CARIRI - Entre Escolhas e Destinos
DEDICATÓRIA
A todos aqueles que saíram de algum lugar do Brasil
carregando apenas coragem e esperança.
Aos que atravessaram estradas, cidades e silêncios em busca de uma vida melhor.
Aos que venceram.
Aos que perderam.
E principalmente aos que, mesmo depois de cair, continuam tentando se levantar.
Porque cada destino carrega dentro de si uma estória que merece ser contada.
PREFÁCIO
Algumas histórias não nascem da imaginação.
Elas nascem da vida.
Este livro não é apenas a trajetória de um homem chamado Cariri. É o retrato de milhares de brasileiros que atravessam o país em busca de algo que raramente sabem explicar: uma chance.
Cariri não saiu de sua terra apenas por ambição. Saiu porque a vida, às vezes, empurra antes mesmo que possamos escolher o caminho.
Entre o sertão e o asfalto, entre a esperança e a ilusão, ele construiu algo raro: uma vida simples, digna e cheia de possibilidades.
Mas a vida também ensina que o sucesso não se perde apenas por falta de esforço. Às vezes ele se perde por um detalhe muito mais humano: a escolha errada no momento errado.
Cariri não é um herói. Também não é um vilão. É apenas um homem.
E talvez seja exatamente por isso que sua história nos toca tanto.
Porque em algum momento da vida todos nós já estivemos diante de uma encruzilhada sem saber qual estrada seguir.
INTRODUÇÃO
O Brasil é um país feito de partidas. Todos os anos milhares de pessoas deixam suas cidades pequenas, suas casas simples e suas famílias para tentar a sorte em algum lugar distante. Alguns conseguem construir novas histórias. Outros descobrem que o mundo é muito maior — e mais duro — do que imaginavam.
Cariri foi um desses viajantes. Nasceu no sertão, cresceu entre dificuldades e aprendeu desde cedo que a vida raramente oferece caminhos fáceis.
Mas também aprendeu algo ainda mais importante: quem observa aprende, e quem aprende pode mudar o próprio...
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DEDICATÓRIA
A todos aqueles que saíram de algum lugar do Brasil
carregando apenas coragem e esperança.
Aos que atravessaram estradas, cidades e silêncios em busca de uma vida melhor.
Aos que venceram.
Aos que perderam.
E principalmente aos que, mesmo depois de cair, continuam tentando se levantar.
Porque cada destino carrega dentro de si uma estória que merece ser contada.
PREFÁCIO
Algumas histórias não nascem da imaginação.
Elas nascem da vida.
Este livro não é apenas a trajetória de um homem chamado Cariri. É o retrato de milhares de brasileiros que atravessam o país em busca de algo que raramente sabem explicar: uma chance.
Cariri não saiu de sua terra apenas por ambição. Saiu porque a vida, às vezes, empurra antes mesmo que possamos escolher o caminho.
Entre o sertão e o asfalto, entre a esperança e a ilusão, ele construiu algo raro: uma vida simples, digna e cheia de possibilidades.
Mas a vida também ensina que o sucesso não se perde apenas por falta de esforço. Às vezes ele se perde por um detalhe muito mais humano: a escolha errada no momento errado.
Cariri não é um herói. Também não é um vilão. É apenas um homem.
E talvez seja exatamente por isso que sua história nos toca tanto.
Porque em algum momento da vida todos nós já estivemos diante de uma encruzilhada sem saber qual estrada seguir.
INTRODUÇÃO
O Brasil é um país feito de partidas. Todos os anos milhares de pessoas deixam suas cidades pequenas, suas casas simples e suas famílias para tentar a sorte em algum lugar distante. Alguns conseguem construir novas histórias. Outros descobrem que o mundo é muito maior — e mais duro — do que imaginavam.
Cariri foi um desses viajantes. Nasceu no sertão, cresceu entre dificuldades e aprendeu desde cedo que a vida raramente oferece caminhos fáceis.
Mas também aprendeu algo ainda mais importante: quem observa aprende, e quem aprende pode mudar o próprio destino. Foi assim que saiu de sua terra e chegou ao Rio de Janeiro.
Ali encontrou trabalho, amizade, amor e algo que muitos passam a vida inteira procurando: um lugar no mundo. Mas a vida, como ele mesmo viria a descobrir, não se constrói apenas com esforço. Constrói-se também com escolhas. E algumas escolhas podem mudar tudo.
CONCLUSÃO
Cariri terminou sua história sem respostas definitivas. Talvez porque a vida raramente ofereça respostas completas. O que ficou não foi apenas o arrependimento de uma decisão precipitada, mas a consciência de que cada escolha carrega dentro de si um preço. Ele havia conquistado muito mais do que imaginava possível quando chegou ao Rio de Janeiro.
Amigos. Respeito. Um amor verdadeiro. Um caminho seguro.
Mas às vezes a ilusão de subir um degrau mais alto faz com que não percebamos o chão firme que já temos sob os pés. Cariri não perdeu apenas um emprego. Perdeu um lugar no mundo. Ainda assim, sua história não termina na derrota. Porque reconhecer o erro também é uma forma de coragem. E toda coragem traz consigo a possibilidade de recomeço, mesmo quando o caminho parece impossível.
Cariri nasceu no sertão do Ceará, em uma terra onde a vida ensina cedo que sobreviver já é uma vitória.
Filho de uma família numerosa e marcado por uma infância dura, ele cresceu observando o mundo e sonhando com algo maior. Como tantos brasileiros, decidiu partir.
No Rio de Janeiro encontrou trabalho, amizade, amor e uma oportunidade que parecia transformar definitivamente seu destino.
CARIRI
Entre escolhas e destinos
O COMEÇO QUE NÃO ESCOLHEMOS
Segundo me contou, havia nascido em uma região pobre do Ceará, dessas onde o chão racha antes mesmo da esperança brotar. Era filho de um casamento paterno que rendera uma dúzia de irmãos e irmãs — tantos que ele próprio admitia não saber o nome de todos. Não era descaso. Era costume.
Por lá, nomes raramente eram importantes. Eram substituídos por apelidos, encurtados pelo uso, moldados pela necessidade. Até porque o pai, homem de vontades estranhas, tinha verdadeira obsessão por nomes longos, combinados, quase impossíveis de serem ditos por inteiro no dia a dia.
O velho Rosmarinho dividia a vida entre duas famílias, em duas cidades diferentes. Em uma, trabalhava na lavoura; na outra, vendia frutas e legumes, quando o tempo permitia. Porque no sertão, quem dita as regras não é o homem — é o céu.
Se a seca vinha, levava tudo. Se a chuva vinha demais, levava também. E, junto com as perdas, vinha o mau humor do velho, que nunca soubera lidar com frustração.
Nunca teve certeza, mas sempre imaginou que, na outra família, existisse mais uma leva de filhos. Talvez tantos quanto na primeira. Talvez mais. Rosmarinho parecia espalhar descendência como quem espalha sementes — sem garantia de que alguma vingasse direito.
O PESO DO HOMEM
Nos dias difíceis — que eram quase todos — o velho virava outra coisa.
Não havia explicação, nem aviso. Virava bicho. E ninguém escapava.
As agressões vinham rápidas, acompanhadas de palavras duras, que feriam com a mesma intensidade dos golpes. Às vezes mais. Porque o corpo esquece com o tempo, mas certas palavras ficam guardadas em algum lugar onde o tempo não alcança.
Curiosamente, quando sobrava alguma coisa para vender — uma colheita menos castigada, um lucro inesperado — ele amansava. Não por bondade, mas por conveniência. Ocupava-se em salvar o que restara e, nesses dias, a casa respirava um pouco mais leve.
As mulheres sabiam reconhecer esses momentos.
Aproveitavam o silêncio.
OS FINAIS DE SEMANA
Nos finais de semana, havia um ritual. Era sagrado.
O velho exigia sua melhor roupa — a de vinco mais alinhado, a que ainda guardava aparência de respeito — e saía. Ia beber. Circular. Mostrar-se.
Nos bares ou nas casas de prostituição, passava as mãos onde não devia e ria alto, como se ali encontrasse alguma compensação para a vida dura que levava.
As mulheres oficiais — mesmo quando nunca oficializadas em papel — fingiam não saber.
Não por ingenuidade. Mas por sobrevivência.
Perder o homem era perder o sustento. E no sertão, perder sustento era perder tudo.
As moças mais novas sonhavam com um destino diferente: encontrar alguém que pudesse “bancá-las”, tirá-las daquela vida. Tornar-se propriedade de alguém parecia, paradoxalmente, uma forma de liberdade.
Já as mais velhas, especialmente as que haviam seguido o caminho da prostituição, não sonhavam mais. Lutavam apenas pelo básico — o pão de cada dia — e pelos filhos que a vida lhes dera, quase sempre sem escolha.
A FUGA
Em algum momento, o velho Rosmarinho foi para o Rio de Janeiro. Ninguém sabia exatamente quando ou por quê. Mas foi.
Começou como ajudante de obra. Depois virou mestre. Pela primeira vez na vida teve carteira assinada e salário fixo. Um dinheiro que, para seus padrões, parecia muito — embora nunca fosse suficiente.
Porque sempre havia alguém esperando por ele no sertão. Ou melhor: várias pessoas.
