Queria que começasse por dizer o seu nome, o local e a data de nascimento.
O meu nome é Catarina Isabel dos Santos Almeida, tenho 25 anos e sou natural de Vila Flor. Nasci em Mirandela, na altura era a maternidade mais perto, mas sou de Vila Flor.
E os seus pais, como é que se chamam?
A minha mãe chama-se Georgina Maria Bernardo dos Santos Almeida e o meu pai chama-se António Manuel Martins Almeida.
E os seus pais também são daqui?
Sim, são os dois naturais de Vila Flor.
Alguma vez emigraram?
Não. Sempre fizeram a sua vida aqui, por aqui ficaram. E cá estão.
E o que é que os seus pais fazem?
O meu pai é mecânico. Tem uma oficina que foi fundada pelo meu avô e, no fundo, ele seguiu também a profissão do pai, e a minha mãe também ajuda na oficina do meu pai, na parte mais da contabilidade, e assim. Portanto, é um negócio de família. O meu pai seguiu as pisadas do pai dele.
E sempre fizeram isso?
O meu pai que estudou aqui em Vila Flor, mas depois, a certa altura, apercebeu-se que gostava e quis seguir essa vocação e, portanto, ficou por aqui e continuou e continua o negócio do meu avô.
E como conheceu a sua mãe?
Os meus pais conheceram-se na escola, pelo que eu sei e, portanto, eram os dois daqui. O meu avô materno e a minha avó paterna são da mesma aldeia, as famílias já se conheciam e surgiu [risos].
E começou logo a trabalhar com o seu pai ou teve alguma experiência anterior?
Não, antes ainda trabalhou com em alguns lugares, mas o sítio que teve mais tempo foi numa quinta de vinhos aqui também em Vila Flor. Mas depois aquilo acho que mudou de gerência e, pronto, a minha mãe decidiu dedicar-se mais a trabalhar com o meu pai e também a ajudá-lo.
E depois apareceu a Catarina [risos].
Não, primeiro apareceu o Pedro em 1995, nasceu o meu irmão que tem neste momento 30 anos e está em emigrado em França, mora em Paris. É o meu irmão mais velho. Depois, só mais tarde, em 2000 é que nasceu a Catarina...
Continuar leituraQueria que começasse por dizer o seu nome, o local e a data de nascimento.
O meu nome é Catarina Isabel dos Santos Almeida, tenho 25 anos e sou natural de Vila Flor. Nasci em Mirandela, na altura era a maternidade mais perto, mas sou de Vila Flor.
E os seus pais, como é que se chamam?
A minha mãe chama-se Georgina Maria Bernardo dos Santos Almeida e o meu pai chama-se António Manuel Martins Almeida.
E os seus pais também são daqui?
Sim, são os dois naturais de Vila Flor.
Alguma vez emigraram?
Não. Sempre fizeram a sua vida aqui, por aqui ficaram. E cá estão.
E o que é que os seus pais fazem?
O meu pai é mecânico. Tem uma oficina que foi fundada pelo meu avô e, no fundo, ele seguiu também a profissão do pai, e a minha mãe também ajuda na oficina do meu pai, na parte mais da contabilidade, e assim. Portanto, é um negócio de família. O meu pai seguiu as pisadas do pai dele.
E sempre fizeram isso?
O meu pai que estudou aqui em Vila Flor, mas depois, a certa altura, apercebeu-se que gostava e quis seguir essa vocação e, portanto, ficou por aqui e continuou e continua o negócio do meu avô.
E como conheceu a sua mãe?
Os meus pais conheceram-se na escola, pelo que eu sei e, portanto, eram os dois daqui. O meu avô materno e a minha avó paterna são da mesma aldeia, as famílias já se conheciam e surgiu [risos].
E começou logo a trabalhar com o seu pai ou teve alguma experiência anterior?
Não, antes ainda trabalhou com em alguns lugares, mas o sítio que teve mais tempo foi numa quinta de vinhos aqui também em Vila Flor. Mas depois aquilo acho que mudou de gerência e, pronto, a minha mãe decidiu dedicar-se mais a trabalhar com o meu pai e também a ajudá-lo.
E depois apareceu a Catarina [risos].
Não, primeiro apareceu o Pedro em 1995, nasceu o meu irmão que tem neste momento 30 anos e está em emigrado em França, mora em Paris. É o meu irmão mais velho. Depois, só mais tarde, em 2000 é que nasceu a Catarina [risos].
E, então, como é que era a infância aqui na sua casa? Lembra-se da casa da sua infância?
