Identificação
Meu nome é Acácio Tavares Ferreira Martins Júnior, eu nasci no dia 22 de abril de 1967, na Policlínica de Botafogo aqui no Rio de Janeiro, quando ainda era o estado da Guanabara. Os mais antigos se lembram disso.
Infância
Na minha infância, morei no Flamengo quatro anos, ali no Catete, na Rua Ferreira Dutra. Eu me lembro que eu freqüentava o Aterro, ia na Galeria Condo, depois mudei para o Jardim Botânico. Fiquei lá uma parte da minha infância até a adolescência e depois com uns 13 anos fui morar no Leblon, até os meus 32, 34 anos, quando eu mudei para cá. Então, faz dois anos que eu voltei para o meu bairro de origem. onde eu vivi o início da minha infância.
Cidade
Quando eu nasci já havia uma descentralização da cidade. Até aquela época o centro era a razão de tudo. Os bairros já tinham seus cinemas, ainda não existiam os shopping centers, só algumas galerias, como a Galeria Condor, lá no Largo do Machado. E outras em Ipanema. Estavam começando os prédios grandes.
Leblon
O Leblon também foi se modificando, mas ali ainda seguraram o gabarito dos edifícios. Então não mudou tanto. Se comparar o Leblon de 15 ou 20 anos atrás com o de agora, abriram apenas alguns restaurantes, mas continua aquela estrutura parecida com um bairro mais residencial.
Barra
Eu lembro que eu ia com o meu pai na praia da Barra em 71,72, quando eu ainda era criança, tinha uns 8 anos. A Sernambitiba era um vazio, tinha dois clubes, o Caça e Pesca e o Riviera e mais nada, a não ser meia dúzia de prédios muito pequenos. Só tinha aquele larguinho da Barra, ali na avenida dos Motéis. Hoje a Barra é um bairro . O Recreio dos Bandeirantes era um lugar que tinha meia dúzia de pescadores e um hotel lá que era o Monte Pio do Brasil. Era isolado. Você ia ao Recreio do Bandeirantes, a Sepetiba era um sufoco, só se ia de carro.
Flamengo
O Flamengo ficou um bairro com uma população mais idosa. É perto de...
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Identificação
Meu nome é Acácio Tavares Ferreira Martins Júnior, eu nasci no dia 22 de abril de 1967, na Policlínica de Botafogo aqui no Rio de Janeiro, quando ainda era o estado da Guanabara. Os mais antigos se lembram disso.
Infância
Na minha infância, morei no Flamengo quatro anos, ali no Catete, na Rua Ferreira Dutra. Eu me lembro que eu freqüentava o Aterro, ia na Galeria Condo, depois mudei para o Jardim Botânico. Fiquei lá uma parte da minha infância até a adolescência e depois com uns 13 anos fui morar no Leblon, até os meus 32, 34 anos, quando eu mudei para cá. Então, faz dois anos que eu voltei para o meu bairro de origem. onde eu vivi o início da minha infância.
Cidade
Quando eu nasci já havia uma descentralização da cidade. Até aquela época o centro era a razão de tudo. Os bairros já tinham seus cinemas, ainda não existiam os shopping centers, só algumas galerias, como a Galeria Condor, lá no Largo do Machado. E outras em Ipanema. Estavam começando os prédios grandes.
Leblon
O Leblon também foi se modificando, mas ali ainda seguraram o gabarito dos edifícios. Então não mudou tanto. Se comparar o Leblon de 15 ou 20 anos atrás com o de agora, abriram apenas alguns restaurantes, mas continua aquela estrutura parecida com um bairro mais residencial.
Barra
Eu lembro que eu ia com o meu pai na praia da Barra em 71,72, quando eu ainda era criança, tinha uns 8 anos. A Sernambitiba era um vazio, tinha dois clubes, o Caça e Pesca e o Riviera e mais nada, a não ser meia dúzia de prédios muito pequenos. Só tinha aquele larguinho da Barra, ali na avenida dos Motéis. Hoje a Barra é um bairro . O Recreio dos Bandeirantes era um lugar que tinha meia dúzia de pescadores e um hotel lá que era o Monte Pio do Brasil. Era isolado. Você ia ao Recreio do Bandeirantes, a Sepetiba era um sufoco, só se ia de carro.
