Queria que começasse a dizer o nome, o local de nascimento e a idade.
Chamo-me Catarina, tenho 36 anos, quase 37 e nasci em Bragança. Vivi toda a minha infância e adolescência em Vila Flor.
E os pais, como é que se chamam e de onde é que são?
A minha mãe chama-se Dolores, o meu pai chama-se José. São os dois da região da Beira, Celorico da Beira, mas também moraram sempre cá, desde que casaram.
Vila Flor aparece na vossa vida, no casamento dos seus pais?
Aparece no casamento dos meus pais porque os meus avós, o meu avô da parte da minha mãe, ou seja, o meu avô materno era de cá, era de Vila Flor. Portanto, tinha aqui as raízes dele, já tinham aqui algumas, tinham aqui a família, e por isso eles decidiram vir para cá, nessa fase da vida.
E o seu avô, o que é que fazia? E a sua avó, aqui?
Os meus avós são emigrantes, desde muito cedo. Eles emigraram muito cedo. O meu avô esteve na guerra, esteve em África, mas, entretanto, quando voltou, eles emigraram muito cedo. Só que o resto da família era daqui desta zona. Portanto, eles vinham sempre cá, sempre que eles voltavam, era aqui a Vila Flor. Eles construíram uma casa, onde os meus pais depois moraram, e ficaram por cá. Estabeleceram-se cá.
E porque é que a mãe não viveu cá sempre?
A mãe, inicialmente, viveu com os meus avós, quando eles emigraram estava com eles, mas, entretanto, isto, coisas da emigração, não é?
Sim.
Entretanto, ela quis voltar com os bisavós, e, portanto, viveu em Celorico da Beira com os meus bisavós, que também estavam lá, da parte da minha avó. Eram de lá.
E ficam lá até...
Ficam lá até casarem. Sim. Porque foi na altura por uma oportunidade de emprego, para ele seria mais fácil aqui, porque os meus avós também já tinham a casa aqui, portanto, voltaram para cá.
Casaram lá?
Casaram lá. Casaram em Celorico da Beira. E depois vieram para cá. E o meu pai é de lá.
E eles lá já trabalhavam, ou não?
Na altura, o meu pai, sim, o meu...
Continuar leituraQueria que começasse a dizer o nome, o local de nascimento e a idade.
Chamo-me Catarina, tenho 36 anos, quase 37 e nasci em Bragança. Vivi toda a minha infância e adolescência em Vila Flor.
E os pais, como é que se chamam e de onde é que são?
A minha mãe chama-se Dolores, o meu pai chama-se José. São os dois da região da Beira, Celorico da Beira, mas também moraram sempre cá, desde que casaram.
Vila Flor aparece na vossa vida, no casamento dos seus pais?
Aparece no casamento dos meus pais porque os meus avós, o meu avô da parte da minha mãe, ou seja, o meu avô materno era de cá, era de Vila Flor. Portanto, tinha aqui as raízes dele, já tinham aqui algumas, tinham aqui a família, e por isso eles decidiram vir para cá, nessa fase da vida.
E o seu avô, o que é que fazia? E a sua avó, aqui?
Os meus avós são emigrantes, desde muito cedo. Eles emigraram muito cedo. O meu avô esteve na guerra, esteve em África, mas, entretanto, quando voltou, eles emigraram muito cedo. Só que o resto da família era daqui desta zona. Portanto, eles vinham sempre cá, sempre que eles voltavam, era aqui a Vila Flor. Eles construíram uma casa, onde os meus pais depois moraram, e ficaram por cá. Estabeleceram-se cá.
E porque é que a mãe não viveu cá sempre?
A mãe, inicialmente, viveu com os meus avós, quando eles emigraram estava com eles, mas, entretanto, isto, coisas da emigração, não é?
Sim.
Entretanto, ela quis voltar com os bisavós, e, portanto, viveu em Celorico da Beira com os meus bisavós, que também estavam lá, da parte da minha avó. Eram de lá.
E ficam lá até...
Ficam lá até casarem. Sim. Porque foi na altura por uma oportunidade de emprego, para ele seria mais fácil aqui, porque os meus avós também já tinham a casa aqui, portanto, voltaram para cá.
Casaram lá?
Casaram lá. Casaram em Celorico da Beira. E depois vieram para cá. E o meu pai é de lá.
E eles lá já trabalhavam, ou não?
Na altura, o meu pai, sim, o meu pai já trabalhava, a minha mãe estava a estudar. E, entretanto, veio para cá. Só que antigamente, isto dos contratos públicos era um bocadinho diferente, por isso ela conseguiu facilmente, conseguiu ao fim de pouco tempo, entrar nos quadros da Câmara Municipal e, portanto, a partir daí, o plano de ir estudar ficou um bocadinho parado. Voltou só mais tarde.
Estudou até que altura?
Na altura até o décimo segundo ano. Ainda se preparou, fez exames para entrar na faculdade, mas como entrou nos quadros da Câmara, acabou por não continuar. E pronto, e ficou com isso em standby, até 2012, 2013, foi quando voltou à faculdade.
E o que é que escolheu na altura para se formar?
Eu sei que ela me disse que, pelo menos na altura em que ela ia estudar, que era para educação básica. Mas, entretanto, como o plano ficou parado, agora, estando na Câmara, fez gestão e administração pública, que era uma área já com relação ao emprego dela.
E quando entrou aqui para a Câmara, quais eram as funções? E se se mantiveram?
Eu penso que ela, na altura, estava mais ligada à parte do atendimento ao público, estava na parte da tesouraria. E, entretanto, esteve durante muitos, muitos anos ligada à parte das obras públicas. E acho que agora, mais recentemente, tem estado mais ligada às obras privadas.
E qual foi a oportunidade do pai, quando veio para aqui trabalhar?
O pai aqui, como o meu avô também tinha, já tinha um prédio, que poderia ser usado, em baixo. O meu pai sempre foi um faz tudo, um faz tudo. Por isso, na altura, eles tiveram um talho, tiveram um café e, entretanto, transformou-se num supermercado e na fase em que eu era pequenina já era um supermercado. Por isso, é dessa fase que eu me lembro. E então, foi sempre... À medida que a vida ia avançando, por algum motivo, havia coisas que iam mudando e, por isso, ele ia aproveitando algumas oportunidades. Mais tarde, trabalhou nas vendas comerciais. Por isso, é um faz tudo. É um faz tudo.
E quanto tempo depois do casamento é que nasce? É que vem a filha?
Ora bem, a filha só vem cerca de três anos depois do casamento. Isto de alguma forma foi mais planeado. Pelo facto de também não terem uma grande rede de apoio, os meus avós estavam emigrados, os outros estavam longe, por isso acabei por ser só eu, não vieram mais nenhuns irmãos. Eu tive sempre muita tristeza, gostava muito de ter tido irmãos.
E aí viviam os três?
Sim, vivíamos os três.
Como é que era a casa de infância?
Era um apartamento, por cima do comércio onde o meu pai trabalhava. Era um T2.
Localizado aqui no centro?
Sim, ali perto do Rossio, na Rua Frei José. Era perto das escolas, por isso ali havia sempre muitos meninos. E era uma casa, uma habitação normal.