Sim, sim. A minha família é uma família bastante numerosa, nós somos os Titos de Vila Flor, isto porque o meu bisavô chamava-se Tito Lívio. Ele faleceu ainda bastante novo, com 60 e poucos anos, e a minha bisavó, que se chamava Amélia, ficou viúva, foi uma mulher muito lutadora. É com algum orgulho dizer que é minha bisavó. Ficou com os oito filhos e tinha um negócio, fazia alheiras e, pronto, ficou bastante conhecida pelo seu negócio de produzir fumeiro. Numa altura, por acaso, dediquei-me a fazer a minha árvore genealógica da família da parte do meu pai e somos cerca de 70. A última vez que comemorámos o aniversário dela foi quando fez, se bem me recordo, 95 anos, ela faleceu com 98, e nessa altura ela sabia o nome de todos e tinha 8 filhos, 17 netos e 21 bisnetos. Portanto, somos uma família bastante numerosa e costumávamos reunir-nos sempre no aniversário dela que era em julho. Mas antes disso, na minha infância, o Natal, tenho memórias da casa dela cheia de gente e, depois, vão-me contando coisas, também. Os meus pais contam-me como era e tenho, assim, umas luzes dessa altura. Portanto, uma família bastante unida, numerosa. Os meus bisavôs deixaram um legado só pela família que têm, bastante grande. E, portanto, também tentamos, de certa forma, honrar o nome do meu bisavô. E, por isso, ficámos conhecidos pelos Titos.
Estava a dizer que os seus pais lhe contavam histórias da família, lembra-se de alguma história, assim, antes de nascer, histórias da família que tem na memória de serem contadas?
Acho que a mais marcante dos meus bisavós. O meu bisavô Tito tinha um talho e muita gente que com a qual me cruzo lembram-se dele e falam dele. Às vezes perguntam-me: “Tu pertences a quem?”, aquela frase… E eu digo: “eu sou Tita, sou dos Titos”. Tenho muito orgulho de ser desta família e claro que ligam logo a essa figura que muita gente conhecia e que ficou marcada em Vila Flor.
E tirando esses momentos do Natal ou do aniversário da avó, em que se juntava a família mais numerosa, não é? Havia outros momentos de convívio? Como era, assim, a dinâmica da infância com a família mais alargada?
Eu sempre tive uma relação bastante próxima com a minha família. Primeiro, à volta de minha casa moram os meus tios, à frente é a minha avó, depois as tias do meu pai, portanto, temos sempre uma relação bastante próxima, não só pela proximidade das casas, mas também em termos da relação. Para mim, a minha família é a base de tudo, algo que sustenta aquilo que nós somos, que faz aquilo que nós somos e que nos ajuda a crescer ao longo da nossa vida.
E a casa onde vive atualmente é a mesma casa onde cresceu?
Sim.
Como é que é a casa?
A minha casa é uma casa humilde. É uma casa em que dentro da mesma casa são duas casas - vivem os meus tios ao lado - em que cresci ali sempre muito mimada por todos. Da parte do meu pai sou eu, é o meu irmão e tenho mais um primo, portanto, sou a única neta da minha avó paterna. Portanto, fui assim mais mimada, por ser a menina da família. Ainda hoje sou.
E quando era criança o que gostava mais de fazer?
Eu sempre fui uma pessoa que que participava em muitas coisas. Primeiro, com cerca de sete anos entrei numa escola de música do professor Zé Cordeiro, ainda hoje é professor de música. Comecei a aprender cavaquinho, porque era muito pequenino e não havia um instrumento que se adequasse melhor para a minha idade. Depois, mais tarde, passei para a guitarra e, depois, comecei a aprender também outros instrumentos, baixo, bateria e, portanto, comecei desde cedo numa escola de música, essa paixão pela música, que também surgiu um bocadinho da parte da mãe. Lá está, o meu avô Ramiro sempre esteve ligado à banda de Vila Flor e, portanto, também transmitiu esse bichinho da música. E depois comecei também a criar esse gosto e às vezes também cantava. Estive nessa escola até cerca dos 15 anos, tentando sempre desenvolver cada vez mais.
Muito interessante esse percurso na música, desde cedo, e a relação com a família. E para além disso, com outras crianças, brincadeiras, o que é que fazia?
Na minha rua moravam várias crianças, inclusive as minhas amigas da minha turma, costumávamos brincar muito. Também não tínhamos as coisas que existem hoje, telemóveis, tablets, brincávamos muito, andávamos bicicleta. Tínhamos muitas brincadeiras. Depois, mais tarde, também entrei nos grupos mais ligados à igreja, no grupo de acólitos, no grupo de jovens. Tínhamos muitas atividades, desde ir a lares de idosos, fazíamos viagens, claro, tendo por base os valores da igreja, porque estávamos inseridos num grupo da igreja, mas tentámos sempre também fazer algum voluntariado, até na altura de eu ir para a universidade.
E desde que idade é que começou a fazer parte desses grupos da igreja?
