Café com pão, manteiga não Algumas lembranças da infância não desaparecem com o tempo. Elas ficam guardadas em algum lugar dentro da gente, quietas, esperando o momento de voltar. Às vezes voltam com um cheiro. Às vezes com um som. A minha voltou com o barulho de um trem. Era o tempo das grandes migrações dentro do Brasil. Famílias inteiras deixavam o Norte, o Nordeste e também Minas Gerais para seguir rumo ao Sul. Diziam que no Paraná havia trabalho nas fazendas, que a terra era generosa e que quem tivesse coragem de recomeçar poderia construir uma nova vida. Era o tempo do Êxodo Rural no Brasil, quando muita gente atravessava o país levando mais esperança do que bagagem. Eu era apenas uma criança pequena quando minha família embarcou nessa travessia. Dentro daquele vagão viajavam meus avós, João e Leivina, trazendo nos olhos a coragem de quem deixa para trás uma vida inteira. Viajavam também meus tios — um pequeno grupo de meninos e uma menina já crescidos o bastante para correr pelo vagão, rir alto e transformar qualquer barulho em brincadeira: Valdecir, Luzia, Alberto e Jovelino. Estavam naquela idade em que a infância começa a se despedir devagar. E viajávamos nós, as filhas de Maria Generosa, ainda muito pequenas, quase um punhado de meninas carregadas entre malas, colo e esperança: Edileuza, Ednalva, eu, Edina, Elma e a pequena Ednéia. De um lado do vagão estavam os que já corriam pelos corredores do trem. Do outro, as que ainda precisavam ser puxadas pela mão ou acomodadas no colo. Hoje eu entendo que aquele trem não levava apenas uma família. Levava medo, coragem e a vontade silenciosa de recomeçar. No meio do barulho das rodas nos trilhos, meus tios faziam música. Cantavam imitando o ritmo do trem: "Café com pão… manteiga não… café com pão… manteiga não…" Eles riam, repetiam, batiam os pés no assoalho do vagão. Para eles era só brincadeira. Mas a vida, com o passar dos anos, mostrou que aquela...
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Café com pão, manteiga não Algumas lembranças da infância não desaparecem com o tempo. Elas ficam guardadas em algum lugar dentro da gente, quietas, esperando o momento de voltar. Às vezes voltam com um cheiro. Às vezes com um som. A minha voltou com o barulho de um trem. Era o tempo das grandes migrações dentro do Brasil. Famílias inteiras deixavam o Norte, o Nordeste e também Minas Gerais para seguir rumo ao Sul. Diziam que no Paraná havia trabalho nas fazendas, que a terra era generosa e que quem tivesse coragem de recomeçar poderia construir uma nova vida. Era o tempo do Êxodo Rural no Brasil, quando muita gente atravessava o país levando mais esperança do que bagagem. Eu era apenas uma criança pequena quando minha família embarcou nessa travessia. Dentro daquele vagão viajavam meus avós, João e Leivina, trazendo nos olhos a coragem de quem deixa para trás uma vida inteira. Viajavam também meus tios — um pequeno grupo de meninos e uma menina já crescidos o bastante para correr pelo vagão, rir alto e transformar qualquer barulho em brincadeira: Valdecir, Luzia, Alberto e Jovelino. Estavam naquela idade em que a infância começa a se despedir devagar. E viajávamos nós, as filhas de Maria Generosa, ainda muito pequenas, quase um punhado de meninas carregadas entre malas, colo e esperança: Edileuza, Ednalva, eu, Edina, Elma e a pequena Ednéia. De um lado do vagão estavam os que já corriam pelos corredores do trem. Do outro, as que ainda precisavam ser puxadas pela mão ou acomodadas no colo. Hoje eu entendo que aquele trem não levava apenas uma família. Levava medo, coragem e a vontade silenciosa de recomeçar. No meio do barulho das rodas nos trilhos, meus tios faziam música. Cantavam imitando o ritmo do trem: "Café com pão… manteiga não… café com pão… manteiga não…" Eles riam, repetiam, batiam os pés no assoalho do vagão. Para eles era só brincadeira. Mas a vida, com o passar dos anos, mostrou que aquela cantiga parecia dizer mais do que imaginávamos. Porque, olhando para trás, vejo que minha história foi exatamente assim: Foi café e pão. E a manteiga… até hoje eu corro atrás dela. E foi naquele trem que tudo começou.
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