P - Então Carlos, para começar eu queria que fosse dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R - Meu nome é Carlos Alberto Camargo. Eu nasci em 22 de abril de 1965. P - Em que cidade? R - Eu nasci na cidade de Herculândia. P - Você morou lá até quantos anos? R - Eu morei lá até os 27 anos. P - E você trabalhava lá? Em Herculândia? R - Eu trabalhava no Bradesco, na região de Herculândia e Marília. Depois eu fui contratado para trabalhar em Tupã e na região das outras cidades próximas ali de Tupã. P - Foi contratado pelo Aché? R - Fui contratado pelo Aché. P - Como é que surgiu essa oportunidade de trabalhar no Aché? R - Bom, na verdade, Stella, eu venho de uma família muito humilde. Eu trabalhei um bom tempo na roça com meus pais, e sempre era um sonho de criança de ter uma vida melhor, trabalhar numa grande empresa que pudesse me proporcionar um bom salário. Então, eu não sonhava com aquela empresa, uma empresa específica, mas sim com uma grande empresa. E, eu trabalhando lá no Bradesco, na cidade de Marília, fiquei sabendo que o gerente estava contratando representantes de laboratório. Nisso eu entrei em contato, e tinha uma vaga para Marília e outra para Tupã. No afã de conseguir esse emprego, eu não consegui na primeira entrevista porque eu não morava em nenhuma das duas cidades sede, que eram Marília e Tupã. P - Morava em Herculândia? R - Eu morava em Herculândia, que é uma cidade próxima de Tupã, mais ou menos 18 quilômetros. Uma cidadezinha pequena, de mais ou menos sete mil habitantes. Então, por não morar em Marília, outro rapaz foi contratado em meu lugar. Posteriormente surgiu uma vaga em Tupã. Eu voltei ao processo de entrevistas, e depois de muito esforço eu consegui ser admitido. As dificuldades de admissão estavam no fato de que eu não tinha ainda a idade que eles exigiam. Eles davam preferência para uma pessoa casada, e eu também não era casado e...
Continuar leituraP - Então Carlos, para começar eu queria que fosse dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R - Meu nome é Carlos Alberto Camargo. Eu nasci em 22 de abril de 1965. P - Em que cidade? R - Eu nasci na cidade de Herculândia. P - Você morou lá até quantos anos? R - Eu morei lá até os 27 anos. P - E você trabalhava lá? Em Herculândia? R - Eu trabalhava no Bradesco, na região de Herculândia e Marília. Depois eu fui contratado para trabalhar em Tupã e na região das outras cidades próximas ali de Tupã. P - Foi contratado pelo Aché? R - Fui contratado pelo Aché. P - Como é que surgiu essa oportunidade de trabalhar no Aché? R - Bom, na verdade, Stella, eu venho de uma família muito humilde. Eu trabalhei um bom tempo na roça com meus pais, e sempre era um sonho de criança de ter uma vida melhor, trabalhar numa grande empresa que pudesse me proporcionar um bom salário. Então, eu não sonhava com aquela empresa, uma empresa específica, mas sim com uma grande empresa. E, eu trabalhando lá no Bradesco, na cidade de Marília, fiquei sabendo que o gerente estava contratando representantes de laboratório. Nisso eu entrei em contato, e tinha uma vaga para Marília e outra para Tupã. No afã de conseguir esse emprego, eu não consegui na primeira entrevista porque eu não morava em nenhuma das duas cidades sede, que eram Marília e Tupã. P - Morava em Herculândia? R - Eu morava em Herculândia, que é uma cidade próxima de Tupã, mais ou menos 18 quilômetros. Uma cidadezinha pequena, de mais ou menos sete mil habitantes. Então, por não morar em Marília, outro rapaz foi contratado em meu lugar. Posteriormente surgiu uma vaga em Tupã. Eu voltei ao processo de entrevistas, e depois de muito esforço eu consegui ser admitido. As dificuldades de admissão estavam no fato de que eu não tinha ainda a idade que eles exigiam. Eles davam preferência para uma pessoa casada, e eu também não era casado e não morava em Tupã. E mais um detalhe curioso é que o carro era do meu pai. Era um Corcelzinho bem