Onze anos. Até hoje.
E, nessa altura, ou a partir de que idade é que começou a pensar no que é que gostava de fazer, ou de estudar, ou de trabalhar no futuro?
Eu acho que foi assim, por volta dos 14 anos. Comecei a aperceber-me um bocadinho da política local e depois pensei, porque não estudar direito? Também tenho algumas pessoas na minha família formadas em direito e começou a surgir um bichinho e, portanto, fiz o meu percurso aqui na escola, sempre, e fui para a universidade, para direito. Portanto, consegui o curso que queria. Em 2018, entrei na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Direito. Estive lá um ano e meio, mais ou menos, porque, entretanto, foi a COVID e depois o confinamento. No final do segundo ano, pedi transferência para a Braga, para a Universidade do Minho, e concluí lá o curso e hoje ainda estou lá a frequentar o mestrado.
Portanto, disse-me o que é que queria ser, estávamos nessa parte, não é? Começou a sentir interesse pela política aos 14, não é? Também havia já algumas pessoas da família de direito, ou se calhar também era uma coisa que se calhar se falava, em família, da dinâmica política, de Vila Flor, talvez.
Sim, sim.
Mas, antes de irmos para a faculdade, queria que me falasse um bocadinho da entrada para a escola, do 1º ciclo, pré-escola, como é que foi?
Eu andei no infantário, na Santa Casa, antes de ir para a escola. Depois, fui para a escola primária, que é hoje um local onde estão várias associações. Não é a escola atual, é outra escola. Mas era muito perto da minha casa, portanto, eu e as minhas amigas ali da rua íamos para a escola e vínhamos juntas. Jogávamos muito à bola. Eu lembro-me que era assim, meia maria rapaz [risos]. Eu e algumas amigas gostávamos muito de jogar à bola e outras brincadeiras, ao esconde-esconde, à macaca, muitas coisas.
Hum, hum.
E foi uma infância muito feliz. Há um episódio que me recordo, que nunca mais me esqueço. Houve um dia, foi no inverno, que a minha avó, que morava ali perto da minha casa, também, foi-me buscar à escola e estavam lá uns senhores a tirar umas fotografias. Eu pergunto: “avó, porquê estão a tirar fotos?”. “Dizem que é para uma novela”. E, pronto, aquilo passou, tiraram as fotos. Passados uns dias ligaram à minha mãe. Tinha sido escolhida para uma novela que estavam a filmar em Vila Flor. E depois também entrei na novela e foi um episódio engraçado.
Foi recrutada sem saber [risos]
Exatamente. Sem saber para o que ia [risos].
E que novela é que foi, já agora?
“A outra”, que foi filmada aqui em Vila Flor, em 2007, se não me engano, 2007, 2008.
Mas era mais figurante ou até tinha falas?
Não, não. A personagem principal, quando se lembrava da infância, aparecia eu. Portanto, não tinha falas. Era só mesmo imagens, assim, da vida.
E gostou?
Gostei. Foi uma experiência… ainda me recordo e tenho muitas fotos com alguns atores, e assim.
E mais alguém daqui de Vila Flor também participou?
Sim, tivemos muita gente a participar. Sobretudo, fizemos quase toda a gente figurantes, não é? Porque não temos mais aquela formação como os atores. Mas sim, foi interessante.
Que giro. E voltando à parte escolar, portanto, ia a pé para a escola, com as amigas, tinha aquelas brincadeiras. Mas como é que foi a parte escolar? Gostava da escola?
Sim. Sempre gostei da escola. Sempre fui uma aluna aplicada, tentava sempre dar o meu melhor. Claro que há sempre aquelas coisas, às vezes não tiramos as notas que queremos, não é? Mas tentar sempre dar o melhor. No segundo e terceiro ciclo também sempre fui aluna de mérito, e no secundário. Mas claro que no secundário há sempre aquela preocupação das notas para ir para a faculdade, aplicámo-nos mais, porque temos um objetivo para atingir e, portanto, sim, sempre fui boa aluna, uma aluna razoável [risos].
Do que é que gostava mais?
Sobretudo do convívio com as amigas, que ainda hoje ficou o grupo.
E há algum professor ou professora que a tenha marcado?
Sim, tenho alguns professores que me marcaram.
Alguém em particular que queira partilhar aqui?
Não… eles sabem bem que são [risos].
Depois, então, vem a faculdade. Mas a juventude começa ali antes, antes de ir para a faculdade, fala muito das amigas, não é? Era um grupo principalmente de raparigas?
Era, raparigas, sim.
E o que é que faziam?
Tínhamos esse grupo de jovens que já criava ali uma ligação forte. Depois também tínhamos as saídas à noite, mas já no secundário, com uns 16, 17 anos. Os meus pais lá deixavam sair um bocadinho à noite, para nos divertirmos, mas sempre com responsabilidade e com obediência aos pais, porque àquela hora tínhamos de estar em casa [risos].
