CACOS DE VIDRO NA MADRUGADA
As lembranças da gestação eram a única coisa que martelava na minha cabeça naquela madrugada chuvosa, mas o barulho lá dentro era ensurdecedor.
Olhei para o relógio: duas da manhã. Meu filho autista não parava de entrar e sair do quarto; ia até a cozinha, abria e fechava a geladeira à procura de algo. Foi quando ouvi o estrondo de cacos no chão: era mais uma xícara que ele arremessava, fruto da crise que o vencia naquele momento.
Lá fora, a chuva começou a bater forte, no mesmo ritmo em que meu coração acelerava na angústia de ver meu filho nesse elo perdido que se rompia entre o mundo dele e o meu. Levantei num sobressalto; as lágrimas escorriam silenciosas e absurdamente indefesas ante a fragilidade que eu sentia.
Naquele instante, o peso do mundo pareceu se concentrar todo nos meus ombros, e a pergunta que eu evitava desde o seu nascimento finalmente me alcançou no escuro: O que é ser mãe neurodivergente?
É quando a sociedade e a família falham em ser suporte e a mãe atípica adoece no silêncio. O isolamento vira um cárcere, e a exaustão vira risco. Precisamos entender, de uma vez por todas, que cuidar de quem cuida é um ato de justiça e humanidade.
Nenhuma mãe deveria ter que ser forte o tempo todo; ninguém sobrevive apenas de resiliência quando o que falta, na verdade, é acolhimento.
Que o elo não se quebre pela nossa indiferença. Porque, no fim, a rede de apoio é o que impede que o amor vire dor e que a vida seja ceifada pelo peso de uma missão que ninguém deveria carregar sozinha.
Nós, mães atípicas, sentimos como se a chuva lá fora fosse o reflexo das nossas lágrimas de exaustão: às vezes é uma garoa fina, outras, uma tempestade com ventania. Sob o toque desses pingos fortes ou na calmaria, muitas vezes nos perdemos em correntes submersas, vendo que, nesse oceano de lágrimas, não há margem para voltar — apenas o agora, profundo e infinito.
Um...
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CACOS DE VIDRO NA MADRUGADA
As lembranças da gestação eram a única coisa que martelava na minha cabeça naquela madrugada chuvosa, mas o barulho lá dentro era ensurdecedor.
Olhei para o relógio: duas da manhã. Meu filho autista não parava de entrar e sair do quarto; ia até a cozinha, abria e fechava a geladeira à procura de algo. Foi quando ouvi o estrondo de cacos no chão: era mais uma xícara que ele arremessava, fruto da crise que o vencia naquele momento.
Lá fora, a chuva começou a bater forte, no mesmo ritmo em que meu coração acelerava na angústia de ver meu filho nesse elo perdido que se rompia entre o mundo dele e o meu. Levantei num sobressalto; as lágrimas escorriam silenciosas e absurdamente indefesas ante a fragilidade que eu sentia.
Naquele instante, o peso do mundo pareceu se concentrar todo nos meus ombros, e a pergunta que eu evitava desde o seu nascimento finalmente me alcançou no escuro: O que é ser mãe neurodivergente?
É quando a sociedade e a família falham em ser suporte e a mãe atípica adoece no silêncio. O isolamento vira um cárcere, e a exaustão vira risco. Precisamos entender, de uma vez por todas, que cuidar de quem cuida é um ato de justiça e humanidade.
Nenhuma mãe deveria ter que ser forte o tempo todo; ninguém sobrevive apenas de resiliência quando o que falta, na verdade, é acolhimento.
Que o elo não se quebre pela nossa indiferença. Porque, no fim, a rede de apoio é o que impede que o amor vire dor e que a vida seja ceifada pelo peso de uma missão que ninguém deveria carregar sozinha.
Nós, mães atípicas, sentimos como se a chuva lá fora fosse o reflexo das nossas lágrimas de exaustão: às vezes é uma garoa fina, outras, uma tempestade com ventania. Sob o toque desses pingos fortes ou na calmaria, muitas vezes nos perdemos em correntes submersas, vendo que, nesse oceano de lágrimas, não há margem para voltar — apenas o agora, profundo e infinito.
Um mergulho intenso em um mundo dito "azul" que, de azul, só tem os símbolos. Na realidade da mãe atípica, existem todas as nuances de cores: ora tão nítidas, ora tão borradas e disformes. É uma realidade escura, um quebra-cabeça onde as peças nunca se encaixam ou um labirinto onde caminhamos em círculos sem achar a saída.
Se alguém achar o encaixe exato das peças ou a saída, diga-nos...
E, nesse ínterim, o que me resta nesta madrugada é juntar os cacos de vidro pelo chão.
Lu Lena / 2026
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