velho. E para eu convencer o gerente que meu pai poderia estar me disponibilizando o carro para que eu pudesse trabalhar, porque na época nós não tínhamos ainda o carro da empresa. Então, eu precisei provar para o gerente que estava fazendo a entrevista que meu pai não tinha carta, que aquele carro estaria realmente disponível para mim. Foi até curioso que quando eu fui contratado eu estava com o carro na porta do hotel, e o carro é tão simples, tão velhinho, que quando eu saí, já tarde da noite, o pneu estava furado e eu não tinha macaco para trocar o pneu do carro. Eu tive que ir na cidade (risos) à procura de alguém que pudesse me emprestar um macaco para trocar o pneu do carro. P - Puxa vida. E aí você já estava casado, quando foi admitido? R - Não. Estava solteiro. P - Então você foi admitido solteiro? R - Solteiro e com idade abaixo do que eles exigiam. P - Quantos anos você tinha? R - Eu tinha 22 anos quando eu fui contratado. P - E qual era a idade ideal? R - Eles preferiam pelo menos 23, 24, 25 anos, em torno dessa idade. Eles diziam que o casado era mais responsável. P - Você casou breve, depois? R - Eu me casei com 27 anos. P - E como foi a recepção na hora que você soube da notícia que tinha entrado? R - Foi um momento de muita alegria porque eu tinha informações de que era um bom salário, que era uma grande empresa. Então foi um momento de muita alegria porque na minha região, que é muito pobre, conseguir emprego de propagandista no Laboratório Aché, realmente foi uma grande conquista. Como eu tinha esse sonho, desde criança, de trabalhar numa grande empresa – na verdade, não era nem um sonho. Parece que era uma utopia. Um sonho impossível de ser realizado. Mas quando eu consegui realmente esse emprego, foi um momento de uma satisfação imensa. P - E você entrou em que ano? R - Eu entrei em 1988, em junho de 88. P - Já faz bastante tempo? R - Vou estar completando agora em junho de 2002, 14 anos de companhia. P - Você se lembra da sua primeira propaganda? Como é que foi? R - Lembro. (risos) P - Como é que foi? (risos) R - Eu estava visitando a doutora Suely Zanone Protto, na cidade de Osvaldo Cruz, que é uma cidade próxima à Tupã. Mas eu me lembro que eu acabei fazendo... Naquela época exigia-se muito a mensagem na íntegra, que nós recebíamos. Na época era tática ainda, não era estratégia. Eu decorei todas as mensagens da tática, e acabei falando as mensagens na íntegra para a doutora. O colega que estava comigo e que depois fez a propaganda após a minha, comentou com a doutora falou: “Se aparecer uns dois desse aqui por dia, já estragou o meu dia.” (risos) P - Por que você ficou muito tempo? R - Tomei muito tempo e falei tudo muito decorado. Mas com o passar dos anos a gente foi desenvolvendo a propaganda para que elas sejam alguma coisa de uma forma mais natural. P - Você começou em Tupã? R - Comecei trabalhando em Tupã, Dracena, naquela região. P - Quantas cidades você visitava no começo? R - Mais ou menos 18 lugares, porque tem várias cidadezinhas também. P - E ia com o corcelzinho do seu pai? R - É. Logo depois ele trocou o Corcel por uma Belina, e o pessoal ficava zombando da gente dizendo que parecia mais uma funerária... (risos) Mas, outro fato interessante, é que o Aché, há 14 anos atrás, quando eu entrei, não tinha o mesmo prestígio que tem hoje. Principalmente eu me lembro que os colegas, os companheiros, a maioria tinha já um carro da empresa. Geralmente era o Gol. P - Naquela época, já? R - Já, já tinham um carro da empresa, e se o Gol ainda hoje é um carro que se vende muito, que tem um bom conceito entre os carros populares, imagine você há 14 anos atrás. Já era um carro, vamos dizer assim, de bom conceito. Então, eles humilhavam muito os laboratórios nacionais, principalmente o Aché. Quando nós íamos lançar algum produto, eles diziam que estava nascendo mais um defunto. Então, eu me lembro que a gente era muito ridicularizado pelos