Claro.
Portanto, sempre fomos assim um grupo muito brincalhão, mas responsável. Acho que sim.
E os momentos de festa da vila, também eram importantes para os jovens, essas festas?
Sim, sobretudo no verão, porque a nossa vila e as aldeias têm muito mais gente na altura do verão. Os emigrantes vêm às festas e acabamos por nos encontrar até com colegas, mesmo agora, que já não via há algum tempo. No verão é sempre aquele ponto de encontro nas festas, porque as pessoas regressam, vêm ver a família, estão aqui algum tempo a descansar e é sempre bom rever as pessoas por quem temos algum carinho e que não vemos há muito tempo. Acabam por ser momentos de convívio e que se criam laços ainda mais fortes depois de rever as pessoas passados alguns anos, e contamos histórias…
O momento em si da festa era um momento esperado quando era jovem? Era um momento importante?
Sim. Pelo menos no meu grupo de amigas, todas gostamos de festa e tentamos sempre participar nas festas aqui, nas aldeias, mesmo noutras terras aqui à volta. E tentamos sempre divertir-nos e estar juntas, sobretudo.
Pronto, agora vamos para a faculdade. Queria agora que introduzisse a parte da faculdade, falar um bocado desse percurso. Como é que começou, como é que correu, como é que foi viver lá, depois a interrupção e a transferência…
Eu fui para Coimbra em 2018, entrei lá no curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e comecei o primeiro ano. Fiz a praxe, aquelas coisas, cantar, brincadeiras. Ao início um foi difícil. Primeiro, sair daqui, não é? Fui para uma cidade que não conhecia ninguém e ter novos hábitos de vida, novos hábitos de estudo, porque apesar de ter já algum traquejo de estudo aqui na secundária, não se compara àquilo que nós temos que estudar na universidade. Tem que haver muito mais dedicação, temos que dedicar mais tempo, mais atenção às aulas e, portanto, ao início é sempre aquela descoberta de um mundo novo, fora de Vila Flor. Depois as saudades de casa, também, foi assim, foi difícil, mas ao mesmo tempo foi bom para descobrir novos horizontes. Depois ali no segundo ano comecei a aperceber-me que gostava mais de umas disciplinas que outras, não é? O primeiro ano é sempre uma adaptação e no segundo ano comecei a perceber-me disso. Fiz o meu percurso. Fui aluna incrível? Não. Sempre tirei notas razoáveis para passar na universidade e, portanto, depois no segundo ano surgiu a oportunidade de poder pedir transferência para uma faculdade mais perto e que na altura tinha, e ainda tem hoje, outros métodos que eu achava que em Coimbra já não estavam adaptados para a atualidade, e que poderia ser melhor para mim. E pedi transferência para a Universidade do Minho e ainda hoje lá estou, porque gostei muito de concluir lá a minha licenciatura e depois entrei no mestrado, mais recentemente. É uma escola bastante mais inovadora, os professores também são mais novos, há outro tipo de abordagem, há uma proximidade maior e, portanto, depois as coisas fluíram melhor, a proximidade com a casa-mãe, que era aqui, também era maior, e gostei muito de estar em Braga. De vez em quando ainda vou lá, porque neste momento estou a frequentar o mestrado em Direito Administrativo, na área de especialização em Autarquias Locais. Portanto, foi um bocadinho a seguir aquilo que é o bichinho que ficou lá atrás, da política local e que, pronto, tentei seguir. Foi uma área que durante a licenciatura também gostei de estudar e depois pensei, quando estava na escolha para o mestrado, porque não esta área que me fascina e que eu gosto, efetivamente, de estudar e perceber como é que funcionam as coisas sem ser lá em Lisboa, onde o poder está centralizado.
Disse que no Minho estava mais perto da casa-mãe, mas funcionava de forma diferente o viver em Coimbra e viver em Braga? Vinha mais vezes cá quando estava em Braga?
Sim, tinha mais proximidade, apesar que em Coimbra também vinha sempre que podia, aos fins-de-semana. Só que, claro, há alturas que tinha que estudar mais e ficava o fim-de-semana, mas em Braga conseguia ir mais a casa e tinha outra dinâmica, sim.
E durante a pandemia não precisou vir a Braga, se calhar, era à distância.
Sim, o ensino era à distância, tínhamos as aulas online, pelo computador, mas os exames eram presenciais, portanto, tinha sempre que ir a Braga fazer os exames, e depois voltava. Depois houve uma altura que quando começou a haver mais abertura, tinha uma semana online, outra presencial.
Hum. Hum. E essa fase também permitiu estar mais cá, não é?
Sim.
