CÃES QUÂNTICOS
Tive muitos cães ao longo da vida. Alguns me acompanharam na infância, outros na adolescência e outros ainda na maturidade. Tive um Dachshund, o famoso salsichinha; um Boxer; alguns vira-latas; um pequinês e, por último, um pequeno Yorkshire Terrier.
Mais do que simples companheiros, esses animais sempre me despertaram curiosidade. Observei neles inteligência, memória, afeto, capacidade de compreender gestos e palavras e, sobretudo, uma espécie de percepção do mundo que muitas vezes parece ultrapassar aquilo que conseguimos compreender.
Entre tantas observações, uma delas sempre me intrigou: a aparente capacidade de alguns cães de perceber acontecimentos antes que eles acontecessem — ou, pelo menos, antes que nós soubéssemos que iriam acontecer.
Talvez exista uma explicação perfeitamente natural para isso. A neurociência e a etologia mostram que os cães possuem sentidos extraordinariamente desenvolvidos, principalmente o olfato e a audição, além de uma enorme capacidade de reconhecer padrões, rotinas e pequenas mudanças no comportamento humano. Talvez percebam sinais que simplesmente passam despercebidos por nós.
Mas há experiências que, quando vividas, permanecem como perguntas.
Na década de 1990, eu morava em uma chácara. Uma de minhas cadelas, uma Boxer muito amorosa, tinha o hábito de todas as manhãs ir até meu quarto, como se viesse me desejar um “bom dia”.
Minha esposa costumava viajar aos fins de semana para Brasília, onde nosso filho estudava. Ficava normalmente o sábado e o domingo e retornava apenas na terça-feira. Minha cadela já conhecia perfeitamente aquela rotina. Na terça-feira, pouco antes da chegada de minha esposa, começava a demonstrar uma agitação diferente: parecia saber que sua tutora estava voltando.
Certa vez, porém, algo inesperado aconteceu.
Minha esposa decidiu antecipar a viagem e retornar na segunda-feira. Eu não sabia de sua decisão.
Naquela...
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CÃES QUÂNTICOS
Tive muitos cães ao longo da vida. Alguns me acompanharam na infância, outros na adolescência e outros ainda na maturidade. Tive um Dachshund, o famoso salsichinha; um Boxer; alguns vira-latas; um pequinês e, por último, um pequeno Yorkshire Terrier.
Mais do que simples companheiros, esses animais sempre me despertaram curiosidade. Observei neles inteligência, memória, afeto, capacidade de compreender gestos e palavras e, sobretudo, uma espécie de percepção do mundo que muitas vezes parece ultrapassar aquilo que conseguimos compreender.
Entre tantas observações, uma delas sempre me intrigou: a aparente capacidade de alguns cães de perceber acontecimentos antes que eles acontecessem — ou, pelo menos, antes que nós soubéssemos que iriam acontecer.
Talvez exista uma explicação perfeitamente natural para isso. A neurociência e a etologia mostram que os cães possuem sentidos extraordinariamente desenvolvidos, principalmente o olfato e a audição, além de uma enorme capacidade de reconhecer padrões, rotinas e pequenas mudanças no comportamento humano. Talvez percebam sinais que simplesmente passam despercebidos por nós.
Mas há experiências que, quando vividas, permanecem como perguntas.
Na década de 1990, eu morava em uma chácara. Uma de minhas cadelas, uma Boxer muito amorosa, tinha o hábito de todas as manhãs ir até meu quarto, como se viesse me desejar um “bom dia”.
Minha esposa costumava viajar aos fins de semana para Brasília, onde nosso filho estudava. Ficava normalmente o sábado e o domingo e retornava apenas na terça-feira. Minha cadela já conhecia perfeitamente aquela rotina. Na terça-feira, pouco antes da chegada de minha esposa, começava a demonstrar uma agitação diferente: parecia saber que sua tutora estava voltando.
Certa vez, porém, algo inesperado aconteceu.
Minha esposa decidiu antecipar a viagem e retornar na segunda-feira. Eu não sabia de sua decisão.
Naquela segunda-feira, sem que nada tivesse sido combinado comigo, minha cadela começou a apresentar exatamente as mesmas manifestações que costumava apresentar às vésperas da chegada de minha esposa.
Olhei para ela, intrigado.
Como poderia saber?
Pensei no olfato. Seria possível que tivesse percebido algum cheiro? Mas minha esposa ainda estava a quilômetros de distância. Pensei na audição, mas também parecia improvável que pudesse ouvir um veículo que ainda estava tão longe.
Cerca de vinte minutos depois, minha esposa chegou.
A coincidência ficou gravada em minha memória.
Anos mais tarde, algo semelhante aconteceu com meu último cãozinho, um Yorkshire Terrier que recentemente me deixou. Pesava pouco mais de dois quilos e possuía, naquela pequena cabeça que cabia na palma da minha mão, uma inteligência que muitas vezes me surpreendia.
Também ele parecia antecipar a chegada de minha esposa. Alguns minutos antes de ela aparecer, seu comportamento mudava. Era como se alguma coisa invisível lhe dissesse: ela está chegando.
Não sei se estava realmente “prevendo” alguma coisa. Talvez estivesse apenas captando sinais que eu não conseguia perceber. Um ruído distante, uma alteração no ambiente, algum odor transportado pelo vento, uma mudança na rotina, ou até mesmo alguma pista sutil que meu cérebro simplesmente ignorava.
É possível que a resposta esteja inteiramente dentro daquilo que a ciência já conhece.
Mas existe uma diferença entre conhecer uma explicação possível e compreender completamente um fenômeno.
E foi justamente essa diferença que me fez pensar.
Nós, seres vivos, somos sistemas extraordinariamente complexos. Nosso organismo produz atividade elétrica, campos eletromagnéticos, calor, sons, substâncias químicas e uma infinidade de sinais que continuamente trocamos com o ambiente. O cérebro, particularmente, funciona por meio de fenômenos elétricos e químicos.
Isso significa que somos, de certa maneira, emissores e receptores de sinais.
Mas daí a afirmar que cães conseguem perceber diretamente os campos eletromagnéticos produzidos por nosso cérebro, ou que existe entre seres vivos uma espécie de comunicação eletromagnética à distância, há um enorme caminho a percorrer. Não conheço evidência científica suficiente para afirmar isso.
Ainda assim, a pergunta permanece.
Talvez o que chamamos de “intuição” seja apenas a percepção de uma quantidade imensa de informações que nosso cérebro consciente não consegue processar. Talvez os cães, dotados de sentidos muito mais refinados que os nossos, habitem um mundo sensorial muito maior do que aquele que conseguimos imaginar.
Ou talvez ainda exista alguma coisa que não compreendemos.
Não quero transformar uma experiência pessoal em teoria científica. Quero apenas preservá-la como aquilo que realmente é: uma pergunta.
E talvez seja justamente aí que esteja o encanto.
A ciência começa muitas vezes quando alguém olha para um acontecimento aparentemente banal e pergunta:
Como isso é possível?
Por isso chamo esta pequena reflexão de Cães Quânticos. Não porque eu tenha encontrado uma explicação quântica para o comportamento dos meus cães, mas porque gosto da ideia de que, diante de certos mistérios da natureza, ainda somos obrigados a admitir que nossa compreensão é incompleta.
No fundo, talvez nossos cães conheçam um pouco mais do universo do que imaginamos.
E nós apenas ainda não aprendemos a perguntar do jeito certo.
Como diria a velha expressão atribuída a Dom Quixote:
“Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.”
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