Mandava o que podia. Ou o que dizia poder.
E, misturado aos conterrâneos, passou a contar histórias de saudade. Histórias bonitas. Editadas. Como se sua vida tivesse sido melhor do que realmente fora.
Trabalhou duro. Juntou dinheiro. Comprou um carro velho. Transformou em táxi. Conseguiu uma permissão.
Ali, no Rio, com aquele nome estranho para os ouvidos cariocas, passou a ser chamado de “Seu Cariri”.
E o nome pegou.
A TERCEIRA VIDA
Quase sem perceber, estava prestes a começar uma terceira família.
A nova mulher queria casamento de papel passado. Queria compromisso real. Regras. Limites. Coisas que ele nunca tivera. E isso o assustou.
Porque, diferente das outras, aquela mulher exigia. Não toleraria bares, nem bordéis.
E havia outro problema:
Naquela cidade, abandonar uma mulher e um filho poderia trazer consequências legais.
Até cadeia.
Foi aí que o velho fez o que sabia fazer melhor: Planejou uma fuga.
O GOLPE
Comprou tudo. Geladeira. Fogão. Móveis. Utensílios, tudo a prazo e carnês acumulados.
Pagava um, atrasava outro. E assim ia montando uma vida que não pretendia viver ali.
Guardava tudo em um espaço emprestado por um amigo. Quando a noiva começou a pressionar pelo casamento, ele entendeu que era a hora.
Comprou um caminhão financiado — usando o nome dele e dela de fiadora, sendo o próprio veículo a garantia.
Vendeu o velho carro e a autonomia concedida pela Prefeitura, queria chegar com um bom dinheiro no bolso para mostrar fartura e de posse do caminhão colocou tudo que havia comprado e que estava guardado na casa daquele que seria o futuro padrinho onde as notas fiscais chegavam e a esposa ou madrinha assinava o recebimento incluindo os carnês e as cobranças e dizendo estar indo para a nova casa que havia alugado em um subúrbio da cidade, colocou na boleia todas as compras feitas nos últimos meses e rumou, isso sim, de volta para a cidade onde deixara os filhos do primeiro casamento e a esposa
E foi embora. Sem despedida. Sem explicação.
O RETORNO TRIUNFAL
Chegou ao sertão como vencedor.
Foi recebido pela primeira família como aquele que havia conquistado, considerando que todos por aqui, no Sul e Sudeste eram muito preguiçosos e que ele havia feito fortuna com muito trabalho e esforço. Um homem que havia “feito a vida” no sul.
Foi recebido com admiração.
Rapidamente colocou o veículo a serviço da Prefeitura e começou a melhorar de vida podendo sustentar decentemente as duas famílias e dentro dos padrões que eles se sentissem satisfeitos. Era agora o “Doutor Rosmarinho” cobrando os serviços da cidade e dos membros que quisessem seus préstimos.
No sertão, sucesso apaga passado.
O FILHO OBSERVA
O filho — o futuro Cariri — assistia tudo.
Encantado.
A história do pai era clara: Saiu pobre. Voltou rico. Era isso que importava. E decidiu:
Também iria.
O filho de “Seu Cariri” então deslumbrado com as conquistas do pai resolveu que viria para o Rio de Janeiro e que nunca voltaria, mandando buscar a mãe para morar ao seu lado, tirando-a daquela vida ingrata e dura do sertão nordestino.
A PARTIDA DO FILHO
Aprendeu como ajudante do pai fazendo transportes de cargas pelo interior em meio a estradas terríveis e esburacadas a dirigir e a fazer todo tipo de entrega nas fazendas e sítios levando e trazendo aquilo que era pago e foi juntando algumas gorjetas que os contratantes quase sempre davam ao menino que mesmo franzino demonstrava possuir muita força.
Todos os irmãos tiveram a chance de trabalhar, alguns como ele aproveitaram, outros rejeitaram o esforço e as meninas com certeza aguardariam crescer para viver a vida que as aguardava.
Semianalfabeto, frequentara a grupo escolar completando um primário sem muitas perspectivas, porem suficiente para cobrir as necessidades básicas de entendimento. Teve o orgulho de participar do que chamaram ser o casamento de sua irmã mais velha que sendo empregada doméstica em um sitio havia conquistado o coração de um moço que se apaixonou pela menina.
Colocando a mulher para fora de casa e amancebando-se, dando a ela o título de Patroa. Cruel é a vida onde a lei não consegue chegar.
Trabalhando então ao lado do pai, participando das entregas e da vida diária de um ajudante de caminhoneiro aprendeu a dirigir e manobrar aquela imensa carroça movida a diesel, podendo em pouco tempo ter a carteira de condutor, ajudado pelo pai que já não era mais tão duro e grosso com a família, parecendo ter sido domesticado no sul do país.
Ao ver que possuía uma quantia que julgava razoável resolveu partir e despedindo-se de todos pôs o pé no mundo.
Uma longa e cansativa viagem iria abocanhar parte de dinheiro juntado com tanto esforço. Primeiro até Fortaleza, a capital, de lá para Salvador na Bahia e depois uma viagem de quatro dias até a Rodoviária Novo Rio.
Ao ver que possuía uma quantia que julgava razoável resolveu partir e despedindo-se de todos pôs o pé no mundo.
Uma longa e cansativa viagem iria abocanhar parte de dinheiro juntado com tanto esforço. Primeiro até Fortaleza, a capital, de lá para Salvador na Bahia e depois uma viagem de quatro dias até a Rodoviária Novo Rio.
Longa viagem:
Interior → Fortaleza → Salvador → Rio de Janeiro.
Dias de estrada. Sonhos maiores que a bagagem.
O CHÃO DO RIO
O ônibus chegou ainda antes do sol nascer.
Depois de quase dois dias de estrada, rangendo por rodovias intermináveis, ele finalmente parou na imensa rodoviária do Rio de Janeiro. Cariri acordou com o sacolejo final e com a voz do motorista anunciando a chegada.
— Rio de Janeiro
Por alguns segundos ele não se mexeu.
Sentado na poltrona dura, com o corpo dolorido e a cabeça cheia de pensamentos, olhou pela janela embaçada. Lá fora havia luzes amarelas, motores ligados, pessoas andando rápido demais. Era outro mundo.
Ele apertou o pequeno saco de pano que carregava no colo. Dentro estavam suas poucas roupas, um par de sandálias gastas e um pedaço de papel com um endereço amassado.
Era tudo o que possuía.
Quando desceu do ônibus, o chão pareceu grande demais. A rodoviária fervilhava de gente: malas com rodinhas, vozes apressadas, crianças chorando, vendedores gritando ofertas de café.
Cariri parou no meio do corredor. Ninguém reparava nele.
Homens de terno passavam correndo. Mulheres falavam ao telefone. Turistas carregavam câmeras e mochilas enormes.
Ele olhou para cima. O teto parecia uma cidade de concreto suspensa. Luzes, placas, anúncios, escadas rolantes subindo e descendo como rios de gente. Cariri nunca tinha visto uma escada que andava sozinha. Ficou olhando aquilo por alguns segundos, tentando entender.
Sentiu um aperto no peito. Ali ninguém sabia quem ele era. Ninguém conhecia sua estória.
Ninguém sabia que ele tinha atravessado metade do país para tentar sobreviver. Respirou fundo.
O cheiro era uma mistura de diesel, café e chuva antiga. Então saiu andando devagar. Cada passo era uma mistura de medo e esperança.
Parou diante de uma banca de café. O vendedor, um homem gordo de bigode grosso, observou o menino magro com roupa simples e olhos enormes.
— Chegou hoje, garoto?
Cariri apenas assentiu.
— Primeira vez no Rio?
Ele assentiu novamente.
O homem encheu um copo de café pequeno e colocou no balcão.
— Toma. Esquenta o peito.
Cariri segurou o copo quente com as duas mãos.
Nunca aquele café simples pareceu tão importante. Tomou devagar.
Quando terminou, colocou o copo vazio de volta e agradeceu com um leve gesto de cabeça.
Depois tirou o papel do bolso. O endereço estava meio borrado.
Mas era seu único rumo. Cariri olhou mais uma vez para o enorme movimento da rodoviária. E então saiu pela porta principal.
Lá fora, o céu começava a clarear sobre a cidade que ainda não sabia que aquele menino magro um dia faria parte dela.
A cidade não era o que imaginava. Era maior. Mais dura. Mais fria.
Chegando e lembrando as estórias contadas pelo pai, procurou um abrigo em uma casa para migrantes nordestino onde poderia desembolsar pouco dinheiro até conseguir trabalho. Estas casas eram dirigidas por pessoas que vieram também do Nordeste em busca de novas oportunidades e contavam com pastores cristãos e padres católicos que lhes davam orientações, em alguns casos até os convenciam a voltar explicando as agruras que teriam que passar destruindo muitos sonhos assim que desembarcavam.
Haviam casos em épocas especificas que eles bancavam a volta do retirante desolado, que não tiveram a oportunidade de fazer amigos e que por indigência acabavam vivendo em uma miséria maior do que estavam acostumados no agreste.
Viu gente desistindo. Viu gente voltando. Mas ele ficou.