E falou nas mudanças ao nível da relação com a escola e com o estudo, não é? E com a dedicação. Mas o que é que mudou mais na sua vida com a entrada na faculdade? Estou a pensar, por exemplo, passou a viver noutra cidade, com outras pessoas. Como é que foi?
Eu acho que quando saímos da nossa bolha, por assim dizer, no caso, eu aqui de Vila Flor, apercebemo-nos, eu, pelo menos, apercebi-me, e acho que ainda dei mais valor ao sítio onde cresci, onde nasci, onde vivi. Vamos para uma cidade, no caso, eu fui para Coimbra, primeiro, e apercebemo-nos que é tudo muito rápido, muito… a vida é muito agitada, o trânsito, as pessoas sempre a correr de um lado para o outro, e nós aqui não temos isso. Depois também, mais tarde, quando fui para Braga, como já vivi nestas duas cidades, acho que dou cada vez mais valor ao sítio onde cresci, porque nós estamos numa vila pacata, onde as pessoas todas se conhecem. Depois pensava que tenho mesmo sorte do sítio onde cresci, onde vivo, tanto é que cheguei a trazer colegas, e ainda hoje vêm, que moraram comigo nestas duas cidades e que gostam quando vêm cá. Ouviam-me falar e “ah, a tua terra vai ser incrível, tu falas com tanto amor à terra”. Claro, eu digo sempre, para mim é a melhor terra porque é a minha, mas… apercebo-me que as pessoas que depois também vêm, também gostam, e tento sempre transmitir aquilo que de melhor nós temos aqui.
Para além dessa visão mais reforçada que acabou por ter de Vila Flor, por comparação a outras cidades, mas no momento da faculdade houve algum momento marcante que queira partilhar? Seja em Coimbra, seja no Minho, alguma coisa que a tenha marcado?
Eu acho que, quando acabei o curso, porque foi um percurso que não foi fácil, não foi sempre fácil, é a realidade, e foram anos difíceis porque estamos fora de casa, já não temos aquele apoio dos pais, ali, apesar que os meus pais sempre que podiam, iam, e estavam presentes sempre, mas não é aquele conforto de estarmos ali debaixo da asa dos pais. Estamos ali para cumprir um objetivo pelo qual os nossos pais também lutaram e que têm aquelas expectativas em nós e, às vezes, o esforço no estudo e no dia-a-dia não se refletia nas notas e às vezes era frustrante. Portanto, o curso de direito por si só já é bastante exigente, requer muito estudo, muita dedicação e claro que houve momentos que uma pessoa pensa: “Será que é efetivamente isto que eu quero para a minha vida? Será que não é esta a minha vocação? será que tenho que mudar de curso?”. Mas depois, no fim, acho que quando vemos aquilo que conseguimos e todo o esforço, acho que vale a pena, porque no fim é uma sensação de missão cumprida. Foram anos de tantos altos e baixos e tanto esforço, que no fim acho que é a melhor sensação, eu estava ali por mim, mas estava também pelos meus pais.
E os momentos de convívio ou até de alguma de atividade, na faculdade, como é que foi? Além das aulas, o que é que fazia nos tempos livres ou se se envolveu em mais alguma coisa?
Na faculdade ainda fiz parte de um grupo de voluntariado da Associação dos Estudantes de Direito, agora mais nos últimos anos, ao início não consegui muito dedicar-me a coisas fora do estudo, porque era aquela adaptação e perceber como é que as coisas funcionam. Mais para o fim, já em Braga, fiz assim algumas atividades de voluntariado e depois também fiz parte de um grupo de jovens que está ligado aos jesuítas, à Companhia de Jesus lá em Braga, e também tínhamos muitas atividades, serões, conversas com convidados que também nos davam a sua perspetiva de vida, depois fazíamos voluntariado, também. Para além do estudo, tentei sempre ter algo que me deixasse desligar do estudo, porque o curso em si desgasta bastante e é muito exigente e, portanto, precisei sempre de um hobby, por assim dizer, fosse grupos de jovens, a música, tentei sempre conciliar tudo.
E a música também?
Sim, eu na Universidade tocava guitarra, às vezes juntava uns amigos lá em casa, mas pronto, sempre assim uma coisa mais em casa.
E correu bem viver com outras pessoas?
Sim. Nós já percebemos sempre que há uma adaptação, porque cada um tem os seus hábitos e a sua forma de estar e, portanto, deparei-me com várias personalidades, pessoas de vários sítios. Mas, no geral, sim, correu bem e fiz amizades que ainda hoje tenho e que levo para a vida. No fundo, como nós estamos longe de casa, apoiámo-nos um bocadinho nas pessoas que estão ali ao nosso lado e que, às vezes, vivem connosco em casa. Então, fica ali um bocadinho a nossa família da Universidade quando saímos daqui.