Sim, sim. Era também mais para saber a envolvência…
Era uma rua onde tinha bastantes estabelecimentos comerciais, na altura, isto também foi mudando um bocadinho, mas eu tinha lá os meus amiguinhos todos à volta. Era no meio da vila, era mesmo no centro.
Os seus pais contavam-lhe histórias da família, portanto, sabe aí essas questões todas da imigração. Mas sabe desde pequenina ou mais recente? Na altura tinha noção da história da família, dos bisavós, de onde é que vinham?
Sim. Eu acho que foi sempre uma coisa que esteve muito presente, até porque sempre senti muito aquela ansiedade de separação. Eu falo muito dos meus avós, nunca senti que pelo facto de estarem longe, que a relação tivesse prejudicada, mas era sempre uma coisa que eu acho que me marcou sempre, porque custava muito de sentir que eu sabia que, ao fim daquele tempo, eles iam embora. Por isso, foi sempre uma coisa muito conversada em casa. Nós sabíamos como é que as coisas eram. Para mim, o natural era isto acontecer. Aliás, eu acho que quando somos pequeninos não temos muita noção das diferentes realidades. Para mim, aquela era a única que era possível. Apesar de eu ter avós que viviam perto dos meus colegas, nunca me questionei muito. Achei que a minha realidade era esta e que era esta que eu tinha. Mas sim, era uma coisa conversada. Até porque a minha mãe tinha mais dois irmãos que estavam emigrados. Na altura veio, por uma opção dela, mas os dois irmãos acabaram depois também por ficar. Houve algumas voltas. A irmã da minha mãe também esteve, ainda chegou a morar cá em Vila Flor, mas quando eu era pequenina já estavam os dois emigrados lá. Portanto, para mim, o natural era só viver eu e os meus pais.
Não tenho ideia de nenhuma história que tenha contado sobre a vida dos seus avós ou bisavós aqui na vila. Alguma coisa sobre a história de vida deles, à parte da emigração.
Aqui, muito pouco. Os irmãos do meu avô moravam cá e moram cá, que ainda estão vivos. Mas não havia assim muitas histórias. Até porque o meu avô desde muito cedo, com a guerra, depois eles tinham de sair. Ele partilha muitas histórias, mas mais de quando estava fora.
Mas são histórias interessantes…
Sim, até porque ele falava muito, houve história que os marcou muito, não é? O padrinho da minha mãe, o irmão do meu avô, eles foram os dois para a África e na guerra... Eu ouvi esta história desde muito cedo. Nas emboscadas, numa das vezes, esse irmão do meu avô faleceu por um amigo dele, o melhor amigo dele achava que era ele era o inimigo e… Por isso eu sempre ouvia estas histórias mais rocambolescas.
Sim, sim. São histórias que passam, não é?
Sim. Da parte dos meus avós eram mais as dificuldades que eles sentiam, também de estarem sozinhos lá, e da vida ter fluído de alguma forma, com os filhos cá e lá, também não era muito fácil. Daqui, acabavam por não partilhar muito, porque eles vinham cá também nas férias esporadicamente.
Vamos ainda ficar mais um bocadinho na infância porque eu gostava de saber como é que brincava, era filha única, mas vivia ali numa zona movimentada, como é que se eram as brincadeiras antes de ir para a escola?
Aquilo não tem nada a ver com o que é agora, era muito na rua, eu costumava brincar muito ali ao pé do... o meu pai tinha o minimercado, por isso eu brincava muito ali na rua, muitas vezes ia à cabeleireira em frente, ajudar, tinha uma das minhas melhores amigas a morar na minha rua, por isso muitas vezes ia para a casa dela, brincávamos ali na terra, não é? Era muito na rua.
O que é que faziam na rua?
Andávamos de bicicleta, lembro-me uma altura da febre dos patins, adorávamos brincar com as Barbies, nós reuníamos as Barbies todas, não é? E brincar na rua, na terra, eram os bolinhos de terra…
Eram mais as duas, ou era um grupo maior?
Éramos muito as duas, mas depois tínhamos muitos meninos que apareciam. Ou porque os pais também tinham alguma loja de roupa, um café ali à beira, ou porque moravam nos prédios à volta, mas depois éramos muito as duas porque também morávamos ali uma em frente à outra e éramos as duas na mesma turma, por isso era mais fácil de brincar.
E disse há um bocado que tem pena de não ter tido um irmão. Na altura já tinha pena?
Tinha. Eu acho que não custou tanto por esta proximidade que eu conseguia ter com as pessoas, não é? Nós passávamos a vida na casa uns dos outros, mas sentia sempre essa dificuldade em casa, porque sentia que… e agora que olho para trás percebo que era muito exigente, eu precisava sempre de alguém para brincar comigo, estava sempre a pedir: “Oh mãe, tens de brincar comigo, oh pai, tens de brincar comigo”, e isso. E também por isso, depois senti necessidade de não ficar só com um filho, porque acho que é muito bom ter irmãos e acho que é uma parte que me fez falta e que moldou muito da minha forma de estar, para o bem e para o mal na infância, na adolescência e depois na vida adulta.
Em quê?
Não sei. Acho que há alguma perda de… não é elasticidade… eu acho que me faz falta alguma… conseguir moldar-me, não é? Eu acho que os irmãos desafiam um bocadinho a nossa capacidade de tolerância e eu acho que perdi um bocadinho isso. Sou muito exigente comigo e depois sou muito quadrada em algumas coisas e sinto que os irmãos ajudam-nos um bocadinho a plastificar estas atitudes. Acho que me fez falta isso.
É uma reflexão que fez agora se calhar em retrospetiva?
Não, eu já tinha tido… aliás, em várias fases da vida sentia isso. Nunca gostei de estudar sozinha, eu gostava de estudar, gostava de tudo muito certinho, mas nunca gostei de estudar sozinha. Para fazer determinadas coisas que eu acho que, depois, às vezes, quem tem irmãos até gosta é de ter sossego. Sempre procurei, sei lá, cafés para estudar, estar perto de algumas pessoas. Na minha infância gostava sempre de ter alguém ali ao pé de mim e eu acho que isso foi muito de ser… de sentir necessidade de ter um irmão, mas também nunca ter tido, isso…
Resolveu, no fundo…
Sim, eu resolvi… até porque estava sempre a puxar pela mãe e pelo pai (risos).
E a transição para a escola não sei se houve creche se houve pré-escolar, como é que foi?
Sim, inicialmente… estas coisas que os meus pais me vão contando, eu tive três amas. Houve coisas que correram bem e coisas que correram mal, que depois também moldaram…
Com que idade?
Desde bebé, mesmo. Talvez com seis meses, não sei. Depois tenho que perguntar a minha mãe, mas tenho ideia que eles desde muito cedo trabalhavam, antigamente, por isso tinham de ir trabalhar muito cedo. Cheguei a estar no infantário, mas a minha mãe contava que eu não me dava muito bem com as alergias ao calor, porque aquilo era muito quente lá dentro. E, então, por isso acho que também acabei por sair, acho que foram três amas, nesta fase, antes de entrar na pré.
