Era assim o primeiro dia de férias escolar. Meus pais ansiosos para não esquecer nenhum detalhe. Ficávamos 3 meses na praia. Você estranhou que falei três meses? Tínhamos esse tempo nas férias. O ano letivo terminava em novembro e só retornávamos em março.
Malas prontas, cada filho tinha que dar conta da sua. Um dia antes da partida a mamãe sempre dizia ao papai:
- Você não vai ficar me apressando amanhã, pois tenho que deixar a casa em ordem antes de partirmos.
Mas entrava por um ouvido e saía pelo outro. Logo cedinho o papai acordava com a corda toda.
– Vamos pessoal, vocês ainda não acordaram, quero as malas para colocar no bagageiro. Era isso mesmo, “bagageiro”. Papai sempre teve carros bons e com excelentes porta-malas, pois somos quatro irmãos e cada um levava uma mala grande e mamãe preparava uma compra para a viagem e o porta - malas não dava conta de tanta bagagem, por isso o carro tinha uma armação em cima do capô que era chamada de “bagageiro”.
Papai ficava apressando a mamãe o tempo todo e ela reclamava baixinho:
– Ele não percebe que estou deixando a casa em ordem para ele mesmo (Meu pai apenas nos levava para a baixada Santista, voltava para trabalhar e retornava à praia todos os finais de semana. Ele era comerciante e nunca tirava férias).
Imaginem a cena..... Papai ficava esperando as malas, chegarem no carro, cada filho chegava com uma mala maior que a outra. Ele dava risada e perguntava se nós iríamos morar para sempre no litoral, mas aceitava e dava um jeito de colocar todas no bagageiro, ele nem se importava com os conteúdos que colocava no carro para transportar. Um dia ele colocou até o saco do lixo que iria ficar na lixeira em São Paulo, que só foi descoberto quando mamãe em Santos desfazia as bagagens, rimos muito.
Carro lotado, sem pressa começava a viagem... Momentos tão simples e tão significantes... Papai esquecia o stress do seu trabalho e começava a brincar conosco:
- A...
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Era assim o primeiro dia de férias escolar. Meus pais ansiosos para não esquecer nenhum detalhe. Ficávamos 3 meses na praia. Você estranhou que falei três meses? Tínhamos esse tempo nas férias. O ano letivo terminava em novembro e só retornávamos em março.
Malas prontas, cada filho tinha que dar conta da sua. Um dia antes da partida a mamãe sempre dizia ao papai:
- Você não vai ficar me apressando amanhã, pois tenho que deixar a casa em ordem antes de partirmos.
Mas entrava por um ouvido e saía pelo outro. Logo cedinho o papai acordava com a corda toda.
– Vamos pessoal, vocês ainda não acordaram, quero as malas para colocar no bagageiro. Era isso mesmo, “bagageiro”. Papai sempre teve carros bons e com excelentes porta-malas, pois somos quatro irmãos e cada um levava uma mala grande e mamãe preparava uma compra para a viagem e o porta - malas não dava conta de tanta bagagem, por isso o carro tinha uma armação em cima do capô que era chamada de “bagageiro”.
Papai ficava apressando a mamãe o tempo todo e ela reclamava baixinho:
– Ele não percebe que estou deixando a casa em ordem para ele mesmo (Meu pai apenas nos levava para a baixada Santista, voltava para trabalhar e retornava à praia todos os finais de semana. Ele era comerciante e nunca tirava férias).
Imaginem a cena..... Papai ficava esperando as malas, chegarem no carro, cada filho chegava com uma mala maior que a outra. Ele dava risada e perguntava se nós iríamos morar para sempre no litoral, mas aceitava e dava um jeito de colocar todas no bagageiro, ele nem se importava com os conteúdos que colocava no carro para transportar. Um dia ele colocou até o saco do lixo que iria ficar na lixeira em São Paulo, que só foi descoberto quando mamãe em Santos desfazia as bagagens, rimos muito.
Carro lotado, sem pressa começava a viagem... Momentos tão simples e tão significantes... Papai esquecia o stress do seu trabalho e começava a brincar conosco:
- A palavra é...... E tínhamos que adivinhar uma música com a palavra informada. Tínhamos que ser rápidos para ganhar pontos e cantar a música para convencer os 5 jurados. Quem adivinhava a música era o próximo a falar a palavra para a adivinhação. No início começávamos a fazer referências entre as músicas conhecidas, mas para ganhar valia à pena investir em músicas não muito conhecidas. Mamãe pensava em músicas antigas que nunca tínhamos ouvido e nós rebatíamos com músicas atuais que eles ainda não conheciam. A mamãe ganhava sempre, ela tem um repertório maravilhoso e canta muito bem.
