P - Para começar eu gostaria de saber seu nome completo, local e data de nascimento. R - Carlos José de Araújo, nascido em Brasília em três de outubro de 1965. P - Carlos, e como é que você chegou no Aché? R - Isso já era uma vontade desde criança, porque minha mãe era auxiliar de enfermagem e quando criança a gente sempre ia ficar no hospital. Às vezes, num dia, doente, não tinha quem tomasse conta e a gente acabava ficando com ela no hospital. E eu via aqueles senhores com aquelas malas e perguntava: “Mãe, quem são esses rapazes aí?” “Ah, são vendedores de remédios, são representantes, dão brindes para a gente, dão amostras.” Aquilo me deixou curioso, mas passou. Então meu primeiro emprego foi na área de processamento de dados do Bradesco. Fiquei cinco anos no banco. Depois trabalhei como vendedor de multinacionais, na área de vendas. E com 10 anos atuando como vendedor, eu resolvi buscar o sonho de criança que era ser um representante. E sem perguntar nada a ninguém, eu saí de casa e fui até o hospital, justamente esse em que minha mãe trabalhava. Eu sabia que cedinho os representantes estavam lá arrumando a mala. Então eu cheguei cedinho e fui no primeiro que estava lá e falei: “Olha, eu queria saber como é que faz para entrar no seu laboratório, ou em outro. Eu tenho vontade e eu quero saber como é que faz.” Ele disse: “Olha, até tem uma vaga no meu laboratório. Só que no meu laboratório só entra por indicação, e eu não posso te indicar porque eu não te conheço.” Eu falei: “Então me dá o nome do gerente e o endereço, que eu vou lá.” Ele falou: “Eu vou te passar, mas por favor, não diga que fui eu.” Eu falei: “Não, pode ficar tranqüilo.” Eu fui só para deixar o Curriculum e eles estavam fazendo o teste de seleção realmente. Quando eu entrei, o rapaz tinha acabado de sair, só que esse rapaz já estava...
Continuar leituraP - Para começar eu gostaria de saber seu nome completo, local e data de nascimento. R - Carlos José de Araújo, nascido em Brasília em três de outubro de 1965. P - Carlos, e como é que você chegou no Aché? R - Isso já era uma vontade desde criança, porque minha mãe era auxiliar de enfermagem e quando criança a gente sempre ia ficar no hospital. Às vezes, num dia, doente, não tinha quem tomasse conta e a gente acabava ficando com ela no hospital. E eu via aqueles senhores com aquelas malas e perguntava: “Mãe, quem são esses rapazes aí?” “Ah, são vendedores de remédios, são representantes, dão brindes para a gente, dão amostras.” Aquilo me deixou curioso, mas passou. Então meu primeiro emprego foi na área de processamento de dados do Bradesco. Fiquei cinco anos no banco. Depois trabalhei como vendedor de multinacionais, na área de vendas. E com 10 anos atuando como vendedor, eu resolvi buscar o sonho de criança que era ser um representante. E sem perguntar nada a ninguém, eu saí de casa e fui até o hospital, justamente esse em que minha mãe trabalhava. Eu sabia que cedinho os representantes estavam lá arrumando a mala. Então eu cheguei cedinho e fui no primeiro que estava lá e falei: “Olha, eu queria saber como é que faz para entrar no seu laboratório, ou em outro. Eu tenho vontade e eu quero saber como é que faz.” Ele disse: “Olha, até tem uma vaga no meu laboratório. Só que no meu laboratório só entra por indicação, e eu não posso te indicar porque eu não te conheço.” Eu falei: “Então me dá o nome do gerente e o endereço, que eu vou lá.” Ele falou: “Eu vou te passar, mas por favor, não diga que fui eu.” Eu falei: “Não, pode ficar tranqüilo.” Eu fui só para deixar o Curriculum e eles estavam fazendo o teste de seleção realmente. Quando eu entrei, o rapaz tinha acabado de sair, só que esse rapaz já estava passando pelo processo seletivo. E aí deixei meu Curriculum com a secretária, e disse que queria falar com o gerente. E ela disse: “Mas você foi indicado por quem?” E eu: “Não, por ninguém, eu só fiquei sabendo que tinha uma vaga e eu gostaria de participar da seleção.” E ela: “Mas sem indicação, não entra.” E tal, mas falou: “Mas eu vou deixar o Curriculum com o gerente e tento conversar com ele.” E foi, disse: “Olha, tem um rapaz aí...” “Mas indicado por quem?” “Por ninguém.” “Ah, então diga que já preencheu a vaga.” E ela falou: “Mas conversa com ele, o rapaz está bem vestido, de boa aparência...” “Ah, não, mas já completou a vaga, inclusive esse rapaz que saiu aí já teve a resposta. Mas eu vou conversar com ele só para não dizer que não dei atenção.” Me chamou para conversar e já me deu os testes, as provas, tudo. Passei lá fazendo as provas e os testes, passei pela entrevista com o supervisor e depois gerente, fiz teste de memorização. E a vaga que ele estava precisando preencher era para atender uma parte de Brasília e o interior de Minas e Goiás, que eu conhecia muito bem. E esse rapaz não conhecia. Então eles acharam que eu me encaixava melhor nessa