Então, entrou na pré, lembra-se desse momento?
Não me lembro desse momento, era muito pequena, mas lembro-me muito de… a escola ficava duas ruas acima, portanto, muitas vezes os meus pais, o meu pai ou a minha mãe, levavam-me lá à pontinha, mas é aquelas coisas que agora é impensável para as crianças, eles iam até à pontinha e lá ia eu e a minha amiga de mãos dadas até lá à escola, não é? E eles ficavam a ver. Quatro anitos, cinco anitos lá íamos nós. Até tenho fotografias com neve, as duas com o guarda-chuva, era muito giro. Coisas que agora são impensáveis, as crianças poderem ir uns metros à frente.
Nem aqui em Vila Flor?
Não sei se acontece muito. Eu também regressei mais recentemente, por isso, também não tenho muita noção disso, mas acho que agora há uma sobreproteção, para o bem e para o mal. Acho que é diferente. A entrada na escola… eu não me lembro propriamente do dia, lembro-me de alturas específicas, atividades que nós íamos fazendo, eu ficava sempre em delírio com as atividades do dia da mãe e do pai, adorava aquilo, fazer aqueles desenhos. Sei lá, sempre fui muito de jogos, de querer aprender as letras, eu quis sempre muito perceber a parte da escrita e de, sobretudo, desenhar. Foi um período feliz, muito feliz.
E depois, o primeiro ciclo?
O primeiro ciclo… eu lembro-me muito bem de, e ainda tenho lá em casa os meus primeiros cadernos das letras, de fazer as letras e lembro-me que era assim muito perfeccionista, muito chata, muito perfeccionista. Tive uma professora que era ótima, a professora Delfina, que foi minha professora só na primeira classe. Antigamente dizíamos primeira classe, não é? Eu lembro-me que ela às vezes dava para casa para nós fazermos duas filas de “As” ou duas filas de “Is” e eu dizia: “Não, não, eu vou fazer a folha inteira”. Fazia as folhas só com as letras, eu adorava aquilo. Tudo que eram atividades era sempre muito com o meu pai, porque o meu pai estava mais comigo, era mais fácil estar mais presente porque ele trabalhava por baixo de nossa casa, por isso muitas vezes eu estava lá na carrinha dele a fazer os trabalhos de casa. E são assim as coisas que me recordam mais dessa fase.
Depois teve que mudar de escola para o segundo ciclo?
Depois aqui mudávamos todos. Íamos todos naquela fase, a partir do quinto ano… Era do quinto ao décimo segundo e a escola era muito maior.
E como é que foi essa transição?
Correu bem. Para mim fazia muita confusão, lá está, eu sempre fui muito de querer o controlo. Gostava sempre de ter boas notas e de fazer tudo certinho e foi… A minha mãe fala muito que foi complicado os primeiros tempos, quando eu percebi que ia ter não sei quantos professores e não sei quantas disciplinas e como é que eu ia saber aquilo tudo. Para mim foi assim um drama. Mas depois correu bem, correu bem. Foi uma boa adaptação.
Alguma coisa que tenha marcado, algum acontecimento, colegas ou professores disciplinas, episódios… o que mais marcou na escola ou qual é a lembrança que tem mais assim presente?
Lembranças… Também tive coisas boas e más no secundário (risos), também fui mais marcada por episódios engraçados, peculiares. Mas eu acho que um dos nossos problemas quando nós vamos para o secundário, ou aliás para… a partir do quinto ano, o facto de ter muitos professores… também não sei se isto tem a ver com o facto de ser interior e de ser uma escola pública, mas os professores rodavam muito, não é? Eu não tinha muitas vezes o mesmo professor. Tivemos o professor Virgílio, que era aqui de Vila Flor. Tivemos no quinto e no sexto ano ele, dava-nos matemática e já era mais fácil ter alguma ligação porque eram pessoas de cá, eram pessoas que nós conhecíamos, e era muito bem-disposto, por isso, eram sempre divertidas as aulas com ele. Depois mais tarde, tive a professora Marieta, que também era de cá, e que mora cá, e foram meus vizinhos, portanto também conhecia e era uma relação mais próxima. Eu era muito chata, tinha muitas dúvidas, estava sempre, sempre com muitas dúvidas (risos). Agora olho para trás e percebo que devia ser muito chata, estava sempre a pedir-lhe ajuda nalgumas coisas, adorava sempre as aulas de Educação Física, tive vários professores lembro-me de quase todos.
E as amizades? Como é que eram? Grupo de amigos, amigas, e o que é que faziam?
Aqui, os nossos amigos… eu tive a sorte de ter alguns amigos que consegui manter sempre durante toda a escola. Nós conseguimos seguir desde os 3 aninhos até aos 18, até sairmos de cá. Sei lá, brincadeiras…
Na adolescência já não seriam tão brincadeiras. Convívio, não sei.
Na adolescência, nós aqui reuníamo-nos muitas vezes nos intervalos. Basicamente, na adolescência o que é que fazem os adolescentes? Estão sentados num canto a falar. Mas depois aqui havia uns barzinhos, por isso começámos a frequentar esses bares às vezes durante a tarde, depois ia toda a gente para casa cedo. Depois tinha algumas atividades mais paralelas à escola, que também encontrava muitas vezes lá esses meus colegas. Um dos rituais era que vínhamos da escola, vínhamos todos a pé, morávamos todos muito perto uns dos outros. Demorávamos imenso tempo, parecia que morávamos todos muito longe da escola, aquilo era 5 minutos a pé, mas demorávamos às vezes meia hora só para chegar a casa. Depois tínhamos aí os bares onde nós íamos desde novitos, para nos reunirmos, aqui havia uns salões de jogos, umas coisas assim.
E assim mais desviado do centro? A barragem?
A zona da barragem não frequentávamos muito, porque aí obrigava-nos a alguém nos levar lá. Às vezes no verão, às vezes no verão o que nós fazíamos era ir nos autocarros para a piscina. Isso acontecia muitas vezes, nós apanhávamos o autocarro às duas ou às duas e meia e lá íamos nós para a piscina toda a tarde e voltávamos ao final do dia. Aí sim, nessas atividades. Depois também havia os grupos de jovens.
Grupos de jovens?
Tínhamos o grupo de jovens do centro paroquial. Aí também reuníamos e chegámos a acampar, visitas, visitas todos juntos, íamos muitas vezes à barragem, reuníamos para cantar para tocar guitarra. Eu acho que, basicamente, fora da escola, reuníamo-nos numa série de atividades que íamos tendo, ou eram os escuteiros, ou eram os acólitos, ou era o grupo de jovens. Por isso, acabámos por estar muito entretidos, apesar disto ser um sítio pequenino tínhamos assim várias atividades que íamos fazendo.
Desde que altura é que começou a pensar no que é que gostava de fazer quando fosse mais velha?
Hum…
E o que é que pensava?