Flamengo
O Flamengo ficou um bairro com uma população mais idosa. É perto de tudo, mas não é perto do consumo, que o shopping mais próximo é o Rio Sul, enquanto na Barra tem mil e uma galerias, mini shoppings, shoppings. A vantagem desse bairro é que ninguém fica isolado em condomínio. Todos sabem andar de ônibus, de metrô e de trem . O outro pessoal é meio difícil, porque só sabe andar de carro e dentro do condomínio. Tirou do carro e do condomínio, eles não sabem se locomover ( risos )
Cinemas
O que aconteceu no Rio foi o fechamento de cinemas nos bairros. Ipanema tinha três ou quatro cinemas, hoje não tem nenhum. O último que tinha era o Escala, e fechou. Tem um pequenininho na Galeria Astor, quer dizer, Copacabana, Botafogo tinham cinemas, foram recuperados alguns e o centro da cidade praticamente está fechando todos os cinemas. Ou viram Igreja ou o ponto é vendido para a abertura de um negócio. Então, algumas coisa mudaram, o comércio no Rio de Janeiro mudou muito.
Boates, clubes e carnaval
O Rio antigamente tinha boates. Se a gente pegar o número de discotecas, tirando da zona oeste e da Barra, que ainda tem muito, reduziu ainda mais, tanto as casas mais de música, e bares. Antes tinha muitos bares, muitos tinham música popular. Hoje isso é rarissímo. E também, todos os clubes do Rio de Janeiro tinham baile de carnaval, todos eles. Ia no militar, tinha baile de carnaval. Ia no federal, também tinha. E no Monte Líbano, no Sírio-Libanês. Alguns hotéis também tinham seu baile e sua orquestra de baile, a sua decoração. Hoje o carnaval ficou restrito a desfile de escola de samba e algumas bandas e blocos locais da zona norte e da zona sul. Mudou o perfil de tudo. Ou seja, quando eu tinha 13 , 14 anos, ali no Leblon tinha na praia duas ou três boates, tinha de shows, que hoje se tornaram muito caros. Hoje temos só Canecão, o Escala. Antigamente não era assim não. Cada bairro tinha sua boate, o seu clube social com festas, com baile. Então de 20 anos para cá muita coisa mudou, a cidade se deslocou para o eixo da zona oeste e os recursos do capital se deslocaram para lá também. Surgiram muitas loja lá, muitos imóveis, aquela região criou um caldo de cultura deles próprios.
Moda
Atualmente mudou também o jeito de vestir. Hoje só se usa terno quando o sujeito trabalha em alguma empresa, é executivo ou advogado. Antigamente, o terno era um traje obrigatório. Hoje todo mundo anda de camisa esporte, jeans, um sapatinho, um tênis, que antes só se usava para jogar bola ou para botar um short para ir ao Maracanã ver jogo de futebol. Ou ir à praia. Hoje a pessoa vai num cinema de short, sandália, uma camiseta, tênis, ou seja, a moda foi se transformando. A minha mãe contava que ela ia ao cinema, ao teatro, todos no centro da cidade, e no cine Metro o homem tinha que estar de terno, gravata, sapato social, lenço, até se possível chapéu, que tinha as chapelarias. A mulher tinha que estar de traje social, luvas. Não tinha nem o traje esporte. Se chegasse sem o traje social, não entrava. Alguns teatros e restaurantes também eram assim. Era uma outra cidade. Que vai mudando.
Modelos de comportamento
Primeiro, tínhamos um modelo francês de etiqueta, de alimentação, de comportamento que, foi até o fim da 2ª Guerra Mundial. Depois, de 45 a 60, teve um modelo norte-americano, de hábitos e costumes. Depois tivemos os anos 60 mudando tudo, surgiu a pílula, a mulher passou a trabalhar, a estudar, o traje mudou, o homem não podia mais usar cabelo longo, tinha que cortar o cabelo curtinho, ou reco. Brinco, nem pensar. Nem camisa vermelha, pô. Meu pai conta que ele comprou um blusão vermelho, saiu na rua e a polícia levou, quase fichou, e ele era estrangeiro, coitado. Se fosse fichado ia ser um problema do caramba. Seria um transviado, como chamavam na época, um sujeito delinqüente. Roupa vermelha e calça jeans, não. Os jeans eram coisa de cinema americano, do James Dean, topete. Topete então...É engraçado que esses modelos que vieram para cá depois dos anos 50, não estouraram na classe média, mas na periferia, Meier, Madureira, Bangú, Campo Grande, na zona portuária. O pessoal da classe média cultivava alguma música americana , o jazz e a bossa nova e se vestia mais nos moldes tradicionais daquela época.
Grandes lojas
Antigamente tinha uma Mesbla, uma Sears. Onde era a Sears, hoje o prédio está adaptado, fizeram 8 andares, aquilo tudo ali era uma única loja. Imagina o tamanho que tinha. Tinha a Sloper, que fechou, não sei o que houve e surgiu o Shopping. As lojas de rua foram acabando, aquela loja tradicional do comerciante que passa para o seu filho, e que é o sustento da família. Por outro lado, não tinha o comércio que surgiu com a construção dos shoppings. Da minha época eu lembro da Mesbla, tinha Mesbla no Rio Sul, tinha Mesbla no centro da cidade, um prédio enorme de doze andares com teatro e restaurante. Fechou. Depois vieram as lojas de comércio popular, tipo C& A, a Renner, que é mais nova. Hoje você não tem mais grandes lojas. Tem ainda a Líder Magazine, que é uma cadeia regional, e pára por aí. Então alguma coisa mudou no padrão comercial do Brasil.