vaga. Então eu fui para Goiânia pedir demissão para minha empresa, e entrei. E fui trabalhar justamente no hospital onde minha mãe trabalhou e se aposentou, onde eu conhecia todo mundo, as funcionárias, já conhecia o hospital inteiro. Então foi a realização realmente de uma vontade de criança. P - E quando foi isso? R - Isso foi dia 10 de julho de 1997. Agora em julho, dia 14, foi a data da minha contratação, fazem 5 anos. P - Aí você foi trabalhar nessa região que englobava capital e interior? R - É, eu fazia a capital, uma parte da periferia, Taguatinga, Ceilândia, Gama, Valparaíso, Cristalina, Ocidental, Paracatu, Unaí e Luziânia. P - Descreve um pouco essa região para a gente. R - Essa região é boa de se trabalhar, a receptividade é muito grande por parte dos médicos e do pessoal. Até mesmo porque esse interior é bem carente. E nessa época nós trabalhávamos com bastante amostras grátis e que ajudavam muito a sociedade. Era muito bom de se trabalhar até mesmo por parte dos pacientes. Os pacientes de interior são mais compreensivos, eles aceitam mais porque sabem que somos viajantes, saímos de casa cedo, enfrentamos estrada. Os médicos são bastante receptivos, alguns nos recebiam em casa, queriam que a gente fosse para a fazenda com eles: “Ah, vou matar um porco na fazenda, vamos lá?” Então eu gostava muito, sempre foi muito bom trabalhar nesse interior. P - E nessas viagens tem algum caso que te marcou? R - Olha, tem um caso muito engraçado que é o que eu lembro assim, do interior. Eu fui visitar um médico, estava esperando e o consultório trancado por um bom tempo. E daqui a pouco ele abriu o consultório e disse: “Oh, vamos entrar, Carlos” Só que quando eu entrei, eu não suportei o mal cheiro. Aí eu falei: “Não, doutor, eu volto outra hora porque agora não dá para te visitar, não.” E ele falou: “Por quê?” “Hum, está mal mesmo, né?” Ele falou: “Está fedendo?” “Hum, está podre, não está fedendo.” (risos) “Ah, então espera aí.” E gastou quase m vidro de Bom Ar no consultório. E depois eu fui descobrir que o médico tinha um câncer de intestino e já vinha há muitos anos com essa diarréia infecciosa. Mas foi uma coisa que eu não dei conta de entrar no consultório. No interior, foi uma das cenas mais engraçadas, foi o que marcou. P - Tem uma forma especial de lidar com médico, a ponto de você criar essa intimidade de dizer: “Não vou entrar”? R - Cada propagandista tem seu estilo de trabalho e o seu jeito de ser. Eu, graças a Deus, por já ter trabalhado com vendas por muitos anos, desde criança, sempre gostei. Eu adquiri uma habilidade muito grande, eu tenho uma enorme facilidade de fazer amizade, de conquistar amizades. Para você ter uma idéia, 95% dos médicos me conhecem pelo nome, sabem que eu sou o Carlos. Não me chamam de “propagandista” ou de “representante”, não. Me chamam pelo nome, até mesmo porque eu uso algumas táticas para eles memorizarem meu nome. Por exemplo, as mulheres gostam muito de chocolate, então a gente brinca, eu digo: “Olha, se na próxima visita você lembrar meu nome, você ganha uma caixa de chocolate.” Então na próxima visita, ela já fala: “Carlos, e o meu chocolate?” As outras médicas acabam vendo aquilo, e acaba virando uma brincadeira descontraída e faz com que grande parte lembre o nome. E os médicos, a gente procura identificar os seus hábitos, um hobby. Tem algumas coisas que eu gosto, gosto de futebol, de jogar sinuca. Então algumas coisas a gente procura identificar, pescaria, xadrez. E são mais ou menos o hobbies dos médicos, então você identifica na ficha que ele gosta de jogar sinuca. Aí você fala: “Olha, doutor, eu sei que o senhor gosta de jogar sinuca, o dia que tiver uma oportunidade, vai ser um prazer poder passar uns momentos agradáveis jogando sinuca.” E a gente acaba conseguindo. Quando um médico passa a te tratar como um amigo, como um profissional da saúde e te tratando pelo nome, outros médicos também começam a associar essa mesma forma. Você também impõe uma igualdade, não como médico, mas no setor profissional. Porque nós também somos profissionais da saúde, só que ele fazendo o papel de médico e eu de propagandista. Eu aprendi a nunca me inferiorizar perante o médico, ele não é melhor que eu. Eu o respeito como médico, mas imponho o meu respeito como propagandista, como uma pessoa que se dedica, se prepara, estuda e faz o que gosta, com amor. Quando a gente passa a tratar com igualdade, isso passa a ser uma coisa fácil e você consegue a amizade deles. P - Você acha que esse é o diferencial do propagandista do Aché? R - Eu acredito que sim. Porque a gente presencia no campo muitas cenas onde o médico trata o representante como ele quer ser tratado. Nós temos que saber impor o nosso respeito e o nosso profissionalismo. Eu não sou um moleque que estou ali vendendo nada, eu estou ali levando informações importantes, ajudando a sociedade. Claro