companheiros. Eu me lembro, por exemplo, que a ajuda de custo do Aché, nos nossos dias de hoje, seria assim de uns cinco reais para almoçar. Nós tínhamos cinco reais, e se a gente fosse almoçar, o refrigerante, a bebida tinha que ser colocada do bolso. Os hotéis em que ficávamos eram os hotéis mais simples que tinha na cidade, porque a ajuda era realmente bem pequena. Então, eu tenho notado que ao longo desse 14 anos, houve uma evolução muito grande do Aché. Até como instituição, o nome Aché hoje soa mais forte, diante da classe médica e também das multinacionais e dos concorrentes. Eles olham o Aché hoje com outros olhos. P - E antes era o contrário? R - Antes era o contrário. P - Conta mais um pouquinho desse “antes”. Como é que era a questão dos hotéis, desse dia a dia, o lugar onde vocês dormiam? R - Olha, com certeza, como eu disse, eram os hotéis mais simples da cidade, porque a ajuda de custo era fixa, e ela não permitia a hospedagem em bons hotéis. Então a diferença entre o representante do Aché e os concorrentes, estava no hotel onde nós ficávamos hospedados. Realmente era um hotel bem simples porque com a ajuda de custo não era possível ficar num bom hotel. P - Eles te davam o dinheiro ou já pagavam o hotel? Como é que era? R - Nós pagávamos com dinheiro próprio, e depois esse dinheiro era reembolsado através das notas fiscais. Mas, com certeza, era uma quantidade bem irrisória. Ficávamos em hotéis que realmente deixavam a desejar. Era o tipo do hotel que quando morria uma barata, aparecia umas 50 à noite para fazer o funeral. (risos) Mas, como eu disse, no decorrer dos anos, o Aché foi nos proporcionando muitos recursos. As coisas foram mudando. E hoje nós observamos que o salário que atualmente ganhamos supera a maioria dos outros laboratórios. Então, nós observamos que realmente houve uma progressão, e isso nos deixa realmente satisfeitos em trabalhar nessa empresa, que se chama Aché. P - E em termos do trabalho de vendas, propriamente, como era o diferencial do homem do Aché em relação aos outros laboratórios? R - Na venda? P - Isso. R - Na verdade, naquela época, nós não fazíamos apenas propagandas, mas também fazíamos vendas junto às farmácias, prefeituras. Realmente nós trabalhávamos com uma pequena quantidade de amostras. Brindes eram raríssimos. Então, o fator determinante para o nosso sucesso, era realmente o homem. O homem fazia a diferença. Então realmente era a simpatia do propagandista, porque nós ficávamos aquém, em relação às multinacionais, que sempre trabalhavam com mais recursos do que nós. E nessa época nós fazíamos vendas. Então, a luta era maior. Mas eu me lembro até que nós tínhamos algumas campanhas de vendas e na época eu fiquei conhecido como o Carlinhos Prefeitura, porque eu fazia muitas vendas em prefeituras. Nessa região que eu trabalhava, a região de Tupã, havia muitas prefeituras de cidadezinhas e as multinacionais não visitavam as pequenas cidades. E o Aché sempre teve a filosofia de que onde existir um médico, ali deve estar presente o propagandista. Eu acredito que essa filosofia fez com que o Aché crescesse, porque junto às pequenas cidades, nós fazíamos vendas, principalmente nas prefeituras. Em campanhas que nós recebíamos prêmios – eu me lembro que nós tivemos uma campanha que durou uns seis meses. E nesses seis meses eu ganhei seis prêmios consecutivos. P - Puxa R - Inclusive prêmios que tenho atualmente em casa, que foram frigobar, aparelho de som, máquina de lavar louça, secadora de roupa. Enfim, foi um período de... Por isso que eu fiquei conhecido como Carlinhos Prefeitura. P - E até hoje você tem em casa esses prêmios? R - Ainda tenho. Eles estão lá, ainda. (risos) Foi um momento de conquista. P - Carlos, e quando é que acabaram as vendas feitas pelo propagandista? R - Olha, eu não saberia te precisar quando, mas eu acredito que em torno de oito anos atrás nós já não fazíamos mais vendas. P - E como é que foi