Bom, em seu primeiro dia, pela disposição apresentada, tendo seus documentos em bom estado e até carteira de motorista, foi convidado a participar de um grupo que trabalharia em um Lava-Jato aos pés do morro da Mangueira, junto a algumas empresas que possuíam funcionários que levavam seus carros de médio porte para limpeza externa e interna.
Sem direitos. Sem garantias, mas com dignidade.
A OPORTUNIDADE
Trabalhando, chamou atenção. Educado. Prestativo.
Seu trabalho consistia em ajudar seus companheiros a higienizar os veículos com agua roubada de um hidrante clandestino, passar pano dentro do veículo e manobrar os carros quando o proprietário não podia acompanhar a execução dos serviços.
Nesta lide fez amizades, ganhava um salário menor do que era declarado pelo patrão sem nenhum direito trabalhista, vivia basicamente das gratificações recebidas, que eram maiores quando os senhores por motivo que não lhe interessava pediam para levar o carro até o trabalho. Um curto pedaço mais que gerava sempre uma boa compensação.
Um certo dia um dos diretores de empresa próxima, ao receber o carro como pedido, e na entrega das chaves, disse ao jovem que sempre via sorridente e disposto a ajudar que havia uma vaga para ajudante de cozinha e limpeza em um restaurante na zona sul onde também era sócio.
- Menino, não sei seu nome, como você se chama?
Ele envergonhado disse: - meu nome de batismo é Hadelíbio César, mas pode me chamar como todos me conhecem, Cariri.
- Por que Cariri?
- Sempre que conversamos lá no posto, surgem estórias engraçadas e conto algumas que vivi na minha terra, então eles passaram a me chamar de Cariri. É só zoação!
CHINA
- Ok. Cariri. Vá amanhã de manhã procurar meu amigo que gerencia um restaurante em Ipanema e leve este cartão de apresentação, ele está precisando muito de alguém para trabalhar como ajudante de cozinha e acho que você vai gostar. Vou avisá-lo de sua chegada.
Passou então para ele o cartão e uma boa gorjeta para as passagens que precisaria comprar dizendo: - Boa Sorte! Se depois precisar de alguma coisa me fale, posso lhe ajudar com alguma roupa.
Ele voltou todo animado para o serviço e passou o resto do dia trabalhando e sonhando com a nova vida.
No final do dia avisou que não iria trabalhar no Lava Jato e na manhã seguinte foi procurar o tal restaurante que seria seu novo emprego.
Ao chegar na porta do estabelecimento que ainda se encontrava fechado para o público, ficou algum tempo admirando a fachada do prédio e imaginando como as pessoas podiam viver em lugares tão altos em janelas que iam de acima do restaurante até o infinito.
Na calçada, mesas e cadeiras amontoadas e pessoas limpando e jogando água, os homens carregando as cadeiras e uma jovem passando pano, secando, limpando e fazendo brilhar os móveis.
Pela porta entreaberta via movimento semelhante no lado interno com pessoas rindo e trabalhando sob as ordens de alguém que parecia ser o Chefe. Seu coração estava disparado e esperançoso com a nova vida.
Acima da porta um letreiro colorido em losangos brilhantes dizia: - Arlecchino Gastronomia & Requinte, Gourmet
Andou um pouco para cada lado da portaria do prédio, foi até a praia ao ver que a rua era transversal a Avenida de onde descera do ônibus e que de onde estava virando o rosto podia ver e sentir a brisa que trazia o cheirinho de oceano. Com certeza podia jurar que poetas e cancioneiros de sua terra ficariam muito mais inspirados se algum dia conhecessem esse lugar.
Ao ver aquele areal branco e marcado com os pés das pessoas, pensou que seria um crime pisar neste lugar tão santo!
Ao ver o mar mesmo de longe, imaginou que um dia poderia pagar com o dinheiro que ganharia a oportunidade de entrar naquelas águas tão limpas que faziam um barulho estranho. As águas levantam-se e caiam na areia molhada, fazendo o mesmo que as outras que já haviam caído e recuado, não deixando que aquele mundão d’agua acabasse.
Deu-se conta do tempo e voltou rápido para entrar no Restaurante. Encontrou a menina que limpava as cadeiras e mesas e perguntou: - como posso falar com o “Seu” Haroldo? Mostrando o cartão que lhe havia sido entregue.
A menina sorriu e disse: - Bom dia! Qual o seu nome? Ele encabulado respondeu: - Cariri, e o seu qual é!
- Francisca, mas o pessoal me chama de “China”.
Pequena, forte, direta.
Parecida com ele.
Vieram do mesmo chão.
Ela então pegou o cartão na mão do rapaz e sumiu subindo uma escada nos fundos do restaurante. Demorou alguns instantes e voltou dizendo: - aguarde um tanto, o “doutor” Haroldo vai vir conversar com você.
Cariri então sentou-se em uma cadeira já limpa e ficou admirando um quadro de um imenso pavão de cor meio azulado que reinava em cores maravilhosas em uma das paredes. A pessoa demorava um pouco para descer as escadas.
Cariri que não gostava de ficar parado, tomou a iniciativa e começou a ajudar a menina China recolocando no lugar as cadeiras e mesas que ela limpava, e assim foram surpreendidos pelo senhor Haroldo que ao vê-lo nesse trabalho sorriu e disse: - Cariri, o meu amigo falou de você, e falou muito bem! Acho que ele não exagerou, você é um cara esperto e espero contar com sua ajuda. Estava empregado.
A CONSTRUÇÃO DA NOVA VIDA
Assim foi encaminhado ao Setor de Pessoal para as formalidades e documentação sendo avisado que teria um uniforme para vestir deixando suas roupas em um armário coletivo, que receberia as chaves do seu escaninho. Ouviu da necessidade de manter o local e seu uniforme muito limpo, que seu Chefe lhe seria apresentado no dia seguinte, que seu horário começaria sempre as oito da manhã podendo ser liberado as 18 horas, menos aos sábados, domingos e feriados quando a casa sempre requeria a participação de todos. Sendo as horas a mais compensadas em outros dias da semana quando fosse possível.
O restaurante ainda estava fechado quando Cariri chegou e deixava escapar o cheiro forte de café recém passado e pão quente.
Ele parou na calçada, durante alguns segundos ficou apenas olhando. Ali começaria sua nova vida.
Respirou fundo e entrou, dentro havia movimento, panelas batiam, pratos eram empilhados.
Uma mulher varria o chão com força enquanto um homem grande organizava caixas de verduras.
Foi esse homem que primeiro olhou para ele.
— Você é o menino do Ceará?
Cariri assentiu.
— Sou.
O homem limpou as mãos no avental e se aproximou.
— Eu sou seu Antônio. Aqui todo mundo trabalha. Quem trabalha fica. Quem enrola vai embora.
Cariri engoliu seco.
— Sim, senhor.
Seu Antônio apontou para o fundo da cozinha.
— Lava-pratos.
Era ali.
Uma pia enorme cheia de pratos empilhados até quase cair.
Copos, talheres, panelas pretas de gordura. Cariri nunca tinha visto tanta louça junta.
Uma senhora de cabelos presos num lenço vermelho olhou para ele e sorriu.
— Não assusta não, menino. No começo parece um monstro… depois vira amigo.
Ela entregou um avental grande demais para seu corpo.
— Seu nome?
— Cariri.
— Bonito nome. Me chame de Dona Lúcia.
Ela abriu a torneira.
A água bateu forte na pia.
— Primeira regra: prato limpo brilha. Se não brilhar, volta.
Cariri pegou a primeira esponja.
Suas mãos tremiam. O prato parecia escorregar. Ele esfregou com cuidado.
A espuma subiu. A gordura foi desaparecendo. Quando enxaguou, o prato realmente ficou brilhando.
Dona Lúcia olhou e aprovou.
— Viu? Já nasceu sabendo.
Cariri sorriu pela primeira vez naquele dia.
Pouco a pouco foi pegando ritmo.
Prato. Copo. Talher. Panela.
A pilha diminuía e logo voltava a crescer.
A cozinha ficou quente, cheia de vapor, cheia de vozes. Cheia de vida.
Mas, em algum momento entre um prato e outro, Cariri percebeu uma coisa simples:
Ele estava trabalhando, Ele estava começando, e aquilo, para quem chegou com quase nada, era mais do que suficiente.
A PRIMEIRA GENTILEZA
A noite já tinha caído quando o movimento do restaurante finalmente começou a diminuir.
O barulho das panelas foi ficando mais espaçado. As mesas foram esvaziando aos poucos. O cheiro forte de comida deu lugar ao cansaço espalhado pelo ar quente da cozinha.
Cariri ainda estava na pia.
A pilha de pratos agora era menor, mas seus braços pareciam pesar toneladas. As mãos estavam vermelhas, os dedos enrugados pela água que nunca parava de correr.
Mesmo assim, ele continuava.
Prato. Copo. Talher. Panela.
O ritmo já estava gravado no corpo.
De vez em quando lembrava do prato quebrado mais cedo. A voz dura de seu Antônio ainda ecoava na cabeça.
“Isso aqui não é casa de caridade.”
Cariri tentou afastar o pensamento. Enxaguou mais um prato.
Foi então que ouviu passos atrás dele.
Dona Lúcia apareceu novamente, segurando algo enrolado em um guardanapo grosso.
Ela colocou o embrulho sobre a bancada.