Assim seguíamos para a praia, sem trânsito e com as guloseimas separadas pela mamãe:
- Vocês querem uma bolachinha? Chupem uma bala ao descer a Serra para não tampar os ouvidos.
Falando da Serra de Santos, lembro – me da farra que fazíamos nos túneis. Descíamos a Serra da estrada Anchieta e em cada túnel o papai buzinava formando um ritmo musical (bi, bi ,bibibi, bi, bibibi.....) junto com outros carros que lá estavam.
Quando inaugurou a estrada de Imigrantes, nós nunca tínhamos visto tantos túneis em uma só estrada, papai não buzinava mais, o desafio era outro:
- Quem consegue ficar falando a palavra “A”, sem respirar até chegar o fim do túnel? (Aaaaaaaa.....) era difícil, pois temos túneis muito grandes nesta estrada.
Risos, balinhas de hortelã, chicletes “Adams” coloridos, um céu lindo, as pequenas quedas d’água que desciam pelas pedras, as árvores “Manacá da Serra” que trazia um colorido lilás e branco entre a diversidade dos tons de verdes da serra do mar e o sol que brilhava nos esperando em um horizonte que parecia infinito entre os abismos e as curvas. Ansiedade para ver o mar que já fazia parte das nossas histórias de verão.
Depois de estabelecidos, o papai voltava para São Paulo e ficávamos esperando a sua volta nos sábados para construirmos o nosso castelo de areia. O nosso não era apenas um castelo de areia com as pontas de areias respingadas, era um castelo com túneis para passagens de carros, onde os nosso braços serviam de apoio para a construção, tínhamos que ter todo o cuidado para tirar o braço, senão o túnel desmoronava. O buraco que retirávamos a areia para o castelo se transformava no lago do castelo, ou melhor, uma piscina para nós. Era desenhado com os moldes de estrelas e conchinhas de areia e os palitos de sorvete decoravam o entorno desse castelo. Era “O castelo”
Brinquedos e brincadeiras no mar, milho verde, maçãs, bolachas salgadas e não posso deixar de lembrar da famosa queijadinha levada em cesta de vime pelas caiçaras da “Biquinha”. Acharam o nome estranho? Mas esse é o nome de um dos espaços culturais de São Vicente que consiste em uma praça com diversas barraquinhas de doces e uma bica de água natural corrente pelas bocas das estatuetas de leões. Uma vez nas férias passeávamos por lá, tinha tremoço, amendoim, muitas pombas que divertiam a molecada quando corriam para pegá-las, maçã do amor, quindim, e muitas cocadas, cocadas de coco, coco queimado, abacaxi e outras. Para chegar à Biquinha, passávamos pela ponte “Pencil”, construída pelos Portugueses na época do Brasil Colônia, feita com piso de tábuas de madeira, dando uma sensação maravilhosa e um frio na barriga, pois parecia que as tábuas eram descoladas. Víamos às vezes o “Boto” (peixe raro, hoje na região), também o show espetacular de golfinhos e focas na praia de José Menino, em Santos.
Para conhecer a balsa que levava os carros, atravessávamos para o Guarujá e logo voltávamos. O passeio era apenas para passar de uma extremidade a outra de balsa. Sensações diversas..... Era fantástico.... Incrível como esses passeios tiveram significados nas nossas vidas.
Hoje refletimos no amor, no respeito, na fraternidade, na união familiar. Aprendemos apreciar pequenas coisas, detalhes que nos levam a imaginar quão importantes eles serão para os nossos filhos. Crescemos refletindo sobre as construções dos castelos, seus desmoronamentos e sobre o mar que passa como uma régua nessa areia nos dando um novo piso em cada manhã. Aprendemos que os momentos felizes são aqueles que tivemos na simplicidade de cada instante e que hoje, eles fazem parte da minha história e da história dos meus irmãos.
Agradeço a Deus pelos pais que temos, por esses momentos maravilhosos e outros que ainda estão por vir.
Denise Mortari Gomes Del Grandi
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