essa mudança? R - Essa mudança trouxe para nós alguns benefícios, porque aí nós tivemos mais tempo disponível para a visitação da classe médica, uma vez que na época das vendas, o Aché tinha uma política muito severa junto aos farmacêuticos. Então, nós tínhamos um mínimo de vendas. Então, por exemplo, eu me lembro que na época eram mil dólares por farmácia. P - Que vocês tinham que vender? R - É. Era o mínimo. Então, se a venda... Se bem que na época o dólar estava mais ou menos equiparado ao... P - À moeda nacional. R - Na época, eu não me lembro qual era. Devia ser Cruzeiro ou Real, não sei. Então, era difícil às vezes uma pequena farmácia comprar mil dólares. Então, o que acontecia? Às vezes nós precisávamos juntar três farmácias para realizar uma venda. E nós não tínhamos distribuidoras. Então, perdemos muitas vendas por causa dessa política de comercialização do Aché. Então, quando nós paramos de fazer as vendas, eu acredito que foi melhor. Realmente foi um avanço. P - E vocês se reportavam a qual filial? R - À filial de Bauru. P - E para pegar o remédio do estoque, vocês tinham que viajar até lá? R - Você diz para as vendas? P - É. Vocês não levavam? R - Não, nós apenas vendíamos. E as distribuidoras faziam as entregas. As transportadoras. P - Mas já tinha distribuidoras? R - As transportadoras faziam as entregas. O Laboratório Aché não tinha distribuidoras. As vendas eram realizadas pelos propagandistas. P - Mas ainda tinha estoque em filial nessa época? R - Não. P - Já tinha o trabalho? R - Vinha direto de Guarulhos, em São Paulo. P - Entendi. E qual era a relação com a filial? Vocês iam freqüentemente? Como é que era essa relação? R - Olha, as reuniões... Houve um período no Aché, em que as reuniões eram realizadas de 15 em 15 dias. Quando eu fui admitido, as reuniões já eram realizadas mensalmente. Uma vez por mês nós íamos até a cidade de Bauru, naquele mesmo sistema. Nós ficávamos hospedados no Hotel Imperial, que era de frente com a Estação Rodoviária de Bauru, um lugar muito assim indesejável. Era esse estigma que eu falei para você, de um sistema bem rigoroso, de um sistema com verbas bem reduzidas. P - Apertadinho. R - Apertadinho. P - E vocês iam com colegas propagandistas ou ia sozinho? R - Geralmente nós íamos com outros colegas. P - Você fazia, na época que você entrou, viatura compartilhada ou era sozinho? R - Não. Na época era carro próprio, como eu disse para você. Nós ficamos muitos anos trabalhando com o próprio carro. O Aché pagava um limite de combustível, mas todas as despesas com o veículo eram por conta do propagandista. Seguro, troca de pneu, troca de óleo, enfim, todos os gastos eram por conta do propagandista. Depois de muitos anos é que surgiu o carro comunitário, como ficou conhecido. Nós trabalhávamos em dois. P - Aí já era carro da empresa? R - Já era um carro da empresa. Já foi um grande avanço. P - Ah, é? O trabalho foi melhor? R –Com certeza. Foi um grande avanço, se bem que trouxe muitos problemas, porque era necessário que se trabalhasse em duplas. Ou seja, dois propagandistas no mesmo carro. Isso trouxe muito conflito porque a pessoa trabalhava o dia todo, almoçava, dormia no mesmo hotel. Então, houve muito conflito entre propagandistas por causa desse trabalho em dois no mesmo carro. P - Mas também amizades? R - Ah, sim. Amizades. Eu tive boas amizades. Eu tive que trabalhar com dois colegas, porque eu trabalhava com um colega, depois ele foi promovido. E o que entrou no lugar dele, a pessoa ficou dois anos trabalhando comigo, para que viesse o carro para ele. O período mínimo era dois anos. Mas com certeza foi um grande avanço. Foi um desses benefícios que eu citei a princípio, que nós fomos obtendo com o passar dos anos. P - Carlos, e qual é hoje a diferença do trabalho do propagandista do Aché em relação aos outros laboratórios concorrentes? R - Hoje, Stella, eu acredito que nós estamos com mais armas nas mãos