— Come.
Cariri olhou sem entender.
— Pode pegar.
Ele abriu o guardanapo com cuidado.
Dentro havia um pedaço grande de pão ainda morno e um pedaço de carne assada que provavelmente tinha sobrado de alguma mesa. O cheiro era maravilhoso.
Cariri ficou alguns segundos apenas olhando.
— É… para mim? Dona Lúcia riu baixo.
— Não, é para o presidente da República. Claro que é para você, menino.
Ele hesitou.
— Mas… seu Antônio…
Ela interrompeu.
— Seu Antônio já foi embora.
Cariri pegou o pão com cuidado, quase como se fosse algo frágil demais para existir.
Deu a primeira mordida.
A fome que ele vinha segurando o dia inteiro apareceu de uma vez só.
Comeu rápido, depois diminuiu o ritmo, tentando fazer aquele momento durar mais.
Dona Lúcia se encostou na parede da cozinha, observando.
— Veio de longe, né?
Cariri assentiu enquanto mastigava.
— Do Ceará.
Ela fez um gesto lento com a cabeça.
— Eu também.
Cariri levantou os olhos, surpreso.
— Sério?
— Mossoró.
Por um instante, um silêncio confortável se instalou entre os dois.
Como se aquela informação tivesse diminuído a distância entre eles.
— No começo é duro — disse ela.
Cariri terminou o pedaço de carne.
— Eu sei.
— Não. Ainda não sabe.
Ela sorriu, mas havia verdade naquelas palavras.
Depois apontou para a pia.
— Mas você trabalha direito. Isso já é metade do caminho.
Cariri sentiu algo estranho no peito.
Não era tristeza. Também não era alegria. Era algo mais raro. Era ser visto.
Ele terminou o pão e limpou as mãos no avental grande demais para seu corpo.
Dona Lúcia pegou o guardanapo vazio.
Antes de sair, falou sem olhar diretamente para ele:
— Amanhã vai ser mais fácil.
Cariri voltou para a pia.
Ainda havia alguns pratos esperando.
Mas agora o trabalho parecia um pouco diferente.
A cozinha continuava quente.
O vapor continuava subindo.
A água continuava correndo.
Só que, pela primeira vez desde que tinha chegado àquela cidade imensa, Cariri sentiu que talvez… apenas talvez… ele não estivesse completamente sozinho.
CARIRI VÊ O MAR
O domingo amanheceu diferente.
No restaurante, o movimento era menor. Algumas mesas ocupadas, poucos pedidos, uma tranquilidade rara que fazia até a cozinha parecer maior.
Cariri terminou de lavar os últimos pratos da manhã quando Dona Lúcia apareceu na porta da cozinha.
— Já acabou?
— Já.
Ela fez um gesto com a cabeça.
— Então vamos dar uma volta.
Cariri franziu a testa.
— Agora?
— Agora.
Ele tirou o avental ainda confuso. Nunca tinha saído com ninguém desde que chegara à cidade.
Saíram pela porta lateral do restaurante.
Prédios altos. Avenidas largas. Pessoas andando de bicicleta. A cidade parecia infinita.
Depois de algum tempo, o ônibus parou.
— Desce — disse Dona Lúcia.
Eles caminharam algumas quadras.
Cariri sentiu primeiro o cheiro.
Era um cheiro diferente de tudo que ele conhecia. Um cheiro forte, salgado, misturado com vento.
Então ouviu o som.
Um barulho constante, profundo, como uma respiração gigante.
— Pode olhar — disse Dona Lúcia.
Cariri levantou os olhos e parou.
Na frente dele se estendia algo que sua cabeça demorou alguns segundos para entender.
Água. Mas não era um rio. Não era um açude. Não tinha margem do outro lado.
Era um imenso campo azul que parecia tocar o horizonte. O mar.
Cariri ficou completamente imóvel.
O vento batia no rosto dele, trazendo respingos salgados e o som das ondas quebrando na areia.
As pessoas caminhavam pela praia, crianças corriam, vendedores gritavam ofertas de água de coco e mate gelado.
Mas ele não ouvia nada disso. Só olhava.
— Grande, né? — disse Dona Lúcia.
Cariri respondeu quase em um sussurro:
— Não acaba…
Ele deu alguns passos em direção à areia, como se estivesse se aproximando de algo sagrado.
Quando a água fria tocou seus pés, ele puxou o ar de surpresa.
Depois riu.
Uma risada curta, verdadeira, quase de criança.
Ficou ali parado enquanto as ondas vinham e voltavam, como se o mar estivesse respirando aos seus pés.
— Lá na minha terra — disse ele devagar — a água é pouca.
Dona Lúcia olhou para o horizonte.
— Aqui tem muita… mas também falta muita coisa.
Cariri não respondeu.
Ele estava ocupado demais tentando guardar aquele momento dentro de si.
O vento bagunçava seu cabelo. O sol brilhava na superfície infinita da água.
E pela primeira vez desde que chegara ao Rio, Cariri sentiu algo novo crescendo dentro do peito.
Não era medo. Não era tristeza. Era possibilidade. Ele ficou olhando o mar por muito tempo.
Como se estivesse tentando entender aquele mundo enorme.
Ou talvez tentando entender que, assim como aquele oceano sem fim, a vida também podia ser maior do que ele imaginava.
No início em trabalhos de limpeza e de ajudante da cozinha colocava toda atenção no recolhimento e separação de lixos orgânicos e limpeza dos talheres, secando pratos colocando tudo em condições de uso novamente. Separava e lavava as frutas para que o Bartender pudesse preparar drinks e maravilhas de degustação antes, durante e após os pratos do cardápio.
E assim conhecendo o dia a dia estava aprendendo a trabalhar em equipe e a utilização correta de cada equipamento disponível foi sendo pouco a pouco direcionado para a área de sushis e comidas japonesas, chineses, aprendendo com outros que haviam seguido o mesmo caminho a preparar os pratos orientais.
Assim nascia mais um japadeste (profissional nordestino especializado em comidas exóticas). Aprendeu a cortar, enrolar dispor em pratos. Com quimono branco e faixa vermelha na cabeça, ar compenetrado de profissional do ramo passou a preparar e decorar pratos sugestivos. Em pouco tempo participava do rateio das gorjetas diárias e ganhava um status de Sushiman preparando pratos tradicionais das culinárias do oriente.
Descobriu que do salário baixo podia enviar parte para a mãe e seus irmãos sobrando toda a renda extra para sua própria vida de rapaz solteiro.
O envelope parecia pesado nas mãos de Cariri. Não pelo valor. Mas pelo significado.
Era o fim do primeiro mês de trabalho no restaurante. Depois de descontados os pratos quebrados, o uniforme e algumas refeições, seu Antônio colocou algumas notas dobradas dentro de um envelope pardo e entregou a ele no final do expediente.
— Aqui está seu pagamento.
Cariri segurou o envelope com cuidado. Nunca tinha recebido dinheiro assim antes.
Não daquele jeito. Não como resultado de um mês inteiro de trabalho.
Saiu do restaurante já de noite. As ruas estavam iluminadas por postes amarelos e o movimento da cidade parecia não diminuir nunca.
Ele caminhou algumas quadras com o envelope guardado no bolso interno da camisa, como se carregasse algo precioso demais para ser mostrado.
Na esquina havia uma pequena agência de correio. A placa azul já estava meio apagada pelo tempo, mas a porta ainda estava aberta.
Cariri entrou.
O lugar era simples. Um ventilador girava devagar no teto e um funcionário de óculos organizava papéis atrás do balcão.
— Boa noite.
Cariri demorou um segundo para responder.
— Boa noite.
Ele tirou o envelope do bolso.
— Eu queria… mandar dinheiro.
O homem pegou um formulário.
— Para onde?
Cariri respondeu quase com orgulho:
— Ceará.
O funcionário começou a preencher os dados.
— Nome de quem vai receber?
Cariri respondeu devagar, como quem pronuncia algo importante demais para errar:
— Minha mãe.
Enquanto o homem escrevia, Cariri abriu o envelope. Separou algumas notas.
Guardou apenas o mínimo para continuar vivendo. O resto colocou sobre o balcão.
O funcionário contou o dinheiro e levantou os olhos.
— Quer mandar tudo isso?
Cariri assentiu.
— Sim.
O homem terminou de preencher o papel e empurrou o formulário.
— Assina aqui. Cariri segurou a caneta com cuidado. Demorou um pouco para escrever o próprio nome.
Cariri.
As letras saíram tortas, mas firmes. Quando terminou, o funcionário carimbou o papel com um som seco.
— Pronto. Em alguns dias chega lá.
Cariri pegou o comprovante. Ficou olhando para ele por alguns segundos.
Era apenas um pedaço de papel. Mas para ele significava algo imenso.
Significava que, mesmo estando tão longe, ele ainda podia alcançar sua casa.
Saiu da agência e voltou a caminhar pela rua iluminada.
A cidade continuava barulhenta, cheia de carros, cheia de gente. Mas agora havia algo diferente. Em algum lugar distante, no interior seco do Ceará, sua mãe ainda não sabia…
Mas em poucos dias alguém bateria à porta dela.