Pois, essa fase não foi assim muito linear. Eu desde pequenina era muito exigente, queria sempre fazer tudo certinho, sempre gostei muito de ter boas notas e nunca foi… nunca pensava muito no porquê. Eu pensava que se conseguisse ter boas notas, depois poderia escolher tudo o que me apetecesse. Era um bocadinho por aí, “ão sei o que quero, gosto de várias coisas”. Sempre gostei muito da parte das artes e questiono-me, às vezes, se se calhar não devia também ter enveredado por aí, mas… Depois nós percebemos, à medida que vamos percebendo como é que as coisas estão, ia ser calhar é uma área desafiante, mas lembro-me que houve a dúvida de se eu ficava aqui na escola ou se ia para Mirandela para conseguir fazer essa área.
A escolha do agrupamento.
Sim. No décimo ano, se quiséssemos artes tínhamos de ir para Mirandela, porque aqui nós não tínhamos. Só tínhamos ciências e parte das línguas, Humanidades e Ciências e na altura foi uma escolha consciente, porque sabia que ia ser muito mais exigente e muito mais difícil estar a fazer as viagens. E eu acho que isso ia ser um bocado contraproducente. Depois, enveredando pela área das ciências, que era aquilo que eu tinha disponível cá, a minha intenção era tentar tirar as melhores notas e a partir daí perceber o que é que eu quero fazer. Depois, quando comecei a perceber que se calhar até conseguia tirar boas notas, então se calhar tenho que começar a ponderar Medicina que, era uma das coisas que… Não era Medicina por si, eu sempre gostei muito da proximidade com as pessoas, por isso achei que se calhar era uma área que eu gostava. Ciência exata, agora percebo que não é assim tão exata, mas achei que, até pelo desafio, não é? O sentir que queria conseguir fazer. Eu sempre fui muito assim “Ah, se calhar não consegues”, “então se calhar é isso que eu quero tentar” e partiu um bocadinho disso. Ou seja, acabou por ser uma coisa que foi construída aos poucos, nunca foi uma coisa que eu disse: “Eu quero ser médica desde os 5 anos”; eu queria ser muita coisa, gostava de cantar, gostava de música gostava de pintar, gostava de várias coisas, adorava matemática. Mas depois comecei a pensar, “então se aquilo é o mais difícil de eu conseguir, então se calhar eu quero tentar” e tentei. Depois chegou uma altura em que eu já ponderava várias coisas. Aliás, depois chegou uma altura ao 12º ano e eu só pensava: “Se eu não conseguir este ano, eu não quero mais nada”; era um bocadinho obstinada nas escolhas e se calhar uma parvoíce, mas... pronto. E pronto, e na altura correu bem e consegui entrar. Na altura entrei na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
O curso era super exigente ao início. E depois para quem está habituado a ter boas notas chegar ali é um impacto, é um bocadinho frustrante perceber que não se consegue manter a exigência da mesma forma, mas correu bem, foi correndo bem, foi uma fase feliz, muito feliz da minha vida, senti-me sempre realizada. Ou seja, escolhi um bocadinho… com esta exigência comigo própria, mas depois pensei “escolhi bem, gostei, estou a gostar e não trocava”, por isso foi sempre correspondendo às expectativas.
Como é que foi viver no Porto? Passar a viver no Porto...
O início foi um bocadinho complicado, porque eu estava habituada a estar com os meus pais. Quando se vai para o Porto é tudo muito diferente, as pessoas são diferentes a forma de estar é diferente, as vivências são diferentes. Mesmo eu em relação a outros colegas meus, acho que a forma de eu estar e de eu interagir era muito diferente.
Diferente como?
Não sei, não sei se é de ser transmontana, ou se é de ser do interior, eu sinto e continuo a sentir isso, somos muito genuínos e muito espontâneos e isso traz-nos vantagens e desvantagens na vida. Às vezes o filtro falhou (risos). E isso leva-nos a coisas positivas, não é? Que eu acho que nós facilmente conseguimos… eu acho que as pessoas percebem-nos facilmente, conseguem ter uma leitura fácil e perceber a pessoa que tem à frente, mas, de alguma forma, também nos podem castrar em algumas situações, não é? Porque não medir às vezes bem as palavras, isso também nos limita em algumas situações. E sentia muito que isso. Sentia muito que da parte dos meus colegas não havia tanto isso, não é? E conseguia perceber quem eram as pessoas com quem me identificava.
Como é que se manifestava essa reação que percebia, portanto, essa perceção de si, como é que isso se materializava na atitude dos outros?
Hum.
Não sei se me estou a fazer entender, portanto, percebia que se calhar aquela pessoa está a achar estranho falar demais ou estar contente, porque eu estou a ser genuína, como é que foi?
Sim, eu acho que é um bocadinho as duas eu acho que ao início, as pessoas ficam surpreendidas, eu acho que não estão à espera. Pessoas da minha idade, também da minha idade… Sinto também que há muito desconhecimento, às vezes as pessoas tratam as pessoas do interior quase como um bicho raro, também tive isso. Mas eu era muito eu. Ao início, era muito pragmática, às vezes até um bocado sarcástica.
Mas não quer contar um exemplo?
Sei lá… Cheguei a ter colegas meus a perguntar se nós tínhamos shoppings aqui. E eu nisso era um bocado sarcástica: “Não, não temos. Eu nunca tinha visto o mar até chegar à faculdade”; e às vezes sentia do outro lado que não sabiam se era verdade ou não, e eu só pensava: “vais ficar com a tua dúvida” (risos).
(risos) Também é uma forma de sentido de humor.
Sim, sim, mas muito por desconhecimento. Eu acho que às vezes há muito desconhecimento de tudo aquilo que nós conseguimos e tudo aquilo que nós temos no interior.
Que ideia que acha que tinham de si quando chegou lá, portanto?
Isso continua a haver, é uma ideia muito fechada, que nós somos pessoas que se calhar temos um conhecimento muito limitado das oportunidades e eu acho que na prática não é isso. É verdade que no interior de alguma forma eu senti-me condicionada e havia uma série de coisas que eu gostava de ter feito e que não consegui fazer. Mas que eu sabia que elas existiam e que se eu quisesse fazer esse esforço a tal ponto de as conseguir, eu conseguiria na mesma ter. Ou seja, não era por eu viver no interior que não sabia que existia um conservatório, ou que eu podia ter feito uma escola de inglês super à frente, ou que eu não poderia ir à praia quando me apetecesse ou ir a um shopping, mas eu tive estas situações. O que para mim era muito estranho, para mim aquilo era surreal este tipo de dúvidas dos meus colegas.
As dúvidas eram só sobre oportunidades, ou também sobre capacidades, queria perceber se sentiu algum preconceito…
Senti, senti, senti… Mas também acho que nós facilmente conseguimos desfazê-las. Mas sentia muitas vezes que… e isso desfaz-se muito facilmente, é muito simples. Depois basta o dia-a-dia. E nós na faculdade mudávamos muitas vezes turmas, não é? E era isso que eu também, há bocado, estava a dizer, que muitas vezes 38 senti facilmente quais eram as pessoas com as quais eu me identificava, sem saber muitas vezes de onde é que elas eram. Mas que se conseguia perceber que, em termos de espontaneidade e de forma de estar, eram mais parecidas comigo e depois percebia que também muitas vezes eram pessoas, não tinham de ser transmontanas, eram pessoas do interior, é curioso isto. Mas, sei lá… na faculdade, ao início, percebemos muitas vezes quando era para formar grupos, quando era para fazer alguma atividade, que os colegas que também, naturalmente, já tinham lidado muito uns com os outros em colégios do Porto, eles acabavam por se unir muito e por nos, entre aspas, as pessoas mais desconhecidas eram, de forma natural, segregadas. Eu acho que isto é natural. Mas depois percebiam facilmente que, em termos práticos, que nós temos tantas capacidades, às vezes até mais de dar a volta às ideias. Mas isso sentia-se muito.