para a conquista do receituário. Nós temos hoje uma boa quantidade de amostras... Está certo que nós não temos algumas armas que eles dispõem, como patrocínio para os médicos, como pagamento de inscrições em congressos, viagens aéreas, estadias e outras coisas mais. Mas eu acredito que nós, com esse número que temos, número maior de propagandistas, as visitações mais freqüentes, eu acredito que com essa nova sistemática, a tendência é obter bons resultados. P - E pessoalmente, tem um jeito próprio de fazer a propaganda, um jeito seu? R - Olha Stella, na verdade, esse trabalho de propaganda é um trabalho, eu diria até que personificado. Cada propagandista tem uma maneira de levar a mensagem dos produtos junto à classe médica. Apesar de a gente ser chamado às vezes de “viajante”, né? “O ‘viajante’ chegou.” Às vezes a gente até brinca que “viajante” é vendedor de bolacha, vendedor de rede. A gente gosta de ser chamado de propagandista. (risos) Eu até brinco: como divulgador de científicos. (risos) P - É mais chique. R - É mais chique. (risos) Mas eu acredito que eu tenho...Particularmente, eu gosto de usar o humor na propaganda. Ou seja, usar uma forma bem descontraída. Porque o médico, durante o dia todo, a semana, o mês, enfim, no dia a dia do médico ele só ouve problemas. Ninguém vai lá para dizer: “Olha, doutor, eu comprei uma fazenda.” A pessoa vai lá para falar de problemas, de doenças, sejam elas doenças físicas ou emocionais, mas o médico está constantemente recebendo informações negativas de seus pacientes. Então, o dia a dia do médico já é muito corrido, e mais, como eu estava dizendo, esse ambiente, eu diria até sombrio, que é o médico estar ali em contato com o paciente, com doenças as mais variadas. E a propaganda também, muitos médicos interpretam como um momento de perda de tempo para ele. Então, eu acredito que o bom humor, a simpatia, a descontração, fazem a diferença na hora de uma propaganda. É uma maneira de chamarmos a atenção do médico para os produtos que nós propagamos. Então, eu acredito que esse é um ponto importante. Chegar no consultório do médico, fazer uma brincadeira. P - Então, Carlos. Eu queria que você repetisse para mim essa questão que você estava dizendo, desse toque pessoal seu de fazer uma propaganda. R - Eu estava dizendo para você que o dia a dia do médico, essa correria toda, esse ambiente em que ele trabalha, só recebendo coisas horríveis, como notícias, informações, problemas e mais problemas que geralmente os pacientes levam para os médicos. Então, eu acredito que o bom humor, a descontração, acabam fazendo a diferença na hora da propaganda. Eu já tenho por natureza ser brincalhão, estar sempre sorrindo, porque eu acredito que nós não podemos levar a vida muito a sério. Uma vez que a nossa vida é tão passageira, eu acredito que nós devemos sorrir, sempre que possível. Nós devemos até, diríamos assim, cantar no meio das dificuldades. Estar sorrindo, porque assim nós conseguimos superar com maior facilidade os obstáculos da vida. Nós conseguimos vencer as intempéries com maior facilidade, quando nós levamos a vida com descontração, com bom humor. Mesmo diante das dificuldades, trazer sempre um sorriso, porque realmente faz a diferença. Então, nesse momento, quando chegamos ao consultório médico e cumprimentamos a secretária com um sorriso, um aperto de mão, ou falamos alguma coisa, coisas boas, otimistas, as coisas vão facilitando. Até é mais fácil para a gente adentrar no consultório. E quando chega lá dentro os médicos não gostam muito que a gente fique falando só de medicamentos. Então, eu acredito que a forma descontraída e o bom humor acaba atraindo a atenção do médico para aquilo que nós queremos falar. P - Como é que você faz para dividir esse tempo curtinho que você tem com o médico, entre a descontração e a propaganda? R - Eu diria que quando nós falamos de uma forma descontraída, com humor, aquele pequeno tempo, na