Claro. A escolha do mestrado, portanto, Direito Administrativo já estava relacionada com alguma ambição profissional, já tem essa ligação com o que quer fazer?
Eu escolhi Direito Administrativo porque foi uma área que gostei de estudar na licenciatura e que, lá está, está mais ligado ao poder local. Depois, dentro do Administrativo, escolhi o ramo das Autarquias Locais, e é uma área que tenho gostado de aprofundar e que estou neste momento a realizar a minha dissertação de mestrado. E… sempre com esta preocupação de, sobretudo, fazer algo pelas pessoas aqui, a proximidade com as pessoas na nossa terra, porque nós apercebemo-nos, cada vez mais, que o poder está centralizado em Lisboa e no Porto, esquecem-se das pessoas do interior. Portanto, eu acho que devemos apostar e mostrar cada vez mais aquilo que nós temos de bom no interior e nas nossas terras. Acho que é preciso mesmo investir. Eu sei que não há as oportunidades que há no litoral, é verdade, mas por outro lado nós temos uma qualidade de vida muito maior do que as pessoas que vivem nas cidades. Temos produtos de excelência, temos… lá está, temos é uma falta de investimento aqui no interior e que o meu estudo é um bocadinho nesse sentido, de dar mais valor ao interior e àquilo que nós temos de melhor. Descentralizar, no fundo.
Como é que junta isso com o direito? O tema da dissertação é diretamente sobre Vila Flor?
Não. É mais ligado aos municípios, mas quando fiz essa escolha foi sempre a pensar na proximidade com as pessoas, no poder local e no sentido de ajudar a desenvolver, dar um contributo. Nós estudamos, mas é tudo é muita teoria, depois só na prática é que nos apercebemos como é que funcionam as coisas e, agora recentemente que fui eleita vereadora da Câmara Municipal, é que me apercebo de muita coisa que estudei na universidade, na prática, como é que funciona.
É por aí que quer dar o seu contributo aqui em Vila Flor, não é? Através da parte mais politica, de decisão e de investimento.
Sim.
O seu primeiro trabalho é como vereadora ou fez alguma coisa antes, mesmo quando era mais nova?
Sim, no verão fui monitora de grupos de crianças no Centro Paroquial. Esqueci-me de mencionar essa parte, que tentei sempre ocupar as férias de verão com atividades e fui monitora alguns anos. Quando comecei tinha 16 anos, já tinha alguma responsabilidade, estar a cuidar de crianças, e tentei sempre dar o meu melhor.
O que é que fazia com esse primeiro dinheiro que ganhou?
O que é que fiz com o meu dinheiro? Nem sei. Eu e mais jovens não andámos ali muito pelo dinheiro…
Eu imagino…
Mais para passar os tempos livres e ajudar naquilo que podíamos.
Pronto, então, primeira experiência, no fundo, com o mercado de trabalho, mais com a dinâmica mais laboral, é agora como vereadora. Como é que ocorreu essa entrada na vida política?
Foi um convite que surgiu para fazer parte de uma equipa e, no fundo, foi no sentido de dar o meu contributo e servir as pessoas o melhor possível, acredito nesta equipa e acho que pode fazer o melhor pela minha terra. Depois, ser era eleita ou não, já era uma coisa que podia surgir, podia não surgir. Surgiu, não sou vereadora a tempo inteiro, sou vereadora em regime de não permanência, mas tento dar sempre o meu contributo e há uma abertura, sempre, para ouvir a minha opinião e para, também, no fundo, estabelecer aqui uma ponte com os jovens e perceber a nossa opinião, as ideias que nós temos para o futuro da nossa terra.
Muito bem. Está a afeta a alguma área específica?
Não, não.
E como é que está a correr?
Está a correr bastante bem, acho que sim. Ainda estamos muito no início, mas tentamos sempre ouvir toda a gente e todas as opiniões, que são importantes. Depois, também, incentivar os jovens a dar o seu contributo, as suas ideias, que eu acho que isso é cada vez mais importante, porque conseguimos ter, por vezes, uma visão que de outra maneira não tínhamos. Um jovem às vezes tem uma ideia que às vezes pessoas mais velhas nunca lhes passou pela cabeça, e, portanto, tentar fazer este diálogo entre gerações e, depois, tentar retirar as melhores ideias e podermos pôr na prática, sempre a pensar no melhor para as nossas pessoas, para a nossa gente.
E é uma coisa que está a gostar de fazer, como a primeira experiência aqui a dar o seu contributo… já tinha dado antes nos grupos da igreja, mas está a gostar, está a sentir que é uma coisa que quer fazer no futuro?