E com os professores?
Com os professores eu acho que não. Porque eu acho que, eles próprios, já tinham vivenciado isso. Aliás, eu acho que é rara a pessoa que não tem familiares ou que não veio a Trás-os-Montes, ou que não conhece Trás-os-Montes, não é? Eu conheci muito poucas pessoas que não conheciam Vila Flor. Dos meus colegas tinha muitos, que não faziam ideia onde ficava no mapa. Mas pessoas mais velhas, acho que é natural para eles. Mas há muita gente que vem frequentar aqui o Parque de Campismo, que agora está fechado, mas havia muita gente do Porto e eu acho que, da parte da minha faixa etária, os colegas conheciam Vila Flor era porque vinham, ou em grupos de amigos, ou vinham com a família ao Parque de Campismo passar férias.
E chegou a trazer amigos de lá cá para conhecerem a zona, os pais, ficar aqui consigo?
Pontualmente sim, até porque tinha alguns colegas tinham família aqui nesta zona.
E como é que foram as amizades lá e os tempos livres sem ser as aulas, como é que foi a vida no Porto?
Ao início, senti-me um bocadinho assoberbada com tudo. Acho que foi um dos… acho que foi uma das minhas falhas, acho que nunca devia ter feito isso, que foi dedicar-me muito e a única coisa era a praxe, adorava a praxe, fazia tudo na praxe, mas depois ia para casa, não fazia mais nada. E nós sentimos também que é difícil de conseguir perceber e conciliar as várias atividades. Mas sempre fui muito de frequentar as atividades da faculdade, as festas da faculdade, encontrava-me muito no salão de alunos.
Vivia muito a vida académica, então.
sim, sim… estudava na sala de estudo, lá na faculdade.
E no resto da cidade, passeava? Visitava algumas coisas? Chegou a conhecer a cidade? Ou foi mais mesmo uma vida académica?
Acho que nós depois enquanto alunos ali na faculdade, nós íamos tendo também várias oportunidades. Por isso, muitas vezes tínhamos passeios ao Porto, mesmo com os colegas da faculdade, visitar as caves do vinho do Porto, visitar alguns museus, fizemos várias atividades, depois mais recentemente também andar no teleférico, visitei uma série de sítios. Durante a vida académica andávamos muito na Baixa, nos Aliados, a passear ali nas ruas, naquelas ruas todas.
E então a dada altura do curso, já sabia qual era a especialidade que queria fazer? Ou quando decidiu que queria ir para Medicina já tinha escolhido a especialidade, ou tinha pelo menos uma ideia?
Eu sempre achei que as especialidades que me iam captar mais atenção seriam sempre as cirúrgicas. Tudo o que fosse fazer, sempre gostei muito de fazer. E, ao longo do curso, fui percebendo que efetivamente era a minha… o meu mundo, tudo o que fosse mexer. Depois, nós no fim do curso vamos tendo várias disciplinas, passamos nas várias áreas, fazemos estágios em várias enfermarias. Por isso, havia algum conhecimento geral, ao menos das especialidades mais gerais que nós vamos tendo. Durante o curso, são 6 anos, durante essa fase acabei por fazer a tese de mestrado em oftalmologia, porque achei que… também tinha gostado muito da minha professora, achei que seria uma área que eu ia gostar. Tinha microcirurgia, tinha coisas muito… que eu acho que para mim faziam mais sentido, mas fiz, gostei, fiquei assim na dúvida… Mas depois, nós temos um ano, que é o ano comum e que nós conseguimos perceber ao certo, conseguimos passar outra vez pelas várias especialidades e aí já a trabalhar, já como médicos, sempre supervisionados, mas nós já trabalhamos sozinhos. E nessa fase, é uma fase que muitos dos meus colegas aproveitam, porque é um ano mais simples, em que nós conseguimos descansar de alguma forma do estudo, do exame anterior, porque nós temos um exame para depois concorrer às especialidades, e eu aproveitei exatamente o contrário. Porque eu não conseguia decidir o que é que eu queria. Portanto, passei muitas horas no hospital a tentar perceber se queria fazer noites, se não queria fazer noites, se me aguentava durante a noite… foi um ano em que me estafei lá a trabalhar. E comecei a tentar perceber especialidades que nós não tínhamos tanto contacto, que era cirurgia pediátrica, cirurgia maxilofacial, radiologia, eram especialidades um bocadinho mais nicho, que nós não vemos no nosso dia a dia. E foi nessa fase, para aí 15 dias antes de eu escolher, que percebi que na radiologia podia fazer mais coisas a não ser olhar para as radiografias, que era a ideia que nós tínhamos. E, então, percebi que existia uma área, que era de Radiologia de Intervenção, onde nós podíamos fazer, basicamente… não é cirurgias abertas, mas nós conseguimos resolver uma série de coisas através das técnicas de imagem, e com as biópsias e com uma série de tratamentos que neste momento é possível fazer, e “Se calhar isto é engraçado”. Um bocado por impulso escolhi e pensei: “O que é que eu fui fazer à minha vida?”, porque não era nada disto que eu queria. Foi muito difícil aqueles… porque nós escolhemos dois meses antes de começarmos, antes de entrarmos na especialidade propriamente, e foi ali assim um conflito comigo própria: “O que é que tu foste fazer à vida?”, mas foi uma agradável surpresa e correu muito bem. Por isso, eu só escolhi, só me decidi 15 dias antes. Escolhi e pronto. Depois a especialidade, o que nós fazemos é: escolhemos a especialidade, passamos pelas várias técnicas de imagem, passamos pelas várias áreas da imagem, e depois acabamos por nos diferenciar mesmo dentro da nossa área, quer seja na radiologia, quer seja noutra área qualquer. Nessa fase, eu diferenciei mesmo na radiologia de intervenção. Dediquei muito do meu tempo a fazer Intervenção propriamente dita. Entrei na especialidade no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos era um hospital um bocadinho mais pequenino. Gosto muito, gostei muito. Foi um hospital que me tratou muito bem, e que também me deu muita oportunidade de sair de fazer estágio, eu fiz muitos estágios fora. Estive em Lisboa muito tempo, estive em para aí em seis hospitais em Lisboa, o que que me permitiu também ver outras realidades e trabalhar de outras formas. Pronto, depois, no fim, acabei por me diferenciar na radiologia de intervenção, em radiologia de cabeça e pescoço, que também era uma área mais minuciosa, que também já gostava de Otorrino, portanto, era uma área que me agradava. Acabei por fazer a radiologia de cabeça e pescoço, mas a área que me dediquei mais mesmo durante o internato, e agora, é à radiologia mamária que é uma coisa que apesar de não ser a minha diferenciação oficial, acaba por ser aquela que me consome uma grande parte do meu tempo.