verdade, se prolonga, porque o médico acaba dando uma maior abertura. Então, às vezes a brincadeira ou a maneira de falar, eu acabo usando na própria propaganda, falando de uma forma descontraída ou brincando, falando alguma coisa da própria literatura, trazendo o médico para aquilo que nós queremos propagar ou para aquela mensagem que nós estamos levando. Então, é quase que uma interação: a brincadeira, o bom humor, com as coisas sérias que nós precisamos levar para a classe médica. P - Carlos, você falou da secretária. Ela é uma peça fundamental para ajudar o propagandista? R - Com certeza. Se a secretária não quiser te colocar dentro do consultório, ela te deixa esperando uma hora, uma hora e meia. Então, ela é uma peça fundamental. Porque nós temos uma meta de visitação diária. Então, se ela dificultar o nosso trabalho, com certeza nós não vamos conseguir atingir o objetivo da visitação médica. E, por incrível que pareça, existem aquelas secretárias que acabam dificultando nosso trabalho. Então, a gente já tem que começar... Quando chegamos no consultório, já procurar falar alguma coisa, chamar a atenção dela, conversar um pouquinho, porque senão, com certeza seu trabalho será dificultado. P - Você estava falando do humor. Propagandista tem esse lado do humor, essa veia humorística forte. Você tem casos de trabalho, histórias que tenham acontecido com você, saias justas, em situação de propaganda? R - Na verdade, muitas vezes, nós nos deparamos com situações dificílimas, como eu disse, a pressa do médico. Mas no dia a dia nós presenciamos muitos casos em que o propagandista bem humorado obtém maior sucesso. É visível. Você observa no semblante do médico que realmente a receptividade dele se torna maior quando o propagandista é bem humorado. Eu já ouvi comentários dos próprios médicos se referindo a colegas que chegam parece que tristes, sem motivação. Eles dizem que é difícil até deles acreditarem, os médicos, no que os propagandistas dizem, quando falam de uma forma triste, pessimista, sem motivação. Nós temos alguns casos que aconteceram com nossos colegas. Até, se é possível citar, eu quero citar um exemplo: eu sei de um colega, um propagandista de outro laboratório que era gago. Ele fez a propaganda para o médico, deu a literatura e o médico rasgou a literatura na frente dele. Nós sabemos que as literaturas geralmente vão para o lixo. Então, a vida útil de uma literatura é de alguns segundos. E esse propagandista surpreendeu o médico, porque esse médico rasgou a literatura na frente dele e jogou no lixo. E ele então acabou falando: “Doutor, isso aí custa dinheiro.” Disse para o médico. E o médico: “Quanto custa isso aí?” Não sei se ele falou, 10 reais, um exemplo. Cinco reais, melhor dizendo. O médico pegou a carteira, tirou uma nota de 10 reais e deu para ele. Ele então pegou mais uma literatura de dentro da pasta e disse: “Doutor, rasga mais uma porque eu não tenho troco.” (risos) Ficou com os 10 reais. (risos) P - Que ótimo. Parece piada, mas aconteceu? R - Mas aconteceu. Cada médico tem o seu perfil. Tem médico que não dá a mão. Tem médico que não gosta de literatura, outros não gostam de amostras, outros não gostam que você coloque a pasta em cima da cadeira. Então, existem os mais variados perfis de médicos. Com o passar do tempo nós vamos... P - E eles pedem assim: “Não põe na cadeira.” Fazem cara feia? R - Graças a Deus, que é uma minoria. A grande maioria nos recebe muito bem. Mas existe uma minoria que acaba sendo diferente. (risos) P - Carlos, nesses anos todos de Aché, tem algum produto que tenha te marcado mais, que você tenha gostado mais de fazer a propaganda? R - Algum produto? Olha, eu lancei vários produtos no mercado farmacêutico nesses 14 anos. Mas eu acredito que um produto que me deu uma grande satisfação em propagá-lo, foi o Notuss. O Notuss foi um produto que nós lançamos, alguns médicos tinham uma certa resistência, achavam