Naquele tempo, o mundo não era feito de asfalto, mas de poeira e infinito. Éramos cinco cavaleiros da areia, desenhando cisnes gigantes no chão, criaturas que pareciam ganhar vida e bater asas assim que o vento soprava. Viver no "meio do nada" era, na verdade, viver no meio de tudo: o mato era nosso império, e o céu, nosso teto de diamantes.
À noite, o cenário mudava para um filme de época. Sob a luz vacilante do lampião, o mundo ganhava um tom sépia, romântico e profundo. Eu gritava pela minha tia aos céus, e o eco das estrelas era o abraço que me acalmava. Mas, como em toda boa trama, o paraíso tinha seus dragões. Ou melhor, suas serpentes.
Enquanto o romantismo brilhava lá fora, dentro de casa a comédia virava um suspense de roer as unhas. Imagine a cena: três irmãos espremidos em uma cama de casal, tentando decifrar o silêncio. No teto de palha e barro, o perigo rastejava.
Não era uma gota de chuva. Era uma cobra. Caída do teto, direto no lençol. O que se seguia era uma coreografia digna de um circo caótico: eu pulava para a rede, a rede balançava, o medo crescia, e eu voltava para a cama. Era um sacrifício noturno, uma vigília onde o menor ruído transformava a noite em uma eternidade. Estávamos presos em nossa própria aventura.
Certo dia, busquei refúgio no meu santuário: o pé de umbuzeiro. Ali, eu não era apenas uma menina; eu era uma mestre de artes marciais, vivendo meu momento Shotokan. Subi nos galhos, fechei os olhos e deixei o cheiro da natureza me levar. Eu estava voando.
Até que o som de algo raspando na madeira me trouxe de volta à terra.
Abri os olhos e lá estava ela. Uma serpente, deslizando com a confiança de quem é dona da árvore. O pânico não é silencioso; ele grita no sangue. Fui me arrastando para trás, o galho foi acabando, o mundo inclinou e... chão.
O impacto não foi o fim, mas o início de uma maratona olímpica. Ela pulou atrás de mim. Eu, num giro grotesco e heróico, levantei e...
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Naquele tempo, o mundo não era feito de asfalto, mas de poeira e infinito. Éramos cinco cavaleiros da areia, desenhando cisnes gigantes no chão, criaturas que pareciam ganhar vida e bater asas assim que o vento soprava. Viver no "meio do nada" era, na verdade, viver no meio de tudo: o mato era nosso império, e o céu, nosso teto de diamantes.
À noite, o cenário mudava para um filme de época. Sob a luz vacilante do lampião, o mundo ganhava um tom sépia, romântico e profundo. Eu gritava pela minha tia aos céus, e o eco das estrelas era o abraço que me acalmava. Mas, como em toda boa trama, o paraíso tinha seus dragões. Ou melhor, suas serpentes.
Enquanto o romantismo brilhava lá fora, dentro de casa a comédia virava um suspense de roer as unhas. Imagine a cena: três irmãos espremidos em uma cama de casal, tentando decifrar o silêncio. No teto de palha e barro, o perigo rastejava.
Não era uma gota de chuva. Era uma cobra. Caída do teto, direto no lençol. O que se seguia era uma coreografia digna de um circo caótico: eu pulava para a rede, a rede balançava, o medo crescia, e eu voltava para a cama. Era um sacrifício noturno, uma vigília onde o menor ruído transformava a noite em uma eternidade. Estávamos presos em nossa própria aventura.
Certo dia, busquei refúgio no meu santuário: o pé de umbuzeiro. Ali, eu não era apenas uma menina; eu era uma mestre de artes marciais, vivendo meu momento Shotokan. Subi nos galhos, fechei os olhos e deixei o cheiro da natureza me levar. Eu estava voando.
Até que o som de algo raspando na madeira me trouxe de volta à terra.
Abri os olhos e lá estava ela. Uma serpente, deslizando com a confiança de quem é dona da árvore. O pânico não é silencioso; ele grita no sangue. Fui me arrastando para trás, o galho foi acabando, o mundo inclinou e... chão.
O impacto não foi o fim, mas o início de uma maratona olímpica. Ela pulou atrás de mim. Eu, num giro grotesco e heróico, levantei e disparei. Era uma perseguição de filme de ação. Eu corria, ela vinha. Perto de casa, o destino colocou um tronco seco no meu caminho. Tropecei. Meu pé ficou preso, virei o pescoço e vi a cena em câmera lenta: a boca se abrindo para selar meu calcanhar.
Cheguei em casa sendo puro tremor. Eu não falava, eu vibrava. Minha mãe, no desespero clássico de quem cura tudo com glicose, me deu água com açúcar. Não um copo, mas três. Tanto açúcar que o pânico quase virou um coma diabético, mas finalmente a voz voltou.
— Tem uma cobra lá. — consegui balbuciar.
Meu pai, um homem de poucas palavras e muitos facões, não aceitou o "não" como resposta. Voltamos ao umbuzeiro. Eu, tremendo; ele, com o aço na mão. Quando apontamos o galho, o mistério se revelou: uma Coral e seus filhotes.
O que se seguiu foi uma cena que misturava Tarantino com comédia pastelão. Meu pai transformou a ameaça em "picadinho de cobra" com uma precisão cirúrgica. Um filme de ação em pleno quintal de terra batida.
Hoje, adulta, fecho os olhos e ainda sinto o cheiro das árvores e o frio na espinha ao lembrar do teto. A vida, com sua ironia e crueza, pode nos levar para longe daquele mato, pode mudar nossas roupas e nossos medos. Mas ela nunca toca na nossa essência.
Ainda sou aquela menina que desenha cisnes na areia e sabe que, mesmo quando as cobras caem do teto, sempre haverá um novo amanhecer, um copo de água com açúcar e uma história heróica para contar.
Céu dos Gigantes
Nas mãos miúdas, a imensidão.
Sob o olhar da lua, a criação.
Na tela da terra rachada, a leveza de um cisne,
desenhado na areia, um sopro de vida, um devaneio que insiste.
No abraço da noite estrelada, a melodia de uma alma a sonhar,
onde cada traço é um voo, uma promessa de amar.
Este é o "Céu dos Gigantes", onde a inocência floresce e a coragem encontra seu lar,
e o simples gesto de uma menina nos ensina a amar, a viver e a voar.
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