E naquele momento simples, segurando um pequeno envelope de dinheiro vindo de longe, ela entenderia uma coisa sem que ninguém precisasse explicar: o menino tinha sobrevivido. E mais do que isso, ele não tinha esquecido de casa.
Alugou uma vaga perto do local de trabalho e as segundas feiras participava do torneio de futebol pelo time do Restaurante. Esses jogos começavam após as três da manhã com o fechamento do expediente de vários estabelecimentos e promoviam um congraçamento entre todos os profissionais jovens que vindos do interior buscavam uma posição neste mundo de alimentação para o público em geral.
A carta chegou numa tarde comum.
O movimento do restaurante estava fraco naquele dia. Algumas mesas ocupadas, poucas conversas espalhadas pelo salão e o barulho constante da cozinha funcionando em ritmo lento.
Cariri estava na pia, como sempre.
Prato. Copo. Talher. Panela.
A rotina já era quase automática quando um dos garçons apareceu na porta da cozinha segurando um envelope.
— Ei… Cariri.
Ele levantou os olhos. — Tem uma carta para você.
Por um instante ele pensou que tinha ouvido errado.
— Pra mim?
O garçom levantou o envelope. — Seu nome tá aqui.
Cariri enxugou as mãos no avental e pegou o papel com cuidado.
O envelope estava amassado, com marcas de viagem e um carimbo azul do correio. No canto, em letras tortas, estava escrito seu nome.
Cariri.
Ele reconheceu imediatamente a letra, era da mãe.
O coração bateu mais rápido.
— Abre logo, menino — disse Dona Lúcia, curiosa.
Mas Cariri demorou um pouco.
Passou o dedo pelo envelope como se aquele pedaço de papel fosse algo frágil demais para ser rasgado..
Dentro havia uma folha simples, dobrada duas vezes. Ele desdobrou devagar.
A letra era irregular, feita com esforço.
Começou a ler em silêncio.
“Meu filho Cariri,
Recebemos o dinheiro.
Quando o homem do correio chegou aqui em casa pensei que fosse engano.
Fiquei olhando aquele envelope e lembrando de você pequeno correndo pelo quintal.
Seu dinheiro chegou em boa hora. Compramos comida e pagamos a conta atrasada do mercadinho. Seu irmão perguntou se você agora virou homem da cidade grande.
Eu disse que não. Disse que você continua sendo o mesmo menino bom!
- Aqui continua tudo do mesmo jeito.
A chuva ainda não veio. A terra está seca como sempre. Mas agora quando olho para o céu eu penso diferente. Penso que em algum lugar desse mundo meu filho está trabalhando e lembrando de casa.
A cozinha continuava funcionando ao redor dele, mas Cariri já não ouvia quase nada.
A carta parecia falar diretamente dentro do peito.
Ele leu a última parte. Não se preocupe tanto conosco. Apenas cuide de você.
E lembre de uma coisa que sempre te falei: Homem não é o que tem dinheiro.
Homem é o que não esquece de onde veio.
A assinatura vinha no final, tremida.
Sua mãe.
Cariri ficou olhando aquela palavra por alguns segundos.
Depois dobrou a carta com cuidado e colocou dentro do bolso da camisa.
Dona Lúcia observava em silêncio.
— Tudo bem?
Ele assentiu.
Mas seus olhos estavam diferentes agora. Havia algo ali que não existia antes. Algo mais firme. Algo mais profundo.
Cariri voltou para a pia, pegou outro prato. A água continuava correndo. A cozinha continuava quente. O trabalho continuava o mesmo, mas agora ele sabia de uma coisa com absoluta certeza: Em algum lugar do sertão seco do Ceará havia uma casa simples onde sua mãe guardava um envelope vazio e dizia para quem quisesse ouvir:
- Meu filho está vencendo no mundo.
E isso, para Cariri, fazia cada prato lavado valer a pena.
Desde o primeiro dia sentiu uma certa simpatia pela menina Francisca que como os outros a tratava por “China” descobriu que ela também mandava um dinheiro para a mãe e seus irmãos em Juazeiro, conversavam muito sobre a vida em terras nordestinas e seus deslumbramentos quando chegaram no Rio de Janeiro.
Das confidencias e das perspectivas de vida foi surgindo uma grande amizade e sempre se procuravam para conversar. China fazia a faxina nos dias de semana com outros funcionários e quando estava no plantão mantinha limpo o banheiro masculino e o feminino. Sempre torciam para que a folga da semana fosse coincidente, quando ficavam muitos dias sem poder trocar ideias e fazer planos pediam ao gerente da casa que desse um jeitinho para que pudessem se ver fora do ambiente de trabalho.
Em pouco tempo começaram a unir planos e trocar confidencias, tendo o apoio e a torcida de todos, deste o diretor até os colegas de trabalho. Em dias de futebol de areia nas praias de Ipanema ela comparecia para ver e conversar com o agora namorado.
Não tinham grandes oportunidades de conhecer e passear pela cidade, era uma vida dura de trabalho com os horários mais estapafúrdios que se podia imaginar. Quando em feriados ou dias não uteis era dia em que mais trabalhavam e o tempo parecia voar.
Sendo um restaurante para classe média alta possuía um cardápio variado de muito bom gosto em um ambiente de classe sendo uma verdadeira mina de gorjetas para aqueles que ali trabalhavam. Os funcionários dividiam entre si sempre as sextas feiras os recebimentos, sendo que a proporcionalidade maior caia para o pessoal da cozinha, depois garçons e por último a limpeza. E assim todos se beneficiavam buscando dar o melhor atendimento possível.
Tudo estava certo, muito certo.
A SEMENTE DO ERRO
E foi exatamente por isso que começou a dar errado.
Existia um pessoal mais fora desta categoria interna, composta por guardadores de automóveis que nem vínculo trabalhista possuíam, mas que também se esmeravam no atendimento, uma vez que verdadeiros carrões sob guarda exigiam presteza e cuidado para com o cliente. Eles formavam um grupo muito fechado que impedia a entrada de novos manobristas evitando que a divisão se tornasse menor.
Neste último grupo existia um rapaz que era muito amigo de Cariri e sempre estavam juntos no futebol de areia, o nome dele era Teobaldo, a galera chamava ele de “Téo” ou quando queria zoar o chamava de “Baldo”. Ele não dava a mínima, até achava engraçado dizendo que ‘Baldo” hoje não veio procurem o “Téo”, mas não deixavam o serviço cair, porque o cliente que sai satisfeito do Restaurante vai voltar e com uma boa gorjeta.
Em uma dessas conversas e vendo que Cariri esteva se preparando para casar, Téo disse que ele estava “comendo mosca” porque trabalhando como Uber ou dirigindo um Táxi ele, o Cariri, ganharia muito mais podendo ver a mulher todos os dias e sem as obrigações de cumprir plantões tão sacrificantes. Que os carros que dirigia para os “bacanas” eram espetaculares e não aquelas carroças caindo aos pedaços que ele dirigia na Mangueira.
E em várias oportunidades Téo disse isso, e foi minando a resistência de Cariri que já via com bons olhos essa oportunidade.
E plantou a dúvida.
TEOBALDO
Para conhecer um pouco mais Teobaldo, Cariri me contou que Téo quando tinha aproximadamente uns seis anos, vivia nas areias da praia de Ipanema, e alguns moleques maiores resolveram tomar uma bicicleta de um garoto lourinho que em sábados alternados passeava acompanhado de um moço de meia idade e que este sempre estava no telefone celular conversando com alguém, deixando de prestar atenção em seu filho e na bike.
Assim o líder do grupo um molecote de uns dezesseis anos aproveitando um descuido paterno puxou assunto com o garoto e o desafiou a correr montado mais do que ele a pé, vencendo aquele que chegasse primeiro no canal que divide o bairro entre Ipanema e Leblon. O garoto animado pelo desafio aceitou e partiu para derrotar aquele pobre arrogante.
Quatro adolescentes e o menino Téo, partiram na frente sem qualquer desconfiança daquele que seria a vítima. O pai preocupado em falar e dar explicações ao telefone, em nenhum momento percebera qualquer movimento e nem viu quando foi dada a largada ao som de 1, 2, 3 já ...
Ao chegar no canal o garoto se viu cercado pelos meninos que exigiam a bike sob ameaça de levar uma surra ali mesmo. Ele apavorado procurou o pai e percebeu que não tinha mais como vê-lo e obter o socorro necessário. Ao ver chegando aquele que o desafiara teve um vislumbre de que teria a ajuda que tanto necessitava. Doce engano, aquele que se fizera seu amigo disse:
- Corre daqui branco babaca ou vamos chutar essa bunda até que ela fique bem vermelhinha e apetitosa.
O garoto percebeu que havia perdido a bicicleta e que teria que voltar correndo e chorando a procura do papaizinho. As pessoas que passavam olhavam a cena percebendo o que deveria estar acontecendo, mas ninguém iria se envolver e ser agredido por pivetes que nada tem a perder e que se arvoram em justiceiros sociais.
Dali partiram para vender o “ganho” repartir a grana e dar a cada um a parcela que coubesse para fazer a noite ser melhor com a namoradinha, com drogas ou qualquer outro destino que fosse possível.
Como não conseguiram vender a bicicleta resolveram deixa-la com Téo Preto como eles o chamavam até que encontrassem um possível comprador. Naquele grupo apenas Teobaldo não possuía família e não tinha que dar satisfação a ninguém da má conduta e de onde havia surgido aquele “camelo”.