Sim, acho que isto é um percurso que tem que se fazer, a política é uma coisa muito incerta, não é? Depende sempre das pessoas que se escolhem, aquela pessoa ou outra, portanto, acho que penso um bocadinho mais no agora e naquilo que posso fazer, e servir da melhor forma. É isso que me motiva e que motiva a equipa onde estou inserida. Claro que ao estudar a área das autarquias locais, mais ligada aos municípios e freguesias, tento perceber na teoria como é que tudo funciona, mas claro que na prática as coisas mudam um bocadinho e percebemos que há muitas burocracias, há coisas que podemos melhorar cada vez mais e, portanto, gostava de deixar o meu contributo e a minha marca. Agora que faço parte desta equipa e, depois, no futuro logo vemos em que é que poderei continuar a contribuir e perceber o que as pessoas precisam. Acho que é sempre o melhor contributo que podemos dar, é servir o melhor possível as pessoas e pensar, sobretudo, em investir aqui nas nossas gentes e não descartar os “velhotes”, como às vezes se ouve dizer, estão ali e já não... nós temos um grupo da Unidade de Envelhecimento Ativo que é a prova disso, são mais ativos do que alguns jovens. Portanto, tentamos pensar sempre em todas as gerações e tentar fixar pessoas em Vila Flor. Eu tenho colegas que foram para fora, mas também alguns gostavam de regressar, e é criar oportunidades para que as pessoas possam fazer a sua vida e viver em Vila Flor e apostar em Vila Flor. Portanto, tentar melhorar e fazer o melhor possível.
E é isto que gostava de continuar a fazer para o futuro? Para já está a pensar no agora, há volatilidade associada a cargos políticos, mas era isto que gostaria de fazer quando imagina o futuro daqui a 5 anos ou 10 anos?
Sim, eu gostava de poder ficar na minha terra, ou perto, por aqui, porque acho que é um bocadinho aquilo que estava a dizer há pouco, nós vamos para as cidades e apercebemo-nos que, OK, é lá que existem mais oportunidades, mas aqui temos uma qualidade de vida melhor e acho que temos é que tentar que olhem para o interior e para as nossas vilas, as nossas pequenas cidades, que, realmente, possam olhar com o potencial que têm, e desenvolver. Porque se vamos todos para as cidades, isto vai ficar deserto. Para mim, faz cada vez mais sentido viver num sítio como Vila Flor, não só pelo ritmo do dia-a-dia, mas também pela proximidade com a família e, claro, pronto, é necessário criar mais oportunidades.
Nos grupos da igreja, não sei se continua a atividade.
Sim, neste momento também estou a ajudar na catequese e estou a coordenar o grupo de acólitos. Estou sempre também a puxar um bocadinho os miúdos para continuarem, para lhes poder, de certa forma, proporcionar também experiências que eu vivi e que foram importantes para a minha para a minha formação como pessoa e como cidadã.
Agora vou puxar aqui um bocadinho o tema ao nome do projeto, que é Vila Flor no Feminino. No contexto no seu percurso de vida, que é de 25 anos, que não é muito nem pouco, são 25 anos em que é mulher, o que é que, para si, significa ser mulher? Como é que reflete sobre esta condição ao longo do seu percurso?
Eu acho que quando falamos em mulheres vem-me à cabeça a palavra liberdade, que é algo que custou a tantos conquistar, e agora já estamos perto do 25 de Abril e que vamos comemorar. Acho que hoje as mulheres têm uma abertura muito maior, apesar de que ainda há algumas desigualdades, que tentamos todos os dias combater, mas têm uma liberdade muito maior de pensamento, de expressão, de dizer aquilo que pensam sem medo, sem serem julgadas. E, portanto, acho que a desigualdade que outrora se vivia está cada vez mais a diminuir, acho que pensarmos coisas que as nossas avós não podiam fazer e que hoje nós podemos, foi por causa de tantos lutarem pelas mulheres. Acho que é uma pergunta difícil.
Mas essa reflexão é muito interessante e até estava-me a lembrar daquilo que disse da bisavó e que tinha orgulho, e essa figura feminina também é…
Também é importante, sim. Lá está, são figuras como a minha bisavó, as minhas avós, também, que nos marcam e que nos fazem lutar no dia-a-dia pelos direitos das mulheres, em que nós vemos como exemplos que, já naquela altura em que elas viveram, tinham tantas restrições, mas foram à luta e conseguiram, portanto, acho que só podemos estar orgulhosos daquilo que que ao longo dos anos se conseguiu. E, claro, que tentamos sempre que as forças que querem contrariar esta liberdade que foi conseguida, tentamos sempre não dar a grande abertura. Eu, pelo menos, penso na liberdade e na igualdade que cada vez mais se reflete no dia-a-dia, e que assim tem que ser.