Quando é que começa a trabalhar? Termina e depois onde é que começa a trabalhar mesmo?
Eu terminei o curso em 2013, entretanto, fiz… trabalhei um ano no Santo António, fiz o ano comum no Santo António, depois, quando escolhi a especialidade, fui para o Hospital Pedro Hispano. Foi onde eu passei 5 anos da minha vida, ali com o interregno por ter um filho a meio. Portanto resolvi aumentar o nível de exigência (risos). Pronto, entretanto, terminei a especialidade e saí e estive no hospital de Gaia até há pouco tempo.
E o filho? Conheceu alguém na faculdade? No hospital?
Ora bem. Nós andávamos muito pela faculdade e eu acabava por estudar muito tempo na sala de estudo, porque era da maneira que eu não estava sozinha. Estava lá sempre com colegas a estudar. Foi lá que conheci o meu marido, a estudar. Ele é de Fafe. Por isso, ele achava que eu era de Vila Verde, não é? Achava que eu era de Vila Verde, portanto, enganou-se redondamente (risos). Ele já estava numa fase mais à frente. Aliás, quando eu o conheci ele já estava na fase de estudar para o exame, eu ia a meio do campeonato, estava a passar para o quarto, ia passar para o quarto ano da faculdade, ele tinha terminado o sexto ano e ia passar para aquele ano comum em que nós fazemos as várias valências. Pronto, e foi nessa fase da faculdade. Entretanto, ele também entra na fase de começar a trabalhar, eu continuei a faculdade, as coisas vão evoluindo, sempre com alguns altos e baixos, porque depois ele foi fazer o internato para Coimbra. Ele é Pedopsiquiatra, por isso teve de lá ficar cinco anos eu ainda estava no Porto, daí eu também ter escolhido a especialidade no Porto, porque, entretanto, a ideia era também que ele voltasse de Coimbra. E, pronto, entretanto, casámos em 2019. Depois nasce o filho. Ele já era especialista, eu estava no meu quarto ano da especialidade. Portanto, o primeiro filho tem 6 aninhos... Por isso, eu casei, nove meses depois estava cá fora um rebento, nasceu o Manuel. Pronto, foi muito divertido, muito mais difícil, muito mais cansativo, mas eu acho que valeu tudo a pena.
Engraçado que o primeiro adjetivo que usou foi divertido.
(risos) Foi, porque na verdade, nessa fase da nossa vida… aliás, eu apanhei uma fase bastante complexa… para mim não foi complicada, porque eu estava de licença, mas ele nasceu exatamente na semana em que rebenta a história da Covid, da pandemia. E foi complexa a parte do parto, o pai não pôde assistir, aquilo ainda por cima foi um parto de emergência, foi assim uma grande confusão. Mas depois ficámos em casa, por isso eu não apanhei a fase crítica dos meus colegas a trabalharem no hospital. De alguma forma sinto pena, gostava de ter percebido como é que… gostava de ter vivido essa parte, mas não passei por ela. Passei só já na segunda vaga. E eu acho que já foi um bocadinho diferente.
E o casamento foi aqui?
Casamos aqui. Foi aqui, foi na Igreja de Vila Flor, tinha de ser na Igreja de Vila Flor com o padre Delfim, que era padre de cá que era assim… o meu querido padre Delfim. Acho que toda a gente gostou. Estava um dia muito, muito quente. Estava muito, muito calor e foi um dia muito giro, muito feliz.
E depois quando é que vai para o hospital de Gaia?
Depois eu terminei a especialidade em Matosinhos e vou para o hospital de Gaia quando termino. Depois, em relação às vagas, abriram as vagas e fui para o hospital de Gaia. O meu marido, nessa fase, já estava a trabalhar aqui no Hospital de Vila Real. Portanto, tivemos de arranjar aqui um meio termo, porque eu quis especificamente ir para Gaia, precisamente por causa da minha área de diferenciação. Já tínhamos um menino. Portanto, ficámos a morar a meio caminho. Costumava dizer que íamos a Penafiel para fazer a rotunda. Era só ir dormir lá, tratar do filho, e cada um ia para a sua vida. E moramos esses cinco anos ali em Penafiel. Eu trabalhava em Gaia e ele trabalhava aqui em Vila Real. Pronto, e, entretanto, nasce o segundo, nasce o segundo e a dinâmica muda toda, não é? Porque isto com o segundo não é a mesma coisa que o primeiro, e decidimos que, se calhar, precisávamos mais de algum apoio. Nós lá estávamos sozinhos e, de alguma forma era mais complicado de gerir horários, e então voltámos às origens. Não tanto por mim, mas porque eu achava que se calhar era a melhor forma de nós também gerirmos, e se calhar a forma mais saudável dos meninos crescerem. É diferente estar numa cidade ou estar numa vila como Vila Flor, que continua a ser um espaço mais pacato. E pronto, cá voltámos e aqui está a ser uma nova experiência.
O que é que está a fazer cá? Preparou-se em termos de trabalho? Prepararam-se em termos de trabalho antes de virem? Ou como é que foi essa decisão?
Na verdade, antes de decidirmos vir para cá eu já tinha decidido que ia deixar o hospital de Gaia e que viria para o Hospital de Vila Real, com uma série de oportunidades que foram surgindo. Seria também uma forma mais fácil de gerirmos, porque estamos os dois a trabalhar no mesmo sítio e acho que seria sempre mais fácil. Mas, entretanto, também percebemos que com dois filhos ia ser muito difícil a gestão das atividades das crianças, era impossível uma pessoa só conseguir fazer isso, que era aquilo que acontecia quando nós estávamos só os dois e, pronto, e a partir daí foi quando decidimos vir para cá e ficar cá.
Como é que foi regressar? Para onde foram?
Isto tem sido assim ao longo da nossa vida, nós dois somos um bocadinho de impulso. Por isso, isto foi decidido de uma semana para a outra e foi de género: “Pergunta aos teus pais se os meninos têm vaga no infantário” (risos), que acho que é assim a parte fundamental. Era a única coisa que nós precisávamos eu disse. A minha mãe perguntou. Havia vaga para os dois. “Então nós vamos para aí.” E... Portanto, tivemos uma semana, eu acho que foi o fim da minha licença, era mesmo o fim já da minha licença do segundo filho, e tirámos essa semana para, basicamente, conversar com o mais velho, tentar perceber quais eram as expectativas dele, o que eram os prós e os contras, sair da escola e dos amiguinhos dele, tentarmos preparar um bocado o terreno. Mas o que nos facilitou aqui foi perceber que ele também vinha para o pé dos avós, porque eu já percebi que todas as semanas, sempre que nós saíamos ao pé dos avós, sejam uns ou outros, é sempre um drama, é sempre aquela ansiedade de separação. Por isso, acho que resolvemos essa parte.
Porque eles vinham cá nos fins de semana, imagino.