Encostaram a “magrela” na pedra da calçada e cobriram com uma lona velha encarregando Téo tomar conta para que ela fosse encontrada no dia seguinte ou até que alguém pudesse compra-la.
O que eles nem suspeitavam é que o pai do franguinho fosse policial ligado a Delegacia de combate ao tráfico e com uma rede muito grande de amigos e informantes.
Assim, o policial deu 24 horas para que a bike fosse encontrada sob pena de transformar em um inferno a vida daqueles marginais da área que acostumados a uma vida tranquila alimentavam o vício dos garotinhos de família naquele perímetro.
Movimentaram então todos os informantes e marginais e rapidamente encontraram a bicicleta e pegaram Téo Preto. Amarraram ele, tendo um dos pedais como se tivesse sentado e depois de uma surra obrigaram-no a entregar todos os participantes que foram sendo capturados um a um, torturados para aprender a não efetuar assaltos naquela área e devolveram ao legitimo proprietário a tal bike, objeto de desejo daquela galera.
Téo então, bem machucado ficou perambulando pela areia com sangue pelo rosto, nas mãos e marcas no corpo de chutes e pontapés levados. As pessoas se afastavam entendo que ali estava um garoto abandonado, sem rumo e maltrapilho, sem saber dos acontecimentos anteriores.
Téo, em dado momento chorando e sentindo muita dor viu na areia uma moeda de 10 centavos muito suja e preta de tal forma que não podia vislumbrar a imagem frontal. Ao ver que no verso havia o número, sua mente infantil o levou a imaginar ser o número da camisa da seleção brasileira de futebol e que ele sendo um pequeno jogador das areias tinha como pai aquele atleta. Imediatamente deixou-se levar que sendo aquela a fotografia de seu pai que jamais conhecera.
Mais alguns passos e brilhou no meio da areia branca uma imagem em massa colorida de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Maria do mesmo tamanho da moeda. Imediatamente sua mente sofrida identificou aquela como sendo foto de sua mãezinha e assim juntou as imagens colocando no ponto onde dormia as figuras paterna e materna em busca de proteção e cura.
Assim, chorando e adorando ele adormeceu pedindo que sua vida fosse mudada. Ao acordar, ficou feliz em ver que parte das dores havia ido embora e que as fotos de pai e mãe ainda velavam por ele.
Um Senhor aproximou-se e vendo aquela sofrida criança perguntou: - Ei, menino! Quer ganhar uns trocados, você tem alguém que possa ajudar ou pedir ajuda?
Ele apontou para a moldura colada na pedra do asfalto e disse: - meu pai e minha mãe estão comigo.
O moço então falou, vem comigo, tenho um restaurante aqui perto e gostaria de lhe oferecer um prato com comida para você, seu pai e sua mãe. Aquelas palavras soaram como música e ele seguiu aquele que seria para sempre seu benfeitor. Transformando sua vida, dando além da comida um lugar onde pudesse colocar as imagens que encontrara em meio a tanto sofrimento.
Daí aprendera a dirigir fazendo amizade com os manobristas do restaurante, jogando futebol pela madrugada nas areias de Ipanema defendendo como seu pai a camisa número 10 nas cores do Restaurante do Sr. Haroldo, seu benfeitor, amigo e conselheiro.
Assim ele conhecera o jovem Cariri com quem fez amizade e parceria nas areias da praia.
O CASAMENTO
O velho Cariri havia falado que fizera fortuna com um velho carro, o que praticamente corroborava essas palavras. E assim foi por um verão inteiro. Cariri conversou com China sobre a possibilidade, porém, ela reticente dizia que não se importava em trabalhar e que eles estavam ganhando um bom dinheiro. Ela deixou claro que não pretendia parar de fazer suas funções e de enviar para a mãe e irmãos aquele dinheiro mensal que ela sabia ser importante para a família.
O tempo passando, eles vivendo da melhor forma possível, sonhando e fazendo planos. Alugaram um apartamento em Copacabana e começaram a mobília-lo sem pressa, preparando para o casamento. Os amigos se cotizaram para compra de uma televisão de grande tamanho, os patrões compraram a geladeira e assim as coisas seguiam seu curso.
Mas os conselhos do amigo começaram a martelar na cabeça de Cariri, ele começou a ver anúncios de carros, em princípio carros pequenos para uso do casal quando em dias de folga, porém, com o dinheiro na conta da poupança e o incentivo da galera e o desejo de uma nova vida, os padrões começaram a subir e em pouco tempo já procurava automóveis de quatro portas com ar condicionado.
China como gostava que a chamassem era uma menina morena de cabelos negros, em um corpo pequeno, parecia desenvolver uma força e uma disposição muito grande para qualquer tarefa, as clientes femininas viam nela tudo aquilo que jamais seriam caso precisassem lutar para sobreviver. As mais antigas sempre que vinham a presenteavam com perfumes, vestidos usados em bom estado e muitos sapatos. Ela sempre repassava para o pessoal da cozinha quando não tinha interesse naquela prenda ou quando o tamanho era incompatível com o tamanho dela.
Muito bonita atrás daquele uniforme de fim de semana e feriados, esmerava-se para dar conforto e bem-estar as freguesas. Os homens não a notavam muito, passando desapercebida para aqueles que ela julgava que seriam tão bonitos como artistas de cinema.
Aquelas freguesas mais assíduas quando não traziam presentes faziam questão de agradecer a limpeza e o bom atendimento com gorjetas que ela incorporava na caixinha geral para que pudesse participar dos rateios semanais. Uma vez ou outra era o homem, talvez namorado ou marido que incentivado pela mulher lhe proporcionava um bom regalo, assim todos sempre ganhavam pelo bom atendimento que o estabelecimento oferecia.
Quando começaram os primeiros boatos do casamento entre China e Cariri, as pessoas começaram a reforçar as gorjetas e então os funcionários passaram a destinar uma parcela significativa para a caixinha que chamavam de lua de mel, guardando uma quantia que destinaria os pombinhos para algum lugar longe do ambiente de trabalho. Porém, eles apenas queriam ir até Fortaleza passear como turistas e de lá visitar cada cidade onde seus parentes seriam apresentados a cada um deles como marido e mulher.
O apartamento alugado então passou a receber os móveis e os aparelhos que ganhavam de presente de amigos e clientes do restaurante e onde eles faziam visitas regulares para organizar e colocar tudo em ordem, complementando aquilo que porventura estivesse faltando. E assim seguia a vida sem pressa do jovem casal.
Uma determinada semana em que comemoravam um ano entre namoro e noivado resolveram fazer mais uma visita ao local levando alguns objetos que haviam ganhado, aproveitando a coincidência de folga de meio de semana.
Marcaram então o encontro para pegar no local de trabalho as tralhas e foram leva-las ao apartamento tão bem cuidado dos agora noivos.
Colocaram as peças no chão e foram admirar mais uma vez aquilo que estavam construindo com tanto amor e carinho. De frente para a Avenida, o apartamento de sala e quarto, possuía um lavabo, um banheiro, além de área de serviço, varanda, sendo muito bem arejado. Bem localizado no posto quatro em frente ao antigo Mercadinho Azul, hoje uma dessas lojas de departamento tinha sua principal portaria, toda em mármore bem ao lado de um dos mais conhecidos restaurantes de classe média da época, o Spaghettilândia, lugar onde as pessoas dos escritórios do bairro quase sempre almoçavam e jantavam, fazendo com que sempre tivesse um bom movimento fazendo um grande fluxo de pessoas pelo local.
Naquele ponto existiam vários cinemas que principalmente nos fins de semana exibiam suas estreias provocando um movimento muito grande e tornando o bairro um ir e vir constante alongando o dia.
Para a esquerda tinha o Cinema Metro, o mais requintado, quase ao lado na mesma calçada tínhamos o Art Palácio, quase em frente ao nosso edifício, ao lado do Mercadinho Azul tínha o Cine Copacabana. Hoje todos esses cinemas já não mais existem, foram transformados em grandes lojas de departamento. Aquele que mais frequentado na verdade por que tinha a sessão da meia-noite era o Cine Roxy.
Depois de arrumarem as coisas em seus devidos lugares e tendo mais uma vez admirado a obra que estavam realizando como a troca de encanamento de agua e de gás do apartamento, tornando-o mais habitável, resolveram descansar para sair mais tarde para fazer um lanche no Cirandinha, restaurante ao lado das Lojas Barbosa Freitas que ficava na esquina da Rua Santa Clara.
Deitaram e dormiram um sono gostoso, ao acordar surpresos ficaram ao se descobrir ao lado um do outro e na inocência da juventude beijaram-se.
Um fogo avassalador tomou conta daqueles corpos jovens e sedentos, e o desejo de um pelo outro fez o resto.
Claro que aquela ideia já se desenhava na mente das duas crianças e com certeza faltava um rastilho para incendiar e dar início ao que se anunciava.
Enfim o grande dia, programaram o casamento para uma segunda feira, neste dia de pouco movimento os patrões podiam reservar um espaço dentro do restaurante para receber os clientes convidados que participaram da “vaquinha” e amigos do casal.