que não ia ter muito sucesso, mas de todos os produtos que eu lancei, com certeza o produto assim que teve uma ascensão mais rápida, foi o Notuss. Inclusive hoje, o Notuss é líder absoluto de prescrição médica, no mercado dos antitussígenos. Então é um produto que eu tenho, vamos dizer assim, um carinho maior por ele. P - O que é que dentro do Aché agrada mais a você? R - Olha, Stella. Eu estava dizendo para você a respeito dessa evolução que nós tivemos, nessa conquista de benefícios que com o passar dos anos vão agregando ao propagandista. Eu diria até que esses benefícios poderiam ser somados ao salário que nós temos hoje. Diga-se também de passagem, um bom salário, na atual conjuntura do Brasil. Mas eu acredito que as últimas mudanças que ocorreram no Aché mudaram toda uma filosofia de trabalho. Eu acredito que um detalhe importante que nós tivemos recentemente na empresa, nessas mudanças, é que anteriormente nós tínhamos um sistema muito militar, rígido. E hoje descobriram que não é a força que vai ganhar a simpatia do funcionário, que vai fazer com que o funcionário se torne cada vez mais leal à empresa. Até nós tivemos como presente do senhor Victor Siaulys o livro do Floriano, psicólogo, que fala sobre a felicidade no trabalho. Inclusive esse livro foi prefaciado pelo senhor Victor Siaulys. Então, o “seu” Victor falou muito sobre o funcionário feliz. O funcionário que trabalha com alegria, com entusiasmo. Eu acredito que isso marcou a minha vida no Aché, nesses últimos anos. O fato de você trabalhar com felicidade. De você ser uma pessoa feliz no trabalho, com alegria. Então, eu acredito que isso traz mais motivação e faz com que o propagandista trabalhe com entusiasmo, com motivação, com descontração. Então, o trabalho deixou de ser aquele local de tristeza, local onde você pensa: “Ah, meu Deus. Amanhã é segunda feira e eu vou ter que trabalhar.” Não. Mudou essa imagem negativa, essa imagem sombria do trabalho. O trabalho acheano se transformou num local de alegria, em que você tem anseios, você tem vontade de estar trabalhando, de estar defendendo esta instituição, esta grande empresa em que trabalhamos. Então, isso foi um marco fundamental na vida do Aché. E de seus funcionários também. P - Está jóia. A gente já está encaminhando para o final da entrevista e eu queria te perguntar o que você achou dessa experiência de ter contado um pedacinho da sua história? R - Olha, Stella, até era voluntária a presença dos propagandistas aqui. Eu fiz questão de estar aqui porque realmente o Aché é um marco na minha vida. 14 anos de empresa não são 14 meses. Realmente é uma grande parte da minha vida que eu estou dedicando ao Aché. Então, eu acredito que foi um marco muito grande na minha vida e eu gostaria que esta minha experiência fosse perenizada junto à companhia, junto a esse trabalho que vocês estão realizando, porque realmente tem um papel fundamental na minha vida. Então, eu digo isso com honra: é um orgulho para mim estar trabalhando no Aché e também por estar dando essa entrevista, para que ela pudesse ficar aí nos anais da história. E um dia, quem sabe lá na frente, eu vou poder me recordar dessa entrevista, mesmo porque eu tenho um filho de quatro aninhos, o Tales, e agora minha esposa está grávida, está vindo mais um filho, e eu quero contar a eles desse período da minha vida no Aché. E espero que eu vá por muitos e muitos anos. Meu sonho é poder me aposentar trabalhando no Aché. Eu guardo também a placa de 10 anos que nós recebemos quando nós completamos esse período na empresa, uma placa em homenagem aos serviços prestados. Então eu acho que isso é inerente à minha história, à minha vida. Então realmente foi muito importante para mim essa participação. P - Está jóia. Eu agradeço muito sua participação. Foi muito bacana ouvir seu depoimento. R - Ok. Eu quero agradecer a todos vocês. P - Obrigada.
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