E durante o tempo da faculdade… claro que podemos pensar na vida toda, desde a escola ou a infância, que é muito importante, mas nessa altura e também agora esta experiência como vereadora, depara-se com reflexões, ou deparou-se com reflexões, relativamente a esta questão de género? Alguma coisa que que a tenha feito pensar nisso, na questão de se ser mulher ou não ser mulher, o que é ser uma mulher transmontana, ou uma mulher de Vila Flor, que vai para Coimbra, que vai para o Minho.
Aquilo que eu me deparei ao longo dos anos, mais no meu percurso académico na universidade, e pelas mulheres familiares que também são formadas em direito, a tendência era haver muitos mais homens no curso direito, por exemplo. E aquilo que eu me deparei quando eu fui para a universidade, tanto em Coimbra como em Braga, é que a turma era maioritariamente mulheres, portanto, há aqui uma tendência para mudar. Acho que as mulheres têm um papel cada vez mais importante e decisivo no dia-a-dia e estamos a ver, por exemplo, no curso direito temos cada vez mais mulheres que serão advogadas, juízes, juristas, tantas saídas profissionais que tem o curso direito, mas que aí se vê que temos e vamos ter uma presença feminina bastante expressiva.
Se calhar até estar a fazer mestrado enquanto é vereadora até interessante, para alimentar o mestrado, não é?
Sim, sim.
Para além disso, quais são as coisas mais importantes para si hoje?
Para mim, as coisas mais importantes é a família. Lá está, por haver esta relação muito próxima que tenho e que e que desenvolvi ao longo da minha vida. A família, os amigos e acho que tentar sempre desenvolver estas relações e, nem que seja uma pequena marca, mas deixar uma marca nos outros e poder ajudar naquilo que puder e souber. Acho que para mim é o mais importante.
De que forma é que, se é que já pensou nisso, ou se quiser pensar um bocadinho, nascer em Trás-os-Montes influenciou a sua trajetória de vida ou as suas experiências?
Quando vamos assim para uma cidade… normalmente eu digo que sou de Vila Flor, do distrito de Bragança, e toda a gente diz: “Ei, tão longe”. Não é assim tão longe, se pensarmos, estamos a uma hora e meia do Porto, mais ou menos. Fazem muitas perguntas, mas depois eu explico como é que é a vida aqui, normal, não é? E depois já cheguei a trazer amigos cá e depois pensei, realmente isto é espetacular. Lá está, por vida ser calma não termos aquela correria.
E acha que, então, há assim uma ideia pré-concebida que não está muito atualizada?
Sim, sim, sim. Apercebi-me disso mais até quando fui para Coimbra, no início, em que algumas pessoas até me perguntaram: “vocês têm internet?”, “claro que temos, claro que temos internet”. Mas, sim, eu tenho muito orgulho de ser uma mulher de Vila Flor, de ser de Trás-os-Montes, e a todos os sítios onde eu vou digo que sou de Vila Flor.
E há alguma característica de personalidade que associe ao facto de ser daqui?
Curiosamente, cruzei-me com uma colega em Braga, de Vinhais, e apercebemo-nos que éramos da mesma região pelo sotaque. As pessoas dizem que nós temos muito sotaque, nós no dia a dia não nos apercebemos, mas quem está de fora apercebe-se e diziam: “ai, tu falas como aquela rapariga”.
E sonhos, para o futuro? Os profissionais acho que ficaram bem expostos, a não ser que haja outros. Pessoais, profissionais…
Profissionais, no fundo, é deixar uma marca na vida das pessoas, para poder ajudar. Depois, pessoais, gostava de construir a minha vida aqui, ter uma família, um dia casar. No fundo, também seguir o legado da minha família, que ficaram todos por aqui, ou aqui perto. Acho que é muito bonito dizer que sou de uma família de Vila Flor, numerosa. Gostava de continuar a ter uma família numerosa.
Como é que foi contar a sua história?
Não é fácil falarmos sobre nós, pensar na minha curta vida, mas acho que falei no que mais me marcou e acho que tentei fazer um resumo daquilo que foram os últimos anos e das memórias que tenho de quando era pequenina.
Alguma coisa que queira acrescentar que eu não tenha abordado? Que tenha sido importante na sua vida?
Acho que, ao longo da nossa vida, todas as experiências, sejam boas, sejam más, acho que tudo acontece por um motivo e nos ajuda a crescer. Às vezes deparamo-nos com uma situação tão complicada, mas depois, mais à frente, apercebemo-nos, cresci, senão não tinha esta maturidade. As experiências que nós temos fazem aquilo que nós somos, portanto, pensar sempre positivo porque não há mal que sempre dure, por assim dizer. As coisas boas e as coisas más fazem parte da vida e nós crescemos.
Sim. E muito obrigada por ter partilhado as coisas boas e algumas mais difíceis.
Obrigada eu.
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