No restaurante então realizou-se as cerimonias civis e religiosas sob a benção dos presentes e da direção da Casa. Nenhum dos noivos possuía parente para estar no dia do casamento, de origem humilde alguns nem ficaram sabendo que houvera um casório.
E assim foi realizado tendo a noiva ganhado de presente um lindo vestido, oferta de uma jovem Senhora de abastada condição, que havia também contraído núpcias em passado muito recente.
O salão que normalmente já possuía uma decoração requintada recebeu alguns toques e retoques para que fosse transformado em um santuário. Mesas e cadeiras dispostas possibilitavam a visão de todos os convidados centrados no casal que hora transformavam em juras de amor as promessas de fidelidade e respeito eterno. Flores coloridas enchiam o ambiente de carinho e demonstravam a admiração dos sócios do estabelecimento pelos noivos.
Os companheiros de serviço esmeravam-se no atendimento dos demais convidados, afinal eles também eram convidados e tinham o direito de acompanhar todo o cerimonial que se fazia necessário. Uma segunda feira de festa que por muito tempo foi lembrada no bairro de Ipanema elevando o nome da casa comercial.
A noiva chegou em um magnifico carro sedan dourado, cedido por empresário frequentador do restaurante disposto a mostrar a todos os demais que possuía maquinas lindíssimas para satisfação de todas os sonhos daqueles que estavam presente à festa.
O noivo em um perfeito smoking preto e gravata borboleta mal podia conter-se, ansioso estava para ver a noiva prometida, sendo as alianças trazidas pelo sócio mais velho e sua esposa como um símbolo da admiração pelos jovens nubentes.
Então sob a música tocada por um jovem com trajes medievais em um clarim potente, ela, a noiva adentrou sozinha na igreja sendo aplaudida por todos os convidados no momento em que segurou a mão do homem amado. Cessando então a valsa nupcial e dando início as boas vindas proferidas pelo Padre encarregado da cerimônia religiosa.
Após o que, finda a missa rezada m prol da felicidade não só da dupla mais estendendo-se a todos os presentes uma grande mesa com rendas e flores veio trazida pelos amigos do trabalho para que assinassem o livro do cartório oficializando a cerimonia tendo como padrinhos todos aqueles que presenciaram e colaboraram com a festa.
Um conjunto animava a galera, intervalado com DJ de renome e no final com samba das grandes escolas do Rio de Janeiro relembraram os sucessos da década de ouro dos desfiles na Sapucaí.
Como haviam combinado, o dinheiro arrecadado serviu para efetuar um grande passeio a terra natal de ambos, incluindo aqui aquela tradicional venda de gravata que cortada em pequenos pedaços produziu uma renda realmente volumosa que permitiu a viagem em grande estilo dos jovens.
Era para o casal uma visão do paraíso, podendo ver e tocar aquilo que a vida sofrida deixava saber, mas não permitia desfrutar.
Ali então durante quatro dias se sentiram Reis e puderam gozar as maravilhas de ser do Nordeste.
Foram visitar a Paroquia de Nossa Senhora das Dores em Juazeiro do Norte terra de Francisca e depois para Antonina do Norte terra do velho Cariri e sua imensa família.
Estava na hora de voltar para o Rio de Janeiro, para o apartamento que haviam mobiliado com muito carinho e amor.
Ao desembarcar no Aeroporto do Galeão, ele observou o ir e vir de motoristas de carros particulares no afã de identificar e levar os passageiros que chegavam. Os motoristas portavam placas com nome para identificação dos passageiros e isso fez com que ele ficasse admirado da engenhosidade e presteza na realização da tarefa.
Os profissionais na maioria em terno e gravata passavam a ideia de pessoa distinta e simpática.
O casal então dirigiu-se a um ponto de embarque de taxi e na cabeça do jovem Cariri ficou a imagem de que ele poderia também estar pegando seus passageiros e levando-os ao destino programado ou mesmo a luxuosos hotéis, aqueles de frente para a praia que tanto o deslumbrava.
Cariri lembrou-se das palavras do amigo que enaltecia a profissão de motorista em carros particulares e começou ali mesmo a desenhar em sua mente a compra do carro e o atendimento que poderia oferecer a seus futuros clientes.
Perdera então a vontade de servir em restaurante as comidas japonesas que aprendera a fazer e arrumar em pratos coloridos e apetitosos. Aquilo que era um trabalhar tranquilo e delicado transformara-se em um fardo para carregar durante a tarde-noite e as madrugadas.
China voltava para sua lide diária de faxina e atendimento as madames acumulando simpatias com as clientes da casa.
Nas horas de descanso Cariri gostava de folhear anúncios de carros de luxo para o exercício da profissão que pretendia abarcar em breve.
Procurava se informar com pessoas que já trabalhavam no ramo e as informações vinham sempre carregadas de entusiasmo criando uma formação de ideias sempre favoráveis a nova profissão.
Os dias passando e Cariri cada vez menos entusiasmado com a profissão de Sushiman e daí para o esquecimento das coisas conseguidas, das amizades feitas e das realizações formou-se a ingratidão e o desejo de traçar novos caminhos.
Idealizara então um determinado tipo de veículo que acompanhando os conselhos do amigo Teobaldo certamente facilitaria a procura dos clientes em atendimento.
O carro um Sedan preto com bancos de couro também da mesma cor, grande e largo para que coubesse quatro passageiros confortavelmente sentados.
Idealizara um serviço de bordo como haviam visto em filmes e no atendimento presenciado nas noites de dias da semana em jantares de negócios que sempre ocorriam no Restaurante com jornais e balas para agradar a clientela.
A NOITE DA DECISÃO
Naquela noite, China chegou em casa mais tarde que o costume.
O turno havia sido pesado. Um grupo grande de clientes resolvera comemorar um aniversário no restaurante e a limpeza demorara mais do que o normal.
Subiu as escadas do prédio em Copacabana com os pés cansados, segurando a pequena bolsa junto ao peito.
Ao abrir a porta do apartamento, estranhou o silêncio. Cariri geralmente chegava antes.
Gostava de preparar café ou esquentar alguma coisa simples para os dois comerem juntos.
— Cariri? — Chamou.
Nenhuma resposta.
Entrou devagar.
O apartamento pequeno, que eles haviam montado com tanto carinho, parecia diferente naquela noite. Havia um ar pesado no ambiente. Cariri estava sentado na mesa da cozinha.
Não levantou quando ela entrou, ficou olhando para as próprias mãos.
— Chegou cedo hoje? — Perguntou ela, tentando sorrir.
Ele demorou um pouco para responder.
— Não.
China colocou a bolsa sobre a mesa e tirou os sapatos.
Sentiu que algo estava errado. — Aconteceu alguma coisa?
Cariri respirou fundo. — Pedi demissão.
As palavras ficaram suspensas no ar. China não entendeu de imediato.
— Demissão… de quê?
Ele levantou os olhos.
— Do restaurante.
Aquela frase caiu como uma pedra no meio da pequena cozinha.
China ficou parada. Por alguns segundos parecia que o mundo tinha ficado mudo.
— Você… o quê?
— Eu saí.
— Saiu… como assim saiu?
Cariri tentou explicar com entusiasmo, como se estivesse contando uma grande conquista.
Falou do carro. Falou do aplicativo. Falou das corridas. Falou do dinheiro que poderia ganhar. Falou das oportunidades.
Falou rápido. Rápido demais.
Mas China não estava ouvindo.
Ela olhava em volta.
Para a geladeira que haviam ganhado dos patrões.
Para a televisão que os amigos haviam comprado.
Para as cadeiras simples da cozinha. Tudo aquilo tinha vindo do restaurante.
Do trabalho. Da confiança das pessoas.
Quando voltou a olhar para Cariri, seus olhos estavam cheios d’água.
Não era raiva. Era medo.
— Você pediu demissão… sem falar comigo?
Cariri ficou sem resposta.
Ela continuou:
— Sem falar com o Seu Haroldo direito?
— Falei com ele sim.
— E ele concordou?
Cariri hesitou.
— Ele… disse que eu devia pensar bem.
China sentou devagar.
— E você não pensou?
Ele tentou sorrir.
— Pensei… e pensei grande.
— Grande?
Ela repetiu a palavra como se fosse algo estranho.
Depois olhou diretamente para ele.
— Cariri… a gente já tinha tudo.
Ele balançou a cabeça. — Não tinha não.
— Tinha sim.
A voz dela agora era baixa.
— Tinha trabalho. Tinha respeito. Tinha gente que gostava da gente.
Fez uma pausa.
— A gente estava construindo nossa vida.
Cariri levantou.
Andava pela cozinha como se estivesse preso dentro de um pensamento que só ele enxergava.
— China… você não entende.
— Então me explica.
— Eu posso ganhar muito mais dirigindo.
— Pode.
Ela concordou.
Depois completou:
— Mas também pode perder tudo.
Ele ficou irritado.
— Você não confia em mim?
China respondeu imediatamente:
— Confio.
Fez uma pausa longa.
— Eu não confio é na vida.
O silêncio voltou a tomar conta da cozinha.
Lá fora, algum carro passou acelerando pela rua.
Cariri encostou na pia.
— Eu não quero passar o resto da vida cortando peixe.
China levantou devagar. Aproximou-se dele.
Segurou suas mãos.
