Identificação
Eu sou Ruth de Souza, sou atriz há mais de 50 anos, tenho feito muito cinema, teatro, televisão. Fui umas das primeiras atrizes negras a fazer teatro, televisão e cinema no Brasil, eu sou pioneira, e acho que é só isso. Estou aqui trabalhando, fazendo filmes, fazendo novelas com todo mundo. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro há muito tempo, eu já passei dos 30, então já tem bastante tempo que estou no Rio de Janeiro.
Marquês de Abrantes
Muito tempo eu morei aqui na Marquês de Abrantes, onde está este SESC. SESC, né? Essa casa era de uma família chiquérrima que morava aqui. Quando menina, eles davam festas maravilhosas e eu ficava lá de fora, na calçada, no sereno, vendo a festa aqui nessa linda casa.
Gaio Marti
Agora eu estava vendo também algumas peças que estavam dentro da vitrine, peças do Rio antigo e eu lembro que quando nós morávamos em Copacabana tinha um armazém, de Secos e Molhados, que vendia de tudo, desde aqueles sacos de feijão e farinha, que ficavam na porta da loja. Era o Gaio Marti . Esse Gaio Marti tinha em todos os bairros do Rio, na Tijuca, em vários lugares tinha esse Gaio Marti. Eu estava vendo ali as peças e estava me lembrando disso e me deu saudades.
Bon Marché
Nessa época de infância que tinha o Gaio Marti, tinha também o Bon Marché, que eu acho que ainda existe, não sei. Agora não lembro de outros. Tinha aquele jeito do Rio de Janeiro, que você ia, comprava por mês, tinha um caderno, então fazia compra e anotava todas as compras do mês. As pessoas pagavam no fim do mês.
Quitanda
Tinha uma senhora que vendia frutas em uma quitanda, e um dia fomos comprar, minha mãe foi comprar mamão e ela disse assim: "Não leva esse mamão não, porque não está bom." A minha mãe disse: "Ué, mas a senhora diz que o mamão não está bom, então a senhora não vai vender." "Não, se eu vender um mamão ruim, você não vem mais fazer compras na minha casa." A elegância que havia das...
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Identificação
Eu sou Ruth de Souza, sou atriz há mais de 50 anos, tenho feito muito cinema, teatro, televisão. Fui umas das primeiras atrizes negras a fazer teatro, televisão e cinema no Brasil, eu sou pioneira, e acho que é só isso. Estou aqui trabalhando, fazendo filmes, fazendo novelas com todo mundo. Eu nasci aqui no Rio de Janeiro há muito tempo, eu já passei dos 30, então já tem bastante tempo que estou no Rio de Janeiro.
Marquês de Abrantes
Muito tempo eu morei aqui na Marquês de Abrantes, onde está este SESC. SESC, né? Essa casa era de uma família chiquérrima que morava aqui. Quando menina, eles davam festas maravilhosas e eu ficava lá de fora, na calçada, no sereno, vendo a festa aqui nessa linda casa.
Gaio Marti
Agora eu estava vendo também algumas peças que estavam dentro da vitrine, peças do Rio antigo e eu lembro que quando nós morávamos em Copacabana tinha um armazém, de Secos e Molhados, que vendia de tudo, desde aqueles sacos de feijão e farinha, que ficavam na porta da loja. Era o Gaio Marti . Esse Gaio Marti tinha em todos os bairros do Rio, na Tijuca, em vários lugares tinha esse Gaio Marti. Eu estava vendo ali as peças e estava me lembrando disso e me deu saudades.
Bon Marché
Nessa época de infância que tinha o Gaio Marti, tinha também o Bon Marché, que eu acho que ainda existe, não sei. Agora não lembro de outros. Tinha aquele jeito do Rio de Janeiro, que você ia, comprava por mês, tinha um caderno, então fazia compra e anotava todas as compras do mês. As pessoas pagavam no fim do mês.
Quitanda
Tinha uma senhora que vendia frutas em uma quitanda, e um dia fomos comprar, minha mãe foi comprar mamão e ela disse assim: "Não leva esse mamão não, porque não está bom." A minha mãe disse: "Ué, mas a senhora diz que o mamão não está bom, então a senhora não vai vender." "Não, se eu vender um mamão ruim, você não vem mais fazer compras na minha casa." A elegância que havia das pessoas, entendeu? Não vou vender uma coisa que não está boa, porque se não você não vem comprar outra vez. Era elegante, as pessoas eram elegantes, não eram tão gananciosas.
Costumes antigos
O Rio era uma das cidades mais bonitas do Brasil, a gentileza, a generosidade das pessoas. Chegava uma pessoa que não conhecia, por exemplo, a rua Marquês de Abrantes, perguntava: "Onde é a rua Marques de Abrantes número x?" A pessoa era levada até o local, e você confiava. Isso é um negócio que me dá muita saudade, muita saudade mesmo do meu Rio antigo.
Juventude
Eu viajei muito, meu trabalho me mandou para vário lugares, conheço muitas partes do Brasil e estudei nos Estados Unidos, passei lá um ano estudando teatro, então eu tenho uma vivência de vários lugares. Eu iria ficar aqui a tarde inteira contando, tem muita história para contar.
Transformações
Eu acho as pessoas hoje muito mal educadas, acho as pessoas muito grosseiras nas vendas, nas ruas, no atendimento. Coisa mais desagradável a gente entrar num supermercado e não tem ninguém para informar. Tem um material que a gente quer comprar, quer saber qual a melhor marca, não sei o que, e não encontra ninguém, a gente fica sozinho. É muito frio, muito mecânico, agora é muito comércio. Assim, comércio no sentido dinheiro, toma lá dá cá.. Não tem a gentileza do vendedor para o comprador, essas coisas que existiam e que eu sinto falta realmente.
Projeto Memória
Sobre esse projeto, eu acho que todo o projeto é interessante, sempre a gente tem que conhecer, ver o trabalho de cada um, o que está fazendo, cada um procurar fazer o melhor dentro do tema do seu projeto, eu acho que é isso que tem que ser, todos nós temos que trabalhar fazendo alguma coisa boa, alguma coisa positiva e produtiva nesse nosso pais. Parar um pouco com a ganância, isso me incomoda profundamente. Ninguém mais é amigo de ninguém. Vamos supor, você é meu amigo, se tiver algum interesse. Essa coisa me revolta, essa coisa me deixa muito doente, não gosto, não gosto mesmo. Precisa mais amor. Eu acho.
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