Shoppings
Os shoppings mudaram praticamente a estrutura do comércio de rua do Rio de Janeiro. Primeiro o Rio Sul, depois o Barra Shopping, depois o Fashion Malll, depois s Shopping na Zona Norte. Cinema de rua, se sobrou, foi um ou dois., porque os cinemas todos estão nos shoppings, que também passaram a absorver os teatros. O primeiro foi o Shopping da Gávea, que absorveu quatro teatros grandes. São mudanças no cenário da cidade.
Zona oeste
Se a gente pensar que a cidade era concentrada na zona norte, algumas atividades no centro e algumas na zona sul, sobra a zona oeste , que era uma área lá meio rural, meio agrária, com apenas algum comércio. Hoje em Campo Grande tem comércio, em Bangu tem. O sujeito não é mais obrigado a se deslocar de Bangú para o centro da cidade. Tem mercado, tem supermercado, os bairros foram tendo vida própria.
Rua da Alfândega
Na Rua da Alfândega foi uma transformação. Eu peguei a Rua da Alfândega com atacados de tecidos, lojas de roupa infantil e algumas lojas de bugigangas. O que acontece ali é que os filhos ou os descendentes dos fundadores, avós, pais, não quiseram continuar o negócio. Já estavam com idade e venderam para coreano, para chinês e aí mudou tudo. A Rua da Alfândega era um rua de árabes e judeus, hoje é uma rua de coreanos e chineses. Mudou todo o perfil daquela rua.
Representação comercial
O meu pai era representante comercial. Vendia para lojas e as elas vendiam para o público. Então, na década de 70, até 82, 83, tinha muitas cadeias de lojas grandes, que depois acabaram no Rio de Janeiro. Ele trabalhou com roupa masculina e com a linha infantil. Mas acabou a Esplanada, acabou a Quinta Avenida, a News Plan, a Tavares faliu. Na área de calçados, das lojas antigas sobraram muito poucas. Então quer dizer, era uma época que tinha 20,30 grandes lojas que absorviam a venda de 80 a 90% do trabalho dele. E ficavam aqueles clientezinhos pequenininhos que você atendia por consideração, por amizade. Meu pai hoje atende 10 ,15 amigos dele, clientes de velha data. E continua com roupa infantil, roupa masculina de vez em quando. As lojas infantis ficaram muito restritas à zona sul, às pequenas butiques, com preço muito alto.
Loja na Barra
Meu pai agora abriu uma loja lá na Barra, com a atual mulher dele, que ela fica no setor de vendas e no de organização de estoque. A mercadoria chegava, eu arrumava, expedia um ou dois vendedores pegavam a mala lá no escritório e iam vender. Eu separava a mercadoria para cada um, botava a tabela e de vez em quando atendia alguns clientes, quando o vendedor ou meu pai estavam ocupados. Então, eu fazia mais o trabalho interno, de escritório, de receber os pedidos, de ir ao banco fazer os pagamentos. Quando ninguém podia atender clientes, eu botava a minha roupa, pegava a mala e ia vender. A gente tem que se virar. Mas comparativamente, mudou tudo.
Mudanças gerais
O Rio sempre foi marcado por mudanças. Teve uma nos anos 20, no início do século, que foi a urbanização e a criação do porto ali na Rodrigues Alves onde surgiu o porto, a zona portuária. Depois mudou a cidade em 40, com a abertura da Avenida Presidente Vargas, que acabou com a ligação de pequenas ruas e pequenos bairros do centro. Depois veio a obra do Aterro do Flamengo, que acabou com o mar que batia na Avenida Beira Mar, fazendo outro eixo da cidade. Depois teve a Barra da Tijuca. A cidade está em constante mudança, sempre foi construída e destruída.
Projeto Memória
Eu achei bom, porque contei como foi a cidade do Rio de Janeiro no tempo da minha infância, da minha juventude. Aproveitei também alguns relatos de pessoas da geração que hoje está na 3ª Idade, e que me falaram como era a cidade. O Rio está se expandindo, daqui a pouco vai chegar em Mangaratiba, Sepetiba. Isso é uma coisa boa, pois se ficasse tudo centralizado, como era em 1940, seria muito pior. Hoje durante a semana o centro já é um sufoco, imagine se a cidade não tivesse crescido. Então achei que foi bom participar, vi a exposição, está muito bem feita. Os depoimentos das pessoas retratam bem como era a cidade na época delas e como foi a sua adaptação ao Rio ao Janeiro. E quero agradecer a vocês a chance que me deram. Muito obrigado.
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