— E eu não quero passar o resto da vida vendo você correr atrás de um sonho que não precisa.
Ele olhou para ela.
E naquele instante percebeu algo que nunca tinha notado.
China estava com medo, muito medo.
Mas não disse mais nada, apenas soltou as mãos dele.
Foi até a pequena janela da cozinha.
Ficou olhando as luzes de Copacabana.
Depois falou quase sussurrando:
— Tomara que você esteja certo, Cariri.
Tomara mesmo.
Porque se estiver errado… virou-se para ele
— a gente pode perder tudo que levou anos para construir.
A ESCOLHA ERRADA
Cariri começou a comparar. Restaurante versus rua. Estabilidade versus ilusão.
Escolheu a ilusão. Comprou o carro, e abandonou o que construiu.
Enfim comprara o carro ideal e saía com Francisca para umas folgas na semana buscando familiarizar-se com o veículo e com a forma ideal de atendimento e presteza.
Quando se julgou apto a iniciar o serviço, vinculou-se a uma organização de carros de serviço em aplicativos e decidiu que começaria essa nova lida em horários alternativos nas folgas semanais.
A QUEDA
Assim fez e tudo parecia maravilhoso, já não havia mais mal humor ou cansaço. As coisas pareciam se encaixar e o entrar de serviços e solicitações de atendimento cada vez mais pareciam mostrar uma nova e promissora carreira. Afinal seu velho pai, saíra do interior pobre e cheio de problemas e voltara carregado de bens, pudera até comprar um caminhão que mudara não só sua vida, como a vida de seus filhos e da mulher, dando-lhes uma nova e grande casa.
Assim se passaram vários meses até que o cansaço o chamasse para uma decisão de vida, tendo que optar por uma das profissões e dispondo-se a abandonar a outra, uma encruzilhada de escolha marcada, tendo-a já efetuado em seu coração, faltando-lhe apenas a coragem de decidir em definitivo que vida queria levar.
Ainda contra a nova vida, Chica enciumada procurava dissuadi-lo, mas não encontrava argumentos sólidos já que tão somente via barreiras de não ter mais ao seu lado no dia a dia da labuta a presença do homem que a conquistara.
Carro novo, aquele cheirinho peculiar próprio, as novidades da nova vida, as conversas com os passageiros sempre educados, cheirosos e bem vestidos, tudo fazia crer haver descoberto uma nova vida.
Cariri então procurou seu patrão, aquele mesmo que o admitira no passado ao ver tamanha desenvoltura e expos aquilo que agora almejava.
“Seu” Haroldo ouviu o jovem, ponderou os perigos da profissão e as implicações que iriam advir, porém também não conseguiu alcançar as razões daquele quem ele sempre apostara para um atendimento perfeito, preocupava mais que tudo a necessidade de ter que procurar outra pessoa para aquela função.
O Restaurante não tinha ninguém em preparo como havia acontecido com o menino Cariri, aquilo havia sido um achado que se encaixara no tempo e nas necessidades da época.
Agora eram outros tempos e teriam que procurar alguém já experiente e engajado na função, o que com certeza traria mudança de paladares e hábitos já enraizados nos clientes que gostavam e confiavam naquele jovem.
Resolvera então pedir demissão do emprego de Sushiman para dedicar-se exclusivamente ao que considerava sua definitiva existência. A mulher, os amigos de labuta, a turma do futebol, quase todos procuraram fazê-lo desistir da ideia, porém a falta de argumento da galera impressionantemente o empurrava cada vez mais para a nova vida.
Servia com o automóvel a uma classe mais abastada e de poder aquisitivo altamente qualificada. Conversando com outros proprietários de menor porte começou a descobrir a dura vida e as ilusões de outros motoristas.
Depois…
Combustível caro. Manutenção. Multas.
Cansaço.
O dinheiro sumia. O sonho também.
TARDE DEMAIS
Arrependido, começou a conversar com a esposa sobre a volta as funções no restaurante. Ela já não gozava tanto da fama angariada junto aos clientes e patrões. Os tempos haviam mudado e como diz o ditado: “longa vida ao Rei” – aquele que se retira, permite espaço ao novo monarca – rei morto, rei posto.
Cariri havia abandonado não só os patrões e clientes, havia abandonado principalmente os amigos achando que estava em um plano superior ou melhor, em outro patamar.
Descobriu que ganhar dinheiro com transporte de pessoas era uma enganação, alto consumo de combustível, os problemas de manutenção caras que levavam todo o esforço em conseguir passageiros.
Quando tudo parecia bem, uma peça nova para o carro ou uma arranhada, uma multa, tudo era motivo para levar a féria do mês inteiro.
Tentou então conversar com o Senhor Haroldo e descobriu que viria a atingir inclusive sua mulher em funções que eles poderiam efetuar mudanças criando uma nova empatia das Madames com novos rostos e nova amizade.
Agora eram dois desempregados e as marcas criadas provocaram uma decepção que se não era admitida também não produzia o efeito necessário ao perdão.
Mal dizia o momento que havia seguido os conselhos do amigo que agora compreendia estar em uma situação menor do que a que ele possuía, não tendo nenhuma condição de lhe oferecer conselhos e a tomar diretrizes.
Como diria minha santa mãezinha: - “ se conselho fosse bom, vendia-se a peso de ouro”
Estava agora ali ao meu lado desabafando com o coração apertado e sem esperanças de voltar a vida que perdera.
Tentava juntar os cacos e descobrir onde começara a errar. Um recomeço descomunal.
Entendia que a amizade nem sempre te faz aceitar conselhos e condutas. O que pode ser bom para uns nem sempre será bom para todos. Sabia das boas intenções do que parecia estar tão distante.
Aprendera os efeitos de uma forma muito dura e cruel e que de boa intenção o inferno está cheio, repleto ao extremo.
Agora, choroso vendo que havia jogado no lixo as oportunidades de uma vida melhor, que conquistara e perdera, que por ilusão, acreditara nas palavras de um amigo tão ou mais inexperiente que ele mesmo, deixara escapar a chance de sua vida, desabafava agora com um estranho as suas agruras.
O QUE SOBRA
Sentado, derrotado, me contara tudo. Sem desculpas. Sem orgulho. Só verdade.
Disse, olhando para as próprias mãos:
— Eu achei que estava subindo…
— Mas estava era me perdendo.
Depois completou:
— A gente não perde a vida de uma vez…
— Perde aos poucos… achando que está ganhando. Porque algumas estórias, não pedem resposta.
A vida raramente destrói um destino de uma vez, ela o desmonta aos poucos, sempre disfarçada de oportunidade.
O RETORNO
Alguns meses depois daquele desabafo, voltei a encontrar Cariri.
Foi por acaso, eu caminhava pela calçada de Ipanema numa tarde abafada quando reconheci aquele rosto. Estava diferente. Mais magro. Mais silencioso.
O carro já não era o mesmo sedan preto que ele tanto admirava. Agora dirigia um veículo alugado, desses que passam de mão em mão entre motoristas tentando sobreviver. Ele me viu primeiro.
Sorriu daquele jeito tímido que só quem já perdeu muito ainda consegue oferecer ao mundo.
— Doutor… lembra de mim?
Claro que lembrava.
Entramos no carro e começamos a conversar.
Cariri contou que havia vendido o carro para pagar dívidas. Depois vieram outras contas, outros problemas, e a vida foi se apertando como um nó que ninguém consegue desatar.
China continuava ao lado dele.
Trabalhava agora em uma lavanderia industrial em Botafogo. Horário pesado. Salário pequeno. Mesmo assim nunca reclamava. — Ela é melhor do que eu mereço — disse ele.
Ficamos alguns minutos em silêncio.
O trânsito avançava devagar, enquanto turistas caminhavam pela orla sem imaginar quantas histórias passavam ao lado deles dentro daqueles carros.
De repente Cariri virou o volante e entrou em uma rua lateral.
Parou em frente a um prédio. Eu reconheci imediatamente. Era o antigo restaurante.
O Arlecchino. A fachada estava reformada, com um letreiro novo e luzes modernas, mas ainda era o mesmo lugar. Cariri ficou olhando. Não desligou o motor.
— Sabe… — disse ele — eu passei aqui várias vezes… mas nunca tive coragem de parar.
Fiquei esperando. Ele respirou fundo. — Aqui dentro… eu tinha tudo.
Trabalho. Amigos. Respeito.
Ele apontou para a porta. — Ali era onde a China ficava limpando as mesas.
Depois apontou para o segundo andar. — E ali… era onde eu ficava cortando peixe.
A voz falhou. — Eu achei que estava crescendo.
Fez uma pausa longa.
— Mas na verdade eu estava abandonando a única coisa que tinha dado certo na minha vida.
Uma rajada de vento veio do mar e trouxe aquele cheiro salgado que invade as ruas de Ipanema no fim da tarde.
Cariri limpou os olhos discretamente. Não queria que ninguém visse. Nem mesmo eu.
Então colocou o carro em movimento e seguimos pela rua em silêncio.
Antes de virar a esquina ele disse uma última coisa:
— Sabe o que é pior?
Perguntei o quê.
Ele respondeu olhando para frente, firme no volante.
— O pior não é perder.
O pior é perceber… que foi a gente mesmo que jogou tudo fora.
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