Em 2017, em uma noite chuvosa, eu desci do ônibus voltando do trabalho sem imaginar que minha vida estava prestes a mudar. Entrei em casa correndo por causa da chuva, e foi então que meu marido perguntou:
“Você viu que tinha alguém atrás de você?”
Eu não tinha visto.
Quando olhei para fora, ela estava lá. Uma cachorrinha adulta, parada no portão. Magra demais, praticamente só pele, osso e carrapato. Andava tortinha, como se já tivesse sofrido muito na vida. Talvez tivesse sido atropelada. Talvez espancada. Talvez apenas abandonada depois de anos sendo esquecida pelo mundo.
Mas, mesmo daquele jeito, ela tinha um olhar impossível de ignorar.
Nós não conseguimos acolhê-la imediatamente. Morávamos de aluguel e já tínhamos a Flora e o Lobo. Então a Canela passou a ficar na rua, atravessando para a frente de uma igreja próxima porque ali pelo menos havia cobertura contra a chuva.
Todos os dias, eu e meu marido levávamos comida para ela. Ela estava tão fraca que os outros cães roubavam sua comida, então precisávamos ficar perto para garantir que ela conseguisse comer. Quando eu não podia ir, meu marido ia sozinho. Aos poucos, ela passou a esperar pela gente.
E nós passamos a esperar por ela também.
Até que chegou uma noite de chuva muito forte. Daquelas noites em que o coração aperta porque você sabe que alguém que ama está lá fora, sozinho. Eu estava angustiada pensando nela na rua, molhada, vulnerável… e então meu marido olhou para mim e disse:
“Amor, vai lá e coloca ela pra dentro.”
E foi isso que eu fiz.
Naquela noite, sem perceber, nós não apenas resgatamos a Canela. Ela também resgatou uma parte de nós.
A partir dali, ela nunca mais saiu das nossas vidas. E eu nunca mais desgrudei dela. A Canela virou minha sombra, minha companhia, meu conforto silencioso nos dias difíceis. Ela tinha uma presença impossível de explicar. Era daquelas almas que chegam machucadas, mas ainda assim...
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Em 2017, em uma noite chuvosa, eu desci do ônibus voltando do trabalho sem imaginar que minha vida estava prestes a mudar. Entrei em casa correndo por causa da chuva, e foi então que meu marido perguntou:
“Você viu que tinha alguém atrás de você?”
Eu não tinha visto.
Quando olhei para fora, ela estava lá. Uma cachorrinha adulta, parada no portão. Magra demais, praticamente só pele, osso e carrapato. Andava tortinha, como se já tivesse sofrido muito na vida. Talvez tivesse sido atropelada. Talvez espancada. Talvez apenas abandonada depois de anos sendo esquecida pelo mundo.
Mas, mesmo daquele jeito, ela tinha um olhar impossível de ignorar.
Nós não conseguimos acolhê-la imediatamente. Morávamos de aluguel e já tínhamos a Flora e o Lobo. Então a Canela passou a ficar na rua, atravessando para a frente de uma igreja próxima porque ali pelo menos havia cobertura contra a chuva.
Todos os dias, eu e meu marido levávamos comida para ela. Ela estava tão fraca que os outros cães roubavam sua comida, então precisávamos ficar perto para garantir que ela conseguisse comer. Quando eu não podia ir, meu marido ia sozinho. Aos poucos, ela passou a esperar pela gente.
E nós passamos a esperar por ela também.
Até que chegou uma noite de chuva muito forte. Daquelas noites em que o coração aperta porque você sabe que alguém que ama está lá fora, sozinho. Eu estava angustiada pensando nela na rua, molhada, vulnerável… e então meu marido olhou para mim e disse:
“Amor, vai lá e coloca ela pra dentro.”
E foi isso que eu fiz.
Naquela noite, sem perceber, nós não apenas resgatamos a Canela. Ela também resgatou uma parte de nós.
A partir dali, ela nunca mais saiu das nossas vidas. E eu nunca mais desgrudei dela. A Canela virou minha sombra, minha companhia, meu conforto silencioso nos dias difíceis. Ela tinha uma presença impossível de explicar. Era daquelas almas que chegam machucadas, mas ainda assim escolhem amar.
Durante o câncer do meu filho, ela foi meu porto seguro. Minha melhor amiga. Enquanto o mundo parecia desabar ao nosso redor, ela permanecia ali, ao meu lado, como se soubesse exatamente o tamanho da dor que eu carregava. Nos dias em que eu achava que não conseguiria suportar, ela simplesmente ficava perto. E, de alguma forma, isso tornava tudo um pouco menos impossível.
Por 9 anos, ela esteve comigo em absolutamente tudo.
A Canela não foi “só uma cachorra”. Ela foi família. Foi amor verdadeiro na forma mais pura e silenciosa que existe. Foi casa. Foi rotina. Foi colo sem palavras.
E quando ela partiu, levou junto uma parte enorme da minha vida.
Ainda hoje, às vezes me pego chamando por ela. Às vezes parece que vou encontrá-la deitada em algum canto da casa, esperando por mim como sempre fez. Porque existem presenças que permanecem mesmo depois da despedida.
A Canela apareceu atrás de mim em uma noite chuvosa de 2017, quando eu nem sabia que precisava ser encontrada também.
E desde então, nunca mais fui a mesma.
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