que com interesse de lembrança de vender as minhas marcas, mas nós também levamos trabalhos científicos, monografias, uma série de informações que também são de interesse dele. P - E tem alguma campanha que mais te marcou ? R - Teve no ano passado, onde participamos da Campanha do Voluntariado e marcou muito porque nós estamos sempre junto ao médico. E nesse dia nós passamos a estar junto aos pacientes, passamos entrevistando os pacientes, levando um kit cidadania, que era uma mochila levando coisas importantes para o bebê. No dia que as mães estavam dando à luz, íamos lá e falávamos palavras bonitas, mostrávamos um gesto de preocupação. E aquilo foi marcante porque as mães se emocionaram muito, muitas choravam. Eu estava num hospital público, muito pobre, as pessoas bem carentes, e teve uma mãe nova que falou: “Meu filho nasceu tem três dias.” Ela não estava de alta ainda, nem o pai da criança, ninguém havia visitado essa criança. E quando nós chegamos demos tanta atenção, deixamos um telefone para ela ligar e receber uma mensagem, demos uma bolsa, demos todas as explicações. E isso é muito importante. Ela falou: “Poxa, eu estou emocionada porque eu não esperava receber uma visita. Nem os meus familiares vieram me visitar.” Nós poderíamos estar vendendo mas tiramos um dia para a cidadania, então foi um dia muito especial. P - Há outros momentos emocionantes na sua história de propagandista? R - Tem momentos tristes e alegres também. Eu particularmente, em função da amizade com alguns médicos, já tive oportunidade de presenciar dois partos, sendo um normal e uma cesariana. E aquele para mim foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes na minha vida. Parece que a gente viaja no tempo e a gente pensa: “Hoje sou um homem, mas vim ao mundo dessa forma.” Presenciar aquele momento é muito bonito e marcante, todo mundo tinha que presenciar para dar valor à vida. E talvez não se entregar, como muitos fazem, às drogas, ao vício, ao abandono próprio, não querendo trabalhar, não querendo buscar um ideal na vida. Acho que a vida é muito valiosa. Também tive muitos momentos tristes, porque eu trabalhava nesse hospital público muito pobre que eu falei. Ele fica na periferia de Brasília e hoje é um dos lugares mais perigosos. Chama-se Ceilândia e é onde você presencia no horário de dez horas da manhã, por exemplo, chega uma Kombi com cinco, seis baleados, esfaqueados. Então toda hora chega gente dessa forma. É tiro, é briga de família, é paulada. E eu estava na emergência, que nós visitávamos os médicos na emergência, e eu era novato de laboratório e foi uma cena que me marcou muito. Foi quando uma mãe que chegou desesperada, trazendo uma criancinha no colo, gritando: “Socorro, socorro Me ajuda” E as auxiliares de enfermagem saíram correndo para chamar um médico. Quando ele chegou eu estava presente, eu ia saindo e ele disse: “Não, fica.” E eu presenciei ele prestando socorros à criança. Fez de tudo, entubou, fez o processo de ressucitação e eu só vi quando ele debruçou na criança e a lágrima desceu. Aquele momento realmente eu não consegui, eu não me contive. Foi como se eu tivesse vendo meu filho. Foi uma cena realmente muito triste, ele pegou o lençol e cobriu a criança. Eu senti um baque e até pensei: “Eu não sei se vou dar conta de continuar nessa profissão.” Mas... P - Você acha que vale a pena ser propagandista? O que mais te agrada? R - Vale a pena. E o que mais me agrada é fazer o que eu gosto. É entrar no consultório, é quando você domina a propaganda, quando você domina o que você faz, quando você está seguro do que você faz e quando consegue argumentar positivamente à uma argumentação negativa de um médico. E você acaba mostrando não que ele esteja errado, mas que eu estou certo. E quando nós vemos o resultado do nosso trabalho. É muito gratificante. P - E por fim, eu queria te perguntar o que você achou de ter contado um pouquinho da sua história? R - Olha, é um momento importante, que eu realmente não esperava. A gente passa muitas experiências no dia-a-dia e às vezes tem vontade de contar. Mas como é um corre-corre, a gente acaba não tendo tempo. Então foi interessante, um momento marcante que vai ficar também para história. Quero deixar aqui o meu depoimento, o prazer e a satisfação que eu tenho de trabalhar no Aché, de fazer o que eu faço hoje. É muito gratificante. Quantas amizades eu conquistei ao longo desses anos, o quanto eu já aprendi e amadureci. Nós aprendemos muito em função dos estudos e das visitas, porque o médico nos trata de igual para igual. Ele usa a linguagem científica. Ele não chama uma dor de cabeça conosco. Ele chama uma cefaléia. Ele usa a linguagem científica conosco porque ele sabe que nós nos preparamos para isso. Então, fica aí o meu depoimento. P - Muito obrigada, foi muito bacana.
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