Os meus pais acabavam a ir mais, porque na verdade, porque nós tínhamos uma série de coisas para gerir, muitas vezes os meus pais acabavam por ir. E facilitou-nos esta parte, porque eles estão todos contentes, estão todos os dias com os avós. Era aquilo que eu mais temia, mas foi a parte mais fácil. E pronto, neste momento estamos a morar com os meus pais, com todos os desafios que isso implica, que não é fácil, mas estamos numa fase de adaptação.
Chegaram há quanto tempo?
Há dois meses, três meses. Em fevereiro. É muito recente. A ideia depois também é termos o nosso espaço, mas na verdade, agora estamos numa fase de tentar perceber por onde é que vamos, e o que é que vamos querer fazer e... Depois essa fase acaba por ser mais fácil, os meninos já têm aqui uma rotina, eles estão bem, eles estão ótimos, eu acho que quem está pior sou eu e sou de cá, porque acaba por ter muitas coisas que eu fazia longe. Por isso, nós acabamos por trabalhar um bocadinho longe e isso de reajustar a parte laboral é mais difícil.
Como é que foi Vila Flor recebê-la de volta? Tinha aqui uma ligação muito grande, com instituições, até, como a paróquia, etc.
Foi bom, foi muito curioso… Sim, eu gostava muito de me envolver nas atividades que havia cá, por isso eu acabei por conhecer muita gente, o que é que é engraçado. Passa muito tempo e aconteceu uma coisa que nem eu estava à espera, que eu às vezes já não consigo perceber de onde é que eu conhecia as pessoas, e as pessoas também não me reconhecem. Aliás, as pessoas olham para mim, reconhecem-me e algumas eu acho que não sabem bem de onde. E só aí é que se percebe que realmente mudamos e que passaram muitos anos. Eu já não estou cá desde os 18 anos, quase há 20 anos e é muito engraçado perceber que: “Ah, Catarina! És tu? Não estava a reconhecer.” Isso acontece-me imensas vezes. Mas noto que as pessoas ficam contentes, até porque eu acho que é uma zona que precisa de gente jovem, e estamos a trazer duas crianças, mais duas e acho que sim, e eles integraram-se muito bem é muito bom.
Além dos desafios agora da casa, como é que se vão organizar…
A nossa vida está aqui metade e metade em Penafiel. Está complexo.
Faz parte, não é? Não é uma transição que aconteça de um dia para o outro.
Falta-me um sutiã, “ah está em Penafiel” uma camisola, “está em Penafiel”, é complicada esta fase.
E em termos profissionais, ambos…
O meu marido está mais ou menos estável, porque ele está em Vila Real, no Hospital de Vila Real, continua a vida dele mais ou menos da mesma forma. No meu caso, foi uma mudança, mas, está a correr de forma pacífica.
Qual foi a mudança?
Mudei de Gaia para o Hospital de Vila Real também. Agora estou numa fase dos contratos, a perceber se fico ou não fico, mas em princípio vou ficar ali no hospital. Depois tenho outras coisas que me prendem ao Porto. Ainda me custa deixar e continuo a ir trabalhar lá, faço assim umas viagens, eu gosto de ir lá trabalhar.
Como é que funciona ter que ir trabalhar lá?
Nós na radiologia acabamos de trabalhar muito fora e eu já tinha algumas coisas fixas e, por isso, costumo ir à Casa de Saúde da Boavista, à Clínica da Mama, eles têm uma clínica em que basicamente trabalhamos integrados e isso é um trabalho desafiante, é um trabalho que eu gosto muito de fazer. Por isso acabo por ir, por fazer esse esforço de ir.
E o facto agora dos filhotes poderem ficar com os avós, sentem algum alívio nessa parte? Nas deslocações?
Sinto e não sinto. De alguma forma, sinto sempre que acabo por sobrecarregar os meus pais. A minha mãe ainda trabalha, portanto, parecendo que não, é diferente estar em casa. A minha mãe trabalha na Câmara, foi trabalhadora estudante e continuou na Câmara Municipal. Por isso, continua a ter o horário dela, temos de adaptar sempre aqui de alguma forma. Acabei por sobrecarregá-los e para mim é um peso. Achei que não ia ser, mas é um peso.
Mas sente que eles estão a sentir esse peso? Ou a felicidade por ter de perto contrabalança?
Eu acho que sim, acaba por ser um balanço, um equilíbrio entre as duas coisas. Eu é que, para mim, eu sinto alguma culpa, porque sinto que também vim alterar as rotinas deles. Obviamente, estão contentes, estão felizes, estão com os netos, eu acho que é bom, quando olharem para trás, eu acho que é uma ligação que é importante, e já percebo que, se por algum motivo nós saímos dois dias, eles já sentem, eles já sentem a diferença. Mas eu própria carrego alguma culpa por sentir que vim desestabilizar um sistema que já estava montado. Eles têm o esquema deles, os meus pais não param, a minha mãe ainda tem de trabalhar. Portanto, ainda não chegou à idade da reforma, ainda lhe faltam uns anos, de alguma forma, acabo por sobrecarregá-los, mas eu acho que a parte positiva é… acho que vale a pena.
Em termos de reintegração de regressar às raízes ainda estamos numa fase de transição, precoce, porque ainda tem que ir a Penafiel, ao Porto, ainda não assentou, ainda não tem a casa. Tendo em conta isso, é claro, o futuro próximo, imagino que esteja à volta da resolução de coisas mais práticas, e assim, mas como imagina o seu futuro depois dessa parte estar mais estabilizada?
Hum… É uma fase… Tento neste momento não pensar muito para a frente, porque na verdade, nós não sabemos muito bem como é que as coisas, como é que nós vamos gerir. Já ponderámos se continuamos a morar cá, se não moramos cá, se vamos para fora, mas já percebemos que, em termos de ajuda e ter aqui alguma rede de apoio, é aqui. Em relação aos meus filhos tenho sempre uma preocupação presente, precisamente, porque eu morei cá. Portanto, eu morei cá, consigo perceber quais são as condicionantes de morar num sítio pequeno, com alguma limitação de oportunidades, mas eu acho que. Lá está, como eu disse antes, eu senti sempre que me faltavam algumas coisas e não quero sentir que, de alguma forma, isso os balize. Eu também acho que com a globalização, com a internet é mais fácil. Neste momento, eu acho que é mais fácil de não se perder estas oportunidades. Mas é sempre com essa preocupação presente. Por isso, de alguma forma vou estar muito atenta e tentar perceber como é que vai ser. A expectativa é que eles continuem na escola aqui até, porque eu acho que é possível fazerem o que eles quiserem continuando na escola aqui até ao 12º. Mas lá está, vamos vendo e vivendo sem grandes perspetivas nesse campo. Em termos de casa já percebemos que à partida será aqui. Como é que vamos fazer, ainda estamos a perceber. Em termos laborais, correndo tudo bem, o hospital mais perto será Bragança ou Vila Real. Correndo bem em Vila Real, ficaremos por ali. Consigo de alguma forma depois aproximar-me… não preciso de ir todos os dias, de alguma forma também quero estar presente com os meninos aqui e fazer algumas coisas por aqui. Mas não temos nada assim muito perspetivado para a frente.
