, porque um avisa o outro. Então o que o Renato fazia? Ele jogava as iscas sem veneno, aí limpava aquilo, depois ele jogava com veneno. Um dia, no HTB, Hotel B de Tucuruí, foram mortos 726 ratos que ele contou, encheu uma caminhonete e eram ratazanas enormes. E as doenças tropicais existiam, a leptospirose, a Leishmaniose. Era complicado. mas tinha especialistas em doenças tropicais, o pessoal mesmo da região, médicos especializados nisso. P - Voltando a falar do senhor Sebastião. Como ele tomava as decisões dele? R - Era exposto o problema para ele e ele decidia. P - Na hora? R - Na hora. Às vezes, na maioria dos casos, quando o pessoal passava o problema para ele, já passava dizendo o que tinha sido feito, que providências já estavam sendo tomadas pelos próprios engenheiros. Então tinha um problema: “Está assim, assim...” “Mas por que está assim?” “Olha está assim por isso, isso e isso.” “Então como vai fazer?” “Ah, nós já avisamos fulano de tal e ele está tomando as providências.” Aí depois ele ia cobrar. P - Mas ele anotava? Ou ele se lembrava de cabeça. R - Ele lembrava de cabeça, cobrava e aí daí a pouco vinha a resposta como é que estava. Ele tinha uma cabeça sensacional. P - Fora do ambiente de trabalho, o que o senhor Sebastião gostava de fazer? Tinha alguns momentos de lazer que o senhor conviveu com ele? R - Trabalho. E isso, ele passava para gente. Ele não tinha medo de nada, era um homem destemido e a seriedade dele com que tratava as coisas, tratava sério o peão, tratava sério o engenheiro, tratava sério todo mundo. Ele não nivelava nem por baixo e nem por cima, ele tratava todo mundo muito bem. Era isso. P - E se a gente fosse definir o espírito empreendedor dele como que a gente definiria? R - Ah, o maior empreendedor do século XX, o maior empresário do século XX no Brasil ou talvez na América Latina, porque fazer o que ele fez, conseguir o que conseguiu, manter o nome que manteve durante o tempo em que estava vivo, É o maior empreendedor do século XX no Brasil, não tem Antônio Ermírio [Antônio Ermírio de Moraes], não tem outros, porque os outros já partiram de famílias relativamente abastadas, e ele veio de um processo mais humilde. Várias empresas, várias revistas tentaram colocar isso e ele não deixava, mas foi o maior empresário do século XX, você procura em todos os anais, todas as histórias do país, não houve outro empresário no país como o senhor Sebastião. P - Maravilha. Quero agradecer o senhor em nome do Museu da Pessoa, do Centro de Memória Camargo Corrêa, do senhor ter vindo até aqui. R - Eu que agradeço de participar, o senhor Sebastião era uma pessoa muito querida, a Dona Dirce, os meninos como ele chamava, o Caco que é o Carlos Pires [Carlos Pires Oliveira Dias], o Luís Nascimento [Luiz Roberto Ortiz Nascimento], o Fernando [Fernando de Arruda Botelho], as meninas [Rosana Camargo de Arruda Botelho, Renata de Camargo Nascimento e Regina de Camargo Pires Oliveira Dias], eu acho que hoje já são até avós. Elas iam às obras também quando podiam. P - Ele chamava assim “os meninos, as meninas”? R - As meninas e os meninos, porque você que tem filhos sempre vai ser os meninos. Vai ser sempre pequeno.
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