E algum sonho que esteja por concretizar, que se tivesse condições gostasse mesmo de fazer agora ou quando se reformasse…
Sinto que eu… eu gosto muito de viajar e sinto que esta fase da maternidade me está a limitar de alguma forma. Mas olho para o futuro e penso que vai ser muito giro também descobrir uma série de coisas depois, com os pequeninos, poder levá-los e poder mostrar-lhes o mundo, que eu acho que é sempre uma parte importante, uma bagagem importante para eles. Não tenho muitos mais sonhos do que as coisas mundanas: quero que eles sejam felizes, quero que sejam crianças que se sintam felizes ao longo das várias fases deles, que se sintam em segurança nas fases da vida deles. Para mim, eu quero muito viajar. Quero muito viajar, conhecer outras realidades, perceber outras realidades. Acho também que não fui emigrante, porque não tenho um marido que me queira acompanhar nisso. Mas acho que seria uma coisa que eu facilmente teria feito, porque acho que aprendi também a viver ao longe. Aprendi desde pequenina que era possível viver longe das pessoas, sem isto as tornar longe de nós. Mas não tenho assim muito mais… É mais por aí.
Este projeto é só sobre mulheres, por mais cliché que esta questão possa parecer, quando pensa no significado de ser mulher, com esta trajetória de vida e passou por isto tudo, qual é a autoperceção de género que tem no percurso da sua vida?
Hum… Sinto que, cada vez mais, nos conseguimos aproximar das oportunidades que os homens têm. Acho que as mulheres também lutam, por isso e têm cada vez mais a consciência de que são capazes e que podem, precisamente, fazer coisas muito semelhantes. Eu acho que nós nunca vamos ser iguais nem é isso que nós… nem é essa a pretensão. Cada um tem de ocupar o seu lugar e que têm características inerentes à sua condição de homem e de mulher que os molda, depois também na forma como percebem o mundo. Mas eu acho que as mulheres cada vez mais percebem e fazem por mostrar isso, que têm tantas ou mais capacidades em algumas áreas para assumirem as várias posições. Tenho uma preocupação todos os dias, que é, eu tenho dois filhos, dois meninos, portanto, eu educo-os no sentido da responsabilidade e do respeito pela mulher e deles também perceberem que as meninas são igualmente capazes e que devem ser respeitadas… eu tenho essa preocupação. Eu acho que também nós lidamos com muita gente todos os dias, e a normalidade, o conceito de normalidade das pessoas é muito vasto. Eu acho que, antes de eu ouvir determinadas pessoas ao longo da minha vida, para mim aquilo era perfeitamente aberrante, não é? Por isso, uma das minhas preocupações é precisamente passar-lhes a eles que o homem não é mais homem porque não participa nas atividades em casa, ou porque os carros são para as meninas e as bonecas são para os meninos, ou os carros são para os meninos e as bonecas para as meninas. Ou seja, há aqui uma preocupação de eles perceberem que, de alguma forma, eles não deixam de ser importantes, ou de ser o que eles são se perceberem e se respeitarem as mulheres enquanto mulheres, e enquanto características diferentes e sensibilidades diferentes que as mulheres têm. E eu acho que é isso, acho que vai ser sempre uma preocupação que eu vou ter ao longo da vida. Se tivesse meninas a minha forma, se calhar, de estar, ia ser um bocadinho pela parte delas, não é? De perceberem isso.
Esse papel de educar os filhos rapazes, essa preocupação, acha que é um papel mais da mulher?
Não. Acho que deve ser, acho que deve ser em casa.
Mas é mais a mulher que ocupa-se mais dessa sensibilização?
Eu acho que sim. Eu acho que sim, até, porque nós próprios enquanto adultos, nós na nossa faixa etária, passamos por esta transição. Passamos por esta transição, em que se segregavam as mulheres e os homens em relação às atividades que tinham, as atividades que podiam ocupar, o que podiam fazer, dizer, para passarmos a uma fase em que também agora já se acha que tudo é permitido, de todas as formas, e que os filhos crescem sem limites e sem balizas. Por isso, de alguma forma, eu acho que as mulheres continuam a ter um papel mais ativo nessa… mas acredito que com o passar do tempo isso também se esbata, e que passe a ser uma preocupação dos homens e das mulheres. Mas sinto que nós ainda temos muito esse papel.
Teve alguns desafios durante a vida pelo facto de ser mulher? Em oposição a ser homem?
Sim. Acho que na minha área profissional ainda existe alguma… ainda existe… Não há preconceito. Não acho que haja, de forma deliberada, uma diferenciação das mulheres e dos homens. Mas, sinto muitas vezes que, enquanto há um homem não é preciso que a mulher ocupe esse lugar. Acho que se continua, não sei se é de forma consciente, mas acho que se continua a pensar no homem como a posição… ou melhor, o mais adequado para ocupar determinados cargos.
Cargos de liderança, talvez?
Sim, eu acho que sim. Não sei se de forma equilibrada, porque há mulheres que cada vez mais…
Mas deparou-se na sua trajetória, deparou-se com isso?
Estou a tentar lembrar-me de algum caso específico. Mas sei que existiram algumas situações, nunca foi nada assim de forma taxativa, mas sim, de alguma forma vai havendo sempre algumas situações.
Identifica-se como uma mulher de Trás-os-Montes, uma mulher do interior? Pensando em algumas características que possam ser diferentes das mulheres do interior e das mulheres dos outros sítios onde viveu.. tem essa reflexão feita ou quer fazer agora?
Tenho muito orgulho nas minhas origens nunca foi uma coisa que… Aliás, nas minhas origens e no meu sotaque. Foi uma coisa que eu fiz questão de não perder. Muitas vezes era reconhecida até pela forma como falava. Obviamente, tendo passado tanto tempo fora há coisas que se perdem e que perdi de forma inconsciente, falando. Mas fiz sempre questão de dizer que era transmontana e que era de Vila Flor. Muitas vezes é preciso explicar onde é que ficava Vila Flor, mas eu fazia questão de dizer onde é que era.
Mais alguma característica que associa às mulheres daqui, do crescimento aqui?
Aqui em Vila Flor, aqui em Trás-os-Montes? Não sei. Acho que somos muito espontâneas, muito genuínas, muito sem filtro, muito pragmáticas. Acho que são… Eu acho que nós aqui tivemos contacto com tantas realidades diferentes daquelas que muitas vezes depois em termos urbanos se veem. Que são as pessoas naturalmente trabalhadoras e de forma tão espontânea que… Eu acho que às vezes só nos apercebemos depois quando temos algum feedback: “Não era preciso tanto”, “não estava à espera de tanto”. Por isso acho que sim que essas são assim características desta zona.
Que também associa aos homens ou algumas são mais femininas?
Também associo aos homens. Mas sinto muito que as mulheres se debatem muito mais… as mulheres, as mulheres transmontanas são muito... Não são de ficar. Pelo menos na minha área de trabalho sinto muito isso. Sinto que quando alguém nos põe à prova, ou quando alguém nos desafia em alguma coisa, que não ficamos caladas, que respondemos, que vamos à luta, que fazemos o que for necessário.
Muito obrigada.
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